

     A Cruz Ardente

     Cap1


              "V, Frank", pensei com severidade.
              Fora ainda estava escuro, mas a bruma que se elevava da terra mida era de uma cor cinza perolado; a alvorada se aproximava. Embora nada se movesse,
nem dentro nem fora, percebi um leve roar sobre minha pele.
              " Eu no deveria ir a suas bodas?"
              Ignorava se as palavras se formaram por si s em meus pensamentos ou se eram, elas e o beijo, mero produto de meu subconsciente. Tinha-me dormido pensando
nos preparativos do enlace, assim no era estranho que tivesse sonhado com bodas. E com noites de bodas.
              Alisei a musselina enrugada de minha camisa e supus que no era s o sonho o que avermelhava minha pele. No recordava nada concreto, s um confuso 
matagal de imagens e sensaes. Possivelmente fora o melhor.
              Girei sobre os ramos e me apertei a Jamie. Estava morno e cheirava gratamente a fumaa de lenha e a usque, com um leve ar de virilidade. Despertei 
muito devagar, arqueando as costas para lhe tocar o quadril com a plvis. Se estava muito sonolento ou desinteressado, o gesto seria o bastante leve para passar 
desapercebido. Se no...
              No. Sorriu fracamente, com os olhos ainda fechados, e uma de suas mos se deslizou lentamente por minhas costas, at posar-se em meu traseiro com 
um aperto firme.
      -Humm?-disse-. Hummm.
              Logo com um suspiro, voltou a relaxar-se no sonho, sem me soltar. Me aconcheguei contra ele, reconfortada. A proximidade fsica do Jamie bastava para 
apagar os sonhos persistentes. E Frank (se  que era ele) tinha razo at certo ponto. Estou segura de que, de que se fosse possvel Bree teria querido que seus 
dois pais assistissem a suas bodas.
              J estava completamente acordada, mas muito cmoda para me mover. Fora chovia; o ar, frio e mido, fazia mais atrativo o quente ninho de edredons que 
a distante perspectiva do caf quente. Sobre tudo porque, para obt-lo, teria que baixar ao arroio em busca de gua, acender a fogueira com a lenha mida, moer os 
gros em um morteiro de pedra e logo prepar-lo.
              Estremecida s de pens-lo, cobri-me com o edredom e reatei a lista mental das coisas necessrias com a que me tinha ficado encarregada.
              Comida, bebida... Felizmente no precisava me preocupar disso. Yocasta, a tia do Jamie, encarregaria-se de tudo; melhor dizendo, faria-o Ulises, seu 
mordomo negro.
              Ao menos Bree estrearia de vestido; isso tambm era presente da Yocasta. Seria de l de cor azul escura; a seda era muito cara e pouco prtica para 
quem vivia nos bosques. No se parecia em nada ao cetim branco e a flor-de-laranja com o que eu me tinha imaginado que se casaria algum dia; claro que a ningum 
lhe teria ocorrido umas bodas como esta no ano 1960.
              Perguntei-me que teria opinado Frank do marido da Brianna. Provavelmente lhe teria gostado; Roger, como ele, era historiador (ou ao menos o tinha sido). 
Estava dotado de inteligncia e senso de humor; era um msico de talento e um homem doce, totalmente dedicado a Brianna e ao pequeno Jemmy.
              O qual  admirvel, por certo -pensei em direo a bruma - dadas as circunstncias.                 
              " Admite-o, verdade?"  As palavras se formaram em meu interior, como se ele as tivesse pronunciado: irnicas, burlando-se de uma vez dele e de mim.
              Jamie franziu o sobrecenho e crispou os dedos contra minha ndega, emitindo pequenos bufidos em sonhos.
              " Voc sabe que fui - disse em silncio-.Sempre o admiti e sabe, de modo que no me chateie, quer?" 
              Dava as costas ao ar exterior e apoiei a cabea no ombro do Jamie, procurando refgio no contato com o tecido de sua camisa.
              Na realidade me dava a impresso de que Jamie no via tanto mrito como eu (ou como Frank, possivelmente) no fato de que Roger tivesse aceito ao Jemmy 
como filho prprio. Para ele era, simplesmente, um dever; nenhum homem honorvel poderia atuar de outra maneira. E parecia duvidar de que Roger fosse capaz de manter 
e proteger a uma famlia nos pramos da Carolina. Embora fosse alto, hbil e de boa compleio, para ele as coisas " de capa e espada"  eram letra de canes; para 
o Jamie, ferramentas de seu ofcio.
              Sbitamente notei presso da mo apoiada em meu traseiro, e me sobressaltei. 
      -Sassenach - disse Jamie, sonolento - est-te retorcendo como um girino no punho de um pirralho. Precisa ir a letrina?
      -Ah, est acordado - disse, me sentindo um pouco surpresa.
      -Agora sim.-Retirou a mo e se despertou com um grunhido; os ps descalos apareceram pelo outro extremo do edredom.
      -Desculpe, no quis te acordar.
      -OH, no se preocupe - tranqilizou -.Estava sonhando algo diablico. Acontece-me sempre que passo frio enquanto durmo. -Levantou a cabea e se olhou os ps, 
movendo os dedos com desgosto-. por que no me deitei com os meias trs-quartos?
      -Com o que sonhava?-perguntei, intranqila. Oxal no tivesse sonhado quo mesmo eu.
      -Com cavalos-respondeu, para meu alvio.
      Joguei-me a rir.
      -To diablico pode ter sido um sonho com cavalos?
      -Deus! Foi terrvel. - esfregou-se os olhos com os punhos. Logo sacudiu a cabea, como se tratasse de tirar o sonho da mente -.Tinha a ver com os reis irlandeses. 
Recorda o que contava Mackenzie ontem  noite, junto  fogueira?
      -Os reis ir...ah, sim! - A lembrana me fez rir outra vez.
              Roger, entusiasmado por seu recente compromisso, tinha obsequiado ao grupo reunido em torno da fogueira com canes, poemas e entretidas anedotas histricas; 
entre elas, os ritos com os que se dizia que os antigos irlandeses coroavam a seus reis. Um destes requeria que o candidato triunfador copulasse com uma gua branca 
ante a multido congregada, presumivelmente para demonstrar sua virilidade; em minha opinio, parecia mas bem uma prova do sangue frio do cavalheiro.
      -Eu estava a cargo do cavalo, e tudo saa mal -me informou Jamie - O homem era muito baixo e eu devia procurar algo onde pudesse subir. Encontrei uma rocha, 
mas no pude levant-la. Logo, um tamborete, mas lhe desprendeu uma pata. Por fim, disseram-me que no importava, que podiam lhe cortar as patas da gua. Eu tratava 
de impedi-lo, enquanto o homem que ia ser rei atirava de suas calas, queixando de que no podia desabotoar a braguilha. Nesse momento algum se fixou em que a gua 
era negra e disse que no servia.
              Sufoquei uma gargalhada para no despertar a ningum dos que dormiam perto.
      -Foi ento quando despertou?
      -No. Por algum motivo isso me ofendeu muito. Disse que sim que serviria, e que em realidade era muito melhor a gua negra, pois todo mundo sabe que os cavalos 
brancos so dbeis e que a descendncia seria cega. E eles que no, que no, que o negro traria m sorte. E eu, insistindo em que no era certo e...-Interrompeu-se 
com um pigarro.
      -E ento?
              Encolheu-se de ombros, me olhando de soslaio; um vago sufoco lhe subia pelo pescoo.
      -Pois nada, disse que serviria e que o demonstraria. E sujeitei  gua pela garupa, para impedir que seguisse movendo-se, e j estava preparado para...bem 
...para me converter em rei da Irlanda. E foi ento quando despertei.
      Os dois estalamos em gargalhadas.
      - OH! Agora sim que lamento haver despertado - me enxuguei os olhos com uma ponta do edredom -.No duvido que tenha sido uma dura perda para os irlandeses. 
Mas me pergunto o que pensariam as rainhas da Irlanda dessa cerimnia to especial - adicionei.
      -No acredito que as damas sassem absolutamente prejudicadas na comparao - me assegurou Jamie - Embora haja sabido de homens que preferem...
      - No me referia a isso, a no ser s conseqncias higinicas, compreende? Pr o carro antes que o cavalo  uma coisa, mas isso de antepor a gua  rainha...
      -A...ah, sim.- Sua cara avermelhou visivelmente -.Pode dizer o que quiser dos irlandeses, Sassenach, mas acredito que se lavam de vez em quando. E dadas as 
circunstncias,  possvel que o rei encontrar til um pouco de sabo em...
      -Em meia cabea de gado?-sugeri-. Seguro que no. Ao fim e ao cabo, o cavalo  bastante grande...
      -No  s questo de espao, Sassenach, mas tambm de disposio - observou ele, me lanando um olhar de recriminao-.E nessas circunstncias, compreenderia 
que o homem necessitasse um pouco de nimo. De qualquer forma - disse - No leu Horacio nem ao Aristteles?
      -No. Nem todo mundo pode ser to instrudo como voc. E nunca me interessou muito Aristteles, sabendo que, em sua classificao do mundo natural, situava 
s mulheres por debaixo dos vermes.
      -Seguro que no estava casado.-A mo do Jamie descendeu lentamente por minhas costas, apalpando os ns da coluna atravs da camisa-.Do contrrio, teria detectado 
os ossos.
              Com um sorriso, elevei uma mo at seu ma do rosto, que destacava sobre a avermelhada barba.
              Nesse momento vi que, fora, o cu se esclareceu  alvorada, e recordei por que se tirou os meias trs-quartos a noite anterior. Por desgraa, ambos 
estvamos to cansados pelas celebraes que ficamos dormidos no meio do abrao.
              Essa lembrana me resultou tranqilizador, pois explicava o estado de minha camisa e o sonho que tinha tido. Ao mesmo tempo me estremeci: Frank e Jamie 
eram homens muito diferentes, e no fundo eu no tinha nenhuma dvida sobre qual dos dois me tinha beijado justo antes de despertar.
      - me beije - disse sbitamente. Ele roou meus lbios com os seus, e sentiu saudades ao ver que eu o soltava. Logo sorriu.
      -De acordo, Sassenach. Mas antes terei que sair um momento.
      -Ser melhor que te d pressa-disse-.Est esclarecendo, e a gente se levantar logo.
              O assentiu com a cabea e saiu. Cavei-me o cabelo com os dedos e rodei sobre mim mesma em busca da garrafa de gua. Ao sentir o ar frio nas costas, 
olhei por cima de meu ombro; a aurora j estava ali e a bruma tinha desaparecido.
              Toquei o anel de ouro que levava na mo esquerda; tinha-o recuperado a noite anterior, e depois de sua larga ausncia ainda me era estranho. Possivelmente 
era esse anel o que tinha convocado ao Frank a meus sonhos. Possivelmente essa noite, durante as bodas, tocasse-o de novo com a esperana de que ele pudesse ver 
a felicidade de sua filha atravs de meus olhos. por agora, entretanto, Frank tinha desaparecido e isso me alegrava.
              Um som leve chegou flutuando no ar: o fugaz pranto de um beb ao despertar.
              Em outros tempos, eu tinha pensado que no devia haver mais de duas pessoas em um leito conjugal. Ainda acreditava. Entretanto, um beb era mais difcil 
de apagar que o espectro de um antiga amor, e o leito da Brianna e Roger devia forzosamente dar capacidade a trs.
              A cara do Jamie apareceu junto ao bordo da lona refletindo nervosismo e alarme.
      -Ser melhor que te vista, Claire-disse-. Os soldados se esto formando junto ao arroio. Onde esto minhas meias trs-quartos?
              Incorporei-me de um salto. Longe, ladeira abaixo, os tambores comearam a redobrar.  
      
      
      
      A fria nvoa se acumulava ao redor dos terrenos baixos; uma nuvem se posou sobre o monte Helicn, e o ar estava denso de umidade. Cruzei um lance de pastos 
duros, rumo ao lugar onde se congregou um destacamento do 67 regimento de escoceses; formados na borda, com os tambores rugientes e o gaiteiro da companhia tocando 
a pleno pulmo, pareciam impermeveis  chuva.
              Eu sentia muito frio e no pouco chateio. Ao me deitar esperava despertar com caf quente e um caf da manh nutritivo ao que seguiriam dois bodas, 
trs batismos, duas extraes de demola, a extirpao de uma unha infectada e outras entretidas formas de so contato social, dessas que requerem usque. Em lugar 
disso, depois de despertar de um sonho inquietante, me tinha conduzido a um jogo amoroso para logo me arrastar sob uma garoa fria in medeia maldita cabea de gado, 
ao parecer para que escutasse alguma proclama.
              Os escoceses do acampamento tinham demorado para levantar-se e baixavam a colina com passo vacilante; quando o gaiteiro emitiu a ltima rajada, o tenente 
Archibald Hayes deu um passo  frente.
              Seu nasal acento do Fife era bem audvel, e alm disso tinha o vento a favor. Ainda assim, acredito que quem estava algo mais acima podiam ouvir muito 
pouco. Ns, em troca, encontrvamo-nos ao p da costa, a escassos vinte metros do tenente; pese ao tagarelo de meus dentes, ouvi todas suas palavras.
      -" Por sua excelncia, o cavalheiro William Tryon, capito geral de sua majestade, governador e comandante em chefe, em e sobre esta provncia" -leu Hayes, 
levantando a voz at o uivo para impor-se aos rudos do vento e a gua, e aos murmrios premonitorios da multido-. " Considerando-tron, enquanto dirigia  multido 
um olhar fulminante-que recebi informao de que grande nmero de escandalosos e bagunceiros se reuniram na cidade do Hillsborough, em nos dias vinte e quatro e 
vinte e cinco do ms passado, durante a sesso da Corte Superior de Justia desse distrito, para opor-se s justas medidas de governo e em aberta violao das leis 
de seu pas, atacando ao juiz de sua majestade, e deste modo golpeando e hiriendo a vrias pessoas durante a sesso de dita corte, e manifestando outras indignidades 
e insultos ao governo de sua majestade, cometendo muito violentos atropelos contra as pessoas e propriedades dos habitantes de dita cidade, brindando pela condenao 
do legtimo soberano, o rei Jorge, e pelo xito do aspirante..." -Hayes fez uma pausa, tragou ar e continuou lendo-:" ...portanto, com o fim de que as pessoas envoltas 
em ditos atos escandalosos possam ser levadas ante a justia, com o assessoramento e consentimento do Conselho de sua majestade, pronuncio esta meu proclama, insistindo 
e comprometendo estritamente a todos os juizes de paz de sua majestade existentes neste governo para que executem diligentes investigaes quanto aos crmenes citados, 
e para que recebam as declaraes daquelas pessoas que se pressentem ante eles para proporcionar informao sobre o expresso; declaraes estas que me sero transmitidas, 
com o fim de ser apresentadas ante a assemblia geral em New Bern, o trigsimo dia do prximo ms de novembro, data at a qual permanecer prorrogada para o imediato 
despacho de assuntos pblicos." -Uma inalao final. A cara do Hayes estava purprea-." Sacado de meu punho e letra e com o grande selo da provncia em New Bern, 
nos dia dezoito de outubro, no dcimo ano do reinado de sua majestade, Anno Domini mil setecentos e setenta. Assinado William Tryon" -concluiu, com um ltimo bufido.
      -Fixaste-te?-comentei ao Jamie-, acredito que todo isso era uma s frase, menos o fechamento. Assombroso, inclusive para um poltico.
      -Cala, Sassenach-disse ele, com o olhar ainda fixa no Archie Hayes.
              detrs de mim a multido emitiu um rugido apagado, de interesse e consternao, com certo sotaque de diverso ante as frases referidas aos brinde desleais.
              Essa era uma congregao de escoceses, muitos deles exilados s colnias depois do levantamento do Estuardo; se Archie Hayes tivesse querido tomar 
nota oficial de quanto se dizia a noite anterior, enquanto as jarras de cerveja e usque passavam ao redor da fogueira... Claro que ento s tinha consigo quarenta 
soldados; quaisquer que fossem suas prprias opinies sobre o rei Jorge e a possvel condena do monarca, as reservou com toda prudncia.
              Convocados pelo bater dos tambores, uns quatrocentos escoceses das Terras Altas rodeavam o lugar eleito pelo Hayes para seu assentamento, no ribazo 
do arroio. Homens e mulheres se protegiam com seus trajes (as plaids e os arisaids) bem rodeados contra o vento que aumentava. A julgar pelas caras ptreas que se 
viam, eles tambm se reservavam sua opinio.
      -Toda pessoa que deseje fazer declaraes relativas a estes muito graves assuntos pode as confiar a meu atencin-anunciou o tenente-.Passarei o resto do dia 
em minha loja com meu secretrio. Deus salve ao Rei!
              Depois de entregar a proclama a seu cabo, saudou com uma inclinao  multido e girou com firmeza fazia uma grande loja de lona ereta perto de umas 
rvores; no mastro vizinho, ondulavam as bandeiras do regimento.
              Eu tremia; deslizei uma mo pela abertura do capote do Jamie e reconfortei meus dedos frios no calor de seu corpo. Jamie apertou o cotovelo contra 
seu flanco, reconhecendo a presena dessa emano geada, mas no me olhou; estava estudando as costas em retirada do Archie Hayes.
              O tenente era um homem compacto e slido, de pouca estatura mas de grande presencia; caminhava com firmeza, como se desdenhasse s pessoas reunida 
na ladeira. Ao desaparecer dentro de sua loja, deixou a lapela levantada se por acaso algum queria entrar.
              No era a primeira vez que, contra minha vontade, admirava o instinto poltico do governador Tryon. Era bvio que se estava lendo essa proclama em 
toda a colnia; e, embora poderia ter deixado que um oficial ou um magistrado local levasse a nossa congregao sua mensagem, tomou-se a molstia de enviar ao Hayes.
              Archibald Hayes tinha tomado o campo do Culloden ao lado de seu pai, quando s tinha doze anos. No combate foi ferido, capturado e enviado ao sul. 
Quando lhe ofereceu a possibilidade de escolher entre ser transladado ou incorporar-se ao exrcito, escolheu a mesnada do Rei e tirou o mximo partido para a situao. 
O fato de que tivesse chegado a oficial antes de fazer quarenta anos era testemunho suficiente de seu talento.
              Era to atrativo como competente; no dia anterior, convidado a compartilhar nossa comida e nosso fogo, tinha passado a metade da noite conversando 
com o Jamie...e a outra metade passeando de fogueira em fogueira, sob a tutela de meu marido, que o apresentou aos chefes de todas as famlias importantes que ali 
se encontravam.
              E de quem foi a idia?, perguntei-me, levantando a vista para o Jamie. Sua cara no deixava entrever o que pensava, e isso era sinal de que estava 
pensando algo bastante perigoso. Acaso sabia de antemo o dessa proclama?
              Nenhum oficial ingls, ao mando de tropas inglesas, teria podido levar semelhante noticia a uma reunio como a nossa e esperar a menor colaborao. 
Mas Hayes e seus escoceses, to leais, com suas saias de tartn...Alm disso, Hayes fazia levantar sua loja de costas a um denso pinar; se algum desejava falar 
em segredo com ele, podia aproximar-se atravs do bosque sem que ningum o visse.
              -Acaso Hayes espera que algum se alm da multido, corra a sua loja e se renda imediatamente?-murmurei ao Jamie. Entre os pressente, ao menos doze 
homens tinham participado dos distrbios do Hillsborough; trs deles estavam ali mesmo. Ao ver a direo de meu olhar, Jamie me indicou com um gesto silencioso que 
fora discreta.
              Hobson, MacLennan e Fowles, agrupados frente a ns, conversavam sobre voz baixa. Os trs provinham de um diminuto assentamento chamado Drunkard's Creek, 
a uns vinte e quatro quilmetros de nossa casa da Colina do Fraser. Hugh Fowles, genro do Joe Hobson, era muito jovem; no tinha mais de vinte anos, e embora tentava 
manter a compostura, sua cara estava plida.
              Eu ignorava o que pensava fazer Tryon com quem tivesse participado dos distrbios, mas percebi a inquietao criada pela mensagem do governador.
              No Hillsborough a gente tinha destrudo vrios edifcios; uns quantos funcionrios pblicos foram tirados rastros e atacados na rua. Segundo os rumores, 
um juiz de paz (irnico ttulo) tinha perdido um olho a conseqncia de um cruel golpe de ltego. O juiz Henderson tinha escapado por uma janela para fugir da cidade, 
o qual impediu que houvesse sesso na Corte. Era evidente que o governador estava muito irritado pelo acontecido.
              Joe Hobson olhou ao Jamie; logo apartou a vista. A presena do tenente ante nossa fogueira, a noite anterior, no tinha passado desapercebida.
              Se Jamie detectou esse olhar, no a devolveu, encolheu-se de ombros e inclinou a cabea fazia mim.
      -no acredito que Hayes espere que algum se entregue, no. Possivelmente esteja obrigado a pedir informao; graas a Deus, eu no estou obrigado a responder.
              No tinha falado em voz alta, mas sim o suficiente para chegar aos ouvidos do Joe Hobson, que girou a cabea e dedicou ao Jamie um gesto de irnico 
reconhecimento. Logo tocou a seu genro no brao, e ambos se afastaram para os acampamentos disseminados acima, onde as mulheres estavam atendendo as fogueiras e 
ocupando-se dos meninos.
              Era o ltimo dia da congregao; essa noite haveria bodas e batismos: a bno formal do amor e seus frutos, surtos dessa multido carente de igreja 
durante tudo no ano anterior. Depois se entoariam as ltimas canes e se danaria entre as chamas de muitas fogueiras. Ao chegar a manh, as famlias retornariam 
a seus lares, disseminados das ribeiras povoadas do rio Cape Fear at as montanhas silvestres do oeste, levando notcias da proclama e dos fatos do Hillsborough.
              Eu estava intranqila. Durante a semana da congregao se ouviu com freqncia alardear sobre os distrbios do Hillsborough, mas no todos os que o 
escutaram estavam dispostos a considerar heris aos bagunceiros.
              Senti o murmrio de conversaes que estalavam atrs da proclama: as famlias se agrupavam e alguns homens foram de grupo em grupo, transmitindo o 
discurso do Hayes colina acima, repetindo-o a quem no o tinha ouvido por estar longe.
      -Vamos? H muito que fazer antes das bodas.
      -Sim?-Jamie me jogou uma olhada- Eu acreditava que os escravos da Yocasta se encarregariam de tudo. Entreguei os tonis de usque ao Ulises, que ser o soghan.
      -Ulises? trouxe sua peruca?- A idia me fez sorrir. O soghan era o homem que se encarregava de servir a bebida e o refrigrio nas bodas das Terras Altas escocesas; 
em realidade, a palavra significava algo assim como " homem alegre e cordial" . Ulises era possivelmente a pessoa mais digna que eu tivesse visto jamais, at sem 
seu librea e sua peruca de crina empoeirada.
      -Se a trouxe, de noite a ter pega na cabea.-Jamie levantou a vista para o cu encapotado-.Ditosa a noiva sobre a que brilha o sol-citou-.Ditoso o cadver 
sobre o que cai a chuva.
      -Isso  o que eu gosto dos escoceses-coment secamente-.Tm um provrbio adequado para cada ocasio. No te atreva a dizer isso diante do Bree.
      -Por quem toma, Sassenach?-acusou-me com um sorriso-. minha filha, no?
      -Por supuesto-reprimindo o sbito recordo do outro pai da Brianna, olhei por cima do ombro para comprovar que ela no estivesse ao alcance de minha voz.
              No havia sinais de seu flamgera cabea. Digna filha de seu pai, descala media um metro oitenta; distingui-la em meio de uma multido era quase to 
fcil como detectar ao Jamie.
      -De qualquer modo, no  o banquete de bodas o que preocupa-dije a meu marido-.Devo me ocupar do caf da manh e logo atender o consultrio matutino com a 
Murria Macleod.
      -No disse que Murria era um enganador?
      -Disse que era ignorante, teimoso e uma ameaa para a sade pblica-correg-. No  o mesmo...exatamente.
      -Exactamente-corroborou Jamie, sonriendo-. E o que pensa fazer, educ-lo...ou envenen-lo?
      -O que resulte mais efetivo. Se ao menos pudesse lhe pisar acidentalmente a lanceta e romper-lhe ao menos no aplicaria sangras. Vamos, que me estou congelando.
      -Sim, ele vejamos-asinti, e jogou uma olhada aos soldados, ainda formados com o passar do arroio-.Parece que o pequeno Archie pensa manter a seus moos ali 
at que a multido se retirou. esto-se pondo azuis.
              em que pese a estar armados e com o uniforme completo, a fila de escoceses permanecia tranqila; sem dvida eram imponentes, mas j no pareciam ameaadores. 
Uns meninos brincavam de correr entre eles, atirando com descaramento do bordo das saias ou aproximando-se para tocar os mosquetes, os cantis e os punhos de adagas 
e espadas.
      -Abel, a charaid!-Jamie se tinha detido para saudar o ltimo dos homens do Drunkard's Creek-.J tomaste o caf da manh?
              MacLennan tinha ido  congregao sem sua mulher; por isso comia onde a sorte o levasse. Embora a multido se estava dispersando, ele se mantinha impassvel 
em seu stio. " Provavelmente espera que o convidem a tomar o caf da manh" , pensei com cinismo.
              Observei sua corpulenta silhueta e calculei mentalmente seu possvel consumo de ovos, parritch e po torrado, comparando-o com as minguantes provises 
de nossa cesta. A escassez de mantimentos no impediria a nenhum escocs oferecer sua hospitalidade, e muito menos ao Jamie, que estava convidando ao MacLennan a 
tomar o caf da manh conosco, enquanto que eu dividia mentalmente dezoito ovos entre nove pessoas em vez de oito. No trajeto montanha acima, teramos que pedir 
emprestado mais caf no acampamento da Yocasta.
              Quando amos retirar nos, Jamie deslizou a mo por meu traseiro. Ante minha exclamao, Abel MacLennan se voltou a me olhar, boquiaberto, e eu lhe 
sorri, resistindo o impulso de lhe dar um chute a meu marido; ento nos deu as costas e subiu apressadamente a costa. Jamie me agarrou do cotovelo para me ajudar 
a passar entre as pedras, enquanto se agachava fazia meu ouvido, murmurando:
      -por que diabos no te puseste anguas, Sassenach? No leva absolutamente nada debaixo da saia. vais morrer de frio!
      -Nisso no te equivoca, tremendo a pesar do capote. Em realidade levava uma camisa de linho sob o vestido, mas era um objeto pouco adequado para o inverno.
      -Ontem levava uma angua de l. O que foi que ela?
      -No acredito que queira sab-lo.
              Jamie arqueou as sobrancelhas, mas antes de que pudesse fazer outra pergunta ressonou um grito detrs de ns.
      -Germain!
              Germain, de dois anos, tinha aproveitado que Marsali, sua me, estava ocupada com sua irm recm-nascida para escapar de sua custdia e corre para 
os soldados. Evitando a captura, lanou-se de cabea custa abaixo. Ia cobrando velocidade como uma pedra lhe rodem.
      -Fergus!-uivou Marsali.
              Para ouvir seu nome, o pai do Germain interrompeu sua conversao bem a tempo para ver que seu filho tropeava com uma pedra e caa de bruces. O menino 
era um acrobata nato; no fez nada por salvar-se, mas sim se deixou cair com graa e se enroscou formando uma bola, como um puercoespn. Passou por entre as filas 
de soldados como uma bala de canho e se afundou no arroio com um chapinho.
              Vrias pessoas correram colina abaixo para ajudar, mas um dos soldados j estava junto ao ribazo. Ali se ajoelhou para cravar a ponta da baioneta na 
roupa flutuante do menino e rebocou o vulto empapado para a borda.
              Fergus se meteu na gua geada e pouco profunda, estirando-se para agarrar a seu lhe jorrem filho.
      -Merci, mon ami, mille merci beaucoup-disse ao jovem soldado-.Et toi, toto-adicionou, sacudindo a sua vergntea, que cuspia-. Comment a vai, pequeno cabea 
oca?
              O soldado parecia surpreso, mas no soube se era pela maneira de falar do Fergus ou pelo gancho de ferro que ocupava o lugar da mo esquerda.        
      -Tudo est bem, senhor-disse, com um sorriso tmido-.Acredito que no se feito mal.
              Brianna saiu de detrs de um castanho, com o Jemmy, de seis meses, apoiado em seu ombro, e agarrou  pequena Joan de braos do Marsali.
      -me d ao Joanie-disse-.Voc te ocupe do Germain.
              Jamie se tirou o pesado capote dos ombros para tender-lhe ao Marsali.
      -Sim, e lhe diga ao soldado que o resgatou que deva compartilhar nossa fogueira-lhe disse-. Podemos alimentar a outro, Sassenach?
      -Por supuesto-respondi, refazendo velozmente meus clculos mentais. Dezoito ovos, quatro fogaas de po duro para torrar (no, devia reservar uma para a viagem 
de volta a casa, ao dia seguinte), trs dzias de omeletes de advenha-si  que Jamie e Roger no as tinham comido j-, meio frasco de mel...
              Marsali desapareceu, correndo em auxlio aos homens de sua famlia, que estavam empapados e tiritando. Jamie a seguiu com a vista e deixou escapar 
um suspiro de resignao, enquanto o vento inflava as mangas de sua camisa. Logo me sorriu de soslaio.
      -Suponho que nos congelaremos juntos, Sassenach. Mas no importa. De qualquer modo no quereria viver sem ti.
      -Vamos, Jamie Fraser!-disse amigavelmente-.Mas se voc for capaz de viver nu em um tmpano de gelo e derret-lo! O que tem feito de sua jaqueta e seu plaid?
      -No pergunte, muito sorridente, enquanto me cobria a mo com uma palma grande e calejada-.Vamos. Estou esfomeado e quero tomar o caf da manh.
      -Espera-dije, me apartando.
              Jemmy, nada disposto a compartilhar os braos de sua me com a recm legada, chiava. Alarguei os braos para agarr-lo.
      -Obrigado, mame.-Brianna sorriu-.Mas est segura de que prefere a esse? A menina  mais tranqila...e pesa a metade.
      -No, est bem. Cala, tesouro, vem com seu abuelita.
              Jemmy, ao me reconhecer, abandonou seu escarcu para agarrar-se por meu cabelo com os punhos gordinhos. Desenredei seus dedos para olhar por cima de 
sua cabea, mas l abaixo parecia estar tudo sob controle.
              Fergus, com as calas e os meias trs-quartos jorrando de gua, envolto-se os ombros com o capote do Jamie e estava espremendo o peitilho da camisa 
com uma s mo, enquanto dizia algo ao soldado que tinha resgatado ao Germain. Marsali se tinha tirado o arisaid para envolver ao pequeno, e seus cabelos loiros 
voavam por debaixo do leno.
              O tenente Hayes, atrado pelo bulcio, espiou da abertura de sua loja. Ao levantar os olhos se encontrou com meus; depois de agitar a mo em uma breve 
saudao, segui a minha famlia para nosso acampamento.
              Jamie disse a Brianna algo em galico, enquanto a ajudava a cruzar um lance pedregoso do atalho, diante de mim.
      -Sim, estou preparada-respondi ela, em nosso idioma-.Onde est sua jaqueta, papai?
      -A emprestei a seu marido-disse ele-.No convm que se presente a suas bodas com aspecto de mendigo, verdade?
              Bree se ps-se a rir.
      -Antes mendigo que suicida fracassado.
      -Como h dito?-Pu-me  altura deles no momento em que saamos do amparo das rochas. Estirei a boina de ponto do Jemmy para lhe cobrir mais as orelhas e logo 
lhe tampei a cabea com a manta.
      -Uf!-Brianna encurvou os ombros para o beb que tinha em braos, protegendo o das rajadas de vento.
      -Quando comeou o rufo de tambores, Roger se estava barbeando, esteve a ponto de cortar o pescoo-lhe explicou Jamie-.O peitilho de sua jaqueta se manchou 
de sangue.
              Bree olhou a seu pai, com os olhos lagrimeantes pelo vento.
      -De maneira que o viu esta manh. Sabe onde est agora?
      -So e salvo-le assegurou ele-.Disse-lhe que fora a falar com o pai Donahue enquanto Hayes nos lia o seu.-Olhou-a com aspereza-.Poderia me haver dito que o 
menino no era catlico.
      -Poderia-disse ela, sem perturbar-se-.Mas no quis. No me preocupa.
      -Se com essa peculiar expresso quer dizer que no tem importncia...-comeou a dizer Jamie secamente.
              Mas o interrompeu a chegada do Roger, resplandecente com a saia de tartn verde e branco dos Mackenzie, e a manta escocesa do mesmo tecido sobre a 
jaqueta e o colete do Jamie.
      -Fica muito bem, Roger-comentei-.Onde te cortaste?- Sua cara tinha em tom rosado tpico da pele recm barbeada, mas no havia marcas  vista.
              Roger entregou o pacote de tartn vermelho e negro que trazia sob o brao: sua manta escocesa. Logo inclinou a cabea a um lado para me mostrar em 
talho profundo debaixo da mandbula.
      -Justo a. Nave foi nada, mas sangrou como o demnio.
              A ferida j tinha uma ntida linha escura de crosta, de sete ou oito centmetros; cruzava o pescoo por um lado, do ngulo da mandbula. Toquei a pele 
circundante; no estava mau: o fio tinha penetrado limpamente. No sentiu saudades que tivesse sangrado tanto; verdadeiramente dava a impresso de que tinha tratado 
de cortar o pescoo.
      -Algo nervoso, esta manh?-brinquei-.Acaso te est arrependendo?
      - um pouco tarde para isso-disse secamente Brianna, aproximando-se de mim-.Ao fim e ao cabo, tem um pirralho que necessita sobrenome.
      -Ter tantos sobrenomes que no saber o que fazer com isso-le assegurou Roger-.E tambm voc...senhora Mackenzie.
              O nome acendeu um pequeno rubor na cara da Brianna, que lhe sorriu. Ele se inclinou para beij-la na frente e, ao mesmo tempo, agarrou o beb agasalhado. 
Ao sentir o peso do vulto, olhou-o, estupefato.
      -No  o nuestro-explicou Bree, muito sorridente-. Joan, a do Marsali. Jemmy est com mame.
      -Graas a Deus-disse ele, sustentando-o com mais cuidado-.Pensei que se evaporou ou algo assim.
      -De evaporar-se nada-gru, enquanto acomodava melhor ao Jemmy em seu clida manta-. Acredito que engordou um quilograma enquanto subamos a costa.
              Acalorada pelo esforo, apartei um pouco ao beb de meu corpo. Jamie se fez cargo dele e o colocou sob um brao, como se fora uma bola de futebol, 
lhe sustentando a cabea com uma mo.
      -me diga, falaste com o sacerdote?-perguntou, olhando ao Roger com ar ctico.
      -Fui-confirm este secamente, respondendo tanto ao olhar como  pergunta-.pde comprovar que no sou o Anticristo. Enquanto esteja disposto a que o menino 
receba o batismo catlico, no h oposio  bodas. Hei dito que estou disposto.
              Jamie grunhiu a maneira de resposta, enquanto eu reprimia um sorriso. Embora ele no tinha prejuzos religiosos, o descobrimento de que seu genro era 
presbiteriano, sem intenes de converter-se, tinha provocado algum comentrio.
              Bree me buscou o olhar para me dedicar um sorriso de soslaio.
      -foste muito prudente ao no mencionar a religio antes de tiempo-sussurrei, cuidando de que Jamie no pudesse me ouvir.
      -Roger queria dizer algo, mas lhe pedi que guardasse silncio. Sabia que se espervamos at um momento antes das bodas, papai no armaria uma stramash.
              Reparei a um tempo em sua ardilosa avaliao da conduta paterna e seu desenvolvido uso do escocs. Seu parecido com o Jamie ia muito alm da aparncia 
externa; tinham o mesmo talento para apreciar s pessoas e a mesma facilidade para a linguagem. Mesmo assim, algo me rondava pela cabea, um pouco relacionado com 
o Roger e a religio...
              Tnhamo-nos aproximado dos homens o suficiente para ouvir sua conversao.
      -...com respeito a Hillsborough-dizia Jamie, inclinando-se para o Roger para fazer-se ouvir pesar do vento-.Queria informao sobre os bagunceiros.
      -Ah, sim?-O jovem parecia a um tempo interessado e cauteloso-.Ao Duncan Innes gostar de ouvir isso. Ele esteve no Hillsborough durante os distrbios, sabia?
      -No.-Jamie ps muita ateno-.Esta semana logo que vi ao Duncan. Pode que o pergunte depois das bodas...se sair vivo desta.
              Essa noite Duncan se casaria com a Yocasta Cameron, a tia do Jamie, e a perspectiva o punha nervoso.
              Roger se voltou para falar com a Brianna, protegendo ao Joan do vento com seu corpo.
      -Sua tia h dito ao pai Donahue que pode celebrar as bodas em sua loja. Isso ser uma ajuda.
      -Brrrr!- Bree encurvou os ombros, estremecida-.Graas a Deus. No  o melhor dia para casar-se sob as rvores.
              Roger parecia algo intranqilo.
      -No acredito que seja as bodas que imaginava quando foi pequena-dijo.
              Brianna levantou a vista para ele; um sorriso lento e largo se estendeu por sua cara.
      -A primeira, tampouco-lhe respondeu-.Mas eu gostei.
              Roger abriu a boca para replicar, mas ao surpreender o olhar de advertncia do Jamie voltou a fech-la. Parecia sobressaltado, mas inegavelmente agradado.
      -Senhor Fraser!
              Um dos soldados ascendia a colina para ns, com os olhos fixos no Jamie.
      -Cabo MacNair, a seu servio, senhor-disse ao chegar, respirando ruidosamente. Saudou com uma seca inclinao de cabea-. Com os cumpridos do tenente, voc 
teria a bondade de visit-lo em sua loja?-  lombriga voltou a inclinar-se, esta vez menos abruptamente-. Meus completo, senhora Fraser.
      -A seu servio, senhor.-Jamie respondeu  reverncia do cabo-.Transmita minhas desculpas  tenente, mas tenho obrigaes que requerem minha presena em outro 
stio.
              Falava em tom corts, mas o cabo o olhou com dureza. Embora jovem, no era novato; uma rpida expresso de entendimento cruzou sua cara. Ningum quereria 
deixar-se ver entrando sozinho na loja do Hayes, imediatamente depois dessa proclama.
      -O tenente me ordenou requerer tambm a assistncia dos senhores Farquard Campbell, Andrew ManNeill, Gerald Forbes, Duncan Innes e Randall Lillywhite, alm 
da sua, senhor.
      -Sim?-comentou secamente.
              Assim Hayes queria consultar aos homens poderosos da zona. Farquard Campbell e Andrew MacNeill eram grandes latifundirios e magistrados locais; Gerald 
Forbes, juiz de paz e eminente procurador do Cross Creek; Lillywhite, magistrado do distrito. E Duncan Innes estava a ponto de converter-se em proprietrio da plantao 
maior da metade ocidental da colnia, em virtude de suas iminentes bodas com a tia do Jamie. Meu marido, por sua parte, no era rico funcionrio da Coroa, mas possua 
uma grande cocesin de terras em territrio selvagem, embora a maior parte estivesse ainda parada.
      -Ah, ento bem. Diga  tenente que o visitarei logo que seja conveniente.
              Absolutamente intimidado, MavNair fez uma reverncia e se afastou, presumivelmente em busca dos outros cavalheiros de sua lista.
      -A que vem isto?- perguntei ao Jamie-.Uy!- levantei a mo para enxugar no queixo de meu neto um hilillo de baba, antes de que chegasse  camisa do Jamie-.De 
maneira que te est saindo um dente, n?
      -Tenho dentes de sobre-me assegurou meu marido-.E voc tambm, por isso vejo. Quanto a que quer Hayes de mim, no sei. E no tenho inteno de averigu-lo 
antes do necessrio.
              Olhou-me arqueando uma sobrancelha e eu pus-se a rir.
      -Ah, com que isso de " conveniente"  tem certa flexibilidade, no?
      -No disse " conveniente para ele" -assinalou Jamie-.Agora bem, com respeito a sua angua, Sassenach, e por que anda brincando de correr pelo bosque com o 
traseiro nu... Duncan, a charaid!
              A expresso irnica de seu rosto se fundiu em autntico prazer ao ver o Duncan Innes, que vinha para ns atravessando um bosquecillo de cornejos.
              Duncan que j ia vestido para as bodas, passou com dificuldade sobre um tronco cansado devido  falta do brao esquerdo, e saiu ao atalho onde estvamos. 
Nunca o tinha visto to elegante, e assim o disse.
      -OH, bom-reps, sobressaltado-. o que desejava a senhorita Eu.
              Logo se encolheu de ombros, para descartar a um tempo o completo e a chuva, enquanto se sacudia a pinaza e os trocitos de casca que lhe tinham aderido 
 jaqueta ao passar entre os pinheiros.
      -Brrr! Um dia espantoso, MAC Dubh, no te engane.-Levantou a vista ao cu movendo a cabea-.Ditosa a noiva sobre a que brilha o sol; ditoso o cadver sobre 
o que cai a chuva.
      -Em realidade, no sei at que ponto se pode esperar que um cadver seja feliz-comentei-, quaisquer sejam as condies meteorolgicas. Mas estou segura de 
que Yocasta ser feliz, a pesar do dia.-Ao ver sua expresso de desconcerto, apressei-me a acrescentar-: E tambm voc,  obvio!
      -OH...fui-murmur, algo inseguro-.Sim, certamente. O agradeo, senhora.
      -Quando te vi vir atravs do bosque, pensei que teria ao cabo MacNair te pisando os tales-observ Jamie-.No vais visitar o Archie Hayes, verdade?
              Duncan pareceu sobressaltar-se.
      -Ao Hayes? No. Para que me quereria o tenente?
      -em setembro esteve no Hillsborough, no? Oua, Sassenach, te leve a este pequeno esquilo.
              Jamie se interrompeu para me entregar ao Jemmy, que tentava subir pelo torso de seu av, embora o motivo principal pelo que meu marido se liberava 
da carga o descobri ao receber ao menino.
      -Muitssimas graas-dije, enrugando o nariz. Jamie me sorriu de brinca a orelha e ps-se a andar com o Duncan caminho acima. Eu farejei cautelosamente-.Hum...j 
terminaste? No, acredito que no.
              Jemmy fechou os olhos, ficou muito vermelho e emitiu um rudo lhe estalem, como o de uma metralhadora com surdina. Afrouxei seus envoltrios apenas 
o suficiente para lhe jogar uma olhada.
      -Uf!-exclamei, ao retirar a manta. Bem a tempo-. Com o que te alimenta sua me?
              Encantado ao ver-se livre de suas ataduras, Jemmy agitou as pernas como sinais de multiplicao de moinho, com o uma desagradvel substncia amarelada 
emanou pelas pernas das calas abolsadas do fralda.
      -Puaj!-exclamei sucintamente.
              E carregando ao menino com os braos estirados, afastei-me do atalho para um pequeno regato que serpenteava pela ladeira. Encontrei um bom stio  
borda, com uma grosa capa de folhas quedas. Ali me ajoelhei e, estendendo uma dobra de minha capa, coloquei em cima ao Jemmy, a quatro patas; logo lhe tirei o fralda 
sujo sem me incomodar em desaboto-lo.
      -Uy!-exclamou ele, surpreso pelo contato do ar frio, e apertou as ndegas gordezuelas.
      -Ja!-disse-lhe-.Se te assustar um pouco de ar frio no traseiro, espera e ver.
              Com um punhado de folhas molhadas o limpei energicamente. O menino foi bastante estico; retorceu-se, mas sem chiar. Em troca se queixou quando pincei 
por suas retiradas. Tendi-o rapidamente de costas e, com uma mo sobre a zona perigosa, apliquei um tratamento similar a suas partes ntimas. Isso provocou um enorme 
sorriso.
      -Ah, de maneira que  todo um escocs das Terras Altas, n?-comentei, lhe devolvendo o sorriso.
      -E o que quer dizer com isso?
              Ao levantar a vista, descobri ao Jamie apoiado em uma rvore, ao outro lado do regato.
      -Ao parecer,  insensvel ao frio e a humedad-expliquei, arrojando o ltimo punhado de folhas sujas-.Por outra parte...bom, no tive muito trato com bebs 
vares, mas isto  bastante precoce?
              Jamie sorriu ante a viso que se revelava sob minha mo. O diminuto apndice aparecia to erguido como meu polegar e aproximadamente do mesmo tamanho.
      -Ah, no-explicou-.Vi a muitos pequenos em couros. Todos fazem isso de vez em quando.-E se encolheu de ombros, alargando o sorriso-.agora bem, no sei se ocorrer 
s com os pequenos escoceses.
      -Habilidade que melhora com os anos, atreveria-me a decir-conclu secamente. Arrojei o fralda sujo ao outro lado do regato, onde caiu a seus ps, com um rudo 
de chapinho-qutale os alfinetes de segurana e enxgua isso, quer?
              Enrugou um pouco o nariz, mas se ajoelhou ao momento. Logo levantou cautelosamente com dois dedos aquela coisa repugnante.
      -Ah, de maneira que isto era o que tinha feito com suas anguas-coment.
              Eu tinha aberto o bolso que me pendurava da cintura para tirar um retngulo de tecido limpa, j dobrado. No era o tipo de fralda que ele sustentava, 
a no ser uma flanela suave, grosa, muito lavada e tinta de vermelho claro com suco de bagos.
              Encolhi-me de ombros. depois de revisa ao Jemmy, se por acaso houvesse novas exploses, coloquei-o em cima do fralda limpo.
      -Com trs bebs de fraldas e um clima to mido, nada se seca. Estamos escassos de trapos limpos.
              Ao redor do claro onde tnhamos acampado, os arbustos estavam festoneados de penetrada que ondulava, quase toda ainda molhada graas a essa chuva inoportuna.
      -Toma.
              Jamie se estirou por cima do regato e me entregou os alfinetes de segurana tirados do fralda sujo. Agarrei-os com cuidado para que no cassem no 
arroio. Tinha os dedos rgidos e gelados, mas os alfinetes de segurana eram valiosos; Bree os tinha feito com arame quente, enquanto Roger esculpia em madeira os 
capuzes do extremo, guiando-se pelos desenhos de minha filha.
              Preguei o fralda em volto da virilha do Jemmy e atravessei o tecido com um alfinete, sonriendo ao ver a cabea de madeira. Bree tinha esculpido em 
um jogo uma pequena e cmica r, com um largo sorriso sem dentes.
      -Vai, ranita, j est preparado.-Sentei-me com o menino em meu regao e o envolvi de novo em sua manta-.Aonde foi Duncan? A ver a tenente?
              Jamie sacudiu a cabea, agachado e pendente de sua tarefa.
      -Hei-lhe dito que ainda no fora.  certo que esteve no Hillsborough durante aqueles distrbios.  melhor que espere um pouco, desse modo, se Hayes perguntar, 
ele poder jurar que nenhum dos homens pressente aqui participou do alvoroo. Quando cair a noite no haver j nenhum.
              Observei suas mos, grandes e hbeis, que escorriam o fralda enxaguado. Normalmente as cicatrizes de sua mo direita eram quase invisveis, mas nesse 
momento se destacavam em trincadas linhas brancas contra a pele avermelhada pelo frio. Todo aquilo me inquietava um pouco, embora parecia no ter nenhuma vinculao 
direta conosco.
              Em geral, no experimentava mais que um leve nervosismo quando pensava no governador Tryon; ao fim e ao cabo, ele estava comodamente refugiado em seu 
novo palcio de New Bern, separado de nosso pequeno assentamento da Colina do Fraser por quatrocentos e oitenta quilmetros de cidades costeiras, plantaes, pinares, 
montanhas sem caminhos e um pramo lhe uivem. Com tantos motivos como tinha para preocupar-se, como os autotitulados " reguladores" -que tinham aterrorizado Hillsborough, 
e aos delegados e juizes corruptos que provocassem esse terror-, dificilmente teria tempo para pensar em ns, ou ao menos isso esperava.
              Mas seguia em p o incmodo feito de que Jamie fora titular de uma grande concesso de terras nas montanhas da Carolina do Norte, como um presente 
do Tryon...e o governador, a sua vez, tinha no bolso do colete um dado pequeno, mas importante: que Jamie era catlico. E as outorgas de terras por conta do Rei 
s se podiam fazer em benefcio de protestantes.
              Dado o insignificante nmero de catlicos da colnia, a religio estranha vez era um problema. No havia Iglesias nem sacerdotes catlicos residentes; 
o pai Donahue fazia a viagem de Baltimore, a pedido da Yocasta. A tia do Jamie e seu defunto algemo, Hctor Cameron, tinham influncia na comunidade escocesa local 
desde fazia tanto tempo que a ningum lhe teria ocorrido pr em tecido de julgamento sua religio. Poucos escoceses sabiam que fomos papistas; entretanto, era provvel 
que se inteirassem muito em breve. Essa noite, o sacerdote casaria ao Bree e ao Roger, que viviam juntos desde fazia um ano, assim como a outras dois casais catlicos 
do Bremerton...e tambm a Yocasta e Duncan Innes.
      -Archie Hayes  catlico?-disse sbitamente.
              Jamie pendurou o fralda mido de um ramo prximo.
      -No o perguntei-, mas acredito que no. Quer dizer, seu pai no o era. Surpreenderia-me  que o fora ele, mais ainda sendo oficial.
      -Certo.-No obstante, no era pelo tenente Hayes e seus homens pelo que eu estava preocupada, mas sim pelo Jamie. Exteriormente lhe via to sereno e seguro 
de si mesmo como de costume, mas eu o conhecia muito bem; a noite anterior, enquanto intercambiava piadas e contos com o Hayes, eu tinha notado que os dois dedos 
rgidos de sua mo direita (mutilados em uma priso inglesa) contraam-se contra sua perna. Nesse instante, via a fina ruga que se formava entre suas sobrancelhas 
quando estava aflito.
      -...presbiteriano-estava dizendo. Olhou-me com um sorriso irnico-.Como o pequeno Roger.
              de repente ca na quanta d o que era o que me tinha estado importunando na cabea.
      -Sabia- assinalei-.Sabia que Roger no era catlico. Viu como batizava a essa criatura do Snaketown, quando...o tiramos aos ndios.
              Muito tarde vi cruzar uma sombra por sua cara e me mordi a lngua. Ao lhes tirar ao Roger, tnhamos deixado em seu stio ao Ian, o sobrinho a quem 
Jamie tanto queria. A sombra durou um momento, mas sorriu, apartando a lembrana do Ian.
      -Sabia, fui-dijo.
      -Mas Bree...
      -teria se casado com o moo embora fora hotentote-me interrompeu-. E se houver se ser franco, no poria muitas objees incluso se Roger fora hotentote-adicionou, 
para minha surpresa.
      -Seriamente?
              Jamie cruzou o arroio para a borda onde eu me encontrava, secando-as mos com o extremo de sua manta.
      - reto e bom. aceitou ao menino como filho dele, sem dizer uma palavra do assunto  moa.  o menos que deve fazer um homem, mas no qualquer o faz.
              Involuntariamente, olhei ao Jemmy. Eu mesma tratava de no pensar nisso, mas de vez em quando no podia deixar de analisar suas faces, procurando 
alguma pista que identificasse a seu verdadeiro pai.
              depois de unir-se ao Roger e passar uma s noite com ele, Brianna tinha sido violada pelo Stephen Bonnet dois dias depois. No havia modo de saber 
com certeza quem era o pai, e por agora Jemmy no se parecia absolutamente a nenhum dos dois. Nesse momento, mordiscava-se o punho com cara de concentrao; com 
seu suave penugem rojo-dourado, no se parecia com ningum tanto como ao prprio Jamie.
      -Hum...E por que tanta insistncia em que o sacerdote o passasse?
      -De todas formas, casaro-dijo-se ele, com lgica-.Mas quero que o pequeno receba o batismo catlico.-Ps uma manaza na cabea do Jemmy, alisando com o polegar 
as diminutas sobrancelhas ruivas-.Me ocorreu que, eu alvoroava um pouco pelo Mackenzie, aceitariam com gosto de an gille ruadh aqui, no?
      Rendo, cobri com uma dobra da manta os ouvidos do Jemmy.
      -E eu, to convencida de que Brianna tinha descoberto como !
      -E  certo-disse ele muito sorridente.
              de repente se inclinou para me beijar. Sua boca era suave e muito clida. Tinha sabor de po com manteiga; seu corpo despedia um forte aroma de homem 
e a folhas frescas, com um leve eflvio de fraldas.
      -Humm, que agradvel!-disse com aprovao-.Faz-o de novo.
              Ao redor do bosque todo estava em silncio; no se ouviam pssaros nem bestas, s o sussurro da folhagem e o murmrio da gua sob nossos ps. Movimento 
constante, som constante...e no centro de tudo, uma paz perfeita. Embora havia muita gente na montanha, nesse lugar, nesse momento, era como estar sozinhos no Jpiter.
              Abri os olhos com um suspiro, percebendo um sabor a mel. Jamie, sonriendo, tirou-me uma folha amarela do cabelo. O beb era um peso quente em meus 
braos, o centro do universo.
              Nenhum dos dois falou, por no perturbar a quietude.
              Estirei-me para lhe sacudir do ombro umas quantas sementes de arce. Ele me agarrou a mo e a levou a boca, com uma ferocidade sbita que me sobressaltou. 
Entretanto, seus lbios eram tenros, quente a ponta de sua lngua contra o montculo carnudo na base do polegar; monte de Vnus, chamam-no: a sede do amor.
              Quando levantou a cabea, senti o frio repentino em minha mo, ali onde se via a antiga cicatriz, branca como um osso. Uma letra J atalho na pele. 
Sua marca sobre mim.
              Apoiou a mo contra minha cara e eu a cobri com a minha, como se pudesse sentir, contra minha fria bochecha, descolorida-a C que ele tinha em sua palma. 
Embora no dissemos nada, o voto parecia, tal como o fizemos em outros tempos, em um lugar sagrado, com os ps em uma parte de rocha viva em meio das areias movedias 
que eram as ameaas de guerra.
              O frio passou; o sangue quente palpitava em minha mo para abrir aquela antiga cicatriz e verter-se novamente por ele. Chegaria sem que eu pudesse 
det-la.
              Mas esta vez no o abandonaria.
      
      
      
              Sa de entre as rvores seguindo ao Jamie, quem, no trajeto para nosso acampamento, comunicou-me que tinha convidado a outras duas famlias a compartilhar 
conosco o caf da manh. De novo, eu fazia clculos mentais para que me chegasse com o que tinha.
      -Robin McGillivray e Geordie Chisholm-disse, apartando um ramo para que eu passasse-. Pareceu-me que devamos lhes dar a bem-vinda; tm intenes de instalar-se 
na Colina do Fraser.
      -Seriamente? Quando? E quantos so?
              Eram perguntas importantes. O inverno estava muito perto para que fora possvel edificar, nem mesmo a mais tosca das cabanas que lhes servisse de alojamento. 
Se nesses dias algum vinha s montanhas, teria que viver conosco na casa grande, ou apinhar-se em uma das cabanas para habitantes que semeavam a Colina. Se era 
necessrio, os escoceses das Terras Altas eram capazes de compartilhar uma s habitao entre dez. Como inglesa, eu no tinha o sentido da hospitalidade to desenvolvido.
      -Os McGillivray, seis; os Chisholm, ocho-respondeu Jamie, sorridente-.Mas os McGillivray no chegaro at a primavera. Robin  armeiro e tem trabalho no Cross 
Creek durante o inverno. Sua famlia viver em Salem com uns familiares at que passe o frio; sua esposa  alem.
      -Ah, o que bien-respondi enquanto calculava: assim quatorze mais para tomar o caf da manh...a soma dava vinte e quatro.
      -Pedirei a minha tia que me empreste um pouco de caf e arroz, de acordo?-Jamie tinha estado interpretando a crescente consternao de minhas faces. Com 
um sorriso, alargou os braos para receber ao beb-.Me d ao pequeno; assim ter as mos livres para cozinhar.
              Segui-o com a vista, aliviada de estar sozinha, sequer por alguns momentos. Embora eu adoro as reunies sociais, depois de passar uma semana entre 
visitas, fofocas e consultas mdicas dirias e atravessar pequenas mas contnuas crises, precisava estar sozinha, reunir foras e concentrar a mente. Mas nesse instante 
era incapaz de me centrar na logstica do caf da manh, nas bodas, nem sequer na iminente operao cirrgica que pensava realizar. Olhava mais para diante, mais 
 frente da viagem de volta; desejava estar em casa.
              A Colina do Fraser era um stio elevado nas montanhas do ocidente, um lugar remoto e isolado. Logo que tnhamos visitantes, fomos poucos, embora a 
populao ia em aumento; mais de trinta famlias tinham ido instalar se nas terras outorgadas ao Jamie, sob seu patrocnio. Em sua maioria eram homens que ele tinha 
conhecido durante seu encarceramento no Ardsmuir. Me ocorreu que Chisholm e McGillivray deviam ser tambm ex-prisioneiros; Jamie tinha estendido um convite permanente 
a todos esses homens, e a manteria em p, quaisquer fosse os custos de ajud-los.
              Um corvo passou em silencioso vo, lento e pesado. Devia ser um pressgio especial, pois  estranho que um ave voe com esse clima...Me golpeei a cabea 
com o canto da mo, tratando de afugentar a superstio. Se viver por um tempo com escoceses das Terras Altas, at a ltima pedra, at a ltima rvore passam a ter 
algum significado!
              E talvez assim era. At rodeada de gente nessa montanha, sentia-me quase sozinha, amparada pela chuva e a bruma. Ainda fazia frio, mas no o sentia. 
O sangue palpitava perto da pele; senti crescer o calor em minha Palmas. A chuva caa a meu redor, silenciosa, me molhando a roupa at fazer que me adira brandamente, 
como nuvens contra a montanha.
              Poderia ter acontecido algum tempo assim enfeitiada de no ter sido pelo repico de pisadas no atalho.
      -Senhora Fraser!
              Era Archie Hayes em pessoa. Se lhe surpreendeu lombriga s de p junto ao atalho, no o demonstrou. Em troca inclinou a cabea em uma saudao cortesa.
      -Tenente.-Eu tambm me inclinei, sentindo que me ruborizava como se me tivesse surpreso no meio do banho.
      -Est por aqui seu marido, senhora?-perguntou-me, com ar indiferente.
              em que pese a meu sobressalto senti uma pontada de desconfiana. Se a montanha vinha a Mahoma, no se tratava de algo indiferente.
      -Suponho que sim. Em realidade, no sei onde estejam, tratando de no olhar colina acima, para o stio onde aparecia um pico de lona da grande loja da Yocasta.
      -Ah, suponho que est muito ocupado-dijo Hayes, sem alterar-se-.Um homem como ele, no ltimo dia da congregao, tem que ter muito que fazer.
      -Sim, suponho que...n...sim.
              Inquieta, perguntei-me como diabos me liberaria de convidar  tenente a tomar o caf da manh. Nem sequer uma inglesa podia cometer a grosseria de 
no oferecer comida sem provocar comentrios.
      -N...o cabo McNair disse que desejava ver tambm ao Farquard Campbell-comentei, decidida-.Pode que Jamie tenha ido falar com ele. Com o senhor Campbell, quero 
dizer.
              Como se tratasse de ajud-lo, indiquei-lhe o acampamento dos Campbell, que estava no extremo oposto do da Yocasta.
      -Fui-dijo-.Poderia ser.-atrasou-se um momento antes de levant-la boina para me saudar-. bom dia, senhora.
              E se afastou...para a loja da Yocasta. Segui-o com a vista, perdida toda sensao de paz.
      -Mierda!-disse pelo baixo.
              E me pus em marcha para me ocupar do caf da manh.  
      

      2
      
      Os pes e os peixes
      
              Tnhamos escolhido um stio afastado do atalho principal, com boa vista ao ribazo do arroio. Olhando para baixo, vi como Archie Hayes insistia a seus 
homens a mesclar-se com a gente da congregao, e a maioria deles obedecia de muito bom grau.
              No saberia dizer se ditava esta poltica como uma mutreta, por penria ou por simples humanidade. Muitos de seus soldados eram jovens que se encontravam 
separados de suas famlias; para eles era uma alegria voltar a ouvir vozes escocesas, ser bem recebidos junto ao fogo do lar e com o oferecimento de brose e parritch.
              Nem Roger nem Brianna estavam  vista, mas me alarmou ver o Abel MacLennan sentado ao outro lado do claro, mordiscando uma parte de po torrado no 
extremo de um pau. Jamie tinha retornado com as provises que tinha pedido emprestadas e as estava desembrulhando no cho, junto ao fogo.  lombriga me dedicou um 
sorriso.
      -Por fim chega, Sassenach!-disse, levantando-se-. por que demoraste tanto?
      -OH!,  que no atalho me encontrei com n conhecido-dije. Jamie juntou as sobrancelhas, intrigado.
      -O tenente te est procurando-sise, me inclinando para ele.
      -Mas se isso j sei, Sassenach-replicou ele, com voz normal-.ele, com voz normal-.E me achar bastante logo.
      -Sim, mas...
              Pigarreei e olhei com inteno, alternativamente, ao Abel MacLennan e ao jovem soldado. Jamie, com seu conceito da hospitalidade, no toleraria que 
arrancassem a suas hspedes de seu teto, e eu supunha que o mesmo princpio se aplicava tambm  fogueira de seu acampamento. Ao jovem soldado podia lhe resultar 
incmodo prender o MacLennan, mas seguro que o tenente no vacilaria.
              Jamie ps cara de diverso e me levou para o jovem.
      -Querida-dijo formalmente-, me permita te apresentar ao recruta Andrew Ogilvie, que provm da aldeia do Kilburnie. Recruta Ogilvie, minha esposa.
      -A seu servio, senhora!-O jovem me fez uma reverncia, avermelhado, e Jamie me apertou levemente o brao.
      -O recruta Ogilvie me estava dizendo que o regimento se dirige para o Portsmouth, na Virginia...onde se embarcar rumo a Esccia. Alegrar-se de voltar para 
a ptria, verdade, moo?
      -OH, sim, senhor!-assegurou o soldado-.O regimento se dispersar no Aberdeen. E logo irei a casa, a toda a velocidade que me permitam as pernas.
      -Com que o regimento vai dispersar se?-perguntou Fergus, aproximando-se para participar da conversao, com o Germain nos braos.
      -Sim, senhor. Agora que os franchutes...n...com perdo, senhor...esto apaziguados e os ndia salvo, no temos nada que fazer aqui. E a Coroa no nos paga 
por ficar cruzados de braos-respondi o jovem, melanclico-.Bem cuidadoso, a paz pode ser algo bom e no deixa de me alegrar. Mas no se pode negar que  difcil 
para o militar.
      -Quase to difcil como a guerra, no?-replicou Jamie, seco.
              O moo avermelhou intensamente; jovem como era, no podia ter visto muito em matria de combate. A guerra dos Sete Anos tinha terminado quase dez anos 
atrs, quando o recruta Ogilvie, com toda probabilidade, ainda brincava de correr descalo pelo Kilburnie. Sem emprestar ateno ao abafado da moo, Jamie se voltou 
para mim.
      
      -H-me dito que o sessenta e sete  o nico regimento que fica nas colnias.
      -O ltimo regimento escocs? Perguntei.
      -No, senhora: o ltimo das tropas regulares da Coroa. Suponho que h guarnies aqui e l, mas todos os regimentos permanentes foram convocados a Inglaterra 
ou a Esccia. Somos os ltimos... e alm disso vamos com atraso. Devamos nos haver embarcado no Charleston, mas ali as coisas ficaram feias, de modo que vamos de 
caminho ao Portsmouth o mais rpido que podemos. O ano j est avanado, mas o tenente soube que um navio que poderia arriscar-se a fazer a travessia para nos levar. 
Se no...se no, passaremos o inverno no Portsmouth, suponho, arrumando-nos isso como podemos.
      -Assim a Inglaterra pensa nos deixar desprotegido?-Marsali parecia escandalizada pela idia.
      -OH!, no acredito que haja nenhum perigo srio, senhora-a tranqilizou o recruta-.chegamos a uma cordato definitivo com os franchutes. E se eles no armam 
revo, os ndios no podero fazer grande coisa. Faz tempo que tudo est tranqilo; sem dvida, as coisas seguiro assim.
              Fiz um pequeno rudo no fundo da garganta; Jamie me apertou levemente o cotovelo.
      -E no pensou voc ficar, possivelmente?-Lizzie, que estava mandando e ralando batatas, deixou a terrina junta ao fogo e comeou a engordurar a frigideira-.Ficar 
nas colnias, quero dizer. Ainda fica muita terra para poente.
      -Ah!...-O recruta Ogilvie olhou  moa e voltou a ruborizar-se-.Bom, reconheo que ouvi perspectivas piores, senhorita. Mas me temo que devo ir com meu regimento.
              Lizzie agarrou dois ovos e os rompeu limpamente contra o flanco da terrina. Sua cara, geralmente plida como o soro, tinha um leve reflexo rosado do 
intenso rubor do recruta.
      -OH!, bom,  uma pena que deva ir-se to logo- comentou. Suas loiras e largas pestanas roavam suas bochechas-.De qualquer modo, no o deixaremos ir com o 
estmago vazio.
              Ogilvie avermelhou ainda mais.
      -...voc muito amvel, senhorita. Muito amvel.
              Lizzie levantou timidamente a vista e sua vermelhido se acentuou. Jamie se desculpou com uma suave tosse e se afastou da fogueira, me levando consigo.
      -Jesus!-disse pelo baixo-.E no faz nem um dia que se feito mulher! Estiveste-lhe dando lies, Sassenach, ou todas as mulheres nascem assim?
      -Suponho que  um talento natural-disse, circunspeta.
              Em realidade, o inesperado advento da primeira menstruao do Lizzie depois do jantar da noite anterior tinha sido a gota que enchesse o copo em relao 
aos panos limpos.
      -Hum...Suponho que devo comear para lhe buscar marido-comentou Jamie, resignado.
      -Marido!Mas se logo que tem quinze anos!
      -Ah, sim?-Jogou uma olhada ao Marsali, que esfregava o cabelo escuro do Fergus com uma toalha, e os desviou para o Lizzie e o soldado; logo me olhou com uma 
sobrancelha cinicamente arqueada. 
      -Pois fui-repliqu, um pouco irritada-.  certo que Marsali s tinha quinze anos quando se casou com o Fergus, mas isso no significa...
              Jamie prosseguiu, descartando momentaneamente ao Lizzie:
      -O fato  que o regimento parte amanh para o Portsmouth; assim no tem tempo nem vontade de atender esse assunto do Hillsborough. Isso incumbe ao Tryon.
      -Mas o que Hayes disse...
      -OH!, no duvido que, se algum lhe disser algo, lhe enviar as declaraes a New Bern. Mas no acredito que lhe interesse muito se os reguladores incendiaram 
o palcio do governador, enquanto no lhe impea de embarcar-se a tempo.
              Suspirei, tranqilizada. Se Jamie estava no certo, quo ltimo faria Hayes seria tomar prisioneiros, quaisquer fossem as evidncias que tivesse. MacLennan 
estava a salvo.
      -Mas, nesse caso, para que lhes quer Hayes, a ti e aos outros? Est-te procurando, sim, e pessoalmente.
      -No sei-disse, movendo a cabeza,pero- no tem nada que ver com este assunto do Tryon. Se assim fora, me poderia haver isso dito ontem  noite. Mais ainda: 
se se interessasse pelo assunto, no teria deixado de me dizer isso No, Sassenach, pode acredit-lo: para o pequeno Archie Hayes, os bagunceiros no so mais que 
um dever que cumprir. Quanto a por que me busca...-Estirou um brao por cima de meu ombro para passar um dedo pelo bordo do pote de mel-.No quero pensar nisso antes 
do necessrio. Ficam trs toneladas de usque; antes de que caia a noite tenho que hav-los convertido em um arado, uma folha de foice, trs cabeas de tocha, cinco 
quilogramas de acar, um cavalo e um astrolbio.  um jogo de magia que requer certa ateno, no crie?
              depois de me passar docemente o dedo pringoso pelos lbios, beijou-me.
      -Um astrolbio?-disse, saboreando o mel. Devolvi-lhe o beijo-.Para que?
      -E logo quero voltar a casa-susurr ele, sem emprestar ateno a minha pergunta. Tinha a frente apertada contra a meus e seus olhos estavam muito azuis-. Quero 
me deitar contigo... em meu leito. E vou passar o resto do dia pensando no que te farei uma vez que te tenha ali. Assim que o pequeno Archie pode ir-se jogar aos 
gudes com seus ovos, de acordo?
      -Excelente ideia-susurr-.Quer dizer-lhe pessoalmente?
              Tinha visto um brilho do tartn verde e negro ao outro lado do claro, mas quando Jamie se girou, vi que nosso visitante no era Hayes, a no ser John 
Quincy Myers, que levava uma manta escocesa envolta na cintura.
              Isto acrescentava um novo toque de cor  vestimenta me Myers, de por si chamativa.
      -Amigo James!- Ao ver o Jamie se adiantou depressa, com um amplo sorriso e a mo estendida, fazendo soar as campainhas que tinha enroscadas s meias-.Supus 
que te encontraria tomando o caf da manh!
              Meu marido piscou um pouco ante esta apario, mas respondeu com cortesia ao aperto de mos do gigante.
      -Sim, John. Quer nos acompanhar?
      -N...fui-me somei, olhando clandestinamente a cesta da comida-.Fique, por favor.
              John Quincy  me fez uma cerimoniosa reverncia, tirando o chapu.
      -A seu servio, senhora, e muito agradecido. Mas talvez mais tarde. Agora vim para me levar a senhor Fraser. Necessita-o com urgncia.
      -Quem?-perguntou Jamie, cauteloso.
      -Robbie McGillivray, diz chamar-se. Conhece esse homem?
      -Sim, claro que sim.-Fora o que fosse o que Jamie sabia desse tal McGillivray, fez que procurasse no pequeno arca onde guardava suas pistolas-.O que acontece?
      -Bom...Foi sua esposa quem me pediu que viesse a por ti. E como ela no fala o que se diz um bom ingls, pode que tenha confundido um pouco o relato. Mas, 
conforme acredito, certo caador de recompensas capturou a seu filho, dizendo que o moo era um dos rufies que alvoroaram no Hillsborough, com intenes de lev-lo 
ao crcere de New Bern. S que Robbie diz que ningum vai levar se a um filho dele e...Bom, a partir da a pobre mulher se confundiu e j no pude lhe entender uma 
palavra. Mas acredito que Robbie estaria muito agradecido se pudesse ir ajudar lhe.
              Jamie ficou a jaqueta verde do Roger, que estava pendurada de um arbusto  espera de que lhe limpassem as manchas de sangue, e se sujeitou a pistola 
recm carregada sob o cinturo.
      -Aonde?-perguntou.
              Myers fez um breve gesto com a mo e entrou entre os acebos, com o Jamie lhe pisando os tales. Fergus, que tinha estado escutando o dilogo com o 
Germain em braos, deixou ao menino junto aos ps do Marsali.
      -Devo ir ajudar ao Grand-pre-disse. Logo agarrou um pau entre a lenha e o ps em mos de seu filho-. Voc fique; protege a mamam e  pequena Joan da gente 
m.
      -Oui, batata.-Germain agarrou o pau com firmeza, dispondo-se a defender o acampamento.
              Marsali, MacLennan, Lizzie e o recruta Ogilvie tinham estado contemplando a cena com expresso vcua. Quando Fergus entrou decididamente nos arbustos 
detrs agarrar outro lenho, o soldado voltou para a vida.
      -N..-disse-.Possivelmente deveria ir a por meu sargento, no lhe parece, senhora? Se houver algum distrbio...
      -No, no-repus em seguida. Quo ltimo precisvamos era que Archie Hayes e seu regimento se apresentassem em massa-. Estou segura de que tudo sair bem. Sem 
dvida  s um mal-entendido. O senhor Fraser resolver pessoalmente. No tema.
              Enquanto falava, ia bordeando sigilosamente  a fogueira para me aproximar do lugar onde tinha deixado meus teis mdicos, protegidos da garoa sob uma 
lona. Colocando a mo por debaixo do bordo, agarrei minha pequena equipe de emergncia.
      -Lizzie, por que no oferece ao recruta Ogilvie um pouco de compota de morangos para sua torrada? E certamente o senhor McLennan gostar de pr um pouco de 
mel em seu caf. Desculpa-me, verdade, senhor MacLennan? Devo ir a...n...
              Com um sorriso tolo, escorri-me entre as folhas de acebo. Detive-me para me orientar e o vento chuvoso me trouxe um leve retintn de campainhas. Girando 
para o som, pus-se a correr.
      
      
      
              O caminho era difcil. Quando os alcancei, perto do campo de competio, estava sem flego. Aquilo logo que estava comeando; chegou-me o zumbido das 
conversaes entre a multido de homens que se reuniam, mas ainda no havia gritos de flego nem uivos de desencanto.
              No pude apreciar o espetculo, pois Jonh Quincy se abria passo entre os carriolas, saudando com a mo aos conhecidos enquanto passvamos. No lado 
oposto da multido, um homem mido se separou-se a massa para sair precipitadamente a nosso encontro.
      -MAC Dubh, vieste! Obrigado por te incomodar.
      -No  molstia, Robbie-lhe assegurou Jamie-.O que  os que acontece?
              MacGillivray jogou uma olhada aos participantes e a seus partidrios; logo, assinalou com a cabea as rvores prximas. Seguimo-lo, sem chamar a ateno 
da multido que se reunia em volto de duas grandes pedras envoltas em cordas; supus que alguns dos fortachones foram levantar as maneira de proeza.
      - por seu filho, Rob?-perguntou Jamie.
      -Fui-respondi o hombrecito-.Quer dizer, j no.
      -O que aconteceu?-perguntei-.Est ferido?
      -Ele no-foi a crptica resposta.
              Atrs havia um pequeno espao aberto-to pequeno que no chegava a ser um claro,erizado- em pastos secos e pinheiros tenros. Enquanto Fergus e eu nos 
agachvamos para passar sob uma trepadeira, uma mulher corpulenta veio para ns; seus ombros se avultaram ao levantar o ramo de rvore que aferrava, mas ao ver o 
MacGillivray se relaxou um pouco.
      -Wer ist d?-perguntou, nos olhando com suspicacia.
              Nesse momento John Quincy passou por debaixo da trepadeira. Ela baixou seu pau; suas faces, slidas e agradveis, acalmaram-se ainda mais.
      -Ja, Myers! Traz-me para dem Jamie, oder?
      -Sim, meu amor. Este  Jamie Roy. Sheumais MAC Dubh.-MacGillivray se apressou a atribui-la apario do Jamie, lhe apoiando respetuosamente uma mo na manga-. 
Ute, minha esposa, MAC Dubh. E seu hijo-acrescentou, assinalando ao Fergus com um vago gesto.
              Ute MacGillivray parecia uma valkiria a dieta de farinhas: alta, muito loira e muito forte.
      -A seu servio, seora-saudou Jamie, inclinando-se.
      -Madame...-acrescentou Fergus, com uma reverncia cortes.
              A senhora MacGillivray lhes respondeu com uma profunda inclinao, sem apartar a vista das visveis mancha de sangue que sulcavam a jaqueta do Jamie...melhor 
dizendo do Roger.
      -Mein Herr-murmurou, com ar impressionado.
              Logo se voltou para chamar por gestos a um jovem de dezessete ou dezoito anos, que tinha estado espreitando algo mais atrs. Era mido, fibroso e moreno, 
to parecido a seu pai que dificilmente se teria podido duvidar de sua identidade.
      -Manfred-anunciou sua me, orgulhosa-.Mein moo.
              Jamie inclinou a cabea em uma grave saudao.
      -Encantado senhor MacGillivray.
      -N...a seu servio, senhor.-O jovencito parecia duvidar, mas alargou a mo.
      - um prazer conhec-lo, senhor-lhe assegurou meu marido, estreitando-lhe 
              Uma vez cumpridas as formalidades, percorreu brevemente com a vista aquele lugar tranqilo, com uma sobrancelha arqueada.
      -Informaram-me que um caador de recompensas o estava incomodando.Devo entender que o assunto est resolvido?-perguntou a pai e filho, que intercambiaram olhadas. 
Por fim Robin tossiu como pedindo desculpas.
      -Bom, MAC Dubh, no se pode dizer que esteja resolvido. Em realidade...-Deixou a frase sem terminar, com uma expresso afligida em seus olhos. Sua mulher lhe 
cravou um olhar severo; logo se voltou para o Jamie.
      -Ist kein molstia-lhe disse-.Ich haf dem pequeno assunto preparado. Mas queremos saber como esconder dem korpus.  
      -O... corpo?-repeti, bastante sufocada.
              At o Jamie parecia um pouco perturbado.
      -Mataste-o, Rob?
      -Eu?-MacGillivray se mostrou espantado-. MAC Dubh, por quem toma?
              Ao Jamie no parecia descabelada a possibilidade de que MacGillivray cometesse um ato violento, e o homenzinho se envergonhou.
      -Bom, suponho que poderia haver..., que em efeito... Mas esse assunto do Ardsmuir, MAC Dubh, ocorreu faz muito tempo e  gua passada! Verdade?
      -Verdade-disse Jamie-. Mas o que me diz desse caador de recompensas? Onde est?
              Uma risita sufocada detrs de mim fez que me desse a volta e descobrisse que o resto da famlia MacGillivray, silenciosa at ento, estava ali. tratava-se 
de trs jovencitas, sentadas em fileira em cima de um tronco cansado. Foram imaculadamente embelezadas com pulcros aventais e toucas brancas.
      -Meine meninas-anunci a senhora; as trs moas pareciam verses reduzidas dela mesma-. Hilda, Inga und Senga.
              Fergus se inclinou elegantemente ante as trs.
      -Enchant, ms demoiselles. 
              As meninas, entre risitas agudas, inclinaram a cabea a modo de resposta, mas sem levantar-se, o qual me pareceu estranho. Ento notei que algo estranho 
acontecia sob as saias da maior; era uma espcie de vulto que se agitava acompanhado por um grunhido afogado. Hilda cravou energicamente seu talo no que fora, sem 
deixar de me sorrir alegremente.
              Ouviu-se outro grunhido, esta vez muito mais audvel, proveniente de debaixo de suas saias. Jamie deu um coice e se voltou para ela. Sempre com seu 
alegre sorriso. Hilda se inclinou para recolher delicadamente o bordo de sua saia, sob a qual se viu uma cara frentica, dividida em duas por uma tira de pano escuro 
atada ao redor da boca.
      - ele-disse Robbie, que parecia compartilhar o talento de sua esposa para expor o bvio.
      -J vejo.-Jamie contraiu os dedos contra sua manta-.N...poderamos deix-lo sair, no?
              Robbie fez um gesto s meninas, que se levantaram deixando ao descoberto a um hombrecito, tendido contra o tronco, mao de ps e mos com algo que 
parecia meias de mulher, e amordaado com um leno. Estava molhado, talher de barro e um pouco machucado...
              Myers se inclinou para lhe agarrar pelo pescoo e levant-lo.
      -Bom, no parece grande costure-dijo criticamente-.Diria-se que a caa de ladres no est to bem paga como a gente crie.
              Em realidade, o homem r bastante mirrado e estava esfarrapado, alm de desalinhado, furioso...e assustado. Ute lanou um bufido de desprezo.
      -Saukerl!-exclamou, cuspindo s botas do prisioneiro. Logo se voltou para o Jamie, cheia de encanto-. Bem, mein Herr. Como acredita que deveramos mat-lo?
              O caador de recompensas abriu muito os olhos, retorcendo-se entre as mos do Myers e emitindo gemidos frenticos atravs da mordaa. Jamie o observou 
esfregando-a boca com um ndulo. Logo, dirigiu-se ao Robbie, que se encolheu levemente de ombros, olhando de soslaio a sua esposa, como se pedisse desculpas.
      -Hum!-Meu marido pigarreou-.Possivelmente j tinha voc alguma idia, senhora?
              Ute, radiante, extraiu um comprido adaga de seu cinturo.
      -Pensava que se poderia cortar a pedaos, wie ein Schwein, ja? Mas olhe.-Cravou cuidadosamente ao prisioneiro entre as costelas. O homem chiou atravs da mordaa, 
enquanto que na camisa esfarrapada florescia uma pequena mancha de sangue-.Muita Blut- explicou ela, com uma careta de desencanto.
              Assinalou com um gesto da mo para as rvores. Mais  frente, o espetculo de levantamento de pedras parecia estar em plena marcha.
      -Die Leute pode cheirar.
      -Podeoler?- Desviei a vista para o Jamie, pensando que se tratava de alguma desconhecida expresso alem. Ele pigarreou, esfregando-a nariz-.Ah!, pode oler-exclamei-.Sim, 
suponho que sim.
      -Se no desejarem chamar a ateno, tampouco conviria matar o de um disparo-consider Jamie, pensativo.
      -Eu voto porque lhe partamos a crisma-disse Robbie MacGillivray-.Isso  bastante fcil.
      -Parece-te?-Fergus entreabriu os olhos, concentrando-se-.Eu acredito que  melhor mat-lo a faca. Se o crava no lugar correto, no sai tanta sangra. No rim, 
justo debaixo das costelas, por atrs, n?
              A julgar pelos insistentes sons que provinham da mordaa, o cativo parecia rechaar as sugestes. Jamie se esfregou o queixo, dbio.
      -Bom, no  to difcil-reconheceu-.Tambm poderamos estrangul-lo. Claro que moveria os intestinos. E se queremos evitar o aroma, at lhe esmagando o crnio...Mas 
me diga, Robbie, como chegou este homem at aqui?
      -N?-MacGillivray parecia no compreender.
      -Seu acampamento no est perto?-Meu marido assinalou com um breve gesto o diminuto claro, para explicar-se. No havia rastros de fogueira; em realidade, ningum 
tinha acampado nesse lado do arroio. Entretanto, todos os MacGillivray estavam ali.
      -OH, no! No, nosso acampamento est mais acima. S viemos para fazer uma pequena prova com os pesos-explic Robbie, apontando para o campo de competio-.E 
este condenado abutre viu nosso Freddie e se apoderou dele.
              Dirigiu um olhar de rancor ao prisioneiro. Ento vi que de seu cinturo pendia uma corda, e a pouca distncia, no cho, havia um par de esposas de 
ferro.
      -Vimo-lo capturar a nosso irmano-intervino Hilda-.Ento, ns o empurramos at aqui, onde ningum pudesse v-lo. Como disse que pensava entregar-lhe ao delegado, 
minhas irms e eu o derrubamos e nos sentamos sobre ele. Mame lhe deu uns quantos chutes.
      -So gut Mdchen, fortes, meine meninas.- Ute deu a sua filha uns tapinhas afetuosos no robusto ombro-. Viemos hier die Wetkmpfer, talvez escolher marido 
para a Inga ou Senga. Hilda tem einen Mann j prometido-.acrescentou, satisfeita.
              Observou ao Jamie sem nenhuma dissimulao, demorando o olhar aprobatoria em sua estatura, a amplitude de seus ombros e seu bom aspecto geral. Logo 
me disse:
      -Bom Mann, grande, o teu. Tem filhos farones?
      -No, sinto-o-me desculpei-.N...Fergus est casado com a filha e meu algemo-aad, vendo que seu olhar avaliador passava a ele.
              O caador de recompensas voltou a concentrar a ateno sobre si, com um chiado de indignao atravs da mordaa.
      -Ah, sim!-exclamou Jamie-.por que no permitimos que o cavalheiro diga o que tenha que dizer?
              Robbie assentiu a contra gosto; a estas alturas as competies estavam muitos avanadas e ningum escutaria um grito isolado.
      -No permita que me matem, senhor!-Assim que lhe tiraram a mordaa, o homem apelou ao Jamie-.S cumpro com meu dever ao pr aos delinqentes em mos da justia.
      -Ja!-exclamaram imediatamente todos os MacGillivray, e Inga e Senga estalaram em palavres e chutes dirigidos s pantorrilhas do cavalheiro.
      -Basta!-gritou Jamie. Como no obtivera resultados, agarrou ao jovem MacGillivray pelo pescoo, bramando a todo pulmo-:Ruhe!
              Isto provocou um surpreso silncio e uma srie de olhares culpados em direo ao campo onde se celebravam as competies.
      -Bem-disse meu marido com firmeza-.Myers, traz para o cavalheiro, quer? Rob, Fergus, me acompanhem. Bitte, Madame.
              Ela o olhou piscando, mas logo fez um lento gesto de aquiescencia. Jamie, sujeitando ao Manfred pelo pescoo, levou-se a contingente masculino para 
o arroio, me deixando a cargo das damas.
      -Seu Mann salfar a meu filho?- perguntou-me Ute, preocupada.
      -Tentar-o.-Joguei uma olhada s meninas, que se tinham apinhado detrs da me-.Sabem se seu irmo esteve realmente no Hillborough?
      -Bom, ja esteve, nesse momento- disse Inga, algo desafiante-.Mas no alvoroando. S foi fazer remendar uma pea do arns e se encontrou envolto na multido.
              Ao surpreender um rpido olhar entre a Hilda e Senga, deduzi que essa no devia ser toda a verdade. Graas a Deus, no me correspondia julgar.
              A senhora MacGillivray mantinha a vista fixa no grupo dos homens que conversavam a certa distncia. Tinham desatado ao caador de recompensas, com 
exceo das mos; de p, com as costas apoiada contra uma rvore, mostrava os incisivos como um rato encurralado. Jamie e Myers estavam ante ele enquanto Fergus, 
em um lado, olhava-os com ateno. Rob MacGillivray despontava uma ramita de pinheiro com uma faca, olhando de vez em quando ao prisioneiro com ar de concentrao.
      -No duvido que Jamie poder...n...fazer algo-disse.
      -Gut.-Ute MacGillivray assentiu, sem deixar de observ-los-.Se eu no mat-lo, melhor. Mas se dever, eu faz-lo.
              Acreditava-lhe.
      -Compreendo-dije com cautela-.Mas...Desculpe-me voc, mas at se esse homem se levou a seu filho, no podia apresentar-se ante o delegado e explicar...?
              Mais olhadas entre as meninas. Esta vez foi Hilda quem falou.
      -Nein, senhora. Ver...as coisas no teriam estado to mal se o caador de recompensas tivesse ido a nosso acampamento. Mas aqui embaixo...-Assinalou com a 
cabea o campo de competio.
              Ao parecer, a dificuldade radicava no prometido da Hilda, certo Davey Morrison, do Hunter's Point. O senhor Morrison era um prspero granjeiro e um 
homem de grande valia, alm de atleta hbil na arte de arrojar pedras. Sua famlia era gente muito reta: se Manfred tivesse sido apressado por um caador de recompensas 
diante da congregao o escndalo teria desembocado na ruptura do compromisso da Hilda, perspectiva que perturbava ao Ute muito mais que a idia de degolar ao prisioneiro.
      -Mau, tambm, que eu o mata e algum f-disse francamente, assinalando a tnue cortina de folhagem que nos ocultava ao campo onde se competia-. Die Morrison 
no contentes.
      -Suponho que no.-Perguntei-me se Davey teria idia de onde ia meter se-.Mas voc...
      -Quero casar bem a meine meninas-replic ela com firmeza-.Procuro gut homens fr Sie, homens bonitos, grandes, mit terra e dinheiro.-Rodeou com um brao os 
ombros da Senga-.Nicht wahr, Liebchen?
      -Ja, mama-murmur a jovencita, apoiando a touca no seio de sua me.
              No bando masculino estava acontecendo algo. Tinham desatado as mos ao caador de recompensas, que se esfregava as bonecas e escutava ao Jamie com 
expresso precavida. Jogou-nos uma olhada; logo, ao Robin MacGillivray, quem lhe disse algo e assentiu enfaticamente. O homem moveu a mandbula como se ruminasse 
alguma idia.
      -Assim que esta manh baixaram todos para ver as competies e procurar bons candidatos para maridos de suas filhas. Sim, j compreendo.
              Jamie afundou a mo em seu sporran e extraiu algo que aproximou do nariz do prisioneiro, como convidando-o a farejar. A essa distncia no se via o 
que era, mas o homem mostrou asco e alarme.
      -Ja, somente para olhar.-A senhora MacGillivray, que no os estava observando, soltou a Senga depois de lhe dar uns tapinhas-. Agora famos a Salem, onde ist 
meine Famlia. Talvez ali encontramos um bom Mann, tambm.
              Myers se aproximou de ns atravs do bosquecillo.
      -No h por que preocupar-se, seora-assegurou ao Ute-.Eu sabia que Jamie Roy se encarregaria de tudo. E assim foi. Seu moo est a salvo.
      -Ja?-disse ela, olhando com ar dbio para os arvorezinhas.
              Mas era verdade. Todos os homens tinham assumido uma atitude relaxada. Jamie estava lhe devolvendo as algemas ao caador de recompensas. Vi que as 
entregava com brusco desagrado; no Ardsmuir lhe tinham posto grilos.
       -Gott sei dank-disse Ute, com um suspiro explosivo.
              Jamie e Rob MacGillivray conversavam, enquanto Fergus, levemente carrancudo, seguia com a vista a retirada do caador de recompensas, que se afastava 
j para o arroio.
      -O que foi exatamente o que Jamie lhe disse?-perguntei ao Myers. 
      -OH, bom...-O gigante me dirigiu um largo sorriso-.Jamie Roy, muito srio, disse-lhe ao homem...(que, dito seja de passagem, chama-se Harley Boble) que tinha 
tido muita sorte de que todos chegssemos a tempo. Deu-lhe a entender que, de outro modo, a dama aqui pressente-hizo uma reverncia ao Ute-o teria levado a casa 
em sua carreta para trocearlo como um porco onde ningum a visse. Ento Jamie Roy lhe aproximou para lhe fazer uma confidncia, e disse que ele teria podido pensar 
o mesmo...de no ser pela reputao do Frau MacGillivray, famosa por suas salsichas, e porque tinha tido o privilgio das provar no caf da manh da manh. Foi ento 
quando Boble comeou a perder a cor. E quando Jamie Roy extraiu uma parte de embutido para lhe mostrar...
      -OH, Santo Cu!-disse, recordando vividamente como cheirava essa salsicha. No dia anterior a comprei a um vendedor na montanha, para logo descobrir que estava 
mal curada; quando a cortei, despediu um horrvel aroma de sangue podre. Jamie tinha guardado os restos em seu sporran, com inteno de que lhe devolvesse o dinheiro 
ou de fazer os tragar ao vendedor-. Agora o entendo.
              Myers fez um gesto afirmativo e se voltou para o Ute.
      -E seu marido, senhora...Este bendito Rob MacGillivray  um mentiroso nato.
      -Papai no  capaz de matar uma mosca-me disse Inga, pelo baixo e renda-se-.No pode retorcer o cangote a um frango.
              Myers elevou os ombros em um gesto de bom humor, enquanto Jamie e Rob se aproximavam pela erva mida.
      -De modo que Jamie deu ao Boble sua palavra de cavalheiro de que o protegeria de voc. E Boble deu sua palavra de...Bom, disse que no se aproximaria do jovem 
Manfred.
      -Hum-murmurou Ute, ofendida porque se criticasse a reputao de suas salsichas-. Eu, fazer uma porcaria como essa!-disse, enrugando o nariz para a fedorento 
parte de carne que Jamie submetia a sua inspeo-. Pfaugh! Ratzfleisch!
              Desprezando o embutido, dirigiu-se a seu marido murmurando em alemo. Logo aspirou fundo e reuniu a seus filhos, insistindo-os a agradecer devidamente 
a ajuda do Jamie. Lhe fez uma reverncia, ruborizado pelo coro de gratido.
      -Gern geschehen-disse-. Euer ergebener Diener, Frau Ute.
              Ela o olhou, radiante, enquanto meu marido se despedia do Rob.
      -Que Mann bonito e grande-murmurou enquanto o observava de cima abaixo.
              Imediatamente notou que eu estava comparando ao Jamie com o Rob; o armeiro era bastante bonito, de faces cinzeladas e cabelo negro encaracolado, 
muito curto, mas tinha os ossos de um pardal e chegava aproximadamente ao ombro de sua fornida esposa. No pude deixar de me perguntar como, dada sua evidente admirao 
pelos homens corpulentos...
      -OH!, bom...-Ela se encolheu de ombros como pedindo desculpas-.O amor, j sabe voc.
              Dizia-o como se o amor fora um estado lamentvel, mas impossvel de evitar. Joguei um olhar ao Jamie, que estava envolvendo cuidadosamente seu embutido 
para guard-lo no sporran.
      -V se sei-disse.
      
      
      
              Quando retornamos a nosso acampamento, os Chisholm se estavam despedindo. Por sorte Jamie havia trazido abundante comida do acampamento da Yocasta, 
assim pude me sentar ante um grato caf da manh de pastis redondos de batata, bannocks com manteiga, presunto frito e caf, me perguntando que mais podia acontecer 
esse dia.
              Mais tarde, com a terceira taa de caf na mo, apartei a lona que cobria meus utenslios de medicina. Era hora de inspecionar o contedo e preparar 
todos os remdios que deviam estar recm feitos.
               Esgotadas as ervas mais comuns que tinha levado comigo, tinha aumentado minha proviso graas aos bons ofcios do Myers, quem me trouxe vrias coisas 
estranhas e teis das aldeias ndias do norte, e a meus judiciosos intercmbios com o Murray MacLeod, jovem e ambicioso farmacutico que se entrou no continente 
para estabelecer sua loja no Cross Creek.
              O jovem Murray albergava todas aquelas horrveis ideia que passavam por conhecimentos mdicos nessa poca...e afirmava sem nenhum acanhamento a superioridade 
de mtodos cientficos tais como a sangria e as ventosas, por cima da antiquada tendncia a curar com ervas que preferiam as velhas ignorantes como eu. Mesmo assim, 
sua condio de escocs o dotava de uma forte veia pragmtica. depois de jogar uma olhada  poderosa estrutura do Jamie, tragou-se as opinies mais insultantes. 
Eu tinha cem gramas de absinto e um frasco de gengibre silvestre que ele desejava. Alm disso, tinha observado que a maioria dos montanheses iam para mim e no a 
ele quando afetava alguma dolencia,y... tambm que meus padres os faziam melhorar. Se eu tinha secretos, ele queria conhec-los. E eu, com muito prazer, deixaria 
que os conhecesse.
              Por sorte, ainda ficava muita casca de salgueiro. Vacilei ante a pequena fileira de frascos que continha o cofre. Havia ali vrios emenagogos fortes: 
caulfilo, fungo e poleo-memora, mas escolhi os mais suaves: tanaceto e arruda. Pus um punhado na terrina e o deixei encharcar em gua fervendo. alm de acalmar 
as molstias da menstruao, o tanaceto tinha fama de acalmar os nervos...e resultava difcil imaginar uma pessoa mais nervosa que Lizzie Wemyss.
              Joguei uma olhada  fogueira, onde Lizzie lubrificava com gelia de morangos a torrada do recruta Ogilvie, que parecia repartir sua ateno entre a 
moa, Jamie e o po, dedicando a maior proporo a sua torrada.
              A arruda era tambm um bom antiparasitario. Eu no estava segura de que Lizzie tivesse lombrigas, mas era lago comum entre a gente da montanha. No 
lhe viria mal uma dose.
              Observei ao Abel MacLennan, me perguntando se conviria lhe jogar um pouco da beberagem no caf; em que pese a sua corpulncia, tinha o aspecto gasto 
e anmico de quem alberga parasitas intestinais.
              A pequena Joan voltava a chorar de fome. Marsali fez um gesto de dor quando o beb ficou a mamar, mas se relaxou quando o leite comeou a fluir. Mamilos 
gretados. Havia trazido ungento de l de ovelha? Pois no, que pena!
      -um pouco de caf, querida?-O senhor MacLennan, que tinha estado observando ao Marsali com preocupada solidariedade, ofereceu-lhe sua taa de caf intacta-.Minha 
esposa estava acostumada dizer que o caf quente acalmava os dores da lactao.  melhor com usque , mas mesmo assim...
      -Taing.-Marsali aceitou a taa com um sorriso agradecido-.estive geada toda a manh. Pensa voltar amanh para o Drunkard's Creek, senhor MacLennan?-perguntou-lhe 
cortesmente ao lhe devolver a taa vazia-.Ou viajar a New Bern com o senhor Hobson?
      -Hobson vai a New Bern?-perguntou Jamie bruscamente-.Como sabe?
      -H-o dito sua filha, a senhora Fowles-respondeu Marsali-. Disse-me isso quando lhe pedi emprestada uma camisa seca para o Germain. Est preocupada com o Hugh, 
seu marido, porque seu pai, o senhor Hobson, quer que ele o acompanhe, mas Hugh tem medo.
      -A que vai Joe Hobson a New Bern?-perguntei, a minha vez.
      -A apresentar uma petitria ao governador-disse Abel MacLennan-.De muito servir!-E sorriu ao Marsali com tristeza-. No, moa. Para falar a verdade, no sei 
aonde ir. Mas no ser a New Bern.
      -No o espera sua esposa no Drunkard's Creek?
      -Minha esposa morreu, moa-fue a suave resposta-.Morreu faz dois meses.
      -OH, senhor Abel!-Marsali se inclinou para diante para lhe estreitar a mo, cheios de dor os olhos azuis-.Sinto-o tanto!
              Lhe deu uns tapinhas na mo, sem levantar a vista. Em seu escasso cabelo refulgiam diminutas gotas de chuva. Jamie, que se tinha posto de p para interrogar 
 moa, tomou assento no tronco, junto ao MacLennan e lhe ps meigamente uma mo nas costas.
      -No sabia, a charaid-disse em voz baixa.
      -No.-O outro olhou as chamas transparentes, sem as ver-. que bom, a verdade  que no o hei dito a ningum. at agora.
              Jamie e eu intercambiamos um olhar. Drunkard's Creek no podia albergar a mais de vinte e cinco almas nessas poucas cabanas disseminadas pelas ribeiras. 
Entretanto, nem os Hobson nem os Fowles tinham mencionado a perda do Abel; devia ser verdade que no o havia dito a ningum.
      -Como aconteceu, senhor Abel?-Marsali seguia retendo sua mo.
      -OH...-disse em tom vago-.Aconteceram tantas coisas...E no obstante...ao fim e ao cabo no foi tanto. Abby...Abigail, minha esposa, morreu de umas febres. 
Agarrou frio e...e morreu.
              Jamie jogou um pouco de usque em uma taa vazia e a ps nas mos inermes do MacLennan, lhe curvando os dedos at que ele a sujeitou.
      -voc beba, homem-disse.
              Em silncio, todo mundo observou ao Abel, que provava obedientemente o usque: um sorvo, logo outro. O jovem Ogilvie se removeu em sua pedra, incmodo; 
parecia estar desejando retornar a seu regimento, mas no partiu, como se temesse que sua partida fizesse sofrer ainda mais a esse homem.
              A mesma quietude do MacLennan atraa todas as olhadas, sossegava qualquer conversao.
      -Eu tinha bastante-disse de repente-.De verdade.-Olhou em volto da fogueira, como se nos desafiasse a contradiz-lo-.Para os impostos, compreendem? O ano no 
foi to bom como esperava, mas fui prudente. Tinha em reserva dez tonis de milho e quatro magnficos couros de veado. Todo isso valia mais que os seis xelins do 
imposto.
              Mas os impostos no se pagavam em cereais, couros e blocos de anil, a no ser em efetivo. Entre os agricultores a troca era a maneira habitual de fazer 
negcios. Ningum pagava nada em efetivo, salvo os impostos.
      -Bom,  razovel-disse MacLennan, piscando severamente para o Ogilvie, como se o jovem tivesse protestado-.Para que quer sua majestade uma piara de porcos 
ou uns quantos perus? No, compreendo que se deva pagar em dinheiro. E eu tinha o cereal; podia vend-lo facilmente por seis xelins.
              A nica dificuldade era converter dez tonis de cereal em seis xelins de impostos. No Drunkard's Creek havia quem poderia haver os comprado, mas ali 
ningum tinha dinheiro. Era preciso levar esse milho a Salem, a populao mais prxima onde se podia obter efetivo. Mas Salem estava a uns sessenta quilmetros do 
Drunkard's Creek: requeria-se uma semana para ir e retornar.
      -Eu tinha cinco acres de cevada tardia-explic Abel-.Amadurecida, lista para a ceifa. No queria deixar que se perdesse. E meu Abby era uma mulher mida, magra. 
No podia p-la a segar e debulhar.
              Como no queria perder uma semana das tarefas da colheita, Abel procurou ajuda em seus vizinhos.
      - boa gente-insistiu-.Um ou dois podiam me emprestar algum cntimo, mas eles tambm tinham que pagar seus impostos, entendem?
              Ainda crdulo em obter, de algum modo, o dinheiro necessrio sem realizar a rdua viagem a Salem, Abel se atrasou...muito tempo.
      -O delegado  Howard Travers-disse-.Veio com um papel e disse que devia nos expulsar, por no pagar os impostos.
              Frente  necessidade, Abel viajou a toda pressa para Salem, mas quando retornou com os seis xelins sua propriedade tinha desaparecido e a cabana estava 
ocupada por desconhecidos.
      -Eu sabia que ela tinha que estar cerca-explic-, porque no abandonaria aos pirralhos.
              E ali foi onde a achou, envolta em um edredom pudo, tremendo sob a grande pcea da colnia que protegia as tumbas dos quatro meninos MacLennan, todos 
falecidos ao primeiro ano de vida. em que pese a todas suas splicas, Abigail, no quis baixar a que tinha sido sua cabana e pedir ajuda a quem a tinha jogado. Abel 
no soube nos dizer se foi a loucura da febre ou simples tozudez; sua esposa se aferrou aos ramos da rvore com fora demencial, dizendo a vozes os nomes de seus 
filhos...e ali morreu, durante a noite.
      -Tinham-na autorizado a lev-lo que pudesse. Tinha um hatillo com seu pano morturio. Ainda a vejo ante a roca, apenas depois de nossas bodas, fiando para 
tec-lo. Tinha pequenas flores ao longo de um bordo. Era hbil com a agulha.
              Envolveu a Abigail na mortalha bordada. Logo, sepultou-a junto ao menor de seus filhos e caminhou trs quilmetros pela estrada, com inteno de lhe 
contar o acontecido aos Hobson.
      -Mas quando cheguei a sua casa os encontrei a todos indo de um  lado a outro. Hugh Fowles tinha recebido a visita do Travers, que vinha pelos impostos, mas 
no havia dinheiro. Travers, sonriendo como um smio, disse-lhe que lhe dava igual; dez dias depois, voltou e os expulsou.
              Hobson tinha reunido com muita dificuldade o dinheiro para pagar seus impostos; os Fowles se apinharam com o resto da famlia, ss e salvos, mas Joe 
estava furioso pela maneira de tratar a seu genro.
      -Joe vociferava, enlouquecido de ira. Janet Hobson me fez passar, e me ofereceu comida. Ali estava Joe, gritando que se cobraria a terra do pele do Howard 
Travers. E Hugh, que parecia um co atropelado, e sua esposa que me saudava, e todos os pirralhos chiando por sua comida e...bom, pensei lhes dar a notcia,  mas 
logo...
              Dormiu sob a mesa e despertou antes do alvorada. A sensao de irrealidade persistia. Tudo a seu redor parecia um sonho. Era como se ele mesmo tivesse 
deixado de existir. Seu corpo se levantou, lavou-se. Comia e falava sem que ele soubesse. J ningum existia no mundo exterior. E quando Joe Hobson se levantou para 
anunciar que ele e Hugh iriam ao Hillsborough para procurar justia na Corte, Abel MacLennan tirou o chapu partindo pela estrada com eles.
      -Enquanto caminhava me ocorreu que estvamos todos mortos-dijo, com ar sonhador-. Eu, Joe, Hugh e outros. Dava-me igual estar em um stio que em outro; s 
era questo de mover-se at o momento de tender meus ossos junto ao Abby.
              Ao chegar ao Hillsborough no se precaveu das intenes do Joe. limitou-se a segui-lo, sem pensar, pelas ruas lamacentas e cheias de cristais quebrados 
das janelas destroadas. Viu a luz das tochas e a multido, ouviu os gritos e os alaridos, sem comover-se.
      -S eram homens mortos, um repicar de ossos contra ossos-dijo, encolhendo-se de ombros. Guardou silncio. Logo se voltou para o Jamie e o olhou larga, severamente-. 
assim? Voc tambm est morto?
              Uma mo lassa, calejada, flutuou at o ma do rosto de meu marido, que a agarrou para estreit-la entre as suas.
      -No, a charaid-disse com suavidade-.Ainda no.
              MacLennan assentiu lentamente.
      -Sim. Tempo ao tempo-disse-.Tempo ao tempo. No  to mau. 
              Ento ficou de p, cobrindo-a cabea com o quadrado de tecido vermelho. voltou-se para mim com uma saudao cortesa, e seus olhos vagos e afligidos.
      -Agradeo-lhe o caf da manh, senhora.-E se afastou.
      
      
      

      3
      Humores biliosos
      
      
              A partida do Abel MacLennan ps fim ao caf da manh bruscamente. Ogilvie se retirou dando as obrigado; Jamie e Fergus se foram em procura de ceifam 
e astrolbios; Lizzie, que se murchava em ausncia de seu soldado, declarou que no se sentia bem e desapareceu em um dos refgios, com uma grande infuso de atanasia 
e arruda.
              Por sorte, Brianna decidiu reaparecer nesse momento, sem o Jemmy. Conforme me disse, ela e Roger tinham tomado o caf da manh com a Yocasta. O menino 
se dormiu em braos da anci e o tinha deixado ali para vir  me ajudar com as consultas da manh.
      -Est segura de querer me ajudar hoje? depois de tudo,  o dia de suas bodas. Acredito que Lizzie ou a senhora Martin poderiam...
      -No, farei-o eu-me assegurou, passando um pano pelo assento do tamborete-.Lizzie se encontra melhor, mas no tanto como para suportar ps infectados e estmagos 
ptridos.
              Com um leve estremecimento, fechou os olhos  lembrana do ancio a quem, no dia anterior, eu tinha curado um talo ulcerado. A dor  tinha feito que 
ele vomitasse sobre suas calas esfarrapadas, o qual provocou que muitos dos que esperavam ser atendidos vomitassem tambm.
      -No, suponho que no-reconheci a contra gosto-. Mas seu vestido no est de tudo terminado, verdade? No deveria ir a...?
      -Tudo est bem-me assegurou-.Fedra est costurando a prega. E Ulises anda dando ordens aos serventes como se fora um sargento do exrcito. Eu no faria mais 
que estorvar.
              Cedi sem mais reparos, embora sentia saudades um pouco essa prontido. Embora Bree no era afetada frente s exigncias da vida normal, tais como esfolar 
animais e limpar pescado, eu sabia que a perturbava a proximidade de pessoas com m formaes ou enfermidades visveis, embora fizesse o possvel por dissimul-lo. 
No era asco, disse-me, a no ser uma empatia que a paralisava.
              Retirei o hervidor do fogo para verter gua bulindo em um frasco grande mdio cheio de lcool destilado, entreabrindo os olhos para proteg-los contra 
as nuvens de vapor alcolico. Realmente era duro ver que tantas pessoas sofriam de coisas que em outra poca poderiam tratar-se facilmente com anti-spticos, antibiticos 
e anestesia. Mas nos hospitais de campanha, em um momento no que todas essas inovaes eram novas e estranhas, eu tinha aprendido a manter a objetividade, que sabia 
necessria e valiosa.
              Se se interpunham meus prprios sentimentos, no poderia ajudar a ningum. Mas Brianna no tinha esse tipo de conhecimentos para usar como escudo. 
Ainda no.
              Quando acabou de limpar e ordenar, ergueu as costas com uma pequena ruga entre as sobrancelhas.
      -Recorda  mulher que viu ontem? A que trouxe para o menino atrasado?
      -No  algo que se possa esquecer-disse, com tanta ligeireza como foi possvel-. por que? Oua, pode te ocupar disto?
              Assinale a mesa dobradia, que se negava a fechar-se como era devido; suas articulaes se incharam com a umidade. Brianna franziu o sobrecenho, estudando-a; 
logo deu um golpe com o canto da mo  articulao correspondente. O mvel obedeceu imediatamente, como se reconhecesse a presena de uma fora superior.
      -Preparado.-esfregou-se o flanco da mo, distrada e ainda com as sobrancelhas franzidas-.Insistiu muito em lhe recomendar que tratasse de no trazer mais 
meninos. O do pequeno era hereditrio?
      -poderia-se dizer que fui-respond secamente-.Sfilis congnita.
              Ela levantou a vista, empalidecendo.
      -Sfilis? Est segura?
              Fiz um gesto afirmativo, enquanto enrolava uma tira de linho cozido para vendagens. Ainda estava muito molhado, mas no havia remdio. 
      -A me ainda no apresentava os signos exteriores visveis dos ltimos estdios da enfermidade, mas nos meninos so inconfundveis.
              A mulher tinha vindo simplesmente a que lhe abrisse uma fstula, com o pequeno obstinado a suas saias. Ele tinha a caracterstica nariz esmagado  
altura da ponte, e sua mandbula estava to mal formada que no me surpreendeu v-lo to desnutrido: logo que poderia mastigar. Era impossvel saber quanto de seu 
evidente atraso se devia ao dano cerebral e quanto  surdez; parecia sofrer ambas as deficincias, mas no tentei as avaliar, pois no havia nada que pudesse fazer 
pelas remediar. Tinha-lhe aconselhado  me que lhe desse pot liquor que talvez aliviasse a desnutrio; pelo resto, em pouco se podia ajudar ao pobrecito.
      -Aqui no a vejo to freqentemente como em Paris ou no Edimburgo, onde havia muitas prostitutas-le disse ao Bree, arrojando a bola de ataduras ao saco de 
lona que ela mantinha aberto-. Mas sim, de vez em quando. por que? Acaso pensa que Roger tem sfilis?
              Olhou-me boquiaberta. Sua expresso espantada se apagou ante uma instantnea corrente de vermelho furioso.
      -Claro que no, mame!-exclamou.
      -Bom, no  que eu o pensasse-expliqu brandamente-. Mas passa nas melhores famlias...e como perguntava...
              Ela lanou um forte bufo.
      -Eu te perguntava por anticoncepcionais-corrigi entre dentes-.Ao menos  o que pensava fazer, antes de que te lanasse com a Guia mdica de enfermidades venreas.
      -Ah,  isso.-Observei-a pensativamente, reparando nas manchas de leite seca que tinha no suti-.Bom, amamentar  bastante efetivo. No te brinda segurana 
absoluta, certamente, mas sim bastante. depois dos primeiros seis meses, menos.
              Jemmy j tinha seis meses.
      -Hum...-murmurou ela, to ao estilo do Jamie que devi me morder o lbio inferior para no rir-. E o que outra coisa efetiva h?
              Eu no tinha falado com ela de mtodos anticoncepcionais, ao estilo do sculo XVIII. Quando apareceu pela primeira vez na Colina do Fraser  no parecia 
necessrio. E a verdade  que depois no foi, pois j estava grvida. Assim agora sim que o necessitava?
              Com o sobrecenho franzido, fui guardando cilindros de ataduras e molhos de ervas dentro de meu saco.
      -O normal  qualquer tipo de barreira. Uma parte de seda ou uma esponja, empapadas em toda classe de coisas, desde vinagre a brandy, embora se dispuser de 
azeite de atanasia ou de cedro, supe-se que  o melhor. Ho-me dito que algumas mulheres, nas ndias, usam meio limo, mas obviamente aqui no seria uma opo adequada.
              Ela deixou escapar uma breve risada.
      -No, no acredito. E tampouco acredito que o azeite de atanasia d muito bons resultados.  o que usava Marsali quando ficou grvida do Joan. 
      -Ah!, usava-o? Suponho que alguma vez no se tomaria a molstia...e basta com uma vez.
              Mais que v-la, senti-a esticar-se e me mordi os lbios outra vez, esta vez de mortificao. Para ela, uma nica vez tinha sido suficiente; o que no 
sabamos era qual dessas duas nicas vezes. Mas Brianna se encolheu de ombros e os deixou cair, descartando deliberadamente as lembranas que meu irrefletido comentrio 
pudesse ter conjurado.
      -Disse-me que o tinha estado usando, mas possivelmente o esqueceu. De qualquer modo no sempre d resultado, verdade?
              Carreguei-me ao ombro o saco de ataduras e ervas secas, e agarrei o cofre dos remdios.
      -Quo nico funciona sempre  o celibato-respondi-.Suponho que, no caso que nos ocupa, no  uma opo satisfatria.
              Ela sacudiu a cabea, refletindo tristemente, fixa o olhar em um grupo de homens jovens que se entreviam depois das rvores de abaixo; estavam-se alternando 
para arrojar pedras ao outro lado do arroio.
      -Era o que me temia-dijo.
              Percorri o claro com um olhar analtico. Algo mais? No me preocupava abandonar a fogueira; embora Lizzie ficasse dormida, com esse clima no havia 
na montanha nada que pudesse queimar-se; at a isca e a lenha armazenadas em um extremo do abrigo estavam midas. Mas faltava algo.
              O que? Ah, sim. Deixando um momento a caixa, ajoelhei-me para me arrastar ao interior do abrigo e revolvi no matagal de edredons. Ao sair, por fim 
levava meu taleguilla de remdios.
              depois de recitar uma breve orao a Santa Brida, pendurei-me isso do pescoo, por debaixo do suti. Estava to habituada a usar esse amuleto quando 
ia praticar a medicina que j quase no percebia o ridculo desse pequeno rito. Quase. Bree me estava observando com expresso bastante estranha, mas no disse nada.
              Eu tampouco; limitei-me a recolher minhas coisas e a segui atravs do claro, evitando com cuidado os stios mais lamacentos. J no chovia, mas as 
nuvens prometiam mais gua em qualquer momento; dos troncos cansados e os arbustos goteantes emanavam volutas de bruma.
              Que motivos teria Bree para interessar-se pelos anticoncepcionais? Parecia-me sensato, certamente, mas por que agora? Talvez tivesse alguma relao 
com o fato de que estivesse a ponto de casar-se com o Roger. Embora levavam vrios meses vivendo como marido e mulher, a formalidade dos votos pronunciados ante 
Deus e ante os homens bastavam para impor uma maior sobriedade aos jovens mais amalucados. Mas nem Roger nem Brianna o eram.
      -Existe outra possibilidade-disse a suas costas, pois ia diante de mim pelo caminho escorregadio-. No sei at que ponto  confivel, pois ainda no a provei 
com ningum. Nayawenne a velha tuscarora que deu de presente o saco de remdios, disse-me que havia ervas de mulheres. Mesclas diferentes para coisas diferentes, 
mas uma planta especial para isso; disse que sua semente impediam ao esprito do homem impor-se ao da mulher.
              Bree fez uma pausa e se voltou pela metade para me aproximar eu.
      -Assim vem os ndios o embarao? O homem ganha?
      -Bom, em certo modo-disse rendo-.Se o esprito da mulher  muito forte para o homem ou no cede ante ele, ela no poder conceber. Por isso, quando uma mulher 
quer ter um filho e no pode, com muita freqncia o chamn no a trata s a ela, a no ser a seu marido ou aos dois.
              Ela lanou uma exclamao gutural, em parte s por diverso.
      -Qual  a planta, a erva das mulheres?-perguntou-. Conhece-a?
      -No tenho a certeza-admiti-. Quer dizer, no estou segura de seu nome. Ela me mostrou tanto a planta em crescimento como as sementes secas, e estou segura 
de que poderia reconhec-la, mas no era uma planta que eu conhea por um nome ingls.-E acrescentei, por ajudar-: Isso sim: era da famlia das umbelferas.
              Bree me dirigiu uma morada sria, que a assemelhou novamente ao Jamie. Logo se aparou para deixar passar a umas quantas d as Campbell. Ao passar rumo 
ao arroio nos saudaram uma a uma, com uma reverncia ou uma corts inclinao de cabea.
      -bom dia voc tenha, senhora Fraser-disse uma pulcra jovem; era uma das filhas menores do Farquard Campbell-. Est seu marido por aqui? Diz meu pai que gostaria 
de falar com ele. 
      -No me temo que se foi.-Fiz um gesto vago; Jamie podia estar em qualquer parte. Mas se o veja o direi.
              Ela fez um gesto afirmativo e continuou a marcha; as mulheres que a seguiam se detiveram o felicitar a Brianna por suas bodas. Ela aceitava seus bons 
desejos com gentil cortesia, mas detectei que algo a preocupava.
      -O que te passa?-disse sem rodeios, assim que as Campbell j no puderam nos ouvir.
      -O que me passa, do que?-perguntou ela, sobressaltada.
      -O que  o que se preocupa? E no me diga que nada, porque vejo que sim. Tem algo que ver com o Roger? Tem dvidas sobre as bodas?
      -No exactamente-respondeu, com ar precavido-.Quero me casar com o Roger. Quer dizer, respeito a isso no h nenhum problema.  que... que me ocorreu algo.
              Deixou morrer a voz e um lento rubor subiu a suas bochechas.
      -Sim?-perguntei, bastante alarmada-. O que ?
      -Imagina que eu tenha uma enfermidade venrea-barbot-. No porque me tenha contagiado isso Roger, ele no, mas...Stephen Bonnet? 
      -OH!-murmurei. Alarguei uma mo para lhe estreitar o brao-. No se preocupe, carinho. No tem nada.
              Ela aspirou fundo e deixou escapar o ar; seus ombros perderam parte da tenso.
      -Est segura?-insistiu-. Pode afirm-lo? Encontro-me bem, mas me ocorreu...As mulheres no sempre tm sintomas.
      - cierto-confirmei-, mas os homens sim. Se Roger tivesse contrado algo feio, contagiado por ti, eu me teria informado faz muito tempo.
              Sua cara tinha empalidecido um pouco, mas ante isso voltou o rubor. Tossiu, lanando bafo com o flego.
      -Que alvio! Assim Jemmy est bem? Est segura? 
      -Por completo-la tranqilizei. Ao nascer lhe tinha posto nos olhos gotas de nitrato de prata que tinha conseguido obter com grandes gastos e muita dificuldade, 
s no caso de. Mas estava segura. Alm de no apresentar nenhum sintoma especfico de enfermidade, Jemmy refletia um ar  de sade que fazia incrvel qualquer idia 
de infeco.
      - por isso pelo que te interessaste pelos anticoncepcionais?-perguntei, saudando com a mo para o acampamento dos MacRaes-. se preocupa ter mais filhos, se 
por acaso...
      -OH, no! Quer dizer...No tinha pensado nas enfermidades venreas at que mencionou a sfilis; s ento me ocorreu a horrvel ideia...de que ele pudesse...-Interrompeu-se 
para pigarrear-.N...no, s queria saber.
              Brianna estava muito s; embora carecamos de coisas importantes, como antibiticos e instalaes mdicas sofisticadas, eu lhe tinha recomendado no 
subestimar o poder da simples higiene e a boa alimentao.
              No, pensei, observando a potente curva de suas costas, enquanto levantava a pesado equipe por cima de uma raiz emaranhada no atalho. No era isso. 
Embora tivesse motivos para preocupar-se, basicamente no era uma pessoa temerosa.
              Roger? Tal e como estavam as coisas, qualquer pensaria que o melhor era conceber quanto antes outro menino, que fora definitivamente filho dele. Isso 
ajudaria a cimentar o novo matrimnio. Por outra parte, o que aconteceria nesse caso? Roger estaria mais feliz, mas Jemmy...
              Ao aceitar ao menino como filho prprio, Roger fazia um juramento de sangue. Mas a natureza humana  como ; embora eu estava segura de que ele jamais 
o descuidaria ou abandonaria, era muito possvel que seus sentimentos trocassem quando tivesse uma vergntea que fora seu filho sem lugar a dvidas. arriscaria-se 
Bree a isso?
              Pensando-o bem, pareceu-me que ela atuava com prudncia ao esperar. Dava tempo ao Roger para que estabelecesse um vnculo estreito com o Jemmy, antes 
de complicar a situao familiar com outro menino. Era muito sensato, sim...e Brianna era uma pessoa eminentemente sensata.
              S quando chegamos finalmente ao claro onde atendia as consultas pela manh, me ocorreu outra possibilidade.
      -Podemos ajudar, senhora Fraser?
              Dois dos meninos Chisholm, os  menores dos vares, apressaram-se a nos liberar de nossa pesada carga e, sem que ningum lhes dissesse nada, comearam 
imediatamente a ajudar. No tinham mais de oito e dez anos; enquanto os via trabalhar, compreendi que nessa poca um moo de doze ou quatorze anos podia ser um homem 
adulto.
              Brianna tambm sabia. Eu estava segura de que jamais abandonaria ao Jemmy enquanto ele a necessitasse. Mas, e mais adiante? O que passaria quando ele 
abandonasse a sua me?
              Abri meu cofre e comecei a preparar todo o necessrio para o trabalho da manh.
              Brianna tinha vinte e trs anos. Jemmy podia chegar  independncia total quando ela tivesse ao redor de trinta e cinco. E se j no necessitava de 
seus cuidados..., ela e Roger poderiam retornar. Voltar para sua prpria poca, a um tempo seguro, reatar a vida que lhes correspondia por direito.
              Mas s se no tinha outros filhos que, por indefesos, retiveram-na aqui.
      -bom dia voc tenha, senhora.
              Um homem baixo e j amadurecido, de p ante mim, era o primeiro paciente da manh. Embora na cara lhe arrepiava a barba de uma semana, estava notavelmente 
plido, com aspecto viscoso, to irritados os olhos pela fumaa e o usque que seu mal era visvel imediatamente. A ressaca era endmica entre os pacientes da manh.
      -Tenho um pequeno retortijn nas tripas, senhora-disse, tragando saliva com ar desventurado-.Voc teria por acaso algo que me acalme isso?
      -Tenho o mais adequado-le assegurei, jogando mo de uma taa-.Ovo cru e um pouco de ipecacuana. depois de um bom vmito se sentir como novo.
      
      ...
      O consultrio funcionava na margem do grande claro, ao p da colina, onde pelas noites ardia a grande fogueira da congregao
              Uma vez atendido o cavalheiro da ressaca, produziu-se uma breve pausa. Ento pude concentrar minha ateno no Murray MacLeod, que se tinha instalado 
a pouca distncia. 
              Notei que Murray tinha comeado cedo: junto a seus ps, a terra estava escura; as cinzas pulverizadas, empapadas e viscosas de sangue. Estava atendendo 
a um dos primeiros pacientes, um fornido cavalheiro, cujo nariz vermelho e esponjoso, assim como a papada frouxa, eram testemunho de toda uma vida de excessos alcolicos. 
face  chuva e o frio, tinha ao homem em camisa, com a manga recolhimento e o torniquete em seu stio; sobre os joelhos  do paciente, a terrina da sangria.
              Eu estava a trs metros largos do tamborete onde Murray praticava seu ofcio; mesmo assim, e apesar de quo tnue era a luz matinal, notei que o paciente 
tinha os olhos amarelos como a mostarda.
      -Doena heptica-le disse a Brianna, sem me incomodar em baixar a voz-.A ictercia se v daqui, verdade?
      -Humores biliosos-anunci MacLeod em voz bem alta, enquanto abria sua navalha de sangrar-.Um excesso de humores. Claro como a gua.
              Murray, mido, moreno e pulcro no vestir, no tinha uma presena muito impressionante, mas era enrgico em suas opinies, sim.
      -Cirrose causada pela bebida, diria yo-continuei.
      -Um impacto da blis, devido ao desequilbrio do escarro.- Murray me fulminou com o olhar. Obviamente pensava que eu tinha inteno de lhe roubar, se no o 
paciente, sim o efeito.
              Sem lhe emprestar ateno, inclinei-me para examinar ao homem, que pareceu alarmado por meu escrutnio.
      -Voc tem um vulto duro justo debaixo das costelas,  direita, verdade?-assinalei amavelmente-.Sua urina  escuro e seus sedimentos, negras e sanguinolentas. 
Equivoco-me?
              O homem negou com a cabea, boquiaberto. Comevamos a chamar a ateno.
      -Ma-dreeee.-Brianna estava de p detrs de mim. Enquanto saudava o Murray com a cabea, inclinou-se para me dizer ao ouvido-:O que pode fazer contra a cirrose, 
mame? Nada!
              Interrompi-me, me mordendo os lbios. Ela tinha razo: levada pelo impulso de me exibir fazendo um diagnstico (e de impedir que Murray utilizar com 
ele sua navalha oxidada), tinha passado por cima o detalhe de que no podia oferecer nenhum tratamento alternativo.
              O paciente passava o olhar de um a outra, obviamente intranqilo. Fiz um esforo por lhe sorrir e inclinei a cabea ante o Murray.
      -O senhor MacLeod o h dito bem-disse, forando as palavras entre os dentes-.Doena heptica, sem dvida, causada por um excesso de humores. 
              A cara do Murray, at ento tensa de suspicacia, ficou comicamente estupefata ante minha capitulao. Brianna me adiantou um passo para aproveitar 
o momento.
      -H um enfeitio-dijo, sonrindole encantadoramente-. para...n...afiar a faca e facilitar o fluxo dos humores. me permita demonstrar-lhe 
              antes de que ele pudesse apertar os dedos, Bree lhe arrebatou a navalha da mo e girou para nossa pequena fogueira, onde um caldeiro cheio de gua 
fumegava desde seu trpode.
      -No nome do Miguel, que blande as espadas, o defensor das almas, entoou.
              Ela elevou a navalha em um sinal da cruz grande e lenta, olhando de um lado a outro para assegurar-se de contar com a ateno dos pressente. Assim 
era: estavam fascinados. Mais alta que a maioria dos curiosos, com os olhos azuis entreabridos em concentrao, parecia-se muito ao Jamie em alguma de suas atuaes 
mais valorosas. S cabia esperar que fora to hbil como ele.
      -Benze este fio pela cura de seu servente-disse Bree, elevando os olhos ao cu, enquanto sustentava a navalha sobre o fogo, como os sacerdotes que oferecem 
a Eucaristia. Algumas borbulhas atravessavam a gua, mas ainda no tinha chegado  ebulio.
      -Benze este fio que tem que extrair sangue, que tem que verter sangue, que tem que...n...tirar o veneno do corpo de seu muito humilde peticionrio. Benze-lhe 
fio...benze o fio...benze o fio na mo de seu humilde servidor. Obrigado sejam dadas a Deus pelo brilho do metal.
      " Obrigado sejam dadas a Deus pelo carter repetitivo das oraes galicas" , pensei cinicamente.
              E, graas a Deus!, a gua estava fervendo. Ela baixou a folha breve e curva at a superfcie, cravando na multido um olhar carregado de inteno, 
e declamou:
      -O que a pureza das guas que brotaram do flanco de Nosso Senhor Jesus Cristo impere sobre este fio!
              Afundou o metal na gua e ali o sustentou at que o vapor, ao elevar-se sobre o marco de madeira, avermelhou-lhe os dedos. Ento levantou a navalha 
e a passou apressadamente  outra mo, elevando-a no ar enquanto agitava subrepticiamente a mo escaldada a suas costas.
              Que a bno de San Miguel, que defende contra os demnios, impere sobre este fio e a mo de quem o branda, para a sade do corpo, para a sade da 
alma. Amm!
              E deu um passo adiante para oferecer ceremoniosamente o instrumento ao Murray, com a manga para diante. MacLeod, que no era nada parvo, jogou-me um 
olhar em que uma aguda suspeita se mesclava com a relutante apreciao da percia teatral de minha filha. 
      -No toque a hoja-recomendei, com um sorriso-. Romperia o feitio.Ah!, e deve repetir o encantamento cada vez que a use. Tenha presente que deve fazer-se com 
gua fervendo.
      -Hummmm-resmungou ele.
              Mas agarrou a navalha pela manga, cuidadosamente. depois de saudar a Brianna com um breve movimento de cabea, voltou-se para seu paciente. E eu, para 
a minha: uma jovencita com urticria. Brianna me seguiu, muito satisfeita de si mesmo. detrs de mim se ouviu o suave grunhido do doente e o ressonante repico do 
sangue que caa na terrina metlica.
              Sentia-me bastante culpado pelo paciente do MacLeod, mas Brianna tinha toda a razo: eu no podia fazer absolutamente nada por ele, dadas as circunstncias. 
Um cuidadoso tratamento a comprido praa, acompanhado de excelente alimentao e total abstinncia de lcool, podia lhe prolongar a vida. As duas primeiras possibilidades 
eram muito remotas; a terceira no existia.
              Enquanto o salvava de uma possvel infeco generalizada, Brianna tinha aproveitado a oportunidade de proporcionar o mesmo amparo aos futuros pacientes 
do MacLeod. Mas no pude menos que sentir uma insistente culpa por no ter feito algo mais. Mesmo assim, ainda se aplicava o primeiro princpio mdico que tinha 
aprendido em meus tempos de enfermeira, nos campos de batalha da Frana: trata ao paciente que tem ante ti.
      -te aplique este ungento-disse severamente a jovencita da urticria-.E no te arranhe!  
      
      

      
      4
      Presentes de bodas
      
              O cu no se limpou, mas no momento, a chuva tinha cessado. Entretanto, ainda havia desassossego no ar; as nuvens de fumaa se levantavam como fantasmas 
entre as rvores.
              Uma dessas colunas cruzou o atalho diante do Roger, quem, concentrado como estava em sua lista mental de recados que cumprir esse dia, girou para evit-la.
              Primeiro iria  carreta dos funileiros, a comprar alguma pequenez como presentes de bodas para a Brianna. O que gostaria? Uma jia, uma cinta? Tinha 
muito pouco dinheiro, mas precisava celebrar a ocasio com algum presente.
              Lhe teria gostado de lhe pr seu anel no dedo, quando pronunciassem seus votos matrimoniais, mas ela insistia em que o rubi cabujn de seu av serviria 
perfeitamente; ficava bem e no faria falta gastar dinheiro em outro anel. Bree era pragmtica, s vezes at o chateio, em contraste com a nervura romntica do Roger.
              Teria que ser algo prtico, mas ornamental. Uma bacinilla grafite, por exemplo? A ocorrncia lhe fez sorrir, mas a idia do prtico persistia, tinta 
com certa dvida.
              Recordava vividamente  senhora Abercrombie, quem uma noite, em meio do jantar, tinha chegado  casa paroquial em estado de histeria, dizendo que tinha 
matado a seu marido e perguntando o que devia fazer. O reverendo Wakefield, deixando a senhora a cuidado de sua ama de chaves, dirigiu-se  residncia dos Abercrombie, 
em companhia do Roger, que por ento era ainda adolescente.
              Encontraram ao marido da mulher no cho da cozinha; felizmente, ainda estava com vida, embora enjoado e sangrando profusamente de uma pequena ferida 
no couro cabeludo, conseqncia de um golpe dado com a prancha eltrica de vapor que lhe tinha agradvel a sua esposa, em ocasio do vigsimo terceiro aniversrio 
de bodas.
      -Mas ela me disse que a prancha velha chamuscava os guardanapos!-repetia o senhor Abercrombie, a queixosos intervalos, enquanto o reverendo lhe cobria habilmente 
a ferida com esparadrapo e Roger limpava a cozinha.
              Foi a vvida lembrana daquelas manchas sangrentas no linleo gasto o que acabou por decidi-lo. Por pragmtica que Bree fora, tratava-se de suas bodas. 
Para bem ou para mau, at que a morte nos separe. Procuraria algo romntico, o mais romntico que se pudesse conseguir por um xelim e trs peniques.
              Entre as agulhas das pceas prximas distinguiu um brilho vermelho. deteve-se inclinando-se para espiar por um oco entre os ramos.
      -Duncan?-disse-.  voc?        
              Duncan Innes saiu de detrs das rvores, assentindo com ar tmido. Ainda levava o tartn escarlate dos Cameron, mas se tinha tirado a esplndida jaqueta 
para envolv-los ombros com o extremo de sua manta no cmodo estilo antigo das Terras Altas.
      -Podemos falar um momento, ao Smeraich?-perguntou.
      - obvio. Vou  carreta dos funileiros; me acompanhe. 
              Roger voltou para o caminho, onde a fumaa j tinha desaparecido, e ambos partiram atravs da montanha, um ao lado do outro, como bons companheiros. 
O jovem no dizia nada, esperando cortesmente a que Duncan escolhesse seu modo de iniciar a conversao. Se tinha algo que dizer, diria-o ao seu devido tempo. Ao 
fim, Duncan tomou flego e comeou:
      -MAC Dubh me disse que seu papai era pastor presbiteriano.  certo isso?
      -Fui-confirm Roger, bastante surpreso pelo tema-. Quer dizer...quando mataram a meu verdadeiro pai, fui adotado por um tio de minha me, ele era pastor.
              Enquanto falava,  Roger se perguntou por que tinha a necessidade de dar explicaes, se durante quase toda sua vida tinha chamado " pai"  ao reverendo. 
Ao Duncan dava igual, sem dvida.
              Seu companheiro estalou a lngua em sinal de simpatia.
      -Mas, ento,  presbiteriano, verdade? Ouvi o MAC Dubh falar disso.
              em que pese a suas bons maneiras de sempre, sob o bigode desigual do Duncan apareceu um breve sorriso.
      -Sim, j imagino-replic Roger, seco. O estranho teria sido que algum, em toda a congregao, no tivesse ouvido o MAC Dubh falar do assunto.
      -Bom, o caso  que eu tambm sou presbiteriano-reconheceu Duncan.
              O jovem o olhou atnito.        
      -Voc? Mas se eu pensava que foi catlico!
              Seu companheiro encolheu o ombro do brao amputado, com um leve rudo de sobressalto.
      -No. Meu bisav materno era presbiteriano e muito slido em suas crenas, compreende?- Duncan sorriu com certo acanhamento-. Quando me chegaram estavam muitos 
diludas. Mame era religiosa, mas a papai no gostava de muito a igreja, e a mim tampouco. E quando conheci o MAC Dubh...bom, ele no ia pedir me que o acompanhasse 
a missa os domingos, verdade?
              Roger assentiu, com um breve grunhido de compreenso. Duncan e Jamie se conheceram na priso do Ardsmuir, depois do levantamento. Embora a maioria 
dos soldados jacobitas eram catlicos, tambm havia entre eles protestantes de diferentes variedades...que provavelmente guardavam silncio sobre seu credo ao conviver 
estreitamente com uma maioria de catlicos. Tambm era verdade que, ao dedicar-se posteriormente ao contrabando, Jamie e Duncan tinham tido poucas oportunidades 
para discutir de religio.
      -Sim, compreendo. E suas bodas com a senhora Cameron, esta noite...
              O outro assentiu com a cabea, mascando reflexivamente uma ponta do bigode.
      -Isso. Crie que tenho a obrigao de dizer algo?
      -A senhora Cameron no sabe? Jamie tampouco?
              Duncan sacudiu silenciosamente a cabea, fixo os olhos no barro pisoteado do caminho. Certamente, a opinio que mais importava era a do Jamie, antes 
que a da Yocasta Cameron. Evidentemente, Duncan no tinha acreditado que as diferenas religiosas tivessem importncia; quanto a Yocasta, Roger nunca tinha ouvido 
dizer que fora devota absolutamente. Mas a reao do Jamie ante o presbiterianismo de seu futuro genro tinha alarmado ao pobre homem.
      -MAC Dubh disse que foste falar com o padre.- Duncan o olhou de soslaio e pigarreou, avermelhado-. Lhe...obrigou a um batismo romano?
      -N...no-respondeu. Outro leque de fumaa se abateu sbitamente sobre eles, fazendo-o tossir-. No-repetiu, enxugando-os olhos lagrimeantes-. Mas no batizam 
aos que j receberam os leos. Voc est batizado?
      -OH!, fui-exclam Duncan, como se isso o reanimasse-. Sim, quando era...quer dizer...-Uma vaga idia cruzou por sua mente, mas foi descartada com um novo encolhimento 
de ombros-.Sim.
      -Bem. me deixe pensar um pouco, quer?
              A carreta dos funileiros estava j  vista, acurrucada como um boi,  com lonas e mantas protegendo a mercadoria da chuva. Mas Duncan se deteve; obviamente 
queria resolver esse assunto antes de passar a outra coisa. esfregou-se o dorso do pescoo, pensativo.
      -No-disse por fim-, acredito que no precisa dizer nada. No haver missa; s o ofcio matrimonial, que  mais ou menos o mesmo. Aceita a esta mulher, aceita 
a este homem, na pobreza e na riqueza, etctera.
              Duncan assentiu com a cabea, muito atento.
      -Isso posso diz-lo, fui-dijo-.Embora me custe um pouco, isso de na riqueza e na pobreza. Voc sabe do que falo.
              Disse-o sem nenhuma ironia, como se enunciasse um fato bvio; a reao do Roger ante o comentrio o agarrou obviamente por surpresa.
      -No o disse com m inteno-se apressou a esclarecer-.Quer dizer...me referia a que...
              O jovem agitou uma mo, tratando de descartar o tema.
      -No tem importncia. A verdade no ofende, como dizem, no?
              E era a verdade, ambos estavam na mesma situao: um homem sem propriedades nem dinheiro que se casava com uma mulher rica ou com grandes possibilidades 
de s-lo.
              Nunca lhe tinha ocorrido pensar que Fraser fora rico, talvez por seu aspecto modesto, talvez simplesmente porque ainda no o era. Mas o certo  que 
possua dez mil acres de terra. Embora uma boa parte era ainda territrio ermo, no tinha por que continuar assim. J havia arrendatrios nessa propriedade, e logo 
haveria mais. E quando esses arrendamentos comeassem a render dinheiro, quando houvesse moendas nos arroios, assentamentos, lojas e botequins, quando o punhado 
de vacas, porcos e cavalos se multiplicou at formar grandes rebanhos de bom gado baixo  atenta vigilncia do Jamie...ento Fraser seria muito rico. E Brianna era 
sua nica filha biolgica.
              E ali estava tambm Yocasta Cameron, j visivelmente rica, que tinha manifestado de nomear herdeira a Brianna. A moa se negou categoricamente a aceitar 
a idia, mas Yocasta era to teimosa como sua sobrinha e tinha mais anos de prtica. Alm disso pouco importava o que Brianna fizesse ou dissesse: a gente suporia...
              A fumaa lhe tinha deixado no fundo da boca um amargo sabor a cinza. depois de tragar-lhe dedicou ao Duncan um sorriso torcido.
      -Fui-dijo-. Bom para bem ou para mau. Suponho que elas nos tero encontrado algo bom, verdade?
              Duncan sorriu com certa melancolia.
      -Algo bom, sim. Oua, seriamente crie que no haver problemas com o da religio? Eu no gostaria que a senhorita Eu ou MAC Dubh pensassem mal de mim por no 
haver dito nada.  que no queria armar um revo sem necessidade.
      -No, claro que no-respondeu Roger. Logo aspirou fundo, apartando o cabelo molhado da cara-. Acredito que no haver nenhum problema. Quando falei com o...com 
o sacerdote, a nica condio que me imps foi que devia permitir que nossos filhos recebessem o batismo catlico. Mas como voc e a senhora Cameron no tm que 
pensar nisso...
              Deixou a frase delicadamente inconclusa, mas seu companheiro pareceu aliviado.
      -OH, no!-disse, com uma risada algo nervosa-. No acredito que isso deva me preocupar.
      -Pois bem...-Roger se obrigou a sorrir e lhe deu uma palmada nas costas-. Que tenha sorte.
      -Tambm voc, ao Smeraich.
              O jovem esperava que Duncan seguisse seu caminho, posto que sua pergunta estava respondida. Entretanto, o homem seguiu caminhando lentamente a seu 
lado, junto  fila de carretas, estudando as mercadorias exibidas com uma leve enruga na frente.
              Sua grande estatura permitia ao Roger olhar por cima das cabeas da maioria; assim avanava a passo lento, jogando uma olhada aqui e l, tratando de 
imaginar como reagiria Brianna ante isso.
              Era formosa, mas no dava importncia a sua beleza. Em realidade, ele logo que tinha podido dissuadir a de cort-la maior parte de sua gloriosa juba 
vermelha; incomodava-lhe que lhe manchasse continuamente e que Jemmy atirasse dela. Possivelmente uma cinta fora um presente prtico. Ou um pente de prender cabelo 
decorado. No, muito melhor um par de algemas para o pequeno.
              Mas se deteve junto a um posto de tecidos, agachando-se para olhar debaixo da lona. Duncan, com  a manta levantada at as orelhas para proteger-se 
contra os golpes de vento, aproximou-se para ver o que estava olhando.
      -Procuram algo em especial, senhores?-A vendedora se inclinou para eles sobre sua mercadoria, apoiando o peito nos braos cruzados, e dividiu entre ambos um 
sorriso profissional.
      -Fui-dijo Duncan, inesperadamente-.Um metro de veludo. voc tem algo assim? Que seja de boa qualidade; a cor no importa.
              A mulher arqueou as sobrancelhas (at com sua roupa de domingo, Duncan no tinha cara de petimetre), mas no fez comentrios enquanto rebuscava entre 
seus diminudas estoque.
      -Sabe se  senhora Claire fica um pouco de lavanda?-perguntou ele, voltando-se para o Roger.
      -Sim tem, fui-confirm Roger, desconcertado.
      - uma idia que tive-.A senhorita Eu sofre de enxaquecas e no dorme muito bem. Minha me tinha um travesseiro cheio de lavanda e assegurava que ficava dormida 
como um beb assim que apoiava a cabea nela. E me ocorreu que uma parte de veludo, para que o apie na bochecha, compreende?...e se a senhora Lizzie me costurasse 
isso...
              " Na sade e na enfermidade..." 
              Roger fez um gesto aprobatorio. sentia-se comovido e um pouco envergonhado ante tanta considerao. Tinha tido a impresso de que as bodas do Duncan 
e Yocasta era, principalmente, questo de convenincia e bons negcios. Talvez o era, sim, mas a falta de uma louca paixo no impedia a ternura nem o gesto considerado, 
no  verdade?
              Realizada sua compra, Duncan se afastou com o veludo bem protegido sob sua manta, enquanto Roger percorria lentamente o resto dos postos. Selecionava, 
sopesava e descartava mentalmente, espremendo o crebro por decidir qual dessa mirade de objetos podia agradar a sua noiva. Pendentes? No, o meninos atiraria deles. 
O mesmo com um colar...ou uma cinta para o cabelo, bem pensadas as coisas.
              Sua mente seguia rondando as jias. Pelo general, ela as usava muito pouco, mas durante toda a congregao tinha brilhante o anel de rubi de seu pai, 
que Roger lhe tinha dado no momento de aceitar-se para sempre. Jem o babava de vez em quando, mas isso no lhe faria mal.
              Sbitamente se deteve, deixando que a multido flura a seu redor. Mentalmente, via o ouro, o rosado intenso do rubi cabujn vvido em seu dedo comprido 
e plido. O anel de seu pai.  obvio, como no se precaveu antes?
              Embora Roger tivesse recebido essa jia do Jamie, no era seu dono e no podia d-la a sua vez. E de repente desejava com desespero lhe dar a Brianna 
algo que fora realmente dele.
              A passo decidido, retornou a uma carreta cujas mercadorias de metal cintilavam at sob a chuva. Tinha observado que o dedo anelar da Brianna tinha 
a grossura de seu mindinho.
      -ste-decidiu, levantando um anel troca. Era feita de fios trancados de cobre e bronze; certamente lhe poria o dedo verde em poucos minutos. " muito melhor" 
, pensou enquanto pagava. Embora no o usasse constantemente, levaria a marca que a identificaria como dela.
              " Por este motivo abandonar a mulher a casa de seu pai, unir-se a seu marido e os duas sero uma mesma carne." 
      
      
      

      5
      Distrbios
      
              Apesar da garoa, uma considervel multido de pacientes esperava seu turno na consulta. Despedia-me de uma jovem afetada por um bcio incipiente, lhe 
aconselhando procurar uma quantidade de pescado seco (ao viver to afastados do mar no teria a segurana de consegui-lo sempre fresco) e comer todos os dias um 
pouco, por seu alto contedo em iodo.
      -O seguinte!-chamei, me apartando o cabelo molhado dos olhos.
              A multido se abriu como o Mar Vermelho, deixando ver um ancio mido, to fraco que parecia um esqueleto ambulante, vestido com farrapos; trazia nos 
braos uma confuso de peles. Quando o tive perto, descobri a que se devia a deferncia da gente: fedia a mapache morto.
      -Meu co est ferido-anunci o homem. depois de depositar ao animal em minha mesa, apartando bruscamente os instrumentos, assinalou um rasgo no flanco do animal.-. 
Voc o atender.
              No tinha dado a sua frase um tom de solicitude, mas a fim de contas meu paciente era o co, que parecia bastante mais corts. De tamanho mdio, tinha 
as patas curtas, a pelagem hirsuta e umas orelhas desflecadas. Ofegava plcidamente, sem fazer intento algum de escapar.
      -O que lhe aconteceu?-perguntei, enquanto punha fora de perigo a vasilha cambaleante.
      -brigou-se com uma mapache.
      -Hum-murmurei, observando ao animal com gesto dbio. Tendo em conta sua improvvel ascendncia e sua evidente cordialidade, qualquer aproximao a um mapache 
fmea se teria devido antes  luxria que  ferocidade. Para confirmar essa impresso, o animal projetou para mim uns quantos centmetros de seu rosado membro reprodutor.
      -Gosta, mamem Bree, muito sria.
      -Que honra!-murmurei, rogando que a seu proprietrio no lhe ocorresse fazer alguma demonstrao similar.
      -Tesouras-ped, j resignada, estendendo a palma.
              depois de recortar a pelagem condensada em torno da ferida, tive o prazer de comprovar que no havia muita tumefao, nem outros sinais de que estivesse 
infectada. O talho tinha coagulado bem; pelo visto tinha passado algum tempo. Perguntei-me se o co tinha encontrado seu castigo na montanha. O ancio no me resultava 
conhecido, nem falava com entonao escocesa. Parecia duvidoso que tivesse participado da congregao.  
      -N...quer voc lhe sujeitar a cabea, por favor?-pedi-lhe.
              O dono, sumido em suas tristes reflexes, no fez gesto algum de colaborar.
      -Vejamos, a bhalaich, vamos ver. Disse uma voz tranqilizadora a meu lado. 
              Ao me voltar, surpreendida, vi que o co farejava com interesse os ndulos do Murray MacLeod. Ante minha cara de assombro ele se encolheu de ombros 
com um sorriso; logo se inclinou para a mesa, aferrando ao estupefato animal pela pele do pescoo e o focinho.
      -Aconselharia-lhe que atuasse depressa, senhora Fraser-disse.
              Sujeitando com firmeza a pata mais prxima, comecei. O animal reagiu retorcendo-se com vigor em um intento de escapar. Por fim conseguiu liberar-se 
do Murray; imediatamente saltou fora da mesa, lanando-se para o espao aberto, com as suturas a rastros. Joguei-me sobre ele e ambos rodamos entre as folhas e o 
barro, dispersando aos curiosos, at que uma ou duas almas audazes foram em meu auxlio e imobilizaram ao vira-lata contra o cho, para que eu pudesse terminar meu 
trabalho.
              Atei o ltimo n, cortei o fio encerado com a navalha do Murray (embora pisoteada na resistncia, por sorte no se quebrado) e finalmente retirei o 
joelho com que sujeitava o flanco do sabujo, ofegando quase tanto como ele.
              Os espectadores aplaudiram e eu fiz uma reverncia, um pouco aturdida. Murray se inclinou para levantar o co e o ps de novo sobre a mesa, junto a 
seu proprietrio.
      -Seu co, senhor-lhe disse, com um ofego sibilante.
              O ancio apoiou uma mo na cabea do animal e nos olhou com o sobrecenho franzido, como se no soubesse como interpretar esse novo enfoque de cirurgia 
em equipe.
              Logo jogou uma olhada aos soldados, por cima de seu ombro, e finalmente voltou para mim.
      -Quais so?-perguntou em tom de profundo desconcerto.
              Sem esperar resposta, afastou-se encolhendo os ombros. O co desceu de um salto e, com a lngua pendurando, partiu junto a seu dono em busca de novas 
aventuras.
              Aspirei profundamente, sacudi o barro de meu avental e, depois de dar as graas ao Murray com um sorriso, fui lavar me as mos antes de atender ao 
prximo paciente.
      -Ja!-exclamou Brianna pelo baixo-.Aqui o tem!
              E levantou apenas o queixo, assinalando algo a minhas costas. Girei-me para olhar.
              O seguinte paciente era um cavalheiro. Um cavalheiro de verdade, a julgar por sua roupa e seu porte, ambos bastante por cima do habitual. Eu o tinha 
visto rondar pelo extremo do claro, observando alternativamente meu centro de operaes e o do Murray, como se se perguntasse a qual dos mdicos brindar o privilgio 
de atend-lo. Pelo visto, o incidente do co tinha inclinado a balana em meu favor.
              Joguei uma olhada ao Murray, que estava visivelmente aborrecido. Os cavalheiros estavam acostumados a pagar em dinheiro. Encolhi-me um pouco de ombros, 
como lhe pedindo desculpas. Logo, com um simptico sorriso profissional, indiquei ao novo paciente que tomasse assento em meu tamborete.
      -voc tome assento, senhor, e me diga onde lhe di.
              O cavalheiro era um tal senhor Goodwin, do Hillsborough; sua principal doena, uma molstia no brao. Mas notei que esse no era seu nico problema; 
uma ferida recentemente cicatrizada serpenteava pelo flanco de sua cara, estirando a comissura do olho para baixo em um entorto os olhos feroz.
              Apalpei cuidadosamente o brao e o ombro, lhe pedindo que o levantasse e o movesse um pouco, enquanto o para breves pergunta. O problema era bastante 
bvio: deslocou-se o cotovelo; embora felizmente a leso se reduziu por si s, parecia ter um tendo esmigalhado, que agora estava apanhado entre o olcranon e a 
cabea da ulna; desse modo, qualquer movimento do brao piorava a leso. 
              Isso no era tudo; apalpando cautelosamente para baixo, no menos de trs fraturas simples no antebrao, j ao meio soldar. No todo o dano era interno: 
observei os restos descoloridos de dois grandes moretones no antebrao, em cima das fraturas; cada um deles era uma mancha irregular, de tom amarelo esverdeado; 
no centro, o negro avermelhado da hemorragia profunda. " Se estas no forem leses recebidas em defesa prpria-me dije,yo- sou a China" 
      -Bree, busca me umas tabuletas adequadas, quer?-pedi.
              Brianna assentiu sem dizer nada e despareci, enquanto eu lubrificava as contuses mais leves do senhor Goodwin com um ungento de cayeput.
      -Como se lesou, senhor Goodwin?-perguntei em tom indiferente, enquanto escolhia uma atadura de linho-. Parece ter liberado um verdadeiro combate. Espero ao 
menos que seu competidor tenha ficado ainda pior.
              O senhor Goodwin sorriu fracamente ante minha ocorrncia.
      -Pois sim, foi todo um combate-dijo-, embora no me incumbia. Mas bem foi questo de m sorte: poderia-se dizer  que me encontrava em mau lugar no pior momento. 
Mesmo assim...
              Fechou por ato reflito o olho estirado ao tocar eu a cicatriz. A tinham saturado sem habilidade, mas estava bem fechada.
      -De varas?-comentei-.O que aconteceu?
              Embora deixou escapar um grunhido, no parecia molesto pela necessidade de me contar isso 
      -Sem dvida voc escutou ao oficial, senhora,  que leu as palavras do governador com respeito  atroz conduta dos bagunceiros.
      -Duvido que as palavras do governador tenham escapado  ateno de alguien-murmurei, atirando brandamente a pele com a ponta dos dedos-.De maneira que voc 
esteve no Hillsborough.  isso o que me est dizendo?
      - claro que sim.-Suspirou, mas se relaxou um pouco, vendo que minhas mos pinavam sem fazer mal-. Em realidade vivo no Hillsborough. E se me tivesse ficado 
tranqilamente em casa, como me rogava minha boa esposa...-Sorriu pela metade, com tristeza-. Sem dvida teria podido escapar.
      -Como diz o refro ingls, a curiosidade matou ao gato.- Seu sorriso me tinha feito descobrir algo; pressionei brandamente com o polegar em uma zona arroxeada 
da bochecha-.Algum lhe golpeou aqui com certa fora. Tem dentes quebrados?
              Pareceu um pouco surpreso.
      -Sim, senhora. Mas no  algo que voc possa reparar.
              Levantou-se o lbio superior, descobrindo um oco onde faltavam duas peas dentais. Um pr-molar tinha sido arrancado limpamente, mas o outro estava 
partido para a altura da raiz.
              Brianna, que chegava nesse momento com as tabuletas, emitiu um leve som de asco. Os outros dentes do senhor Goodwin, essencialmente inteiros, tinham 
incrustaes de sarro amarelo e as manchas pardas do tabaco mascado.
      -OH!, acredito que posso fazer algo-lhe assegurei, sem emprestar ateno a minha filha-.Di ao morder, verdade? No posso arrum-lo, mas sim extrair os restos 
do dente quebrado e tratar a gengiva para evitar infeces. Quem o golpeou?
              Apenas se encolheu de ombros, observando com um interesse algo apreensivo as tenazes reluzentes e o escalpelo de folha plaina que eu preparava.
      -A verdade, senhora,  que no sei bem. Eu s me aventurei a ir  cidade para visitar os tribunais. vou cercar julgamento contra algum em Virginia-explicou-, 
e me requer que presente alguns documentos para respaldar minha posio. Mas no pude realizar o trmite, pois a rua, diante dos tribunais, estava repleta de homens, 
muitos dos quais tinham ido armados so paus, ltegos e toscos instrumentos desse tipo. Sabia que meu amigo, o senhor Fanning, estava dentro, e comecei a me preocupar 
com ele.
      -Fanning...Se refere voc ao Edmund Fanning?
              Estava escutando s pela metade, enquanto procurava a melhor maneira de realizar a extrao, mas reconheci o nome. Farquard Campbell o tinha mencionado 
ao narrar ao Jamie os sangrentos detalhes dos distrbios que seguiram a Lei do Selo, poucos anos atrs. Fanning tinha sido renomado chefe de correios da colnia, 
lucrativo posto que provavelmente lhe custou bastante dinheiro. E pagou um preo at major quando foi obrigado a renunciar pela fora. Pelo visto, sua impopularidade 
tinha aumentado nos cinco anos transcorridos.
              O senhor Goodwin apertou os lbios, at desenhar uma linha de desaprovao.
      -Sim, senhora, desse cavalheiro se trata. E face s coisas escandalosas que a gente divulga sobre ele, comigo e com meus se comportou sempre como um bom amigo. 
Por isso, para ouvir que se expressavam sentimentos to lamentveis, essas ameaas contra sua vida, decidi ir em seu auxlio.
              O senhor Goodwin no tinha tido muito xito em sua galharda empresa.
      -Tratei de me abrir caminho entre a multido-disse, com a vista fixa em minha mo. Eu estava lhe acomodando o brao ao longo da tabuleta e dispondo debaixo 
a vendagem de linho-. Mas no pude fazer grande coisa. Logo que tinha chegado ao p da escalinata quando de dentro me chegou um forte grito. A multido retrocedeu, 
me arrastando consigo.
              Tiraram o Edmund Fanning do edifcio pela fora e o arrastaram pelas escadas; sua cabea golpeava cada um dos degraus.
      -E que rudo!-exclamou, estremecido-.O ouvia por cima da gritaria.
      -Cu Santo!-murmurei-. Mas no o mataram, verdade? No soube que morrera ningum no Hillsborough. Afrouxe o brao, por favor, e aspire fundo.
              O senhor Goodwin aspirou fundo, sim, mas s para lanar um forte bufo. Seguiu-lhe uma exclamao muito mais grave: eu acabava de girar o brao, liberando 
o tendo apanhado e alinhando corretamente a articulao.
      -Pois se no morreu, no foi por misericrdia dos desmandados-me disse-.Foi s porque decidiram que seria mais divertido arremeter contra o juiz maior. Ento, 
deixaram ao Fanning inconsciente ali atirado para correr ao interior do edifcio. Outro amigo e eu nos apressamos a levantar o pobre homem. Quando tratvamos de 
lev-lo a um refgio prximo, ouvimos gritos a nossas costas. Imediatamente nos atacou a multido. Foi assim como me fizeram isto-se tocou o brao recm entalado-y 
isto.
              Assinalou a cicatriz junto ao olho e o dente destroado. Logo me olhou com as grosas sobrancelhas contradas.
      -me crie, senhora: espero que alguns destes homens decidam revelar os nomes dos bagunceiros, a fim de que sejam justamente castigados por atos to brbaros. 
Mas se encontrasse aqui a quem me golpeou, no o entregaria  justia do governador.  obvio que no o faria!
              Enquanto apertava lentamente os punhos, cravou-me um olhar fulminante, como se suspeitasse que eu tinha a criminosa escondido sob a mesa. Brianna se 
removeu, inquieta. Sem dvida estava pensando, como eu, no Hobson e Fowles. Quanto ao Abel MacLennan, sem importar o que tivesse feito no Hillsborough, sentia-me 
inclinada a tom-lo por espectador inocente.
              depois de murmurar algumas palavras de simpatia sem me comprometer, tirei a garrafa de usque que utilizava como desinfetante e tosca anestesia. Ao 
v-lo, o senhor Goodwin pareceu reanimar-se notavelmente.
      -S um poquito disto para...n...fortalecer o espritu-sugeri, lhe enchendo uma taa. Assim lhe desinfetaria tambm o horrvel interior da boca-.Retenha-o 
um momento antes de tragar; isso lhe intumescer o dente.
              Voltei-me para a Brianna, enquanto Goodwin sorvia obedientemente uma boa quantidade de licor, com as bochechas infladas como as rs a ponto de cantar. 
Minha filha estava um pouco plida, mas no soube se lhe tinha afetado o relato do paciente ou a viso de sua dentadura.
      -Acredito que no vou necessitar te o resto da manh, querida-dije, lhe dando uns tapinhas-. por que no vais ver se Yocasta estiver lista para as bodas da 
noite?
      -Est segura, mame?
              At enquanto o perguntava, desatou-se o avental manchado de sangue e o reduziu a um novelo. Vendo que olhava para o alto do atalho, segui a direo 
de sua vista. Roger estava espreitando detrs de um arbusto, com os olhos fixos nela. Notei que lhe iluminava o rosto ao v-la. Isso despertou uma clida alegria. 
Eram um bom casal, sim.
      -Agora, senhor Goodwin, voc beba uma gota mais, para que possamos terminar com este pequeno assunto.
              Me voltando para meu paciente com um sorriso, agarrei as tenazes.
      
      
      
      
      

      6
      
      
      Pelos velhos tempos
      
              Roger esperava ao bordo do claro, observando a Brianna. De p junto Claire, a moa triturava ervas, media lquidos e fazia enfaixa. A pesar do frio, 
estava arregaada; no esforo de rasgar o robusto linho, os msculos de seus braos nus se enchiam e flexionavam sob a pele sardenta.
              No s ele o observou. Das pessoas que esperavam para ser atendidas pelos dois mdicos, a metade tambm estava contemplando a Brianna; algumas (as 
mulheres, em sua maioria), com expresso vagamente intrigada; outras (homens todos eles) com encoberta admirao, tinta de especulaes terrestres, que provocaram 
no Roger o impulso de sair ao claro e fazer valer imediatamente seus direitos sobre ela.
              "Bom, que olhem. Enquanto ela no lhes devolva o olhar, no importa, verdade?"
              Saiu de entre as rvores, apenas um pouco, e ela se girou imediatamente para olh-lo. O gesto levemente carrancudo desapareceu e sua cara se iluminou. 
Lhe devolveu o sorriso, com um movimento de cabea que a convidava a segui-lo, e ps-se a andar pelo atalho, sem esperar.
              Tinha abandonado o trabalho, e trazia algo na mo: um pacote pequeno, envolto em papel e mao com corda. Ele alargou uma mo para conduzi-la fora do 
atalho, para um bosquccillo onde a folhagem vermelha e amarelo dos arces oferecia uma agradvel sensao de intimidade.
              - Me perdoe por te apartar de seu trabalho - disse, embora no o sentia.
              - No importa. J queria escapar. Temo-me que no agento isso do sangue e as tripas. - Ela o admitiu com uma careta melanclica.
              - Me alegro - assegurou-lhe ele- . No  isso o que pretendo de uma esposa.
              - Pois te conviria - apontou ela, lhe jogando um olhar tristemente reflexivo- . Aqui, neste lugar, no te viria mal ter uma esposa capaz de te arrancar 
os dentes se lhe estragam e de te costurar os dedos se lhe os curtas machadando lenha.
              O dia cinza parecia lhe haver afetado o nimo... ou talvez era pelo trabalho que tinha estado fazendo. Ver o desfile de pacientes do Claire era deprimente 
para qualquer, salvo para a mesma Claire: toda uma srie de deformidades, mutilaes, feridas e enfermidades horrveis.
              Quanto menos, o que pensava dizer distrairia a Brianna dos detalhes mais horripilantes do sculo XVIII. lhe cobrindo a bochecha com uma mo, alisou 
uma das povoadas sobrancelhas vermelhas com o polegar gelado. Ela tambm tinha a cara fria, mas detrs da orelha, sob o cabelo, a pele estava morna... como seus 
outros lugares ocultos.
              - Eu encontrei o que desejava - disse com firmeza- . Mas o que me diz de ti? No teria preferido a um homem capaz de arrancar o couro cabeludo aos 
ndios e prover o jantar com sua escopeta? Tampouco eu gosto de muito o sangue, sabe?
              Nos olhos do Bree reapareceu uma fasca de humor, aliviando seu ar preocupado.
              - No, acredito que no necessito a um sanguinrio. Assim chama minha me a papai, mas s quando est zangada com ele.
              Roger riu.
              - E como me chamar voc quando te zangar? - provocou-a.
              Ela o olhou, como avaliando a pergunta, e a fasca se fez mais intensa.
              - OH, no se preocupe. Papai no quis me ensinar palavres em galico, mas do Marsali aprendi coisas muito feias em francs. Sabe o que significa um 
soulard? E um grand gueule?
              - Oui, MA petite chou, embora nunca vi uma couve com um nariz to vermelho. - Apontou-lhe com o dedo diretamente ao nariz; ela o esquivou, rendo.
              - Maudit chien!
              - Reserva algo para depois das bodas - aconselhou-lhe ele- . Pode te fazer falta.
              Logo a agarrou da mo para lev-la para uma pedra onde estivesse cmoda, ento voltou a reparar no pequeno pacote que ela trazia.
              - O que  isso?
              - Um presente de bodas. 
              Bree o alargou sustentando-o com dois dedos, enojada, como se fora um camundongo morto.
              - Fios de seda para bordar - explicou-lhe ela- . Da senhora Buchanan. Entre suas sobrancelhas tinha reaparecido a ruga e essa expresso...         
Preocupada? No, era outra coisa, mas Roger foi incapaz de saber o que era.
              - O que tem de mau a seda para bordar?
              - Nada, mas sabe para que ? - Bree agarrou novamente o pacote e o guardou no bolso que tinha pacote sob a angua. Olhava para baixo, colocando-as 
saias, mas ele notou que tinha os lbios apertados- . Disse que  para nossos panos morturios.
              A estranha verso que Brianna fazia desse trmino escocs, com seu acento bostniano, fez que Roger demorasse um momento em decifr-lo.
              - Panos mo... Mortalhas, quer dizer?
              - Sim. Ao parecer, meu dever de esposa  me sentar a fiar para minha mortalha, da manh seguinte  bodas. - Disse-o entre dentes apertados- . Desse 
modo j estar tecida e bordada quando mora de parto. E se for rpida para os trabalhos, terei tempo de fazer tambm uma para ti; de outro modo ter que ser seu 
seguinte algema quem a termine.
              Roger sentiu desejos de rir, mas era bvio que ela estava afligida.
              - A senhora Buchanan  uma idiota - disse ele, estreitando suas mos- . No deixe que se preocupe com suas tolices.
              Brianna o olhou por debaixo de suas sobrancelhas franzidas, dizendo com toda claridade:
              - A senhora Buchanan  ignorante, estpida e insensvel. Mas no se equivoca.
              -  obvio que sim - assegurou ele, fingindo segurana, embora com um pouco de apreenso.
              - Quantas algemas enterrou Frarquard Campbell? - inquiriu ela- . E Gdeon Oliver? E Andrew MacNeil?
              Nove, entre os trs. MacNeil se casaria essa noite pela quarta vez, com uma moa do Weaver's Gorge, de dezoito anos.
              - Mas Jenny Ban Campbell teve oito filhos e coveiro a dois maridos - contra-atacou, firme- . A prpria senhora Buchanan segue viva e abanando o rabo, 
depois de ter tido cinco crios. Vi-os: todos cabezahuecas, mas ss.
              Isso provocou uma relutante contrao de lbios, que o respirou a continuar:
              - No tem nada que temer, tesouro. Com o Jemmy no teve nenhuma dificuldade, no  verdade?
              - No? Pois se crie que isso  to fcil, a prxima vez pode faz-lo voc - espetou-lhe ela. Quis liberar sua mo, mas ele a reteve sem encontrar resistncia.
              - Mas est disposta a que haja uma prxima vez, verdade? Apesar do que diga a senhora Buchanan. - Embora seu tom era deliberadamente ligeiro, estreitou-a 
contra si, ocultando a cara em sua cabeleira, para que no visse quo importante era essa pergunta para ele.
              Bree, sem deixar-se enganar, apartou-se um pouco para trs. Seus olhos, azuis como a gua, investigaram nos dele.
              - Casaria-te comigo, apesar de ter que observar o celibato? - perguntou- .  o nico mtodo seguro. O azeite de atanasia no sempre d bom resultado. 
A tem ao Marsali!
              A existncia da pequena Joan era testemunho eloqente do inefectivo que resultava esse mtodo anticoncepcional. Mesmo assim...
              - Deve haver outros recursos - expressou ele- . Mas se quiser celibato... Pois bem, seja.
              Ela se ps-se a rir, porque a mo do Roger se esticou posesivamente contra seu traseiro, enquanto seus lbios tinham pronunciado a renncia. Mas a 
risada se apagou e o azul de seus olhos se tornou mais escuro, mais turvo.
              - Diz-o a srio, verdade?
              - Sim - assegurou ele. E era certo, embora a idia lhe pesava no peito como uma laje.
              Com um suspiro, lhe acariciou a bochecha com uma mo, seguindo a linha do pescoo, o oco da base. Pressionou com o polegar contra o pulso palpitante, 
lhe deixando sentir seus prprios batimentos do corao.
              Havia-o dito a srio, mas inclinou a cabea para ela e lhe buscou a boca. Precisava unir-se a ela com tanta urgncia que o faria de qualquer maneira 
possvel: com as mos, com o flego, a boca, os braos; sua coxa pressionou entre os do Bree, lhe separando as pernas. Ela apoiou uma mo contra seu peito, para 
recha-lo, mas logo a esticou convulsivamente, aferrando a um tempo a camisa e a carne. Seus dedos se cravaram profundamente nos msculos do peito. E logo ficaram 
pegos, com a boca aberta, ofegantes, entrechocando dolorosamente os dentes no arrebatamento do desejo.
              - No posso... no devemos... - Ele se largou. Sua mente, entorpecida, jogou mo de palavras fragmentadas. Nesse instante a mo do Bree encontrou o 
caminho sob sua saia escocesa: um toque frio e firme em sua carne acalorada. Ento perdeu por completo a faculdade da fala.
              - Uma ltima vez, antes de renunciar - disse Bree- . Em lembrana dos velhos tempos.
              E caiu de joelhos entre as folhas molhadas, arrastando-o com ela.
              Chovia outra vez; a cabeleira pulverizada-se o veteaba de umidade. Tinha os olhos fechados e a cara volta para a garoa; as gotas lhe golpearam a cara, 
rodando como lgrimas. Em realidade, no sabia se rir ou chorar.
              Roger jazia a seu lado, mdio cobrindo-a; seu peso era um consolo morno e slido; sua saia escocesa protegia da chuva as pernas nuas e enredadas dos 
dois. Ela curvou uma mo contra sua nuca, lhe acariciando o cabelo molhado e lustroso.
              Ento ele se incorporou, com um grunhido de urso ferido. Uma rajada fria golpeou o corpo do Bree, mido e quente ali onde tinham estado em contato.
              - Perdoa - murmurou ele- . Sinto muito, sinto muito. No deveria ter feito isso.
              - No importa - disse ela, incorporando-se.
              Tinha os peitos inchados pelo leite, que tinha empapado a camisa e o corpino em grandes mancha, lhe gelando a pele. Roger, ao not-lo, recolheu o manto 
que ela tinha deixado cair e lhe cobriu brandamente os ombros.
              - Me perdoe - repetiu, enquanto lhe apartava o cabelo emaranhado da cara.
              - No se preocupe. Ainda estou amamentando ao Jemmy; so s seis meses. Acredito que ainda no h perigo.
              Mas se perguntava por quanto tempo mais. Ainda lhe atravessavam o corpo pequenas descargas de desejo, misturadas com o medo.
              Precisava toc-lo. Agarrou uma ponta de seu manto para pressionar a ferida que sangrava sob a mandbula do Roger. Abstinncia, quando seu contato, 
seu aroma, a lembrana dos ltimos minutos a faziam desejar derrub-lo entre as folhas para recomear? Quando a ternura brotava dela como o leite que ia a seus peitos 
sem que ningum a convocasse?
              Os peitos lhe doam de desejo insatisfeito; sentiu a destilao do leite que lhe corria pelas costelas, sob o tecido. tocou-se um peito, pesado e cheio. 
Sua garantia de amparo... por um tempo.
              Roger lhe apartou a mo de sua cara e se tocou d talho.
              - Est bem - disse- . J no sangra.
              Sua expresso era muito estranha, ou talvez eram muitas. Normalmente sua cara era agradavelmente reservada, possivelmente algo severo. Agora suas faces 
pareciam incapazes de assentar-se; passava de uma inegvel satisfao a uma consternao igualmente inegvel. 
              - O que acontece, Roger?
              O lhe jogou uma fugaz olhada e apartou a vista; s bochechas subiu um leve rubor.
              - OH, bom - disse- .  que... em realidade... ainda no nos casamos.
              - Certamente que no. As bodas ser esta noite. E a propsito... - Bree o observou tentando no rir- . OH, querido. diria-se, senhor MacKenzie, que 
algum o submeteu a sua vontade no meio do bosque.
              - Muito graciosa, senhora MAC - replicou ele, assinalando seu prprio desalinho- . Voc tambm parece ter liberado um estranho combate. Mas me referia 
a que estamos comprometidos h um ano... e isso  um vnculo legal, pelo menos em Esccia. Mas faz tempo que se cumpriu o perodo de um nus e um dia... e no estaremos 
formalmente casados at a noite.
              Ela o olhou com os olhos entreabridos, enxugando-a chuva com o dorso da mo. Uma vez mais cedeu ao impulso de rir.
              - Santo Cu, no me diga que isso te importa! O sorriu com certa relutncia.
              - Bom, no, mas fui criado por um pregador. J sei que est bem, mas o velho calvinista escocs que levo dentro me sussurra que  pecaminoso faz-lo 
com uma mulher que no  minha esposa.
              - Ja! - exclamou ela- . No me venha com essas do velho calvinista arde. O que  o que acontece?
              - No posso dizer que seu medo no esteja justificado - disse em voz baixa- . At hoje no me tinha precavido de quo perigoso  o matrimnio para 
uma mulher. - Levantou a vista para lhe sorrir, embora a expresso preocupada no abandonou seus olhos verde musgo- . Quero-te, Bree, mais do que posso expressar. 
Mas estive pensando no que acabamos de fazer, no estupendo que foi, e tenho cansado na conta de que possivelmente... No, com segurana... se contino fazendo-o 
porei sua vida em perigo. E maldito se quero deixar de faz-lo! 
              - Sim. - Aspirou to fundo como ele e deixou escapar o ar em uma voluta branca- . Bom, suponho que  muito Urde para preocupar-se por isso. - Tocou-lhe 
o brao- . Quero-te, Roger. 
              E baixou a cabea para beij-lo, procurando consolo contra seus temores na fora do brao que a rodeava, no calor desse corpo.
              - OH, Bree! - murmurou ele contra seu cabelo- . Quero lhes manter a salvo, a ti e ao Jemmy, de algo que possa lhes ameaar.  terrvel pensar que eu 
mesmo poderia ser a ameaa, que poderia te matar com meu amor... mas  certo.
              O corao do Roger pulsava sob seu ouvido, slido e firme. Bree sentiu a tibieza que lhe voltava para as mos, entrelaadas contra os ossos de suas 
costas; o degelo foi mais fundo, at desenredar algumas fios gelados do medo que tinha dentro.
              - Tudo est bem - disse por fim, por lhe oferecer o consolo que ele no conseguia lhe brindar- . No acredito que haja problemas. Tenho bons quadris. 
Todo mundo me h isso dito. Quadris de vasilha, verdade?
              Deslizou melancolicamente uma mo pela generosa curva de um quadril. Ele seguiu o percurso com sua prpria mo, sorridente.
              - Sabe o que me disse ontem  noite Ronnie Sinclair, depois de verte recolher um lenho do cho? Disse-me, com um suspiro: "Sabe como se escolhe uma 
boa moa, MacKenzie? Comea pelo fundo e vai ascendendo." Ai!
              Recebeu o cabeada com um coice, rendo. Logo se inclinou para beij-la com muita suavidade.
              - Quer que tenhamos um beb, verdade? - perguntou ela, brandamente- . Um beb que seja teu sem lugar a dvidas?
              Ele manteve por um momento a cabea inclinada, mas ao fim levantou a vista, lhe deixando ver a resposta em sua cara: um grande desejo misturado com 
preocupao.
              - No quisesse... - comeou. 
              Mas lhe tampou a boca com uma mo para sosseg-lo.
              - Sim. Compreendo.
              E era certo... ou quase. Ambos eram filhos nicos; sabia da necessidade de vnculo, de afeto; mas a sua estava satisfeita. Tinha tido no um pai carinhoso, 
a no ser dois. Uma me que a amava alm dos limites do espao e o tempo. Os Murray do Lallybroch, como se algum lhe tivesse agradvel inesperadamente uma famlia. 
E sobre tudo seu filho: sua carne, seu sangue, um peso pequeno e crdulo que a atava com firmeza ao universo.
              Roger, em troca, era rfo. Durante muito tempo tinha estado sozinho no mundo, depois de perder a seus pais antes de conhec-los; morto seu velho tio, 
no tinha a ningum que o amasse s por ser de seu prprio sangue. S a ela. Era compreensvel que ansiasse a certeza que ela sustentava nos braos ao amamentar 
a seu filho.
              de repente Roger pigarreou.
              - N... lhe pensava dar isso esta noite, mas talvez... bom... - Afundou a mo no bolso interior da jaqueta e lhe entregou um objeto brando, envolto 
em um tecido- . Deveria ser um presente de bodas, no?
              Sorria, mas Bree detectou em seus olhos a vacilao. Ao apartar o tecido se encontrou com um par de olhos de boto negro que a olhavam. A boneca luzia 
um vestido de calic verde; em sua cabea estalava o cabelo de l vermelha. Sentiu um n na garganta e o peso do corao no peito.
              - Me ocorreu que ao menino podia lhe gostar de... possivelmente para mord-la.
              Bree se moveu; a presso do tecido empapado provocou uma ardncia em seus peitos. Tinha medo, sim, mas havia coisas mais fortes que o medo.
              - Haver uma prxima vez - disse-lhe, apoiando uma mo em meu brao- . No posso te dizer quando, mas a haver.
              Roger estreitou com fora aquela mo, sem olh-la.
              - Obrigado, quadris de vasilha- disse por fim, muito fico.
      
      
      A chuva aumentava; j era torrencial. Roger se apartou com o polegar o cabelo molhado dos olhos e se sacudiu como um co, disseminando gotas de gua da trama 
fechada de sua jaqueta e sua manta. O peitilho azul tinha uma mancha de barro; esfregou-a sem resultado algum.
              - Cristo! No posso me casar assim - disse- . Pareo um mendigo.
              - Ainda est a tempo, sabe? - brincou ela- . Ainda poderia te jogar atrs. 
              - foi muito tarde desde dia em que te conheci - resmungou ele- . Alm disso, seu pai me estriparia como a um porco se me ocorresse pens-lo melhor.
              - Ja! - exclamou ela. Mas o sorriso dissimulado ps uma covinha em suas bochechas.
              - Mulher! No me diga que a idia voc gosta!
              - Sim. Quer dizer... - Agora Bree ria; isso era o que ele procurava- , no quero que te estripe, mas eu gosto de saber que o faria. Todo pai deve ser 
protetor. - Tocou-o apenas, sorridente- . Como voc, senhor MacKenzie.
              Agarrou-a por um brao para conduzi-la para um lugar protegido da chuva, ao amparo de um grupo de discos, onde a pinaza formava uma capa seca e fragrante 
sob os ps, protegida pelos largos ramos.
              - Bom, venha a sentar um momento comigo, senhora MAC. H uma pequenez, nada importante, que quero lhe dizer antes das bodas.
              Fez-a sentar a seu lado, em um tronco podre e carregado de lquen, Logo pigarreou, procurando o fio do relato.
              - Estando ainda no Inverness, antes de te seguir atravs das pedras, dediquei algum tempo a revisar os papis do reverendo; ali encontrei uma carta 
que lhe tinha escrito seu pai. Refiro ao Frank Randall. No importa muito... agora j no... mas me pareceu que... Bom, que no devia haver segredos entre ns antes 
de nos casar. Ontem  noite o contei a seu pai. Deixa que agora lhe conte isso a ti.
              A mo do Bree cobria calidamente a sua, mas os dedos se foram esticando segundo ele falava; entre as sobrancelhas da moa cresceu um sulco profundo.
              - Outra vez - pediu ela, ao terminar Roger- . Conta-me o outra vez.
              Por dar gosta, ele repetiu a carta tal como a tinha memorizado, palavra por palavra. Tal como a tinha recitado ao Jamie Fraser a noite anterior.
              - De maneira que essa lpide que est em Esccia, com o nome de papai,  falsa? - A estupefao lhe fez elevar um pouco a voz- . Papai... Frank... 
fez que o reverendo a pusesse ali, no cemitrio da Santa Kilda, mas ele no est... quer dizer, no estar baixo ela?
              - Sim, assim foi, e no, no estar - disse Roger, seguindo escrupulosamente d rastro  pergunta- . Frank Randall queria que a pedra fora uma espcie 
de reconhecimento, suponho: uma dvida que tinha com seu pai... seu outro pai, Jamie.
              A cara da Brianna estava morada pelo frio, com a ponta do nariz e das orelhas tintas de vermelho; o calor do sexo se ia esfumando.
              - Mas se no tinha segurana de que mame e eu a encontrssemos!
              - No sei se queria que a encontrassem - opinou Roger- . Talvez ele tampouco sabia. Mas se sentiu na obrigao de fazer esse gesto. Por outra parte 
- adicionou, recordando sbitamente algo- , no disse Claire que ele queria te levar a Inglaterra, justo antes de sua morte? Talvez pensava te levar ali e ocupar-se 
de que a encontrasse, para logo deixar que voc e Claire decidierais o que fazer.
              Ela se esteve quieta, resmungando aquilo.
              - Ele sabia, pois - disse, lentamente- . Que ele... que Jamie Fraser tinha sobrevivido  batalha do Culloden. Sabia... e no disse nada?
              - No acredito que o possa reprovar - observou Roger, suave- . No era puro egosmo, compreende?
              - No? - Ainda estava horrorizada, mas no tinha chegado  irritao. Ele a viu dar voltas ao assunto, tratando de v-lo em todos seus aspectos para 
saber o que pensar, o que sentir.
              - No. Pensa-o, tesouro - insistiu-a ele. A pcea estava fria contra suas costas; a casca do tronco cansado, mida sob a mo- . Amava a sua me, sim, 
e no queria arriscar-se a perd-la outra vez. Isso pode ser egosmo, mas ao fim e ao cabo ela se casou primeiro com ele. Ningum pode reprovar ao Frank que no 
queria ced-la a outro homem. Mas isso no  tudo.
              - Que mais? - A voz do Bree soava serena; seus olhos azuis olhavam de frente.
              - Pois... o que teria passado se o houvesse dito? Ali estava voc, uma criatura pequena. Recorda que nenhum deles teria pensado que voc tambm podia 
cruzar atravs das pedras.
              Bree seguia olhando-o com ateno, mas seus olhos haviam tornado a empanar-se.
              - Mame teria tido que escolher - disse brandamente, sem deixar de olh-lo- . Entre ficar conosco... ou reunir-se com ele. Com o Jamie.
              - Te deixar atrs - completou Roger, com um gesto afirmativo-  ou ficar e continuar com sua existncia, sabendo que seu Jamie estava com vida, possivelmente 
a seu alcance... mas fora de seu alcance. Romper seus votos esta vez a propsito, e abandonar a sua filha. Ou viver desejando. No acredito que isso fora muito bom 
para sua vida familiar.
              - Compreendo. - Ela suspirou. O vapor de seu flego desapareceu no ar frio como um espectro.
              - Talvez Frank teve medo de permitir que escolhesse - apontou Roger- , mas o certo  que lhe economizou (e tambm a ti) a dor de faz-lo. Pelo menos 
ento.
              Os lbios da Brianna se franziram, projetaram-se, ficaram frouxos.
              - Eu gostaria de saber o que teria decidido ela se ele o houvesse dito - murmurou, algo triste.
              Lhe estreitou ligeiramente a mo.
              - Teria ficado - disse com segundad- . Acaso no o decidiu uma vez? Jaime a obrigou a retornar para te manter a salvo, e ela se foi. teria ficado contigo 
enquanto a necessitasse, sabendo que era o que ele desejava. Inclusive quando voltou, tampouco o teria feito se voc no tivesse insistido. Suponho que sabe bem.
              Ela relaxou um pouco as faces, aceitando a idia.
              - Acredito que tem razo. Mas saber que ele estava com vida e no tratar de reunir-se com ele...
              Roger se mordeu a cara interior da bochecha para no perguntar: "O que decidiria voc, Brianna, se tivesse que escolher entre o pequeno e eu?" Que 
homem podia impor uma alternativa assim  mulher que amava, embora fora hipoteticamente? Seja pelo bem do Bree,  seja pelo seu prprio... no o perguntaria. 
              - Mas ele ps a lpide ali. Para que? - O sulco entre suas sobrancelhas seguia sendo profundo, mas j no reto; contraa-o uma crescente preocupao.
              Roger no conhecia o Frank Randall, mas experimentava certa empatia com esse homem. E no era to desinteressada. At ento no teria podido dizer 
por que necessitava que Bree soubesse o da carta justo agora, antes das bodas, mas seus prprios motivos foram aparecendo com mais claridade (e mais inquietantes).
              - Acredito que foi por obrigao, como te hei dito. Obrigao no s com o Jaime ou sua me, mas tambm contigo. Se... - Fez uma pausa para lhe estreitar 
a mo com fora- . Oua, pensa no pequeno Jemmy.  to meu como voc e sempre o ser. - Aspirou fundo- . Mas se eu estivesse no pele do outro homem...
              - Se fosse Stephen Bonnet - esclareceu ela, com os lbios tensos, brancos de frio.
              - Se eu fosse Bonnet - acordou ele, com um calafrio de rechao  idia- , e soubesse que um desconhecido est criando a meu filho, no quereria que 
o menino soubesse algum dia a verdade?
              Os dedos do Bree se esticaram nos seus. Seus olhos se obscureceram.
              - No deve dizer-lhe Pelo amor de Deus, Roger, me prometa que no o dir nunca!
              Ele a olhou fixamente, atnito. As unhas da moa lhe cravavam dolorosamente na mo, mas no fez nada por liberar-se.
              - Ao Bonnet? No, mulher! Se alguma vez voltasse a v-lo, no esbanjaria o tempo falando.
              - No refiro ao Bonnet. - Bree se estremeceu, sem que ele soubesse se tremia de frio ou de emoo- . No te aproxime desse homem, Por Deus! Mas no: 
referia ao Jemmy. - Tragando saliva com dificuldade, aferrou-lhe as mos- . Prometa-me isso Roger. Se me amar, me prometa que jamais dir ao Jemmy o do Bonnet. Jamais. 
At se me acontecesse algo...
              - No te acontecer nada!
              Ela o olhou com um pequeno sorriso irnico.
              - O celibato tampouco  para mim. - Tragou saliva- . E se me acontecesse algo... Promete-o, Roger. 
              - Prometo-o, sim - disse ele, a contra gosto- . Se estiver segura...
              - Estou segura, sim! 
              - Mas no te teria gostado de saber... o do Jamie? 
              Bree se mordeu o lbio. Seus dentes se afundaram ao ponto de deixar uma marca purprea na suave carne rosada.
              - Jamie Fraser no  Stephen Bonnet.
              - De acordo - reconheceu ele, seco- . Mas eu no referia ao Jemmy, para comear. S quis dizer que, se eu fosse Bonnet, eu gostaria de sab-lo Y...
              - Ele sabe. - Brianna apartou abruptamente a mo e se levantou, lhe voltando as costas.
              - Como que sabe? - Roger a alcanou com grande rapidez e a aferrou pelo ombro para gir-la para si. Vendo que ela fazia uma leve careta, afrouxou os 
dedos e aspirou fundo, tratando de manter a voz serena- . Que Bonnet sabe o do Jemmy?
              - Pior ainda. - Bree apertou os lbios para impedir que tremessem; logo os abriu, apenas o necessrio para deixar que escapasse a verdade- . Acredita 
que Jemmy  filho dele.
              Ento lhe falou dos dias que tinha passado sozinha no River Run, prisioneira de seu embarao. Falou de lorde John Grei, o amigo de seu pai e dela mesma, 
a quem tinha podido revelar seus medos e seus conflitos.
              - Temia que todos vs tivessem morrido. Todos: mame, papai, voc. - Embora o capuz lhe tinha cansado para trs, no fez nada por reacomodarla. O cabelo 
vermelho pendia sobre seus ombros como chorreantes penetra de rato; tinha gotas de chuva aderidas s povoadas sobrancelhas vermelhas- . Quo ltimo papai me disse... 
No, no o disse sequer; teve que escrev-lo, porque eu no lhe dirigia a palavra. - Tragou saliva, passando uma mo sob o nariz para enxugar a gota que ali pendia- 
. Disse-me que... devia encontrar a maneira de... de perdo-lo. Ao Bo... ao Bonnet.
              - A maneira do que? - perguntou Roger.
              - Ele sabia disso - disse Bree, e se interrompeu para olh-lo, j dominados os sentimentos- . J sabe o que lhe aconteceu... no Wentworth.
              Com certa estupidez, ele fez um breve gesto afirmativo. Em realidade no tinha uma idia clara do que tinham feito ao Jamie Fraser... nem desejos de 
saber mais. Tinha visto as cicatrizes em suas costas e sabia, por alguns comentrios do Clare, que eram s um vago aviso.
              - Ele sabia disso. E sabia o que era necessrio fazer. Disse-me isso. Se queria me sentir... ntegra outra vez, devia achar o modo de perdoar ao Stephen 
Bonnet. E o fiz.
              - Fez-o. - A voz lhe saiu resmungona- . Encontrou-o, pois? Falou com ele?
              Ela assentiu, enquanto se tirava o cabelo molhado da cara. Grei tinha vindo a lhe dizer que Bonnet estava preso e condenado. Enquanto aguardava ser 
transportado ao Wilmington para sua execuo, retinham-no no depsito que a Coroa tinha no Cross Creek. Ali foi onde Brianna foi visitar o, levando consigo o que 
confiava que fora a absolvio: para o Bonnet, para si mesmo.
              - Estava enorme. - Sua mo esboou o vulto do embarao avanado- . Disse-lhe que o beb era filho dele. ia morrer; talvez o consolaria um pouco pensar 
que... deixava algo detrs de si.
              Roger sentiu que o cimes lhe apertavam o corao, em um ataque to abrupto que por um momento a dor lhe pareceu fsico. "Que deixava algo atrs dele 
- pensou- . Algo dele. E eu? Se eu morrera amanh... E bem poderia ser, moa! Aqui a vida  to perigosa para mim como para ti. O que deixaria de mim atrs, me diga?"
              Soube que no devia pergunt-lo. Tinha jurado no expressar jamais o pensamento de que Jemmy pudesse no ser dele. Se entre eles havia um verdadeiro 
matrimnio, Jem era seu fruto, quaisquer fossem as circunstncias de seu nascimento. Entretanto, sentia que as palavras lhe escapavam, que ardiam como cido.
              - Mas estava segura de que o menino era dele?
              Bree se deteve em seco para olh-lo, com os olhos dilatados pelo horror.
              - No. No,  obvio! Se estivesse segura lhe haveria isso dito. No peito do Roger a dor se acalmou um pouco.        
              - Vale. Mas lhe disse que era... No lhe disse que havia dvidas?
              - ia morrer! Minha inteno no era lhe contar a histria de minha vida, a no ser lhe oferecer algum consolo. O no tinha por que inteirar-se de sua 
existncia, de nossa noite de bodas O... Vete ao diabo, Roger!
              E lhe deu uma patada na tbia. O se cambaleou pela fora do ataque, mas a sujeitou por um brao, lhe impedindo de fugir. 
              - Perdoa! - disse, antes de que ela pudesse golpe-lo outra vez. Ou mord-lo: parecia disposta- . Perdoa. Tem razo. Ele no tinha por que inteirar-se. 
E eu tampouco tenho por que te obrigar a recordar todo isso.
              - claro que sim - disse lhe cravando um olhar sombrio- . H dito que no deveria haver segredos entre ns. Mas, s vezes, quando revela um segredo 
h outro escondido detrs, certo?
              - Sim. Mas no se trata... no  minha inteno...
              antes de que ele pudesse dizer nada mais o interrompeu um rudo de pegadas e conversao. Quatro homens saram da bruma, falando em gali-CO com ar 
despreocupado. Levavam redes e paus afiados; todos foram descalos e molhados at os joelhos. As fileiras de pescado fresco resplandeciam sob a luz chuvosa.
              - Ao Smedraich! - Um homem os viu por debaixo da asa empapada de seu chapu; imediatamente rompeu em um largo sorriso, enquanto percorria seu desalinho 
com um olhar ardiloso- . Mas se for voc. Astuto! E a filha do Vermelho! Homem! No podiam dominar-se at que obscurecesse?
              - Sem dvida  mais doce provar a fruta roubada que esperar a bno de um sacerdote murcho.
              - Ah, no - disse o terceiro, enxugando-a nariz, enquanto olhava a Brianna, que se tinha apertado o manto- . Ele s estava lhe cantando uma cano 
de bodas, verdade?
              - Bem que conheo a letra dessa cano - assegurou seu companheiro, alargando o sorriso at exibir a falta de um molar- . Mas eu a canto com mais doura!
              A Brianna voltavam a lhe arder as bochechas; embora no falava o galico com tanta fluidez como Roger, no lhe escapava o sentido dessas brincadeiras 
grosseiras. Roger se plantou diante dela, protegendo-a com seu corpo, mas os homens no tinham m inteno. face s piscadas e aos sorrisos apreciativos, no fizeram 
mais comentrios. O primeiro se tirou o chapu para golpe-lo contra sua coxa, lhe sacudindo a gua. Logo foi ao gro.
              - Alegra-me muito te haver encontrado, ao Oranaiche. Ontem  noite minha me te ouviu tocar junto ao fogo, e comentou com minha tia e minhas primas 
que sua msica o fazia danar o sangue nos ps. Agora todas querem que venha ao Spring Creek, a cantar no ceilidh.  que vai casar se minha prima menor, a nica 
filha de meu tio, o dono do moinho farinceo.
              - Ser uma grande festa, sem dvida! - interveio um dos mais jovens.
              - Ah, umas bodas? - disse Roger, em galico lento e formal- . Haver outro arenque, pois.
              Os dois homens maiores estalaram em uma gargalhada; seus filhos, em troca, pareciam desconcertados.
              - Ah, poderiam vocs esbofetear a estes guris com um arenque, e eles no saberiam o que  - disse o homem da boina, movendo a cabea- . Os dois nasceram 
aqui. 
              - E onde vivia em Esccia, senhor?
              O homem deu um coice, surpreso ante essa pergunta, que uma voz clara tinha formulado em galico. Durante um instante olhou fixamente a Brianna; ao 
responder, sua cara tinha trocado.
              - No Skye - disse brandamente- . Skeabost, ao p das Cuillins. Sou Angus MacLeod; Skye  a terra de meus pais e de meus avs. Mas meus filhos nasceram 
aqui.
              Falava em voz baixa, mas seu tom apagou a hilaridade dos jovens, como se sobre eles tivesse cansado uma manta mida. O homem do chapu encurvado olhou 
a Brianna com interesse.
              - E voc, a nighean, nasceste em Esccia?
              Ela moveu a cabea. Ante a expresso interrogante dos homens, Roger respondeu:
              - Eu sim. No Kyle do Lochalsh.
              - Ah! - A satisfao se estendeu pelas faces murchas do MacLeod- . Por isso  que conhece todas as canes das Terras Altas e as Ilhas.
              - No todas - corrigiu ele, sonriendo- . Mas sim muitas... e quero aprender mais.
              - Faz-o - disse o outro, cabeceando lentamente- . Faz-o, cantor, e ensaselas a seus filhos. - Seu olhar se posou na Brianna, com um leve sorriso 
lhe curvando os lbios- . Que as cantem a meus filhos, e assim estes conhecero o lugar de que vieram, embora jamais o vejam.
              Um dos jovens se adiantou com ar tmido e ofereceu a Brianna um bolo de pescados.
              - Para voc - disse- . Um presente de bodas.
              Roger viu que ela contraa ligeiramente uma comissura da boca. Seria humor ou histeria incipiente? Mas ela alargou a mo para agarrar a fileira lhe 
jorrem, com grave dignidade. Logo, recolhendo o bordo do manto com uma mo, fez a todos uma profunda reverncia.
              - Chaneil facal agam dhuibh ach taing- disse, com seu galico pausado, de acento estranho. "No tenho palavras para lhes dizer, salvo obrigado."
              Os jovens se ruborizaram. Os majores se mostraram profundamente agradados.
              -  boa, a nighean - disse MacLeod- . Deixa que seu marido te ensine... e insgnia Gaidhlig a seus filhos vares. Que tenham muitos!
              E se tirou a boina em uma extravagante reverencia, apertando o barro com os dedos dos ps para no perder o equilbrio.
              - Muitos filhos vares, fortes e ss! - acrescentou seu companheiro. Os dois moos assentiram, sorridentes, e murmuraram com acanhamento:
              - Que voc tenha muitos filhos vares, senhora!
              Roger fez automaticamente os acertos para o ceiltdh, sem atrever-se a olhar a Brianna. Quando os homens partiram, lanando olhadas curiosas para trs, 
eles ficaram em silncio, separados por um ou dois passos. Brianna mantinha a vista fixa no barro e a erva, cruzada de braos. No peito do Roger perdurava o ardor, 
embora um pouco alterado. Queria toc-la, voltar a desculpar-se, mas pensava que com isso no obteria a no ser piorar as coisas.
              Ao final foi ela quem deu o primeiro passo: lhe aproximou para apoiar a cabea em seu peito; a frescura de sua cabeleira mida lhe roou a ferida do 
pescoo. Seus peitos estavam enormes, duros como pedras; puxavam contra ele, como apartando-o.
              - Necessito ao Jemmy - disse ela, em voz fica- . Necessito a meu beb.
              As palavras se entupiram na garganta do Roger, apanhadas entre a desculpa e a irritao. At ento no tinha imaginado quo penoso sria pensar que 
)emmy pertencia a outro, que no era filho dele, mas sim do Bonnet.
              - Eu tambm o necessito - sussurrou ao fim. 
              E lhe deu um beijo fugaz na frente. Logo voltou a lhe agarrar a mo para cruzar a pradaria. A montanha, vamos, seguia amortalhada na bruma, invisvel, 
embora dela descendiam gritos e murmrios, fragmentos de dilogo e msica, como ecos de algum Olimpo.
      
      
      7
      
      Metralha
      
      
              No meio da amanh, a garoa tinha cessado; a fugaz viso de um cu azul que aparecia entre as nuvens me dava alguma esperana de que o anoitecer limparia. 
Pelo bem da Brianna no queria que se aguassem as cerimnias nupciais. J que no se casava em uma igreja bonita, com arroz e cetim branco, ao menos queria que o 
lugar estivesse seco.
              Esfreguei-me a mo direita, tratando de me tirar a cibra que me tinham provocado as tenazes de extrao dental. O molar rota do senhor Goodwin me 
tinha dado mais trabalho do que eu tinha esperado, mas me arrumei isso para arranc-la, com raiz e tudo. Logo o enviei a sua casa com uma pequena garrafa de usque 
e instrues de fazer buchos com ele cada hora para evitar a infeco. Trag-lo era opcional.
              Ao desperezarme, o bolso de minha saia se chocou contra minha perna, emitindo um tinido leve, mas lhe gratifiquem. O senhor Goodwin tinha pago em dinheiro; 
perguntei-me se bastaria para pagar um astrolbio, e para que quereria Jaime ter um de esses. De repente, um leve pigarro interrompeu minhas especulaes.
              Girei em redondo. Ali estava Archi Hayes, com um ar algo zombador.
              - OH! - exclamei- . N... Posso lhe ser til em algo, tenente?
              - Pois, poderia ser, senhora Fraser. - Olhava-me com um leve sorriso- . Conforme diz Farquard Campbell, seus escravos esto convencidos de que pode 
fazer voc que os mortos se levantem. Sim esse  o caso, um trocito de metal perdido no tem que ser grande costure para suas habilidades cirrgicas,  verdade?
              Murray MacLeod, para ouvir isso, emitiu um forte bufo e se voltou para seus prprios pacientes.
              - OH! - repeti.
              E me esfreguei o nariz com um dedo, sobressaltada. Quatro dias antes, um dos escravos do Campbell tinha sofrido um ataque de epilepsia; por acaso, 
recuperou-se abruptamente no momento em que eu apoiava em seu peito uma mo exploratria. Foi intil tratar de explicar o que tinha acontecido; minha fama se pulverizou 
como um incndio nas ervas secas da montanha.
              Voltei-me para o Hayes, me limpando as mos no avental.
              - Bem, me permitam ver essa parte de metal, e veremos o que se pode fazer.
              Sem pigarrear, o tenente se tirou a boina, a jaqueta, o colete, o corbatn e a camisa, junto com a gorget de prata de seu cargo. depois de lhe entregar 
os objetos  ajuda de campo que o acompanhava, tomou assento em meu tamborete, sem que sua plcida dignidade se alterasse por efeito da nudez parcial.
              Seu torso carecia de plo e tinha a cor plida do soro, caracterstico da pele que aconteceu anos sem expor-se ao sol, em marcado contraste com o bronzeado 
curtido da cara, as mos e os joelhos. Mas os contrastes foram ainda mais  frente.
              Sobre a pele leitosa do bico da mamadeira esquerda tinha uma enorme mancha negro azulado, que o cobria das costelas at a clavicula. O mamilo da direita 
apresentava uma cor normal, entre rosado e pardusco, mas o da esquerda era muito branco. Ao v-lo pisquei. Detras de mim se ouviu um suave: "Ao Dhial"
              - A Dhia, tha e`tionnadadh dubh!- disse outra voz. "Por Deus, est-se pondo negro!"
              Hayes, como se no ouvisse nada de todo isso, sentou-se para que eu realizasse meu exame. Uma inspeo mais detalhada revelou que a colorao escura 
no era uma pigmentao natural, a no ser uma srie de manchas, provocadas pela presena de inumerveis granulos escuros incrustados na pele. O mamilo tinha desaparecido 
por completo, sendo substitudo por uma reluzente cicatriz branca, do tamanho de uma moeda.
              - Plvora - disse, deslizando a ponta dos dedos pela zona obscurecida- . Ainda tem voc o projtil dentro?
              O stio por onde tinha penetrado estava  vista. Toquei o emplastro branco, tratando de imaginar a trajetria que a bala podia ter seguido.
              - A metade - respondeu ele, tranqilamente- . Fragmentou-se. O cirurgio que me extraiu isso me deu as partes. Mais adiante tratei de ajustar os fragmentos, 
mas s obtive meia bale, de maneira que o resto deve estar dentro.
              - Que se fragmentou? Sente saudades que as partes no lhes atravessassem o corao ou os pulmes - comentei, me sentando em cuclillas para observar 
a ferida com mais ateno. 
              - Sim, ou pelo menos isso acredito, pois me entrou pelo peito, como v, mas agora est aparecendo por minhas costas.
              Para estupefao da multido (e tambm minha) estava no certo. No s pude apalpar um vulto pequeno, justo sob o bordo exterior da escpula esquerda, 
mas tambm tambm a vi: um inchao escuro, que pressionava contra a pele branca e suave.
              - Por todos os diabos! - disse.
              O deixou escapar uma exclamao divertida, no sei se por minha surpresa ou por minha linguagem.
              Por estranho que fora, o trocito de metralha no oferecia nenhuma dificuldade cirrgica. depois de inundar um pano limpo em minha terrina de lcool 
destilado, limpei a zona com esmero e esterilizei um bisturi. Logo fiz um corte rpido. Hayes se manteve muito quieto. Era militar e escocs; tal como o demonstravam 
as marcas de seu peito, tinha suportado coisas muito piores.
              Quando pressionei com dois dedos aos lados da inciso, os lbios do pequeno corte se avultaram: de repente apareceu uma parte banguela de metal escuro, 
como se algo me tirasse a lngua. Foi possvel sujeit-lo com um par de frceps e retir-lo. Com uma pequena exclamao de triunfo, deixei cair o fragmento na mo 
de meu paciente e apliquei contra suas costas um pano empapado em lcool.
              Ele deixou escapar um comprido suspiro; logo me sorriu por cima do ombro.
              - O agradeo, senhora Fraser. Este pequeno me acompanha a muito tempo, mas no me causar pena me separar dele.
              Cavou a palma manchada de sangue, observando com grande interesse o fragmento metlico que sustentava.
              - Quando aconteceu isto? - perguntei com curiosidade.
              - Faz vinte anos ou mais, senhora - disse. Tocou a mancha branca e insensvel que, em outros tempos, tinha sido um dos stios de seu corpo com mais 
sensibilidade- . Isto aconteceu no Culloden.
              Disse-o como sem lhe dar importncia mas o nome me arrepiou a pele dos braos. Vinte anos ou mais... vinte e cinco, provavelmente mais. E por ento...
              - Mas se no teria voc mais de doze anos! - exclamei.
              Ele arqueou uma sobrancelha.
              - Onze. Cumpri os doze ao dia seguinte.
              Calei o que teria podido lhe responder. Acreditava ter perdido a capacidade de me espantar ante as realidades do passado, mas ao parecer no era assim. 
Algum tinha disparado a quemarropa contra um menino de onze anos. No havia possibilidades de engano, no era um tiro desviado no calor do combate. O homem que 
o fez sabia que estava matando a um menino. E apesar disso tinha disparado.
              A inciso media apenas dois ou trs centmetros de longitude e no era profunda; no necessitaria sutura. depois de pressionar um pano limpo contra 
a ferida, pu-me diante dele para enfaix-lo com uma tira de linho.
              -  um milagre que sobrevivesse - disse.
              - Em efeito - afirmou- . Estava tendido em terra, com a cara do Murchison sobre mim, Y...
              - Murchison!
              A exclamao me escapou. Vi um brilho de satisfao na expresso do Hayes. Ento experimentei uma breve inquietao premonitoria, recordando o que 
Jamie havia dito sobre o Hayes a noite anterior. "Pensa mais do que diz, esse pequeno Archie... e olhe que fala muito. Tome cuidado com ele, Sassenach." Mas j era 
algo tarde para tomar cuidado; alm disso me parecia difcil que tivesse importncia, at se se tratava do mesmo Murchison.
              - Vejo que conhece voc seu nome - observou ele, cordialmente- . Na Inglaterra ouvi dizer que certo sargento Murchison, do vigesimosexto, foi enviado 
a Carolina do Norte. Mas quando chegamos ao Cross Creek a guarnio j no estava. Acredito que foi por um incndio, verdade?
              - N... sim - confirmei, algo nervosa por essa referncia. Alegrou-me que Bree se retirou; s duas pessoas conheciam a verdade do acontecido ao incendiar 
o depsito que a Coroa tinha no Cross Creek; uma das duas era ela. Quanto  outra... No era provvel que Stephen Bonnet se cruzasse com o tenente em um futuro prximo... 
inclusive se seguia com vida.
              - E os homens da guarnio - insistiu Hayes- , Murchison e os outros, sabe onde foram?
              - O sargento Murchison morreu, por desgraa - disse a minhas costas uma voz grave e fica.
              Hayes olhou alm de mim, sonriendo.
              - Ao Sheumais ruaidh - disse- . Esperava que cedo ou tarde viesse voc a reunir-se com sua esposa. passei a manh buscando-o.
              O nome me sobressaltou tanto como ao Jarme. Uma expresso de surpresa lhe cruzou as faces; mas imediatamente desapareceu, sendo substituda pela 
cautela. Dos tempos do levantamento, ningum o chamava Jamie o Vermelho.
              - Assim me ho isso dito - respondeu secamente. Logo se sentou em meu segundo tamborete frente a Hayes- . Vejamos, pois. Do que se trata?
              Hayes agarrou o sporran que pendurava entre seus joelhos, revolveu nele durante um instante e extraiu um papel dobrado, selado com cera vermelha e 
marcado com um escudo. Ao reconhec-lo, me deteve o corao durante um segundo. Parecia difcil que o governador Tryon me enviasse um tardio carto de aniversrio.
              depois de verificar cuidadosamente que o nome inscrito no fronte fora o do Jamie, o tenente a entregou. Para minha surpresa, meu marido seguiu sentado, 
com os olhos fixos na cara do Hayes, sem abri-la.
              - O que o traz por aqui? - perguntou abruptamente.
              - Ah!, o dever, sem dvida - respondeu o militar, com as finas sobrancelhas arqueadas em inocente surpresa- . por que outro motivo atuamos os soldados?
              - O dever - repetiu Jamie, golpeando-se ociosamente a perna com aquela missiva- . Pois bem. O dever poderia lhes levar do Charleston a Virginia, mas 
h maneiras mais rpidas de chegar at ali.
              Hayes ia encolher se de ombros, mas desistiu d imediato, pois o gesto perturbou a zona que eu estava enfaixando.
              - Tinha que trazer a proclama do governador Tryon. 
              - O governador no tem autoridade sobre voc nem sobre seus homens.
              -  certo - coincidiu ele- , mas por que no lhe fazer um favor, se estava em minha mo? 
              - Sim. E pediu a voc que lhe fizesse esse favor ou foi idia dela? - inquiriu Jamie.
              - A ancianidad o ps algo suspicaz, Sheumais ruaidh - observou Hayes.
              -  assim como cheguei a velho - replicou meu marido, com um ligeiro sorriso. Logo fez uma pausa, observando a seu interlocutor- . Diz voc que foi 
um homem chamado Murchison quem lhe disparou no campo do Drumossie?
              Eu tinha terminado de enfaix-lo. Hayes moveu o ombro, provando a dor.
              - Mas se sabe perfeitamente, ao Sheumais ruaidhl No recorda voc esse dia, homem?
              A cara do Jamie sofreu uma mudana sutil. Senti um leve estremecimento de inquietao. O certo era que ele quase no recordava o ltimo dia dos cls, 
a matana que tinha deixado a tantos homens sangrando sob a chuva; a ele, entre outros. Eu sabia que s vezes, em sonhos, vinham-lhe pequenas cenas daquele dia, 
fragmentos do pesadelo. Mas fora pelo trauma, pelas leses ou por simples fora de vontade, a batalha do Culloden estava perdida em sua memria, ao menos at agora. 
E no parecia provvel que desejasse recuper-la.
              - Esse dia aconteceram muitas coisas - disse- . No recordo tudo, no. Inclinando abruptamente a cabea, afundou o polegar sob a dobra da carta. Abriu-a 
com tanta brutalidade que o selo de lacre se fez pedaos.
              - Seu marido  homem modesto, senhora Fraser - disse-me Hayes, enquanto convocava a sua ajuda de campo com um gesto da mo- . Alguma vez lhe contou 
o que fez aquele dia?
              - Nesse campo houve muitas amostras de valentia - murmurou Jamie, com a cabea inclinada para o papel- . E muito do contrrio.
              No parecia estar lendo. Tinha o olhar fixo, como se visse outra coisa alm da carta que sustentava.
              - Assim foi - reconheceu Hayes- . Mas quando um homem lhe salva a vida, vale a pena record-lo, verdade?
              Jamie levantou bruscamente o olhar, sobressaltado.
              - No recorda voc que golpeou ao Murchison na cabea, no momento em que estava a ponto de me cravar ao cho com sua baioneta? Nem que logo me elevou 
para me levar fora do campo, a um pequeno poo prximo? Ali, na erva, jazia um dos chefes, e seus homens lhe estavam limpando a cabea com aquela gua. Mas estava 
muito quieto; compreendi que tinha morrido. Ali havia algum que me atendeu. Queriam que ficasse, pois estava voc ferido e sangrando, mas se negou. Desejou-me sorte 
em nome de San Miguel, e voltou para campo de batalha.
              Hayes se acomodou a cadeia do gorget, colocando a pequena medialuna de prata sob o queixo. Sem o corbatn, seu pescoo parecia nu, indefeso.
              - Parecia um homem selvagem, com o cabelo solto ao vento e o sangue lhe correndo pela cara. Para me carregar, havia voc embainhado a espada, mas voltou 
a extrai-la ao empreender a volta. No acreditei voltar a v-lo; nunca vi a ningum ir desse modo ao encontro da morte.
              Moveu a cabea, com os olhos entreabridos, como se no visse o homem sbrio e confivel que tinha ante si, no ao Fraser, Fraser o da Crista, a no 
ser ao Jamie o Vermelho, o jovem guerreiro que no tinha retornado ao campo por valentia, mas sim porque desejava perder a vida: depois de me haver perdido , sentia-a 
como uma carga.
              - Seriamente? - murmurou Jamie- . Havia-o... esquecido.
              Percebi sua tenso, que vibrava sob minha mo como um cabo tenso. Tinha esquecido muitas coisas, sim, mas isso no. E eu tampouco.
              Hayes inclinou a cabea para que o assistente lhe sujeitasse o corbatn no pescoo. Logo se ergueu para me saudar.
              - O agradeo, senhora. foi voc muito gentil.
              - No tem importncia - disse, com a boca seca- . foi um prazer.
              Hayes ficou a jaqueta e sujeitou sua manta com um pequeno broche dourado: que lhe tinha dado seu pai antes do Culloden.
              -  Assim Murchison morreu -  disse, como para seus adentros -  . Comentaram-me... -  Seus dedos lutaram durante um momento com o fechamento do broche 
-  que havia dois irmos com esse nome, parecidos como duas gotas de gua.
              -  Em efeito -  disse Jamie, olhando-o aos olhos. A cara do tenente s expressava um vago interesse. 
              -  Ah, e sabe voc, por ventura, qual deles foi...?
              -  No, mas no importa. Ambos morreram.
              -  Ah -  repetiu Hayes. deteve-se um momento, como se refletisse. Logo se inclinou formalmente ante o Jamie, com a boina apoiada contra o peito.
              -  Buidheachas dhut, ao Sheumais MAC Brian. E que San Miguel lhes defenda. 
              Saudou-me brevemente com a boina e, depois de plantar-lhe na cabea, girou para partir. Sua ajuda de campo o seguiu em silncio.
              -  O que recorda? -  perguntei-lhe, seguindo com a vista ao Hayes, que pisava com cautela o estou acostumado a empapado de sangue.
              -  Quase nada -  respondeu. Logo se levantou para me olhar, escuros os olhos como o cu encapotado de l encima -  . E isso ainda  muito.
              Entregou-me o papel estragado. A chuva tinha deslocado a tinta em algumas linhas, mas ainda era legvel. Em contraste com a proclama, continha duas 
frases, mas o ponto adicional para a despedida no dilua seu impacto.
      
      New Bern, 20 de outubro
      Coronel ame Fraser:
                     Considerando que a paz e a boa ordem deste Governo foram violados ultimamente, e que as pessoas e propriedades de muitos habitantes desta provncia 
foram danificadas por um grupo de pessoas que se autodenominan reguladores, ordeno-lhes, por entesouramento do
      conselho de sua majestade, que convoquem a um recrutamento geral a tantos homens como consideram adequados para servir em um regimento de milicianos, e que 
me vocs informem na maior brevidade possvel o nmero de voluntrios que esto dispostos a emprestar servio a seu rei e a seu pas, quando os convocar, e tambm 
que nmero de efetivos pertencentes a seu regimento podem receber ordens de sair em caso de emergncia, e em caso de que os insurgentes tentem novos atos violentos. 
Sua diligente e pontual obedincia a estas ordens serbien recebida por seu obediente servidor,
      William Tryon 
      
              Dobrei esmeradamente a carta manchada pela chuva, notando apenas que me tremiam as mos. Jamie voltou a agarr-la entre o polegar e o ndice, como 
se fora um objeto repugnante. E a verdade  que o era. Olhou aos olhos, torcendo ironicamente a boca.
      -  Eu esperava contar com algo mais de tempo -  disse.
      

      
      
      8
      
      O capataz
      
      
              Enquanto Brianna ia a pelo Jemmy  loja da Yocasta, Roger assediou lentamente a colina para seu prprio acampamento. "Haver uma prxima vez", havia 
dito ela. E ele retinha essas palavras, lhe dando voltas em sua mente como a um punhado de moedas no bolso. No tinham sido meras palavras: havia nelas inteno, 
uma promessa nesse momento mais importante que quantas Bree lhe tinha feito na primeira noite de bodas.
              O pensar em bodas lhe recordou, por fim, que havia outra em floraes. Ao tornar uma olhada comprovou que, na verdade, Bree no tinha exagerado ao 
falar de seu aspecto. Demnios, e alm disso a jaqueta era do Jamie!
              Comeou a sacudi-la pinaza e as manchas de barro, mas o interrompeu um "ol" do atalho, mais acima. Ao levantar a vista viu que Duncan Innes descendia 
cautelosamente a levantada pendente, com o corpo inclinado para compensar o brao que lhe faltava. Levava posta sua esplndida jaqueta escarlate, com as voltas de 
cor azul e os botes dourados. Sua transformao, de pescador das Terras Altas a prspero latifundirio bem embelezado, era assombrosa; at sua atitude parecia ter 
trocado; lhe via muito mais seguro de si mesmo.
              Acompanhava-o um cavalheiro entrado em anos, alto e magro, de aspecto muito pulcro, embora pudo; as escassas mechas brancas, atadas para trs, descobriam 
uma frente alta, estendida pela calvcie. A boca se afundou por falta de dentes, mas retinha sua curva humorstica; os olhos eram azuis e brilhantes. O nariz largo 
e bicudo, a roupa negra, descolorida e gasta, davam-lhe o aspecto de um afvel abutre.
              - Ao Smeraich- saudou Duncan, agradado- . Justamente a pessoa que desejava encontrar! Confio em que esteja preparado para seu enlace- acrescentou, 
contemplando com ire interrogante IA jaqueta manchada do jovem e seu cabelo cheio de folhagem.
              - OH, sim! - Roger pigarreou, convertendo seu escovado em um breve tamborilar no peito, para afrouxar o escarro- . Que umidade para as bodas, verdade?
              - Ditoso o cadver sobre o que cai a chuva - acrescentou Duncan, rendo com certo nervosismo- . Oxal no morramos de pleurisia antes de nos casar, 
n, moo? - E se acomodou sobre os ombros a fina jaqueta carmesim, tirando do punho uma imaginria bolinha de p.
              - Est muito elegante, Duncan - comentou Roger, com a esperana de distrair a ateno de seu maltratado estado- . Todo um noivo!
              Seu interlocutor avermelhou um pouco depois do bigode cansado; a nica mo retorceu os botes blasonados de sua jaqueta.
              - OH, bom - disse, um pouco sobressaltado- . A senhorita Eu disse que no queria apresentar-se com um espantalho. - E tossiu, voltando-se abruptamente 
para seu companheiro, como se ante essa palavra tivesse recordado sua presena- . Senhor Bug, este  Roger MAC, de quem lhe falei, o genro dele.
              Olhou novamente ao Roger, assinalando com um gesto vago a seu companheiro, que se adiantou com a mo estendida e uma reverncia rgida, mas cordial.
              - Arch Bug, ao Smeraich.
              - A seu servio, senhor Bug - saudou Roger cortesmente. Notou, com certo sobressalto, que  mo ossuda que estreitava a sua lhe faltavam os dois primeiros 
dedos.
              - Hum - respondeu o outro.
              Sua atitude indicava que correspondia sinceramente ao sentimento.
              - Que amabilidade por parte do senhor Fraser, cavalheiro, e seguro de que no ter motivos para arrepender-se, claro que no, e o hei dito pessoalmente. 
No posso lhe expressar a voc que bno foi, quando no sabamos de onde viria nossa prxima comida, nem como conseguiramos proteo. Devemos confiar em Cristo 
e em Nossa Senhora, disse ao Arch, isso lhe disse, e se tivermos que passar fome, faremo-lo em estado de graa. E Arch me respondeu...
              Ante ns surgiu uma mulher pequena e gordinha, to entrada em anos como seu marido e vestida com roupa igualmente gasta, mas bem cerzida. Como era 
to baixa, Roger no a tinha visto, pois a ocultavam as volumosas abas da vetusta jaqueta de seu marido.
              - A senhora Bug- sussurrou-lhe Duncan, sem que fizesse falta.
              - ... e sem um penique com que contar, e eu pensando o que ia ser de ns, e ento Sally McBride me diz que tinha sabido que Jamie Fraser necessitava 
um bom...
              O senhor Bug sorriu sobre a cabea de sua esposa. Ela se interrompeu em meio de uma frase, dilatados os olhos de espanto ao ver a jaqueta do Roger.
              - Mas olhe isso! O que lhes aconteceu, filho? foi um acidente? diria-se que algum lhes derrubou e arrastou pelos tales por cima do esterco!
              Sem aguardar resposta, tirou um leno limpo do volumoso bolso que pendurava de sua cintura. depois de lhe jogar uma generosa cuspida, comeou a limpar 
as manchas do peitilho.
              - OH, no  necessrio... Quer dizer... n... obrigado. - Roger, que se sentia como apanhado em uma espcie de maquinaria, olhou ao Duncan esperando 
que ele o resgatasse.
              - Jamie Roy pediu ao senhor Bug que v trabalhar como capataz na Colina.
              Duncan aproveitou a pausa que a tarefa impunha  senhora Bug para oferecer uma explicao.
              - Capataz? - Roger sentiu um pequeno impacto ante essa palavra, como se algum lhe tivesse dado um golpe debaixo do esterno.
              - Sim, para quando ele deva viajar ao estrangeiro ou esteja ocupado com outros assuntos.  certo que os campos e os arrendatrios no se cuidam sozinhos.
              Duncan falava com um ligeiro tom de melancolia; era um singelo pescador do Coigach, por isso freqentemente as responsabilidades de dirigir uma plantao 
grande lhe resultavam onerosas. Jogou uma olhada ao senhor Bug, com um brilho de cobia, como se pensasse fugazmente em esconder a essa til pessoa em seu bolso 
para levar-lhe ao River Run. Claro que tambm deveria levar-se a senhora Bug.
              - E to boa sorte nos veio como anel ao dedo, e apenas ontem dizia ao Arch que no mximo poderamos conseguir trabalho no Edenton ou Cross Creek, ele 
como marinheiro, mas  uma vida to perigosa, verdade? Todo o dia molhado at os ossos, e os vapores mortferos que saem dos pntanos, e o ar to carregado de miasmas 
que no se pode respirar; e eu talvez poderia trabalhar como lavadeira na cidade enquanto ele estivesse de viagem, embora eu no gostaria de nada, porque no nos 
separamos uma s noite desde que nos casamos, verdade, meu amor?
              Elevou um olhar devoto a seu alto marido, que lhe sorriu com doura. Ao Roger lhe ocorreu que o homem devia ser surdo. Ou que possivelmente logo que 
levavam uma semana casados.
              - Tnhamos pensado provar no Edimburgo - disse o ancio. Sua dico era lenta e elegante, com a suave cadncia das Terras Altas.         "De maneira 
que no  surdo... - disse-se Roger-  ainda."
              - ... pois eu tinha l um primo que estava relacionado com uma empresa bancria, e pensamos que talvez ele poderia falar com algum...
              - Mas eu era muito velho e no tinha suficiente preparao...
              - ... e mida sorte tivessem tido de contar com ele! Mas no, esses parvos no quiseram saber ruuia do assunto, assim viemos a tentar, se pudermos...
              Duncan procurou o olhar do Roger, dissimulando um sorriso sob o bigode, enquanto a histria das aventuras dos Bug emanava nesse estilo sincopado. O 
jovem lhe devolveu o sorriso, embora no ntimo se esforava por desprezar uma insistente sensao de desconforto.
              No obstante, s nesse momento Roger caiu na conta de que, inconscientemente, tinha suposto que ele seria a mo direita do Jamie nesses assuntos. Ou 
quanto menos, a esquerda.
              Fergus ajudava ao Jamie no que podia, fazendo recados e levando informao, mas o fato de que lhe faltasse uma mo limitava sua capacidade fsica; 
tampouco podia ocupar-se de papis e contas; Jenny Murray tinha ensinado a ler, a sua maneira, ao rfo francs adotado por seu irmo, mas nunca conseguiu lhe fazer 
entender os nmeros.
              De maneira que Jamie pensava que at um ancio mdio estropiado estava em melhores condicione que seu genro para atender os assuntos da Colina do Fraser. 
A idia era inesperadamente amarga.
              Ele sabia que seu sogro duvidava de sua capacidade, alm da desconfiana natural que inspira em todo pai o homem que se deita com sua filha. Como Jamie 
carecia absolutamente de ouvido, no podia apreciar seus dons musicais. E embora Roger era trabalhador e de bom tamanho, resultava infelizmente certo que tinha muito 
poucos conhecimentos prticos sobre a cria de animais, a caa e o uso de armas mortferas. E, alm disso, carecia da grande experincia do senhor Bug no manejo de 
um imvel grande. Era o primeiro em admitir todo isso. 
              Mas ele ia converter se no genro do Jamie. Mas se o mesmo Duncan acabava de apresent-lo assim! Embora se tivesse educado em outra poca, era um escocs 
das Terras Altas e sabia perfeitamente que o sangue e o parentesco estavam por cima de todas as coisas.
              Pelo habitual, quando s havia uma filha, considerava-se que seu marido era o filho varo da casa; quanto a autoridade e respeito, s o chefe da famlia 
estava por cima dele... a menos que tivesse um grave defeito: se fosse alcolico notrio por exemplo, ou dissoluto at o criminoso. Ou fraco mental... Santo Cu!, 
seria isso o que Jamie pensava dele? Que era um idiota sem remdio?
              - Sinta-se, jovem, que eu me ocuparei deste bonito desastre. - Era a senhora Bug quem interrompia suas lgubres reflexes- . Mas voc olhe como est, 
tudo enlameado e talher de manchas! Esteve brigando? OH, bom, espero que o outro tenha ficado pior. No se fale mais.
              antes de que ele pudesse protestar, j o tinha sentado em uma pedra e, depois de tirar um pente do bolso e lhe soltar o cabelo, ocupou-se de sua enredada 
juba com movimentos to enrgicos que parecia que ia arrancar lhe tiras de couro cabeludo. 
              - Chamam-no Astuto, verdade?
              - OH, sim, mas no  pela cor de seus formosos cabelos - interveio Duncan, muito sorridente ante a bvia desconforto do jovem- .  por seu canto. Tem 
a voz to doce como os rouxinis.
              - Canta? - exclamou a senhora Bug, cativada, deixando cair a mecha- . Era voc quem cantava ontem  noite? Ceann-rra e Loch Ruadhainn?  E alm disso 
tocando o bodhran?
              - Bom, talvez - murmurou ele com modstia.
              A ilimitada admirao da senhora, expressa longamente, era uma adulao que o fez envergonhar-se desse momentneo ressentimento contra seu marido.
              "depois de tudo - pensou, observando os muitos remendos de seu avental e as rugas de sua cara- ,  bvio que estes ancies aconteceram maus tempos. 
Talvez Jamie os contratou tanto por caridade como porque necessitava ajuda." 
              Sentindo-se j algo melhor, agradeceu gentilmente  senhora Bug a assistncia emprestada.
              - Viro agora a nosso acampamento? - perguntou, olhando ao marido com ar inquisitivo- . Suponho que ainda no conhece voc  senhora Fraser nem...
              Interrompeu-o um rudo que parecia um alarme de bombeiros; embora longnqua, era bvio que se estava aproximando. Como j estava familiarizado com 
esse estrpito no se surpreendeu ao ver que seu sogro aparecia por um dos caminhos que serpenteavam pela montanha, com o Jem nos braos, retorcendo-se e chiando 
como gato escaldado.
              Jamie, que parecia levemente intimidado, entregou-lhe o menino. A falta de melhor inspirao, Roger colocou um de seus polegares naquela boca bem aberta, 
com o que o alvoroo cessou abruptamente. Todos se relaxaram.
              - Que pequeno to doce! - A senhora Bug ficou nas pontas dos ps para arrulhar ao Jem, enquanto seu av, extremamente aliviado, voltava-se para saudar 
o senhor Bug e ao Duncan.
              "Doce" no era o adjetivo que Roger teria escolhido. "Louco de atar" era uma expresso mais adequada.
              - Onde est Bree?
              - S Deus sabe e no quer diz-lo - respondeu brevemente seu sogro- . Estive-a procurando por toda a montanha desde que o rorro despertou em meus braos 
e decidiu que no era feliz em minha companhia. - depois de farejar com suspicacia a mo com que tinha sustentado a seu neto, a limpou nas abas da jaqueta.
              - Parece que tampouco lhe satisfaz a minha. - Jem tinha comeado a lhe roer o polegar; a baba lhe corria pelo queixo e gotejava sobre a boneca do Roger- 
. No viu ao Marsali?
              Sabia que a Brianna no gostava que outra mulher amamentasse ao Jemmy, mas estavam ante uma emergncia. Jogou um olhar em redor, com a esperana de 
que houvesse por ali alguma me lactante que se compadecesse da criatura, se no dele.
              - Vamos, me dem a esse pobre pequen - disse a senhora Bug, alargando os braos. Por isso ao Roger concernia, passou imediatamente de entremetida 
charlatana a anjo de luz- . Bom, bom, a leannan, j passou tudo.
              Jemmy, que sabia reconhecer a autoridade a primeira vista calou imediatamente e contemplou  mulher com olhos dilatados por um enorme respeito.         Ela 
se sentou com o menino no regao e comeou a atend-lo, com a mesma eficiente firmeza com que tinha atendido a seu pai. Roger se disse que Jamie se equivocou do 
Bug ao escolher capataz.
              No obstante, Arch estava demonstrando tanto sua inteligncia como suas aptides com sensatas perguntas sobre o gado, as colheitas, os arrendatrios, 
etctera. "Mas se eu poderia fazer todo isso!", pensou Roger, que seguia o dilogo com ateno. "Em parte", corrigiu-se honestamente, assim que a conversao virou 
para os parasitas. Talvez Jamie estava justificado em procurar a algum com mais conhecimentos... mas ele podia aprender, depois de tudo.
              - E quem  este guri to simptico, n? - A senhora Bug se ps de p, arrulhando ao Jemmy, j respetablemente transformado.         Seguindo com um 
dedo romo a linha daquela bochecha redonda, jogou uma olhada ao Roger- . Sim, sim, tem os olhos do pai, j se v, no?
              Ele avermelhou, esquecendo por completo aos parasitas.                ;
              - Sim? Eu diria que se parece muito mais a sua me. 
              A anci franziu os lbios, estudando-o com olhos entreabridos. Logo sacudiu decididamente a cabea, dando uns tapinhas ao cocuruto do Jem.
              - O cabelo possivelmente no, mas o corpo se,  o seu, jovem. Esses bons ombros, bem largos! - depois de um breve gesto de aprovao dirigido ao Roger, 
beijou ao menino na frente- . E no me surpreenderia que, com o tempo, tivesse os olhos verdes. Recordem o que lhes digo, jovem: quando crescer ser seu viva imagem. 
Verdade que sim, hombrecito? - acrescentou, hociqueando ao Jemmy- . Ser uma moo grande e forte como seu papai, no  certo?
              " o tipo de coisas que se dizem sempre", recordou-se a si mesmo, tratando de apagar o absurdo arrebatamento de prazer que lhe causavam essas palavras. 
"As velhas sempre dizem que os crios se parecem com um ou a outro." de repente descobriu que temia admitir sequer a possibilidade de que Jemmy pudesse ser dele, 
de tanto como o desejava. disse-se com firmeza que no importava; fora ou no de seu sangue,  obvio que o amaria e cuidaria como a um filho. Mas sim que importava, 
e de que maneira!
              antes de que pudesse dizer nada  mulher, o senhor Bug se voltou para ele, para inclui-lo cortesmente na conversao dos homens.
              - MacKenzie? - disse- .  voc dos MacKenzie de lorridon? Ou possivelmente do Kilmarnock?
              - Roger MAC  meu parente, por parte de me - disse Jamie despreocupadamente- . Dos MacKenzie do Leoch, verdade?
              - Ah, sim? - Arch Bug parecia impressionado- . Pois se que chegou longe, moo! 
              - OH, no mais que voc, senhor, sem dvida... ou qualquer dos que esto aqui. - Roger assinalou com um breve gesto montanha acima, de onde chegavam, 
flutuando no ar mido, gritos galicos e msica de gaitas de fole.
              - No, no, jovem! - A senhora Bug se incorporou  conversao, com o Jemmy apoiado contra o ombro- . No  isso o que Arch quer dizer.  que est 
voc muito longe dos outros.
              - Do que outros? - Roger intercambiou um olhar com o Jamie, quem se encolheu de ombros, igualmente intrigado.
              - os do Leoch - alcanou a dizer Arch, antes de que sua esposa agarrasse o fio do dilogo entre seus dentes.
              - Inteiramo-nos no navio, sabem? Havia um grupo grande dos MacKenzie, todos das terras que esto ao sul do velho castelo. Quando seu senhor partiu 
com o primeiro grupo, aqueles ficaram, mas agora queriam ir reunir se com o que subtrao do cl, para ver se podiam trocar sua sorte porque... 
              - O senhor? - interrompeu-a Jamie, spero- . No era Hamish MAC Callum?
              Hamish, filho do Colum, traduziu Roger para seus adentros. E fez uma pausa. Quer dizer, Hamish MAC Dougal. Mas no mundo havia s cinco pessoas que 
soubessem. Agora, possivelmente s quatro.
              A anci assentiu enfaticamente.
              - Sim, sim, assim o chamavam eles. Hamish MAC Callum MacKenzie, senhor do Leoch. O terceiro. Assim o disseram. Y...
              Ao parecer, Jamie tinha encontrado a maneira de entender-se com a senhora Bug; por meio de implacveis interrupes, conseguiu lhe extrair a histria 
em menos tempo do que seu genro teria acreditado possvel. O castelo do Leoch tinha sido destrudo pelos ingleses na purgao das Terras Altas que seguiu ao Culloden. 
Jamie conhecia essa parte, mas depois, prisioneiro ele tambm, no tinha tido notcias do destino de quem vivia ali.
              - E no tive valor para perguntar - acrescentou, com uma melanclica inclinao de cabea.
              Os Bug intercambiaram um olhar, suspirando ao unssono, com os olhos escurecidos pelo mesmo sotaque triste que apagava a voz do Jamie.         Era 
uma expresso a que Roger estava j muito habituado.
              - Mas se Hamish MAC Callum ainda vive... - Jamie, que no tinha retirado a mo de seu ombro, o estreitou com fora ao dizer isto- .  uma notcia que 
alegra o corao, no?
              E sorriu com to bvia alegria, que Roger, inesperadamente, sentiu brotar em sua cara um enorme sorriso a modo de resposta. 
              - Sim - disse, aliviado o peso em seu corao- . Sim, isso!
              O fato de que no tivesse a menor ideia de quem era Hamish MAC Callum MacKenzie no tinha nenhuma importncia; o homem era na verdade um parente, de 
seu mesmo sangue, e a idia o regozijava.
              - Sabem aonde foram? - inquiriu seu sogro- . Hamish e seus seguidores?
              A Acadia... no, ao Canad, responderam os Bug. Ou a Nova Esccia? A Maine? No... a uma ilha, decidiram, depois de uma complexa consulta mtua. Ou 
possivelmente...
              Jemmy os interrompeu com um uivo que indicava seu iminente falecimento por inanio. A senhora Bug deu um coice, como se algum lhe tivesse parecido 
um pau.
              - Devemos levar a este pobre pequeno com sua mame - disse em tom de recriminao, repartindo imparcialmente seu olhar fulminante entre os quatro homens, 
como se os acusasse coletivamente de uma conspirao para assassinar ao menino- . Onde est seu acampamento, senhor Fraser?
              - Eu a guiarei, senhora - ofereceu-se precipitadamente Duncan- . Me acompanhe voc.
              Roger ps-se a andar depois dos Bug, mas Jamie o reteve lhe pondo uma mo no brao.
              - No; deixa que Duncan os leve - disse, despedindo-se do casal com uma inclinao de cabea- . Mais tarde falarei com o Arch. Agora tenho algo que 
te dizer, a chliamhuinn.
              Roger sentiu que ficava algo tenso ante esse trmino formal. Tinha chegado o momento em que Jamie lhe diria que defeitos de carter e formao o faziam 
inadequado para assumir a direo das coisas na Colina do Fraser?
              Mas no: seu sogro estava tirando um papel enrugado de seu sporran. O entregou com uma leve careta de desgosto, como se lhe queimasse na mo. Roger 
o percorreu velozmente com os olhos; logo apartou a vista da breve mensagem do governador.
              -  Tropa. Quando? 
              Jamie encolheu um ombro.
              -  Ningum sabe, mas antes do que qualquer quereria, suponho.-  Dedicou ao jovem um sorriso deprimido e triste -  . ouviste as conversaes havidas 
em torno do fogo?
              Roger assentiu com seriedade. Tinha escutado os dilogos entre uma cano e outra, durante as competies de tiro de pedra, entre os pequenos grupos 
que bebiam sob as rvores, no dia anterior. No tiro do tronco tinha comeado uma briga a murros, rapidamente sufocada sem que se produziram danos; mas a ira pendia 
como uma fetidez no ar da congregao.
              Jamie se passou uma mo pela cara e o cabelo. Logo se encolheu de ombros, suspirando.
              -  Tive sorte ao me encontrar hoje com o Arch Bug e sua esposa. Se se chegar  luta (e suponho que assim ser, se no agora, mais adiante), Claire 
vir conosco. E eu no gostaria de deixar que Brianna as arrumasse sozinha. Mas se pode solucionar.
              Roger sentiu que o abandonava o pequeno peso da dvida; de repente o via tudo claro.
              -  Sozinha. Isso significa que... desejas que te acompanhe? Para te ajudar a recrutar homens para a tropa?
              Jamie o olhou com ar surpreso.    
              -   obvio. Quem, se no?
              E rodeou os borde de sua manta aos ombros, curvado contra o vento que aumentava.
              -  Vamos, pois, capito MacKenzie -  disse, com uma nota irnica na voz -  . Temos muito que fazer antes de suas bodas.
      
      

      9
      
      A semente da discrdia
      
      
              Uma parte de minha mente estava no plipo nasal de um escravo do Farquard Campbell; a outra, no governador Tryon. Dos dois era o plipo quem me inspirava 
mais compaixo, e minhas intenes eram acabar com ele cauterizando-o com um ferro quente.
              Parecia muito injusto, disse-me, carrancuda, enquanto esterilizava o bisturi e punha o mais pequeno de meus cauterizadores em uma terrina de brasas.
              Seria esse o comeo? Ou um deles? Terminava 1770; em cinco anos mais, as treze colnias estariam em guerra. Mas cada uma chegaria a esse ponto por 
um processo distinto. depois de ter vivido tanto tempo em Boston, sabia, pelos textos escolar do Bree, como tinha sido o processo em Massachusetts... ou como seria. 
Os impostos, a massacre de Boston, Harbor, Hancock, Adams, a Partida do Ch, todo isso. Mas na Carolina do Norte como tinha acontecido? Quer dizer, como aconteceria?
              Bem podia estar produzindo-se j. O dissentimento fervia a fogo lento desde fazia vrios anos, entre os plantadores da costa oriental e os curtidos 
moradores da zona ocidental. Os reguladores surgiam, em sua maioria, de entre estes ltimos; os primeiros apoiavam de todo corao ao Tryon, quer dizer:  Coroa.
              - J est bem?
              Tinha dado ao escravo um bom sorvo de usque medicinal para lhe insuflar foras. Sorri-lhe como lhe dando flego e ele assentiu; parecia inseguro, 
mas resignado.
              Eu nunca tinha ouvido falar dos reguladores, mas ali estavam, em que pese a tudo. E a essas alturas, com o que eu tinha visto, sabia quanto omitem 
os livros de Histria. Acaso as sementes da revoluo se estavam semeando diretamente ante meus narizes?
              Com um murmrio tranqilizador, envolvi-me a mo esquerda com um guardanapo de linho e, sujeitando com firmeza o queixo do escravo, coloquei o escalpelo 
por sua fossa nasal. Cortei o plipo com um destro movimento da folha; o sangue emanou a fervuras, quente, atravs do pano que me rodeava a mo, mas ao parecer no 
havia muita dor. O escravo parecia surpreso, mas no inquieto. Apertei o pano com fora contra o nariz do homem, para deter o sangue e logo o retirei. antes de que 
o sangue voltasse a emanar, pressionei o ferro quente, esperando hav-lo feito no ponto correto.
              O escravo emitiu um som estrangulado, mas no se moveu, embora as lgrimas lhe corriam pelas bochechas, molhadas e quentes contra meus dedos. O aroma 
de carne chamuscada e sangue era o mesmo que surge dos andaimes. Meu estmago lanou um forte grunhido. Os olhos dilatados e avermelhados do escravo se encontraram 
com meus, atnitos. Vendo que minha boca se contraa, deixou escapar uma dbil risita entre as lgrimas e os mucos.
              Retirei o ferro, com o pano preparado. No houve mais sangue. Ento inclinei bem para trs a cabea do homem, entortando os olhos para olhar dentro 
de seu nariz, e tive o gosto de detectar uma marca pequena e poda na parte alta da mucosa.
              O homem no falava ingls; sorri-lhe, mas ao falar dirigi a sua companheira, uma jovem que no lhe tinha solto a mo durante toda essa dura prova.
              - Repor-se perfeitamente. Por favor, lhe diga que no se tire a crosta. Se se torcedor, se houver pus ou febre... 
              Fiz uma pausa; o resto da frase devia ser "... consulta imediatamente com seu mdico", mas isso no era possvel.
              - Consulta com sua ama - disse em troca, a contra gosto- . Ou busca a uma curandeira que saiba de ervas.
              Pelo pouco que sabia, a atual senhora Campbell era jovem e bastante confundida. Mesmo assim, em qualquer plantao, o ama devia saber como tratar uma 
febre. E se aquilo passava de uma simples infeco  septicemia... em qualquer caso ningum poderia fazer muito por ele.
              Despedi-me do escravo lhe dando uma palmada no ombro e chamei o seguinte paciente.
              Uma infeco: isso era o que se estava gerando. Em geral tudo parecia tranqilo; ao fim e ao cabo, a Coroa estava retirando todas suas tropas. Mas 
sem dvida perduravam dezenas, centenas, milhares de diminutos grmenes de discrdia, conformando bolsas de conflito em todas as colnias. A regulao era s um 
deles.
              Tinha a meus ps um pequeno cubo de lcool destilado para desinfetar os instrumentos. Afundei o cauterizador nele e logo voltei a p-lo no fogo. O 
lcool se acendeu com um breve pif!, sem levantar chama.
              Tive uma sensao desagradvel, como se a nota escrita que nesses momentos queimava o sporran do Jamie fora uma chama similar, aplicada a uma entre 
um milho de pequenas mechas. Algumas seriam sufocadas; outras se apagariam por si s. Mas umas quantas seguiriam ardendo, chamuscando um caminho destrutivo atravs 
de lares e famlias. O final seria uma ciso limpa, mas correria muita sangre antes de que o ferro quente das armas pudesse cauterizar a ferida aberta.
              Acaso Jamie e eu jamais teramos um pouco de paz?
      
      
      - Ali est Duncan MacLeod. Possui trezentos acres perto do rio Yadkin, mas no h ningum ali, salvo ele e seu irmo.
              Jamie se esfregou a cara com uma manga para secar o brilho de umidade que lhe aderia e lhe impregnava at os ossos. depois de piscar para limpar a 
vista, sacudiu-se como os ces, pulverizando as gotas que lhe tinham condensado no cabelo. Logo prosseguiu, assinalando a voluta de fumaa que marcava a fogueira 
do MacLeod:
              - Mas  parente do velho Rabbie Cochrane. Rabbie no veio  congregao; acredito que est doente de hidropisia. Mas tem onze filhos j maiores, disseminados 
pelas montanhas como gros de milho. Roger, lhe dedique ao MacLeod todo o tempo que seja necessrio; te assegure primeiro de que venha porque quer faz-lo; logo 
lhe diz que mande aviso ao Rabbie. lhe diga que nos reuniremos na Colina do Fraser dentro de quinze dias.
              Vacilou, com uma mo no brao do Roger para impedir que partisse abruptamente. Com os olhos entreabridos ante o resplendor, sopeso as possibilidades. 
Tinham visitado juntos trs acampamentos e contavam com a palavra de quatro homens, Quantos mais poderiam achar na congregao?
              - Quando acabar com o Duncan v aos currais de ovelhas. Ali estar certamente Angus Og. Conhece o Angus Og?
              Roger assentiu, esperando que fora quem ele acreditava. Na ltima semana lhe tinham apresentado ao menos a quatro homens chamados Angus Og, mas um 
deles ia seguido por um co e fedia a l crua.
              - Og Campbell, verdade? Curvado como um anzol e com um olho desviado?
              - Esse , sim. - Jamie fez um gesto de aprovao afrouxando a mo- . Est muito coxo para combater, mas se encarregar de que vo seus sobrinhos e 
divulgar a notcia entre os assentamentos prximos ao High Point. De maneira que temos ao Duncan, Angus... ah, sim: Joanie Findlay.
              - Joanie?
              Fraser sorriu de brinca a orelha.
              - A velha Joan, chamam-na. Acampa perto de minha tia. Ela e lain Mhor, seu irmo.
              Roger assentiu, dbio.
              - Bem. Mas  com ela com quem devo falar, verdade?
              -  fora - disse Jamie- . lain Mhor no pode falar. Mas ela tem outros dois irmos e dois filhos vares em idade de combater. Enviar-os. 
              Elevou o olhar ao cu. Ficavam talvez duas horas de boa luz.
              - Com isso basta - decidiu, secando-a nariz com a manga- . Volta para a fogueira quando tiver terminado com a velha Joan, e comeremos algo antes de 
suas bodas, vale?
              despediu-se do Roger com uma sobrancelha arqueada e um leve sorriso. Logo lhe voltou as costas, mas antes de que o jovem pudesse dar um passo girou 
outra vez.
              - lhes diga em seguida que  o capito MacKenzie - aconselhou-lhe- . Emprestaro-lhe mais ateno.
              E se afastou a grandes passos, em busca dos candidatos mais recalcitrantes de sua lista.
      
      
      
              A fogueira do MacLeod fumegava na bruma como uma chamin. Roger se dirigiu para ali, repetindo os nomes pelo baixo: "Duncan MacLeod, Rabbie Cochrane, 
Angus Og Campbell, Joanie Findlay... Duncan MacLeod, Rabbie Cochrane..." No havia nenhuma dificuldade; com trs repeties o gravava tudo, j fora a letra de uma 
nova cano, os dados de um livro de texto ou as instrues sobre a psicologia de possveis recrutas para a tropa.
              Parecia-lhe razovel procurar ali a quo escoceses viviam apartados antes de que se dispersassem para suas granjas e suas cabanas. E o reconfortava 
o fato de que at o momento os homens abordados tivessem aceito o recrutamento sem mais que um olhar furioso e um pigarro de resignao.
              Capito MacKenzie... O ttulo que Fraser lhe tinha outorgado to despreocupadamente lhe provocava um sobressaltado orgulho.
              Ao mesmo tempo, tinha que admitir que experimentava uma pequena ardncia de entusiasmo. Talvez aquilo, no momento, fora s jogar  guerra. Mas a idia 
de partir com um regimento de milicianos, com os mosquetes ao ombro e o aroma de plvora nas mos...
              Faltavam s quatro anos, disse-se, para que os milicianos pisassem na erva do Lexington. Homens que, em um princpio, no eram mais soldados que aqueles 
com quem falava em meio da chuva, no mais que ele. Ser consciente disso lhe arrepiou a pele e lhe assentou no ventre com um estranho peso de importncia.
              J se morava. Santo Cu!, morava-se de verdade.
      
      
              MacLeod no apresentou nenhum problema; entretanto, demorou mais do que esperava em encontrar ao Angus Og Campbell, fundo entre ovelhas at o traseiro 
e irascvel pela interrupo. o de "capito MacKenzie" no causou muito efeito nesse velho cretino; mais sorte teve ao invocar ao "coronel Fraser", pronunciado com 
certo sotaque de ameaa. Angus Og se mordeu o comprido lbio superior com mal-humorada concentrao; logo assentiu a contra gosto e voltou para suas negociaes 
com um resmungo: "Farei-o saber, sim."
              Quando ascendeu novamente para o acampamento do Joan Findlay, a garoa tinha cessado e as nuvens comeavam a abrir-se.
              Levou-se a surpresa de descobrir que "a velha louvam" era uma mulher atrativa, de uns trinta e cinco anos, com penetrantes olhos de cor avel que o 
observaram com interesse baixo as dobras de seu arisaid molhado.
              - De maneira que a isso chegamos, n? - disse, depois da breve explicao de seu visitante- . Quase o esperava, depois de escutar o que aquele moo 
disse esta manh.
              Tocou-se reflexivamente os lbios com a manga da colher de madeira. 
              - Tenho uma tia que vive no Hillsborough, sabe voc?, com uma habitao na Casa do Rei. Justo em frente est a casa do Edmund Fanning... quer dizer, 
estava. - Soltou uma gargalhada breve, sem humor- . Tem-me escrito. Diz que a multido chegou agitada pela rua, blandiendo paus como um turba de demnios. Arrancaram 
de seus alicerces a casa do Fanning e a arrastaram com cordas, frente aos olhos de minha tia. Assim agora devemos enviar a nossos homens para que tirem as castanhas 
do fogo pelo Fanning, verdade?
              Roger se mostrou cauteloso; tinha ouvido muitas coisas sobre o Edmund Fanning, que distava de ser querido.
              - No saberia o que lhe dizer, senhora Findlay - manifestou- . Mas o governador..
              Joan Findlay bufou de maneira expressiva.
              - O governador! - exclamou, cuspindo ao fogo- . Ora! Mas bem, os amigos do governador. Mas assim so as coisas e assim sero sempre: os pobres devem 
verter seu sangue pelo ouro do rico.
              Voltou-se por volta de duas meninas que se materializaram detrs dela, silenciosas como pequenos fantasmas envoltos em xales.
              - Annie, v procurar a seus irmos. Voc, Joanie, remove a panela. Cuida de arranhar bem o fundo, para que no se queime.
              depois de entregar a colher a mais pequena, afastou-se, indicando ao Roger que a seguisse.
              O acampamento era miservel: apenas uma manta de l estirada entre duas matas para proporcionar algum casaco. Joan Findlay se agachou ante a cova assim 
formada e Roger a imitou, agachando-se para olhar por cima do ombro da mulher.
              - A bhrthair, veio o capito MacKenzie - disse ela, alargando uma mo para o homem que jazia em um jergn de erva seca, sob a manta.
              Roger sentiu uma brusca impresso ao v-lo, mas se dominou. Na Esccia de sua poca se haveria dito que era espasmdico; que nome lhe dariam agora? 
Talvez nenhum; Fraser se tinha limitado a dizer que no podia falar.
              No, e tampouco mover-se devidamente. Seus membros ossudos estavam consumidos; seu corpo, contrado em ngulos impossveis. Seus movimentos espasmdicos 
tinham movido o edredom que o cobria, amontoando-o entre suas pernas, com o que o torso ficava exposto; em suas resistncias, tirou-se pela metade a camisa. A pele 
plida dos ombros e as costelas resplandecia na sombra em frios tons azuis.
              Joan Findlay lhe cobriu a bochecha com uma mo para lhe girar a cabea, a fim de que pudesse olhar ao Roger.
              - Meu irmo lain, senhor MacKenzie - apresentou com voz firme, como se o desafiasse a reagir.
              A cara tambm estava distorcida, com a boca torcida e lhe babem, mas naquela runa humana havia um belo par de olhos cor avel, cheios de inteligncia, 
que sustentaram o olhar do visitante. Roger, dominando firmemente seus sentimentos e suas prprias faces, alargou a mo para estreitar a garra do doente. A sensao 
foi terrvel: ossos agudos e frgeis sob uma pele to fria que bem teria podido ser a de um cadver.
              - lain Mhor - disse com suavidade- . ouvi falar de voc. Jamie Fraser vos envia suas saudaes.
              As plpebras descenderam em um delicado gesto de reconhecimento; logo voltaram a subir e contemplaram ao Roger com tranqila inteligncia.
              - O capito veio para recrutar milicianos - disse Joan, atrs do visitante- . O governador deu ordens. Parece que est cansado dos distrbios e a desordem, 
conforme diz, e quer acabar com isso pela fora. 
              Sua voz encerrava um forte tom de ironia. 
              Os olhos de lain Mhor se detiveram na cara de sua irm. Sua boca se movia, lutando por recuperar a forma; o peito estreito se esticou com o esforo. 
dele emergiram umas poucas slabas roucas, espessas de saliva. Logo caiu para trs, respirando com fora, a vista fixa no Roger.
              - Pergunta se lhe pagar ao que se recrute, capito - traduziu Joan. Roger vacilou. Jamie tinha previsto essa pergunta, embora no havia uma resposta 
definitiva. Mas a franqueza o obrigou a responder.
              - No se. Ainda no se anunciou nada... mas talvez se faa.
              O pagamento de um recrutamento dependia da resposta que tivesse a convocatria do governador; se a s ordem produzia tropas insuficientes, as autoridades 
podiam considerar adequado oferecer um melhor incentivo aos milicianos que respondessem  chamada. 
              Nos olhos de lain Mhor faiscou uma expresso desencantada, quase imediatamente substituda por outra de resignao. Qualquer ingresso teria sido bem 
recebido, mas em realidade no o esperavam. 
              - O que lhe vai fazer!
              A voz do Joan expressava a mesma resignao. Roger a ouviu apartar-se para um lado, mas ainda seguia detento daqueles olhos avel, de largas pestanas, 
que sustentavam seu olhar sem ceder, curiosos. No estava seguro de poder retirar-se sem mais; queria oferecer ajuda, mas havia ajuda possvel?
      Alargou uma mo para a camisa aberta e o edredom enredado. Era pouco, mas melhor que nada.
              - Permite-me?
              Os olhos avel se fecharam durante um instante e voltaram a abrir-se com aquiesciencia. O se dedicou a p-lo tudo em seu stio, lain Mhor, embora consumido, 
era assombrosamente pesado e levant-lo desde esse ngulo resultava difcil.
              Mesmo assim no demorou mais que um momento; o homem ficou decentemente coberto e melhor abrigado. Roger sustentou novamente seu olhar; logo, com uma 
inclinao de cabea e um sorriso turvado, retrocedeu at sair daquele ninho revestido de ervas, to mudo como o mesmo lain Mhor.
              Os dois filhos vares do Joan Findlay j estavam ali, junto a sua me; eram robustos moos de dezesseis e dezessete anos, que observavam ao visitante 
com cautelosa curiosidade.
              - Este  Hugh - indicou ela, estirando-se para apoiar uma mo em seu ombro. Logo fez o mesmo com o outro- : E este, lain Og. 
              Roger inclinou cortesmente a cabea.
              - A seu servio, cavalheiros.
              Os moos intercambiaram um olhar; logo baixaram a vista, sufocando um grande sorriso.
              - Bem, capito MacKenzie. - A voz do Joan remarcou o ttulo- . Se emprestar a meus filhos, promete-me voc envi-los a casa ss e salvos?
              Os olhos de cor avel da mulher eram to agudos e inteligentes como os de seu irmo..., e tampouco cediam. Ele reuniu foras para no apartar a vista.
              - At onde esteja meu poder, senhora... cuidarei de que estejam a salvo. A mulher elevou apenas o bordo da boca; sabia perfeitamente o que estava em 
seu poder e que no. Mesmo assim sorriu, deixando cair as mos aos lados.
              - o Ir.
              Ento ele se despediu. Enquanto se afastava, sua confiana lhe pesava no" ombros.
      
      
      
      
      
      
      
      10
      
      Os presentes da av Bacon
      
      
              Uma vez atendido o ltimo de meus pacientes, me desperec com fruio. De uns quantos pacientes podia dizer, sem faltar  verdade, que os tinha salvado 
de infeces graves e at da morte. E tinha dado uma verso mais de meu prprio sermo da montanha, pregando o evangelho da nutrio e a higiene s multides reunidas.
              - Bem-aventurados quem come verduras, porque conservaro seus dentes - murmurei a um cedro.
              Detive-me para arrancar algumas de seus fragrantes bagos e triturei uma com a unha do polegar, desfrutando de seu aroma limpo e penetrante.
              - Bem-aventurados os que se lavam as mos depois de limpar o traseiro - acrescentei, apontando com um dedo admoestador a um arrendajo azul- , pois 
eles no adoecero.
              O acampamento j estava  vista e, com ele, a deliciosa perspectiva de uma taa de ch quente.
              - Bem-aventurados quem ferve a gua - disse-lhe ao pssaro- , pois eles sero chamados salvadores da humanidade.
              - Senhora Fraser! Senhora! - gorjeou uma vocecita junto a mim, interrompendo meus ensoaciones.
              Ao baixar a vista me encontrei com o Eglantine Bacon, de sete anos, e Pansy, sua irm menor: um par de meninas ruivas, de cara redonda e sardenta.
              - Ah, ol, querida. Como est? - perguntei, sonrindole. Bastante bem, a julgar por seu aspecto; nos meninos, a enfermidade est acostumada ser visvel 
a simples vista; as pequenas Bacon transbordavam sade.
              - Muito bem, senhora, muito obrigado. - Eglantine me fez uma breve reverencia, logo deu um tranco  cabea do Pansy para que fizesse o mesmo..
              Uma vez observadas as regras de cortesia (os Bacon eram gente de cidade, que tinham ensinado bons maneiras a suas meninas), Eglantine afundou a mo 
em seu bolso e entregou um grande pacote de tecido.
              - A av Bacon vos envia este presente - explicou orgulhosamente, enquanto eu desdobrava o tecido. Resultou ser uma touca enorme, decorada com encaixes 
e cintas de cor malva- . Este ano no pde vir  congregao, mas disse que devamos lhe trazer isto e lhe dar as obrigado pelo remdio que lhe enviou voc para 
seu... reu-MA-tismo.
              Pronunciou a palavra com cuidado, franzindo a cara ao concentrar-se; logo se relaxou, radiante de orgulho por hav-lo feito tudo corretamente.
              - Muito obrigado! Que bonita! - Levantei a touca para admir-la, enquanto me ocorriam umas quantas coisas sobre a av Bacon.
              Deu-me cara a cara sua opinio, de que era indecoroso, em uma mulher de minha idade, no usar boina nem leno, algo censurvel na esposa de um homem 
to importante; mais ainda, to somente "as busconas dos andurriales e as mulheres de baixa condio" levavam o cabelo solto sobre os ombros.         Eu me limitei 
a rir, sem lhe emprestar ateno, e lhe dava uma garrafa de usque bastante bom, com instrues de beber um poquito com o caf da manh e depois do jantar.
              A mulher, que no deixava dvidas impagadas, tinha decidido me pagar a sua maneira. 
              - No vai voc a ficar a Eglantine e Paruy me olhavam com ar crdulo- . A abuelita nos disse que devia ficar a para que pudssemos lhe dizer como ficava.
              - Isso disse?
              Ao parecer, no havia remdio. Encasquetei-me a touca, que me caa sobre a frente, quase at a ponte do nariz, e rodeava minhas bochechas de envoltrios 
postas fitos, me fazendo sentir como um esquilo que espiasse desde sua toca.
              Eglantine e Pansy palmetearon em um paroxismo de prazer. Pareceu-me oir sufocados rudos de diverso a minhas costas, mas no me girei.
              - Digam a sua abuelita que lhe agradeo este encantador presente, de acordo? 
              Dava s meninas uns tapinhas na cabea e caramelos de melao, antes das enviar a reunir-se com sua me. No momento em que elevava uma mo para me tirar 
essa excrecencia da cabea, ca na conta de que a me estava ali: provavelmente tinha estado de um princpio, espreitando detrs de um placaminero.
              - OH! - exclamei, convertendo meu gesto em um intento de reacomodar o brando meio doido. Levantei com um dedo a parte pendente, para ver melhor- . 
Senhora Bacon! No a tinha visto voc.
              - Ol, senhora Fraser. 
              A cara do Polly Bacon mostrava uma delicada cor rosada, sem dvida provocado pelo frio. Tinha os lbios muito apertados, mas lhe danavam os olhos 
sob o volante de sua muito correto touca.
              - As meninas queriam lhe entregar isso - disse. Teve o tato de no olh-la- . mas minha sogra lhes enviou outro pequeno presente. Pareceu-me que seria 
melhor dar-lhe eu mesma. 
              Desatei a corda, e deixei cair em minha palma uma pequena quantidade de sementes diminutas, de cor parda escura.
              - O que ? - perguntei ao Polly, intrigada.
              - No sei que nome tem em nosso idioma - respondeu ela- . Os ndios a chamam dauco. A av Bacon  neta de uma curandeira catawba, sabia voc? dela 
aprendeu a usar essas sementes.
              - De verdade? - Agora compreendia que o desenho me resultasse familiar: devia ser a planta que Nayawenne me tinha mostrado uma vez, a planta das mulheres. 
No obstante perguntei, para maior segurana- : Para que serve?
              Nas bochechas do Polly aumentou o rubor. antes de inclinar-se para mim percorreu o claro com a vista, para assegurar-se de que ningum pudesse nos 
ouvir.
              - Para impedir que algum fique grvida. Tomadas uma cucharadita todos os dias, em um copo de gua. Todos os dias, entende? Ento a semente do homem 
no arraiga no ventre feminino.
              Seus olhos se enfrentaram a meus; a seu brilho divertido se adicionava algo mais srio.
              - A av se deu conta de que  voc mulher de conjuros. E sendo assim, freqentemente ter que ajudar s mulheres que sofrem abortos, por no falar 
do que se padece ao perder a um menino que nasce vivo... Encomendou-me lhe dizer que mais vale acautelar que curar.
              - Lhe diga a sua sogra que o agradeo muito - manifestei com sinceridade. 
               idade do Polly, a maioria das mulheres tinham cinco ou seis filhos e as via desgastadas pela sucesso de embaraos inoportunos; ela, com apenas duas 
meninas, carecia desse aspecto. Obviamente, as sementes eram efetivas.
              O sorriso estalou em sua cara.
              - O direi. Ah!... disse algo mais. Que sua av lhe disse que era magia de mulheres; assim no a mencione a nenhum homem.
              Sim, era compreensvel que o remdio da velha av Bacon fora ofensivo para alguns homens. Seria Roger um de esses?
              Depois de me despedir do Polly Bacon, levei meu cofre a nosso abrigo e guardei cuidadosamente nele aquele saquito de sementes. Uma tilsima aquisio 
para meu farmacopea, se Nayawenne e a av Bacon estavam no certo. Alm disso, era um presente muito oportuno, tendo em conta minha anterior conversao com o Bree.
              At era mais valioso que o pequeno monto de peles de coelho que tinha acumulado, embora estas fossem bem recebidas. Levantei a tampa de uma cesta 
vazia; guardaria-as ali para a viagem de volta.
              - ... Stephen Bonnet.
              O nome se cravou em meus ouvidos como uma picada de aranha, fazendo que deixasse cair ruidosamente a tampa do cesto. Imediatamente joguei um olhar 
a meu redor, mas no vi nem a Branna nem ao Roger. Jamie estava de costas a mim, mas era ele quem tinha falado.
              Tirei-me a touca e, depois de pendur-la cuidadosamente de um ramo de cornejo, sa decidida para me reunir com ele .
      
      
      
              No sei do que estavam falando os homens, mas se interromperam  lombriga. O tenente Hayes partiu, depois de me agradecer uma vez mais a assistncia 
cirrgica. Sua cara redonda e branda no revelava nada.
              - O que acontece Stephen Bonnet? - perguntei assim que ele esteve muito longe para me ouvir.
              - Isso era o que eu lhe estava perguntando, Sassenach. J est preparado o ch? - Jamie se aproximou do fogo, mas eu o detive lhe pondo uma mo no 
brao.
              - por que? - inquiri.
              Como no o soltasse, enfrentou-se para mim a contra gosto.
              - Porque quero saber onde est - disse, sem alterar-se. No se incomodou em fingir que no me entendia. Uma sensao de frio me bateu as asas no peito.
              - Hayes sabe onde est? soube um pouco do Bonnet?         
              Ele moveu a cabea, mudo. Estava-me dizendo a verdade. Quando afrouxei os dedos, aliviada, ele retirou o brao; fez-o sem aborrecimento, com uma objetividade 
tranqila e decidida.
              - Claro que  meu assunto! - apontei, respondendo ao gesto.
              Falava em voz baixa, olhando a meu redor para me assegurar de que nem Bree nem Roger me ouvissem. Ele no estava  vista; ela estava de p junto  
fogueira, sumida em conversao com os Bug. Voltei-me novamente para o Jamie.
              - Para que buscas a esse homem?
              - No  prudente saber de onde pode vir o perigo? - respondeu-me sem me olhar; com um sorriso e um movimento de cabea saudou o Fergus, que se encontrava 
a minhas costas.
              Retornou a sensao fria, penetrante, como se algum me tivesse perfurado o pulmo com uma lasca de gelo.
              - OH!, claro - disse, com toda a desenvoltura possvel- . Quer saber onde est para evitar ir ali, no?
              Um pouco parecido a um sorriso cruzou a cara.
              - Exatamente para isso- disse. 
              Dada a escassez de populao na Carolina do Norte, em geral, e o longe que estava a Colina do Fraser, em particular, as possibilidades de que tropessemos 
acidentalmente com o Stephen Bonnet eram mnimas. Havia um s motivo para que desejasse localizar ao Stephen Bonnet... e eu sabia perfeitamente.
              - Jamie. - Voltei a lhe pr uma mo no brao- . Deixa-o em paz. Por favor.
              Ele me cobriu a mo com a sua, mas o gesto no me tranqilizou.
              - No se preocupe, Sassenach. Passei-me a semana perguntando por toda a congregao. No lhe viu em nenhum ponto da colnia.
              - Melhor assim - disse. Mas no me escapava o fato de que ele tinha estado procurando o Bonnet com assiduidade, sem me dizer nada. E alm disso no 
me prometia deixar de busc-lo.
              - Deixa-o em paz - repeti pelo baixo- . J vamos ter muitos problemas. No necessitamos mais.
              Ele me tinha atrado para si para impedir interrupes; percebi seu poder no contato: seu brao sob minha mo, sua coxa roando o meu.
              - H dito que  teu assunto. - Seus olhos estavam serenos; a luz de outono decoloraba seu tom azul- . Eu sei que  meu. Apia-me ou no?
              Maldita seja! Ia a srio, s havia um motivo para procurar o Stephen Bonnet.
              Girei sobre meus tales, arrastando-o comigo, de modo que ambos ficamos olhando ao fogo, muito juntos e com os braos entrelaados.         Brianna, 
Marsali e os Bug escutavam encantados ao Fergus, quem estava relatando algo, com a cara acesa pelo frio e a risada, Jemmy nos olhava por cima do ombro de sua me, 
com os olhos redondos e cheios de curiosidade.
              - Deve pensar neles - disse-lhe, com a voz grave e trmula de paixo- . E em mim. No crie que Stephen Bonnet j lhes tem feito bastante danifico?
              - Sim, mais que bastante.
              Estreitou-me contra si. Embora sentia seu calor atravs da roupa, sua voz soou fria como a chuva. Fergus desviou um olhar para ns e, depois de me 
sorrir calidamente, continuou com seu relato.
              - Deixei-o em paz - disse Jamie, muito fico-  e isso conduziu ao mal. Posso permitir que siga livre, sabendo que classe de homem , sabendo que eu 
o liberei para que siga pulverizando misria?  como ter solto a um co raivoso, Sassenach, e voc no quereria que eu fizesse isso.
              Sua mo estava dura; seus dedos, frios sobre meus.
              - Uma vez o deixou ir, e a Coroa voltou a apanh-lo. Se agora estiver livre no  por sua culpa.
              - Talvez no seja culpa minha que esteja livre - afirmou- , mas tenho a obrigao de impedir que siga assim... at onde eu possa.
              - Sua obrigao  sua famlia!
              Agarrou-me o queixo e inclinou a cabea, cravados seus olhos em meus.
              - Crie acaso que lhes poria em perigo?
              Mantive-me rgida, resistindo por um comprido instante; logo encurvei os ombros e deixei cair as plpebras, em um gesto de capitulao. Aspirei funda, 
longamente, tremendo. Mas no cedi de tudo.
              - Caar  perigoso, Jamie - apontei brandamente- . E voc sabe. Sua mo se relaxou, mas sem me soltar a cara; seu polegar seguiu o contorno de meus 
lbios.
              - Sei - sussurrou- . Mas sou caador velho, Claire. No haver perigo para eles, juro-o.
              - S para ti? E o que ser de ns se voc..?
              Nesse momento vi a Brianna pela extremidade do olho. Olhava-nos e sorria com tenra aprovao, caso que estava ante uma cena de ternura entre seus pais.
              - No me acontecer nada - disse firmemente.
              E me estreitou contra si para sufocar a discusso com um beijo. Do fogo nos chegou um breve aplauso.
              - Encor!- gritou Fergus.
              - No - disse ao Jamie enquanto soltava. Embora falava em sussurros, meu tom era veemente- . Encor no. No quero ouvir nunca mais o nome do Stephen 
Bonnet.
              - Tudo sair bem - murmurou ele, me estreitando a mo- . Confia em mim, Sassenach.
      
      
      
      
      

      11
      
      
      Orgulho
      
      
      
              Roger caminhava colina abaixo sem olhar atrs, entre a maleza e a erva pisada; mas seguiu pensando nos Findlay enquanto se afastava de seu acampamento.
              Os dois moos eram ruivos e baixos, mas de ombros largos. As duas meninas menores, morias, altas e magras, tinham os olhos cor avel de sua me. Considerando 
a diferena de idade entre os vares e suas irms, Roger chegou  concluso de que a senhora Findlay devia haver-se casado duas vezes. E parecia estar viva outra 
vez.
      Talvez devesse lhe mencionar a Brianna o caso do Joan Findlay como a melhor prova de que o matrimnio e os partos no eram necessariamente mortais para as 
mulheres. Ou possivelmente era melhor abandonar o tema por um tempo.
              No obstante, alm do Joan e de seus filhos, perseguiam-no os olhos suaves e brilhantes do Iain Mhor. Que idade teria? Provavelmente fora menor que 
Joan, mas possivelmente no. Ela o tinha tratado com deferncia, lhe apresentando ao Roger tal como as mulheres apresentam a qualquer visitante ao chefe da famlia. 
Por ende, no podia ser muito menor. Trinta anos ou mais, talvez?
              <Santo Cu!-pensou-, como pode um homem sobreviver assim tanto tempo em uma poca como esta?> jurou-se a si mesmo que procuraria a maneira de manter 
ao Iain Og e ao Hugh Findlay bem longe de todo perigo. E se  se pagava pelo recrutamento, eles cobrariam sua parte.
               Enquanto isso... Vacilou. Acabava de passar junto ao acampamento da Yocasta Cameron, que bulia como uma pequena aldeia, com seu cacho de lojas, carretas 
e abrigos. Ante a perspectiva de suas bodas (agora, da dobro bodas), Yocasta havia trazido para quase todos seus escravos domsticos e tambm a uns quantos dos pees. 
alm de ganho, tabaco e mercadorias gastas para comercializar, havia bas cheios de roupa, lenis, baixelas, cavaletes, mesas, tonis de cerveja e montanhas de 
comida, destinadas  celebrao posterior. Essa manh, Bree e ele tinham tomado o caf da manh com a senhora Camern; a baixela de porcelana, com rosas pintadas, 
continha fatias de suculento presunto frito, atravessado com pregos de aroma, porridge de aveia com nata e acar; compota de frutas em conserva; pozinhos tenros 
de milho lubrificados de mel; caf da Jamaica... Ao record-lo, o estmago lhe contraiu com um agradvel grunhido. 
              O contraste entre essa abundncia e a pobreza do acampamento dos Findlay no podia ser aceito com complacncia. Com sbita deciso, deu a volta e iniciou 
a breve ascenso para a loja da Yocasta.
              A senhora Cameron estava em casa, por assim diz-lo; viu suas botas enlameadas junto  loja. Apesar de ser cega, ainda saa para visitar os amigos, 
acompanhada pelo Duncan ou Ulises, seu mordomo negro.
              No obstante, felizmente nesses momento parecia estar sozinha. Roger a viu atravs da lapela aberta da loja; encontrava-se reclinada em sua poltrona 
de cano, em evidente repouso. Fedra, sua criada, ocupava um tamborete junto  entrada, com uma agulha na emana e entortando os olhos sobre o tecido azul que lhe 
cobria o regao. 
      Yocasta foi primeira em perceber sua presena; incorporou-se na poltrona assim que ele tocou a lapela, girando a cabea para ali.
      - Senhor Mackenzie.  realmente o Astuto, verdade?- disse a senhora Cameron, sonriendo nessa direo.
      O Riu. Logo, obedecendo a seu gesto, inclinou a cabea para entrar.
      - O mesmo, mas como sabe voc, senhora Cameron? No hei dito uma palavra, muito menos cantei Acaso respiro de algum jeito melodiosa?
      
      Brianna lhe tinha falado da assombrosa habilidade com que sua tia compensava a cegueira com os outros sentidos, mas mesmo assim lhe surpreendia tanta acuidade. 
      - Ouvi suas pegadas e logo senti o aroma de seu sangue- respondeu ela, sem lhe dar importncia -. Essa ferida tornou a abrir-se, no? Vamos, sinta-se, filho 
Prefere voc uma taa de ch ou um bom gole? Fedra, um pano, por favor.  
      
      Ele se levou involuntariamente os dedos ao corte que tinha no pescoo. Precipitado-los sucessos do dia tinham feito que o esquecesse por completo, mas a dama 
tinha razo: havia tornado a sangrar, deixando uma crosta seca sob a mandbula e no pescoo de sua camisa.
      Fedra j estava de p, pondo uma bandeja com bolos e bolachas em cima de uma mesita, junto  poltrona da Yocasta. <Se no fora pela terra e a erva que estou 
pisando- disse-se Roger-, pareceria que est em seu salo do River Run.> 
      - No  nada- disse com acanhamento.
      Mas Yocasta agarrou o pano que lhe entregava sua criada e insistiu em lhe limpar a ferida com suas prprias mos. 
      - V, manchou-lhe a camisa - lhe informou, apalpando com ire desaprobador o tecido rgido-. Poderemos lav-la? No sei se querer ficar a empapada.  impossvel 
que esteja seca para o anoitecer.
      - Ah!, no, senhora. O agradeo mas tenho outra. Para as bodas, claro. 
      - Bem.
      Fedra havia trazido um botecito com graxa medicinal; devia ser do Claire, pelo aroma de lavanda e hidraste. Yocasta agarrou um pouco de ungento com a unha 
do polegar e lubrificou cuidadosamente a ferida, pressionando os dedos contra o osso de sua mandbula.
      Quando teve terminado, passou-lhe ligeiramente a mo pela cara e a cabea; depois de retirar do cabelo uma folha murcha. Surpreendeu-o lhe limpando a cara 
com o pano molhado. Logo, deixou-o cair para tomar a mo, lhe envolvendo os dedos com os seus.
      - Preparado. Apresentvel de novo! E agora que est voc em condies de aparecer em pblico, senhor MacKenzie, veio a falar comigo ou s passava por aqui?
      Fedra ps a seu lado uma terrina de ch e um platito com bolo, mas Yocasta no lhe soltou a mo esquerda. Isso lhe pareceu estranho, mas a atmosfera de intimidade 
lhe facilitou abordar o que queria lhe pedir.
      Expressou-o com simplicidade; tinha escutado ao reverendo fazer essas chamadas  caridade em ocasies anteriores e sabia que o melhor era permitir que a situao 
falasse por si mesmo, deixando a deciso final liberada  conscincia do ouvinte. Yocasta escutava atentamente, com um pequeno sulco entre as sobrancelhas. Ao terminar 
de falar, pensou que a anci se daria tempo para pensar, mas sua resposta foi imediata.
      - Se conhecer o Joanie Findlay  e tambm a seu irmo. Tem voc razo; a tsica se levou a seu marido faz dois anos, Jamie Roy me falou ontem dela.
      - Ah, de verdade?- Roger se sentiu algo parvo.
        Yocasta fez um gesto afirmativo. Logo, reclinou-se um pouco, com os lbios cavados, pensando.
      - No  s questo de oferecer ajuda, sabe?- explicou-. Alegra-me poder faz-lo. Mas Joan Findlay  uma mulher orgulhosa; no aceita caridades. 
      Sua voz encerrava uma leve nota de recriminao, como se Roger tivesse tido que sab-lo.
      E talvez assim era. Mas ele tinha atuado deixando-se levar pelo impulso, comovido pela pobreza dos Findlay. No lhe tinha ocorrido que, ao carecer de quase 
tudo, para o Joan seria muito mais importante aferrar-se a sua nica posse valiosa: seu orgulho.
      - Compreendo - disse lentamente-. Mas deve haver uma maneira de ajud-la sem que a ofenda.
      Yocasta inclinou a cabea a um lado, logo para o outro, em um gesto que lhe resultou peculiarmente familiar.  obvio: Bree o fazia algumas vezes quando refletia.
      - Pode ser- disse-. No banquete de bodas, esta noite. Ali estaro os Findlay, e comero bem. Ulises poderia lhes envolver um pouco de comida para a viagem 
de volta.
      Sorriu brevemente; logo a expresso concentrada retornou a suas faces.
      - O sacerdote- disse, com sbito ar de satisfao.
      - Que sacerdote? refere-se voc ao pai Donahue?
      Uma sobrancelha grosa e brunida se arqueou para  ele.
      - Naturalmente. H acaso algum outro na montanha?
      Logo levantou a mo livre. Fedra, sempre alerta, foi a seu lado.
      - Senhorita Eu?
      - Busca algumas costure nos bas, moa- ordenou Yocasta, lhe tocando o brao- Mantas, boinas, calas de montar e  camisas singelas... as moos de quadra podem 
prescindir de algumas.
      - Meias- apontou Roger, pensando nos ps descalos e sujos das meninas.
      - Meias- assentiu Yocasta-. Coisas singelas, mas de l boa e bem remendadas. Ulises tem minha bolsa; lhe diga que te entregue dez xelins, que envolver em 
um dos aventais. Logo far um hatillo com tudo e o levar a pai Donahue. lhe diga que para o Joan Findlay, mas que no deve dizer de onde provm. Ele saber o que 
fazer.
      Com gesto  satisfeito, retirou a mo do brao de sua criada e a despediu com um breve gesto.
      - Anda, vete, te ocupe j disso.
      Fedra assentiu com um murmrio e saiu da loja, detendo-se s para sacudir o objeto azul que tinha estado costurando, e dobr-la cuidadosamente sobre  o tamborete. 
Roger viu que era um corselete para o vestido de bodas da Brianna, decorado com elegantes cintas entrecruzadas. Teve uma sbita viso dos brancos peitos da Brianna, 
aparecendo por um grande decote de cor anil escuro. Com certa dificuldade, retomou a conversao.
      - Dizia voc, senhora?
      - Perguntava se com isso bastar.
      Yocasta lhe sorria com uma expresso ligeiramente maliciosa, como se lhe tivesse estado lendo os pensamentos. Seus olhos eram azuis, como os do Jamie e os 
do Bree, mas no to escuros. Estavam fixos nele... ou pelo menos se dirigiam a ele. No podia lhe ver a cara, sem dvida, mas dava a estranha impresso de que podia 
ver atravs dele. 
      - Se, senhora Cameron. foi voc... muito bondosa. - Fez gesto de levantar-se, esperando que lhe soltasse a mo imediatamente. A anci, em troca, apertou os 
dedos retendo-o.
      - Ainda no. Tenho uma ou duas coisas que lhe dizer, jovem.
      Ele voltou a instalar-se no assento, muito composto.
      - Certamente, senhora Cameron.
      - No estava segura de si era melhor falar agora ou esperar a que parecesse, mas j que est voc aqui, sozinho... - inclinou-se para ele, concentrada- Contou-lhe 
minha sobrinha que eu queria nome-la herdeira de minha propriedade?
      - Sim, em efeito. 
      Imediatamente ficou em guarda. Brianna o havia dito, sim... deixando muito claro o que pensava dessa proposta. Roger se preparou para repetir suas objees, 
com a esperana de poder faz-lo com mais tato de que teria empregado ela. Depois de um pigarro, comeou com cautela:
      - No duvido que minha esposa  muito consciente da honra que lhe faz voc, senhora Cameron, mas...
      - Sim?- sentiu saudades Yocasta, seca-. Ningum o teria pensado, ouvindo-a falar. Mas sem dvida voc conhece o que pensa melhor que eu. De qualquer modo, 
devo lhe dizer que troquei que idia.
      - Sim? Bom, acredito que ela...
      - Hei- dito ao Gerald Forbes que redija meu testamento, legando River Run e tudo que contm ao Jeremiah.
      - A.. ? - O crebro do Roger demorou um instante em reagir -. Como? Ao pequeno Jemmy?
      Ela seguia inclinada fazia diante, como se o estudasse. Por fim se tornou para trs com um gesto afirmativo, sempre sem lhe soltar a mo. Roger compreendeu 
que, ao no poder v-lo, esperava interpretar suas reaes pelo contato fsico. Pois bem, podia inteirar-se de tudo o que seus dedos lhe dissessem. A notcia o tinha 
deixado to aturdido que no sabia como reagir. O que diria Bree quando se inteirasse?
      - Sim - disse ela, com um cordial sorriso-. Ver voc: me ocorreu que, quando uma mulher se casa, suas propriedades passam  mos de seu marido. No  que 
no haja forma de resolver isso, mas sempre  difcil. E no quero recorrer aos advogados mais do indispensvel. Em minha opinio, recorrer  lei  sempre um engano, 
no est de acordo, senhor MacKenzie?
      Completamente estupefato, Roger caiu na conta de que o estava insultando deliberadamente. E no era s um insulto, mas tambm uma ameaa. Essa mulher pensava... 
Sim! Pensava que ele ia depois da suposta herana da Brianna, e lhe estava advertindo que no recorresse a artefatos legais para obt-la. 
      - Mas isto  o mais... ! Pensam muito no orgulho do Joan Findlay!,Criem que eu no tenho? Como lhes atrevem a sugerir tal coisa, senhora Cameron?
      -  voc um jovem arrumado, Astuto- disse ela, retendo-o com fora- apalpei sua cara. E leva o sobrenome MacKenzie, que  dos bons, sem dvida. Mas nas Terras 
Altas abundam os MacKenzie verdade? Homens de honra e homens que no o tm. Jamie Roy o trata como a um parente, mas talvez  s porque est voc comprometido com 
sua filha. Eu no acredito conhecer sua famlia.
      A surpresa estava cedendo passo a uma nervosa necessidade de rir. Conhecer sua famlia? Provavelmente no. Como lhe explicar que ele era descendente direto, 
de sexta gerao, do Dougal, irmo da prpria Yocasta?Que no s era sobrinho do Jamie, mas tambm tambm dele, embora um pouco mais abaixo da rvore genealgica?
      - Ningum de quantos falaram comigo durante esta semana a conhece- acrescentou ela, com a cabea inclinada a um lado, como o falco que observa  presa.
               Tinha-o acaso por um estelionatrio que tinha enganado ao Jamie? Ou talvez supunha que ambos estavam envoltos em algum plano?
              antes de que achasse alguma rplica digna, lhe deu um tapinha na mo, sem deixar de sorrir.
      - Por isso pensei legar-lhe tudo ao pequeno. Ser uma boa maneira de fazer as coisas, no lhe parece? Brianna poder utilizar o dinheiro, certamente, at que 
o pequeno Jeremiah seja major de idade... , a menos que ao menino lhe acontea algo.
      Sua voz encerrava uma clara nota de advertncia, embora seus lbios continuavam sonriendo, com os olhos inexpressivos ainda fixos nele.
      -  O que? Mas que diabos quer voc dizer com isso?
      Roger empurrou seu tamborete para trs, mas no lhe soltou a mo. Era muito forte, a pesos de seus anos.
      - Gerald Forbes ser meu testamento testamentario e h trs fideicomisarios para administrar a propriedade. Mas se Jeremiah  sofresse algum percalo, tudo 
ir  mos de meu  sobrinho  Hamish. - Agora a mulher estava muito sria-. Voc no ver nem um penique.
      Ele retorceu seus dedos baixo os dela e apertou com fora, at apinhar os ndulos ossudos. Que o interpretasse como quisesse! Yocasta afogou uma exclamao, 
mas Roger no a soltou.
      - Est-me voc dizendo que eu poderia fazer mal a esse menino?- Sua voz soou  spera a seus prprios ouvidos.
      Ela, embora plida, conservou sua dignidade, com os dedos apertados e o queixo erguido.
      - Hei dito isso?
      - H dito muitas coisas.. e o que calou fala ainda mais alta. Como se atreve voc a me fazer essas insinuaes?
      Soltou-lhe a mo, quase arrojando-lhe ao regao. Ela esfregou lentamente os dedos avermelhados, enquanto refletia com os lbios franzidos. 
      - Pois bem - disse ao fim -, ofereo-lhe minhas desculpas, senhor MacKenzie, se o ofendi em algo. Mesmo assim, pensei que seria melhor que soubesse minhas 
intenes.
      - Melhor? Melhor para quem? - Ele estava j de p, indo para a sada. conteve-se com dificuldade para no estelar contra o cho as bandejas de porcelana, carregadas 
de bolos e bolachas, a modo de despedida. 
      - Para o Jeremiah - respondeu ela a suas costas, sem alterar-se -. E para a Brianna. Possivelmente tambm para voc mesmo, jovem.
      Ele girou em redondo.
      - Para mim? O que significa isso?
      Ela se encolheu vagamente de ombros.
      - Se no poder voc amar ao menino por si mesmo, possivelmente possa trat-lo bem  por suas expectativas.
      Roger seguia com a vista cravada nela e as palavras entupidas em sua garganta. Sentia a cara quente; o sangue lhe palpitava sordamente nos ouvidos.
      - OH!, j sei o que acontece.  compreensvel que um homem no tenha muito afeto ao menino que sua esposa teve com outro, mas se...
      Ento ele deu um passo adiante e a aferrou por um ombro. Yocasta deu um coice e piscou; as chamas das velas refulgiram ao refletir-se em seu broche.
      - Senhora- pronunciou Roger, lhe falando muito fico, frente a frente -: no quero seu dinheiro. Minha esposa no o quer. E meu  filho no o ter. Meta-lhe 
pelo traseiro!
      E a soltou para sair da loja, roando ao passar ao Ulises, que o seguiu com a vista, desconcertado.
      
      
      12
      Virtude
      
      
      A gente se movia entre as sombras crescentes da avanada tarde, indo de uma fogueira a outra para ver-se, igual a faziam todos os dias; mas hoje na montanha 
imperava uma sensao diferente.
      Em parte era a doce tristeza da despedida; em parte era espera: as nsias de voltar para casa, os prazeres e os perigos da viagem iminente; em parte, tambm, 
simples cansao.
      Mas o desejo de estar em casa era forte: meu lar espaoso, a paz de meu luminoso consultrio e meu leito de plumas, brando e limpo, com lenis de linho que 
cheiravam a romeiro e milenrama.
      Fechei por um momento os olhos, convocando uma melanclica viso desse refgio deleitoso. Logo os abri  realidade: uma churrasqueira pegajosa, enegrecida 
pelos restos chamuscados das tortas de aveia; os sapatos empapados e os ps gelados; as roupas midas, speras de areia e p; uma jovem me rendida de cansao, com 
os peitos doloridos e os mamilos gretados; uma noiva a ponto de casar-se; uma criada plida com cibras menstruais; quatro homens escoceses ligeiramente brios (e 
um francs em estado similar) que vagavam pelo acampamento como outros tanto ursos e no seriam de nenhuma ajuda na hora de empacotar, essa noite. E no sob ventre, 
uma dor penetrante me trazia a ingrata notcia de que meu prprio fluxo mensal (que ultimamente era muito menos que mensal, por sorte) tinha decidido fazer companhia 
ao do Lizzie. 
      Chiando os dentes, arranquei de um ramo da maleza um pano frio e mido. Logo percorri o caminho que levava para a sarjeta que servia de letrina s mulheres.
      A minha volta, o primeiro que me saudou foi um fedor quente a metal queimado. Disse um pouco muito expressivo em francs, parte da til fraseologa adquirida 
em L'Hspital d Anges, onde a linguagem soez estava acostumado a ser a melhor ferramenta mdica da que se dispunha.
      Marsal ficou boquiaberta. O pequeno Germain, me olhando com evidente admirao, repetiu a frase corretamente e com um belo acento parisino.
      - Sinto-o - me desculpei, olhando ao Marsali-. Algum deixou que se consumisse a gua na bule.
      - No importa, me Claire - disse ela com um suspiro, sacudindo ritmicamente  pequena Joanie, que comeava a chorar outra vez-. Coisas piores lhe ensina seu 
pai de propsito. H algum pano seco?
      depois de me envolver  a mo com uma dobra da saia, sujeitei a asa e retirei bruscamente a bule das chamas. O calor atravessou o tecido mido como um relmpago, 
me obrigando a solt-la.
      - Merde! - disse Germain, em um alegre eco.
      - Sim, certamente - confirmei eu, me chupando a ampola de meu polegar. A bule vaiava entre as folhas molhadas. De um chute a fiz rodar at um atoleiro de barro.
      - Merde, merde, merde, merde -  cantou Germain,  aproximando-se  bastante  melodia do Rose, Rose>; infelizmente, as circunstncias fizeram que essa amostra 
de precocidade musical passasse sem ser apreciada.
      - Cala menino - disse.
      No calou, Jemmy  comeou a chiar ao unssono com o Joan. Lizzie, que tinha sofrido uma recada pela relutante  partida do recruta Ogilvie, gemia sob um ramo. 
E se somou ao granizo: pequenos projteis de gelo branco danavam na terra e ricocheteavam sonoramente contra meu couro cabeludo.
      O granizo durou pouco, mas ao amainar a corrente e o repico, ouviu-se pelo caminho um rudo crepitante de botas cobertas de barro. por ali vinha Jamie, com 
o pai Kenneth Donahue a reboque, talheres de granizo o cabelo e os ombros. 
      - trouxe para o pai a tomar o ch - disse, iluminando o claro com seu sorriso.
      - No, disso nada - repliquei, bastante ominosa. E se ele pensava que o do Stephen Bonnet estava esquecido, nisso tambm se equivocava. 
      Girando para o som de minha voz, deu um coice exagerado  lombriga com a touca.
      -  voc, Sassenach? - perguntou com fingido alarme, inclinando-se ostentosamente para olhar por debaixo do volante cansado do meio doido.
      Por respeito  presena do sacerdote, abstive-me de lhe dar um joelhada em algum stio sensvel. Ele pareceu no precaver-se; distraiu-o Germain, que agora 
danava e cantava distintas verses de minha expresso francesa inicial, com a msica do Row, Row, Row Your Boat" . O pai Donahue ia adquirindo um intenso tom rosado 
pelo esforo de fingir que no entendia o francs.
      - Tailandeses toi, crtin- disse Jamie, afundando a mo em seu sporran. Disse-o com bastante cordialidade, mas seu tom foi o de quem espera ser obedecido imediatamente. 
Germain  se interrompeu abruptamente, com a boca aberta; Jamie se apressou a meter nela um doce. O menino fechou a boca e, concentrado no assunto que o ocupava agora, 
esqueceu as canes.
      Alarguei a mo para o hervidor, utilizando novamente parte do vo de minha saia como cabo. Jamie agarrou um pau resistente, com o que enganchou a asa da bule, 
apartando a de minha mo.
      - Voil- disse, oferecendo-me isso 
      - Merci- repliquei, com evidente falta de gratido. Mesmo assim aceitei o pau e me encaminhei para o arroio mais prximo, levando ante mim a bule fumegante 
como se fora uma lana.
      Ao chegar a um remanso semeado de pedras, deixei-a cair ruidosamente e, me arrancando a touca, joguei-a em um juncal; logo a pisei, deixando um grande rastro 
de barro no linho.
      - No hei dito que te sentasse mau, Sassenach- disse uma voz divertida a minhas costas.
      Arqueei uma sobrancelha fria para ali.
      - Acaso vais dizer me que me sinta bem?
      - No. D-te o aspecto de um cogumelo venenoso. Est muito melhor sem ela- assegurou-me.
      E me atraiu para si para me beijar.
      - No  que no valore a inteno- disse-lhe. O tom de minha voz o deteve um centmetro de minha boca -. Mas se balanas um cabelo mais, acredito que vou arrancar 
te um trocito de lbio com os dentes.
      Ele ergueu as costas como o homem que, depois de levantar tranqilamente uma pedra, precave-se de que em realidade era um ninho de vespas. Com muchsima lentido, 
apartou as mos de minha cintura.
      -OH!- disse. E inclinou a cabea a um lado, me estudando com os lbios cavados -. Parece algo nervosa, Sassenach.
      No havia dvida de que era certo, mas para me ouvi-lo senti ao bordo das lgrimas. Pelo visto o impulso era visvel, pois ele me agarrou a mo, com muita 
suavidade, e conduziu a uma rocha grande.
      - Sente-se- disse -. Fecha os olhos, a nighean donn. Descansa um momento.
      Sentei-me, com os olhos fechados e os ombros cansados. Chape-os lhe vos e os rudos metlicos anunciaram que ele estava limpando e enchendo o hervidor.
      - me perdoe- disse ao fim, abrindo os olhos.
      Ele se voltou a me olhar, sonriendo pela metade.
      -por que, Sassenach? No  que tenha rechaado meu leito; ao menos, espero que ainda no tenhamos chegado a isso.
      Nesse momento, fazer o amor era absolutamente o ltimo de minha lista, mas lhe devolvi a meia sorriso.
      - No - disse, melanclica- . depois de passar duas semanas dormindo no cho, no rechaaria o leito de ningum.
      Ante isso arqueou as sobrancelhas. Pus-se a rir; tinha-me pego despreparada.
      - No - repeti -. S estou... exausta.
      Algo me retorceu a parte baixa do ventre. Com uma careta, apertei as mos contra a dor.
      - Ah! - disse ele novamente - Exausta nesse sentido.
      - Exausta nesse sentido - confirmei. Logo toquei o hervidor com o p -. Ser melhor que leve isso ao acampamento. Tenho que ferver gua para uma infuso de 
casca de salgueiro. Requer muito tempo.
      - Ao diabo com a casca de salgueiro - disse ele, extraindo uma cigarreira de prata de debaixo da camisa -. Isto prova. Ao menos no precisa ferver-se previamente.
      Desenrosquei o plugue para inalar. Usque, e muito bom.
      - Amo-te - disse sinceramente.
      Ele riu.
      - Eu tambm te amo, Sassenach -  disse, tocando-me o p com suavidade. Enchi-me a boca e deixei que corresse pela garganta.
      -OoooooH! - suspirei, e bebi outro sorvo. Um irlands me tinha assegurado, certa vez, que um usque excelente podia levantar um morto, e eu no pensava rebater-lhe 
Que maravilha! - murmurei ao abrir novamente os olhos-. Onde o conseguiu?
      Apesar do pouco que eu sabia do tema, podia afirmar que era de origem escocesa, envelhecido durante vinte anos; muito diferente do forte licor que Jamie destilava 
detrs da casa, na Colina.
      - Atravs da Yocasta - respond -. ia ser um presente de bodas para a Brianna e Roger, mas me pareceu que voc o necessitava mais.
      Tem razo - afirmei.
      Seguimos juntos, em amistoso silncio; eu bebia a sorvos, lentamente; o impulso de enlouquecer e massacrar a todos ia diminuindo gradualmente, junto com o 
contedo da cigarreira.
      - passaram trs meses desde seu ltimo perodo - disse Jamie -. Supus que j no havia mais.
      Sempre me desconcertava um pouco  notar quo observador era dessas coisas.
      - No  um grifo que se fechamento sem mais, sabe? - disse, um pouco chateada-. Por desgraa. Mas bem, volta-se errtico e ao fim cessa, mas no sabe quando.
      -Ah! 
      inclinou-se para diante, com os braos cruzados sobre os joelhos, contemplando ociosamente os ramos e as folhas que flutuavam na corrente do arroio.
      - Suponho que seria um alvio acabar com todos isso. Menos complicaes, verdade?
      Reprimi o impulso de extrair invejosas comparaes sexuais sobre os fluidos corporais.
      - Talvez - disse -. J te informarei, de acordo?
      Sorriu vagamente, mas teve a prudncia de no insistir; sabia perceber a irritao em minha voz.
      Eu sorvi um poquito mais de usque. de repente Jamie se estirou, dizendo: 
      - N... Sassenach...
      - O que acontece?- perguntei, surpreendida.
      Ele agachou a cabea com estranho acanhamento.
      - No sei se tiver feito mal ou no, Sassenach. Em todo caso te peo perdo. 
      - Claro - disse, algo vacilante. o que era o que lhe estava perdoando?-. O que tem feito?
      - Bom, eu nada- disse, um pouco envergonhado-. S fixe que voc o faria.
      - O que?- Tinha uma leve suspeita- Do que se trata? Se tiver prometido ao Farquard Campbell que eu visitaria essa velha horrvel de sua me...
      - OH, no!- assegurou-me-. Nada disso. Prometi ao Josiah Beardsley que hoje trataria de lhe extirpar as amdalas.
      - Como?
      Fulminei-o com o olhar. No dia anterior tinha conhecido ao jovem Josiah Beardsley, o pior caso de abscessos nas amdalas que eu tivesse visto em minha vida. 
O estado pustuloso de seu adenoides me impressionou at tal ponto que os descrevi detalladamente a tudo durante o jantar, fazendo que Lizzie ficasse verde e cedesse 
sua segunda batata ao Germain; ento, tinha mencionado que a nica padre possvel era uma operao cirrgica, mas no esperava que Jamie sasse para me buscar trabalho.
      - por que? - perguntei.
      Ele se balanou um pouco para trs, me olhando de abaixo.
      - Necessito-o, Sassenach.
      - Se? E para que?
      Josiah logo que tinha quatorze anos; ao menos, isso acreditava. Em realidade, ele no sabia com certeza quando tinha nascido e seus pais estavam muito mortos 
para cont-lo. Era mido at para quatorze anos e estava muito desnutrido, com as pernas um pouco curvadas pelo raquitismo.
      - Para arrendatrio,  obvio.
      - Pois eu diria que j tem mais candidatos dos que pode aceitar.
      Era certo. No tnhamos dinheiro absolutamente, embora as operaes de intercmbio feitas pelo Jamie durante a congregao cobriam parcialmente nossas dvidas 
com vrios mercados do Cross Creek. Teniamos terras em abundncia, a  maior parte cobertas de bosques, mas carecamos de mdios para ajudar a quem queria instalar-se 
nelas e as cultivar. Ter aos Chisholm e aos McGillivray era j ir muito alm de nossas possibilidades, para somar mais arrendatrios.
      Jamie se limitou a assentir com a cabea, desprezando essas complicaes. 
      - Sim, mas Josiah  um moo prometedor.
      - Hum! - murmurei, dbia. A verdade  que o menino parecia robusto, e a isso se referia Jamie ao dizer que era prometedor; demonstrava-o o simples feito de 
que tivesse sobrevivido at ento-. Pode ser. Mas h muitos outros como ele. O que tem ele de especial para que o  necessite?
      - Quatorze anos.
      Olhei-o com uma sobrancelha arqueada em um gesto de pergunta. Sua boca se torceu em um sorriso irnico.
      - Todos os homens que tenham entre dezesseis e sessenta anos devem servir na tropa, Sassenach.
      Jamie estirou os braos com um suspiro, flexionando os ndulos at que rangeram.
      - O hras, pois? - perguntei-. Formar uma companhia de milicianos para ir?
      -  preciso - respondeu simplesmente -. Tryon me tem pego pelos ovos e no quero comprovar se estiver disposto a espremer, compreende?
      - Isso me temia.
      Enquanto fizesse o que o governador lhe pedia... Bom, o governador era um poltico de xito; sabia manter a boca fechada quando convinha. Mas se o desafiava, 
bastaria com uma singela carta enviada desde New Bern para privar  Colina de Frase de sua residentes Frase.
      - Hum, de maneira que est pensando que, se retirar da Colina a todos os homens disponveis... no pode deixar alguns?
      - Para comear, no tenho tantos, Sassenach- assinalou-. Posso deixar ao Fergus, devido a seu manquedad. E ao senhor Wemyss para que cuide a casa. Ele  servo, 
at onde todos sabem, e s os homens livres tm obrigao de unir-se  tropa.
      - E s os homens ss. Isso exclui ao marido da Joanna Grant, que tem um p de madeira.
      - Sim, e ao velho Arch Bug, que passa amplamente dos setenta. So quatro homens e possivelmente oito meninos menores de dezesseis anos, para cuidar de trinta 
casas e mais de cento e cinqenta  pessoas.
      - Suponho que as mulheres podem arrumar-lhe por si s - disse -. depois de tudo estamos no inverno; no h colheitas que atender. E no acredito que os ndios 
causem problemas nestes dias.
      Ao me tirar a touca me tinha afrouxado a cinta; o cabelo escapava das tranas desfeitas para todos lados, e me pegava ao pescoo em mechas frisadas e midos. 
depois de me arrancar a cinta, tratei de me pentear com os dedos.
      - De qualquer modo, por que d tanta importncia ao Josiah Beardsley? No acredito que adicionar outro menino de quatorze anos possa trocar muito as coisas.
      - Beardsley  caador - explicou Jamie -, e dos bons. Trouxe para a congregao quase duzentos pesos em peles de lobo, veado e castor, e todos os caou ele 
mesmo, sem ajuda, conforme disse. Eu mesmo no poderia super-lo.
      Passei uma mo atravs de meu cabelo mido, cavando as mechas soltas.
      - Est bem, compreendo isso, mas o que tm que ver as amdalas com o assunto?
      Jamie me olhou com um sorriso. Logo se inclinou sobre meu ombreio para recolher a cinta que eu tinha no regao.
      - Preparado - disse, voltando a sentar-se a meus ps -. Vamos agora s amdalas. Disse-lhe ao menino que devia tirar-lhe se no queria que sua garganta piorasse.
      - E assim ser.
      Josiah Beardsley me tinha acreditado. O inverno anterior tinha estado ao bordo da morte, quando um abscesso na garganta esteve a ponto de asfixi-lo antes 
de que arrebentasse, e no estava muito desejoso de arriscar-se a que se repetisse.
      -  a nica cirurgi ao norte do Cross Creek  - assinalou Jamie -. Quem outro poderia faz-lo?
      - Bom,  certo - disse, vacilando-, mas... 
      - De modo que lhe fiz uma oferta - me interrompeu ele-, Uma parcela de terra onde, chegado o momento, Roger e eu lhe ajudaremos a construir uma cabana, e em 
troca ele me dar a metade das peles que consiga nos trs invernos vindouros. Aceita... sempre que voc lhe extirpe as amdalas como parte do trato.
      - Mas por que hoje? No posso extirpar amdalas aqui!- assinalei com um gesto o bosque empapado.
      - por que no? - Jamie arqueou uma sobrancelha-. No disse ontem  noite que era uma nimiedad, s uns quantos cortes com o mais pequeno de suas facas?
      Esfreguei-me o nariz com um ndulo, em um gesto de exasperao.
      - Olhe, embora no seja igual a amputar uma perna, isso no significa que seja singelo.
      Em realidade, era uma operao relativamente fcil, cirurgicamente falando. O que podia provocar complicaes era a possibilidade de uma infeco posterior; 
era necessria uma ateno cuidadosa que, embora pobre substituto dos antibiticos, era muito melhor que o abandono.
      - No  questo de lhe arrancar as amdalas e deix-lo ir - expliquei -. Em troca, quando chegarmos  Colina...
      - No tem pensado retornar diretamente conosco - me interrompeu.
      - por que?
      - No me h isso dito; s esclareceu que tinha algo que fazer. Vir  Colina a primeira semana de dezembro. Pode dormir no abrigo onde se  guarda o feno.- 
acrescentou
      - De maneira que ambos  esperam que eu lhe corte as amdalas, ponha-lhe um par de pontos e o deixe ir tranqilamente - perguntei, sardnica.
      - Com o co atuou muito bem - apontou ele, sorridente.
      - Ah!, inteiraste-te. 
      - Pois sim. E com o moo que se cortou o p dom uma tocha, e pirralhos que tinham sarpullido de leite, e com a dor de dente da senhora Buchannan...e sua batalha 
com o Murray MacLeod pelos condutos biliares.
      - tive muito que fazer esta manh, sim.
      - Toda  a congregao est falando de ti, Sassenach. O certo  que, ao ver toda essa multido clamando por ti, lembrei-me da Bblia.
      - Da Bblia? - Devi pr cara de incompreenso, pois seu sorriso se tornou mais larga.
      - " E toda a multido queria toc-lo" - citou Jamie -. "  Pois dele emanava virtude e os curava a todos " .
      Ri melancolicamente, mas me interrompeu um pequeno hipido.
      - Temo-me que, nestes momentos, fiquei-me sem virtude.
      - No se preocupe. Nesta cigarreira tem que sobre.
      Isso me recordou que devia lhe oferecer usque, mas ele o rechaou com um gesto, com as sobrancelhas franzidas em reflexo.
      - Operar-lhe as amdalas, uma vez que venha  Colina?
      depois de refletir durante um momento, fiz um gesto afirmativo e traguei. Mesmo assim havia riscos; normalmente eu no realizava operaes que pudessem evitar-se, 
mas o estado do Josiah era realmente horrvel; se no se tomavam medidas, as infeces constantes podiam acabar matando-o.
      Jamie assentiu, satisfeito.
      - Bem, ocuparei-me disso.
      Meus ps se descongelaram, at molhados como estavam, e comeava a me sentir abrigada, dcil. Ainda sentia o ventre dolorido, mas isso j no me importava 
tanto.
      -  estive pensando algo, Sassenach - disse ele.
      - O que?
      - Falando da Bblia...
      - Hoje no pode te tirar as Escrituras da cabea, verdade?
      Um sorriso lhe curvou para cima.
      - Pois no.  que estive pensando. Quando o Anjo do Senhor se apresenta a Sara e lhe diz que ao ano seguinte ter um menino, ela ri, dizendo que  uma estranha 
brincadeira, pois isso j no est nela como est nas demais mulheres.
      - Em sua situao, quase todas as mulheres tomariam a brincadeira- assegurei-lhe-. Mas muitas vezes penso que Deus tem um senso de humor muito peculiar.
       - At onde sei- disse, pondo cuidado em no me olhar-, se no te chamar Mara e o Esprito Santo no teve interveno alguma, h uma s maneira de ficar grvida. 
Equivoco-me?
      - At onde eu sei, se. - Cobri-me a boca com uma mo para sufocar o soluo.
      - Se, E nesse caso... Bom... Isso significa que Sara ainda se deitava com o Abraham, no?
      Seguia sem me olhar, mas as orelhas lhe haviam posto vermelhas. Compreendendo tardiamente o motivo dessa anlise religiosa, estirei um p para ro-lo brandamente.
       - Pensava que possivelmente deixaria de te desejar?
      - Agora  no me deseja - assinalou com lgica.
      - Sinto-me como se tivesse o ventre cheio de cristais quebrados, estou mdio empapada e coberta de barro at os joelhos, e a pessoa que te busca vai aparecer 
entre os arbustos em qualquer momento, com uma matilha de sabujos- disse, com certa aspereza-. Est-me convidando a gozar carnalmente contigo neste monto de folhagem 
molhada? Porque nesse caso...
      - No, no - se apressou a dizer- Agora no. S queria dizer..., perguntava-me se...
      As pontas  de suas orelhas tinham chegado ao vermelho opaco. levantou-se bruscamente, sacudindo-as folhas murchas da saia com exagerada fora.
      - Se a estas alturas pretendesse me embaraar, Jamie Fraser - lhe disse, medindo o tom- , assaria-te os cojones em brochette. Mas quanto a me deitar contigo...
      Interrompeu o que estava fazendo para me olhar. Eu lhe sorri, lhe deixando ver o que pensava.           
      - Uma vez que tenha de novo um leito- disse -, prometo-te no recha-lo.
      - Ah... - Aspirou fundo, sbitamente  feliz-. Ento tudo est bem.  que... tinha minhas dvidas, sabe?
      A um sbito sussurro de folhagem seguiu a apario do senhor Wemyss, cuja cara magra e ansiosa apareceu entre duas matas de groselhas.
      - Ah!,  voc, senhor- disse, com evidente alvio.
      - Suponho que sim - confirmou Jamie, resignado-. H algum problema, senhor Wemyss?
      O homem demorou para responder, pois se tinha enredado com o arbusto.
      - Devo me desculpar por incomod-lo, senhor- disse, muito vermelho, atirando nervosamente de uma ramilla Espinosa que lhe tinha enredado no cabelo loiro, j 
escasso-.  que... Bom, ela disse que ia partir o com a tocha do cocuruto at a virilha, se ele no a deixava em paz; e ele disse que nenhuma mulher podia lhe falar 
nesse tom. E ela tem uma tocha, se...
      Acostumado aos mtodos de  comunicao do senhor Wemyss, Jamie suspirou e, jogando mo da cigarreira, desarrolhou-a para lhe dar um bom gole fortalecedor. 
Ao baixar ao recipiente brocou ao Senhor Wemyss com o olhar.
      - Quais?- interrompeu.
      - OH!... n ... No lhe hei dito? Rosamund Lindsay e Ronnie Sinclair.
      - Estraguem.
      No era uma boa notcia. Jamie me devolveu a cigarreira com um suspiro.
      - voc v a lhes dizer que vou para ali, senhor Wemyss- disse.
      O magro rosto do senhor Wemyss expressou uma muito vivo apreenso ao imaginar-se frente a frente com a tocha do Rosamund Lindsay, mas major ainda era o respeito 
que lhe inspirava Jamie. depois de nos fazer uma rpida e pulcra reverncia, arrojou-se torpemente s matas de groselha.
      Um chiado como de ambulncia anunciou a apario do Marsali, com o Joan em braos. Esquivou cuidadosamente ao senhor Wemyss, lhe arrancando ao passar um ramo 
que lhe aderia  manga.
      - Tem que vir, papai- disse, sem prembulos -. O pai Kenneth foi detido.
      As sobrancelhas do Jamie se dispararam para cima.
      - O que o prenderam? Justo agora? Quem?
      - Neste momento, sim! Um homem gordo, horrvel, que disse ser o delegado do condado. Chegou com dois homens; perguntaram quem era o sacerdote e, quando o pai 
Kenneth disse que era ele, agarraram-no pelos braos e o levaram sem mais, sem pedir permisso a ningum.
      O sangue alagava a cara de meu marido; seus  dois dedos rgidos tamborilaram brevemente a coxa.
      - O levaram que meu lar?- disse-. A Dhia!
      Obviamente, era uma  pergunta retrica. antes de que Marsali pudesse responder, chegou um ranger de pisadas da direo oposta. Brianna apareceu ante nossa 
vista, desde detrs de um pinheiro.
      - O que!- ladrou ele.
      Bree piscou, desconcertada.
      - N... Geordie Chisholm diz que um dos soldados lhe roubou um presunto que tinha no fogo, que vs falar com o tenente Hayes.
      - Sim - replicou o imediatamente- Depois. Enquanto isso v com o Marsali  a averiguar onde levaram a pai Kenneth. E voc, senhor Wemyss...
      Mas o senhor Wemyss tinha podido, ao fim, escapar do abrao insistente do arbusto. Um estrondo longnquo indicou que corria a cumprir com suas ordens.
      Um Breve olhar  cara do Jamie convenceu s moas que se impunha uma veloz retirada. Em poucos segundos nos encontramos outra vez a ss. Ele aspirou fundo 
e, pouco a pouco, deixou escapar o flego entre os  dentes.
      Eu teria querido reir, mas no o fiz. Em troca me aproximei; a pesar do frio e a umidade senti o calor de sua pele atravs da manta escocesa.
      - A mim, ao menos, s querem me tocar os doentes- disse, lhe oferecendo a cigarreira -. O que faz  voc quando a virtude te abandona?
       Jogou-me um olhar, e um lento sorriso lhe estendeu pela cara. Ato seguido, sem emprestar ateno  cigarreira se inclinou para agarrar minha cara entre as 
mos e me beijou com muita suavidade.
      - Isto - disse.
      Logo girou em redondo e ps-se a andar colina abaixo. Presumivelmente  ia outra vez pleno de virtude.
      
      
      
      13
      Feijes e andaime
      
      
      Voltei com a bule a nosso acampamento, para encontrar o lugar momentaneamente deserto. depois de pendurar a bule cheia de gua sobre o fogo, para que fervesse, 
detive-me refletir para onde seria melhor dirigir meus esforos.
      Embora a situao do pai Kenneth podia ser a mais grave a longo prazo, dificilmente minha presena poderia trocar as coisas. Mas eu era mdico e Rosamund Lindsay 
tinha uma tocha. Dava uns golpes com a mo a minha roupa e a meu cabelo mido, para lhes impor um pouco de ordem, e parti colina abaixo para o arroio, abandonando 
a touca a sua sorte.
      Ao parecer, Jamie tinha pensado o mesmo em relao s prioridades, pois o encontrei de p junto ao fosso do andaime, em aprazvel conversao com o Ronnie 
Sinclair, despreocupadamente apoiado na manga da tocha, da que tinha conseguido apropriar-se.
      O fosso era amplo; um declive natural, formado no ribazo de argila por alguma remota inundao e, nos anos seguintes, afundada graas a um judicioso trabalho 
a p. Nesse mesmo momento, havia vrias pessoas utilizando-o; os aromas a porco, aves, cordeiro e zarigeya se mesclavam em uma nuvem de lenha de macieira e nozes 
duras; saboroso incenso que me fez a boca gua.
      A viso do fosso era menos apta para despertar o apetite. A lenha molhada despedia nuvens de fumaa branca, que ocultavam pela metade vrios vultos tendidos 
sobre as piras de brasas.
      - Digo-te que  veneno! - estava dizendo Ronnie Sinclair, acaloradamente, quando apareci atrs dele- Arruinar-os! Quando essa mulher termine, no serviro 
nem para os porcos.
      - Pois so porcos, Ronnie - disse Jamie, com notvel pacincia, desviando o olhar para mim-. Se quer saber minha opinio, nada do que faa com um porco ao 
cozinh-lo pode deix-lo incomestible.
      -  certo - apoiei, sonriendo ao Ronnie-. Toucinho defumado, costelas assadas, lombo ao forno, presunto assado, embutidos, po de graxa, pudim negro... Algum 
disse uma vez que do porco se pode aproveitar tudo, salvo o chiado. 
      - Pois sim, mas isto  um andaime, no? - aduziu Ronnie tercamente, sem emprestar ateno a meus dbeis intentos de humor-. Qualquer sabe que o porco assado 
se amadurece com vinagre. Essa  a maneira adequada de faz-lo! Ningum pe cascalho nos embutidos, verdade? Nem ferve o toucinho com o lixo recolhimento no galinheiro. 
Cha!
      Ao trocar o vento me chegou uma apetitosa baforada. A julgar pelo aroma, o molho do Rosamund parecia incluir tomates, cebolas, pimientos vermelhos e acar 
em quantidade suficiente para deixar uma grosa crosta negruzca na carne, alm de um tentador aroma a caramelo no ar.
      -  Suponho que a carne, cozida dessa maneira, ficar muito suculenta - disse, sentindo que meu estmago comeava a grunhir e fazer-se ns sob o suti passado 
os laos.
      - Sim, e so porcos estupendos - acrescentou Jamie, para congraar-se com o Rosamund, que tinha levantado um olhar fulminante. Estava ennegreciada at os joelhos 
e suas mandbulas quadradas mostravam sulcos de chuva, suor e fuligem-. So porcos selvagens ou domsticos, senhora?
      - Selvagens - respondeu ela, endireitando-se com certo orgulho -. Engordados com castanhas, No h nada como isso para dar sabor  carne!
      Ronnie Sinclair expressou seu desprezo e sua brincadeira com um rudo muito escocs.
      - Pois to bom no deve ser o sabor, pois tem que escond-lo sob um monto desse asqueroso molho, que d  carne esse aspecto sanguinolento, como se estivesse 
crua!
      Rosamund fez um comentrio muito terrestre com respeito  suposta virilidade dos homens que se impressionam ao pensar no sangue.
      - OH!, sem dvida est muito bem cozida- replicou Jamie para acalm-los -. Seguro que a senhora  Lindsay esteve trabalhando pelo menos do amanhecer.
      - Desde muito antes, senhor Fraser- replicou a dama, com certa satisfao sombria-. Se quiser um andaime decente, comea ao menos um dia antes e a atende durante 
toda a noite. Estou cuidando estes porcos desde ontem pela tarde.
      E aspirou uma grande baforada da fumaa que ascendia, com expresso beatfica.
      - Ah, assim deve ser! Embora seja um desperdcio oferecer este rico molho a escoceses cretinos.- Rosamund voltou a colocar o tecido impermevel, pondo-a em 
seu stio com tenras palmadas-. Tm vocs a lngua encurtida de tanto vinagre como jogam a suas provises.
      Jamie elevou a voz, afogando a indignada reposta do Ronnie a essa calnia.
      - foi Kenny quem caou esses porcos para voc, senhora? Os porcos selvagens so imprevisveis;  perigoso espreitar a uma besta desse tamanho. Como os javalis 
que cavamos em Esccia, verdade?
      - Ja! Pois claro que no, senhor Fraser. A estes os matei eu mesma. Com essa tocha- aadio, assinalando com a cabea o instrumento em questo. Logo olhou ao 
Ronnie com os olhos entreabridos de maneira sinistra-. Afundei-lhes o crnio de um s golpe.
      - Sua inteno  vender a carne, verdade, senhora Lindsay?- disse Jamie-. Mau mercado  o que mata a seus clientes, no?
      - Ainda no perdi a nenhum, senhor Fraser- acrescentou ela, apartando outro tecido impermevel para orvalhar um pernil fumegante com o molho de sua chaleira-. 
E nunca ouvi outra coisa que elogios de seu sabor. Claro que isso era em Boston, de onde provenho.
      <Onde a gente tem bom critrio>, implicava obviamente seu tom.
      - A ltima vez que fui ao Charlotteville conheci um homem de Boston - comentou Ronnie-. Disse-me que tinha por costume comer feijes de caf da manh, e ostras 
de jantar, e que assim o tinha feito sempre desde que era uma cria.  Sente saudades que no estalasse como uma bexiga de porco, se se enchia com essa porcaria!
      - Feijes, feijes, so boas para seu corao- disse alegremente, aproveitando a oportunidade-. Quando mais as come, mais lhe pedorreas. Mas lhe pedorreas, 
melhor  a vida. Comamos feijes em cada comida!
      Ronnie, ao igual  senhora Lindsay, ficou boquiaberto. Ante a gargalhada do Jamie, a expresso atnita da mulher se dissolveu em uma risada estrepitosa. Ao 
cabo de um momento, o outro se uniu a contra gosto, com um pequeno sorriso que lhe torcia a comissura da boca.
       - Passei um tempo em Boston - disse brandamente, ao ceder  um pouco a hilaridade-. Isso cheira de maravilha, senhora Lindsay! 
      Rosamund asinto com dignidade, gratificada.
      - Pois claro que sim, senhora, embora eu seja quem o diga.- inclinou-se para meu, baixando um pouco sua estridente voz-.  obra de minha receita privada- disse, 
dando uma palmada  terrina de loua-. Tira  reluzir o sabor, v voc?
      Ronnie abriu a boca, mas s emitiu um pequeno chiado, resultado evidente da presso que os dedos do Jamie aplicavam  a seu biceps. A mulher, sem lhe emprestar 
ateno, encetou-se em uma amvel discusso com meu marido, que concluiu com a reserva de uma pea inteira para a celebrao de nossas bodas.
      Para ouvir isso joguei uma olhada ao Jamie. Como parecia que o pai Kenneth estava caminho de Baltimore ou dos calabouos do Edenton, parecia-me duvidoso que 
essa noite pudesse celebrar-se bodas alguma.
      Por outra parte, tinha aprendido a no subestimar ao Jamie. Depois de um completo  senhora Lindsay, afastou-se do fosso levando-se ao Ronnie  pela fora; 
apenas se deteve para me pr a tocha nas mos.
      - Cuida bem isso, Sassenach- disse-me, me dando um beijo breve. Logo me sorrio-. E me diga, onde aprendeste tanto sobre a histria natural dos feijes?
      - Em realidade  uma pequena cano. Brianna a aprendeu na escola quando tinha uns seis anos- respondi, lhe devolvendo o sorriso.
      - lhe diga que a cante a seu marido. Assim ele a escrever em seu librejo.
      Rodeou com brao amistoso e firme os ombros do Ronnie Sinclair, que apresentava indcios de querer escapar para o andaime.
       - me acompanhe, Ronnie- disse-. Devo falar com o tenente. Acredito que ele quer comprar um presunto  senhora Lindsay- acrescentou-. Mas gostar de escutar 
o que puder lhe contar sobre seu pai. Voc e Gavin Hayes foram grandes amigos, verdade?
      - Pois sim- O cenho do Ronnie se suavizou um pouco-. Sim, sim. Gavin era um homem feito. aquilo lstima.- Moveu a cabea; obviamente, referia-se  morte do 
Gavin, acontecida anos atrs. Levantou um olhar para o Jamie,  cavando os lbios-. Sabe o moo o que aconteceu?
      Essa sim que era uma pergunta delicada. A verdade era que Gavin tinha sido enforcado por ladro no Charleston. 
      - Sim, tive que dizer-lhe respondeu Jamie, em voz baixa-. Mas acredito que lhe faria bem conhecer coisas de seu pai em outros tempos. o conte  o que significou 
para ns Ardsmuir.
      Algo que no chegava a ser um sorriso se refletiu em sua cara. Vi na do Sinclair uma ternura similar.
      A mo do Jamie se esticou no ombro de seu companheiro; logo caiu a um lado. Ambos ascenderam a colina cotovelo a cotovelo, esquecendo as sutilezas do andaime.
      A nvoa j se levantava nos terrenos baixos da montanha; em poucos minutos eles desapareceram da vista. Do bosque brumoso, mais acima, masculinas vozes escocesas 
descenderam para o fosso fumegante, cantando em amistoso unssono:
      Feijes, feijes, so boas para seu corao ...
      
      
      Ao retornar ao acampamento, encontrei ali ao Roger, que tinha terminado com seus recados. Estava de p perto do fogo, conversando com a Brianna; o via preocupado.
       - No te aflija- disse-lhe, estirando o brao junto a seu quadril para retirar o te ronronem cozido-. Jamie  o arrumar de algum modo. foi a ocupar do assunto.
      -  De ver?- Parecia um pouco sobressaltado-. J sabe?
      - Sim. Suponho que resolver assim que encontre ao delegado.
      Agarrei a bule trincada que utilizava quando acampvamos, pu-la na mesa e verti nela um pouco de gua fervida, para esquent-la. A jornada tinha sido larga; 
provavelmente a velada tambm o seria.
      - O delegado?- Roger olhou a Brianna com estupefao tinta de alarme-. No acredito que ela me tenha denunciado ao delegado, ou se?
      - te denunciar? Quem!- perguntei, me somando ao coro de estupefatos. depois de pendurar novamente o hervidor em seu trpode, procurei a lata de ch-. O que 
estiveste fazendo, Roger?
      Um leve rubor apareco em seus altos mas do rosto, mas antes de que pudesse responder, Brianna lanou um bufido de risada.
      - Dizendo a tia Yocasta at onde pode chegar.-  Olhou ao Roger com os olhos encolhidos em tringulos de maliciosa diverso, imaginando a cena-. Homem, como 
me teria  gostado de estar ali!
      - O que lhe h dito, Roger?- inquiri com interesse.
      Seu rubor se acentuou. Apartou a vista.
      - No quero repeti-lo- disse, breve-. No  algo que deva dizer a uma mulher, menos ainda  a uma anci, e muito menos se estiver a ponto de ingressar em sua 
famlia. Perguntei ao Bree se no deveria ir pedir lhe desculpas antes das bodas.
      - No- replicou ela, imediatamente-. Que descaramento o seu! Tinha todo o direito a dizer o que disse.
      -  que no lamento a substncia de meu comentrio, a no ser a forma- explicou ele, com um irnico indcio de sorriso. Logo se voltou para mim-. Olhe, talvez 
deveria ir desculpar me, para no me sentir incmodo esta noite. No quero arruinar as bodas do Bree.
      -  As bodas do Bree? Crie que vou casar me sozinha?- perguntou ela, enrugando as sobrancelhas ruivas.
      - OH, no!- admitiu ele, sonriendo um pouco. Tocou-lhe brandamente a bochecha-. Eu estarei a seu lado, no o duvide. Sempre que nos casemos, d-me igual como 
seja a cerimnia. Em troca voc querer que seja bonita, verdade? E no  questo de danific-la; se o fizesse, sua tia me daria com um lenho na cabea antes de 
que pudesse dizer; <Sim, quero.>
      - Assim Jamie foi em busca do pai Kenneth- conclu-. Que Marsali no reconhecesse ao delegado que o levou complica as coisas.
      Roger elevou as sobrancelhas escuras antes das unir em um gesto preocupado.
      - No sei se...- voltou-se para mim-. Oua,  possvel que o tenha visto faz uns instantes.
      - Ao pai Kenneth?- perguntei, com a faca suspensa sobre o bolo de frutas.
      - No, ao delegado.
      - O que? Onde?- Bree girou pela metade sobre seus tales, passeando em redor um olhar flamgera, com o punho apertado. Agradeci  sorte que o delegado no 
estivesse  vista. Que Brianna fora presa por agresso sim que danificaria as bodas.
      - foi por ali.- Roger assinalava colina abaixo, para o arroio... e a loja do tenente Hayes.
      Nesse momento apareceu Jamie, com aspecto de fadiga, preocupao e grande chateio. Pelo visto ainda no tinha encontrado ao sacerdote.
      -  Papai!- saudou-o Bree-. Roger crie ter visto o delegado que se levou a pai Kenneth.
      - Sim? - Ele se reanimou imediatamente-. Onde?
      Tinha fechado a mo, como preparando-se, e no pude menos que sorrir.
      - Do que te ri?- perguntou ao dar-se conta.
      - De nada- assegurei-lhe-. Anda, come um pouco de bolo.
      E lhe entreguei uma parte, que ele se meteu imediatamente na boca, enquanto voltava a concentrar sua ateno no Roger.
      - Onde?- inquiro borrosamente.
      - No sei se era o homem que est procurando- esclareceu o jovem-. Era um hombrecito esfarrapado. Mas levava um prisioneiro algemado, um dos tios do Drunkard's 
Creek. Acredito que era MacLenan.
      Jamie tossiu, engasgado, cuspindo ao fogo trocitos de bolo mastigado.
      - prendeu ao senhor MacLennan? E voc o permitiu?- Bree olhava a seu companheiro, consternada. Nem ela nem Roger tinham estado pressente quando Abel contou 
sua histria, mas ambos o conheciam bem.
      - No podia fazer muito por impedi-lo- assinalou ele, brandamente-. O que fiz foi perguntar ao MacLennan se necessitava ajuda. Pensava ir em busca de seu pai 
ou do Facquard  Campbell. Mas ele me olhou como se eu fora um fantasma. E quando voltei a perguntar moveu a cabea, com um sorriso estranho. Por uma questo de princpios, 
no me pareceu correto golpear a um delegado. Mas se... 
      - No  delegado- disse Jamie, com voz rouca e lacrimejando. Fez uma pausa para tossir outra vez.
      - Um caador de ladres- expliquei ao Roger-. Algo assim como um caador de recompensas.
      O ch ainda no estava preparado, mas encontrei meia garrafa de cerveja, que entreguei ao Jamie.
      - Aonde levaro ao Abel?- perguntei -. No h dito que Hayes no queria prisioneiros?
      Jamie sacudiu a cabea. depois de uns goles baixou a garrafa. J respirava um pouco melhor.  
      - No os quer, no. O senhor Boble, porque tem que ser ele, levar ao Abel ao magistrado mais prximo. E se Roger acabar de v-lo...
      Com as sobrancelhas franzidas, girou para inspecionar a ladeira em redor, pensativo. 
      - Provavelmente seja Farquard- concluiu-. Sei que na congregao h trs juizes de paz e trs magistrados. De todos eles, o nico que acampa neste lado  Campbell.
      -Ah, que bem!- Suspirei aliviada. Farquard Campbell era um homem justo; atia-se estritamente  lei, mas no carecia de compaixo. Alm disso tinha uma velha 
amizade com a Yocasta Cameron. 
      - Sim, pediremos a minha tia que fale com ele. Possivelmente seja melhor faz-lo antes das bodas.- voltou-se para o Roger-. Quer ir, MacKenzie? Eu devo encontrar 
ao pai Kenneth, se quisermos que haja bodas.
      Pela cara que ps, o jovem tambm parecia haver-se engasgado com o bolo. 
      - N... bom... - murmurou, incmodo-. Nestes momentos no acredito ser o melhor para levar uma mensagem  senhora Cameron. 
      Jamie o olhava com uma mescla de interesse e exasperao. 
       - por que?
      Roger, intensamente ruborizado, relatou a parte essencial de sua conversao com a Yocasta; ao final baixou a voz at faz-la quase inaudvel. Mesmo assim 
o ouvimos com claridade. Jamie me olhou com a boca contrada. Logo seus ombros comearam a estremecer-se. Eu sentia que a risada me borbulhava sob as costelas, mas 
no era nada comparada com a hilaridade de meu marido. Ria quase em silncio, mas tanto que lhe encheram os olhos de lgrimas. 
      -OH, Cristo!- ofegou ao fim, apertando-os flancos-. Acredito que me hei partido da risada.- E alargou a mo por volta de um dos panos tendidos, que usou para 
sec-la cara. Um momento depois, j mais reposto, disse-: Est bem. Nesse caso, v a casa do Farquard. Se Abel estiver alli, lhe diga ao Campbell que eu respondo 
por ele. E traz o de volta
      E o ps em marcha com um breve gesto. Roger, plido de mortificao mas cheio de dignidade, partiu imediatamente. Bree foi atrs dele, jogando um olhar de 
recriminao a seu pai, cujo nico efeito foi lhe fazer reir em silncio um pouco mais.
      Eu afoguei meu prprio regozijo com um gole de ch fumegante, deliciosamente perfumado. Ofereci a taa a meu marido, mas ele a rechaou com a mo, contentando-se 
com o resto da cerveja. Por fim comentou, baixando a garrafa:
      - Minha tia sabe muito bem, por certo, o que se pode comprar com dinheiro e que no.
      - E acaba de comprar para se, e para todos os do condado, uma boa opinio do pobre Roger, no  assim?- repliquei bastante seca.
      - Pobre Roger- reconheceu Jamie, com a boca ainda contrada-. Pobre, mas virtuoso.- Levantou a garrafa de cerveja at esvazi-la e a baixo com um leve suspiro 
de satisfao-. Embora, bem vista as coisas, tambm comprou um pouco de valor para o moo, verdade?
      - <Meu filho>- citei brandamente, assentindo-. Crie que ele mesmo se precaveu antes de diz-lo? O que na verdade quer ao Jemmy como a um filho?
      Ele fez um gesto indefinido com os ombros, sem chegar a encolh-los.
      - No sei. Mas  bom que essa idia lhe tenha fixado na mente antes de que chegue o prximo beb, que ser seu sem lugar a dvidas.
      Recordei minha conversao com a Brianna essa manh, mas decidi que era melhor no dizer nada, ao menos por agora. depois de tudo, isso incumbia ao Roger e 
ao Bree.
      O suave calor que sentia na boca do estmago no era s por causa da infeco: Roger tinha jurado aceitar ao Jemmy como filho prprio, qualquer que fosse seu 
verdadeiro pai; era um homem de honra e essa era sua inteno. Mas a voz do corao fala mais alto que nenhum juramento pronunciado to somente pelos lbios.
      Na poca em que eu retornei atravs das pedras, grvida, Frank me tinha jurado que me conservaria como esposa, que trataria ao menino como filho prprio, que 
me amaria como antes. Seus lbios e sua mente tinham feito o possvel por cumprir com esses trs  votos, mas seu corao, a fim de contas, pronunciou um sozinho. 
Do momento em que recebeu a Brianna em seus braos, ela foi sua filha. 
      Mesmo assim, o que teria passado se tivssemos tido outro filho? Essa possibilidade nunca existiu, mas se tivesse acontecido... Sequei lentamente a bule e 
a envolvi em um pano de cozinha, contemplando a viso dessa criatura mtica, a que Frank e eu teramos podido ter, nunca tivemos e jamais teramos. Depositei a bule 
envolta no cesto, com tanta suavidade como se fora um beb dormido. 
      Quando me girei, Jamie seguia me olhando com uma expresso bastante estranha: tenra, mas melanclica.
      - Alguma vez me ocorreu te dar as obrigado, Sassenach?- disse,  com voz algo rouca.
      - por que?- perguntei, intrigada.
      Ele me agarrou a mo para que me aproximasse. Cheirava a cerveja e a l molhada. Tambm, muito vagamente,  doura do bolo de frutas com brandy.
      - Por meus meninos- disse brandamente-. Pelos filhos que me deste.
      -OH...!- Inclinei-me lentamente para diante, at posar a frente contra a slida calidez de seu peito, e encerrei entre minhas mos a parte baixa de suas costas, 
suspirando-. Foi... um prazer.
       
      
      
      
      - Senhor Fraser, senhor Fraser!
      Ao levantar a cabea, encontrei-me com um menino que descendia correndo a levantada pendente, agitando os braos para no perder o equilbrio, com a cara muito 
vermelha de frio e esforo. 
      - Uf!
      Jamie alargou as mos bem a tempo para sujeit-lo no momento em que atravessava o ltimo par de metros, j fora de controle. Logo o elevou em braos, sonrindole. 
Reconheci-o; era o menor dos filhos do Farquard Campbell.
      - Se, Rabbie, o que acontece? Voc pai quer que v a pelo senhor MacLennan?
      Rabbie sacudiu a cabea; suas mechas desiguais se elevaram como a pelagem de um co pastor.
      - No, senhor- ofegou, procurando flego. No esforo por respirar e falar com mesmo tempo, tragou uma baforada de ar que lhe inchou a garganta como a uma r-. 
No senhor. Meu papai diz que se inteirou de onde esta o sacerdote e que eu devo lhe mostrar o caminho, senhor. Vir voc comigo?
      As sobrancelhas do Jamie se elevaram em momentnea surpresa; depois de me jogar uma olhada, dedicou ao Rabbie um sorriso e um gesto de assentimento, agachando-se 
para deposit-lo no cho.
      - Sim, moo, irei. Anda, guame.
      - Que delicadeza a do Farquard!- comentei ao Jamie pelo baixo, enquanto Rabbie brincava de correr diante, jogando de vez em quando um olhar por cima de seu 
ombro, para assegurar-se de que podamos lhe seguir o passo. Ningum repararia em um pequeno entre os enxames de meninos que andavam pela montanha. Em troca teria 
chamado a ateno de todos que Farquard Campbell viesse pessoalmente ou enviasse a um de seus filhos adultos.
      Jamie bufou um pouco; a bruma de seu flego foi um fio de vapor no fria glacial.
      - Ao fim e ao cabo no  assunto do Facquard, pese ao grande avaliao que sente por minha tia. E suponho que, se me enviou ao pequeno,  porque conhece responsvel 
e no quer escolher bandos me apoiando contra ele.- Jogo um olhar ao sol poente e logo me olhou , com melancolia-. Disse que acharia ao pai Kenneth antes do entardecer, 
mas mesmo assim...  No acredito que esta noite haja bodas, Sassenach. 
       Rabbie nos conduzia para cima, seguindo sem vacilar o labirinto de atalhos e erva pisoteada.  A gente j se estava congregando em volto do fogo familiar, 
desejosa de jantar, e ningum nos dedicou um olhar. 
      Por fim Rabbie se deteve o p de um atalho bem marcado, que conduzia para cima e para a direita. Perguntei-me quem teria ao pai Kenneth sob  custdia, e o 
que se propunha Jamie.
      - Ali acima- disse Rabbie innecesariamente, assinalando o extremo de uma grande loja.
      Ao v-la, Jamie emitiu um som escocs do fundo de sua garganta.
      - Ah! - disse muito fico-, de maneira que assim so as coisas.
      - No me diga como. me diga de quem.- Eu observava essa loja: grande, de lona parda encerada, plida no crepsculo. Obviamente pertencia a algum endinheirado, 
mas no me resultava conhecido.
      - O senhor Lillywhite, do Hillsborough- disse Jamie, franzindo as sobrancelhas em reflexo. Logo deu uns tapinhas na cabea ao Rabbie Campbell e lhe entregou 
um penique tirado de seu sporran-. Obrigado, moo. Agora corre a sua casa, que  hora de jantar.
      O menino agarrou a moeda e desapareceu sem comentrios, feliz de ter completo com seu recado.
      - J, compreendo. 
      Contemple a loja com olho desconfiado. Isso explicava umas quantas coisas, mas no todas. O senhor Lillywhite era magistrado do Hillsborough. Eu no sabia 
mais dele, mas o tinha visto uma ou duas vezes durante a congregao: um homem alto, um pouco curvado, que se caracterizava por sua jaqueta verde garrafa com botes 
de prata. Nunca me tinham apresentado isso formalmente.
      Os magistrados eram os responsveis por designar aos delegados; isso explicava o vnculo com o <gordo horrvel> que havia descrito Marsali e por que o pai 
Kenneth estava encarcerado ali. Mas ficava por saber se era o delegado ou Lillywhite quem tinha querido retirar o da circulao.
      Jamie me apoiou uma mo no brao para me apartar do atalho, fazia o amparo de um pinheiro pequeno.
      - Voc no conhece senhor Lillywhite, verdade, Sassenach?
      - S de vista. O que quer por mim?
      Ele me sorriu com um brilho travesso nos olhos, em que pese a estar preocupado pelo sacerdote.
      - Est disposta?
      - Suponho que sim, a menos que me ordene golpear na cabea ao senhor Lillywhite e liberar o pai Kenneth pela fora. Esse tipo de coisas est mais em sua linha 
que na minha.
      Ele riu ante isso, jogando  loja um olhar que me pareceu ofegante. 
      - Nada eu gostaria mais- disse, confirmando esta impresso-. E no seria nada difcil- acrescentou, observando os flancos de lona, que ondulavam ao vento-. 
Olhe seu tamanho; ali dentro no pode haver mais de dois ou trs homens, alm disso do sacerdote. Poderia esperasse a que obscurecesse por completo e logo, com um 
ou dois moos...
      - Sim, mas o que quer que eu faa agora?- interrompi-o. Parecia-me melhor pr reserva a um fio de pensamentos claramente criminal.
      Ele abandonou suas maquinaes para me avaliar com olhos entreabridos.
      -  No trouxeste algo de sua equipe mdica?- perguntou, com ar dbio-. Um frasco de beberagem, uma pequena faca?
      - Frasco de beberagem, diz! No... OH!, espera um momento. Sim, trouxe isto. Servira? 
      Urgando no bolso que me pendurava da cintura, tinha encontrado a pequena caixa de marfim em que guardava minhas agulhas de acupuntura, com ponta de ouro.
      Ele assentiu, obviamente satisfeito, e tirou do sporran a cigarreira de prata.
      - Serviro, sim- disse, me entregando o usque-. Leva isto tambm, para impressionar. Sobe at a loja, Sassenach, e dava a quem est custodiando ao sacerdote 
que o homem est doente.
      - O guarda?
      - O padre- corrigiu-. A estas horas todos tm que saber que  curandeira e lhe reconhecero ao verte. Dava que estiveste tratando ao pai Kenneth por uma enfermidade 
e que necessita imediatamente uma dose de seu remdio. Do contrrio morrer. No acredito que queiram isso... e de ti no tero medo.
      - No acredito que tenham motivos- reconheci, algo custica-. Bem, no tenho que apunhalar ao delegado com minhas agulhas, verdade?
      A idia lhe fez sorrir de brinca a orelha, mas negou com a cabea.
      - No. S quero que averige por que o capturaram e o que pensam fazer com ele. Se fosse eu mesmo a perguntar, poria-os em guarda.
      Isso significava que no tinha abandonado por completo a idia de lanar um ataque comando contra a fortaleza do senhor Lillywhite, se as respostas resultavam 
insatisfactorias. Joguei uma olhada  loja e, aspirando fundo, acomodei-me o xale sobre os ombros.
      - Est bem. E voc o que far enquanto isso?
      - Vou pelos meninos - disse.
      E depois de me apertar fugazmente a mo, para me desejar sorte, partiu costa abaixo.
      
      
      
      
      
      Ainda estava me perguntando o que significaria essa crptica declarao (que meninos e para que?) Quando  distingui a lapela aberta da loja; mas todas as especulaes 
voaram de minha mente ante a apario de um cavalheiro que correspondia ao descrito pelo Marsali, <um gordo horrvel>, com tanta exatido que no me couberam dvidas 
sobre sua identidade; seus ojillos de contas me observaram como se avaliasse minhas possibilidades comestveis.
      - Bons dias voc tenha, senhora- disse, sem entusiasmo, como se me encontrasse pouco apetitosa; mas inclinou a cabea com respeito formal.
      - Bons dias - respondi alegremente, lhe fazendo uma breve reverencia. Alguma vez  vai mal corts, ao menos em um comeo-. Voc deve ser o  delegado, verdade? 
Temo que no tive o prazer de lhe ser formalmente apresentada. Sou a senhora Fraser, a esposa do James Fraser, da Colina do Fraser.
      - David Anstruther, delegado do condado do Orange. Um servidor, senhora.- inclinou-se outra vez, embora sem muitas amostras de prazer. Tampouco parecia hav-lo 
surpreso o nome do Jamie, j porque no lhe era familiar (coisa estranha) ou porque j esperava uma embaixada como essa.
      Sendo assim, no tinha sentido me andar com rodeios.
      - Tenho entendido  que aloja aqui ao pai Donahue- disse cordialmente-. vim a v-lo. Sou seu mdico. 
      No sei o que esperava, mas no era isso; ficou algo boquiaberto, deixando ver um grave caso de m ocluso,  gengivite avanada e falta de um bicspide. antes 
de que pudesse fechar a boca, da loja saiu um cavalheiro alto, de jaqueta verde garrafa. 
      - A senhora Fraser?- disse, arqueando uma sobrancelha. Logo se inclinou puntillosamente-. H dito voc que desejava falar com o cavalheiro clerical detido?
      - Detido?- Ante isso fingi grande surpresa-. Um sacerdote? V, o que pode ter feito?
      O delegado e o magistrado intercambiaram um olhar. Logo este pigarreou.
      - Talvez ignora voc, senhora, que na colnia da Carolina do Norte s o clero da Igreja estabelecida (quer dizer, a Igreja Anglicana) pode celebrar legalmente 
seus ofcios.
      - me valha Deus!- exclamei, afetando horrorizada surpresa at onde me era possvel-. No, no tinha a menor  ideia. Mas que coisa to estranha!
      O senhor Lillywhite piscou um pouco, gesto que interpretei como indicao do que tinha conseguido criar uma impresso de educada surpresa. depois de me esclarecer 
a garganta, mostrei  a cigarreira de prata e o estojo das agulhas. 
      - Bom, espero que as dificuldades resolvam logo. Mesmo assim, eu gostaria de ver um momento ao pai Donahue. Tal como hei dito, sou seu mdico. Ele tem uma... 
indisposio...- deslizei para trs a coberta do estojo para exibir delicadamente as agulhas, permitindo que imaginassem algo adequadamente virulento- que requer 
tratamento regular. Poderia v-lo por um instante, a fim de lhe administrar seu remdio? No quereria que... n..., que acontecesse  algo inconveniente por falta 
de ateno por minha parte, como compreendero. 
      E sorri com todo meu encanto. 
      O delegado encolheu o pescoo dentro da jaqueta, assumindo um aspecto malvolamente anfbio, mas o senhor Lillywhite pareceu mais afetado por meu sorriso. 
Observou-me de ps a cabea, vacilando.
      - Bom, no estou seguro de que... - comeou a dizer. 
      Nesse momento umas pegadas chapinharam no atalho, detrs de mi. Me girei, quase esperando ver o Jamie.  Em troca me encontrei com o senhor Goodwin, meu paciente 
da manh; tinha uma bochecha ainda torcida por meu tratamento, mas o tipia permanecia intacto.
      Ele tambm se surpreendeu  lombriga, mas me saudou com grande cordialidade, em uma nuvem de vapores alcolicos. Pelo visto tinha tomado muito a srio meu 
conselho de desinfetar.
      - Senhora Fraser! Confio que no tenha vindo para atender a meu amigo Lillywhite. Ao senhor Anstruther, em troca, no lhe viria mal uma boa purgao para limpar 
os humores biliosos, verdade, David? Ja, ja!
      - Querido George- saudou o senhor Lillywhite, calidamente-, vejo que j conhece esta encantadora dama.
      - OH!,  claro que sim, cavalheiro.- O senhor Goodwin voltou para mim um semblante muito sorridente-. Mas se apenas esta manh a senhora Fraser me tem feito 
um grande servio! Um grande servio, sim. Olhem isto!
      Blandi seu brao entalado; notei com prazer que no parecia estar lhe causando nenhuma dor, embora provavelmente isso se devia  anestesia que se estava autoadministrando, 
antes que a minha obra. 
      - Curou-me o brao com apenas um toque aqui, um toque l... e me extraiu um dente quebrado com tanta limpeza que apenas o notei. Uk! - Colocou um dedo para 
retirar a bochecha, deixando ver a parte de algodo ensangentado no oco do dente e uma pulcra linha de pontos negros na gengiva.
      - Estou realmente impressionado, senhora- Lillywhite, com cara de interesse, farejou o bafo de usque e prego de aroma que surgia daquela boca. Vi que sua 
lngua formava um vulto em sua bochecha, ao sondar cautelosamente um molar.
      - Mas o que a traz por aqui, senhora Fraser?- O recm-chegado voltou para mim o raio de sua jovialidade-. To avanado o dia... Possivelmente me voc faa 
a honra de compartilhar meu jantar ante a fogueira?
      - OH!, muito obrigado, mas a verdade  que no posso- disse, com a mais encantada de meus sorrisos-. vim a ver outro paciente.. quer dizer.. 
      - Quer ver o sacerdote- interrompeu Anstruther. 
      Ante isso Goodwin piscou, desconcertado s por um instante.
      - Ao padre? H um sacerdote aqui?
      - Um papista- ampliou o senhor Lillywhite, curvando um pouco os lbios ante essa palavra impura-. Me fez saber que havia um sacerdote catlico camuflado na 
reunio e que se  propunha celebrar uma missa durante as festividades de esta noite. Certamente, enviei ao senhor Anstruther para que o prendesse. 
      - O pai Donahue  meu amigo- intervim, com toda a energia possvel-. E no estava camuflado, a no ser convidado sem dissimulaes, como hspede da senhora 
Cameron. Alm disso,  meu paciente e requer tratamento. vim a garantir que o receba. 
      Amigo dele?  voc catlica, senhora Fraser?
      O senhor Goodwin parecia sobressaltado; obviamente, no lhe tinha ocorrido que sua dentista fora papista; levou-se a mo  bochecha torcida, em um gesto de 
estranheza. 
      - Sou-o- manifestei, com a esperana de que ser catlica no fora ilegal, segundo a concepo do Lillywhite.
      Evidentemente no era assim. O senhor Goodwin deu uma cotovelada a seu amigo.
      - OH!, vamos, Randall. Deixe que a senhora veja esse homem. Que dano pode fazer? E se em realidade  convidado da Yocasta Cameron...
      O senhor Lillywhite franziu os lbios, refletindo um momento. Logo se fez a um lado e apartou a lapela de lona para que eu passasse.
      - No acredito que haja nenhum mal em que veja seu... amigo - manifestou lentamente-. Passe, pois, senhora.
      A silhueta do pai Donahue se recortava frente  lona iluminada; estava sentado em um tamborete ante uma pequena mesa dobradia na qual se viam umas poucas 
folhas de papel, um tinteiro e uma pluma. O mesmo poderiam ter sido instrumentos de tortura, a julgar por sua rgida atitude defensiva, evocativa de algum que esperasse 
o martrio.
      Desde atrs me chegou um rudo de pederneira e yesquera; logo, um vago resplendor que foi crescendo. Um menino  negro (o servente do senhor Lillywhite, provavelmente), 
adiantou-se em silencio para pr um pequeno abajur de azeite sobre a mesa. 
      - Pai Kenneth. - Estreitei-lhe a mo com um amplo sorriso, em benefcio de quem quer que pudesse estar espiando pela abertura-. Trouxe-lhe seu remdio. Como 
se sente?
      Agitei as sobrancelhas para lhe indicar que devia me seguir o jogo. Ele me olhou fixamente um momento, fascinando, mas logo pareceu entender e tossiu um pouco. 
Animado por meu gesto afirmativo, fez-o outra vez, j com mais entusiasmo. 
      - foi... muito amvel, ao pensar em meu, senhora Fraser- ofegou entre mais tosse.
      Desentupi a cigarreira e lhe servi uma generosa medida de usque. 
      - Est voc bem, pai?- perguntei em voz baixa, ao me inclinar par oferecer-lhe Sua cara... 
      - OH!, no  nada, querida senhora Fraser, nada absolutamente- assegurou-me, deixando aparecer seu tom irlands na tenso do momento-.  que cometi o engano 
de resistir quando o delegado me prendeu. No s isso, mas tambm, levado pela impresso, causei algum prejuzo aos cojones do pobre homem, que s cumpria com seu 
dever, Deus me perdoe. 
      O pai Kenneth dirigiu o olho ileso para cima em uma expresso piedosa, arruinada pela irredenta sorriso que se estendia abaixo. No era muito alto e parecia 
major do que era, em virtude do desgaste que o imponian os largos perodos passados a cavalo. Mesmo assim, no passava dos trinta e cinco anos, e sob seu gasto casaco 
negro, era enxuto e robusto como um ltego. Comeava a compreender a que se devia a beligerncia do delegado.
      - Alm disso- acrescentou, tocando-se com cautela o olho negro-, o senhor Lillywhite me ofereceu a mais gentil das desculpas pelo dano sofrido. 
      O sacerdote agarrou o usque que eu lhe tinha servido e o apurou, fechando os olhos em sonhadora bno. 
      - No poderia desfrutar de melhor remdio- disse  ao abri-los de novo-. O agradeo muito, senhora Fraser. Estou to reposto que poderia caminhar sobre as guas. 
      Ento recordou que devia tossir; esta vez o fez com delicadeza, com um punho apoiado na boca.
      - por que o prenderam?- perguntei, baixando a voz. 
      Joguei outra olhada  entrada da loja, mas estava deserta; de fora chegava um murmrio de vozes. Pelo visto Jamie tinha razo: no suspeitavam de mim. 
      - Por celebrar a Santa Missa- respondeu ele-. Ao menos, isso ho dito, embora seja uma perversa mentira. No celebrei nenhuma missa desde domingo passado, 
e isso foi na Virginia. 
      Agarrei a cigarreira para lhe servir outra medida generosa. Enquanto ele a bebia, esta vez com mais lentido, franzi o sobrecenho, refletindo. O que se traziam 
entre mos o senhor Lillywhite e companhia? No podiam, sem dvida, levar a julgamento do sacerdote pelo cargo de oficiar missa. Certamente, no lhes custaria muito 
conseguir testemunhas falsas para provar que o tinha feito, mas o que ganhariam com isso?
      Embora o catolicismo no era popular na Carolina do Norte, eu no via o benefcio em prender um padre que, de qualquer modo, iria pela manh. O pai Kenneth 
provinha de Baltimore e pensava retornar ali. Solo tinha concorrido  congregao por fazer um favor a Yocasta Cameron.
      - OH!- exclamei. O sacerdote me olhou inquisitivamente por cima de sua taa-.  s uma idia- disse, lhe indicando com um gesto que continuasse-. Por acaso 
sabem se o senhor Lillywhite tem alguma relao pessoal com a senhora Cameron?
      Yocasta, mulher proeminente e enriquecida, tinha carter forte; por ende no lhe faltariam inimigos. No me explicava por que o senhor Lillywhite queria chatear 
a de uma maneira to peculiar, mas mesmo assim...
      - Conheo a senhora Cameron- disse o magistrado a minhas costas-. Entretanto, ai!, no posso dizer que tenha uma amizade ntima com essa dama. 
      Girei-me em redondo. Estava de p  entrada da loja, seguido pelo delegado Anstruther e o senhor Goodwin. Jamie fechava a marcha me fazendo um imperceptvel 
gestos com uma sobrancelha. 
      O senhor Lillywhite se inclinou ante mi.
      - Acabo de lhe explicar a seu marido, senhora, que por considerao  senhora Cameron tentei regularizar a situao do senhor Donahue, a fim de permitir sua 
presena na colnia. Entretanto, temo que minhas sugestes foram sumariamente rechaadas.
      O pai Kenneth deixou sua taa e ergueu as costas, resplandecente o olho so  luz do abajur.
      - Querem que firme um juramento, senhor- disse ao Jamie, assinalando com um gesto o papel e a pluma que tinha ante si-. A efeitos de que no assino a crena 
na transustanciacin.
      - Seriamente?- A voz do Jamie no revelava mais que um interesse amvel.
      - Bom, pois no pode, verdade?- disse, olhando ao crculo de homens-. Os catlicos... quer dizer, ns- esclareci, olhando ao senhor Goodwin- acreditam certamente 
na transustanciacin. No  assim?- perguntei, me voltando para o padre, que assentiu com a cabea, sonriendo apenas.
      O senhor Goodwin parecia desconforme, mas resignado; o desconforto social tinha reduzido sua jovialidade alcolica.
      - Sinto muito, senhora Fraser, mas assim o manda a lei. S com uma condio se permite aos clrigos no pertencentes  Igreja estabelecida permanecer legalmente 
na colnia, e  que assinem esse juramento. So muitos os que o fazem. Conhece reverendo Urmstone, o pregador metodista itinerante? Ele assinou o juramento, e tambm 
o senhor Calvert, que vive perto do Wadesboro.
      O delegado parecia muito ufano. Contendo meu impulso de lhe pisar um p, voltei-me para o senhor Lillywhite.
      - Pois como o pai Donahue no pode assin-lo, o que se propem fazer com ele? Jog-lo em uma masmorra? No podem fazer isso: est doente!
      Como obedecendo a um sinal, o pai Kenneth tossiu devidamente. O senhor Lillywhite me olhou com ar dbio, mas preferiu dirigir-se ao Jamie.
      - Em justia poderia encarcerar a este homem, mas por considerao a voc e a sua tia, senhor Fraser, no o farei. No obstante dever abandonar amanh a colnia. 
Farei-o escoltar at a Virginia, onde ser posto em liberdade. Pode voc confiar em que se cuidar de seu bem-estar durante a viagem. 
      E desviou uma fria olhar cinza para o delegado, que se ergueu em toda sua estatura, tratando de luzir digno de confiana, sem muito resultado.
      - Compreendo.- Jamie falou em tom ligeiro, passeando o olhar de um a outro dos homens; por fim a posou no delegado-. Espero que assim seja, senhor... pois 
se chegasse a meu conhecimento que o bom pai sofreu algum dano, mi... desassossego seria maisculo.
      Ele delegado o sustuvo o olhar, ptrea a cara, at que o senhor Lillywhite lhe dirigiu um gesto carrancudo.
      - Dou-lhe minha palavra, senhor Fraser.
      Jamie lhe fez uma leve reverencia.
      - No poderia pedir mais, senhor. Entretanto, se me permitir a presuno... no poderia o pai passar a noite cmodo entre seus amigos? Assim poderia despedir-se 
deles. E minha esposa, atender suas leses. Eu me faria responsvel por entreg-lo sem falta a suas mos, amanh pela manh.
      O senhor Lillywhite cavou os lbios, figiendo  estudar a proposta, mas era mau ator. No sem interesse, precavi-me de que tinha previsto  essa solicitude e 
j tinha decidido negar-se.
      - No senhor- disse, tratando de adotar um tom relutante-. Lamento no poder acessar a seu pedido. Mas se o sacerdote deseja escrever cartas a seus conhecidos... 
- Assinalou com a cabea o monto de papis-. Eu me encarregarei de que sejam prontamente entregues.
      Meu marido tambm pigarreou, estirando-se um pouco.
      - Pois bem- disse-, se tolerar meu atrevimento...
      Fez uma pausa, como se estivesse um pouco envergonhado.
      - Diga, senhor. - Lillywhite o olhava com curiosidade.
      - Permitiria voc que o bom pai me escutasse em confisso?- Jamie tinha parecido o olhar no poste da loja, evitando a minha com diligncia. 
      - Em confisso?
      O magistrado parecia atnito. O delegado, em troca, emitiu um rudo que algum muito caridoso podia interpretar como risita zombadora. 
      - Tem algum peso na conscincia?- perguntou rudamente-. Ou possivelmente uma premonio de morte iminente. n?
      Disse-o com um sorriso maligno. O senhor Goodwin, com cara de escandalizado, murmurou um protesto. Jamie, desdenhando-os a ambos, centrou sua ateno no senhor 
Lillywhite.
      - Sim, senhor. Faz algum tempo que no tive oportunidade de me confessar, compreende? E  muito possvel que passe ainda mais antes de que volte a apresent-la 
ocasio. Tal como esto as coisas...- Nesse momento cruzou um olhar comigo e assinalou a lapela da loja com um gesto breve, mas enftico-. Desculpariam-nos um momento, 
cavalheiros?
      Sem aguardar a resposta, agarrou-me pelo cotovelo para me empurrar veloz mente fora.
      - Brianna e Marsali esto atalho acima, com os crios- vaiou-me ao ouvido, assim que estivemos fora da loja-. Quando Lillywhite e esse bode do delegado estejam 
bem longe v a por eles.
      E me deixou de p no  caminho, atnita, para entrar de novo na loja.
      - Com seu perdo, cavalheiros- ouvi-lhe dizer-. Pareceu-me que... h coisas que um homem no deve dizer frente a sua esposa, compreendem?
      Houve um murmrio de compreenso masculina; tambm captei a palavra <confisso>, repetida pelo senhor Lillywhite em tom dbio.
      Depois de descender alguns passos pelo caminho, detiveram-se conferenciar. 
      O vulto do Anstruther se aproximou um pouco mas ao senhor Goodwin.
      - Que coo  a transustanciacin?- murmurou.
      Vi que o senhor Goodwin erguia os ombros, estirando-se, mas imediatamente os elevou para as orelhas.
      - Com toda franqueza, senhor, no estou seguro do que significa essa palavra- disse com certa gazmoeria-; no obstante, percebo nela alguma forma de doutrina 
papista perniciosa. Talvez o senhor Lillywhite possa lhe oferecer uma definio mais completa. Randall?
      -  obvio- disse o magistrado-.  o conceito de que, ao pronunciar o sacerdote determinadas palavras durante a celebrao de sua missa, o po e o vinho se 
transformam na substncia mesma do corpo e o sangue de Nosso Salvador.
      - O que?- Anstruther parecia confundido-. Como  possvel fazer isso?
      - Trocar o po e o vinho em carne e sangue?- disse o senhor Goodwin, bastante desconcertado-. Mas isso  brujeria!
      - Seria-o, se em realidade se produzira- objetou o senhor Lillywhite, um pouco mais humano-. A igreja sustenta, com muita razo, que no  assim.
      - E estamos seguros disso?- O delegado parecia desconfiar-. Viu-os voc faz-lo?
      - Pessoalmente, no. Mas tenho entendido que  assim.
      - Pois bem, isso  canibalismo puro e duro, no?- A mole do delegado voltou a estirar-se, entusiasmada-. Isso sim que vai contra a lei! por que no deixamos 
que este tio faa seu truque de magia e os prendemos a todos? Acredito que poderamos encerar a um monto desses bodes de um s golpe.
      - No - disse, sem elevar a voz-. Temo que no, delegado. Tenho instrues de no permitir que o sacerdote realize nenhuma cerimnia e que lhe impea de receber 
visitantes.
      - Ah, sim? E o que  o que est fazendo agora?- acusou Anstruther, assinalando para a loja s escuras, onde a voz do Jamie tinha comeado a soar, vacilante. 
Provavelmente falava em latim.
      - Isso  muito diferente- disse Lillywhite, irritado-. O senhor Frase  um cavalheiro. E a proibio de receber visitas  para evitar que o padre celebre matrimnios 
secretos, coisa que agora no pode nos preocupar.
      - me benza, pai, pois pequei- disse Jamie, elevando sbitamente a voz. 
      O magistrado deu um coice, enquanto o pai Kenneth, murmurava uma interrogao.
      - cometi pecados de luxria e impureza, tanto de pensamentos como de fato- anunciou Jamie, em um volume que no me pareceu muito discreto.
      - OH! J vejo- reps o pai Kenneth, levantando tambm a voz, como se estivesse interessado-. Agora bem, meu filho, esses pecados de impureza, de que forma 
se manifestaram, e em quantas ocasies?
      - Pois bem... Para comear, olhei a algumas mulheres com desejo luxurioso. Em quantas ocasies... calculemos um centenar, pelo menos, pois aconteceu bastante 
tempo desde minha ltima confisso. Tem que saber com que mulheres aconteceu, pai, ou basta com que lhe diga o que pensei lhes fazer?
      O senhor Lillywhite  ficou notavelmente rgido.
      - Acredito que no teremos tempo para tanto, querido Jamie- disse o padre-. Mas sim quer me falar de uma ou duas ocasies, para que eu possa me formar uma 
idia quanto ao... n...  gravidade do pecado. 
      - OH!, bem. Bom, a pior deve ter sido aquela vez, com a manteigueira.
      - Manteigueira? Ah... dessas com uma manga que aparece?- O tom do pai Kenneth expressava uma triste compaixo pelas libidinosas possibilidades que isso sugeria.
      - OH, no! Pai. Era um desses barris que ficam de lado, com uma pequena manivela para lhe dar voltas, sabe? Pois bem, ela estava lhe dando voltas com muito 
vigor, e tinha os cordes do suti desatados de modo que seus peitos se bamboleavam fazia aqui e para l. E o tecido lhe pegava ao corpo com o suor do trabalho. 
Pois bem: o barril tinha a altura exata, e era curvado, compreende? E isso me fez pensar em tomb-la em cima e lhe levantar as saias Y...
      Involuntariamente abri a boca em um gesto de horror. O suti que estava descrevendo era o mijo, e meus peitos, e minha manteigueira! Por no falar de minhas 
saias. Recordava vividamente aquela ocasio. Se se tinha iniciado com um pensamento impuro, certamente no ficou s nisso. 
      Um rudo lhe sussurrem e um murmrio voltaram minha ateno aos homens que conversavam sobre o caminho. O senhor Lillywhite tinha pego de um brao ao delegado, 
que ainda se inclinava avidamente para a loja, erguendo as sobrancelhas, e o arreganhava com um vaio, enquanto o obrigava apressadamente a afastar-se pelo caminho. 
O senhor Goodwin os seguiu, embora com ar relutante. 
      Por desgraa, o rudo que fizeram ao afastar-se afogou o resto do pecado que Jamie describia, mas tambm, felizmente, o sussurro de folhas e ramillas roda 
que anunciavam a apario da Brianna e Marsali a minhas costas, com o Jemmy e Joan em braos e Germain obstinado  costas de sua me, como um bonito. 
      - J temia que no se fossem alguma vez- sussurrou Bree, espiando sobre meu ombro fazia o lugar por onde tinham desaparecido o magistrado e seus companheiros-. 
Fica algum?
       - No. Vamos.
      E alargue os braos para o Germain, que veio a eles de boa vontade.
      - Ou nous alles, Grad-mre?- perguntou com voz sonolenta, enquanto beijocava afetuosamente meu pescoo.
      - Chist. vamos ver o Grand-pre e ao pai Kenneth- sussurrei-lhe-. Mas temos que ir muito calados.
      - OH,! assim?- vaiou em um forte sussurro. E comeou a cantar pelo  sob uma cano francesa muito vulgar.
      - Chist!- Plantei-lhe uma mo contra a boca, mida e pegajosa pelo que tinha estado comendo- No cante, tesouro. No convm despertar aos bebs.
      Assim que entramos, Jamie se interrompeu abruptamente. Logo lhe ouvi dizer, depressa:
      -E pecados de ira, orgulho e inveja... ah! E tambm alguma mentira, pai. Amm.
      Caiu de joelhos, recitando precipitadamente um ato de contrio em francs, e antes de que o pai Kenneth acabasse de dizer: <Ego te absolvo> j estava de p, 
retirando ao Germain de meus braos. 
      Meus olhos se foram adaptando  escurido; chegava a distinguir as silhuetas volumosas das moas e o alto contorno do Jamie, que plantou ao menino na mesa, 
ante o sacerdote, dizendo:
      - Depressa, pois pai. No temos muito tempo.
      - Tampouco temos gua- observou o padre-. A menos que as senhoras tenham recordado trazer um pouco... 
      Tinha pego o pederneira e a yesquera, com os que estava tratando de acender novamente o abajur. Bree e Marsali intercambiaram um olhar de horror. Logo sacudiram 
a cabea ao unisono. 
      - No lhes preocupem, pai- disse Jamie, tranqilizador.
      Vi-o alargar a mo para algo que estava sobre a mesa. ouviu-se o breve chiado de uma cortia ao sair; logo, o aroma quente e doce do bom usque encheu a loja, 
enquanto da mecha brotava uma chama vacilante, que se estabilizou em uma luz pequena e clara. 
      - Dadas as circunstncias...- disse Jamie, oferecendo a cigarreira aberta ao sacerdote. 
      O pai Kenneth apertou os lbios, embora me pareceu que no era um gesto de irritao, mas sim de hilaridade contida.
      - Os leos batismais- explicou, desarrolhando o frasco antes de p-lo na mesa-. Graas a quo virgem o levava em cima. O delegado se apropriou da caixa com 
os elementos para a missa. - Fez um rpido inventrio dos objetos depositados na mesa, contando-os com os dedos-. Fogo, leos, gua... ou algo assim... e um menino. 
Muito bem. Suponho, senhora,  que voc e seu marido sero os padrinhos de este.
      Isso ia dirigido a mim. Jamie tinha ido hospedar se junto  entrada da loja. 
      - De todos, pai- disse, sujeitando com firmeza ao Germain, que parecia disposto a descer de um salto-. No te mova, tesouro.  s um momento.
      detrs de mim se ouviu o som de metal desenvainado contra pele azeitada. Ao me voltar vi o Jamie entre as sombras; montava guarda junto  porta com a adaga 
na mo. Um escrpulo apreensivo me enroscou no ventre. Bree afogou uma exclamao a meu lado. 
      - Jamie, meu filho- disse o pai Kenneth, em tom de suave reprimenda.
      - Continuem, pai, por favor- foi a tranqila resposta. - decidi que meus netos recebam o batismo esta mesma noite. E ningum poder impedi-lo.
      O padre aspirou fundo com um leve vaio. Logo moveu a cabea.
      - Em nome deste menino renunciam a Satans e a todas suas obras?- perguntou, falando depressa.
      Reagi bem a tempo para me unir ao Jamie na resposta dos padrinhos, recitando abnegadamente:
      - Renunciamos a eles. 
      - Acreditam no nico Deus o Pai o Filho e o Esprito Santo?
      - Cabezotas - modulei com os lbios, para o Jamie. Ele alargou o sorriso,  enquanto eu me apressava a acompanhar seu firme: <Acredito.>
      Era uma pegada o que tinha ouvido fora, no caminho, ou s o vento do anoitecer, que fazia ranger a seu passado os ramos dos mastreie?
      Terminadas as perguntas e respostas, o sacerdote me sorriu de brinca a orelha; a luz lhe pisquem do abajur lhe dava aspecto de grgula. Seu olho so se fechou 
brevemente em uma piscada.
      - Damos por sentado que respondero o mesmo pelos outros dois, verdade , senhora? E qual ser o nome de pilha deste doce pequeno?
      Sem quebrar o ritmo, tomou a cigarreira de usque e sotaque cair uma cautelosa destilao de licor na cabea do menino, repetindo:
      - Eu te batizo, Germain Alexander Claudel MacKenzie Fraser, no nome do Pai, do Filho e do Esprito Santo, amm. 
      O menino observava essa operao com profundo interesse; quando o lquido correu pela ponte de seu nariz, alargou a lngua para provar as gotas, mas imediatamente 
fez uma careta.
      - Puja1- disse com toda claridade-. Pip de cavalo. 
      Marsali lhe espetou um breve estalo escandalizado, mas o padre se limitou a rir entre dentes. depois de baixar ao Germain da mesa, chamou o Bree com um gesto. 
      Ela sustentou ao Jemmy por cima da mesa, embalando-o em seus braos como se fora a vtima de um sacrifcio. Embora estava atenta  cara do beb, vi que torcia 
um pouco a cabea, distrada por algo que acontecia fora. ouviam-se rudos no atalho, sim. E vozes. Um grupo de homens que conversavam; as vozes eram amistosas, 
mas no estavam brios.
      J tensa, tratei de no olhar ao Jamie. Se entravam, o melhor seria agarrar ao Germain, engatinhar por debaixo do extremo oposto da lona e sair fugindo. No 
caso de, sujeitei-o pelo pescoo da camisa. Nesse momento senti um ligeiro toque: Bree tinha movido o corpo contra mim. 
      - Tudo est bem, mame - sussurrou-. So Roger e Fergus. 
      depois de um movimento com a cabea para a escurido, concentrou sua ateno no Jemmy. 
      Era certo; a pele de minhas tmporas se arrepiou de alvio. Agora reconhecia a voz imperiosa e algo nasal do Fergus, que recitava uma larga orao, e uma grave 
ronrono escocs que devia ser o  do Roger. Uma risita aguda, a do senhor Goodwin, flutuou na noite, seguida por algum comentrio do senhor Lillywhite, com sua pronncia 
aristocrtica.
      Essa vez sim olhei ao Jamie. Ainda tinha a adaga desenvainado, mas tinha deixado cair a mo a um lado e seus ombros estavam menos tensos. Sorriu-me outra vez, 
e nesta ocasio lhe devolvi o gesto.
      Jemmy estava acordado, mas dormitado. Embora no apresentou objees ao leo, deu um coice ante o frio contato do usque na frente, abrindo muito os olhos, 
e emitiu um agudo chiado de protesto. 
      Sua me lhe deu suaves golpes nas costas como se fora um bongo, distraindo-o com um pequeno murmrio ao ouvido. Ele se conformou chupando o polegar, fulminando 
aos reunidos com um olhar suspicaz. Para ento, o pai Kenneth j estava vertendo usque sobre o Joan, que dormia em braos do Marsali. 
      - Eu te batizo, Joan Laoghaire Claire Fraser - disse, seguindo as indicaes da moa.
      Olhei-a com surpresa. Sabia que se chamava Joan, como a irm menor do Marsali, mas ignorava quais seriam seus outros nomes. de repente, os olhos inclinados 
da menina se abriram de par em par, junto com sua boca, que emitiu um alarido penetrante. Todo mundo deu um salto, como se entre ns tivesse estalado uma bomba. 
      - Vo em paz a servir ao Senhor! E vo s pressas!- disse o pai Kenneth, que j estava tampando diestramente a garrafa e a cigarreira, escondendo freneticamente 
todo rastro da cerimnia.
      Atalho abaixo se ouviam vozes elevadas em intrigadas perguntas.
      Marsali saiu da loja como o raio, com a lhe uivem beb apertada contra o peito e Germain, em que pese a seus protestos, sujeitou pela mo. Bree se deteve apenas 
para beijar na frente ao pai Kenneth.
      - Obrigado, pai- sussurrou.
      E desapareceu em uma revoada de saias e anguas.
      Jamie me tinha pego pelo brao e estava me empurrando tambm para fora, mas se deteve durante segundo meio. 
      - Pai?- sussurrou para trs-, Pax vobiscum!
      O padre j havia tornado a sentar-se detrs da mesa, com as mos cruzadas e as acusadoras folhas em branco estendidas ante ele. Levantou a vista com um leve 
sorriso. Sua cara,  luz do candil, expressava uma paz perfeita, a pesar do olho negro. 
      - Et cum spiritu tuo, homem- disse, enquanto levantava trs dedos em uma ltima bno.
      
      
      
      
      - por que tem feito isso?- O sussurro da Brianna flutuou at mim, cheio de irritao. Ela e Marsali foram uns poucos passos mais adiante. 
      - por que tenho feito o que? Deixa isso, Germain; vamos procurar a papai, quer?
      - Beliscar ao Joanie. Vi-te! Pde fazer que pilhassem a todos.
      -  que era preciso!- Marsali parecia surpreendida ante a acusao-.  E em realidade no teria importado, porque o batismo j parecia. No podiam obrigar ao 
pai Kenneth a que o desfizera, verdade?- Riu como uma menina ante a idia-. Germain, hei-te dito que deixe isso!
      - Como que era preciso? Solta, Jem, que  meu cabelo! Ai! Solta, digo-te!
      Obviamente Jemmy estava j totalmente acordado, com desejos de explorar os arredores.
      - Mas se a menina estava dormida!- disse Marsali, escandalizada-. No despertou quando o pai Kenneth lhe verteu a gua... quer dizer, o usque... na cabea. 
E j se sabe que  m sorte que um menino no chie um pouco quando lhe batiza;  assim como sabe que o pecado original o est abandonando. Ia eu a permitir que o 
diabhol ficasse em minha pequena, mo mhaorine? 
      Bree deixou escapar um bufido de risada, j apagada sua irritao. 
      Os assuntos do dia estavam resolvidos e a gente se ia sentando para jantar, antes de iniciar as canes e a ltima ronda de visitas. O aroma de fumaa e a 
comida arrastava dedos tentadores no ar frio e escuro; o estmago me resmungava brandamente em resposta a sua convocatria. Ojala Lizzie se reps o suficiente para 
comear a cozinhar.
      - O que significa mo mharine?- perguntei ao Jamie-.  a primeira vez que o ouo.
      - Significa  " meu patatita" , conforme acredito- respondeu ele-.  irlands, no?. Ela o aprendeu que padre. 
      Suspirou, como se estivesse profundamente satisfeito com a ao dessa noite. 
      - Santa Bride benza ao pai Kennth. Por um momento temi que no poderamos faz-lo.  Roger o que est ali, com o pequeno Fergus?
      -  ele, sim. E falando disso, meu doce patatita- acrescentei, lhe agarrando com firmeza do brao para que diminusse o passo-, Como te ocorreu contar ao pai 
Kenneth esse assunto da manteigueira?
      - No me diga que te ofendeu, Sassenach!- exclamou, em tom de surpresa.
      -  obvio que me ofendeu!- O sangue subiu s bochechas, clida, embora no teria podido dizer se se devia  lembrana de sua confisso ou ao do episdio original. 
      - Bom, tambm confessei que tinha mentido, Sassenach- disse ele. 
      No pude lhe ver o sorriso, mas a ouvia muito bem em sua voz. Suponho que ele tambm ouviu a minha. 
      - Tinha que pensar um pecado o bastante horrvel para afugentar ao Lillywhite. E no podia confessar roubos nem fraudes. Pode que algum dia deva fazer negcios 
com esse homem.
      - Ah!, e pensa que esses delitos poderiam lhe repugnar, enquanto que sua atitude para as mulheres de blusas molhadas lhe parecer s um pequeno defeito.
      - Baixa a voz, Sassenach- murmurou, me tocando a  mo-. Que os meninos no lhe ouam. Alm disso- acrescentou, baixando tanto a voz que se viu obrigado a me 
sussurrar ao ouvido-, no me acontece com todas as mulheres. S com as que tm um traseiro encantador, bem redondo.
      E me soltou a mo para me apalpar o traseiro com familiaridade, com notvel  pontaria apesar da penumbra. 
      - No me incomodaria em cruzar a rua por uma mulher fraca, embora estivesse completamente nua e jorrando. Quanto ao Lillywhite- resumiu, em um tom mais normal, 
mas sem retirar a mo-, embora seja protestante, Sassenach, no deixa de ser homem.
      - Ignorava que esses dois fatores fossem incompatveis- disse secamente a voz do Roger, surgindo da escurido. 
      Jamie retirou imediatamente a mo, como se minha ndegas estivessem em chamas. No era assim (no de tudo), mas no se podia negar que sua pederneira tinha 
disparado uma ou duas fascas entre a isca, por mida que estivesse. No obstante, faltava muito para a hora de deitar-se.
      Detive-me o tempo indispensvel para administrar  anatomia do Jamie um breve e ntimo aperto, que lhe arrancou uma exclamao afogada. Logo girei para o 
Roger.
      - O... o pai est bem?- perguntou este-. Disse-me Brianna que o tinham maltratado. Espero que no voltem a faz-lo uma vez que se v. 
      Ante isso Jamie ficou srio. Encolhendo-se levemente de ombros, acomodou-se a jaqueta.
      - Acredito que no ter problemas, no. Fiz uma pequena recomendao ao delegado.
      A nfase carrancuda que ps ao dizer " pequena recomendao"  o expressou com claridade. Teria sido mais efetivo um bom suborno, mas eu sabia perfeitamente 
que, nesses momentos, s tnhamos dois xelins, trs peniques e nove cntimos. Era melhor economizar dinheiro e confiar nas ameaas. Pelo visto, ele pensava o mesmo.
      - Falarei com minha tia- continuou- para que enviei esta noite uma nota ao senhor Lillywhite, expressando sua opinio sobre o assunto. Isso proteger melhor 
ao pai Kenneth que quanto eu possa dizer. 
      - No acredito que se alegre ao inteirar-se de que se pospor as bodas- comentei. Yocasta Cameron, filha de um senhor das Terras Altas e viva de um rico latifundirio, 
estava habituada a sair-se com a sua.
      - No, em efeito- disse Jamie, irnico-; para o Duncan, em troca, possivelmente seja um alvio.
      Roger riu e ajustou seu passo ao nosso para descender pelo atalho; levava sob o brao ao Jimmy, como se fora uma bola de futebol. 
      -  certo. Pobre Duncan. Assim que as bodas se adiaram definitivamente, no? 
      No pude ver o gesto carrancudo do Jamie, mas senti que sacudia a cabea, dbio.
      - Temo-me que sim. No quiseram me devolver ao padre, embora lhes dava minha palavra de  entreg-lo pela manh. Poderamos resgat-lo pela fora, mas mesmo 
assim...
      - Duvido que isso servisse de algo- interrompi. E lhes contei o que tinha escutado enquanto esperava fora da loja. 
      - No acredito que fiquem cruzados de braos e permitam ao pai Kenneth celebrar matrimnios- conclu-. Embora o ajudasse a escapar, buscariam-no por toda a 
montanha, esvaziando as lojas e provocando distrbios.  
      Ao delegado Anstruther no lhe faltaria ajuda; embora Jamie e sua tia merecessem muita estima entre a comunidade escocesa, no se podia dizer o mesmo dos catlicos 
em geral e dos padres em particular. 
      - Instrues?- repetiu Jamie, atnito- . Est segura, Sassenach? Foi Lillywhite quem disse que tinha instrues?
      - Foi ele.- S ento me precavi de quo peculiar era isso. Obviamente, o delegado recebia instrues do senhor Lillywhite,  pois esse era seu dever, mas quem 
podia estar dando ordens ao magistrado?
      - Aqui h outro magistrado e um par de juizes de paz, mas... - disse Roger lentamente. 
      levantou-se um vento suave, que fazia repicar como se fossem sabres os ramos nus de carvalhos e nogueiras. Mesmo assim, a voz do Jemmy era o bastante potente 
como para que Brianna o ouvisse. Captei a do Marsali, falando amigavelmente do jantar com o Germain e Fergus. Mas no se ouvia o tom mas grave e sensual do Bree, 
com sua entonao bostoniana. 
      . por que?- perguntou Jamie ao Roger, elevando a voz para fazer-se oir a pesar do vento.
      - por que o que? Oua, Jem, v isto? qu-lo? Sim,  obvio. Assim est bem, pequeno, masca-o um momento. 
      Uma fasca de luz se refletiu  em algo que Roger tinha na mo livre; logo o objeto desapareceu e os gritos do Jemmy cessaram bruscamente, substitudos por 
fortes rudos de suco. 
      - O que  isso? No ser um objeto pequeno que possa tragar, verdade?- perguntei, inquieta.
      - OH no!,  uma cadeia de relgio. No se preocupe- tranqilizou-me Roger-. Tenho o extremo bem sujeito. Se a traga, posso recuper-la. 
      - Quem poderia ter motivos para impedir que te casasse?- perguntou Jamie, paciente, ignorando o perigo que corria o sistema digestivo de seu neto.
      - Eu?- Roger parecia surpreso-. No acredito que a ningum importe que eu me case ou no, salvo a mim mesmo... e a ti, possivelmente- aadio, com um toque 
de humor-. Mas tem que querer que o menino tenha sobrenome, suponho. A propsito...- voltou-se para mi. O vento, que tinha liberada largas mechas de seu cabelo, 
convertia-o em uma selvagem silhueta negra-. Que nome lhe puseram, finalmente? No batismo, quero dizer. 
      - Jeremiah Alexander Ian Fraser MacKenzie- disse, tratando de record-lo corretamente-.  o que desejava?
      - OH!, no me importava muito- disse ele. 
       Llovizneaba outra vez; alm de sentir as gotitas geladas na cara, vi os fossas que formavam na gua do atoleiro, ali onde o tocava a luz do fogo. 
      - Eu queria que se chamasse Jeremiah- continuou-, mas disse ao Bree que escolhesse os outros nomes. Ela no podia decidir-se entre o John, pelo John Grei Y... 
e Ian, por sua primo.
      Uma vez mais detectei uma leve vacilao, enquanto que o brao do Jamie ficava algo rgido sob minha mo. Ian, o sobrinho do Jamie, era um ponto glido, afresco 
na mente de todos, graas  nota que dele tnhamos recebido no dia anterior. Isso devia ter decidido a Brianna, finalmente. 
      - Bom, se no ser por suas bodas com minha filha- insistiu Jamie, capitoso-, Por qual ?  a da Yocasta com o Duncan? Ou a dos Bremerton?
      - Pensa que algum se proposto impedir as bodas de esta noite?- Roger aproveitou a oportunidade para  falar de algo que no fora Ian Murray-. No crie que 
essa por averso geral contra as prticas romanas?
      - Poderia ser, mas no  por isso. Se no, por que esperaram at agora para prender o padre? Um momento, Sassenach; ajudarei-te.
      Jamie me soltou a mo para rodear o atoleiro: logo me agarrou pela cintura para me cruzar por cima, com um revo de saias.
      - No.- Jamie continuou a conversao, voltando-se para o Roger-. Suponho que ao Lillywhite e Anstruther no gostam dos catlicos, mas para que armar um alvoroo 
agora, se de qualquer modo o sacerdote se iria pela manh? Acaso pensam que poderia corromper s boas gente da montanha antes do amanhecer, se no o detiveram?
      Roger riu brevemente. 
      - No, suponho que no. H alguma outra coisa que o sacerdote devesse fazer esta noite, alm das bodas e os batismos?
      - Possivelmente umas quantas confisses- disse, beliscando ao Jamie no brao-. Nada mais, que eu saiba.
      - No se opuseram a que escutasse a minha. E no acredito que porque lhes importasse que um catlico estivesse em pecado mortal. De qualquer maneira, a seu 
modo de ver estamos todos condenados. Mas sim soubessem que algum necessita desesperadamente confessar-se e tivessem algo que ganhar....
      - Se esse algum estivesse disposto a pagar por ver o padre?- perguntei, ctica-. Homem, estamos falando de escoceses! Se se tratasse de pagar uma boa quantidade 
de dinheiro por um sacerdote, qualquer catlico escocs, fora adultero ou assassino, limitaria-se a recitar um ato de contrio e a ficar em mos de Deus.
      Jamie lanou um bufido de risada; a bruma branca de seu flego se enroscou em sua cabea como a fumaa de uma vela; o frio se estava acentuando. 
      - Acredito que sim- disse, seco -. E se Lillywhite tivesse alguma inteno de fazer negcios com as confisses, comea    muito tarde para obter grandes lucros. 
Mas e se a idia no fora impedir que algum se confesse, a no ser assegurar-se de escutar o que disser?
      Roger emitiu um grunhido satisfeito; ao parecer, a hiptese lhe parecia factvel.
      - Extorso? Poderia ser, se- disse com aprovao.  
      " Leva-o no sangue" , pensei. Embora tivesse estudado em Oxford, no cabia duvida de que era escocs. Sob seu brao se produziu uma violenta comoo, seguida 
por um alarido. Roger baixou a vista. 
      - OH!, deixaste cair sua guloseima? Onde est?
      Com o Jemmy ao ombro como sim fora uma confuso de roupa lavada ficou em cuclillas para pinar no cho, em busca da cadeia para o relgio, que Jemmy devia 
ter arrojado na escurido. 
      -  Extorso? Parece-me um pouco desatinado- objetei, me esfregando o nariz, que tinha comeado a me gotejar-. Se tiver entendido bem, eles, por exemplo, suspeitariam 
que Farquard Campbell cometeu algum crime espantoso e, se tivessem a certeza, poderiam extorqui-lo.  assim? Parece-me uma idia muito matreira. Roger, se encontrar 
um alfinete,  meu. 
      - Lillywhite e Anstruther  so ingleses, no?- apontou Jamie, com um delicado sarcasmo que fez rir ao Roger-. os dessa raa so matreiros e traies por natureza, 
no Sassenach?
      - Tolices!- disse, tolerante-. Alm disso, eles no trataram de escutar sua confisso. 
      - No tenho com o que pagar uma extorso- assinalou ele, embora era perfeitamente bvio que s discutia por entreter-se.
      - Mesmo assim- comecei. 
      Mas me interrompeu Jemmy; cada vez mais inquieto, jogava-se de um lado a outro, lanando gritos intermitentes como um apito de vapor. Roger beliscou algo entre 
os dedos, com cautela, e se incorporou. 
      - encontrei seu alfinete- disse-. Mas no h sinais da cadeia.
      - Algum a ver pela manh- respondi, elevando a voz para me fazer ouvir, pois a barafunda ia em aumento-. Ser melhor que me d ao menino. 
      Alarguei os braos para receber ao beb; Roger me entregou isso com visvel ar de alvio, que entendi ao captar uma baforada que vinha dos fraldas. 
       - Outra vez?- senti saudades. 
      O debo interpretar isso como recriminao pessoal, pois fechou os olhos e comeou a uivar como um alarme anti-areo. 
      - Mas onde se colocou Bree?- perguntei, tratando simultaneamente de embal-lo e mant-lo a uma higinica distncia-. Ai!
      Parecia ter aproveitado a escurido para desenvolver vrios membros adicionais, todos os quais estavam agitando-se ou procurando algo que aferrar. 
      - S foi a um pequeno recado- explicou Roger. 
      Seu vaguedad fez que Jamie girasse a cabea imediatamente. Pelo visto farejava algo estranho. voltou-se para mim com uma sobrancelha arqueada. Estava eu no 
jogo?
      - No tenho nem idia- assegurei-lhe-. Oua, cruzarei at a fogueira do McAllister para pedir que me emprestem um fralda limpo. Veremo-nos em nosso acampamento. 
      Sem esperar resposta, sujeitei ao beb com firmeza e me abri passo entre as matas, rumo ao acampamento mais prximo. Georgina McAllister, que tinha gmeos 
recm-nascidos (eu tinha atendido o parto, quatro dias atrs), proveu-me encantada de um fralda limpo e um arbusto privado, depois da qual poder fazer meus acertos 
pessoais. 
      Alegrava-me de que tivssemos podido concretizar os batismos (em realidade, era surpreendente que isso me fizesse sentir to gratificada), mas devia reconhecer 
certa inquietao pelo fato de que se cancelou as bodas da Brianna. Embora no tinha feito maiores comentrios, eu sabia que tanto ela como Roger desejavam ver benta 
sua unio. 
      - Senhora?- Era a maior das meninas McAllister, que se tinha devotado para trocar ao Jemmy; entre dois dedos sustentava delicadamente um objeto comprido e 
viscoso-. encontrei este mianga no fralda do beb. Pode ser de seu marido?
      - Virgem Santa!
      O reaparecimento da cadeia me impressiono, mas um instante de racionalidade corrigiu meu primeiro alarme, ao pensar que Jemmy a tinha tragado. Qualquer objeto 
slido teria demorado vrias horas em percorrer o conduto digestivo, por muito ativo que fora o infante. Pelo visto, tinha deixado cair seu brinquedo pelo peitilho 
de sua camisa, com o que foi parar a sua fralda.
      - me d isso, menina.
      O senhor McAllister agarrou a cadeia com uma leve careta. Depois de tirar um grande leno da cintura de suas calas, limpou-a com esmero, at fazer brilhar 
os elos de prata e um pequeno relgio redondo, com certo tipo de selo. 
      Enquanto observava com severidade esse relgio, resolvi mentalmente dar um bom repreenso ao Roger por permitir que Jemmy ficasse algo na boca. Graas a Deus 
no se desprendeu. 
      - Mas se esse  o pequeno relgio do senhor Caldwell!- Georgina se inclinou para diante, olhando por cima das cabeas de quo gmeos estava amamentando. 
      - Seriamente?- Seu marido entreabriu os olhos para observar o objeto, enquanto se apalpava a camisa em busca dos culos. 
      - Sim, estou segura. Vi-o no domingo, quando pregava. Foi ento quando comearam minhas dores- explicou, voltando-se para mim- e tive que sair antes de que 
ele terminasse. Ao ver que me retirava, deveu pensar que estava abusando de nosso tempo, pois extraiu o relgio do bolso para lhe jogar uma olhada; vi o brilho desse 
adorno que pendura da cadeia. 
      - Isso  um selo, a nighean - informou seu marido, que se tinha plantado uns culos em forma de meia lua na ponte da narz e estava dando voltas ao pequeno 
emblema entre os dedos-. Mas tem razo:  do senhor Caldwell. V?
      Um dedo calejado seguiu o contorno da figura: uma maa, um livro aberto, um sino e uma rvore, sobre um peixe que tinha uma argola na boca. 
      - Isso  da Universidade do Glasgow. O senhor Caldwell  erudito - me disse, com os olhos azuis dilatados por um grande respeito - . Esteve ali para aprender 
a pregar, e que bem o faz! Perdeu-te um bonito final, Georgie - acrescentou, voltando-se para sua esposa. 
      - Hum... Pois por mim, o senhor Caldwell poderia ter arrebentado, pelo pouco que me importava nesses momentos - disse sua esposa de maneira de maneira franco, 
enquanto recolocaba seu dobro carrega para procurar uma posio mais cmoda - . Tampouco me importava que a parteira fora a ndia ou inglesa... OH!, perdoe, senhora 
Fraser.. enquanto soubesse receber a um beb e deter a hemorragia. 
      Murmurei alguma frase modesta, descartando as desculpas de Georgiana a favor de averiguar algo mais sobre os orgenes dessa cadeia. 
      - Dizem que o senhor Caldwell  pregador? - Certa suspeita se agitava no fundo de minha mente
      - OH, sim! O melhor que eu tenha escutado - me assegurou o senhor McAllister - . E me crie que os escutei a todos! O senhor Urmstone  magnfico para os pecados, 
mas j est entrado em anos e se ps um pouco rouco, de modo que deve estar bem diante se quer ouvi-lo. Mas isso  algo perigoso, sabem?,  porque sempre comea com 
os pecados dos que esto diante. 
      - Este beb est faminto, senhora- interveio a menina que tinha ao Jemmy em braos. Isso era evidente por seus alaridos e sua cara vermelha - . Poderamos 
lhe dar um poquito de parritch? 
      Joguei uma olhada ao caldeiro pendurado sobre o fogo; estava fervendo, de modo que a maior parte dos grmenes teriam morrido. Entreguei  menina a colher 
de corno que levava no bolso, com a segurana de que estaria razoavelmente poda. 
      - Muitssimas  obrigado. Agora bem, este senhor Caldwell,  presbiteriano, por acaso?
      O senhor McAllister pareceu surpreso; logo sorriu com toda a cara ante meu perceptividad.
      - Pois sim, claro! O mencionaram, senhora Fraser?
      - Acredito que meu genro tem certa relao com ele - disse, com um tintura de ironia. 
      Georgina comentou, rendo: 
      - Eu diria que seu neto o conhece, sem dvida. - Assinalou com a cabea a cadeia que seu marido tinha na mo -. Os pirralhos dessa idade so como as urracas. 
apoderam-se de quanto coisa brilhante vem.
      -  certo - disse lentamente, contemplando os elos de prata e o relgio que pendurava deles. 
      Isso dava outro aspecto ao assunto. Se Jemmy habia assaltado o bolso do senhor Caldwell, obviamente tinha sido antes de que Jamie planejasse o improvisado 
batismo. Mas Bree e Roger sabiam muito antes que o pai Kenneth tinha sido detido e que suas bodas ficava possivelmente cancelada; teriam tido tempo de sobra para 
fazer outros planos enquanto Jamie e eu nos ocupvamos do Rosamund, Ronnie e outras crises diversas. Tempo de sobra para que Roger fora a falar com o senhor Caldwell, 
o ministro presbiteriano... levando ao Jemmy consigo. 
      Jemmy  estava devorando o porridge com o empecinamiento de uma piranha esfomeada; ainda no podamos nos retirar. Melhor assim, pensei; que Brianna desse a 
seu pai a notcia de que havia bodas, depois de tudo, com sacerdote ou sem ele. 
      Estendi minhas saias para secar a prega molhada; a luz do fogo  arrancou brilhos a meus dois anis. dentro de meu borbulhava uma grande necessidade de rir, 
pensando no que diria Jamie quando se inteirasse; mas a conteve por no explicar aos McAllister o motivo de minha hilaridade. 
      - Posso me levar isso? - disse-lhe em troca ao chefe de famlia, assinalando com a cabea a cadeia de relgio -.  possvel que veja o senhor Caldwell, dentro 
de um momento. 
        
      

      14
      
      Ditosa a noiva sobre a que brilha a lua
      
      Tivemos sorte. No voltou a chover e as nuvens enfraquecidas revelaram uma lua de prata, que se elevava luminosa sobre a costa do Black Mountain; era a luz 
adequada para umas ntimas bodas familiar. 
      Eu j conhecia o David Caldwell, embora s ao me v-lo lembrei dele; era um cavalheiro mido, mas extremamente atrativo e muito pulcro no vestir, apesar de 
levar uma semana acampando a cu aberto. Jamie tambm o conhecia e respeitava.
      Vi que Roger nos olhava; logo se voltou para o Bree. Possivelmente tinha um leve sorriso nas comissuras da boca, ou talvez era s efeito das sombras. Jamie 
exalou com fora pelo nariz e recebeu outra cotovelada. 
      - No do batismo te saiu com a tua - sussurre. 
      Ele levantou um pouco o queixo. Brianna nos olhou, algo nervosa. 
      - No hei dito uma palavra, verdade?
      -  umas bodas crist perfeitamente respeitvel.
      - Acaso disse que no o fora?
      - Pois ponha cara de felicidade, homem! - vaiei. 
      depois de exalar uma vez mais, assumiu uma expresso benvola a que lhe faltava um grau para chegar  imbecilidade absoluta. 
      - Melhor? - perguntou, com os dentes apertados em um sorriso simptico. 
      Duncan Innes, que casualmente se voltou para ns, deu um coice e se girou depressa para murmurar algo a Yocasta, que estava de p perto da fogueira, com seu 
reluzente cabelo branco e com uma atadura sobre os olhos doentes, para proteger os da luz. Ulises, que estava a seu lado, ps-se a peruca em honra  ocasio; era 
o nico que eu via dele, como se pendurasse na escurido por cima do ombro da anci. Quando se girou para ns divisei o leve brilho de seus olhos. 
      -  Quem  esse, Grand-mre?
      Germain, que como de costume tinha escapado da custdia paterna, apareceu perto de meus ps, assinalando curiosamente ao reverendo Caldwell. 
      -  um ministro da Igreja, querido. Tia Bree e tio Roger vo casar se. 
      - Ou qu'on vai " mimistro" ?
      Aspirei fundo, mas Jamie ganhou pela mo. 
      -  uma espcie de padre, mas no um padre como Deus manda. 
      - Padre mau? - Germain observou ao reverendo Caldwell com muito mais interesse. 
      - No, no- intervim - . No  nada mau. S que... Pois ver, ns somos catlicos e os catlicos tm padres, mas tio Roger  presbiteriano. 
      - Ou seja, um herege - colaborou Jamie. 
      - No  um herege, querido. Grand-pre est brincando. Os presbiterianos som...
      O menino no emprestava ateno a minhas explicaes; tinha inclinado a cabea para trs e observava  ao Jamie com fascinao. 
      -  por que Grand-pre est fazendo caretas?
      - Porque estamos muito contentes - explicou ele, com o semblante ainda fixo em um rictus de cordialidade. 
      - Ah! - Imediatamente Germain estirou sua cara, extraordinariamente mvel, em um tosco fac-smile da mesma expresso: um sorriso de fogo ftuo, com os dentes 
apertados e os olhos saltados-. Assim?
      - Sim, querido - disse, com inteno -. Exatamente. 
      Marsali, ao nos ver, piscou e atirou da manga ao Fergus. Ele se voltou entreabrindo os olhos. 
      - Cara de contente, papai! - Germain assinalou seu gigantesco sorriso -. v?
      Fergus passeou o olhar entre sua vergntea e Jamie. A boca lhe contraiu e ps cara de incompreenso; mas, imediatamente, trocou-a por um enorme sorriso de 
insinceridade, cheia de dentes brancos. Marsali lhe deu um chute no tornozelo. Ele fez uma careta, mas o sorriso no vacilou. 
      Ao outro lado do fogo, Brianna e Roger mantinham um bate-papo de ltima hora com o reverendo Caldwell. 
      Ela apertou os lbios, mas lhe curvaram irreprimiblemente para cima. Tremiam-lhe os ombros de risada contida. Senti que Jamie se estremecia a meu lado. 
      O reverendo Caldwell se adiantou, marcando o livro com um dedo no stio devido.
      Pigarreando um pouco, abriu seu livro de oraes. 
      - Amados fiis: reunimo-nos aqui, em presena de Deus...
      Senti que Jamie se relaxava um pouco para ouvir essas palavras. Provavelmente nunca tinha participado de uma cerimnia protestante, a menos que contssemos 
o improvisado batismo que o mesmo Roger tinha celebrado entre os mohawks. Fechando os olhos, elevei uma orao pelo jovem Ian, tal como fazia quando pensava nele. 
      - portanto, recordemos com reverncia que Deus estabeleceu e santificou o matrimnio, pelo bem-estar e a sorte da humanidade. 
      Ao abrir os olhos vi que todas as olhadas se concentravam no Roger e Brianna, que permaneciam de p frente a frente, com as mos entrelaadas. Formavam um 
bonito casal; ambos eram quase da mesma estatura; ela, luminosa; ele, moreno. Embora suas faces no se pareciam absolutamente, ambos tinham os ossos marcados e 
as curvas claras, legado compartilhado do cl  MacKenzie. 
      Joguei uma olhada ao outro lado do fogo, procurando o mesmo parecido de ossos e carne na Yocasta: alta e distinguida, a cara cega absorta na voz do ministro. 
Vi que estendia a mo para pos-la no brao do Duncan. O reverendo Caldwell  se ofereceu gentilmente a celebrar tambm suas bodas, mas Yocasta se negou, pois preferia 
esperasse para uma cerimnia catlica. 
      - depois de tudo no temos pressa, verdade, querido meu? - tinha-lhe perguntado ao Duncan, dirigindo-se a ele com uma exibio de deferncia que no engano 
a ningum. 
      Mesmo assim me pareceu que Duncan parecia mais aliviado que decepcionado pelo adiamento de suas npcias. 
      - Atravs de seus apstolos, Ele ensinou a quem forme esta relao que fomentem a mtua estima e o amor... 
      Duncan havia talher a mo da Yocasta com a sua, em um surpreendente gesto de ternura. Esse no seria um matrimnio por amor, disse-me, mas sim por mtuo afeto. 
      - Encomendo-lhes a ambos ante o grande Deus: se algum de vs no pode unir-se legalmente em matrimnio, confesse-o agora. Pois tenham a segurana de que, sim 
duas pessoas se unem de outra maneira que a permitida pelo Verbo de Deus, Ele no tem que benzer essa unio. 
      O reverendo Caldwell fez uma pausa, passeando um olhar de advertncia entre o Roger e Brianna. Ele moveu apenas a cabea, sem apartar os olhos da cara do Bree. 
Ela sorriu um pouco a modo de resposta. O reverendo pigarreou para continuar. 
      ao redor da fogueira tinha desaparecido o ar de muda hilaridade; j no se ouvia outra coisa que fica voz do reverendo e o crepitar das chamas. 
      - Roger Jeremiah, toma a esta mulher como esposa, e juras am-la e proteg-la, com responsabilidade e servio, com f e ternura, conviver com ela e apreci-la 
conforme o ordena Deus, no santo vnculo do matrimnio?
      - Sim, juro-o- disse Roger, com voz grave e sensual. 
      Ouvi um fundo suspiro a minha direita; Marsali tinha apoiado a cabea no ombro do Fergus, com expresso sonhadora. Ele se girou um pouco para beij-la na frente. 
Logo sua cabea moria se recostou contra a brancura do leno que cobria o cabelo de sua esposa. 
      - Sim, juro-o - disse Brianna com claridade, levantando o queixo para olhar ao Roger de frente, em resposta  pergunta do ministro. 
      O senhor Caldwell percorreu o crculo com um olhar benvolo; a luz do fogo faiscava em seus culos. 
      - Quem entrega a esta mulher para despos-la com este homem?
      produziu-se uma muito breve pausa; logo senti que Jamie dava um leve coice, pego por surpresa. Apertei-lhe o brao; a luz do fogo cintilou em meu anel de ouro. 
      - OH!, eu, claro est - disse. 
      Brianna se voltou a lhe sorrir, com os olhos penumbrosos de amor. 
      Lhe devolveu o sorriso; logo piscou, pigarreando, e me espremeu a mo com fora. 
      Eu tambm senti um n na garganta para ouvir os votos, recordando meus dois bodas. E Yocasta, que se tinha casado trs vezes? Que lembranas percebia nessas 
palavras?
      - Eu, Roger Jeremiah, aceito-te, Brianna Ellen, como legtima algema... 
      A luz da lembrana brilhava em quase todas as caras reunidas em torno do fogo. 
      - Na abundncia e na escassez...
      - Na alegria e na dor...
      - Na sade e a enfermidade...
      Lizzie estava em xtase, com os olhos muito abertos ao mistrio que se realizava diante dela. Quando chegaria seu turno de fazer to assustadoras promessas 
ante suas testemunhas?
      Jamie me agarrou a mo direita, enlaando seus dedos com meus, e a prata de meu anel lanou um brilho vermelho  luz das chamas. Ao olh-lo aos olhos vi neles 
a mesma promessa que nos mios: 
      - Enquanto ambos vivamos. 
      
      
      

      15
      
      As chamas da declarao
      
      
      Abaixo resplandecia a grande fogueira, entre estalos de lenha molhada que ressonavam como pistoletazos contra a montanha; mas eram disparos longnquos, quase 
desapercebidos no bulcio dos festejos.
      em que pese a sua deciso de que no a casasse o reverendo Caldwell, Yocasta tinha servido generosamente um abundante festim de bodas, em honra do Roger e 
Brianna. A um lado do fogo, Roger tocava um violo emprestado, dando uma serenata ao Bree ante um crculo extasiado. Mais perto, Jamie conversava com alguns amigos, 
sentado junto ao Duncan e sua tia. 
      - Senhora?- Ulises se materializou a meu lado, de librea e bandeja em mo, to resplandecente como se estivesse no salo do River Run em lugar de uma ladeira 
enlameada. 
      - Obrigado. - Aceitei uma taa cheia de algo que resultou ser brandy. E muito bom brandy. Bebi um sorvo, deixando que me impregnasse no nariz. Mas antes de 
que pudesse aspirar muito mais, tomei conscincia de uma sbita pausa no animado festejo.
      Jamie percorreu o crculo com os olhos, cruzando olhadas; logo se levantou para me oferecer o brao. Embora um pouco surpreendida, apressei-me a deixar a taa 
na bandeja do Ulises e; depois de me alisar o cabelo para trs, ajustei-me o leno e fui ocupar meu stio a seu lado.
      - Thig a seo, a bhean uasa - disse, sonrindome. " Venham, senhora" . Logo elevou o queixo, convocando aos outros. Roger deixou seu violo imediatamente e 
alargou uma mo para o Bree. 
      - Thig a seo, a bhean - disse, muito sorridente. 
      Com uma expresso de surpresa, ela ficou de p, com o Jemmy nos braos. 
      Jamie esperava, imvel. Pouco a pouco os outros se levantaram, sacudindo-a pinaza e a areia de pregas e fondillos, entre risadas e sussurros intrigados. Tambm 
os bailarinos interromperam seus giros para ver do que se tratava; a msica dos violinos morreu no revo da curiosidade. 
      Jamie me guiou pelo caminho escuro, para as chamas que saltavam da grande fogueira; os outros nos seguiram entre um murmrio de especulaes. Ele se deteve 
esperar no bordo do claro principal. Umas figuras escuras se moveram entre as sombras e a silhueta de um homem se recortou ante o fogo, com os braos em alto. 
      - Aqui esto os Menzie! - anunciou o homem. E jogou no fogo o ramo que levava. elevaram-se vitores apenas audveis entre aqueles de seu cl que estavam ao 
alcance de sua voz. 
      Outro ocupou seu lugar: MacBean, e outro mais : Ogilvie. Logo nos tocou o turno. 
      Jamie se adiantou ele sozinho para a luz das chamas. 
      - Reunimo-nos aqui para dar a bem-vinda a velhos amigos- disse em galico-. E para conhecer outros, com a esperana de que possam unir-se a ns para forjar 
uma vida nova nesta nova terra. - Sua voz era grave e chegava longe; cessaram os ltimos retalhos de conversao, enquanto a gente empurrava e se apinhava em torno 
da fogueira, em silncio, estirando o pescoo para escutar -. Todos sofremos muitas privaes no caminho at aqui. 
      Girou lentamente, percorrendo as caras que rodeavam o fogo. Ali estavam muitos dos homens do Ardsmuir: vi os irmos Lindsay, feios como um trio de sapos; os 
olhos de raposa do Ronnie Sinclair e seu cabelo cor gengibre, levantando em chifres; as faces de  moeda romana do Robin McGillivray. Todos olhavam das sombras, 
as caras cruzadas pelo fogo. 
      - Muitos dos nossos morreram em combate - disse, com voz apenas audvel sobre o rumor do fogo -. Muitos pereceram queimados. Outros, por fome. Outros, no mar, 
por feridas ou enfermidades. - Fez uma pausa-. Muitos morreram de pena. 
      Olhou um momento mais  frente do crculo imaginado; pensei que talvez procurava o rosto do Abel McLennan. Ento elevou sua taa e a mostrou em uma saudao. 
      - Slinte! - murmuraram dez ou doze vozes, levantando-se como o vento. 
      - Slinte! - repetiu ele. Logo inclinou a taa para que algo do brandy casse nas chamas, onde vaiou e ardeu azul por um instante. 
      Baixou a taa e fez uma pausa, com a cabea inclinada. Logo elevou o recipiente para o Archie Hayes; inescrutvel sua cara redonda, o fogo cintilava em seu 
gorget de praia e no broche de seu pai. 
      - Embora choremos a perda de quem morreu, tambm devemos lhes render coleto a  todos vocs, os que lutaram e sofreram com igual valor... e sobreviveram. 
      - Slinte! - surgiu a saudao, mais potente esta vez, com o trovejar de vozes masculinas. 
      Jamie fechou os olhos; quando voltou a abri-los olhava a Brianna, que estava de p junto ao Lizzie e Marsali, com o Jemmy em braos. A grosseria e a fora 
de suas faces contrastava com a inocncia daquelas redondas caras infantis e a suavidade das jovens mes, embora em sua mesma delicadeza a luz do fogo destacava 
as nervuras de granito escocs de seus ossos. 
      - Rendemos tributo a nossas mulheres - disse, elevando a taa sucessivamente para a Brianna e Marsali e logo fazia mim. Um breve sorriso lhe tocou os lbios 
-. Pois elas so nossa fortaleza. E nossa vingana contra os inimigos ser, ao final, a vingana do bero. Slinte!
      Entre os gritos da multido, bebeu a taa de madeira at o sedimento e a jogou no fogo, onde ficou um momento, escura e redonda; logo estalou em uma labareda 
resplandecente. 
      - Thig a seo! - convocou, alargando a mo direita para meu - . Thig a seo, a Shorcha, Nighean Eanruig, neart mo chridhe. - " Vem mim - dizia -, vem mim, 
Claire, filha do Henry, fora de meu corao." 
      Quase sem sentir os ps nem a aqueles com os que tropeava ao caminhar, dirigi-me para ele e estreitei sua mo, fria, mas forte entre meus dedos. Vi-o girar 
a cabea. Procuraria o Bree? Mas no; alargou a outra emano para o Roger. 
      - Seja vi mo lmh, Roger an t'ranaiche, MAC Jeremiah MAC Choinnich! - " Ponha junto a minha mo, Roger, o cantor, filho do Jeremiah MacKenzie."  Roger permaneceu 
imvel, os olhos escuros fixos no Jamie; logo avanou para ele, como sonmbulo. A multido ainda estava excitada, mas os gritos se apagaram e a gente estirava o 
pescoo para escutar o que se dizia. 
      - me acompanhe ao combate- disse meu marido em galico, sem apartar os olhos do Roger com a mo esquerda estendida. Falava com lentido e claridade, para fazer-se 
entender -. Sei um  escudo para minha famlia... e para a tua, filho de minha casa. 
      De sbito a expresso do Roger pareceu dissolver-se, como um rosto visto na gua quando se arroja uma pedra. Logo se solidificou uma vez mais e ele estreitou 
com fora a mo oferecida. 
      Ento Jamie se voltou para a multido e iniciou a cerimnia. Era algo que eu lhe tinha visto fazer em Esccia, muitos anos atrs: a identificao e convite 
formal dos arrendatrios por parte do senhor; freqentemente se realizava no dia de pagamento trimestre ou depois da colheita. Aqui e l as caras se acenderam ao 
reconhec-la; muitos desses montanheses conheciam o costume, embora at essa noite no a tivessem visto no novo continente. 
      - Vem mim, Geordie Chisholm, filho do Walter, filho do Connaught, o Vermelho!
      - Aconpenme, ao Choinneich, Evan, Murdo, filhos do Alexander Lindsay, da Garganta!. 
      - A meu lado, Joseph Wemyss, filho do Donald, filho do Robert!
      Sorri ao ver o confundido senhor Wemyss, extremamente agradado pelo fato de que lhe inclura publicamente, com a cabea em alto e o cabelo loiro revolto pelo 
vento da grande fogueira. 
      - junto a mim, Josiah, o Caador!
      Estava Josiah Beardsley ali? Sim, em efeito; uma silhueta escura e ligeira saiu das sombras para ocupar um lugar no grupo que flanqueava ao Jamie. Procurei 
seu olhar e lhe sorri; ele apartou os olhos, pressuroso, mas um sorriso sobressaltado ficou nos lbios, como se a tivesse esquecido ali.
      Quando a primeira parte da cerimnia concluiu, o grupo era impressionante: perto de quarenta homens, agrupados cotovelo a cotovelo e to acesos pelo orgulho 
como pelo usque. Vi que Roger intercambiava um largo olhar com a Brianna, que lhe sorria do outro lado do fogo, radiante. Ela inclinou a cabea para sussurrar algo 
ao Jemmy, submerso em suas mantas e dormitado em seus braos, e lhe elevou uma manecita lassa para agit-la para o Roger. Ele riu. 
      - ... Air mo mhionnan... 
      Em minha distrao me tinha perdido a orao final do Jamie, da que s captei as ltimas palavras. O que disse, fora o que fosse, deveu contar com a aprovao 
geral, pois houve um grave rumor de solene assentimento entre os homens que nos rodeavam. Logo, um instante de silncio. 
      Ele me soltou a mo e se agacho para recolher um ramo do cho. depois de acend-la no fogo, sustentou-a em alto e a jogou para cima, flamejando. O ramo deu 
vrios voltas enquanto caa, diretamente ao corao do fogo. 
      - Aqui esto os Fraser da Colina! - bramou. E o claro estalou em um grande aclamo. 
      Enquanto ascendamos novamente a costa para reatar os festejos interrompidos, encontrei-me junto ao Roger, que cantarolava pelo sob uma toada alegre. Apoiei-lhe 
uma mo na manga e ele me olhou de acima, sorridente. 
      - Parabns - lhe disse, lhe devolvendo o sorriso - . Bem-vindo  famlia, filho da casa. 
      Ele estirou o sorriso at faz-la enorme. 
      - Obrigado - disse - . Mame. 
      Ao chegar a um plano caminhamos juntos sem falar. De repente disse, em tom muito diferente: 
      - foi... um pouco muito especial, verdade?
      No soube se o de especial se referia ao histrico ou ao pessoal. Em qualquer dos dois casos tinha razo, de modo que assenti. 
      - Mas no ouvi a ltima parte - disse - . E no sei o que significa earbsachd. sabe voc?
      - OH, sim!
      Ali, entre as fogueiras, estvamos s escuras. Eu no via dele mais que uma sombra mais escura contra o negro das mantas e as rvores. Mas em sua voz havia 
uma nota estranha. Pigarreou. 
      -  um juramento... em certo modo. Ele, Jamie, fez-nos um juramento, a sua famlia, a seus arrendatrios. Respaldo, amparo, esse tipo de coisas. 
      - Sim? - exclamei, um pouco sentida saudades - .  E por que diz " em certo modo" ?
      - Pois... - Por um momento guardou silncio, obviamente ordenando suas frases - . Mais que um simples juramento  uma palavra de honra- explicou, cuidadoso 
- . Diz-se que o earbsachd foi em outros tempos a caracterstica distintiva dos MacCrimmon do Skye; basicamente, significava que a palavra dada uma vez se devia 
cumprir infalivelmente, qualquer que fosse o custo. Sim um MacCrimmon prometia fazer algo - se deteve para tomar flego -, cumpriria-o embora no intento devesse 
morrer na fogueira. 
      Agarrou-me pelo cotovelo, com surpreendente firmeza. 
      - Vamos - disse pelo baixo -. Me permita que te ajude. O estou acostumado a est escorregadio.  
      
      

      16
      
      A noite de nossas bodas
      
              Cantar para mim, Roger?
              Estava de p na entrada da loja que lhes tinham emprestado, olhando para fora.
      -Sempre canto para ti, tesouro-disse ele.
              Aproximou-se por detrs, apoiando-a de costas contra si, de modo que a cabea da Brianna descansava em seu ombro, fresco e vivo o cabelo contra sua 
cara. Curvou um brao em volto de sua cintura e inclinou a cabea para lhe acariciar com seu nariz a curva da orelha.
      -De qualquer maneira que sa-susurr-. No importa que voc esteja ou no para me escutar. Sempre canto para ti.
              Ento ela girou entre seus braos, com um ronrono de sorte, e procurou sua boca, que tinha sabor de carne assada e veio com especiarias.
              A chuva repicava contra a lona e o frio do outono avanado subia do cho, a seu redor. Aquela primeira vez, o ar cheirava a lpulos e atoleiros, e 
o arco nupcial tinha um terrestre aroma a feno e burros de carga. Agora o ar vibrava de pinheiros e zimbros, especiado com a fumaa das fogueiras em brasas...e um 
sotaque vago e adocicado a fraldas sujos.
              Entretanto, ela estava uma vez mais em seus braos, luz e sombras, escondida a cara, lustroso o corpo. Nnaquele tempo naquele tempo a tinha encontrado 
lquida e fundida, mida do vero. Agora sua pele estava fria como o mrmore, salvo onde ele a tocava...e mesmo assim o vero perdurava na palma de sua mo, ali 
onde entrava em contato com ela, doce e untuosa, carregada com os segredos de uma noite calorosa e escura. Tinha sido o adequado, disse-se, que esses votos se pronunciaram 
ao ar livre, como os primeiros: parte do vento e a terra, do fogo e a gua.
      -Amo-murmur-te ela contra sua boca.
              E Roger apanhou o lbio entre os dentes, muito comovido para responder ainda a essas palavras.
              Nnaquele tempo, naquele tempo, como agora, houve palavras entre eles. Foram as mesmas. E ele as tinha pronunciado com tanta seriedade como agora. No 
obstante era distinto.
              A primeira vez, aquelas palavras tinham sido para ela sozinha. Embora o fez  vista de Deus, Ele foi discreto; manteve-se longe, voltando as costas 
 nudez de ambos.
              Entretanto, agora as tinha pronunciado ante o fulgor de uma fogueira, ante o rosto de Deus e do mundo, sua gente e a dela. Seu corao pertencia ao 
Bree, junto com tudo que possua. Mas j no se tratava dele e ela, do de um ou outra. Os votos estavam pronunciados, seu anel no dedo, o vnculo estabelecido e 
presenciado. Eram um s corpo.
      -Necessito...-disse ela, e, sem terminar, tocou-se o peito-. Espera um momento, quer?
              Claire lhe tinha dado a comida ao menino enquanto Brianna ia fazer sua proposta ao reverendo Caldwell. Cheio a arrebentar de porridge e compota de 
pssego, logo que puderam despert-lo para que mamasse um pouco, antes de cair novamente na sonolncia; Lizzie o levou, com a tripita redonda e tensa como um tambor. 
Isso era necessrio para que eles tivessem intimidade; aturdido no estupor do gluto, era difcil que o pequeno despertasse antes do amanhecer. Mas o preo era o 
leite no consumido.
              Brianna, pudorosamente de costas ao Roger e com um arisaid sobre os ombros para proteger do frio, agarrou um peito na palma da mo e apertou uma taa 
sob o mamilo, para receber a destilao. ouvia-se o vaio do leite, diminuta campainha contra o metal.
              Embora lhe dava pena afogar esse som que lhe resultava ertico, Roger agarrou o violo e aplicou o polegar s cordas, a mo aos trastes. Em vez de 
rasguear ou tocar acordes, pulsou arpejos, pequenas vozes que ecoassem  sua; o palpitar de uma corda ia marcando a melodia.
              Uma cano de amor, sem dvida. Uma das mais antigas, em galico. Embora ela no conhecesse algumas palavras, provavelmente captaria o sentido.
      
      Na noite de nossas bodas
      Irei saltando a ti com presentes,
      na noite de nossas bodas...
      
              Fechou os olhos, vendo na memria o que a noite agora ocultava. Seus mamilos tinham a cor das ameixas amadurecidas e o tamanho das cerejas. Roger recordava 
vividamente a sensao dos ter na boca. Deles tinha mamado uma vez, fazia muito, antes de que chegasse Jemmy. Mas j no.
      
      Ter cem salmes de prata...
      cem peles de texugo...
      
              Nunca lhe pedia que o fizesse, nunca o rechaava...No obstante, por sua maneira de aspirar quando lhe tocava os peitos era evidente que se estava 
contendo para no fazer uma careta. 
              Era s porque lhe doam? Ou no confiava em que ele fora suave?
              Afugentou o pensamento afogando-o em uma pequena cascata de notas lquidas como um salto de gua.
              " Talvez no seja por ti- sussurrou a voz, negando-se tercamente a deixar-se distrair-. Talvez seja por ele, por algo que lhe fez" 
              " Vete ao diabo" , pensou ele, sucintamente, marcando cada palavra com uma corda fortemente pulsada. Stephen Bonnet no teria capacidade em seu leito 
de bodas. Nem pensar.
              Apoiou uma mo contra as cordas para as sossegar por um instante e, enquanto ela se tirava o arisaid dos ombros, recomeou em ingls. Uma cano especial, 
s para eles dois. Ignorava se algum podia ouvi-lo, mas no tinha importncia. Ela ficou de p para tir-la camisa, em tanto os dedos do Roger tocavam a tranqila 
introduo do Yesterday, dos Beatles.
              Ouviu-a rir uma vez; logo, suspirar. E o fio tambm sussurrou contra sua pele enquanto caa.
              Lhe aproximou por atrs, nua; a suave melancolia da cano ia enchendo a escurido. Acariciou-lhe o cabelo, balanando-se. morria por girar-se e apoderar-se 
dela, mas conteve o impulso, acentuando a espera. Inclinando a cabea para as cordas, cantou at que todo pensamento desapareceu dele, at que s ficaram seu corpo 
e o dela. No teria podido dizer em que momento a mo do Bree cobriu a seu contrrio os trastes. Ento se levantou para voltar-se para ela, ainda loja de comestveis 
de msica e de amor, suave, forte e puro na escurido.
      
      
              Brianna jazia imvel na penumbra, sentindo o trovejar de seu corao palpitando lentamente em seus ouvidos. O batimento do corao se repetia no pulso 
de se pescoo, nas bonecas, os peitos, o ventre. Tinha perdido a noo de seus limites; pouco a pouco retornou a sensao de membros e dedos, cabea e tronco, de 
espao ocupado. Moveu o nico dedo pego entre suas pernas; ao liber-lo, o ltimo dos impactos cosquilleantes lhe correu pelas coxas.
              Aspirou fundo, lentamente, escutando.
              Ele seguia respirando larga e regularmente; graas a Deus continuava dormindo. Ela tinha atuado com cautela, sem mover mais que a gema de um dedo, 
mas a sacudida final do clmax foi tal que seus quadris deram um salto, enquanto o ventre se estremecia e os tales se cravavam no jergn, com um forte sussurro 
de palha.
              O esforo de mover-se era inconcebvel, mas sua convulso final tinha retirado o edredom dos ombros de seu companheiro; a pele de suas costas ficava 
 vista, nua e suave, escura em contraste com o tecido claro. O oco quente que a rodeava era abrigado e perfeito, mas no podia desfrut-lo enquanto ele jazia exposto 
ao ar glacial da meia-noite. Bree detectou um brilho molhado na curva alta de seu ma do rosto.
              depois de evocar a noo de ossos e msculos, achou um neurnio em condies de funcionar e lhe ordenou que disparasse. Encantada uma vez mais, tendeu-se 
de flanco, de cara a ele, e o cobriu brandamente com o edredom at as orelhas. Ele se removeu um pouco, murmurando algo; lhe acariciou o cabelo negro, revolto, e 
o viu sorrir apenas, entreabrindo os olhos com o olhar vcuo de quem s v em sonhos. Logo voltaram a fechar-se; depois de um comprido suspiro, ele voltou a ficar 
dormido.
      -Amo-te- sussurrou-lhe, cheia de ternura.
              Uma brisa fria lhe arrepiou o plo do brao; ento voltou a p-lo sob os cobertores, ousando a mo ligeira no traseiro do Roger.
              Seu contato no era nenhuma novidade, mas mesmo assim lhe apaixonava por sua perfeita redondez, seu plo encaracolado e spero. Uma vaga lembrana 
de seu gozo solitrio a insistiu a faz-lo outra vez, a introduzir sua mo livre entre as pernas; mas a deteve o simples esgotamento; deixou os dedos lassos cobrindo 
a carne torcida; um deles, lnguido, seguiu o rastro viscoso.
              Tinha albergado a esperana de que essa noite fora distinta. Sem o perigo constante de despertar ao Jemmy, sem pressas, levados pela emoo dos votos 
pronunciados, talvez...Mas foi como sempre.
              No era por falta de excitao. Pelo contrrio: cada movimento, cada contato lhe imprimia nos nervos da pele, nos sulcos da boca e a memria, afogando-a 
com aromas, marcando-a a fogo com suas sensaes. Mas por maravilhoso que fora o ato de amor, perdurava sempre uma estranha sensao de distncia, uma barreira que 
ela no podia atravessar.
              Assim se encontrou uma vez mais revivendo, enquanto ele dormia, cada momento da paixo que acabavam de compartilhar...e na lembrana pde, uma vez 
mais, ceder finalmente a ela.
              Talvez era porque o amava muito; cuidava tanto de lhe dar agradar, que no sabia ocupar do dele. A satisfao que sentia ao o ter nos braos, perdido 
e gemendo, era muito maior que o simples gozo fsico do clmax. Entretanto, baixo isso havia algo mais tenebroso: uma peculiar sensao de triunfo, como se tivesse 
ganho uma luta entre os dois, nunca declarada nem reconhecida.
              Com um suspiro, apoiou a frente contra a curva do ombro do Roger, desfrutando de seu aroma: um almscar forte e amargo.
              Uma vez mais baixou a mo, com cuidado para no despert-lo, e deslizou para dentro um dedo para comprovar se tudo estava bem. O trocito de esponja 
seguia em seu stio, empapada em azeite de atanasia; sua presena frgil e aromtica custodiava a entrada de seu ventre.
              Aproximou-se um pouco mais. Ele, inconscientemente, girou o corpo pela metade para lhe dar capacidade, envolvendo-a imediatamente com seu reconfortante 
calor. Sua mo procurou provas, como um ave que voasse s cegas, lhe roando o quadril e o ventre, em busca de um stio onde descansar. Ela a agarrou entre as suas 
para acolh-la sob seu queixo. Quando beijou um daqueles ndulos, grandes e speros, ele exalou um profundo suspiro e relaxou a mo. 
              Ento se acomodou melhor contra o corpo do Roger, experimentando consolo e espera.
              Eram os primeiros dias, disse-se. Tinham toda a vida por diante. J chegaria, sem dvida, o tempo de render-se.
      
      
      

      17
      
      A fogueira do vigia
      
      De onde dormiam, atravs de um oco entre as rochas, podia ver a fogueira do vigia que ardia ante a loja do Hayes. A grande fogueira da congregao se reduziu 
a brasas, mas essa fogueira pequena ardia sem pausa, como uma estrela contra a noite fria. de vez em quando, uma silhueta escura, com saia escocesa, levantava-se 
para atend-la; e, depois de recortar-se contra seu esplendor, voltava a esfumar-se na noite.
              Tinha comeado a respirar com mais lentido, relaxando todos os msculos do corpo. No porque tentasse dormir; o sonho estava longe e ele no tinha 
inteno de busc-lo.
              Tampouco era por enganar ao Claire, lhe fazendo acreditar que estava dormido. To perto de seu corpo e de sua mente como estava, ela saberia insone. 
No: era s por lhe dar um sinal, um engano assumido que a liberasse de lhe emprestar ateno. Assim ela poderia dormir, sabendo-o ocupado dentro da cpsula de sua 
mente, sem exigncias imediatas que ela devesse satisfazer.
              Um golpe de vento trouxe de acima algumas nota musicais; gaita e violino. Os escravos da Yocasta, que no estavam dispostos a abandonar essa estranha 
celebrao pela necessidade de dormir ou os imperativos do clima.
              O fraco gemido de um beb. Jemmy? No: provinha de atrs. A pequena Joan, pois. E a voz do Marsali, grave e doce, cantando em francs.
      -...Alouette, gentil Alouette...
              Ali, um bonito som que ele estava esperando: pisadas ao outro lado das rochas que bordeaban seu santurio familiar. Rpidas e ligeiras, costa abaixo. 
Aguardou com os olhos abertos. Poucos momentos depois lhe chegou o fraco alto de um sentinela apostado perto da loja. Abaixo a luz do fogo no mostrou nenhuma silhueta, 
mas a lapela da loja se agitou, deixou passo e voltou a cair, invisvel.
              Tal como ele pensava, ento: havia fortes sentimentos de hostilidade contra os responsveis pela revolta. No se interpretava como uma traio aos 
amigos, mas sim como a necessria ao de entregar aos criminosos para proteger a quem preferia respeitar a lei.
      -J'ante plumerai a tte...
              Lhe ocorreu perguntar-se por que freqentemente as canes para meninos eram horripilantes. A mesma Brianna, que provinha de uma poca supostamente 
mais aprazvel, cantava ao pequeno Jem historia de mortes terrorficas e trgicas perdas, tudo com uma expresso to tenra como a Virgem. Esses versos que falavam 
da filha do mineiro, que se afogou entre seus patitos...
              Perversamente, perguntou-se que coisas horrveis tinha includo a Santa Me em seu repertrio de canes de bero; a julgar pela Bblia, a Terra Santa 
no tinha sido mais pacfica que a Frana ou Esccia.
              Teria se feito o sinal da cruz como penitncia pela idia, mas Claire dormia sobre seu brao direito.
      -Atuaram mau?- A voz do Claire surgiu brandamente sob seu queixo, sobressaltando-o.
      -Quais?- Inclinou a cabea para ela para beijar a densa suavidade de seus cachos. Seu cabelo cheirava a fumaa de lenha e a um aroma spero e claro: o dos 
bagos de zimbro.
      -Os homens do Hillsborough.
      -Sim, acredito que sim.
      -O que teria feito voc?
              Ele suspirou, encolhendo um s ombro. 
      -O que posso dizer? Se eu tambm tivesse sido enganado, sem esperanas de ressarcimento, talvez teria elevado a mo contra o responsvel. Mas o que se fez 
l...j o ouviste. Casas derrubadas e incendiadas, homens que foram tirados a fora e deprimidos a golpes, s pelo cargo que desempenhavam...No, Sassenach; no 
sei que teria feito eu, mas isso no.
              Ela girou um pouco a cabea, lhe deixando ver a curva alta de seu ma do rosto, emoldurado de luz, e a contrao do msculo que passava por diante 
de sua orelha: estava sonriendo.
      -Isso pensava eu. No imagino formando parte de uma turfa.
              Lhe beijou a orelha para no responder diretamente. Por sua parte, era-lhe muito fcil imaginar-se assim. Isso o assustava. Conhecia muito bem a fora 
que havia em algo assim.
              Um escocs das Terras Altas era por si s um guerreiro; mas o mais capitalista dos homens no passava de ser um homem.
      -E se no fora um homem quem te enganasse? Se fosse a Coroa ou a Corte? No uma pessoa, a no ser uma instituio.
              Ele compreendeu onde queria lev-lo. Rodeou seu brao em volto dela; o flego do Claire lhe esquentava os ndulos da mo, curvada sob seu queixo.
      -No  assim. Aqui no. Agora no.
              Os bagunceiros tinham atacado como resposta a crmenes cometidos por homens, por indivduos; o preo desses crmenes se podia pagar com sangue, mas 
no se pagava com uma guerra. Ainda no.
      -No-confirmou ela-. Mas assim ser.
      -Agora no- repetiu ele.
              Tinha a folha de papel bem oculta em seus alforjas, com sua detestvel convocatria. Devia atender esse assunto quanto antes, mas por essa noite fingiria 
que no estava ali. Uma ltima noite de paz, com sua esposa nos braos e sua famlia perto.
              Outra sombra junto ao fogo. Outra voz de alto lanada pelo sentinela. Um mais que cruzava a soleira dos traidores.
      -E eles, fazem mau?- Claire assinalou a loja de abaixo com uma leve inclinao de cabea-. Os que vo denunciar a seus conhecidos?
      -Sim- disse ele, depois de um momento-. Eles tambm fazem mau.
              A turfa pode mandar, mas so os indivduos os que pagam o preo do fato. Parte desse preo era essa ruptura da lealdade, o enfrentamento entre vizinhos, 
onde o medo era um lao corredio que se apertava at no deixar flego de misericrdia nem de perdo.
              Estreitou ao Claire contra si, curvando a mo livre contra a parte baixa de seu ventre. Ela suspirou com um sotaque de dor fsica e se acomodou tambm, 
aninhando o traseiro o tigela de suas coxas. Jamie sentiu que comeava a fuso ao relaxar-se ela; era esse estranho mesclar-se de corpos.
              Ao princpio ocorria s quando a possua, e somente ao terminar. Depois, cada vez com mais freqncia, at que o mero contato de sua mo foi a um tempo 
convite e realizao, uma entrega inevitvel, oferecida e aceita. de vez em quando resistia, s para comprovar que era possvel, pois de repente temia perder-se 
a si mesmo. 
              Confiava em que era o correto. Dizia-o a Bblia: " Sero uma s carne"  e " O que Deus uniu, no o separe o homem" . Jamie tinha sobrevivido a uma 
separao, mas no poderia passar por outra e continuar vivendo.
              Os sentinelas tinham posto um abrigo de lona perto da fogueira, para proteger-se da chuva. Mas a gua levada pelo vento fazia que os ramos chispassem, 
iluminando o tecido claro com uma piscada que palpitava como um corao.
              Jamie no temia morrer com ela, por fogo ou de qualquer outra maneira; o que temia era viver sem ela.
              Trocou o vento, levando consigo quase inaudveis risadas da pequena loja onde dormiam (ou no) os recm casados. Ele sorriu para si para as ouvir. 
S cabia esperar que sua filha encontrasse no matrimnio um gozo to grande como o seu. Mas at o momento as coisas foram bem. Ao moo lhe iluminava a cara quando 
a via.
      -O que far?- perguntou Claire. Suas palavras quase se perderam no repico da chuva.
      -O que seja preciso.
              No era resposta, mas no cabia outra.
              No havia mundo algum alm desse pequeno espao, disse-se Jamie. Esccia tinha desaparecido; as colnias estavam em marcha. Pelo que se morava, ele 
s tinha uma vaga idia pelas coisas que Brianna lhe contava. A nica realidade era a mulher que tinha nos braos, seus filhos e netos, seus arrendatrios e serventes. 
Esses eram os dons que Deus lhe tinha entregue para que os albergasse e protegesse.
              Estava-se excitando pelo mero hbito do contato ntimo; seu membro, ao erguer-se, ficou incmodamente apanhado. Desejava-a, desejava-a desde por volta 
de vrios dias; embora tinha tido que adiar o impulso no agitao da congregao. A dor surda que sentia nos testculo era um eco do que ela devia sentir no ventre.
              Alguma vez a havia posedo durante a regra, quando os dois se desejavam muito para esperar. Era sujo e perturbador, mas tambm excitante; deixava-o 
com uma vaga sensao de vergonha, no de tudo desagradvel. Embora no fora um bom momento nem estivessem em bom lugar, a lembrana de outros momentos e outros 
lugares o obrigou a trocar de posio, apartando-se dela para no incomod-la com a evidncia fsica de seus pensamentos.
              No obstante, o que sentia agora no era lascvia, nem sequer a necessidade de companhia anmica. Queria cobri-la com seu corpo, possui-la, pois desse 
modo podia fingir que ela estava a salvo.        
              Havia-se posto rgido, involuntariamente contrado por esses pensamentos. Claire estirou uma mo para trs e a apoiou sobre sua perna; ali ficou durante 
um momento, para logo estend-la brandamente mais acima, em uma busca dormitada.                Lhe inclinou a cabea para lhe aproximar os lbios ao ouvido. Disse 
o que pensava sem pens-lo.
      -Nada poder te fazer danifico enquanto haja flego em meu corpo, a nighean donn. Nada.
      -Sei- disse ela.
              Seus membros se afrouxaram pouco a pouco; sua respirao se fez mais tranqila e a suave redondez do ventre se avultou contra a palma do Jamie, enquanto 
se afundava no sonho. Sua mo permaneceu onde estava, cobrindo-o. 
              Jamie seguia tenso e acordado, muito depois de que a chuva tivesse apagado a fogueira do sentinela.
      
      
      

      
      SEGUNDA PARTE
      
      A chamada do chefe
      
      18
      
      Nada h como o lar
      
      Gideon estirou a cabea como uma vbora, dirigindo a  perna do cavaleiro que ia diante.
      -Seja!- Jamie atirou da cabea do grande baio antes de que pudesse morder-. Maldito filho de rameira- murmurou pelo baixo.
              O comentrio foi captado pelo Geordie Chisholm; como ignorava que se livrou por pouco dos dentes do Gideon, olhou por cima de seu ombro, sobressaltado. 
Jamie pediu desculpas com um sorriso e aulou ao cavalo para que deixasse atrs  mula do outro.
              Passou junto  Brianna e Marsali, que foram no centro da coluna, ao trote lento; quando deixou atrs ao Claire e Roger,  cabea do grupo, ia a tal 
velocidade que s pde fazer um gesto com o chapu para saud-los.
      -A mhic an dhiobhail- disse, inclinando-se para o pescoo do animal, enquanto se plantava novamente o chapu-.  mais enrgico do que te convm, sem mencionar 
o que me convm . Vejamos quanto resiste a campo aberto, quer?
              O que esse condenado precisava era terreno plano, onde Jamie pudesse faz-lo galopar at lhe baixar as fumaas e trazer o de volta soprando. Posto 
que no havia um stio plano em trinta quilmetros  redonda, teria que conformar-se com o que havia.
              Recolheu as rdeas e, estalando a lngua, cravou-lhe os tales nas costelas. O cavalo se lanou  carga colina acima, como se o tivessem disparado 
de um canho.
              Gideon estava bem alimentado; era um animal resistente e de ossos grandes; Jamie o tinha comprado justamente por isso. Alm disso era indcil e tinha 
mau carter, razo pela qual no havia flanco muito. Mesmo assim, o preo foi superior ao que Fraser podia pagar sem ter que fazer um esforo.
              Depois de meia hora de esquivar ramos baixos, cruzar arroios e galopar costa acima por todas quo pendentes Jamie lhe assinalou, Gideon estava, se 
no precisamente amigvel, ao menos o bastante exausto para deixar-se dirigir. Jamie estava empapado at as coxas, machucado, sangrando por cinco ou seis arranhes 
e ofegando quase tanto como o cavalo. No obstante, ainda se mantinha na cadeira e conservava o mando.
              Dirigindo a cabea do cavalo para o sol poente, voltou a estalar a lngua.
      -Vamos- disse-. Voltemos para casa.
              Embora se tinham esforado muito, dada a forma escarpada da terra no haviam talher tanta distncia para perder de tudo. Jamie apontou a cabea do 
Gideon para cima e, um quarto de hora depois, chegaram a uma pequena colina de reconheceu. 
              Avanaram com cautela ao longo do topo, procurando um lugar seguro para descender por entre os matagais de lamos e pceas. Sabia que a partida no 
estava longe, mas possivelmente lhe levasse algum tempo encontrar-se com ela, e preferia faz-lo antes de que chegassem  Colina. Embora Claire ou MacKenzie podiam 
gui-la perfeitamente, reconhecia que ansiava retornar a casa  cabea de sua gente.
      -V, homem!, nem que fora Moiss- murmurou, movendo a cabea em um gesto de brincadeira ante suas prprias pretenses.
              O cavalo estava talher de espuma; quando chegaram a um trecho onde as rvores j no estavam to juntas, Jamie se deteve descansar um momento, afrouxando 
as rdeas, mas preparado para desalentar qualquer capricho que essa besta louca pudesse estar concebendo.
              A brisa provinha do oeste. Jamie levantou o queixo, desfrutando de seu contato frio na pele acalorada. O estou acostumado a caa em ondulantes cheire 
pardas e verdes, acesas aqui e l em emplastros de cor, que iluminavam a bruma nos terrenos baixos como o resplendor da fumaa de uma fogueira. Ante aquele panorama 
sentiu que o invadia a paz; aspirou profundamente, relaxando o corpo.
              Gideon tambm  se relaxou, deixando escapar lentamente seu esprito de luta, como a gua que se sai de um cubo quebrado. Jamie apoiou brandamente as 
mos em seu pescoo e o animal permaneceu imvel, com as orelhas para diante. " Ah!" , pensou. E ento caiu na conta de que se tratava de um Stio.
              No tinha palavras para designar esses lugares, mas os reconhecia cada vez que encontrava algum. Poderia hav-los qualificado de sagrados, mas a sensao 
que o provocavam no tinha nada que ver com a Igreja nem com o santo. Eram, simplesmente, lugares que lhe correspondiam, e com isso bastava, embora preferia encontr-los 
quando estava sozinho. Deixou descansar as rdeas sobre o pescoo do cavalo. Nenhuma besta louca como Gideon podia causar problemas em um lugar assim.
              Quando era um menino, tinha aprendido a maneira de viver separado dentro de uma multido, conservando a intimidade em sua mente quando seu corpo no 
podia t-la. Mas como era montanhs, tambm tinha aprendido muito tempranamente o encanto da solido e a virtude curativa dos stios tranqilos.
              De sbito teve uma viso de sua me, um dos pequenos retratos vvidos que sua mente entesourava e apresentava inesperadamente, como reao s Deus 
sabia a que: um som, um aroma, algum capricho passageiro da memria.
              Tinha estado instalando armadilhas para coelhos em uma colina; estava acalorado e suarento, com os dedos cravados pelas novelo espinhosas e a camisa 
pega  pele pelo barro e a umidade. Ao ver um bosquecillo, aproximou-se em busca de uma sombra. Ali estava sua me, sentada no cho junto a um diminuto manancial, 
sob a sombra esverdeada. Permanecia imvel, coisa estranha nela, com as largas mos cruzadas no regao.
              No disse nada, mas lhe sorriu. Ele se aproximou sem lhe falar, repleto por uma grande sensao de paz e contente, e apoiou a cabea contra seu ombro; 
ao sentir que seu brao o rodeava, soube que ocupava o centro de seu mundo. Ento, tinha cinco ou seis anos.
              A viso desapareceu to sbitamente como tinha vindo, como uma truta resplandecente que se esfumasse na gua escura. No obstante, deixou detrs de 
si a mesma sensao de profunda paz, como se algum o tivesse abraado brevemente, como se uma mo suave lhe tocasse o cabelo.
              Desmontou, com a necessidade de sentir a pinaza sob as botas, algum contato fsico com esse lugar. A cautela lhe fez atar as rdeas a um pinheiro forte, 
embora Gideon parecia bastante sereno; o potro tinha baixado o testuz e procurava matas de pasto seco. Durante um instante, Jamie permaneceu imvel; logo girou cuidadosamente 
para a direita, de cara ao norte.
              J no recordava quem lhe tinha ensinado isso: sua me, seu pai ou o velho John, o pai do Ian. Mas girou na direo do sol, murmurando aquela breve 
orao para cada um dos quatro pontos cardeais, e terminou de frente ao oeste, olhando ao sol poente. Formou uma taa com as mos vazias e a luz as encheu, transbordando 
sua Palmas.
      
      Que Deus me faa seguro cada passo,
      Que Deus me abra cada caminho,
      Que Deus me ponha em claro cada caminho, 
      E que Ele me leve entre suas prprias mos.
      
              Com um instinto mais antigo que a orao, tirou a cigarreira do cinturo para verter algumas gotas no cho.
              A brisa lhe trouxe alguns sons dispersos: risadas e rudos de animais que avanavam atravs da maleza. A caravana no estava longe: apenas ao outro 
lado de um pequeno terreno baixo, rodeando a passo lento a curva da colina oposta. J era hora de reunir-se com isso para o ltimo lance, at chegar  Colina.
              Ainda vacilou um momento, resistindo a quebrar o feitio do Stio. Pela extremidade do olho detectou um movimento imperceptvel; ento se agachou ante 
um arbusto de acebo entreabrindo os olhos para olhar nas sombras cada vez mais intensas.
              Ali estava, petrificado, confundindo-se perfeitamente com o fundo escurecido. Jamie no o teria visto, a no ser por esse pequeno movimento captado 
por seu olho de caador. Era um gatinho diminuto, de pelagem cinza arrepiada como a semente amadurecida do algodoncillo; os olhos enormes, quase incolores na penumbra, 
permaneciam bem abertos e sem piscar.
      -Ao Chait- sussurrou, alargando lentamente um dedo fazia ele-. O que faz aqui?
              Um gato feroz, sem dvida; nascido de uma me selvagem, que comprido tempo atrs teria escapado de alguma cabana de colonos, liberando-se da armadilha 
do domstico. Quando lhe roou a pelagem tnue do peito, o animal lhe cravou sbitamente os pequenos dentes no polegar.
      -Ai!- Apartou a mo imediatamente para examinar a gota de sangue que brotava da pequena puno. Durante um momento fulminou ao gato com o olhar, mas o animal 
se limitou a sustent-la, sem fazer gesto de fugir. depois de um instante, Jamie se decidiu. Sacudiu a mo, fazendo cair o sangue s folhas; seria, como o usque, 
outra oferenda aos espritos desse Stio, que obviamente haviam resolvido lhe oferecer tambm um presente.
      -Pois bem, seja- disse pelo baixo. ajoelhou-se para estender a mo, com a palma para cima. Com muita lentido moveu um dedo, logo o seguinte, e o outro, e 
o ltimo, e logo outra vez, com o movimento ondulante das algas na gua. Os grandes olhos claros seguiam fixamente o movimento, como hipnotizados. Vendo que a ponta 
do diminuto rabo se contraa imperceptivelmente, Jamie sorriu.
              Se era capaz de atrair s trutas, por que no a um gato?
              Quando ao fim voltou a lhe tocar a pelagem, o animal no tentou escapar. Um dedo se deslizou por seu cabelo; outro, baixo as frite almofadinhas de 
uma garra. E se deixou agarrar brandamente com a mo, que o retirou do cho.
              Jamie o reteve um momento contra o peito, acariciando-o com um dedo, seguindo a sedosa linha da mandbula, as orelhas delicadas. O bichinho fechou 
os olhos e comeou a ronronar, em xtase, vibrando em sua palma como um trovo longnquo.
      -OH!, assim vir comigo, n?
              Como o gato no se fazia de rogar, abriu o pescoo da camisa para colocar dentro aquela coisa diminuta. O gatinho antes de acurrucarse contra sua pele 
pinou entre suas costelas; seu ronrono se reduziu a uma vibrao calada, mas agradvel.
              Gideon, agradado pelo descanso, comeou a marcha. Um quarto de hora depois alcanaram aos outros. Mas a momentnea docilidade do potro se evaporou 
ante a tenso da ascenso final. 
              O cavalo era muito capaz de dominar esse caminho ngreme, certamente; o que no tolerava era ir detrs de outra arreios. Pouco importava que Jamie 
quisesse ou no chegar a sua casa  cabea de sua gente: se Gideon tinha algo que dizer a respeito, no s iriam  cabea, mas tambm vrios corpos mais adiante.
              Jamie se encontrou simpatizando bastante com o cavalo: ansioso por estar em casa, esforando-se por chegar quanto antes, e irritado por tudo o que 
ameaasse atrasando. Nesse momento, o principal impedimento contra o avano era Claire; a inoportuna tinha detido sua gua frente a ele para recolher umas quantas 
ervas  beira do caminho. Como se no tivesse j a casa inteira cheia de novelo, da soleira at o telhado, e as alforjas avultadas por outra carga!
              Gideon, captando imediatamente seu estado de nimo, estirou o pescoo para mordiscar  gua na garupa. O animal, entre relinchos e pinotes, saiu disparado 
caminho acima, com as rdeas pendurando. O macho tentou sair atrs dela, mas foi detido de um puxo nas rdeas.
              O rudo fez que Claire se desse a volta, com os olhos dilatados pela surpresa. Olhou primeiro ao Jamie; logo, a sua gua que desaparecia caminho acima, 
e novamente a ele, desculpando-se com um encolhimento de ombros. Tinha as mos cheias de folhas maltratadas e razes muito sujas.
      -Sinto muito. Disse. Mas ele viu a contrao na comissura da boca, o rubor em sua pele e o sorriso que brilhava em seus olhos. Muito a seu pesar, a tenso 
de seus ombros se acalmou. Embora tinha inteno de arreganh-la, as palavras no foram a sua boca.
      -Vamos, te levante- disse em troca, resmungo-. Eu gostaria de jantar.
              Ela montou, rendo-se em sua cara e apartando as saias para que no incomodassem. Gideon, irascvel ante essa carga adicional, girou bruscamente a cabea 
para lanar uma dentada a algo que estivesse a seu alcance, mas Jamie o estava esperando: fustigou com o extremo da rdea o focinho do potro, que deu um coice para 
trs, soprando de surpresa.
      -Assim aprender, pequeno bode.
              Impregnando o chapu, assegurou na arreios a seu dscola algema, com as saias bem rodeadas sob as coxas e os braos rodeando sua cintura. O gatinho, 
bruscamente arrancado de sua sesta, cravou as unhas na cintura do Jamie com um uivo de alarme, embora seu grito se perdeu entre os chiados mais potentes do cavaleiro, 
que atirava com a cabea do cavalo, entre juramentos enquanto lhe empurrava os quartos traseiros com a perna esquerda.
              Gideon, nada fcil de vencer, executou um salto como uma espiral. de repente Jamie ouviu um pequeno " eeeh!"  e percebeu uma sensao de vazio a suas 
costas: Claire tinha sido jogada na maleza como um saco de farinha.
      -Vai tudo bem?- perguntou Roger, arqueando uma sobrancelha.
      -Naturalmente- respondeu Jamie, tratando de recuperar o flego sem perder a dignidade-. E voc, como est?
      -Bem.
      -Me alegro.- Jamie j estava desmontando. Arrojou as rdeas  ao MacKenzie e, sem deter-se ver se as sujeitava, retornou correndo pelo atalho, gritando:
      -Claire! Onde est?
      -Aqui!- anunciou ela alegremente. E emergiu de entre as sombras dos lamos, coxeando um pouco e com o cabelo cheio de folhas. Pelo resto parecia ileso-. E 
a ti, aconteceu-te algo?- perguntou-lhe, olhando-o com uma sobrancelha arqueada.
      -No, estou bem, mas vou matar a esse cavalo.- Abraou-a para assegurar-se de que estava ntegra. Embora ofegava ao respirar, a sentia tranquilizadoramente 
slida. Lhe deu um beijo no nariz.
      -Mas no o mate antes de que cheguemos a casa. Falta uma milha e no quero percorr-la descala.
              De repente se ouviu uma voz:
      -N! Deixa isso, bastardo!
              Jamie soltou ao Claire para voltar-se para olhar. Roger estava arrancando um punhado de novelo maltratadas do focinho do Gideon. Mais planta? Que mania 
era essa? Claire se inclinou para diante para as observar com interesse.
      -O que  isso que tem a, Roger?
      -Para o Bree- disse ele, as submetendo a sua inspeo-. So as que convm?
              Aos olhos profanos do Jamie, pareciam amarelados caules de cenoura que tivessem ficado muito tempo plantados, mas Claire tocou a suja folhagem com 
um gesto de aprovao.
      -OH, sim!- disse-. Que romntico!
              Jamie, com muito tato, emitiu um leve rudo, sugiriendo que era hora de continuar o caminho, posto que Bree e a lenta tribo dos Chisholms os alcanariam 
muito em breve.
      -Est bem- disse Claire, lhe dando uma palmada no ombro-. No bufe; j vamos.
      -Hummm!- resmungou ele, agachando-se para lhe oferecer uma mo como estribo. depois de subir a  arreios, jogou ao Gideon um olhar que dizia: "  No tente 
nada estranho, maior bode" , e montou atrs dela-. Esperar aos outros para gui-los voc?- Sem esperar resposta, atirou das rdeas e ps ao potro atalho acima. 
              Apaziguado pelo fato de estar muito por diante de outros, Gideon se dedicou  tarefa de subir sem pausa entre os matagais de espinillos e lamos brancos, 
castanhos e pceas.
              Ao avanar, Jamie recuperou sua prpria equanimidade; tambm lhe reconfortou o fortuito achado do chapu perdido: pendia de um carvalho  beira do 
caminho, como se alguma mo bondosa o tivesse posto ali. Mas sua intranqilidade mental continuava; no podia captar a serenidade, embora a montanha estava em paz, 
com o ar nebuloso de cor azul, perfumado de pinheiros e madeira verde.
              De repente, com um sbito tombo na boca do estmago, caiu na conta de que o gatinho tinha desaparecido. Ardiam-lhe os arranhes na pele do peito e 
o abdmen, ali onde tinha subido por ele, em um frentico esforo por escapar, mas devia ter sado pelo pescoo da camisa, pra ver-se arrojado de seu ombro na descabelada 
carreira custa abaixo. Jogou uma olhada a ambos os lados, escrutinando as sombras sob as matas e as rvores, mas sua esperana foi v. A escurido se acentuava e 
j estavam no caminho principal, o stio onde ele e Gideon se desviaram pelo bosque.
      -V com Deus- murmurou, fazendo o sinal da cruz-se brevemente.
      -O que diz?- perguntou Claire, girando-se um pouco na cadeira de montar.
      -Nada.- depois de tudo, embora pequeno, era um gato selvagem. Saberia arrumar-lhe sem dvida.
              Gideon roa o bocado, cabeceando. Jamie notou que, uma vez mais, o tenso de sua mo circulava pelas rdeas, e fez um esforo por afroux-la. Tambm 
afrouxou a que sujeitava a sua esposa, que de repente se encheu os pulmes de ar.
              Fazia que os Bug se adiantassem, guiados pelo Fergus, para que Claire no devesse ocupar-se simultaneamente das tarefas da chegada e da hospitalidade. 
S se precaveu de que Claire tambm estava tensa quando ela se relaxou sbitamente contra ele, lhe apoiando uma mo na perna.
      -No aconteceu nada- disse ela-. Cheiro a fumaa de chamin.
              Ele levantou a cabea para farejar. Sua esposa tinha razo: na brisa flutuava o aroma penetrante das nozes queimadas. No se tratava do fedor que recordava 
de s conflagraes, mas sim de um aroma caseiro, que prometia casaco e comida. Era de presumir que a senhora Bug o tinha obedecido ao p da letra.
              Ao rodear a ltima curva do caminho viram a alta chamin de pedra, que se elevava por cima das rvores, com um grande penacho de fumaa frisando-se 
sobre as taas.
              A casa estava em p.
              Saram da castaeda ao amplo claro onde se levantava a casa, slida e cuidada, com as janelas douradas pelos ltimos raios do sol. Era uma casa modesta, 
caiada e com o telhado coberto com tablones, de linhas definidas e slida construo, imponente s se a comparava com as toscas cabanas que ocupavam a maioria dos 
colonos. A que fora sua primeira casa, escura e macia, estava ainda ali, algo mais abaixo. E dessa chamin tambm saa fumaa.
      -Algum acendeu o fogo para o Bree e Roger- comentou Claire, assinalando-a com a cabea.
      -Que bem!- Jamie rodeou sua cintura com um brao; ela, com um murmrio de contente, moveu o traseiro contra seu regao.
              A porta se abriu de par em par. Ali estava a senhora Bug, redonda e desalinhada como uma bola de palha arrastada pelo vento. Jamie sorriu ao v-la. 
depois de ajudar ao Claire, ele tambm desmontou.
      -Tudo est bem, tudo est bem, e voc senhor?- A mulher o tranqilizou antes de que suas botas tocassem terra.
              Levava uma taa de estanho em uma mo e um pano na outra. No deixou de lustr-la nem um instante, nem sequer ao apresentar a cara para aceitar o beijo 
do Jamie na bochecha murcha. Sem esperar resposta, ficou nas pontas dos ps para beijar ao Claire na bochecha, radiante.        
      -OH, que maravilha que esteja em casa, senhora!, voc e o senhor, e j tenho o jantar preparado, de modo que no ter que incomodar-se nada, senhora, mas passem, 
passem e tirem-se essa roupa suja, que eu mandarei ao velho Arch ao poro a procurar um pouco de licor e logo...
              Gideon, impaciente, empurrou-lhe o cotovelo com o focinho.
      -Ah, sim!- disse ele, recordando suas  obrigaes-. Vem, condenado animal.
              Quando o cavalo e a gua estiveram desensillados, escovados e comendo, Claire j tinha conseguido escapar da senhora Bug; ao retornar do estbulo, 
Jamie viu que a porta da casa se abria de par em par e Claire, com cara de culpado, saa olhando para trs, como se temesse que a perseguissem.
              Aonde ia? Sem v-lo, partiu precipitadamente para a esquina oposta da casa, desaparecendo em uma revoada de saias. Ele a seguiu com curiosidade.
              Claro, tinha visto sua consulta e agora, antes de que obscurecesse de tudo, queria ver seu pomar; ele a divisou um instante, recortada contra o cu, 
na costa que havia detrs da casa. A brisa noturna lhe trouxe o aroma acre da letrina distante, sugiriendo que logo seria necessrio ocupar-se dela. relaxou-se ao 
pensar nos novos arrendatrios; escavar uma letrina nova seria a tarefa mais apropriada para os moos do Chisholm, os dois maiores.
              Ele tinha cavado essa com o Ian, quando chegaram  Colina. Deus!, como sentia saudades ao guri...
      -Ao Mhicheal bheanaichte- murmurou. " San Miguel, protege-o"  Embora apreciava ao Mackenzie, se tivesse podido escolher no teria trocado ao Ian por esse homem. 
Mas como foi deciso do Ian, no havia nada mais que dizer a respeito.
              separando-se de si a dor de hav-lo perdido, afrouxou-se as calas para urinar detrs de uma rvore. Se o visse, Claire faria algum desses comentrios, 
supostamente engenhosos, sobre os ces e os lobos, que marcavam seu territrio quando retornavam a ele. " Nada disso- replicou-lhe mentalmente-; para que subir a 
colina, para piorar as coisas na letrina?"  Mas, pensando-o bem, esse era seu territrio, e se lhe desejava muito mijar nele...Se acomodou as roupas, j mais tranqilo.
              Ao levantar a cabea, viu-a baixar do pomar com o avental cheio de cenouras e nabos. Uma rajada de vento formou redemoinhos a seu redor as ltimas 
folhas da castaeda, em uma dana faiscante de luz.
              Levado por um sbito impulso, Jamie entrou entre as rvores, e comeou a procurar algo. Normalmente s emprestava ateno a aquelas novelo que fossem 
comestveis para cavalos ou seres humanos, ou que fossem suficientemente duras para fazer pranchas ou vigas ou um obstculo para o passo. No obstante, uma vez que 
comeou a procurar com critrio esttico se surpreendeu ante a variedade que havia, assim recolheu um punhado de cada uma delas.
              Bem a tempo: ela, perdida em seus pensamentos, vinha rodeando a esquina da casa. Passou ao meio metro dele, sem v-lo.
      -Sorcha- chamou Jamie, muito fico.
              Ela se voltou, entreabrindo os olhos contra os raios do sol poente, mas os alargou, dourados, ante a surpresa de v-lo.
      -OH!- Claire contemplou os ramos e espigas, depois o olhou a ele. Tremeram-lhe os lbios, como se estivesse a ponto de chorar ou rir, sem decidir-se entre 
as duas coisas. Logo aceitou as novelo, pequenos e frios os dedos que roaram sua mo-. OH, Jamie!, so preciosas.
              ficou nas pontas dos ps para beij-lo, quente e salobre. Ele queria mais, mas ela j ia pressurosa para a casa, com aquelas insignificantes novelo 
apertadas contra o peito como se fossem de ouro.
              Jamie se sentiu agradavelmente tolo, e bobamente agradado consigo mesmo. Ainda tinha na boca o sabor do Claire.
      -Sorcha- sussurrou.
              Caiu ento na conta de que assim a tinha chamado um momento antes. Isso sim que era estranho; no era estranho que ela se surpreendeu: era seu nome 
em galico, mas ele estranha vez o utilizava. Gostava de sua condio de estranha, de inglesa. Era seu Claire, seu Sassenach. 
              Entretanto, ao passar junto a ele, foi Sorcha. No significava s " clara" , mas tambm " luz" .
              Aspirou profundamente, satisfeito.
              de repente se sentiu faminto, tanto de comida como dela, mas no se deu pressa por entrar. Algumas classes de fome so doces por si s; a esperana 
de satisfaz-la  to grata como a saciedade.
              Rudo de cascos e vozes; por fim chegava o resto. Sentiu a sbita urgncia de conservar um momento mais sua aprazvel solido, mas j era muito tarde; 
em poucos segundos se viu rodeado pela confuso: gritaria de meninos entusiastas, chamadas de mes inquietas, a bem-vinda aos recm chegados, o agitao e a pressa 
ao descarregar, desenganchar as mulas e os cavalos, lhes dar gua e penso...
              Mas em meio dessa Babel se movia como se ainda estivesse sozinho, aprazvel e em silencio sob o sol poente. Estava em casa.
      
      
      
              Na temprana queda da noite, a casa se erguia branca como um esprito benvolo que custodiasse  Colina. A luz emanava por todas suas portas e janelas; 
do interior chegavam risadas.
              Voltou-se para perceber um movimento na escurido; era sua filha, que vinha do estbulo com um cubo de leite fresca na mo. Ela se deteve junto a ele, 
contemplando a casa.
      - bonito estar em casa, verdade?- disse brandamente.
      -Sim- respondeu ele.
              Olharam-se, sorridentes. Logo ela se inclinou para diante para observ-lo melhor, e o girou para p-lo frente  luz da janela. Um par de rugas lhe 
franziu a pele entre as sobrancelhas.
      -O que  isso?- perguntou, sacudindo sua jaqueta.
              Uma lustrosa folha escarlate caiu flutuando at o cho. Ao v-la ela elevou as sobrancelhas.
      -Ser melhor que vs lavar te, papai- disse-. estiveste onde a hera venenosa.
      
      
      
      -me poderia haver isso dito, Sassenach.- Jamie jogou um olhar furioso  mesa onde eu tinha posto seu ramalhete, em uma taa de gua, perto da janela do dormitrio. 
O vermelho manchado e intenso da hera venenosa refulgia at na penumbra da luz que lanava o fogo-. E alm disso poderia te desfazer dela. Acaso quer te burlar de 
mim?
      -No, absolutamente- assegurei, sorridente, enquanto pendurava meu avental do cabide e desatava os cordes de meu vestido-. Mas se lhe houvesse isso dito quando 
me entregou isso, me teria tirado isso.  o nico ramo que me deste em sua vida e, como no acredito que me d de presente outro, tenho a inteno de conserv-lo. 
              Ele lanou um bufo e se sentou na cama para tir-los meias trs-quartos. J quase se despiu; a luz do fogo resplandecia sobre seus ombros. arranhou-se 
a cara interior da boneca, embora eu lhe havia dito que era psicosomtico, que no tinha sinais de sarpullido.
      -Nunca voltaste para casa com prurido de hera venenosa- comentei-, embora seguro que, com todo o tempo que passa nos bosques e nos semeados, mais de uma vez 
a encontraste. Acredito que  imune a ela. H pessoas assim, sabe?
      -De ver?- Isso pareceu lhe interessar, embora no deixou de arranhar-se-. Como voc e Brianna, que alguma vez adoecem?
      -Algo assim, mas por diferentes motivos.
              Tirei-me o vestido, bastante imundo depois de uma semana de viagem. Logo desatei o espartilho, com um suspiro de alvio. Continuando, fui ver se a 
caarola de gua que tinha posto sobre as brasas j estava quente; no pensava me deitar sem me haver tirado a sujeira da viagem, mas tampouco queria dar um espetculo 
pblico ao faz-lo.
              A gua rielaba de calor com diminutas borbulhas aderidas ao interior da panela. Introduzi um dedo, s para comprovar como estava: quente e deliciosa. 
depois de verter um pouco na bacia, deixei o resto ali para que se mantivera quente.
              Inclinei-me para revolver nas alforjas que ele tinha subido e deixado junto  porta. Na congregao algum me tinha dado uma esponja das de verdade, 
importada das ndias, como pagamento por lhe extrair um dente infectado. Era perfeita para um banho rpido.
      -E coisas como a malria, o que tem Lizzie...
      -No as tinha curado? Interrompeu Jamie, franzindo o sobrecenho. 
              Meneei a cabea em um gesto de pena.
      -No, padecer-a sempre. S posso tratar de que os ataque no sejam to graves nem to freqentes. Mas a leva no sangue, compreende?
              Ele se tirou a cinta com que se atava o cabelo e sacudiu as mechas avermelhadas, deixando a juba solta.
      -No tem sentido- objetou, se levantando para desaboto-los calas-. H-me dito que, se uma pessoa teve o sarampo e sobreviveu, no pode voltar a contrai-lo, 
porque permanece em seu sangue. Por isso eu no posso adoecer de varola nem de sarampo, porque os tive quando menino e esto em meu sangue.
      -Bom, no  exatamente igual- disse, sem maior convico. depois de to comprido trajeto no me sentia em condies de explicar as diferenas entre imunidade 
ativa, passiva ou adquirida, anticorpos e infeces parasitrias-. Falando de cavalgar...
      -Quem fala de cavalgar?- disse Jamie, com cara de surpresa.
      -Ningum, mas eu estava pensando nisso.- Descartei com esse gesto detalhe sem importncia-. O que pensa fazer com o Gideon?  
      -OH...!- ele deixou cair as calas ao cho e se desperez, pensativo-. No acredito poder me permitir o luxo de matar o de um disparo. E  um tipejo vigoroso. 
Para comear, vou cortar o. Talvez isso o assente um pouco.
      -Cort-lo? Ah!, quer dizer castr-lo. Sim, suponho que isso o faria mais obediente, embora me parece um pouco drstico.- Vacilei um momento, relutante-. Quer 
que o eu faa?
              Ele me cravou um olhar de surpresa. Logo estalou em uma gargalhada.
      -No, Sassenach. No acredito que cortar a um potro de dezoito palmos seja trabalho para uma mulher, embora seja cirurgi. No se requer uma mo suave, no 
crie?- Alegrou-me ouvi-lo.
              Deixei que a camisa se deslizar desde meus ombros at a cintura. O fogo tinha enfraquecido um pouco o ar glacial da habitao, mas ainda estava o 
bastante frio como para que me arrepiasse a pele dos peitos e os braos. Jamie se tirou o cinturo para tirar com cuidado tudo o que tinha pendurado dele. depois 
de pr tudo no pequeno escritrio, mostrou-me a cigarreira elevando uma sobrancelha com ar inquisitivo.
              Assenti com entusiasmo. Ele se girou para procurar uma taa. Com tanta gente na casa com todas seus pertences, nossas alforjas tinham sido levadas 
acima e jogadas no interior de nosso quarto.
              Jamie parecia uma esponja, refleti, vendo-o ir de um lado a outro completamente nu e despreocupado. Absorvia-o tudo, e parecia capaz de entender-se 
com tudo o que lhe tocasse em sorte, por estranho que fora a sua experincia.
              Em geral, eu no me arrependia de nada. Tinha escolhido estar ali, e ali queria estar. Entretanto, de vez em quando surgiam pequenezes, como nossa 
conversao sobre a imunidade, que me faziam compreender quanto tinha perdido do que tinha, pelo que era. No podia negar que algumas de minhas debilidades tinham 
sido superadas. E s vezes ao pens-lo sentia um vazio dentro de mim.
              Jamie se agachou para rebuscar em uma das alforjas. Seu traseiro nu, voltado fazia mim com total inocncia, ajudou-me a limpar o momentneo desassossego. 
Realmente tinha formas grcis, arredondadas pelos msculos e gratamente coberta por um plo rojo-dourado que captava a luz do fogo e as velas. As colunas largas 
e claras das coxas emolduravam a sombra do escroto, escuro e apenas visvel entre eles.
              Por fim tinha encontrado uma taa, que encheu at a metade. Ao entregar me apartou isso os olhos do lquido escuro, surpreso ao descobrir que o estava 
observando.
      -O que acontece?- perguntou-. H algum problema, Sassenach?
      -No- disse. Mas minha voz deveu sonar dbia, pois ele contraiu as sobrancelhas-. No- repeti com mais firmeza. E aceitei a taa com um sorriso, elevando-a 
apenas em um gesto de agradecimento-. S estava pensando.
              Um sorriso de resposta apareceu os lbios.
      -Sim? Pois no convm que pense muito a estas horas da noite, Sassenach. Pode te provocar pesadelos.
      -Atreveria-me a dizer que tem razo.- Bebi um sorvo e me surpreendi ao descobrir que era vinho; muito bom, alm disso-. Onde o conseguiu?
      -Do pai Kenneth.  vinho sacramental, sem consagrar,  obvio. Disse-me que os homens do delegado o levariam;  preferiu que eu me trouxesse isso.
              Ao mencionar ao padre, uma leve sombra lhe cruzou a cara.
      -Crie que sair desta?- perguntei.
      -Isso espero.- Ele se inquietou-. Adverti-lhe ao delegado que, se algum maltratava ao pai, ele e seus homens teriam que responder por isso.
              Assenti em silncio, bebendo a sorvos. Se Jamie se inteirava de que o pai Donahue tinha sofrido algum dano, o delegado no deixaria de pagar por isso. 
A idia me tranqilizou um pouco. No era o melhor momento para fazer inimigos. E o delegado do condado do Orange no era bom inimigo.
              Ao levantar a vista me encontrei com os olhos do Jamie, fixos em mim, embora agora com profunda complacncia.
      -Ultimamente te est pondo formosa, Sassenach- observou, inclinando a cabea a um lado.
      -Diz-o por me adular- reprovei com um olhar frio, enquanto agarrava a esponja.
      -Deve ter aumentado seis ou sete quilogramas da primavera- disse, me inspecionando com ar de aprovao-. foi um bom vero para a engorda, no?
              Dava-me a volta para lhe arrojar a esponja  cabea, e  a apanhou sonriendo.
      -Nestas ltimas semanas estiveste to abrigada que no me tinha precavido dessas novas redondeces. Faz pelo menos um ms que no te vejo nua.
              Seguia me avaliando como se eu fora um bom candidato para ganhar uma medalha na exposio de porcos.
      -as desfrute, avermelhando de chateio-. Talvez no volte s ver em algum tempo!
              E recolhi bruscamente a parte superior da camisa, para cobrir meus peitos, inegavelmente engrossados. Ele arqueou as sobrancelhas, surpreso por meu 
tom.
      -Zangaste-te comigo, Sassenach?
      -Claro que no, repus-. De onde tiraste essa idia?
              Ele sorriu, esfregando o peito com a esponja, enquanto me percorria com os olhos. Seus bicos da mamadeira, encolhidas pelo frio, recortavam-se rgidas 
e escuras entre o plo avermelhado e o brilho mido de sua pele.
      -Eu gosto de gorda, Sassenach- disse pelo baixo-. Gorda e suculenta como uma gallinita rolia. Eu gosto de muito assim.
              Poderia ter tomado aquilo como um simples intento de cobrir uma patacoada, no ser pelo fato de que os homens nus vm convenientemente equipados com 
detectores sexuais de mentiras. Era certo: gostava de muito.
      -OH!- exclamei. E baixei a camisa com bastante lentido-. Pois...
              Ele levantou o queixo. Vacilei um momento, mas logo me levantei para deixar que a camisa casse ao cho, onde se uniu a suas calas. Depois, agarrei 
a esponja que ele tinha na mo.
      -Quero...n...terminar de me lavar, se me permitir isso- murmurei.
              Voltei-lhe as costas, apoiando um p no tamborete para me lavar; detrs de mim se ouviu um alentador ronrono de apreciao. Quando acabei e me dava 
a volta, Jamie seguia me observando, embora ainda se esfregava a boneca, levemente carrancudo.
      -E voc, lavaste-te?- perguntei- . Embora j no te incomode, se ainda fica na pele um pouco de azeite da hera venenosa, pode deixar restos no que toque...e 
eu no sou imune a ela.
      -Esfreguei-me as mos com sabo- assegurou-me, apoiando-me isso nos ombros a modo ilustrativo. No era de sentir saudades que se arranhasse; suas mos estavam 
speras e gretadas.
      Inclinei a cabea para lhe beijar  os ndulos. Logo abri a cajita onde guardava minhas coisas pessoais, em busca do blsamo para a pele, feito de azeite de 
noz, cera de abelhas e lanolina desencardida; era muito suavizante e tinha um verde aroma a essncias de camomila, cnfora, milenrama e flores de saco.
              Agarrei um poquito com a unha do polegar e o esfreguei entre minhas mos; embora originalmente era quase slido, liquidificava-se agradavelmente ao 
esquentar-se.
      -Vem- disse-lhe.
              E pus uma de suas mos entre as minhas, esfregando para que o ungento penetrasse nas gretas de seus ndulos, massageando sua Palmas calejadas.
      -O ramalhete  encantador, Jamie- disse-lhe, assinalando com a cabea o molho de novelo posto na taa-. Mas, como te ocorreu faz-lo?
              Removeu-se um pouco, obviamente incmodo. 
      -Pois...- Apartou a vista-.  que...quero dizer...Tinha uma tolice para te dar de presente, mas a perdi. Mas como te pareceu muito tenro que Roger agarrasse 
umas quantas ervas para a Brianna...- Interrompeu-se, murmurando pelo sob algo que soou a " ffrnn!" .
              Senti um forte desejo de rir, mas o que fiz foi lhe agarrar a mo para lhe dar um beijo leve em seus ndulos. Parecia sobressaltado, mas agradado. 
Com seu dedo polegar na palma de minha mo, acariciou o bordo de uma ampola ao meio cicatrizar, deixada por um hervidor quente.
      -Oua, Sassenach, voc tambm necessita um pouco disto. me permita.
              E se inclinou para colher com um dedo um pouco do ungento verde. Logo encerrou minha mo na sua, quente e ainda escorregadia pela mescla de azeite 
e cera de abelhas.
              Fez uma pausa para me beijar ligeiramente. As chamas vaiavam no lar e a luz do fogo piscava nas paredes caiadas. Era como estar juntos e ss no fundo 
do mar.
      -Roger no o fez por puro romantismo, sabe?- comentei-. Ou talvez sim. Depende de como queira olh-lo.
              Jamie pareceu intrigado. Nossos dedos se entreteceram, movendo-se apenas. Suspirei de prazer.
      -Sim?
      -Bree me perguntou sobre o controle de embarao. Disse-lhe que mtodos existem agora; francamente no so muito bons, embora sim melhores que nada. Mas a anci 
av Bacon me deu algumas sementes; conforme diz, as ndias as usam como anticoncepcionais, e supostamente so muito efetivas.
              A cara do Jamie sofreu um trocou do mais cmico: de sonolento prazer a olhos de estupefao.  
      -Anti com o que? Ela... quer dizer que...essas vulgares sementes...?
      -Pois sim. Ao menos acredito que podem ajudar a evitar o embarao.
      -Hummm.
              O movimento dos dedos se deteve; juntou as sobrancelhas em um gesto mais preocupado que de desaprovao, ou assim me pareceu. Logo continuou me massageando 
as mos, as envolvendo em seu punho, muito maior, com um movimento decidido.
      -Crie que...?- Mas se interrompeu.
      -O que?
      -Humm...  que... No te parece algo estranho, Sassenach, que uma jovem recm casado esteja pensando em algo assim?
      -No, no me parece isso- disse com bastante aspereza-. A meu modo de ver,  muito sensato. E eles no so to recm casados. estiveram...Quer dizer, j tm 
um filho.
              Ele dilatou as fossas nasais em mudo desacordo.
      - ela a que tem um filho- replicou-. A isso referia, Sassenach. Parece-me que, quando uma jovem se leva bem com seu marido, o primeiro que pensa no  precisamente 
como fazer para no lhe dar um filho. Est segura de que tudo est bem entre eles?
              Fiz uma pausa para estudar a pergunta.
      -Acredito que sim- disse ao fim, lentamente-. No esquea, Jamie, que Bree vem de uma poca em que as mulheres podem decidir quando tero um filho e se querem 
o ter ou no, com bastante segurana- A boca larga se franziu em um gesto reflexivo. Notei que lutava com a idia, totalmente contrria a sua prpria experincia.
      -De maneira que assim so as coisas?- perguntou ao fim-. A mulher pode decidir que sim ou que no, sem que o homem tenha arte nem parte?
              Sua voz refletia assombro e desaprovao. Ri um pouco.
      -Claro, como Mackenzie tambm  dessa poca, no lhe resultar estranho.
      -Ele mesmo recolheu as ervas- assinalei.
      -Assim foi ele.- A ruga ficou entre suas sobrancelhas, mas afrouxou um pouco o cenho.
      -Alm disso, no  to estranho que uma jovem pense algo assim. Marsali, antes de casar-se com o Fergus, tambm veio a me perguntar o mesmo.
      -Seriamente?- Arqueou uma sobrancelha-. E voc no o disse?
      -Por seu posto que sim!
      -Pois no lhe deu bom resultado, no?
              Germain tinha nascido aproximadamente dez meses depois das bodas; Marsali voltou a ficar grvida aos poucos dias de desmam-lo. Senti que o rubor subia 
s bochechas.
      -No h nada infalvel, nem sequer os mtodos modernos. Alm disso, nada d resultado se no se usa.
              Em realidade, Marsali s se interessou pelos anticoncepcionais, no porque no queria ter filhos, mas sim porque temia que o embarao perturbasse a 
intimidade de sua relao com o Fergus. " Quando chegarmos  parte da franga, quero desfrut-la" : essas tinham sido suas palavras naquela ocasio. Sorri ao as recordar.
              Uma das mos do Jamie seguia entrelaada com a minha; a outra abandonou meus dedos para procurar outro lugar...muito levemente.
      -OH!- disse. Comeava a perder o fio de minhas idias.
      -Plulas, disse- Sua cara estava muito perto; os olhos nublados pelos pensamentos-.  assim como se faz?
      -Hum...OH...! Sim.
      -Voc no te trouxe nada disso- observou-. Ao retornar.
              Aspirei profundamente e deixei escapar o ar. Sentia que comeava a me dissolver.
      -No-disse, um pouco deprimida.
              Ele fez uma pausa, posando a mo ligeira,
      -por que?- perguntou em voz baixa.
      -Bom...em realidade...pensei... preciso tomar sempre. E no podia trazer tantas. H algo definitivo, uma pequena operao.  bastante simples e te deixa permanentemente...es
tril.
              Jamie permanecia muito quieto, a vista encurvada.
      -Pelo amor de Deus, Claire- rogou ao fim, em voz fica-, me diga que o fez.        
              Aspirei fundo e lhe estreitei a mo; meus dedos escorregaram um poquito.
      -Se o tivesse feito, Jamie- disse com suavidade-, haveria-lhe isso dito.- Voltei a tragar saliva-. Voc...o tivesse querido?
              Ainda me estreitava uma mo. A outra se apartou para me tocar as costas e me estreitou muito brandamente contra ele. Senti sua pele quente contra a 
minha.
      -J tenho suficientes filhos- murmurou-. Mas s tenho uma vida. E essa  voc, mo chridhe. 
              Elevei uma mo para lhe tocar a cara. Estava sulcada de cansao, spera de barba enchente.
              Eu o tinha pensado, sim; estive muito perto de pedir a um cirurgio amigo que me esterilizasse. O sangue-frio e a mente clara assim o aconselhavam; 
no tinha sentido correr riscos. Entretanto...no havia segurana de que eu sobrevivesse  viagem, de que pudesse chegar  poca e ao lugar corretos, de que voltasse 
a encontr-lo. Menos possvel ainda era conceber outra vez a minha idade.
              Toquei-o apenas; ele deixou escapar um som grave e apoiou a cara contra meu cabelo, me estreitando com fora. Nossos atos de amor eram sempre perigo 
e promessa: se nesses momentos ele tinha minha vida em suas mos, eu tinha sua alma e sabia.
      -Pensei..., pensei que jamais veria a Brianna. E no sabia o do Willie. No era justo te privar da possibilidade de ter outro filho. Sem lhe dizer isso no.
              "  sangue de meu sangue- havia-lhe dito- , osso de meus ossos."  Era certo. E sempre seria assim, embora disso no surgissem filhos.
      -No quero mais filhos- sussurrou-. Quero a ti.
              Envolvi-o com minha mo, escorregadia e com aroma a verdor, e dava um passo atrs para atrai-lo comigo para a cama. Logo que tive conscincia para 
apagar a vela.
      -No se preocupe pelo Bree- disse-lhe, buscando-o para toc-lo, enquanto se elevava sobre mim, negro contra a luz do fogo-. Roger recolheu as ervas para ela. 
Sabe o que ela quer.
              Ele soltou um fundo suspiro, um flego de risada que se entupiu em sua garganta e acabou em um pequeno grunhido de prazer e satisfao, enquanto se 
deslizava entre minhas pernas, bem lubrificada e disposta.
      -Eu tambm sei o que quero- disse, sufocando a voz em meu cabelo-. Amanh te cortarei outro ramalhete.
      
      
      
              Drogada pela fadiga, lnguida de amor e adormecida pela comodidade de uma cama branda e poda, dormi como um tronco.
              Para o amanhecer comecei a sonhar; foram sonhos agradveis, de contato e cor, sem forma. Umas mos pequenas me tocavam o cabelo, apalpavam-me a cara. 
Girei-me de flanco, semiconsciente, sonhando que amamentava a um menino. Uns dedos suaves, diminutos, tocavam-me o peito. Levantei a mo para abranger a cabea do 
menino. Mordeu-me.
              Imediatamente me incorporei na cama com um grito. Uma silhueta cinza cruzou correndo o edredom e desapareceu pelos ps da cama. Chiei outra vez, mais 
forte ainda.
              Jamie saltou do leito, rodou pelo cho e acabou de p, com os punhos dispostos.
      -O que?- interpelou, percorrendo o quarto com um olhar selvagem-. Quem? O que foi?
      -Um rato!- disse, assinalando com um dedo trmulo o ponto onde a silhueta cinza tinha desaparecido, no oco entre os ps da cama e a parede.
      -Ah...!- Relaxou os ombros, esfregando-a cara e o cabelo com a mo, piscando-. Um rato.
      -Um rato em nossa cama- precisei, nada disposta a considerar o fato com o menor grau de calma-. E me mordeu!- Inspecionei com mais ateno o peito ferido: 
no havia sangue; s um par de diminutas perfuraes que ardiam um pouco. Mas ao pensar na possibilidade de contrair a raiva me esfriou o sangue.
      -No se preocupe, Sassenach. J me encarregarei dela.
              Agarrou o atiador do lar e avanou decididamente para os ps da cama. Eu me pus de joelhos, lista para saltar em caso necessrio. Jamie elevou o atiador 
e apartou a parte pendente da colcha.
              Descarregou o atiador com grande fora...mas o apartou a um lado, estrelando-o contra a parede.
      -O que?- perguntei.
      -O que?- repetiu ele, mas em tom de incredulidade. agachou-se um pouco mais, entortando os olhos na penumbra. Logo se ps-se a rir. Deixando cair o atiador, 
ficou de cuclillas no cho para estirar lentamente o brao entre os ps da cama e o muro, emitindo entre dentes um pequeno gorjeio. parecia-se com o dos pssaros 
quando comem em algum matagal longnquo.
      -Est lhe falando com o rato?- Comecei a engatinhar para ele, mas com um movimento de cabea me indicou que retornasse, sem deixar de emitir aquele gorjeio.
      -Aqui est seu rato, Sassenach- disse, depositando uma bola de cabelo cinza na colcha.
              Dois enormes olhos, de cor verde clara, cravaram-se em mim sem piscar.
      -me valha Deus!- disse-. De onde vieste?
      -Esse  o presente que pensava te fazer, Sassenach- disse Jamie, com imensa satisfao-. Para que mantenha seu consultrio livre de animlias.
      -Sero das pequenas- observei, examinando meu novo presente-. Acredito que uma barata grande poderia levar-lhe a sua toca. E no quero nem pensar se se tratasse 
de um camundongo.  macho?
      -Crescer- assegurou-me Jamie-. Lhe olhe as patas. 
              O gato se ps de barriga para cima e estava imitando a um inseto morto, com as patas no ar. Suas garras resultavam enormes em contraste com o corpo 
mido. Toquei as minsculas almofadinhas, de rosa imaculado na espessura de suave pelagem cinza. O gatinho se retorceu em xtase.
              Algum chamou discretamente  porta. Enquanto me cobria apressadamente o peito com o lenol, a porta se abriu, e vi aparec-la cabea do senhor Wemyss, 
com o cabelo rgido como palha de trigo.
      -N... tudo em ordem, senhor?- perguntou, com uma plpebra mope-. Minha menina me despertou, dizendo que acreditava ter ouvido um grito. E logo ouvimos um 
golpe, como se...- Seus olhos, apartando-se apressadamente de mim, fixaram-se na marca que o atiador tinha deixado no muro caiado.
      -Sim, tudo est bem, Joseph- assegurou-lhe Jamie-. Era s um gatinho.
      -Ah, sim?- O senhor Wemyss olhou para a cama entreabrindo os olhos. Sua cara fraca se dividiu em um sorriso ao ver o vulto de pelagem cinza-. Um bichano? Homem, 
ser-nos til na cozinha, sem dvida.
      -Sim. E falando de cozinhas, Joseph, seria possvel que sua filha subisse uma tigela de nata para nossa hspede?
              O homem fez um gesto afirmativo e desapareceu, dedicando ao gatinho um ltimo sorriso paternal.
              Jamie se desperez com um bocejo e se esfregou vigorosamente o cabelo, que estava mais revolto do habitual. Observei-o com apreciao puramente esttica.
      -Parece um mamute lanzudo- disse.
      -Sim? E o que  um mamute, alm de ser algo grande?
      -uma espcie de elefante pr-histrico. Esses animais de tromba larga, sabe?
              Ele entorto os olhos para olhar o corpo em toda sua longitude; logo me olhou com ar intrigado.
      -V, obrigado pelo completo, Sassenach- disse-. De maneira que um mamute...
              Projetou os braos para cima e voltou a estirar-se, arqueando despreocupadamente as costas; desse modo realou qualquer parecido incidental que pudesse 
existir entre a anatomia matinal masculina e o adorno facial dos paquidermes.
      -No me referia precisamente a isso- ri-. Deixa de te exibir. Lizzie entrar em qualquer momento. Ponha camisa ou volta para a cama.
              Um rudo de pegadas no patamar fez que se mergulhara debaixo do edredom; o gatinho, assustado, brincou de correr pelo lenol. Mas quem trazia a tigela 
de nata resultou ser o senhor Wemyss em pessoa, para lhe evitar a sua filha a possvel viso de um homem em seu estado natural.
              Desenredei ao gatinho de meu cabelo, que se tinha refugiado ali, e o pus no cho, junto  terrina de nata. Provavelmente no tinha visto algo assim 
em sua vida, mas bastou com o aroma; poucos segundos depois tinha o focinho fundo at os bigodes e lambia com entusiasmo.
      -Como ronrona!- comentou Jamie, aprobador-. Ouo-o daqui.
      - um encanto. De onde o tirou?- Me acurruqu contra o corpo do Jamie, desfrutando de seu calor; o fogo quase se apagou e o ambiente da habitao era glido, 
e acre de cinzas.
      -Encontrei-o no bosque.- depois de um grande bocejo, Jamie se relaxou, apoiando a cabea em meu ombro para contemplar ao animal, que se tinha abandonado a 
um xtase de gulodice-. Acreditava hav-lo perdido quando Gideon se desbocou. Suponho que se escondeu em uma das alforjas.
              Jamie suspirou, me esquentando o ombro com seu flego.
      -Uma semana, acredito- disse pelo baixo.
      -Para que tenha que partir?
      -Sim.  o tempo que necessito para deixar aqui ordenadas as coisas e falar com os homens da Colina. Logo, uma semana para cruzar o territrio entre a Linha 
do Tratado e Drunkar's Creek. Chamarei recrutamento e os trarei aqui para adestr-los. Assim, no caso de que Tryon convoque a tropa...
              Fiquei calada um instante, com uma mo envolvendo a do Jamie contra meu peito.
      -Se a convoca irei com vs.
              O me beijou a nuca.
      -Quer vir?- perguntou-. No acredito que seja necessrio. Nem voc nem Bree recordam que tenha havido combates aqui por estas datas.
      -Isso significa s que, de acontecer algo, no ser uma grande batalha- repliquei-. Estas colnias so grandes, Jamie. E em duzentos anos passam muitas coisas. 
 lgico que no saibamos dos conflitos menores, sobre todos dos que aconteceram em um lugar diferente. Em Boston, em troca...
              Apertei-lhe a mo com um suspiro.
      -Sim, suponho que  certo- disse ele-. Mesmo assim no acredito que isto chegue a nada. Suponho que Tryon s quer assustar aos reguladores para que se comportem 
bem.
              Isso era o mais provvel. Mesmo assim eu recordava bem o velho dito: " O homem prope e Deus dispe."  Fora Deus ou William Tryon o que estava a cargo, 
s o cu sabia o que podia acontecer.
      - uma hiptese ou uma esperana?- perguntei-lhe.
              Ele estirou as pernas com um suspiro e me rodeou a cintura.
      -Ambas as coisas- admitiu-. Sobre tudo, uma esperana. Reza porque assim seja. Mas tambm  o que penso.
              O gatinho, depois de esvaziar a tigela, sentou-se e retirou de seus bigodes os restos daquela deliciosa coisa branca; logo caminhou para a cama, com 
os laterais visivelmente avultados, e subiu de um salto. depois de acurrucarse contra mim, dormiu imediatamente.
               Talvez no dormia de tudo, pois eu percebia a pequena vibrao de seu ronrono atravs da colcha.
      -Que nome poderia lhe pr?- perguntei-me em voz alta, tocando o extremo da cauda suave, arrepiada-. Mancha? Pompom? Nuvem?
      -O que nomeie to tolos- murmurou Jamie, com preguiosa tolerncia-. Assim chamam os bichanos em Boston? Ou na Inglaterra?
      -No. Nunca tive gatos- admiti-. Frank lhes tinha alergia; faziam-no espirrar. me sugira ento um bom nome escocs para gato. Diarmuid? MacGillvray?
              Ele soprou de risada.
      -Adso- disse. Chama-o Adso.
              Ele apoiou comodamente o queixo em meu ombro, contemplando ao gatinho dormido.
      -Minha me tinha ou gatinho que se chamava Adso- disse, sem que eu o esperasse-. Um bichano cinza, muito parecido a este.
      -Seriamente?- Estranha vez falava de sua me, que tinha morrido quando ele tinha oito anos.
      -Sim, era um bom caador. E queria muito a minha me; aos meninos no nos fazia casa.- A lembrana o fez sorrir-. Possivelmente porque Jenny o vestia com roupa 
de beb e lhe dava de comer bolachas. E eu o deixei cair no lago do moinho, para ver se sabia nadar. Sabia, mas no gostou.
      -Eu no o reprovaria- comentei, divertida-. Mas por que se chamava Adso?  o nome de algum santo?- J estava habituada aos nomes peculiares dos Santos celtas, 
desde o Aodh a Dervorgilla. Mas nunca tinha ouvido falar de so Adso. Provavelmente fora o santo padroeiro dos ratos.
      -No, era um monge- corrigiu ele-. Minha me era muito culta. Estudou no Leoch, sabe?, junto com o Colum e Dougal; sabia ler grego e latim, um pouco de hebreu, 
francs e alemo. Certamente, no Lallybroch no tinha muitas oportunidades de ler, mas meu pai, com muito esforo, fazia trazer livros desde o Edimburgo e Paris.
              Alargou um brao por cima de meu corpo para tocar uma orelha sedosa, translcida. O gatinho retorceu os bigodes, franzindo a cara como se fora a espirrar, 
mas no abriu os olhos. O ronrono continuou sem que tivesse minguado.
      -Um de seus livros preferidos estava escrito por um austriaco, da cidade do Melk, e lhe gostou para o gatinho.
              O gato, ao entreabrir uma plpebra, deixou ver uma ranhura verde, em resposta para ouvir o nome. Logo voltou a fechar-se e o ronrono se reatou.
      -Bom, se no lhe incomoda, suponho que a mim tampouco- disse, resignada-. Ser Adso.
      
      
      

      19
      
      Mais vale mau conhecido
      
              Uma semana depois, enquanto as mulheres nos dedicvamos  demolidora tarefa de lavar a roupa, a mula Clarence deixou ouvir seu clarinada, anunciando 
que se aproximavam visitas. Como cabia esperar, uma mula bago saa j de entre as rvores, seguida por uma gorda gua castanha a que levavam das rdeas. A mula agitou 
as orelhas, relinchando com entusiasmo em resposta  saudao do Clarence. me tampando os ouvidos com os dedos para bloquear esse alvoroo infernal, entreabri os 
olhos contra o fulgor do sol da tarde, tratando de distinguir ao cavaleiro montado na mula.
      -Senhor Husband!- Corri a saud-lo.
      -voc tenha bom dia, senhora Fraser!
              Hermon Husband fez uma breve inclinao a modo de saudao. Logo desmontou com um grunhido que refletia muitas horas na cadeira. Quando se endireitou, 
seus lbios se moveram sem emitir som algum no marco da barba; era qualquer e no dizia palavres, ao menos em voz alta.
      -Est seu marido em casa, senhora Fraser?
      -Acabo de ver que se dirigia ao estbulo. Irei busc-lo- gritei, por cima do relinchar constante das mulas, e assinalei a casa com um gesto-. Eu me ocuparei 
de seus animais.
              Ele me agradeceu isso com uma inclinao de cabea e rodeou a casa, coxeando lentamente para a porta da cozinha. Notei que se movia com dor; logo que 
podia apoiar-se no p esquerdo. Levaria muito tempo de viagem, provavelmente uma semana, quase sempre dormindo ao raso.
              Desensill a mula, retirando no processo dois alforjas gastas, meio cheias de panfletos mau impressos e grosseiramente ilustrados. Fixei-me na ilustrao 
com interesse; era uma gravura em madeira de uns reguladores indignados, desafiando com expresso justiceira a um grupo de funcionrios, entre os quais havia uma 
figura achaparrada que identifiquei sem dificuldade: David Anstruther; embora no se mencionava seu nome o artista tinha captado com notvel facilidade o parecido 
do delegado com um sapo venenoso. Acaso Husband se dedicava agora a repartir essa sujeira se porta em porta?
              Fui para o estbulo, uma cova de pouca profundidade que Jamie tinha fechado com uma grosa paliada. Brianna dizia que era a sala de maternidade, posto 
que seus ocupantes habituais eram guas, vacas ou cerdas a ponto de parir.
              Perguntei-me que traria para o Hermon Husband por aqui...e se o estariam seguindo. Era dono de uma granja e um pequeno moinho, ambos a dois dias de 
caminho da Colina; costa pensar que s tivesse feito a viagem pelo prazer de nossa companhia.
              Husband era um dos lderes da Regulao; mais de uma vez o tinham encarcerado pelos panfletos provocadores que imprimia e distribua. Segundo minha 
notcias mais recentes, os quaisquer da zona o tinham excludo de suas reunies, pois viam com maus olhos suas atividades, que lhes pareciam uma incitao  violncia. 
No lhes faltava razo, a julgar pelo material que eu tinha lido.
              A porta do estbulo estava aberta e deixava escapar um aroma agradavelmente fecundo a palha, esterco e calor animal, junto com uma corrente de palavras, 
tambm fecundas. Jamie, que no era qualquer, sim acreditava em palavras malsoantes e as estava usando profusamente, embora em galico, que tende mais a quo potico 
ao vulgar. As efuses desse momento se podiam traduzir, a grandes rasgos, como: " Oxal lhe retoram as vsceras como serpentes e as tripas lhe estalem atravs das 
paredes da pana!O que a maldio dos corvos caia sobre ti, feto de uma estirpe de moscas de estercolero!"  Ou algo pelo estilo.
      -Com quem est falando?- perguntei-lhe, aparecendo a cabea pela porta-. E qual  a maldio dos corvos?
              Pisquei na sbita penumbra; dele s vislumbrava uma sombra alta recortada contra os montes de feno claro acumulados contra a parede. Ele se voltou 
para me ouvir e caminhou para a luz da porta. Tinha estado acontecendo-os dedos pela cabea; lhe tinham solto vrias mechas de cabelo e tinha fibras de palha enganchadas 
neles.
      -Tha negam na galladh torrach- disse, com um gesto feroz e um breve gesto para trs.
      -Branca filha de p...! Essa condenada cerda tornou a faz-lo!
              A grande cerda branca, embora dotada de excelente graxa e assombrosa capacidade reprodutiva, era tambm uma besta ardilosa que no tolerava o cativeiro. 
Quando fui entrar, derrubou-me ao cho em sua fuga para os espaos abertos.
      
      
      
      20
      
      Lies de tiro
      
      
      Brianna jogou uma olhada por cima de seu ombro, sentindo-se culpado. A casa tinha desaparecido sob um manto amarelo de folhas de castanho, mas o pranto de 
seu filho lhe ressonava nos ouvidos. 
      Ao ver que olhava para trs, Roger enrugou o gesto embora sua voz soou ligeira.
              - No lhe acontecer nada. J sabe que Lizzie e sua me o cuidaro bem.
              - Lizzie o mimar at malcri-lo - reconheceu ela.
              No gostava de abandon-lo. Ainda tinha em sua cabea, magnificados pela imaginao, os chiados de pnico do menino quando ela tentava desprender de 
sua camisa os deditos, para entregar-lhe a sua me; ainda via seu carita manchada de lgrimas, com expresso indignada ante a trao.
              Mas ao mesmo tempo, experimentava uma urgente necessidade de escapar. No via o momento de tirar-se essas manecitas pegajosas da pele e fugir na manh, 
livre como um dos gansos que voavam grasnando para o sul pelos passos da montanha.
              Disse-se, a contra gosto, que no sentiria to culpado por hav-lo deixado se no fundo no o tivesse desejado tanto.
              - Estou segura de que estar bem. - Dizia-o mais para tranqilizar-se que para o Roger-.  que...at agora nunca o tinha deixado durante tanto tempo.
              - Faz um dia precioso, no crie?
              A cara do Roger tinha perdido a expresso cautelosa. Ele tambm sorriu; seus olhos se suavizaram at um verde to intenso e fresco como o musgo que 
formava densos leitos ao p sombreado das rvores sob os quais passavam.
      Estupendo - disse ele - Que bem sinta sair de casa! Verdade?
              Ela olhou, mas aquilo parecia ser uma simples asseverao, sem motivos ulteriores. Em vez de responder, fez um gesto afirmativo, elevando a cara para 
a brisa que vagava entre as pceas e os abetos. Um redemoinho de ferrugentas folhas de lamo caiu sobre eles, adhirindose pasajeramente ao tecido das calas e s 
mdias de l fina. 
              - Espera um momento.
              Movida por um impulso, Bree se deteve para tirar o calado de couro e as mdias, e os colocou sem olhares na mochila que levava a ombro. Logo permaneceu 
imvel, com os olhos fechados em xtase, movendo os largos dedos descalos sobre um emplastro de musgo mido.
              - Roger, o que deveria provar isto!  maravilhoso!
      Ele arqueio uma sobrancelha, mas a obedeceu: deixou a arma (tinha-a pego ao sair e Bree o permitiu) e, descalando-se e colocando-se detrs dela, deslizou 
cautelosamente pelo musgo um p de comprimento ossos. Involuntariamente fechou os olhos, abrindo a boca em um " Ah!"  sem som.
              Sbitamente, ela se girou para beij-lo. Roger abriu os olhos pela surpresa, mas era rpido de reflexos: lhe rodeando a cintura com o brao, beijou-a. 
Na lonjura se ouviu um dbil grito. Talvez era o pranto de um beb, talvez s um corvo longnquo, mas a cabea do Bree girou para o som, como a agulha de uma bssola 
que apontasse fielmente para o norte.
              O momento se rompeu. Roger deu um passo atrs, soltando-a.
              - Quer que retornemos? - perguntou, resignado.
              Ela negou com a cabea, com os dentes apertados.
              - No. Mas nos afastemos um pouco mais da casa, quer? No convm incomod-los com o rudo. Dos disparos, quero dizer.
              Ele sorriu, enquanto Bree sentia que o sangue lhe ardia na cara. No, no podia fingir que no se deu conta de que existia mais de um motivo para essa 
expedio privada.
              - Claro, o dos disparos...-disse ele, agachando-se para recolher os meias trs-quartos e os sapatos-. V.
              Ela no quis calar-se, mas aproveitou a oportunidade para agarrar a arma. No  que no confiar nele, embora Roger admitia no ter disparado nunca 
uma arma aquela cone, mas sim gostava da sensao de lev-la.
              - vais caminhar descala? - Roger jogou um olhar inquisitivo a seus ps; logo,  montanha, onde um impreciso caminho serpenteava entre saras e ramos 
quedas.
              - S durante um momento - lhe assegurou ela-.Quando era pequena ia sempre descala. Papai...Frank...nos levava todos os veres  montanha: s Brancas 
ou aos Adirondacks. Passada uma semana, a planta de meus ps parecia de couro. Teria podido caminhar sobre brasas sem sentir nada.
              - Sim, tambm eu-disse ele, sorridente. E guardou seus sapatos. Logo assinalou com um gesto o vago atalho que se abria passo entre a maleza e as salientes 
granticas meio coveiras-.Calro que caminhar  borda do Ness ou pelo guijarral do Firth era um pouco mais fcil que andar por aqui, apesar das pedras.
              -  certo- reconheceu ela, olhando-se ceudamente seus ps-.Te  puseste a vacina antitetnica recentemente? Se por acaso pisa um pouco afiado e te 
corta?
              Ele j ia escalando diante, apoiando o p com cautela.
              - antes de passar atravs das pedras me pus todas as vacine existentes-assegurou-. Tifo, clera, dengue, de tudo. Seguro que o ttanos estava includo.
              - Dengue? Eu cria que me tinha vacinado de tudo, mas contra isso no. -Afundando os pois na fresca palhinha do pasto seco, deu vrios passos para alcan-lo-. 
No acredito que aqui seja necessrio.
              O atalho rodeava a curva levantada de um ribazo coberto de erva amarelada, e desaparecia sob um macio de discos escuros. Ele apartou as pesados ramos 
para deix-la passar. Bree se agachou para a perfumada penumbra, sustentando o mosquete com cuidado em ambas as mos.
              -  que no sabia com certeza aonde teria que ir, compreende? -A voz do Roger chegou desde detrs dela, despreocupada, apagada pelo ar sombreado sob 
as rvores-. Se se tratasse das cidades costeiras ou as ndias Ocidentais, ali havia...h -se corrigiu automaticamente-muitas enfermidades africanas gastas pelos 
navios negreiros. Pareceu-me melhor estar preparado.
              Ela aproveitou o escarpado do terreno para no responder, mas a horrorizava (e ao mesmo tempo lhe provocava um prazer vergonhoso) descobrir at onde 
estava disposto a chegar com tal de ir atrs dela.
              O estou acostumado a estava talher pelo pardo matizado da pinaza; mas estava to molhada que no rangia nem cravava os ps. Sentiu-a esponjosa, fresca 
e agradvel baixo ela; por sua elasticidade, era como se a massa de agulhas murchas medisse ao menos trinta centmetros de profundidade.
              -Ai! -Roger, menos afortunado, tinha escorregado ao pisar em um caqui podre; logo que conseguiu sujeitar-se a um arbusto de acebo, que o cravou com 
suas folhas espinhosas-. Mierda! -exclamou, chupando o polegar ferido-Menos mal que estou vacinado contra o ttanos!
              Ela assentiu, rendo, mas de repente algo a preocupou: ela e Roger estavam protegidos contra enfermidades como a difteria e o tifo, mas Jemmy no. 
              Tragou saliva ao recordar o acontecido a noite anterior. Esse cavalo tinha mordido a seu pai no brao. Claire fez que se sentasse ante o fogo, sem 
camisa, para lhe limpar e lhe enfaixar a ferida. Como Jemmy aparecia a cabea do bero, cheio de curiosidade, seu av sonriendo o ps em seus joelhos.
              -Arre, arre, cavalinho! - cantarolou, fazendo saltar ao pequeno-Ao passo!Ao trote!Ao galope!
              Mas o que se gravou na mente do Bree no foi a encantadora cena dos dois ruivos festejando-se com risadas; foi a luz do fogo refulgindo na pele de 
seu filho, translcida, perfeita, intacta,...e com um brilho prateado nas cicatrizes que cruzavam as costas de seu pai, vermelho escuro no corte sanguinolento do 
brao. Para os homens era uma poca perigosa.
              No poderia proteger ao Jem de fazer-se danifico: sabia. Mas ao pensar que ele ou Roger podiam ficar doentes ou lesar-se, se o fazia um n no estmago 
e um suor frio lhe percorria a cara.
              -  este um bom stio para praticar? -perguntou Roger.
              Tinham chegado a um brejo, uma pradaria elevada, densa de ervas e rododendros. No lado oposto havia um grupo de lamos, cujos ramos plidos tremulavam 
com uns quantos farrapos de folhas douradas e carmesins, vvidas contra o profundo azul do cu. Um arroio um pouco escondido gorgoteaba colina abaixo; um falco 
de cauda vermelha voava em crculos. O estava bem alto, quente sobre seus ombros. E a pouca distncia havia um agradvel ribazo coberto de erva. 
              -Perfeito-disse Bree.
              E baixou o mosquete que levava o ombro.
      
      
      Era uma arma magnfica, que superava o metro e meio de longitude, mas to bem equilibrada que podia sustentar-se descansando com o brao estendido sem que 
se movesse. Isso estava fazendo Brianna, a maneira de demonstrao. 
              -V? - disse, recolhendo o brao e apoiando a culatra contra seu ombro, em um movimento fluido-. Esse esse o ponto de equilbrio; tem que pr a mo 
esquerda aqui; com a direita, agarra a culatra e a parientas contra seu ombro. Coloca-a bem, que no se mova. O retrocesso  muito forte.
              Golpeou levemente a culatra de nogueira contra o ombro coberto de pele de veado; logo baixou a arma par dar-lhe ao Roger. Ele observou, irnico, que 
punha menos ternura e cautela quanto lhe entregava ao beb. Por outra parte, at o que tinha podido ver, Jemmy era muitos mais indestrutvel que o mosquete.
              Bree lhe ensinava, ao princpio vacilante e relutante a corrigi-lo. Mas ele se mordia a lngua e a imitava com esmero, seguindo a fcil sucesso de 
passos: abrir o cartucho com os dentes, cevar, carregar, martelar e verificar. Embora vexado por sua prpria estupidez de novato, secretamente estava fascinado (e 
no pouco excitado) pela ferocidade que adquiriam os movimentos de sua esposa.
              -trouxeste o lanche? -brincou ele-. Eu esperava que matssemos algo e nos comssemos isso.
              Sem lhe emprestar ateno, ela extraiu um pudo leno de cor clara para utilizar como branco. Sacudiu-o com ar crtico. Em outros tempos cheirava a 
jasmins e a erva; agora, a plvora, couro e suor. Roger aspirou esse aroma, acariciando disimuladamente a madeira da culatra.
              - Preparado? - perguntou ela, lhe dirigindo um sorriso.
              - Sim, claro.
              - Revisa sua pederneira e sua carga. Eu irei colocar o branco.
              Vista desde atrs, com o cabelo avermelhado pacote com fora, vestida com essa folgada camisa de caador que a cobria dos ombros at as coxas, o parecido 
com seu pai se intensificava de um modo surpreendente. Mas era impossvel confundi-los: com calas ou sem eles, Jamie Fraser nunca tinha tido esse traseiro.
              Havia outro motivo par lhe pedir a Brianna que sasse a disparar com ele. No cabia pensar que esse motivo permanecesse oculto: quando ele o sugeriu, 
Claire os tinha cuidadoso a ambos com um ar divertido e sapiente, que fez exclamar a Brianna, em tom de acusao: " Mame!" .
              depois dessa muito breve noite de bodas, na congregao, esta era primeira e nica vez que estava a ss com a Brianna, livre das insaciveis exigncias 
de sua vergntea.
              Quando ela baixou o brao, viu um brilho do sol refletido em sua boneca: tinha posto seu bracelete, e ele o comprovou com um intenso prazer. O tinha 
agradvel ao lhe pedir que se casasse com ele, fazia toda uma vida, nas glaciais brumas de uma noite, no Inverness. Era um simples aro de prata que tinha umas frases 
gravada em francs: Je t'amie, dizia; " amo-te" . Um peu, beaucoup, passionemetn, ps du tout: "  um pouco, muito, apaixonadamente, nada absolutamente" .
              - Passionement- murmurou, enquanto imaginava sem nada em cima, salvo esse bracelete e seu anel de bodas.
              Mas terei que comear com o primeiro. E agarrou um novo cartucho. Ao fim e ao cabo tinham tempo.
      
      Uma vez segura de que Roger ia adquirindo bons hbitos para carregar a arma, embora ainda no tivesse velocidade, Brianna lhe permitiu apontar e, por fim, 
disparar. Continuando, baixou o mosquete e olhou a Brianna com um grande sorriso. Ela explorou em uma gargalhada.
              - Parece um desses cmicos que se disfaram de negros-disse, com a ponta do nariz avermelhado pela diverso-. Toma, te limpe um pouco, que agora vamos 
disparar desde mais longe. 
              Em troca da arma lhe deu um leno limpo. Ele se limpo a fuligem da cara, enquanto Bree limpava o canho e recarregava sem esforo. de repente ela levantou 
bruscamente a cabea, cravando os olhos em um carvalho, ao outro lado da pradaria.
              Roger no tinha ouvido  nada, pois ainda estava ensurdecido pelo rugir do mosquete, mas ao voltar-se divisou um pequeno movimento: era um esquilo cinza, 
em equilbrio sobre o ramo de um pinheiro, a nove ou dez metros do cho.
              Sem a menor vacilao, Brianna apoiou a arma contra seu ombro e pareceu disparar, tudo a um tempo. O ramo que sustentava ao esquilo voou em uma chuva 
de lasca; o animal caiu a terra, ricocheteando no trajeto contra os elsticos ramos da confira.
              Roger correu at a rvore, mas precisava dar-se pressa: o esquilo jazia morta, flcida como um trapo.
              - Bom disparo- a felicitou, mostrando a pea a Brianna, que se aproximava de v-la-. Mas no tem uma s marca. Deve hav-la matado com susto.
              Ela sustentou seu olhar.
              - Se tivesse querido lhe dar, Roger, o teria feito- assegurou, com um sotaque de recriminao-. E se o tivesse feito, agora teria na mo um punhado 
de pur de esquilo. s peas desse tamanho no lhes aponta diretamente: aponta s patas e as derruba. - Parecia uma bondosa professora de maternal corrigindo a um 
aluno lento.
              - Ah, sim? - Ele reprimiu uma leve irritao-. Isso lhe ensino isso seu pai?
              Ela o olhou com ar estranho.
              - No. Ensino-me isso Ian.
              A resposta foi um murmrio que no dizia nada. Ian era um tema incmodo para a famlia. Todos amavam a esse primo da Brianna e o sentiam falta de. 
Mesmo assim, por delicadeza se abstinham de mencion-lo ante o Roger.
              No tinha sido exatamente culpa dela que Ian Murray ficasse com os mohawk, mas tampouco se podia negar que ele tinha tido algo que ver com o assunto. 
Se no tivesse matado a esse ndio...
              No era a primeira vez que Roger apartava as lembranas confusas daquela noite no Snaketown. Mesmo assim podia sentir as lembranas fsicas: a quebra 
de onda de terror no ventre: o estremecimento do impacto nos msculos de seus braos ao cravar com toda sua fora o extremos quebrado de uma vara na sombra que fazia 
aparecido ante ele, saindo da lhe uivem escurido. Uma sombra muito slida.
              Recoda ao Murray com claridade, embora apenas o tinha visto; no era mais que um moo, desajeitado e alto, de cara feia, mas simptica. 
              Ao pensar em sua cara, viu-a como a ltima vez: recm marcada com uma tatuagem em forma de ponto, que cruzava as bochechas e a ponte do nariz. Estava 
bronzeado, mas a pele do couro cabeludo, recm barbeado, era de um tom claro e rosado, como o traseiro de um beb.
              - O que acontece?
              A voz da Brianna o sobressaltou, fazendo que ao disparar o canho saltasse para cima. O projtil se desviou ainda mais que os anteriores. Em doze disparos 
no pde fazer um solo branco.
              - O que acontece? - repetiu ela.
              Roger aspirou fundo e se esfregou a cara com a manga, sem que lhe importasse manchar a de fuligem.
              - Sua primo- disse abruptamente-. Lamento o que lhe passou, Bree.
              A cara da moa se abrandou ao suavizar o cenho preocupado.
              - OH! - disse. E se aproximou, lhe apoiando uma mo no brao, de modo que ele sentiu o calor de sua proximidade. Logo, com um profundo suspiro, apoiou 
a frente em seu ombro-. Bom- disse a fim-, eu tambm o lamento, mas no tem mais culpa que ou papai... ou o mesmo Ian. - Emitiu um pequeno bufo que talvez quis ser 
risada-. Se algum tiver a culpa, essa  Lizzie... e a ela ningum o reprova.
              Ele sorriu com certa ironia. 
              - Sim, compreendo- disse, cobrindo  com uma mo a suavidade de sua trana. Tem razo. Entretanto...matei a um homem, Bree.
              Ela no se apartou nem fez gestos de surpresa; pelo contrrio, ficou completamente imvel. Ele tambm; era o ltimo que pensava dizer.
              - No me havia isso dito- manifestou ela, por fim, levantando a cabea para olh-lo. Parecia indecisa, como se vacilasse continuar falando do tema. 
A brisa lhe cruzou a cara com uma mecha de cabelos, sem que ela fizesse nada por apart-los.
              - Eu... bom, para falar a verdade, logo que pensei nisso.
              Roger deixou cair a mo, e a imobilidade se quebrou. Bree deu um passo atrs.
              - Sonha terrvel, verdade? Mas... - Procurou trabalhosamente as palavras adequadas. Embora no tinha sido sua inteno, agora que tinha comeado a 
falar, sentia a urgente necessidade de explicar-se.
              - Foi de noite, durante um combate na aldeia. Escapei. Tinha uma parte de vara rota na mo. Quando algum saiu da escurido...
              de repente encurvou os ombros, compreendendo que no havia maneira possvel de explic-lo. Baixou a vista ao mosquete que ainda tinha na mo.
              - Ignorava que o tivesse matado- disse muito fico, a vista no pederneira-. Nem sequer lhe vi a cara. Incluso no sei quem era...embora sem dvida o 
conhecia; Snaketown era uma aldeia pequena e eu conhecia todos os NE rononkwe. 
              De sbito se perguntou por que no lhe tinha ocorrido pensar quem era o morto. Obviamente, no o tinha feito porque preferia no hav-lo feito.
              - NE rononkwe? - Ela repetiu as palavras com ar incerto.
              - Os homens... os guerreiros... os valentes. Assim  como se chamam, Kahnyen'kehka. 
              Sentiu que Bree voltava a aproximar-se, mas sem sentir repulsa.
              - Arrepende-te de hav-lo feito?
              - No- respondeu o imediatamente. Levanto a vista-. Quer dizer...sim, lamento que tenha acontecido. Mas no me arrependo de hav-lo feito.
              Ele estava no Snaketown como escravo e no sentia nenhum afeto pelos mohawk, embora os havia bastante decentes. Nunca teve inteno de matar: s se 
defendeu. E nas mesmas circunstncias voltaria faz-lo.
              No obstante havia uma pequena chaga de culpa, pela facilidade com que tinha descartado essa morte. Os kahnyen'kehka cantavam e narravam histrias 
de seus mortos, mantendo a memria viva em volto das fogueiras, nomeando-os e relatando suas faanhas por muitas geraes. O mesmo faziam os escoceses de Terras 
Altas.
              Mesmo assim, tinha a escura sensao de ter privado ao morto desconhecido, no s de sua vida, mas tambm de seu nome, ao tratar de apag-lo com o 
esquecimento, de comportar-se como se essa morte no tivesse acontecido, s para livrar-se de tomar conscincia dela. E isso estava mau, disse-se.
              Bree permanecia quieta, mas no imvel; seus olhos descansavam nele com um pouco parecido  compaixo. Mesmo assim, Roger desviou a vista para o mosquete 
cujo canho aferrava. Seus dedos manchados de fuligem tinham deixado no metal negros ovalides gordurentos. Ela alargou a mo para agarrar a arma e apagou as marcas 
com a aba de sua camisa. 
              Roger deixou que ficasse. Enquanto a observava, esfregou-se os dedos sujos nas calas.
              -  que... no te parece que, se tiver que matar a algum, deveria ser com um propsito?
              Ela no respondeu, mas seus lbios se franziram um pouco. Logo voltaram a relaxar-se.
              - Se isto disparas contra algum, Roger, ser com um propsito- disse em voz baixa.
              Cravou-lhe os olhos azuis, apaixonados. O que ele tinha tomado por compaixo era, em realidade, uma fera quietude, como pequenas chamas azuis em um 
lenho j consumido. 
              - E se tiver que matar a algum, Roger, quero que o faa com inteno.
      
      
      Uns vinte e cinco disparos depois, ele podia fazer branco nos tacos de maneira ao menos em um de cada seis intentos. Ela notou que comeavam a lhe tremer os 
msculos do antebrao, cansados pelo esforo. Em adiante, falharia cada vez mais por pura fadiga. E no seria bom para ele.
              Tampouco para ela. Comeavam a do-los peitos, lojas de comestveis de leite. Logo terei que fazer algo com isso. Depois do ltimo disparo se fez cargo 
do mosquete.
              - vamos comer- disse, sorridente-. Estou esfomeada.
              O esforo de disparar, recarregar e pr os brancos os tinha mantido em calor, mas se aproximava o inverno e o ar estava frio. Muito frio, lamentou-se 
ela, para tender-se nus entre as samambaias secas. Mas o sol esquentava e ela havia tomando a previso de pr dois edredons velhos em sua mochila, junto com o almoo.
              Roger guardava silncio, mas era um silncio cmodo. Enquanto ele cortava fatias de queijo duro, baixas as pestanas, ela admirou seus membros comprido; 
os dedos, pulcros e rpidos; a boca suave, e uma gota de suor que rodava pela curva bronzeada de seu ma do rosto, diante da orelha.
              No sabia com certeza como interpretar o que havia lhe contando. De qualquer modo era bom que o houvesse dito, embora no gostava de pensar em sua 
estadia com os mohawk. Para ela tinham sido tempos to maus como par Roger: sozinha, grvida, sem saber se ele ou seus pais voltariam jamais. Ao alargar a mo para 
aceitar uma parte de queijo, roou-lhe os dedos e se inclinou para diante, para incit-lo a beij-la. 
              Ele o fez; logo se apartou. Seus olhos, livres da sombra que os acossava antes, eram de um verde suave e claro.
              - Pizza- disse Roger.
              Ela piscou, mas imediatamente ps-se a rir. Era um de seus jogos: alternar-se para mencionar as coisas que sentiam saudades daquele outro tempo, o 
de antes...ou o de depois, segundo como se olhar.
              - A Coca-cola- replicou imediatamente-. Acredito que poderia fazer pizza, mas de que serve a pizza sem a Coca-cola?
              - A cerveja  perfeita para lhe acompanh-la assegurou ele-. Mas de verdade crie que poderia fazer pizza?
              - No vejo por que no. - Ela mordiscou o queijo, pensativa-. Este no serviria- decidiu; continuando, fez uma pausa para mastigar e tragar, e logo 
bebeu um comprido gole de cidra-. Agora que o penso, isto iria muito bem com pizza. - Baixando a bota, lambeu de seus lbios o resto doce, levemente alcolico-. 
Mas o queijo...possivelmente se pudesse tusar o de ovelha. Papai trouxe um pouco de Salem, a ltima vez que esteve ali. Pedirei-lhe que consiga um pouco mais para 
ver como se funde.
               Logo entreabriu os olho para o sol brilhante e plido, fazendo seus clculos.
              - Mame tem tomate seco em abundncia. E toneladas de alho. Sei que tambm h manjerico. Quanto ao rgo, tenho minhas dvidas, mas poderia prescindir 
dele. E a respeito da massa... -Desprezou o detalhe com um gesto da mo-. Farinha, gua e graxa. Nenhum problema.
              Roger, rendo, deu-lhe uma bolacha cheia de presunto e do picadinho da senhora Bug.
              -" De como chegou a pizza s colnias" -disse, elevando a bota de cidra em um breve brinde-. A gente sempre se pergunta de onde saram os grandes inventos 
da humanidade. Agora sabemos!
              - Talvez sabemos, sim -disse ela brandamente, ao cabo de um instante. - Perguntaste-te alguma vez por que estamos aqui?
              -  obvio. - O verde de seus olhos era agora mais escuro. - Seu tambm, verdade?
              Ela assentiu com a cabea e deu uma dentada  bolacha; o picadinho estava doce pela cebola e tambm picante. Os trs tinham pensado nisso, certamente. 
Ela, Roger e sua me. Sem dvida alguma, esse passo atravs das pedras devia ter algum sentido. Entretanto... seus pais estranha vez falavam da guerra e as batalhas, 
mas pelo pouco que diziam (e pelo muito que tinha lido) sabia o casuais e sem sentido que revistam ser estas coisas.
              Roger esmiuou um resto de po entre os dedos e arrojou as migalhas a um par de metros. 
              - Bom -disse-, se alguma vez o descobrir, no deixe de me dizer isso quer?
              Bree sentia o pulsar do corao lhe fazendo ccegas nos peitos; pequenas descargas eltricas, que o baluarte do esterno j no podia conter, beliscavam-lhe 
os mamilos. No se atreveu a pensar no Jem; bastaria uma insinuao para que seu leite emanasse a correntes. 
              Sem dar-se tempo a pens-lo muito, tirou-se a camisa pela cabea.
              Roger tinha os olhos abertos, fixos nelas, suaves e brilhantes como o musgo sob as rvores. Ela desfez o n da banda de linho e sentiu o toque frio 
do vento nos peitos nus. Sustentou-os com as mos; a pesadez se iniciava, lhe faam ccegas.
              - Vem -disse em voz fica, os olhos fixos nele-. Date pressa. Necessito-te.
      
      
      Estavam meios vestidos, comodamente enredados sob o edredom esfarrapado, dormitados e pegajosos pelo leite seca. Ainda os rodeava o calor da paixo.
              Estaria acordado Roger? Em vez de girar a cabea ou abrir os olhos, para comprov-lo, ela tratou de lhe enviar uma mensagem: uma lenta e pessoas palpitao 
do corao, uma pergunta que navegasse de sangre a sangue. " Est a?" , disse, sem voz. Durante um momento no aconteceu nada. Sua respirao lenta e regular era 
um contraponto ao suspiro da brisa entre as rvores e a erva, como o fluxo que chega a uma costa arenosa. Logo, o dedo do Roger lhe roou a palma, to leve que poderia 
ter sido o contato de uma aleta ou uma pluma.
              " Estou aqui-dizia-.E voc?" 
              A mo do Bree se fechou sobre a dele. E Roger se voltou para ela.
      
      
      Nessa poca do ano, a luz morria cedo. Embora ainda faltava um ms para o solstcio de inverno, a meia tare o sol j roava o pendente do Black Mountain. Quando 
giraram para o este, rumo ao lar, suas sombras se estiraram para frente at alcana uma longitude impossvel.
              Bree levava o mosquete. Embora no tinham sado a caar, se se apresentava a oportunidade no a desperdiaria. O esquilo que tinha matado antes j 
estava poda e guardada em sua mochila, mas logo que alcanava para dar um pouco de sabor ao guisado de verduras. No viria mal caar umas quantas mais. Ou uma zarigeya, 
pensou, sonhadora. 
              Um bando de codornas saiu de um arbusto prximo como um estalo de metralha. Ela deu um coice, com o corao na boca.
              - Esses se comem, no? -Roger assinalava com a vista a ltima daquelas bolinhas cinzas e brancas. Ele tambm se sobressaltou, mas no tanto como ela; 
Bree o notou com chateio.
              - Sim -disse, mal-humorada por haver-se deixado pilhar despreparada-. Mas no os dspares com o mosquete, usa uma arma para aves, com perdigones.  
como uma escopeta.
              - J sei -replicou ele, seco.
              Bree no tinha desejos de conversar; aquilo a tinha arrancado de seu humor aprazvel. Os peitos comeavam a lhe pesar outra vez; era hora de ir a casa, 
a pelo Jemmy.
              Suspirou profundamente. Roger riu pelo baixo.
              - Hum? -perguntou ela, girando a cabea.
              Roger lhe rodeou a cintura com um brao.
              - foi um dia precioso, verdade? -comentou ele, brandamente.
              - Sim -confirmou ela sonriendo.
              ia dizer algo mais, mas por cima do sussurro dos ramos lhe chegou outro rudo. apartou-se sbitamente.
              - O que...?
              Mas ela se levou um dedo aos lbios para sosseg-lo. Logo se escorreu para um grupo de carvalhos, chamando-o por gestos.
              Era um bando de perus que escavavam tranqilamente sob um carvalho grande, desenterrando vermes. O sol, j baixo, iluminava a iridiscencia de seus 
peitos, fazendo que o negro desbotado das aves refulgisse em pequenos arco ris a cada movimento. 
              Bree j tinha a arma carregada, mas no o tinha cevado. Procurou provas o bote de plvora que levava no cinturo e encheu a cazoleta, quase sem apartar 
a vista dos perus. Roger se escondeu a seu lado. Lhe deu uma cotovelada, lhe oferecendo a arma com uma sobrancelha arqueada. As aves estavam apenas a vinte metros 
e at a mais pequenas tinham o tamanho de uma bola de futebol.
              Ele vacilou, mas o desejo de tent-lo era visvel em seu olho. Bree lhe ps firmemente a arma nas mos e assinalou um oco no matagal. Roger trocou 
cautelosamente de posio, procurando uma linha visual limpa. Bree abria e fechava as mos; morria por corrigi-lo, por apertar o gatilho.
              Viu que aspirava fundo e continha o flego. Logo ocorreram trs coisas, em to rpida sucesso que pareceram simultneas. O mosquete se disparou com 
um enorme fum!, uma chuva de folhas secas brotou da terra, sob a rvore, e quinze perus enlouquecidos correram diretamente para eles, como uma equipe de futebol 
demente, entre histricos glugls. 
              O mosquete voou pelo ar. Brianna o apanhou e extraiu um cartucho da caixa que levava no cinturo. Enquanto, o ltimo peru correu para o Roger, serpenteou 
par esquiv-lo e, ao v-la, lanou-se em direo oposta. Pr fim passou como raio entre os dois, glugluteando alarma e imprecaes.
              Bree se deu a volta e apontou no momento em que o ave abandonava o cho. Por uma frao de segundo viu o vulto negro recortado  contra o cu difano 
e disparou contra as plumas de sua cauda. O peru caiu a quarenta metros de distncia e tocou terra com um golpe seco, audvel.
              Ela se esteve quieta um momento. Logo baixou lentamente o mosquete. Roger a olhava, boquiaberto, apartando-os arranhes sanguinolento com o tecido 
da confisca. Bree lhe sorriu levemente; tinha as mos suarentas contra a culatra de madeira e o corao lhe palpitava com fora, em uma reao tardia. 
              -Deus bendito! -exclamou ele, impressionado-. Isso no foi s questo de sorte verdade?
              - Pois... em parte -disse ela, tratando de ser modesta. Mas fracassou. Um enorme sorriso lhe floresceu na cara-. Possivelmente a metade.
              Ele foi cobrar a presa, enquanto Bree voltava a limpar a arma. Retornou com um ave de cinco quilogramas, que gotejava sangue como se fora um cantil 
agujerada.
              -Que inseto! -Roger estirou o brao para que escorresse-. No acredito ter visto nenhum antes, como no fora assado em uma bandeja, com enfeite de 
castanhas e batatas assadas. -Olhou-a com grande respeito-. Foi um disparo estupendo, Bree.
              Ela avermelhou de prazer, contendo-se par no dizer: " Mas se no ter sido nada" . Se conformou lhe dando as obrigado.
              Continuaram a marcha para sua casa. Roger levava o ave lhe gotejem, um pouco separada do corpo.
              - Voc tampouco faz muito tempo que pratica o tiro -comentou, ainda impressionado-. Seis meses, talvez?
              Ela no queria descender na avaliao da faanha; mesmo assim se ponho-se a rir e lhe disse a verdade, encolhendo-se de ombros.
              - Mas bem seis anos. Provavelmente dez.
              - Como?
              - Papai... Frank... me ensino a disparar quando tinha onze ou doze anos. Aos treze deu de presente um calibre vinte e dois. Aos quinze j levava a 
disparar contra alvos da terracota. Durante os fins de semana de outono amos caar pombas e perdizes.
              Roger a olhou com interesse.
              - Supus que te teria ensinado Jamie. No tinha nem idia de que Frank Randall fora to esportista.
              -  que no o era -replicou ela, pausada-. OH!, sabia disparar, porque durante a Segunda guerra mundial esteve no exrcito. Mas no praticava muito. 
limitava-se a me ensinar e a olhar. Em realidade, nem sequer tinha armas.
              - Que estranho!
              - Tambm sinto saudades -continuou, tentando mostrar-se indiferente-, depois de que me contou o de sua carta e tudo , na congregao. 
              O calvo um olhar agudo.
              - O que  o estranho?
              Bree aspirou fundo, sentindo que as bandas de linho lhe afundavam nos peitos.
              - Que um homem que no sabia montar nem disparar se tomasse tantas molstias para que sua filha soubesse fazer as duas coisas. E no porque estivesse 
de moda entre as meninas. -Tratou de rir-. Em Boston, ao menos.
              Por um momento no se ouviu outra coisa que o sussurro dos pois entre as folhas secas.
              - Jesus! -murmurou Roger, ao fim-. Procurou o Jamie Fraser. Dizia-o em sua carta.
              - E achou a um Jamie Fraser. Isso tambm o dizia. O que no sabemos  se era o que correspondia. -Bree mantinha a vista fixa em suas botas, atenta 
s serpentes. No bosque havia serpentes cascavel e cabea de cobre. de vez em quando as via tomando sol nas pedras ou em cima de troncos ensolarados. 
              Roger aspirou fundo, levantando a cabea.
              - Sim. E agora te est perguntando que mais pde ter descoberto.
              Ela assentiu sem olh-lo.
              - Talvez me descobriu  -disse pelo baixo, com um n na garganta-. Talvez sabia que eu cruzaria atravs das pedras. Em todo caso no me disse isso.
              Ele se deteve e a agarrou de um brao para gir-la sobre ele.
              - E talvez no sabia -disse com firmeza-. Possivelmente s pensou que o tentar, se alguma vez averiguava o do Fraser. E se por acaso o fazia... quis 
que estivesse a salvo. Eu acredito que isso  o que desejava, soubesse o que soubesse: que estivesse a salvo. -Esboou um sorriso um pouco torcido-. Quo mesmo voc 
quer para mim, verdade?
              Ela soltou um fundo suspiro. Essas palavras a consolavam. Nunca tinha posto em dvida que Frank Randall a tinha querido durante toda sua infncia e 
sua adolescncia. E no queria duvidar tampouco agora. 
              - Sim -disse, ficando nas pontas dos ps para lhe dar um beijo.
              - Pois bem. -Lhe tocou brandamente o peito, ali onde a pele de veado mostrava j um pequeno emplastro molhado-. Jem tem que ter fome. Vamos. J deveramos 
estar em casa.
              E continuaram baixando a montanha, por volta do dourado mar de folhas de castanho, contemplando as sombras abraadas que os prediziam.
              - Crie que...?-comeou ela. Mas vacilou.
              A cabea de uma sombra se inclinou para a outra, atenta.
              - Crie que Ian ser feliz?
              - Isso espero -respondeu Roger, rodeando o brao que a rodeava-. Se tiver uma esposa como a meu... estou seguro de que sim.
      
      
      21
      
      Vinte sobre vinte
      
      Agora sujeita isto sobre o olho esquerdo e l a linha mais pequena que possa ver com claridade.
      Com ar de grande pacincia, Roger aproximou a colher de madeira a seu olho direito e entreabriu o esquerdo, concentrando-se na folha de papel que eu tinha 
parecido na porta da cozinha. Ele estava de p no vestbulo da entrada, pois o corredor era o nico lugar do interior da casa que media uns seis metros.
      - Et seu Brute? -leu. Logo baixou a colher para me olhar, com uma sobrancelha levantada-. Nunca tinha visto nenhuma tabela to culta.
      -  que sempre pensado que as normais som bastante aborrecidas -lhe expliquei-. Agora o outro olho, por favor. Qual  a linha mais pequena que pode ler com 
facilidade?
      Ele investiu a colher, entortando os olhos ante as cinco linhas escritas  mo, cujos tamanhos decresciam to uniformemente como eu tinha sido capaz de faz-lo. 
Logo leu lentamente a terceira.
      - No coma mais cebollas. De quem  isto?
      - Do Shakespeare,  obvio -respondi eu, tomando nota-. No coma cebolas nem alho, pois devemos exalar um suave Essa aliento.  a mais pequena que chega 
a ler?
      Vi que a expresso do Jamie se alterou sutilmente. Ele e Brianna estavam de p detrs do Roger, no alpendre, presenciando os procedimentos com grande interesse. 
Brianna se inclinava levemente para seu marido, com expresso algo ansiosa, como se assim o impulsionasse a ver. A expresso de seu pai, em troca, delatava uma leve 
surpresa, um pouco de piedade... e um inegvel brilho de satisfao. Pelo visto ele se podia ler a quinta linha sem dificuldade. Lo honro, de Julho Csar: Porque 
era valente, honro-o; porque era ambiciosa, o mat.
      Ele deveu perceber meu olhar, pois sua expresso se desvaneceu; imediatamente sua cara reassumiu ao acostumado bom humor inescrutvel. Entreabri os olhos, 
para lhe dizer: No me engaas, e ele apartou a vista. A comissura de seus lbios se contraiu levemente.
      - No os nada da seguinte? -Bree se tinha aproximado um pouco mais ao Roger, como atrada por osmose. Olhou atentamente o papel; logo, a seu marido, lhe dando 
nimos. Obviamente ela tambm podia ver as duas ltimas linhas sem dificuldade.
      - No -disse Roger, bastante seco.
      A pedido do Bree tinha mimado que eu lhe examinasse os olhos, mas era evidente que isso no o fazia feliz. Descarregou a colher de madeira contra a palma de 
sua mo, impaciente por terminar.
      - Algo mais?
      - S uns poucos exerccios -disse, tratando de acalm-lo-. Vem aqui. H mais luz.-Apoiei-lhe uma mo no brao para lev-lo a meu consultrio, enquanto olhava 
com dureza aos outros-. Brianna, por que no pe a mesa para jantar? No demoraremos muito.
      Ela vacilou um instante, mas Jamie lhe disse algo em voz baixa. Roger estava de p entre o caos de minha consulta, como um urso que ouvisse ladrar aos ces 
na distncia: simultaneamente vexado e precavido.
      - No  necessrio tudo isto -disse, enquanto eu fechava a porta-. Vejo bem.  s que ainda no tenho muita pontaria. No me passa nada mau nos olhos.
      Ainda assim no fez intento algum de escapar. Eu captei um tom dbio em sua voz.
      - Isso acredito, sim -disse com ligeireza-. De qualquer modo, deixa que te veja. S por curiosidade...
      Obtive que se sentasse, embora a contra gosto, e a falta da pequena lanterna habitual, acendi uma vela. Passei-a por diante de sua cara, para cima, para baixo, 
 direita,   esquerda, lhe pedindo que no deixasse de olh-la e observando as mudanas, enquanto seus olhos se moviam de um lado a outro. Como para esse exerccio 
no se requeriam respostas, comeou a relaxar-se um pouco; gradualmente afrouxou as mos contra as coxas.
      - Muito bem -disse, em tom grave e sedativo-. Sim, assim ... Pode olhar para cima, por favor? Sim... Agora para baixo, para o rinco da janela. Estraguem...sim. 
Agora me olhe outra vez. V este dedo? Bem, agora fecha o olho esquerdo e me diga se se mover. Estraguem...
      Por fim apaguei a vela de um sopro e estirei as costas com um pequeno grunhido.
      - Bem -disse ele, com leveza-. Qual  o veredicto, doutora? Devo ir fazer me um fortificao branco?
      Agitou a mo para ventilar as volutas de fumaa da vela apagada, fingindo indiferena; to somente o desmentiu uma ligeira tenso nos ombros. Ri.
      - No, ainda no necessita um co guia de cegos, nem sequer culos. No obstante... h dito que nunca tinha visto uma tabela literria. Deduzo que as viu de 
outro tipo. Usava culos quando foi menino? 
      Ele enrugou o sobrecenho, retrocedendo em sua mente.
      - Sim - disse lentamente. A sua cara apareceu um sorriso-. Melhor dizendo, tive um par. Dois, trs. Quando tinha sete ou oito anos, acredito. Eram uma molstia 
e medaban dor de cabea, de modo que tendia s esquecer no nibus, ou entre as pedras do rio... Em realidade, no recordo as haver tido postas durante mais de uma 
hora em cada ocasio. Quando perdi o terceiro par, meu pai se deu por vencido. - encolheu-se de ombros-. Se tiver que ser franco, sempre pensei que no as necessitava.
      - Bom, por agora no.
      Ao captar o tom de minha voz me olhou com ar intrigado.
      - Como?
      -  um pouco mope do olho esquerdo, mas no tanto como para que te cause dificuldades. -Esfreguei-me a ponte do nariz, como se percebesse ali o belisco dos 
culos-. Me deixe adivinhar... Quando foi  escola jogava bem ao jquei e ao futebol, mas no ao tnis.
      Ele riu. Seus olhos se enrugaram nas comissuras.
      - Tnis? Nas escolas primrias do Inverness? Haveramos dito que era um jogo para maricas. Mas te compreendo. E tem razo: jogava bem ao futebol, mas no servia 
para o tnis. por que?
      - Porque no tem viso binocular -expliquei-.  provvel que algum o detectasse quando foi menino e que tratasse de lhe corrigir isso com lentes prismticas. 
Mas aos sete ou oito anos j era tarde -me apressei a acrescentar, vendo que no compreendia-. Para que d resultado  preciso faz-lo antes dos cinco anos.
      - Que no tenho... viso binocular? Mas no a temos todos? Quer dizer... os dois olhos me funcionam, verdade?
      Parecia um pouco desconcertado. olhou-se a palma da mo, fechando um olho e logo o outro, como se esperasse encontrar alguma resposta em suas linhas.
      - Seus olhos funcionam bem -lhe assegurei-. O problema  que no o fazem de uma vez. Em realidade  um transtorno bastante comum; muitos o sofrem sem sab-lo. 
Em algumas pessoas, no se sabe por que, o crebro nunca aprende a fundir as imagens que vm dos dois olhos, para conformar uma imagem tridimensional.
      - No vejo em trs dimenses? -agora me olhava com olhos muito entreabridos, como se esperasse lombriga sbitamente aplanada contra o muro.
      - A verdade  que... no tenho equipe de oculista. -Indiquei  com um gesto a vela apagada, a colher de madeira, as figuras desenhadas e um par de varinhas 
que tinha estado usando-. Nem estudos especializados. Mas estou quase segura, sim.
      Expliquei-lhe o que sabia, e ele me escutava em silncio. Sua vista parecia bastante normal quanto a acuidade. Mas como seu crebro no fundia a informao 
de seus olhos, ele devia calcular a distncia e a localizao relativa dos objetos por simples comparao inconsciente dos distintos tamanhos, em vez de formar uma 
verdadeira imagem tridimensional. O qual significava que...
      - V bem para realizar quase qualquer tarefa que deseje -lhe assegurei-. E  muito provvel que aprenda a disparar bem. De fato, a maioria da gente fecha um 
olho para disparar. Mas poderia ter dificuldades para disparar contra brancos mveis. Embora veja aquilo aos que aponta, ao carecer de viso binocular talvez no 
possa determinar exatamente onde est, a fim de dar no branco.
      - Compreendo -disse ele-. Com que se se trata de brigar, o melhor seria que eu limitasse aos pauladas.  assim?
      - Segundo minha humilde experincia quanto a conflitos escoceses, a maioria das brigas no passam dos pauladas.
      Isso lhe arrancou um pequeno grunhido de diverso, mas no disse mais. Permaneceu em silncio, refletindo, enquanto eu recolhia a desordem prpria de um dia 
de consulta.
      Atravs da parede ouvia vozes apagadas; a sbitas choramingao do Jemmy, uma breve exclamao da Brianna, outra do Lizzie; logo, a voz grave do Jamie que 
evidentemente se ocupava do beb enquanto Bree e Lizzie se ocupavam do jantar.
      Roger tambm os ouviu; vi que sua cabea girava para o som.
      -Que mulher! -disse, com um sorriso-. Sabe caar a presa e cozinh-la. O qual  uma sorte, dadas as circunstncias -e acrescentou-: Pelo visto, eu no vou 
pr muita carne em nossa mesa.
      -Ora! -exclamei com energia, para impedir qualquer intento de autocompasin-.  Eu nunca cacei nada e ponho comida nesta mesa todos os dias. Se crie que sua 
obrigao  matar algo, h frangos, gansos e porcos em abundncia. E se consegue apanhar a essa condenada cerda branca antes de que arrune por completo nossos alicerces, 
ser o heri do lugar.
      Isso o fez sorrir, embora com um sotaque de ironia.
      - Espero recuperar meu autorespeto, com porcos ou sem eles -disse-. O pior do assunto ser explicar-lhe a esses atiradores. Assinalou com a cabea para a parede, 
onde a voz da Brianna se mesclava a do Jamie, em uma conversao apagada-. Trataro-me com muita amabilidade, como se tivesse perdido um p.
      Rendo, terminei de limpar meu morteiro e me estirei para guard-lo no armrio.
      - Bree s se preocupa com ti, por este assunto da Regulao. Mas Jamie pensa que no acontecer nada. H muito poucas possibilidades de que tenha que disparar 
contra algum. Alm disso, as aves de presa tampouco tm viso binocular -acrescentei-. Excetuando os mochos. Pode dizer ao Bree e ao Jamie que sua vista  como 
a de um falco.
      Ante isso riu francamente. Logo se levantou, sacudindo-os abas da jaqueta.
      -Isso farei. -Abriu-me a porta que dava ao corredor, me esperando, mas quando cheguei me ps uma mo no brao para me deter-. Este transtorno binocular... 
-disse, assinalando vagamente seus olhos- suponho que  de nascimento.
      - Sim, quase com certeza.
      Ele vacilou; obviamente, no sabia como expressar-se.
      - E ... hereditrio? Meu pai esteve nas Foras Areas; no pde hav-lo padecido. Mas minha me usava culos. Tinha-as penduradas do pescoo com uma cadeia; 
lembrana ter jogado com elas. Talvez herdei isto dela.
      Franzi os lbios, tratando de recordar se tinha lido algo sobre transtornos oculares hereditrios, mas no me veio nada concreto.
      -No sei -disse ao fim-. Poderia ser. Mas talvez no. Em realidade, no sei. se preocupa pelo Jemmy?
      -OH...! -Um vago desencanto lhe cruzou as faces, embora o apagou quase imediatamente. Com um sorriso torpe, agentou a porta para me permitir o passo-. No 
 que me preocupe, no. S pensava que... se for hereditrio e o pequeno tambm o tivesse... ento eu teria a certeza.
      O corredor estava impregnado de saborosos aromas a guisado de esquilo e po fresco. Embora estava faminta, estive-me quieta, olhando-o.
      - No  que o deseje -explicou Roger ao ver minha expresso-. S que se fosse assim...-Apartou a vista, tragando saliva-. Oua, no diga ao Bree o que me ocorreu, 
por favor.
      Toquei-lhe apenas o brao.
      -Acredito que o compreenderia. Que queira ter a certeza. 
      Ele jogou uma olhada  porta da cozinha, pela que surgia a voz da Brianna, cantando Clementine, para bulioso deleite do Jemmy.
      - Compreenderia, talvez -disse ele-. Isso no significa que gostasse de inteirar-se.
      
      
      22
      A cruz ardente
      
      
              Os homens no estava: Jamie, Roger, o senhor Chisholm e seus filhos, os irmos MacLeod... Todos eles tinham desaparecido antes do amanhecer, sem deixar 
mais rastro que os desordenados restos de um caf da manh apressado e rastros de barro na soleira.
      Fora trovejou uma porta ao abrir-se e a animao se apagou abruptamente, sendo substitudo por uma correria de fuga e risitas sufocadas.
      -Hummm! -disse a voz da senhora Bug, satisfeita por ter desalojado aos bagunceiros. A porta se fechou. Rudos de madeira e metal anunciaram que no piso de 
abaixo se iniciavam as atividades do dia.
      Quando baixei, poucos instantes depois, encontrei a essa boa senhora dedicada simultaneamente a torrar po, ferver caf, preparar o porridge e queixar-se, 
enquanto limpava o rastro deixado pelos homens. No se queixava da desordem (o que outra coisa podia esperar-se deles?), mas sim pelo fato de que Jamie no a tivesse 
despertado par lhes preparar um bom caf da manh.
      -E como as arrumar o senhor agora?-inquiriu, blandiendo o garfo em um gesto de recriminao-. Um homem bem desenvolvido como ele, andando por ali, sem ter 
no estmago mais que um pouco de leite e um pozinho ranoso.
      Passeando meus olhos legaosos pela mescla de mendrugos e pratos sujos, tive a sensao de que o senhor e seus companheiros tinham dado conta das provises.
      -No acredito que v morrer de fome -murmurei, recolhendo uma migalha com o dedo umedecido-. O caf est preparado?
      Dos meninos Chisholm e MacLeod, os majores passavam a noite junto ao lar da cozinha, envoltos em mantas ou trapos. J se tinham levantado e estavam fora, seus 
cobertores se encontravam amontoados depois do banco.
      -Lavaste-lhes essas garras imundas, pequenos pagos? -acusou a senhora Bug ao v-los. Logo assinalou com a colher do porridge os bancos instalados ao longo 
da mesa-. Se estiverem podas venham a lhes sentar. E ai do que no se limpe os ps de barro!
      Em poucos momentos, bancos e tamburetes ficaram cheios; as senhoras Chismo. MacLeod e Aberfeldy bocejavam e piscavam entre suas vergnteas, entre inclinaes 
de cabea e murmrios de Buenos das.
      Com doze bocas abertas que alimentar, a senhora Bug se encontrava em seu prprio molho. Enquanto a via ir do lar  mesa, disse-me que em alguma vida anterior 
devia ter sido carbonfero.
      -Viu ao Jamie antes de que partisse? -perguntei, quando fez uma pausa para voltar a encher as taas de caf, com um grande embutido cru na outra mo.
      -No. -Sacudiu a cabea, muito branca debaixo do leno-. No me inteirei que nada. Antes do amanhecer ouvi que meu velho se levantava, mas supus que iria ao 
desculpado, por no me incomodar com o rudo da bacinilla. Mas no retornou. E quando despertei j se foram todos. Ah, no! Nada disso!
      Pela extremidade do olho tinha detectado um movimento. Atirou um bom golpe com o embutido na cabea de um dos MacLeod, que imediatamente retirou os dedos do 
frasco de gelia.
      -Talvez tenham ido de caada -sugeriu timidamente a senhora Aberfeldy.
      -Fariam melhor em procurar stios onde se possa edificar e madeira para as casas -disse a senhora MacLeod. Logo se separou da cara uma mecha de cabelo encanecido, 
sonrindome com ironia-. Sem nimo de criticar sua hospitalidade, senhora Fraser, preferiria no passar o inverno sob seus ps.
      Como a essas horas da manh no estava em meus melhores condicione, sorri cortesmente, murmurando algo incompreensvel. Eu tambm preferia no ter cinco ou 
dez pessoas de mais na casa durante o inverno, mas no estava segura de que se pudesse evitar.
      A carta do governador era bastante clara. Todos os homens fisicamente ss dos territrios afastados deveriam ser recrutados como tropas de tropa, e apresentar-se 
no Salisbury por volta de meados de dezembro. Ficava muito pouco tempo para construir casas. Ainda assim, eu esperava que Jamie tivesse algum plano para aliviar 
a aglomerao. Adso, o gatinho, tinha instalado sua residncia no armrio de minha consulta, e a cena da cozinha ia adquirindo seu habitual parecido com as pinturas 
do Bosco.
       Pelo menos, com tantos corpos amontoados, a cozinha tinha perdido o frio do amanhecer; o ambiente estava agora esquentado e ruidoso. No obstante, dado o 
confuso da cena, passaram vrios minutos antes de que eu notasse que as jovens mes pressente no eram trs, a no ser quatro.
      -De onde saste? -perguntei, sobressaltada ao ver minha filha acurrucada em um rinco.
      Bree piscou, dormitada, e trocou de posio ao Jemmy, que mamava com total concentrao, alheio  multido.
      -Em metade da noite os Mueller chamaram a nossa porta -explicou ela, bocejando-. Eram oito, No falavam bem nosso idioma, mas me pareceu lhes entender que 
papai os tinha chamado.
      -Seriamente? -Agarrei uma parte de bolo de passas, me adiantando por muito pouco a um jovem Chisholm-. Ainda esto ali?
      -Estraguem. Obrigado, mame. -Alargou a mo para a parte de bolo que eu lhe oferecia-. Sim. antes de que amanhecesse vinho papai e tirou o Roger da cama; ao 
parecer ainda no necessitava aos Mueller. Quando Roger se foi, um velho enorme se levantou do cho, dizendo: Bitte, Maedley se deitou a meu lado. -Um delicado 
rubor lhe acendeu as bochechas-. E pensei que era melhor vir aqui.
      -Ah! -exclamei, contendo um sorriso-, deve ter sido Gerhard.
      O velho granjeiro, eminentemente prtico, no entenderia por que devia tender seus vetustos ossos no duro cho de pranchas, se havia espao disponvel na cama.
      -Isso suponho -disse ela confusamente, mastigando um bocado de bolo-. Acredito que  inofensivo, mas ainda assim...
      -Sim, claro, para ti no representa nenhum perigo -coincidi com ela.
      -Inofensivos ou no, tm que ter fome -deu a senhora Chisholm, sempre prtica. E se agachou para recolher uma boneca, um fralda molhado e a um garotinho que 
se retorcia, e ainda dispunha de uma mo livre para o caf-. Ser melhor limpar isto, antes de que os alemes cheirem a comida e devam esmurrar a porta.
      -Fica algo para eles? -perguntei, algo intranqila, tratando de recordar quantos presuntos havia no abrigo onde os defumvamos. Depois de duas semanas de hospitalidade, 
nossas provises estavam diminuindo de maneira alarmante.
      - obvio -assegurou energicamente a senhora Bug, deixando cair as fatias de embutido na frigideira quente-. Assim que tenha terminado com este grupo, podero 
lhes dizer que devam tomar seu caf da manh. Voc, a muirninn... -Usou a esptula para dar um cabeada a uma menina de oito ou nove anos-. Corre ao poro, enche 
seu avental de batatas e me traz isso Aos alemes gosta das batatas.
      -Posso ajudar...? -comecei, fracamente.
      Mas a anci sacudiu a cabea, me afugentando com pequenos movimentos de vassoura.
      -Nem pensar, senhora Fraser! -disse-. Ter voc bastante que fazer e... N, vocs, no entrassem em minha bonita cozinha com essas botas cheias de barro! Fora, 
as limpem antes de pr um p aqui!
      Na soleira da porta estava Gerhard Mueller, desconcertado, seguido por seus filhos e sobrinhos vares. A senhora Bug, sem deixar-se intimidar pelo facho de 
que lhe tirasse trinta centmetros e no falasse nosso idioma, enrugou a cara e lhe cravou ferozmente a vassoura nas botas.
      depois de dar uma cordial bem-vinda aos Mueller, aproveitei a oportunidade para escapar.
       
      Tratando de evitar a multido da casa, lavei-me fora, no poo. Logo fui aos abrigos para me ocupar de fazer inventrio. A situao no era to malote como 
temia; com uma administrao prudente, havia bastante como para que nos durasse todo o inverno, embora talvez fora necessrio constranger um pouco a mo generosa 
da senhora Bug.
      Deixei a pesada vasilha cheia de headcheese junto  porta do abrigo, para no esquecer a quando retornasse  casa.
      O celeiro estava cheio em suas trs quartas partes, embora no exterior, no cho, podiam ver-se excrementos de camundongo em quantidades alarmantes. Adso, o 
gato, crescia com celeridade, mas nem tanto; seu tamanho era o de um rato normal. A farinha era lago escassa: s havia oito sacos. Talvez houvesse mais no moinho. 
Teria que lhe perguntar ao Jamie.
      Fiz um repasse de nossas provises. O mel. Detive-me franzindo os lbios. Tinha quase oitenta litros de mel desencardido e quatro grande vasilhas de favo, 
retirado de minhas colmias,  espera de que o convertssemos em velas de cera. Todo isso se conservava na cova fechada com uma paliada que servia de estbulo, 
a fim de proteger o dos ursos, mas no dos meninos aos que lhes tocava alimentar s vacas e as cerdas do estbulo. At ento eu no tinha visto dedos nem caras pringosas 
que os delatassem, mas no viria mal tomar algumas medidas preventivas.
      Somando a carne, os cereais e a pequena granja, parecia que ningum ia passar fome durante esse inverno. O que me preocupava agora era algo que no era grave, 
mas mesmo assim importante: a deficincia de vitaminas. Joguei um olhar ao bosquecillo de castanhos, cujos ramos estavam j completamente nus. Passariam quatro meses 
largos antes de que se visse alguma hortalia fresca, embora ainda ficavam muitos nabos e couves por recolher.
      Enquanto caminhava de retorno a casa, tratei de calcular quantas provises deveriam levar-se Jamie e seus milicianos, e quantas deixar para o consumo das mulheres 
e os meninos. Era impossvel diz-lo; isso dependeria, em parte,  dos homens que pudesse recrutar e do que cada um levasse consigo. Mesmo assim, ao ter sido renomado 
coronel lhe corresponderia a responsabilidade de alimentar aos homens do regimento; os recursos ficariam reembolsados mais adiante, se acaso, por atribuio da assemblia.
      No era a primeira vez que lamentava profundamente no saber mais sobre o tema. Durante quanto tempo estaria em funcionamento essa assemblia?
      Brianna estava fora, dando voltas e voltas ao redor do poo, com uma expresso pensativa lhe enrugando a frente.
      -Tuberas? -disse, sem preliminares-. Fabricam-se tubos de metal nesta poca? Os romanos os fazia, mas...
      -Vi-os em Paris e no Edimburgo, utilizados para canalizar a chuva dos telhados -sugeri-. De modo que existem. Mas no estou segura de ter visto nenhum nas 
colnias. Se h os tm que ser terrivelmente caros. -Descontando as coisas mais singelas, como as ferraduras para cavalos, todas as coisas de ferro deviam ser importadas 
do Fran Bretanha, ao igual a todo o metlico, fora de cobre, bronze ou de chumbo.
      -Hum, pelo menos sabem o que . -Entreabriu os olhos, calculando a inclinao do cho entre o poo e a casa. Logo moveu a cabea com um suspiro-. Acredito 
que poderia fazer uma bomba. Mas levar a gua at o interior da casa  outra coisa. -de repente bocejou, piscando, com os olhos ligeiramente lacrimosos  luz do 
sol-. Estou to cansada que no posso pensar. Jemmy chorou toda a noite. E quando ao fim ficou dormido, apareceram os Mueller. Acredito que no peguei olho.
      -Lembrana essa sensao -disse, solidria, sonriendo.
      -Fui muito pesada de beb? -perguntou ela, me devolvendo o sorriso.
      -Muito -lhe assegurei, girando para a casa-. E o teu, onde est?
      - Com... -Brianna se deteve, me aferrando o brao-. O que...? No nome de Deus, o que  isso?
      Ao olhar para l, senti um espasmo no fundo do ventre.
      -O que  resulta bastante evidente -disse, me aproximando-. O que me pergunto  que faz aqui.
      Era uma cruz. Uma cruz bastante grande, feita com dois ramos de pinheiro seco, despojadas das ramitas menores e atadas entre si com uma corda. Estava firmemente 
plantada no bordo do ptio, perto de uma grande pcea azul que custodiava a casa, e alcanava uns dois metros de altura. Os ramos eram magros embora slidas, e no 
se podia dizer que fora volumosa ou que incomodasse; entretanto, sua tranqila presena parecia dominar o ptio, tal como o tabernculo domina o interior da igreja. 
Ao mesmo tempo, seu efeito no resultava reverente nem protetor. Pelo contrrio: era sinistro.
      -organizamos alguma reunio religiosa? -Brianna tratou de tom-lo a brincadeira, pois a cruz a desassossegava tanto como a mim.
      -Que eu saiba, no.
      Era obra do Jamie; isso se notava na qualidade do artesanato. Os ramos tinham sido escolhidas por sua retido e sua simetria; estavam cuidadosamente recortadas, 
com os extremos afiados. O pau que cruzava tinha um corte prolixo, que se ajustava bem ao vertical. A corda que os ligava se entrecruzava com esmero de marinheiro.
      -Pode que papai tenha baseado sua prpria religio -disse Brianna, pois ela tambm reconhecia o estilo.
      De sbito apareceu a senhora Bug pela esquina da casa, com uma terrina cheia de comida para os frangos. Ao nos ver, deteve-se em seco e abriu imediatamente 
a boca. Preparei-me instintivamente para a investida; Bree, pelo baixo, emitiu uma risita zombadora.
      -Ah, est aqui, senhora! Acabo de dizer ao Lizzie que  uma vergonha, uma verdadeira vergonha, todos esses pirralhos alvoroando acima e abaixo, e deixando 
porcarias por toda a casa, e at na destilaria da senhora e Lizzie me diz, diz-me...
      -Em minha consulta? O que? Onde? O que tm feito?
      J ia correndo para a casa, completamente esquecida da cruz. A senhora Bug me seguia me pisando os tales, sem deixar de tagarelar.
      -Surpreendi a duas desses fantasias de diabo jogando aos boliches ali dentro, com esses bonitos frascos azuis que voc tem e uma ma. Mas pode ficar tranqila, 
que lhes dei uns bons cabeadas. Olhe que deixar restos de comida apodrecendo-se ali e...!
      -Meu po! -Tinha chegado at o vestbulo de diante. Ao abrir a porta, encontrei tudo limpo e reluzente... incluindo a encimera, onde eu tinha deixado meu ltimo 
experimento com a penicilina. Agora estava completamente vazia; a superfcie de carvalho tinha sido esfregada at perder o gentil.
      -Era repugnante -disse a senhora Bug do vestbulo, a minhas costas, apertando os lbios com virtuosa pazguatera-. Repugnante! Todo talher de mofo, tudo azul 
e...
      Aspirei fundo, apertando os punhos contra meu corpo, para no acogotarla. Fechei a porta, por no ver a encimera vazia, e me voltei para a diminuta escocesa.
      -Senhora Bug -disse, fazendo um grande esforo por falar com calma-. Voc sabe perfeitamente quanto avaliao sua ajuda, mas lhe pedi que no...
      A porta principal se abriu de par em par, chocando-se contra a parede do lado.
      -Condenada bruxa! Como te atreve a levantar a mo contra meus pequenos?
      Encontrei-me cara a cara com a senhora Chisholm, avermelhada de fria e armada com uma vassoura, com dois pequeuelos obstinados a suas saias com as bochechas 
vermelhas e manchadas de lgrimas recentes.
      -Voc e seus preciosos pequenos! -exclamou a anci, indignada-. Se tanto se preocupa por eles, j poderia educ-los como Deus manda e lhes ensinar a comportar-se 
bem, em vez de permitir que brinquem de correr por toda a casa como brbaros, rompendo e arruinando-o tudo, do desvo at a entrada!
      -Bom, senhora Bug, no acredito que os meninos quisessem...
      Meu intento apaziguador se perdeu sob os chiados desses trs Chisholm, como se fossem apitos de vapor; os da me eram os mais potentes.
      -Quem  voc para que meus meninos so ladres, velha entremetida! -A mulher agitou a vassoura, movendo-se de lado a lado em um intento de fazer branco na 
senhora Bug. Eu me movi com ela, saltando daqui para l, me interpondo entre as dois combatentes.
      -Senhora Chisholm -disse, elevando uma mo apaziguadora-. Margaret. Oua, estou segura de que....
      -Que eu sou o que? -A senhora Bug pareceu expandir-se, como a massa ao fermentar-. Pois olhe, o que sou  uma mulher temerosa de Deus e uma alma crist! E 
quem  voc para falar com seus maiores e a seus superiores desse modo? Voc e essa tribo de demnios que andam brincando de correr pelas colinas com farrapos, sem 
nem sequer uma bacinilla onde mijar!
      -Senhora Bug!         -exclamei, me voltando para ela-. No deveria...
      A senhora Chisholm no se incomodou em procurar uma rplica; limitou-se a investir, com a vassoura lista. Levantei os braos para evitar que acontecesse meu 
lado. Ao ver-se frustrada em seu intento de esmurrar  senhora Bug, o que fez foi lhe dirigir estocadas por cima de meu ombro, tratando de atravess-la.
      A anci, que obviamente se sentia a salvo depois da barricada de minha pessoa, saltava como uma bola do PING-pong, com seu carita redonda arrebatada de triunfo 
e de fria.
      -Mendigos! -gritou a todo pulmo-. Funileiros! Ciganos!
      -Senhora Chisholm!Senhora Bug! -supliquei.
      Mas nenhuma das duas me emprestou ateno.
      
      
       23
      
      
       O bardo
      
      
      Quando ao fim Roger chegou  porta de sua casa j tinha escurecido de tudo, mas as janelas refulgiam, acolhedoras, e a chamin despedia uma chuva de fascas, 
prometendo calor e comida. Estava cansado, com frio e faminto; experimentava uma profunda e agradecido avaliao por seu lar, substancialmente agudizado ao saber 
que pela manh deveria abandon-la.
        - Brianna? -Entrou entreabrindo os olhos para procurar a sua esposa no resplendor.
        - Por fim! Que tarde chega! Onde estiveste? -Ela saiu do pequeno quarto do fundo, com o beb no quadril e uma pilha de tartn apertada contra o peito. Alargou 
a cabea sobre a malha para lhe dar um beijo fugaz, lhe deixando um tentador gosto a gelia de ameixas.
        - passei estas dez horas ltimas a cavalo, subindo e descendo por vales e colinas -disse ele, lhe tirando o tecido das mos para atir-la sobre a cama- , 
em busca de uma mtica famlia holandesa. Vem me dar um beijo decente, quer?
        Ela, obediente, rodeou-lhe a cintura com o brao livre para lhe dar um comprido beijo, perfumado de ameixas. Roger se disse que, por faminto que estivesse, 
o jantar podia esperar um pouco. Mas o beb, que pensava distinto, lanou um berro tal que Brianna se apartou apressadamente, fazendo uma careta.
        - Segue sem lhe sair o dente? -perguntou Roger, observando o semblante vermelho e inchado de sua vergntea, talher por um reluzente filme de muco, saliva 
e lgrimas.
        - Como pudeste adivinh-lo? -exclamou ela, custica- . Oua, pode agarr-lo um minuto?
        depois de pr ao Jemmy em braos de seu pai, estirou-se do suti; o linho verde estava mido, enrugado e cheio de manchas claras: leite cuspido. Descobriu 
um de seus peitos, e alargando os braos para o menino, sentou-se com ele na cadeira de amamentar, junto ao fogo.
        - aconteceu-se o dia assim -lhe informou, movendo a cabea. O beb se retorcia e choramingava, golpeando com a mo nervosa o alimento que lhe oferecia- . 
No quer mamar mais que uns poucos minutos e logo volta a vomitar. Choraminga se o levanta, mas muge se o deixa. -passou-se uma mo fatigada pelo cabelo- . Sinto-me 
como se tivesse passado o dia combatendo com lagartos.
        - Hum!, m coisa. -Roger se esfregou a parte baixa das costas, tratando de faz-lo com dissimulao. Logo assinalou a cama com o queixo- . N... para que 
 esse tartn?
        - Ah!, tinha-o esquecido.  teu. -Apartando momentaneamente a ateno do menino, levantou a vista para o Roger. Pela primeira vez reparou em seu desalinho- 
. Trouxe-o papai. Quer que lhe ponha isso esta noite. A propsito: tem uma grande mancha de gradeio na cara. Tem-te cansado?
        - Vrias vezes.
        Ele se aproximou do lavamanos, coxeando um pouco.
        - Sim? Que m sorte! Chist, chist -sossegou ao menino, balanando-o- . Tem-te feito mal?
        - No, estou bem.
        Ele se tirou a jaqueta e lhe deu as costas para verter gua no recipiente. Logo se molhou a cara, atento aos chiados do Jemmy; para seus adentros calculava 
as possibilidades que tinha de fazer o amor com a Brianna antes da partida, que seria pela manh. Continuando, secou-se com a toalha, jogando uma olhada dissimulada 
a seu redor, se por acaso houvesse algo para comer. Tanto a mesa como o lar estavam vazios, embora no ar pendia um forte aroma de vinagre.
        - Sauerkraut? -adivinhou, farejando audiblemente- . Os Mueller?
        - trouxeram dois grandes frascos. -Brianna fez um gesto para o rinco, onde se via um recipiente de pedra entre as sombras- . Esse  o nosso. comeste algo?
        - No. -Seu ventre retumbou audiblemente; ao parecer estava disposto a aceitar o sauerkraut frio, se no havia outra coisa. Mas na casa grande devia haver 
comida. Reanimado por essa idia, tirou-se as calas e deu comeo  incmoda tarefa de tablear o tartn, a fim de fazer uma manta que pudesse sujeitar com o cinturo.
        Jemmy, balanado por sua me, acalmou-se um pouco e s emitia intermitentes gemidos de mal-estar.
        - O que era isso de uns mticos holandeses? -perguntou ela, sem deixar de balan-lo.
        - Jamie me enviou para o nordeste, em busca de uma famlia holandesa que, conforme lhe ho dito, instalou-se perto do Boiling Creek. Devia recrutar aos homens 
para a tropa e, no possvel, fazer que me acompanhassem. -Jogou um olhar carrancudo ao pano preparado na cama. S tinha usado uma manta como essa duas vezes- .  
muito importante que me ponha isso?
        Brianna, a suas costas, emitiu um breve bufo de risada.
        - Algo ter que te pr. No pode ir  casa grande vestido s com a camisa. No encontrou a esses holandeses, verdade?
        - Nem sequer um tamanco.
        Tinha chegado a algo que parecia ser Boiling Creek, subiu uma ribeira ao longo de vrios quilmetros, esquivando (ou no) ramos baixos, saras e matas de 
hamamelis, sem achar rastros de nada.
        - Talvez tenham partido. Podem ter ido a Virginia ou a Pensilvania -disse Brianna, pormenorizada.
        - Vale -suspirou ele- . Ria, se for preciso.
        Vestir uma manta rodeada no era o mais digno que algum podia fazer, dado que o mtodo mais eficiente consistia em tombar-se sobre o tecido tableada e rodar 
como uma salsicha no assador. Jamie sabia fazer o de p, mas, claro, o homem tinha prtica.
        Suas resistncias, deliberadamente exagerados, foram recompensados pelas risadas da Brianna, que a sua vez pareceram ter um efeito sedativo sobre o beb. 
Quando Roger deu os toques finais a suas pranchas e drapeados, me e filho estavam avermelhados, mas felizes. Ele lhes fez uma garbosa reverncia. Bree aplaudiu 
com uma s mo contra o joelho.
        - Estupendo -disse, percorrendo-o apreciativamente com o olhar- . Olhe a papai! Papai bonito!
        Jemmy, que contemplava boquiaberto aquela viso de glria viril, floresceu em um sorriso largo e lento. Roger ainda estava faminto, dolorido e cansado, mas 
isso no parecia to importante. Sonriendo de orelha a orelha, alargou os braos para o beb.
        - Tem que te trocar? Se o menino j estiver cheio e seco, levarei-o a casa. Assim ter um pouco de tempo para te arrumar.
        - Insinas que devo me polir, no? -Brianna o olhou severo, levantando o nariz largo e reta. Tinha parte do cabelo solto, em mechas e enredos, e seu vestido 
mostrava um aspecto lamentvel.
        - Est preciosa -assegurou ele, enquanto levantava o menino com destreza- . Cala, a bhalaich. J desfrutaste muito de mame. E ela, por certo, desfrutou 
muito de ti. Agora vem comigo.
        - No esquea o violo! -clamou Bree.
        Ele se deteve ante a porta, surpreso.
        - O que?
        - Papai quer que cante. Espera, que me deu uma lista.
        - Uma lista? Do que? -Por isso Roger sabia, Jamie no emprestava a menor ateno  msica. De fato, que Fraser no apreciasse sua maior habilidade lhe chateava 
um pouco, embora estranha vez o admitisse.
        - De canes, certamente. -Ela recitou a lista memorizada- . Quer que cante Ho ro! e Birniebouzle. E The Great Silkie. Disse que entre uma e outra pode cantar 
outras coisas, mas quer essas. E logo dever cantar coisas de guerra. No  assim como me disse isso, mas j sabe a que me refiro: Killiecrankie, The Haughs of Cromdale 
e The Sherrifsmuir Fight. S as mais antigas, certamente; diz que no cante as do quarenta e cinco, salvo Johnnie Monopolize. Essa no deve faltar, mas quase ao 
final. E...
        Roger a olhou fixamente, desenredando o p do Jemmy das dobras de sua manta.
        - Eu pensava que seu pai no conhecia sequer o ttulo das canes, por no falar de preferncias.
        Brianna, j de p, tirou-se a larga forquilha que lhe sujeitava o cabelo, deixando que a cascata vermelha casse sobre seus ombros e sua cara. Logo passou 
ambas as mos pela massa avermelhada, jogando-a para trs.
        -  certo que no tem preferncias. Papai no tem o menor ouvido musical. Mame assegura que tem um bom sentido do ritmo, mas que no sabe distinguir uma 
nota de outra.
        - Isso era o que eu pensava, mas por que...?
        - Embora no empreste ateno  msica, Roger, disposta ateno. -Cravou o pente no matagal de seu cabelo- . E se fixa. Sabe como reage a gente quando escuta 
essas canes, e o que sente.
        - Seriamente? -murmurou ele. O fato de que Fraser reparasse no efeito de sua msica, embora no pudesse apreci-la pessoalmente, provocou-lhe um estranho 
prazer- . Assim quer que os abrande um pouco, no  isso?, que os entusiasme antes de que ele faa sua parte.
        - Isso. -Ela assentiu com a cabea, enquanto desatava os cordes de seu suti. Seus peitos saltaram, redondos e soltos sob a fina camisa de musselina.
        Roger trocou de posio para acomod-la manta. Ela captou esse leve movimento e o observou. Logo elevou lentamente as mos para sustent-los peitos, olhando-o 
com um pequeno sorriso. Por um momento ele teve a sensao de que tinha deixado de respirar.
        Brianna foi primeira em romper o momento: deixando cair as mos, foi pinar no ba onde guardava sua roupa interior.
        - Sabe exatamente o que se traz entre mos? -perguntou, apagada a voz nas profundidades do ba- . J tinha levantado essa cruz quando partiram?
        - Sim. -Jemmy lanava pequenos bufidos, como uma locomotiva de brinquedo que puxasse costa acima. Roger o ps debaixo de um brao, abrangendo a tripita com 
a mo- .  uma cruz ardente. Sabe do que se trata?
        Ela emergiu do ba com uma camisa limpa nas mos; parecia um pouco alterada.
        - Uma cruz ardente? No me diga que vai queimar uma cruz no ptio!
        - No exatamente. -Roger desprendeu o bordam com a mo livre e provou a tenso do tambor com o dedo. Logo lhe explicou em poucas palavras a tradio da cruz 
ardente- .  algo estranho -concluiu, pondo o tambor fora do alcance do Jemmy- . No acredito que se tornou a fazer nas Terras Altas depois da Sublevao. Mas seu 
pai me disse que a tinha visto uma vez.  algo muito especial ver aqui essa cerimnia.
        Arrebatado por seu entusiasmo de historiador, demorou para dar-se conta que Brianna no estava to entusiasmada.
        - Pode ser -disse ela, intranqila- . No sei. D-me calafrios.
        - N? -Roger lhe jogou uma olhada, surpreso- . por que?
        Bree se encolheu de ombros, tirando-a camisa enrugada pela cabea.
        - No sei. Possivelmente porque vi cruzes ardentes... nos informativos da televiso. O KKK... ou  que no sabe? Pode que a televiso britnica no relatrio... 
no informava dessas coisas.
        - O Ku Klux Klan? -Aqueles fanticos preconceituosos no lhe inspiravam tanto interesse como os peitos nus da Brianna, mas fez um esforo por concentrar-se 
na conversao- . OH! Claro que estou informado. De onde crie que tiraram a idia?
        - O que? No me diga que...
        - Certamente -afirmou ele, alegremente- . Dos imigrantes escoceses; em realidade, descendem deles. Por isso se deram o nome do Klan" . E agora que o penso 
-acrescentou- , esta noite poderia ser... o elo. A ocasio que  traz o costume do velho mundo ao novo. No seria grandioso?
        - Grandioso -repetiu Bree, vagamente, sacudindo um vestido limpo de linho azul, com ar inquieto.
        - Tudo se inicia em algum ponto, Bree- explicou ele, com mais suavidade- . Muito freqentemente no sabemos onde nem como. Importa que esta vez saibamos? 
Alm disso, o Ku Klux Klan no nascer at dentro de cem anos, pelo menos. -Fez saltar ligeiramente ao Jemmy sobre o quadril- . No o veremos ns, nem tampouco nosso 
pequeno Jeremiah; talvez nem sequer seu filho.
        - Estupendo -replicou ela com secura- . E nosso bisneto poderia acabar sendo o Grande Drago.
        Ele se ps-se a rir.
        - Sim,  possvel. Mas esta noite  seu pai.
      

      24
      
      Jogando com fogo
      
      
      No estava seguro do que esperava. Talvez um pouco parecido ao espetculo da grande fogueira, durante a congregao. Os preparativos eram os mesmos: implicava 
grandes quantidades de comida e bebida. Em um extremo do ptio havia um enorme tonel de cerveja e outro mais pequeno, cheio de usque; um porco descomunal girava 
lentamente em cima de um leito de brasas, despedindo nuvens de fumaa e aromas que faziam a boca gua.
        Ele sorriu ante as caras banhadas pelo fogo, lustrosas de graxa e acesas pela bebida. Logo seu tambore bordam. O estmago lhe ressonava com fora, mas o 
rudo se perdeu sob o bulioso estribilho do Killiecrankie:
      
                                                              Conheci diabo e ao Dundee
                                                             nas ladeiras do Killiecrankie!
      
        Quando lhe trouxessem o jantar a teria ganho, sem dvida. Llevab mais de uma hora cantando e tocando. A lua j se elevava sobre o Black Mountain. Aproveitou 
o estribilho para jogar mo da taa que tinham deixado sob seu tamborete; depois de umedec-la garganta atacou a nova estrofe com mais solidez.
      
                                                        Briguei em terra, briguei no mar,
                                                        e em casa briguei com minha tia!
                                                      Conheci diabo e ao Dundee
                                                     nas ladeiras do Killiecrankie!
      
        Cantava com um sorriso de profissional, cruzando um olhar aqui, concentrando-se em um rosto mais  frente e calculando mentalmente o efeito. estava entrando 
no que Bree chamava " coisas de guerra" .
        Sentia a cruz erguida a suas costas, quase oculta pela escurido. Mas todos a tinham visto, entre murmrios de interesse e especulao.
      - Jamie Fraser, em um lateral, mantinha-se fora do crculo de luz. Roger logo que distinguia sua silhueta alta, escura,  sombra da grande pcea vermelha que 
se levantava perto da casa. passou-se toda a velada percorrendo metodicamente o grupo; aqui e l se detinha intercambiar uma saudao cordial, dizer uma piada, escutar 
um problema ou um relato. Agora estava sozinho, esperando. J quase tinha chegado o momento de fazer o que se propunha, fora o que fosse.
        Roger lhes concedeu um momento para aplaudir e o aproveitou para refrescar-se. Logo se lanou com " o Johnnie Monopolize" : rpida, ardente e divertida. 
Durante a congregao a tinha cantado vrias vezes; sabia bem o efeito que causava.
        Alguns daqueles homens tinham combatido no Prestonpans; embora derrotados no Culloden, ainda aclamavam s tropas do Johnnie Monopolize e se regozijavam ante 
a oportunidade de reviver essa famosa vitria. Inclusive os escoceses que no tinham combatido ali, conheciam-na. S importava que o passassem bem.
        A multido cantou mdio a gritos o estribilho final, quase afogando sua voz.
                                                    N, Johnnie Monopolize, segue andando?
                                                   Ainda soam seus tambores ?
                                                  Se est andando, eu esperaria,
                                                 para me aproximar das brasas pela manh!
      
        Com um ltimo toque de tambor, fez uma reverncia, entre grandes aplausos. O pr-aquecimento parecia. Era hora de apresentar o ato principal. Muito sorridente, 
levantou-se de seu tamborete e desapareceu entre as sombras, para os maltratados restos do enorme porco assado.
        Bree estava ali, aguardando-o, com o Jemmy completamente acordado nos braos. Ela se estirou para lhe dar um beijo e lhe trocou o bordam pelo menino.
        - estiveste estupendo! -disse- . Agenta-o. vou trazer te comida e cerveja.
        Geralmente, Jem preferia estar com sua me; mas estava to aturdido pelas chamas e o rudo que no protestou pela mudana de mos. limitou-se a acomodar-se 
contra o peito do Roger, chupando-se muito srio o polegar.
        Seu pai suava pelo esforo, com o corao acelerado pela adrenalina da atuao; longe do fogo e da multido, o ar lhe esfriou a cara avermelhada. O beb 
era um peso quente e slido no oco de seu brao. Tinha estado bem e sabia. S cabia esperar que fora o que Fraser desejava.
        Quando Bree reapareceu, trazendo uma taa e um prato cheio de comida, Jamie j tinha entrado no crculo de luz, ocupando o stio abandonado pelo Roger ante 
a cruz.
        Alto, largo de ombros, luzia sua melhor jaqueta cinza e uma saia de tartn azul claro; o cabelo solto e flamgero sobre os ombros, com uma pequena trana 
de guerreiro a um lado, adornada com uma s pluma. A luz do fogo cintilava no punho dourado de sua adaga e no broche que sujeitava sua manta, e sua atitude era sria, 
apaixonada. Era todo um espetculo... e sabia.
        Em poucos segundas a multido se aquietou. Os homens faziam calar a seus companheiros mais faladores.
         - Sabem bem por que estamos aqui, verdade? -perguntou ele, sem prembulos.
        Levantou a mo para mostrar a enrugada citao do governador, bem visvel a mancha vermelha do selo oficial  luz do fogo. Houve um rumor de assentimento; 
a multido ainda estava alegre; sangue e usque corriam livremente por suas veias.
        - Nos convoca a cumprir com o dever. A honra nos obriga a apoiar a causa da lei... e do governador.
        Roger viu que o velho Gerhard Mueller, inclinado para um lado para escutar o que um de seus genros lhe traduzia ao ouvido, assentia com ar de aprovao.
        - Ja! -gritou- . Lang lebe governador!
        Houve um murmrio de risadas e um eco de gritos em ingls e galico. Jamie, sorridente, esperou a que se sossegasse o bulcio. Logo girou lentamente, olhando 
cara a cara, reconhecendo a cada homem com um gesto da cabea. Por fim se voltou com a mo para a cruz que se levantava atrs dele, nua e negra.
        - Nas Terras Altas de Esccia, quando um chefe se dispunha  guerra -disse, em tom despreocupado e coloquial, mas de modo que se ouvisse em todo o ptio- 
, prendia fogo  cruz ardente e a conduzia pelas terras de seu cl, como sinal para que os homens de seu sobrenome agarrassem as armas e fossem ao stio de reunio, 
preparados para a batalha.
        uns quantos homens tinham visto aquilo ou, ao menos, sabiam do que estava falando.
        - Mas estamos em uma terra nova. Somos amigos -sorriu ao Gerhard Mueller- , Ja, Freund,, vizinhos e compatriotas -um olhar aos irmos Lindsay- , mas no 
somos cl. Embora me ps ao mando, no sou seu chefe.
        " No me venha com essas -pensou Roger- . De qualquer modo vais ser o muito em breve."  Deu um ltimo gole de cerveja fria e deixou a taa e o prato. A comida 
podia esperar um pouco mais. Bree tinha pego ao beb e ele tinha novamente seu bordam sob o brao. Preparou-o; lhe dirigiu um olhar sorridente, mas quase toda sua 
ateno estava fixa em seu pai.
        Jamie se inclinou para retirar uma tocha da fogueira. Logo se ergueu com ela, Iluminando os planos amplos e os ngulos marcados de sua cara.
        - Que Deus seja testemunha de nossa boa disposio e fortaleza nossos braos. -Fez uma pausa para que os alemes pudessem segui-lo- . Que esta cruz ardente 
se eleve como testemunho de nossa honra, para invocar o amparo de Deus sobre nossas famlias... at que retornemos ss e salvos.
        Aproximou a tocha ao poste da cruz e ali a sustentou at que a casca seca se prendeu; uma chama pequena foi crescendo e cintilando na madeira escura. Roger 
sentiu que Brianna suspirava a seu lado, afrouxando em parte sua tenso.
        Fraser se ergueu um momento, observando a chama at assegurar-se de que tinha aceso. Logo arrojou sua tocha  fogueira e se dirigiu novamente aos homens.
        - No podemos saber o que ser de ns. Que Deus nos d valor -disse simplesmente- . Que Deus nos d sabedoria. Se for Sua vontade, que ele nos brinde paz. 
Partiremos pela manh.
        Ento girou para afastar do fogo, procurando o Roger com o olhar. O jovem lhe fez um sinal de assentimento; depois de tragar para esclarec-la voz, comeou 
a cantar brandamente, na escurido, a cano com que Jamie queria pr fim  cerimnia: " A flor de Esccia." 
        
                                                              OH, flor de Esccia,
                                                             quando voltaremos a verte?
                                                            os que brigamos e morremos
                                                           por sua pequena colina e seu vale...
      
        No era uma das canes que Bree chamava " coisas de guerra" . Era algo solene e melanclico. Mas tampouco uma cano enfermo, em que pese a tudo; expressava 
lembranas, orgulho e deciso. Nem sequer era legitimamente antiga (Roger conhecia homem que a tinha composto, em sua prpria poca), mas Jamie a tinha ouvido e, 
como conhecia a histria do Stirling e Bannockburn, estava plenamente de acordo com esses sentimentos.
      
                                                      E se plantou ante ele,
                                                     o orgulhoso exrcito do Eduardo,
                                                     e o mandou de volta,
                                                    para que o pensasse melhor.
      
        O grupo de escoceses deixou que cantasse ele sozinho a estrofe, mas ao chegar ao estribilho as vozes se elevaram, fica, logo mais audveis:
      
                                                E o enviou a casa...
                                               Pensa-o outra vez!
      
        Ele recordou algo que Bree lhe havia dito a noite anterior, na cama, durante os poucos instantes em que ambos estiveram ainda conscientes. Tinham estado 
conversando sobre gente da poca, perguntando-se se algum dia conheceriam pessoalmente a pessoas como Jefferson ou Washington. Era uma perspectiva estimulante e 
absolutamente impossvel. Ela mencionou ao John Adams, citando algo que, segundo os livros, Jefferson havia dito (antes bem, diria) durante a Revoluo: " Sou guerreiro; 
que meu filho possa ser comerciante... e que seu filho possa ser poeta." 
        
                                                     Agora as colinas esto nuas
                                                     e as folhas de outono se amontoam, quietas.
                                                    Sua terra, que agora perdeste,
                                                   nunca foi to querida
      
                                                 Isso se enfrentou a ele,
                                                o orgulhoso exrcito do Eduardo,
                                                e o enviou a casa.
                                               Pensa-o outra vez..
      
        J no era o exrcito do Eduardo, a no ser o do Jorge. Mas seguia sendo o mesmo exrcito orgulhoso. Viu um instante ao Claire, de p entre as outras mulheres 
que formavam um grupo  parte no limite do crculo de luz. Sua expresso era remota; estava muito quieta, com o cabelo solto ao redor da cara, obscurecidos os olhos 
dourados por uma sombra interior e fixos no Jamie, que estava a seu lado, em silncio.
        O mesmo exrcito orgulhoso no qual ela tinha combatido um dia; o orgulhoso exrcito onde tinha morrido o pai do Roger. Sentiu um n na garganta; teve que 
agarrar ar desde muito fundo para cant-lo com ferocidade. " Serei guerreiro, para que meu filho possa ser mercado e seu filho, poeta."  Nem Adams nem Jefferson 
tinham combatido; Jefferson no teve nenhum filho varo. O poeta foi ele, e suas palavras ainda ressonavam atravs dos anos e os exrcitos em armas, ardendo no corao 
de quem estava dispostos a morrer por ela, pelo pas que sobre elas se fundou.
        " Possivelmente seja por seu cabelo" , pensou Roger ironicamente, ao ver o brilho de luz avermelhada na cabea do Jamie, que se movia para observar em silncio 
aquilo que tinha iniciado. Algum tintura vikingo no sangue dava a aqueles homens altos e ferozes o dom de conduzir aos homens  guerra.
      
                                                    Os que lutaram e morreram
                                                    por sua colina e sua garganta...
      
        Assim tinha sido e voltaria a ser. Pois os homens sempre combatiam pelo mesmo: o lar e a famlia. E embora agora Roger tirava o chapu bardo de um chefe 
escocs exilado, trataria tambm de ser guerreiro quando chegasse o momento, pelo bem de seu filho e dos que viessem depois.
      
                                                   E o enviou a casa.
                                                   Pensa-o outra vez.
                                                   Pensa-o... outra vez.
      

      25
       
      O anglico de meu descanso
      
      
      Embora era muito tarde, fizemos o amor por consentimento tcito; ambos precisvamos procurar refgio e consolo na carne do outro. Solos em nossa quarto, com 
as venezianas bem fechadas para deixar fora os rudos e as vozes do ptio (o pobre Roger seguia cantando, por exigncia popular), pudemos descartar as pressas e 
as fadigas da jornada, ao menos por um momento.
        Depois, ele me abraou com fora, obstinado a mim como se fora um talism.
        - Tudo sair bem -disse em voz baixa, acariciando seu cabelo mido; afundei os dedos onde se encontram o pescoo e os ombros; ali o msculo estava duro como 
lenha sob a pele.
        - Sim, sei.
        esteve-se quieto um momento, me deixando trabalhar. A tenso de seu pescoo e seus ombros se foi relaxando gradualmente; seu corpo se fez mais pesado sobre 
o meu. Ao sentir que eu aspirava fundo, deixou-se cair a um lado. Seu estmago ressonou audiblemente; ambos rimos.
        - No tiveste tempo para jantar? -perguntei.
        - No posso comer antes -respondeu- . Provoca-me cibras. E depois no houve tempo. Tem aqui algo comestvel?
        - No -disse, com pena- . Tinha algumas mas, mas os Chisholm lhes jogaram mo. Perdoa. Devi te trazer algo.
        Sim, eu sabia que Jamie estranha vez comia " antes"  (antes de qualquer luta, confrontao ou situao socialmente tensa), mas no me tinha ocorrido que 
talvez depois no tivesse tempo de comer com todo mundo.
        - Tinha outras coisas em que pensar, Sassenach -respondeu secamente- . No se preocupe. Posso esperar ao caf da manh.
        - Est seguro? -tirei um p da cama, disposta a me levantar- . Fica muita comida. Se no querer baixar, posso ir eu e...
        Agarrou-me pelo brao para me colocar com firmeza sob os cobertores. Logo me adaptou  curva de seu corpo, me pondo um brao em cima para assegurar-se de 
que no me movesse dali.
        - No -disse com deciso- . Esta pode ser a ltima noite que passe em uma cama durante muito tempo e penso ficar nela... contigo.
        - Est bem.
        Me acurruqu sob seu queixo, obediente, me relaxando contra ele. Compreendia: ningum subiria para nos buscar, a menos que se apresentasse uma emergncia, 
mas bastaria que ele ou eu aparecssemos abaixo para provocar um imediato turba de gente que necessitava isto ou aquilo, que desejava perguntar algo, dar conselho, 
pedir... Era muito melhor ficar ali, abrigados e em mtua paz.
        Eu tinha apagado a vela e o fogo se estava consumindo. Estive a ponto de me levantar pr mais lenha, mas decidi no faz-lo. Que se reduzira a brasas; de 
qualquer modo partiramos para amanhecer.
        Me desperec, desfrutando a conscincia do suave abrao do leito de plumas, dos lenis limpa e suaves, com seu leve aroma a romeiro. Haveria posto suficientes 
mantas na bagagem?
        A voz do Roger nos chegou atravs das venezianas, ainda potente, mas um pouco trincada pela fadiga.
        - O Astuto deveria ir-se  cama -disse Jamie, com leve desaprovao- , se  que quer despedir-se de sua esposa como se deve.
        - Mas se Bree e Jemmy se retiraram faz horas! -senti saudades.
        - O pirralho, possivelmente, mas a moa segue ali. Faz um momento ouvi sua voz.
        - De verdade? -agucei o ouvido, mas no distingui mais que um rumor de aplausos apagados, ao terminar a cano- . Suponho que quer acompanh-lo tanto tempo 
como posso. Pela manh estes homens estaro exaustos, por no falar da ressaca.
        - Enquanto possam montar a cavalo, pouco me importa que vomitem entre a maleza de vez em quando -me assegurou Jamie.
        Me acurruqu, me rodeando as mantas aos ombros. A voz grave e ressonante do Roger, entre risadas, negou-se com firmeza a seguir cantando. Doam-me o pescoo 
e os ombros; tambm os ps, depois de caminhar at o manancial carregando ao Jemmy. Apesar de tudo, encontrei-me fastidiosamente desvelada, sem poder eliminar os 
rudos do mundo externo, tal como os portinhas o eliminavam da vista.
        - Recorda tudo o que fez hoje?
        Era um pequeno jogo com o que estvamos acostumados a nos entreter de noite; cada um tratava de recordar, com luxo de detalhes, o que tinha feito, visto, 
ouvido e comido durante o dia, do momento de levantar-se at o de voltar para a cama. Mas essa noite ele no estava de humor para isso.
        - No recordo nada do que aconteceu antes de que fechssemos esta porta -disse, me apertando carinhosamente uma ndega- . Mas a partir de ento acredito 
poder recordar um ou dois detalhes.
        - Eu tambm o tenho razoavelmente afresco na mente -lhe assegurei.
        Ento deixamos de falar, nos assentando no sonho, enquanto abaixo cessavam os rudos que eram substitudos pelo zumbir de roncos mistos. Ao menos, eu tratei 
de faz-lo, mas no serve de nada: um momento depois estava mais acordada ainda, cheia de ansiedade contida, imaginando a total destruio de meu consultrio; Brianna, 
Marsali ou os meninos, sucumbindo ante alguma sbita epidemia; a senhora Bug provocando rebelies e derramamentos de sangue por toda a Colina.
        Tombei-me para o outro lado, de cara ao Jamie.
        - Est pensando to alto que te ouo daqui -lhe disse- . Ou talvez contas ovelhas?
        Abriu imediatamente os olhos, me dirigindo um sorriso melanclico.
        - Contava porcos -me informou- . E com bom resultado, a no ser por essa besta branca que me aparecia de soslaio, sempre fora do alcance, como me provocando.
        Ri com ele; logo, aproximei-me para apoiar a frente contra seu ombro, com um profundo suspiro.
        - Temos que dormir, Jamie. Estou to cansada que meus ossos parecem estar a ponto de fundir-se. E voc estava em p at antes que eu.
        - Hum... - Rodeou-me com um brao para me estreitar contra seu ombro.
        - Essa cruz... no acabar incendiando a casa? -perguntei um momento depois, tendo encontrado um motivo mais de preocupao.
        - No. -Sua voz soava algo sonolenta- . Faz tempo que se apagou.
        O fogo do lar se reduziu a um leito de brasas resplandecentes. me tombando novamente para o lado oposto, fixei a vista nelas, tratando de esvaziar minha 
mente.
        - Quando me casei com o Frank -lhe contei- , o sacerdote nos aconselhou que inicissemos nossa vida conjugal rezando juntos o rosrio na cama, todas as noites. 
Frank disse que no sabia bem se era um ato de devoo, uma maneira de conciliar o sonho ou s um mtodo anticoncepcional permitido pela Igreja.
        O peito do Jamie, a minhas costas, vibrou de risada calada.
        - Pois se quer poderia provar, Sassenach- disse- . Mas ter que ser voc quem leva a conta dos Ave-marias; est deitada sobre minha mo esquerda e j me 
intumesceram os dedos.
        Movi-me um pouco para que pudesse retirar a mo.
        - Rezar sim -disse- . Mas no isso, poderia ser outra orao. Conhece alguma boa para o momento de deitar-se?
        - Montes -assegurou ele, movendo os dedos em alto para que o sangue voltasse para eles. Na penumbra da habitao, esse pausado movimento me recordou a maneira 
em que atraa s trutas, as incitando a sair de entre as pedras- . Deixa que faa memria.
        A casa j estava em silncio, descontando os habituais rangidos da madeira ao assentar-se.
        Aqui tem uma -disse Jamie, por fim- . Tinha-a quase esquecida. Ensinou-me isso meu pai, no muito antes de morrer, dizendo que algum dia poderia me ser til.
        acomodou-se melhor, inclinando a cabea para que o queixo descansasse sobre meu ombro, e comeou a me falar com ouvido, com voz grave e clida:
      
                                     Benze, OH Deus, a lua que est por cima de mim.
                                     Benze, OH Deus, a terra que est debaixo de mim.
                                     Benze, OH Deus, a minha esposa e a meus filhos.
                                    E me benza, OH Deus, a mim, que cuidei que eles.
                                    Benze a minha esposa e a meus filhos,
                                   E me benza, OH Deus, a mim, que cuidei que eles.
      
        Tinha comeado com certo acanhamento, vacilando de vez em quando em busca de uma palavra, mas isso j tinha desaparecido. Agora, falava com suave segurana, 
e no j para mim, embora sua mo morna descansava na curva de minha cintura.
      
                                 Benze, OH Deus, aquilo em que sedimento o olhar.
                                 Benze, OH Deus, aquilo em que ponho a esperana.
                                 Benze, OH Deus, minha razo e meu objetivo.
                                 Benze, OH benze-os, Deus da vida.
                                 Benze, OH Deus, minha razo e meu objetivo.
                                 Benze, OH benze-os, Deus da vida.
      
        Sua mo acariciou a curva de meu quadril e subiu a me tocar o cabelo.
      
                                 Benze a quem compartilha meu leito e meu amor.
                                 Benze o manejo de minhas mos.
                                 Benze, OH benze, OH Deus, o combate em defesa prpria.
                                 E benze, OH benze, o descanso anglico.
                                 Benze, OH benze, OH Deus, o combate em defesa prpria.
                                 E benze, OH benze, o descanso anglico.
      
        Sua mo se ficou quieta sob meu queixo. Envolvi-a com a minha, suspirando muito fundo.
        - OH!, gostou-me, sobre tudo o do descanso anglico. Quando Bree era pequena a deitvamos com uma orao aos anjos: " Que Miguwl esteja a minha direita, 
Gabriel a minha esquerda, Uriel detrs de mim, Rafael diante... e sobre minha cabea, a presena do Senhor."  - Ele me estreitou os dedos a modo de resposta.
        Algo mais tarde, ao sentir que se levantava, voltei brevemente para a conscincia.
        - O que...? -perguntei, dormitada.
        - Nada -sussurrou- . S quero escrever uma nota. Dorme, a nighean donn. Ao despertar estarei a seu lado.
      
                                                                           Colina do Fraser, 1 de dezembro de 1770
                                                                              Do Sr. James Fraser a lorde John Grei,
                                                                                               Plantao de Monte Josiah
      
        Milord:
              Escrevo-lhe com a esperana de que tudo continue bem em sua casa e para seus habitantes; em especial, minhas saudaes a seu filho.
             Todo marcha bem em minha casa e, at onde sei, no River Run tambm. As npcias planejadas para minha filha e minha tia, sobre as quais lhe escrevi, 
sofreram a inesperada interferncia das circunstncias (principalmente uma circunstncia chamada Randall Lylliwhite, nome que lhes menciono se por acaso algum dia 
passa a seu conhecimento). Mas meus netos receberam o batismo, por fortuna, e embora as bodas de minha tia foi adiada para outro momento, a unio de minha filha 
com o senhor MacKenzie foi consagrada por cortesia do reverendo senhor Caldwell, digno cavalheiro, embora presbiteriano.
            O jovem Jeremiah Alexander Ian Fraser MacKenzie (o nome Ian ,  obvio, a variante escocesa do John, e se deve ao completo de minha filha a um amigo, 
alm de sua primo) sobreviveu de bom nimo tanto a seu batismo como  viagem de volta. Sua me me encomenda lhe dizer que seu xar possui agora no menos de quatro 
dentes, temvel lucro que o torna extremamente perigoso para aquelas almas despreparadas que, enfeitiadas por sua aparente inocncia, pem inadvertidamente seus 
dgitos a seu pernicioso alcance. O menino remi como um crocodilo.
            Durante o vero Deus tem feito prsperos nossos esforos, nos benzendo com abundncia de cereais e feno silvestre, e de bestas para consumir. Os porcos 
sobem  presente a no menos de quarenta; duas vacas tiveram bezerros e comprei um cavalo novo. O carter deste animal me provoca graves duvida, mas seu flego no.
           At aqui minhas boas novas.
          Passo agora s ms. fui renomado coronel de tropa, com ordens de recrutar e entregar a tantos homens como me  possvel ao servio do governador, por volta 
de meados de ms; este servio est destinado a colaborar com a cesso de hostilidades locais.
         Durante sua visita a Carolina do Norte, talvez ouvisse falar de um grupo de homens que se autodenominan " reguladores" ... ou talvez no, posto que nessa 
ocasio outros assuntos ocuparam sua ateno (minha esposa sente prazer em receber bons informe sobre sua sade e lhe envia um pacote de remdios, com instrues 
para sua administrao, se por acaso ainda lhe atormentam os dores de cabea)
         Isto reguladores no so mais que chusma, menos disciplinados em sua maneira de atuar que os bagunceiros que, segundo nos h dito, enforcaram ao governador 
do Richardson em Efgie, Boston. No digo que seus queixa no tenham fundamento, mas sim sua maneira das expressar faz difcil sua reparao por parte da Coroa; 
antes bem, pode provocar em ambas as partes maiores excessos, o qual no deixar de terminar em dano.
         Em 24  de setembro houve no Hillsborough um estalo de violncia, durante o qual se destruram caprichosamente muitas propriedades e se recorreu  fora 
-s vezes com justia, s vezes no- , contra funcionrios da Coroa. Um juiz foi infelizmente ferido. Muitos dos reguladores foram presos. Aps no se ouviram mais 
que murmrios ou pouco mais.
         Tryon  um homem capaz, mas no  granjeiro. Mesmo assim, talvez espera, mediante uma demonstrao de fora agora (quando  provvel que no seja necessria) 
intimidar aos bagunceiros a fim de que mais adiante no seja necessrio faz-lo.  um militar.
         Estes comentrios me levam a verdadeiro objetivo desta missiva. No espero conseqncias fatais da atual empresa, mas mesmo assim... Voc tambm  militar, 
ao igual a eu. Conhece o imprevisvel do mal e que catstrofes podem surgir dos comeos mais corriqueiros.
         Ningum conhece os detalhes de seu prprio final, salvo que este tem que chegar. portanto, tomei todas as previses possveis para o bem-estar de minha 
famlia.
         Enumero aqui a seus membros, posto que no os conhece todos: Claire Fraser, minha amada algema; minha filha Brianna e seu marido, Roger MacKenzie, e seu 
filho, Jeremiah MacKenzie. Minha outra filha Marsali e seu marido, Fergus Fraser, filho adotivo meu, que agora tm dois pequenos, chamados Germain e Joan. A pequena 
Joan leva o nome da irm do Marsali, conhecida como Joan MacKenzie, que  presente amora ainda em Esccia. No disponho de tempo para familiariz-lo com a histria 
da situao, mas tenho bons motivos para considerar a esta jovem como uma filha mais, e me sinto igualmente obrigado a cuidar seu bem-estar e o de sua me, chamada 
Laoghaire MacKenzie.
         Rogo-lhe, em nome de nossa larga amizade e pela considerao que lhe merecem minha esposa e minha filha, que se me acontecesse alguma desgraa nesta empresa, 
faam o que esteja a seu alcance para as pr a salvo.
         Parto para amanhecer de amanh, que no est muito distante.
         Seu muito humilde e obediente servidor,
                                            James Alexander Malcom MacKenzie Fraser
      
         Postcriptum: Meu agradecimento pela informao com que respondeu voc a minha anterior averiguao sobre o Stephen Bonnet. Tomo nota do conselho que a acompanha 
com a maior apreciao e gratido por sua amvel inteno, embora, tal como suspeita, no me far trocar de atitude.
      
         Post-postcriptum: Farquard Campbell, do Greenoaks, perto do Cross Creek, tem em seu poder copia de minha vontade e testamento e dos documentos correspondentes 
a minha propriedade e assuntos, aqui e em Esccia.
      
      
      
        
      
      

      26
      A tropa fica em marcha
      
      
      O tempo nos ajudou , mantendo-se frio mas espaoso. Com os Mueller e os homens das granjas dos arredores, partimos da Colina do Fraser um grupo de quase quarenta 
homens...e eu.
      No terreno baixo do Wogan nos uniram seis mais, e trs no Belleview, mais os dois irmos Findlay que provinham de um pequeno assentamento chamado Possum Gut. 
Todas as noites Jamie dirigia exerccios de prtica militar,aunque de um tipo muito pouco ortodoxo.
       - No temos tempo para adestra-os como  devido -explicou ao Roger , a primeira noite- .Necessitam-se semanas de formao para que os homens no fujam quando 
comear o fogo.
       O jovem se limitou a fazer um gesto de assentimento, embora me pareceu que por sua cara passava certa expresso de inquietao.
       -  natural fugir do perigo,no?El objetivo de adestrar s tropas  as acostumar  voz do oficial, de modo que a escutem e obedeam sem pensar no perigo.
       - Sim, igual a adestra a um cavalo para que no se espante dos rudos- interrompeu Roger.
       - Assim  -lhe deu a razo Jamie, muito srio- .Mas h uma diferencia;el cavalo deve estar convencido de que voc sabe mais que ele, enquanto que o oficial 
s precisa gritar mais forte.
        Roger se ps-se a rir. Jamie prosseguiu com uma meia sorriso:
        - Na Frana, quando me arrolei como soldado, me hacian partir de um lado a outro, de cima abaixo; desgastei um par de bota santes de que me dessem plvora 
para a arma. Ao terminar o dia estava to exausto que, se tivessem disparado um caonazo junto a meu jergn, no me teria movido um cabelo.
        Girou um pouco a cabea; o sorriso desapareceu de sua cara.
        - Mas no temos tempo para isso. A metade de nossos homens tm alguma experincia como soldados, teremos que confiar em que eles se mantenham firmes, se 
chegar o momento de combater, e dem valor ao resto.
        Olhou mais  frente do fogo, assinalando o panorama de rvores e montanhas que foram desaparecendo.
        - No  um grande campo de batalha,verdade? Devemos nos organizar para lutar onde haja um lugar para refugiar-se. Ensinaremo-lhes a combater como o fazem 
os montanheses de Esccia, a congregar-se ou disseminar-se a minha palavra e, se no, a arrumar-lhe como podem. Embora s a metade dos homens tm experincia como 
soldados, todos eles sabem caar.
        Levantou o queixo, assinalando para os recrutas, vrios dos quais tinham caado pequenas presas durante a jornada. Os irmos Lindsay tinham disparado sobre 
as codornas que estvamos comendo.
        Roger fez um gesto afirmativo e se agachou para retirar da fogueira uma bola de argila enegrecida, escondendo sua cara. Eu me levantei.
        - Mas no  exatamente como caar no? -Sentei-me junto ao Jamie para lhe dar um po-doce de milho quente- .Muito menos agora.
        - O que quer dizer, Sassenach? -Jamie partiu o po-doce, entrecerrando os olhos de 
      
      
      agradar ao inalar o aroma que dele emanava.
      - Para comear, no sabe se chegaro a combater -assinalei- .Adems,en todo caso no lhes enfrentaro com tropas treinadas; os reguladores tm to pouca experincia 
como seus homens. Em terceiro lugar, a verdadeira inteno no  mat-los, a no ser assust-los para que se retirem ou se rendam. E quarto- sorri ao Roger- , o 
objetivo da caa  matar algo, enquanto que o da guerra  retornar com vida.
        Jamie se engasgou. Tentei lhe ajudar com uns tapinhas nas costas, mas ele me fulminou com o olhar. Tossiu algumas migalhas, tragou saliva e se levantou, 
agitando o plaid.
        - me escute -disse, algo rouco- .Tem razo, Sassenach , mas tambm te equivoca.  verdade que no  como caar, porque normalmente a presa no trata de te 
matar a ti.- voltou-se para o Roger, carrancudo, e lhe disse- : Disposta ateno. Claire se equivoca no resto. A guerra consiste em matar, e isso  tudo. Se no 
querer chegar a faz-lo, se te conformar assustando, e sobre tudo se pensar em sua prprio pele...Vamos homem, estivesse mais morto quando anochezca o primeiro dia.
        Jogou no fogo os restos de seu po-doce e se afastou sem fazer rudo.
      
      
      Durante um momento fiquei petrificada, at que o calor do pozinho que tinha na mo me queimou os dedos. Deixei-o no tronco, com um *ai* apagado. Roger se 
moveu em seu assento.
      - Tudo bem? -perguntou-me sem me olhar. Seus olhos seguiam fixos no lugar por onde Jamie tinha desaparecido.
      - Bem.
        Esfriei os dedos queimados contra a casca mida do tronco. Uma vez aliviado o inc,odo silencio por esse pequeno dilogo, foi possvel mencionar o assunto 
que nos ocupava.
        - Embora Jamie tem certa experincia no tema -lhe disse- , acredito que isto foi uma reao exagerada.
        - Voc crie? -Roger no parecia nervoso nem preocupado por seus comentrios.
        -  obvio. Acontea o que acontecer com os reguladores, sabemos perfeitamente que isto que isto no vai ser uma guerra declarada. O mais provvel  que fique 
em nada!
        - Tem razo.- O jovem seguia com a vista perdida na escurido e os lbios franzidos, em atitude cavilosa- .S que... no acredito que se referisse a isso.
        Arqueei uma sobrancelha e ele me olhou com um sorriso irnico.
        - Quando saiu de caceria comigo me perguntou que sbia eu do que se morava. O contei. Bree me h dito que tambm perguntou a ela e que lhe respondeu.
        - O que se morava? Refere-te  revoluo?
        Roger assentiu, atento  parte de po-doce que estava desmigando entre seus dedos largos e calejados.
        - Contei-lhe o que sabia. As batalhas, a poltica. No todos os detalhes,  obvio, mas sim o principal do que lembrana e o prolongado e sanguinrio que 
ser.- Durante um instante guardou silncio; logo me olhou com um brilho verde nos olhos- .Suponho que  um intercmbio justo. Tratando-se dele nunca se sabe, mas 
possivelmente o assustei e acaba de me devolver o favor.
        Com um bufido de risada, levantei-me para sacudir os miolos e as cinzas de minha saia.
        - O dia em que possa assustar ao Jamie Fraser com histrias da guerra, filho meu -disse- , esse dia se congelar o inferno.
        Ele riu, sem perder a compostura.
        - Pode que no o assustasse, mas ficou muito calado. Mas te direi algo.- Embora assumiu um ar mais srio, seus olhos seguiam brilhando- . A mim sim que me 
assustou.
      
        Joguei uma olhada para os cavalos. Apesar de no ver o Jamie sabia que estava ali; o sutil movimento dos animais, seus leves bufos, diziam-me que algum 
conhecido estava entre eles.
        -  -Ele no era um simples soldado -disse ao fim, em voz baixa- . Era oficial.
        Voltei a me sentar no tronco e toquei o po-doce. Logo que estava morno. Agarrei-o sem prov-lo.
        - Eu fui enfermeira militar, sabe? Em um hospital da campanha, na Frana.
        Ele inclinou com interesse sua cabea moria. O fogo projetava sombras intensas a sua cara, destacando o contraste das sobrancelhas densas e os ossos fortes 
com a curva suave da boca.
        - Atendi a soldados. Todos eles tinham medo.- Sorri com tristeza- .Os que tinham estado sob o fogo, porque recordavam; os que no, porque imaginavam. Mas 
os que no podiam dormir de noite eram os oficiais.
        Deslizei distradamente o polegar pela superfcie desigual do po-doce. Estava algo gordurenta.
        - Eu estava com o Jamie depois do Preston, quando um de seus homens morreu em seus braos. Chorava. Isso o recorda. Se no recordar o do Culloden  porque 
no pode suport-lo.
        Baixei a vista  massa frita que tinha na mo, escavando as pontas queimadas com a unha do polegar.
        - Assustou-o, sim. No quer chorar por ti. Eu tampouco -acrescentei brandamente- .Embora agora no acontea nada, quando chegar o momento...tome cuidado, 
h-me oido?
        Houve um comprido silencio. Logo ele disse pelo baixo:
        - Sim.- E se levantou. Suas pegadas se perderam rapidamente no silncio da terra mida.
        O que ao Jamie assustava no era o que Roger lhe havia dito, a no ser o que ele mesmo sabia. Tudo bom oficial tem duas opes: deixar-se desmoronar pela 
responsabilidade...ou endurecer-se como as pedras. Ele sabia.
        Quanto a mi...eu tambm sabia umas quantas coisas. Estava casada com dois militares, ambos os oficiais. Tinha sido enfermeira e curadora nos campos de batalha 
de duas guerras.
        Nos campos de batalha das duas guerras mundiais morreram milhares de soldados pelas feridas causadas; eu sabia. E sabia tambm que centenas de milhares morreram 
por infeces e enfermidades. Agora as coisas no seriam diferentes. No nos prximos quatro anos.
        E isso me assustava muito.
      
      
      A noite seguinte acampamos nos bosques do Balsam Mountain, um ou dois quilmetros mais  frente do assentamento do Lucklow. Vrios homens queriam continuar 
at a aldeia Brownsville, o ponto mais afastado de nossa viagem, antes de nos dirigir para o Salisbury. No Brownsville havia a possibilidade de nos encontrar com 
alguma tabernao, correio o menos, um abrigo acolhedor onde pudssemos dormir. Mas ao Jamie pareceu melhor esperar.
        - No quero assustar s pessoas -havia dito ao Roger- entrando com uma tropa de homens armados depois do anoitecer.  melhor aparecer quando tiver amanhecido, 
explicar ao que vamos e conceder aos homens um dia e uma noite para que se preparem.
        Um espasmo de tosse lhe sacudiu os ombros.
        Eu no gostava do aspecto do Jamie nem como soava sua voz. Tinha m cara; quando se aproximou da fogueira para encher sua tigela, percebi um som sibilante 
em sua respirao. A maioria dos homens se encontravam no mesmo estado; os narizes vermelhos e as tosses eram endmicas. A fogueira vaiava a cada instante, alcanada 
por algun cusparada.
        - Ewald -chamou Jamie a um dos Muellers, com voz rouca. Fez uma pausa para pigarrear, com rudo de flanela rasgada- .Ewald, procura o Paul e tragam mais 
lenha para o fogo. A noite ser fria.
        Uma vez servido a ltima terrina, pu-me de costas ao fogo para tomar minha rao de guisado; um grato calor rodeou meu traseiro gelado.
        - Est bem, senhora?- Jimmy Robertson, que tinha preparado a carne, perguntou-me, esperando um completo.
        - Delicioso -lhe assegurei.
        Em realidade, estava quente e eu tinha fome. Isso, somado ao feito de no ter tido que guis-lo eu, deu a minhas palavras um tom de sinceridade tal que ele 
se foi satisfeito.
        A mim tambm  comeava a me gotejar o nariz; esperava que simplesmente fora por causa da comida quente. Ao tragar, vi que no havia sinais de irritao na 
garganta, nem de congesto em meu peito. Ao Jamie tagarelavam os dentes; tinha terminado de comer e estava de p a meu lado, esquentando-as ndegas junto ao fogo.
        - Todo bien,Sassenach? -perguntou, rouco.
        - S rinite vasomotriz -repliquei, me tocando o nariz com o leno.
        - Onde? -Jogou um olhar suspicaz ao bosque- .Aqui? No disse que viviam no frica?
        - O que? Ah, os rinocerontes. Sim, assim . S quis dizer que me gotejava o nariz, mas no tenho a gripe.
        - Ah, no? Menos mal. Eu sim -acrescentou, e espirrou trs vezes seguidas. Logo me entregou sua terrina vazia, para poder so-la nariz com ambas as mos, 
coisa que fez emitindo uma srie de rudos escandalosos. Fiz uma careta ao ver o avermelhadas e irritadas que estavam suas fossas nasais. Em meu alforja tinha um 
pouco de graxa de urso alcanforada, mas ele no me permitiria ficar o em pblico.
        - Est seguro de que no deveramos continuar? -perguntei- . Geordie diz que a aldeia no est longe e h uma...espcie de caminho.
        Conhecia a resposta; ele no era dos que trocam de estratgia para sua comodidade pessoal. Desde perto, o assobio da respirao do Jamie tinha uma nota mais 
grave, lhe zumbam, que me afligia.
        Ele sabia a que me referia, e sorriu, guardando o leno empapado na manga.
        - Sairei adiante, Sassenach -disse- .  s um pequeno resfriado. estive pior que agora em muitas ocasies.  
        Relaxou o gesto. Dava-me a volta e vi dois homens que emergiam do bosque, sacudindo-a pinaza e trocitos de casca da roupa: Jack Parker e um dos novos, cujo 
eu nomeie ignorava ainda; a julgar por seu acento, seguro que tinha emigrado recentemente de algum lugar prximo ao Glasgow.
        - Tudo em calma, senhor -disse Parker, tocando o chapu em saudao- . Mas frio como a caridade.
        - Sim. Do jantar no fui capaz de sentir minhas partes privadas -disse o do Glasgow, esfregando-se com uma careta enquanto se aproximava do fogo- .  como 
se tivessem desaparecido!
        - Entendo-te -replicou Jamie- . Faz um momento fui mijar, mas no me encontrei isso.
        Entre as gargalhadas, foi inspecionar os cavalos, com uma segunda tigela de guisado ao meio esvaziar na mo. Os outros j estavam preparando suas mantas 
e debatiam a convenincia de dormir com os ps ou a cabea para o fogo.
        - Se te aproximar muito lhe chamuscaro as reveste das botas -argumentou Evan Lindsay- . Veis?Las cunhas se derreteram e olhem o que passou.
        Levantou um p de grande tamanho, exibindo um calado maltratado, pacote com uma corda tosca que o mantinha sujeito. s vezes se costuravam as reveste e 
os saltos, mas o mais comum era as unir com pequenas cunhas de madeira ou couro pegas com resina de pinheiro ou algum outro adesivo. a de pinheiro, em particular, 
era inflamvel. Eu tinha visto estalar fascas nos ps de quem os aproximava muito ao fogo: era alguma dessas cunhas, sbitamente presa pelo calor.
        -  prefervel a que te queime o cabelo -argumentou Ronnie Sinclair.
        - No acredito que os lindsay tenham que nos preocupar por isso. -Kenny sorriu a seu irmo maior, tirando-a boina de ponto que seus usaba,como dois irmos, 
para cobri-la calva.
        - Sim, sem duvid-lo, a cabea perto do fogo -disse Murdo- . No convm que te congele o couro cabeludo.- Continuando, jogou um olhar invejoso ao Roger, 
quem se estava atando a densa juba negra com uma parte de couro- . MacKenzie no tem por que preocupar-se.  mais peludo que um urso!
        Roger respondeu com um grande sorriso. Como os outros, tinha deixado de raspar-se assim que partimos da Colina; agora, passados oito dias, exibia um penugem 
espesso e escuro.
        Jamie voltou a tempo para isso oir e riu tambm, mas a risada acabou em um espasmo de tosses. 
      Evan esperou a que passasse.
        - O que opina voc, MAC Dubh? Ps ou cabea?
        Jamie se limpou a boca com a manga e sorriu. Parecia um verdadeiro vikingo, to peludo como outros, com o fogo arrancando brilhos vermelhos e dourados a 
sua barba recente e sua juba solta.
        - Isso no me preocupa, moos -disse- . Eu dormirei abrigado em qualquer posio.- E me 
      assinalou com a cabea.
        Houve um rumor geral de risadas, s que acrescentaram alguns comentrios ligeiramente soezes em escocs e galico, por parte dos homens da Colina.
        - Igual a uma tropa de sujos babunos -murmurei pelo baixo- . E eu durmo com o bonito chefe!
        - Os babunos so os macacos sem cauda?- perguntou ele, interrompendo seu dilogo com o Ewald sobre os cavalos.
        - Sabe perfeitamente.
        Olhei-o aos olhos e ele curvou a boca a um lado,sabiendo que eu lhe adivinhava o pensamento. O sorriso se alargou.
        - Por certo -murmurou a meu ouvido- , leva postos essas calas infernais?
        - Sim.
        - tira-lhe isso 
        - O que? Aqui? -Olhei-o com olhos de fingida inocncia- . Quer que me congele o traseiro? -Ele entreabriu apenas, com um brilho azul de gato.
        - No te congelar. Asseguro-lhe isso.
        ficou detrs de mim; o calor ardente das chamas foi substitudo pela fresca solidez de seu corpo. No menos ardente, como descobri quando me rodeou a cintura 
com os braos para me atrair para si.
        - Ah, encontraste-a -disse- .Que bem!
        - Que coisa? Tinha perdido algo? -Roger se deteve. Vinha de onde estavam os cavalos, com um cilindro de mantas sob um brao e seu bodharm sob o outro.
        - Pois.. s um par de calas velhas -respondeu Jamie. s escondidas atrs de meu xale, deslizou uma mo sob a cinturilla de minha saia- . vais obsequiar 
nos com uma cano?
        - Se algum quiser, certamente.- O jovem sorriu, avermelhada a luz do fogo sobre suas faces- . Em realidade quero aprender uma; Evan prometeu me cantar 
uma pea romntica que lhe ensinou sua av.
        - OH!, acredito q a conheo -riu Jamie.
        Roger arqueou uma sobrancelha; eu, assombrada tambm, torci um pouco o torso para olhar a meu marido.
         - Claro que no poderia cant-la -disse ele com suavidade- . Mas sei a letra. No crcere do Ardsmuir, Evan a cantava muito freqentemente.  um pouco grosseira 
-acrescentou, com esse tom vagamente afetado que revistam adotar os montanheses do Escocia,justo antes de te dizer algo escandaloso.
        Roger, reconhecendo-o, ps-se a rir.
        - Nesse caso ser melhor que a escriba- disse- , para benefcio das geraes futuras.
        Os dedos do Jamie tinham estado trabalhando com habilidade. Nesse momento, as calas (que eram deles e, portanto, umas seis talhas mais das que me correspondiam) 
caram silenciosamente ao cho. Uma corrente geada subiu sob minhas saias, chocando-se contra minhas partes inferiores recm despidas. Aspirei bruscamente.
        - Faz frio, no? -Roger se encongi de ombros, estremecendo-se exageradamente por solidariedade.
        - Pois sim -confirmei- . Para lhe congelar as Pelotas a um macaco de bronze, no?
        Os dois estalaram em simultneos ataques de tosse.
      
      
      Com o sentinela em seu posto e os cavalos atendidos, retiramos a nosso lugar de descanso, a discreta distncia do fogo. O calor da comida e o fogo se esfumaram, 
mas s me estremeci de verdade quando ele me tocou.
        Teria querido me colocar imediatamente entre as mantas, mas Jamie me reteve. Sua inteno original parecia intacta, mas algo lhe distraiu. Ficou imvel, 
embora sem deixar de me abraar, com a cabea erguida para escutar, a vista fixa na penumbra do bosque.
        - O que acontece? -Movi-me um pouco, me apertando instintivamente contra ele, e seus braos me rodearam.
        - No sei. Mas percebo algo, Sassenach. -apartou-se um pouco, levantando a cabea em inquieta busca, como o lobo que fareja o vento, mas no nos chegou mais 
mensagem que um distante repico de ramos nus- . Se no serem rinocerontes, algo h.- Um sussurro intranqilo me 
      arrepiou os cabelos da nuca- . Espera um momento, querida.
        O vento soprou sbitamente frio com a perda de sua presena, enquanto ele ia falar em voz baixa com dois dos homens. O que era o que percebia ali? Seu sentido 
do perigo me inspirava o  major dos respeitos. Um momento depois se sentou em cuclillas a meu lado, enquanto eu me cobria entre as mantas.
        - No passa nada. Hei-lhes dito que esta noite poremos dois guardas e que cada um deve ter sua arma carregada e  mo. Mas acredito que tudo est bem.
        Seguia olhando para o bosque, mas sua expresso era s pensativa.
        - Tudo est bem -repetiu
        - foi-se?
        Girou a cabea, com os lbios algo contrados. Sua boca pareda suave, tenra e vulnervel entre sua barba incipiente.
        - No sei sequer se tiver havido algo ali, Sassenach -disse- . Pareceu-me sentir que me observavam, mas pde ser um lobo de passagem, um mocho... ou nada 
mais que um spiorad em pena, vagando pelo bosque. De qualquer modo j se foi.
        Sorriu-me; vi a piscada de luz que emoldurava sua cabea e seus ombros, recortados contra o fogo. Mais  frente se ouvia a voz do Roger, sobre o crepitar 
do fogo; estava aprendendo a melodia da cano, seguindo a voz de evan, rouca, mas segura. Quando Jamie se deslizou entre as mantas, a meu lado, girei para ele, 
buscando-o com as mos frite para lhe devolver o favor que me tinha feito antes.
        Tremamos convulsivamente, cada um procurando com urgncia o calor do outro. Achei-o e ele me girou, elevando as capas de tecido que nos separavam at ficar 
detrs de mim, me rodeando com um brao; pequenas partes de secreta nudez nos uniam calidamente sob as mantas. De cara ao bosque em penumbras, contemplei a luz do 
fogo que danava entre as rvores, enquanto Jamie se movia detrs de mim (detrs, no meio, dentro), grande e quente, to devagar que logo que fazia sussurrar os 
ramos sobre as que jazamos.
        A voz do Roger se elevou, doce e potente, e pouco a pouco deixamos de tremer.
      
      Despertei muito mais tarde, sob um cu negro azulado, com a boca seca, e a respirao rouca do Jamie perto de meu ouvido. Tinha estado sonhando um desses sonhos 
sem sentido de incessante repetio, que ao despertar desaparecem mas deixam um desagradvel sabor na boca e na mente. Necessitava gua e devia esvaziar a bexiga, 
tudo de uma vez, de modo que me escorri com cuidado sob o brao do Jamie e sa das mantas. Ele se moveu, com uma leve queixa, soprando em sonhos, mas no despertou.
        Detive-me para posar uma mo em sua frente. Estava fria, sem febre. Talvez fora s um forte resfriado, como ele dizia. Levantei-me, abandonando a contra 
gosto o quente santurio de nosso ninho, mas sabendo que no podia esperar  manh.
        As canes se sossegaram; a fogueira era agora mais pequena, mas seguia acesa, alimentada pelo sentinela. Era Murdo Lindsay. Levantei a mo em uma breve 
saudao. Murdo respondeu com uma inclinao de cabea e continuou vigiando o bosque.
        Os homens dormiam em um crculo, sepultados entre suas mantas. De repente, ao caminhar entre eles senti reparo. Afetada ainda pelo feitio da noite e os 
sonhos, estremeci-me ante aquelas silhuetas caladas, to quietas uma ao lado da outra. Assim tinham disposto os cadveres no Amiens. E no Preston. Imveis e amortalhados, 
um junto a outro, com as caras cobertas, annimos. Estranha vez a guerra olhe a seus mortos  cara.
        E por que despertava do abrao amoroso pensando na guerra e em fileiras adormecidos de cadveres? Isso me perguntei enquanto passava por onde estavam aqueles 
corpos. A resposta era singela dado nosso destino: amos para uma batalha, se no imediata, ao menos prxima.
        Passei junto ao ltimo dos homens dormidos como se caminhasse em meio de um sonho maligno, do que ainda no tinha despertado de tudo. Logo recolhi um cantil 
do cho, perto das alforjas, e bebi profundamente. O frio penetrante da gua comeou a dissipar meus pensamentos sombrios, arrastados por aquele sabor doce e limpo. 
Fiz uma pausa para me secar a boca.
        Seria melhor levar um pouco ao Jamie; se no o tinha despertado minha ausncia, despertaria minha volta. E ele tambm teria a boca seca, j que no podia 
respirar pelo nariz. Pendurei-me a 
      cantil ao ombro e entrei na proteo do bosque.
        Pese ao frio intenso, ali havia muita paz.Jamie tinha razo: se algo tinha passado por ali horas antes, no bosque no havia j nada adverso.
        Como se ao pensar nele o tivesse convocado, ouvi uma pegada cautelosa e o ofego lento e sibilante de sua respirao. Tossiu com um rudo estrangulado que 
eu no gostei absolutamente.
        - Aqui estou -disse pelo baixo- . Como est seu peito?
        A tosse se cortou em um sbito ofego de pnico e um ranger de folhas. Vi que Murdo, junto ao fogo, levantava-se de um salto, mosquete em mo; logo, uma silhueta 
escura passou como um raio a meu lado.
        - N! -exclamei, mais surpreendida que assustada. A silhueta tropeou. Instintivamente, ondeei a correia do cantil por cima de minha cabea, e golpeei com 
ela as costas da silhueta, com um rudo oco. Quem quer que fosse ( no se tratava do Jamie) caiu de joelhos , tossindo.
        As estrelas giravam raudamente no alto, refulgindo por entre os ramos sem folhas. Meu atacante desapareceu, depois de ter expresso seu sobressalto com uma 
pequea interjeio escocesa. A minha esquerda se ouviam gritos e rudos de choque, mas toda minha ateno estava concentrada em recuperar o flego.
        O intruso j tinha sido capturado e miservel at a luz do fogo.
        Se no tivesse estado tossindo ao receber meu golpe, o mais provvel  que tivesse conseguido escapar. Tal como aconteceram as coisas, agora tossia e ofegava 
tanto que logo que podia manter-se em p; sua cara estava arroxeada pelo esforo de fazer acontecer o ar. As veias da frente se sobressaam como lombrigas. Ao respirar 
(ao menos, ao tent-lo) emitia um arrepiante assobio.
        - Que diabos faz voc aqui? -interpelou Jamie, rouco. Logo fez uma pausa para tossir por solidariedade.
        Pergunta-a era puramente retrica, pois era evidente que o menino no podia falar. Era Josiah Beardsley, meu possvel paciente de amidalite. O que tivesse 
estado fazendo da congregao no parecia ter melhorado sua sade, por certo.
        Corri para o fogo, em busca da cafeteira que estava entre as brasas. Colhi-a com uma dobra de meu xale e a agitei. Bem: ficava um pouco. E como tinha estado 
fervendo do jantar, devia estar quente como o inferno.
        - Sentem e lhe afrouxem as roupas; e me tragam gua fria. -Abri-me passo atravs do crculo de homens que rodeava ao cativo, obrigando-os a apartar-se com 
a cafeteira quente.
        Um momento depois punha um tigela de caf em seus lbios, negro e viscoso, diludo to somente com um pouco de gua fria para que no lhe queimasse a boca.
        - Exala lentamente contando at quatro, aspira contando at dois, exala de novo e bebe um sorvo -o instru.
        O branco dos olhos era visvel ao redor da ris; pelas comissuras de sua boca aparecia a saliva. Apoiei-lhe uma mo firme no ombro, insistindo-o a respirar, 
a contar, a respirar... Um sorvo, uma inspirao, um sorvo, uma inspirao... E quando se acabou o caf, sua cara tinha perdido esse alarmante matiz carmesim para 
aproximar-se mais  cor da pana do pescado, com um par de marcas avermelhadas ali onde os homens o tinham golpeado. O ar seguia assobiando em seus pulmes, mas 
ao menos respirava, o qual era uma considervel melhoria.
        Os homens o obsevaban com interesse, entre murmrios, mas como fazia frio, era tarde e a emoo da captura tinha desaparecido, comeavam a bocejar e entrecerrar 
os olhos. depois de tudo, s era um guri, mirrado e alm feio. A uma ordem do Jamie, voltaram para suas mantas sem protestar, deixando que seu chefe, Roger e eu 
atendssemos ao inesperado hspede.
        Para ter quatorze anos era mido e estava fraco at a debilitao; quando lhe abri a camisa para auscult-lo, teria podido lhe contar as costelas, Pelo resto, 
no tinha nenhum rasgo belo: o cabelo negro, muito curto, estava denso de p, graxa e suor; em geral, seu aspecto era o de um macaco cheio de pulgas; grandes e negros, 
os olhos ressaltavam na cara consumida pela preocupao e a desconfiana.
        depois de ter feito quanto estava a meu alcance, fiquei mais satisfeita com seu aspecto. A meu sinal, Jamie se agachou a lu lado.
        - Bem, senhor Beardsley -disse com simpatia- ,viestes para lhes incorporar a nossa 
      tropa?
        - N... no. -Josiah fez girar a taa de madeira entre as mos, sem elevar a vista- . Eu... n... meus assuntos me trejeron para aqui, isso  tudo.
        Sua voz soava to rouca que fiz uma careta por empatia, imaginando a dor de sua garganta inflada.
        - Compreendo. -Jamie manteve a voz grave e amistosa- . De maneira que viu nossa fogueira por acaso e te ocorreu dever buscar comida e refgio.
        - Sim, assim foi. -Tragou saliva com evidente dificuldade.
        - Estraguem. Mas veio mais cedo, verdade? Estava no bosque quando obscureceu. por que esperou a que sasse a lua antes de te aproximar?
        - Eu no... no estava...
      - OH, claro que sim.- O tom do Jamie seguia sendo cordial, mas firme. Alargou a mo para agarrar ao Josiah pela perchera da camisa, lhe obrigando a que o olhasse- 
.Oua, menino, entre voc e eu h um trato.  meu arrendatrio, conforme acordamos. Isso significa que tem direito a meu amparo. Tambm significa que eu tenho direito 
ou seja a verdade.
      Josiah lhe sustentou o olhar. Embora sua expresso havia medo e cautela, tambm se via nela o aprumo de uma pessoa muito major. No fez esforo algum por apartar 
a vista. Seus olhos, negros e sagazes, tornaram-se profundamente calculadores. Esse menino ( se na verdade o podia considerar assim, coisa que Jamie, obviamente, 
no acreditava) estava habituado a depender exclusivamente de si mesmo.
        - Vos disse, senhor, que iria a sua casa por volta do ano novo, e isso  o que penso fazer. O que faa enquanto isso  meu assunto.
        Jamie arqueou as sobrancelhas, mas o soltou com um lento gesto afirmativo.
        -  certo. Mas admitir que algum tem direito a sentir curiosidade.
        O menino abriu a boca para falar, mas trocou de idia e escondeu novamente o nariz na taa de caf. Jamie o tentou de novo.
        - Podemos te oferecer ajuda para seus assuntos? Quer viajar um trecho conosco, ao menos?
        Josiah negou com a cabea.
        - No. Tenho uma obrigao para com voc, senhor, mas  melhor que atenda isso por mim mesmo.
        Roger, que estava sentado detrs do Jamie, observava-o em silncio. de repente se inclinou para diante, os olhos verdes fixos no menino.
        - Esse teu assunto -disse- , tem algo que ver com essa marca que leva no polegar?
        A taa caiu ao cho; o caf, ao derramar-se, salpicou-me a cara e o suti. antes de que eu pudesse piscar para ver o que ocorria, o moo tinha abandonado 
suas mantas e cruzado a metade do claro. Por ento Jamie j ia detrs dele. Ambos desapareceram no bosque, como uma raposa aoitada por seu sabujo. Roger e eu ficamos 
boquiabertos.
        Pela segunda vez na noite, os homens abandonaram suas mantas e jogaram mo de suas armas. Eu comeava a pensar que o governador ficaria muito agradado com 
seus milicianos; sem dvida alguma, estavam preparados para ficar em ao em um momento.
      
      
        - Que diabos...? -perguntei ao Roger, enquanto me limpava o caf das sobrancelhas.
        - Acredito que no deveria ter mencionado o tema to de repente -disse.
        - O que? O que? O que passa agora? -bramou Murdo Lindsay, apontando seu mosquete s rvores.
        - Atacam-nos? Onde esto esses bodes? -Kenny apareceu a meu lado, engatinhando; espiava por debaixo de seu gorro de ponto como um sapo sob um regador.
        - Nada. No acontece nada. Quer dizer... em realidade est tudo bem.
        Os homens voltaram a deitar-se, enquanto Roger e eu nos olhvamos por cima da caftera.
        - O que era? -perguntei, um pouco irritada.
        - A marca? Estou quase seguro de que era uma letra L. A vi quando lhe deu a taa de caf e ele a colheu com a mo.
        Me contraiu o estmago. Sabia o que significava isso; tinha-o visto em outras ocasies.
        - Ladro -disse Roger, sem deixar de me olhar- . Marcaram-no.
        - Sim -exclamei, entristecida- . OH!, meu deus.
        - Se a gente da Colina se inteirasse, no o aceitariam? -perguntou Roger.
        - Duvido que algum se incomodasse. O problema  que tenha fugido quando o mencionou. No s  um ladro sentenciado: temo que possa ser um fugitivo. E na 
congregao, Jamie o convocou.
        - Ah. -Roger se arranhou distradamente os bigodes- . Earbsachd. Agora Jamie se sentir comprometido com ele, verdade?
        - Algo assim.
        Roger era escocs e das Terras Altas, pelo menos tecnicamente. Mas tinha nascido muito depois de que desaparecessem os cls; nem a histria nem a herana 
podiam lhe haver ensinado a fora desses antigos vnculos entre senhor e arrendatrio, entre o chefe e o integrante do cl. O mais provvel  que o mesmo Josiah 
no tivesse idia de quo importante era o earbsachd, prometido-o e aceito por ambas as partes. Jamie sim.
        - Crie que Jamie poder alcan-lo? -perguntou ele.
        - Suponho que j o tem feito. Se o tivesse perdido j estaria de volta.
        Roger se levantou de meu lado para espiar entre as rvores, um pouco aflito.
        - Est demorando muito. Se tiver pilhado ao guri, o que est fazendo com ele?
        - lhe tirando a verdade, suponho -disse- . Ao Jamie no gosta que lhe mintam.
        Ele me olhou com certo sobressalto.
        - Como o faz?
        Encolhi-me de ombros
        - Como pode. -Eu lhe tinha visto faz-lo atravs da razo, a astcia, o encanto, as ameaas e, em uma ocasio, por meio da fora bruta. Rezei para que no 
tivesse que empreg-la, mais por seu bem que pelo do Josiah.
        - Compreendo -murmurou Roger - . Pois bem...
         A cafeteira estava vazia; agasalhada sob meu capote, baixei ao arroio para ench-la outra vez. depois de pendur-la novamente sobre o fogo, sentei-me a 
esperar.
        - Deveria ir dormir -disse, depois de alguns minutos.
        Roger se limitou a sorrir. Logo se limpou o nariz e se acurruc melhor dentro da capa.
        - Voc tambm.
         Roger avivou um pouco o fogo, acrescentando algumas partes de lenha. A cafeteira fumegava, mesclando o rudo dos roncos fleumticos dos homens com o vaio 
das gotas que caam ocasionalmente ao fogo. Roger guardava silncio, contemplando o movimento das chamas e o bosque, com os olhos entreabridos. Perguntei-me o que 
pensaria.
        - Teme por ele? -perguntou fico, sem me olhar.
        - Quando? Agora ou sempre? -Sorri sem muito humor- . Se temesse por ele no descansaria nunca.
        Ele se voltou a me olhar com um vago sorriso.
        - Agora est tranqila, verdade?
        Sorri novamente, esta vez de verdade.
        - No me estou passeando de um lado a outro -respondi- . Nem me retoro as mos.
        - Talvez te servisse para as manter quentes.
        Um dos homens se moveu em seus envoltrios, murmurando. Durante um momento deixamos de falar. A cafeteira fervia, deixando ouvir o suave rumor do lquido.
        O que  o que o atrasava? No podia demorar tanto em interrogar ao Josiah Beardsley; a essas horas j deveria ter obtido as respostas que queria ou deixado 
em liberdade ao moo. Pouco importava ao Jamie o que o guri tivesse roubado, a no ser pela promessa do earbsachd.
        - Quer que v a por ele? -perguntou Roger sbitamente, em voz baixa.
        Dava um coice e me esfreguei a cara com uma mo, movendo a cabea para me limpar.
        - No.  perigoso entrar em bosques desconhecidos na escurido. E de qualquer modo no o encontraria. Se pela manh no retornou... j haver tempo.
        Com o lento transcorrer dos segundos comecei a pensar que, em realidade, o amanhecer podia chegar antes que Jamie. Estava preocupada com ele, mas enquanto 
no esclarecesse, no havia nada que se pudesse fazer. Tratando de distrair a mente daquelas especulaes nervosas, provei a 
      contar as tosses dos homens que dormiam em torno do fogo.
        A oitava foi a do Roger: uma tosse grave, frouxa, que lhe sacudiu os ombros. Perguntei-me se estaria preocupado pelo Bree e Jemmy. Ou possivelmente se perguntava 
se Bree estaria preocupada com ele. Eu poderia hav-lo tirado de dvidas, mas de nada lhe teria servido.
        Por fim comecei a dormitar, me sobressaltando cada vez que cabeceava. A ltima vez despertou o breve contato de duas mos em meus ombros. Roger me tendeu 
no cho, me amontoando a metade do xale sob a cabea, a maneira de travesseiro, e me abrigando os ombros com o resto. Vi-o um momento, recortado contra o fogo, negro 
e peludo em seu capote. Logo no soube mais.
      
      
      No sei durante quanto tempo dormi. Despertou sbitamente um espirro explosivo, a pouca distncia. Jamie estava sentado a um par de metros, sujeitando a boneca 
do Josiah Beardsley com uma mo, a faca com a outra. deteve-se o tempo suficiente para espirrar duas vezes mais, depois de limp-la nariz com a manga, impaciente, 
afundou a adaga entre as brasas.
        Ao sentir o fedor do metal quente me incorporei de sbito. antes de que pudesse dizer ou fazer nada, algo se moveu pego a mim. Baixei a vista, estupefata, 
olhei uma e outra vez, convencida, em meu atordoamento, de que ainda estava sonhando.
        Sob meu capote, acurrucado contra meu corpo, um menino dormia profundamente. Ao levantar o olhar, vi que Jamie pressionava o polegar do Josiah contra o petal 
abrasador de sua adaga enegrecida.
        Ele viu meu gesto convulsivo pela extremidade do olho e me dirigiu um olhar carrancudo, enrugando os lbios calado mandando silncio. Josiah tinha a cara 
contrada e os lbios estirados, descobrindo os dentes em um gesto de tortura, mas no fazia rudo algum. Ao outro lado do fogo, Kenny Lindsay observava, sentado 
e calado como uma rocha.
        Ainda convencida de que sonhava ( ao menos, isso esperava), apoiei uma mo no menino acurrucado contra mim. Ele se moveu outra vez. O contato da carne slida 
sob os dedos despertou por completo. Quando fechei a mo sobre seu ombro, ele abriu os olhos de par em par, alarmado.
        separou-se de um salto, levantando-se com estupidez. Ento viu seu irmo (pois obviamente Josiah era seu gmeo) e se deteve abruptamente, jogando um olhar 
enlouquecido em volto do claro: os homens disseminados, Jamie, Roger, eu mesma.
        Josiah, sem emprestar ateno  dor da mo queimada, que devia ser espantoso, levantou-se para aproximar-se velozmente a seu irmo e lhe agarrou pelo brao. 
        Vi que Josiah lhe espremia o brao para tranqiliz-lo; ento comecei a suspeitar o que era o que tinha roubado. lhes dirigindo um sorriso, alarguei a mo 
para o Josiah.
      
      
      
        - me deixe ver essa mo -sussurrei.
        Depois de uma momentnea vacilao, ele me entregou a mo direita. Era um bom trabalho, tanto que por um momento me senti enjoada. A gema do polegar lhe 
tinha sido retirada com um corte limpo; a ferida aberta, cauterizada com metal ao vermelho. Um ovalide negro, encostrado, substitua a marca incriminatoria.
        Algum se moveu brandamente detrs de mim: Roger me trazia a caixa de remdios. Deixou-a junto a meus ps.
        Pela leso no podia fazer muito, salvo aplicar um pouco de ungento de genciana e enfaixar o polegar com um pano limpo e seco. Jamie, j guardado a adaga, 
levantou-se sem rudo para ir revolver entre as alforjas. Quando acabei minha breve tarefa, ele estava de volta, com um pouco de comida envolta em um leno e uma 
manta que nos sobrava atada em um cilindro. Tambm trazia as calas que me tinha tirado.
        Entregou o objeto ao menino novo; a comida e a manta, ao Josiah. Logo estreitou com fora o ombro do rapaz e ps uma mo suave nas costas de seu irmo, para 
fazer que se girassem em direo ao bosque, assinalando as rvores com um gesto com a cabea. Josiah assentiu. depois de me saudar tocando-a frente, muito branco 
a vendagem do polegar, sussurrou:
        - Obrigado, senhora.
        Os dois meninos desapareceram silenciosamente entre as rvores; os ps descalos do gmeo apareciam, plidos, sob a prega lhe ondulem das calas.
        Surpreendi ao Roger olhando sobre o ombro do Jamie. O jovem assinalou para o este e cruzou um 
      dedo sobre os lbios, logo se encolheu de ombros com uma careta de resignao. Estava to interessado como eu por saber o que tinha acontecido e por que. Mas 
tinha razo: a noite chegava a seu fim. Logo amanheceria; os homens, habituados a despertar com a primeira luz, comeariam a flutuar para a superfcie da conscincia.
        Jamie tinha deixado de tossir, mas estava emitindo uns gorgoteos horrveis, em um intento de limpar a gargante. Parecia um porco afogando-se no barro.
        - Toma- sussurrei, lhe devolvendo o tigela- . Bebe e te deite. Deveria dormir um momento.
        - No vale a pena -disse, e apontou a cabea para o este, onde os pinheiros se recortavam muitos negros contra o cu acinzentado- . Alm disso, tenho que 
pensar que diabos vou fazer agora.
      
      

      27
      
      A morte vem de visita
      
      
        Logo que pude conter minha impacincia enquanto os homens despertavam, comiam e levantavam o acampamento, com irritante parcimnia. Por fim, encontrei-me 
uma vez mais na arreios, cavalgando em uma manh to fria e limpa que o ar parecia fazer-se pedacinhos ao respir-lo.
      
      
        - Bem -disse sem prembulos, quando minha gua ficou  altura de seu cavalo- . Conta.
        Ele se voltou a me olhar, sonriendo. Apesar daquela noite agitada, sentia-me cheia de energia; o sangue circulava muito perto de minha pele, florescendo 
em minhas bochechas.
        - No quer que esperemos ao pequeno Roger?
        - O contarei m tarde, ou o far voc.
        Aulei a minhas arreios para aproxim-la a do Jamie, com os joelhos envoltos no vapor que despedia o focinho do animal. Meu marido se esfregou a cara com 
uma mo, se sacudindo para desprend-la fadiga.
        - Bem -disse- . notaste que so irmos, verdade?
        - Notei-o, sim. De onde diabos saiu o outro?
        - dali.
        Assinalou para poente com o queixo. Entreabrindo os olhos distingui algo que parecia uma pequena casa, com um par de abrigos desvencilhados. Nesse momento 
uma pequena figura saiu da casa por volta de um deles.
        - Esto a ponto de descobrir que ele desapareceu -disse Jamie, algo carrancudo- . Com um pouco de sorte pensaro que foi ao desculpado ou a ordenhar as cabras.
        No me incomodei em perguntar como sabia que ali tinham cabras.
        -  o lar do Josiah e seu irmo?
        - Em certo modo, Sassenach. Eram escravos.
        - Eram? -repeti, ctica. Parecia-me duvidosa que o perodo de escravido dos irmos tivesse expirado, casualmente, a noite anterior.
        Jamie encongi um ombro e se limpou o nariz com a manga.
        - A no ser que algum os pilhe, sim.
        - Voc pilhou ao Josiah -assinalei- . O que te disse?
        - A verdade.- Torceu um pouco a boca- . Ao menos isso acredito.
        Tinha aoitado ao Josiah na escurido, guiando-se por sua frenticas ofega, at apanh-lo em um terreno baixo rochoso. Envolveu ao menino gelado em sua manta, 
obrigou-o a sentar-se e, com judiciosa pacincia e firmeza (reforadas com sorvos de usque de sua cigarreira), conseguiu lhe extrair a histria.
        - A famlia emigrou: pai, me e seis pirralhos. Somente os gmeos sobreviveram  viagem; outros pereceram no mar por enfermidade. Aqui no tenian parentes; 
ao menos, ningum que esperasse o navio, de modo que o capito os vendeu. Como o preo no havia talher o custo das passagens de toda a famlia, os meninos foram 
contratados para servir por trinta anos, para que seus jornais pagassem a dvida.
        Contava-o com voz indiferente; eram coisas que aconteciam. Eu sabia, mas estava muito menos dispostas s aceitar sem comentrios.
        - Trinta anos! Mas se... Que idade tinham ento?
        - Dois ou trs anos.
        Fiquei atnita. Esse dado mitigava a tragdia bsica, se o comprador dos meninos tivesse cuidado seu bem-estar. Mas recordei as costelas esqulidas do Josiah 
e suas pernas curvadas. No os tinha cuidado absolutamente. Claro que o mesmo acontecia com muitos meninos que viviam em seus prprios lares.
        - Josiah no tem nem idia dos quais eram seus pais, de onde vinham e como se chamavam -explicou Jamie, entre tosses e pigarros- . Sabe ou nome e o de seu 
irmo, que se chama Keziah, mas nada mais. Beardsley  o sobrenome do homem que os adquiriu. Quanto aos moos, no sabem se forem escoceses, ingleses ou irlandeses. 
Com esses nomes  provvel que no sejam alemes nem poloneses, mas nem sequer isso  impossvel.
        - Hum.. Assim Josiah fugiu. Suponho que isso tem algo que ver com a marca de seu polegar.
        Jamie assentiu, com a vista no cho, enquanto seu cavalo descendia cautelosamente o pendente.
        - Roubou um queijo. Nisso foi sincero. -Alargou a boca em um gesto de momentnea diverso- . Roubou-o de uma granja do Brownsville, mas a criada o viu. Em 
realidade, a mulher disse que tinha sido o outro irmo, mas... Possivelmente no foi to sincero como eu pensava. De qualquer maneira, um dos meninos agarrou o queijo, 
Beardsley os descrubi e chamou o delegado. Josiah aceitou a culpa... e o castigo.
        Depois desse incidente, acontecido um par de anos antes, o menino tinha fugido da granja. Conforme contou ao Jamie, sua inteno era voltar para resgatar 
a seu irmo assim que achasse um lugar para viver. O oferecimento de meu marido lhe pareceu um dom do cu; ento abandonou a congregao para retornar a p.
        - Imagine sua surpresa quando nos encontrou encarapitados na ladeira- comentou Jamie, e espirrou. limpou-se o nariz, com olhos lacrimosos- . Estava espreitando 
a pouca distncia, sem saber se esperar a que fssemos ou averiguar se amos para a granja, pois nesse caso poderia aproveitar a distrao para entrar s escondidas 
e levar-se a irmo.
        - E voc decidiu entrar com ele para ajud-lo no roubo.
        Tambm me gotejava o nariz pelo frio. Enquanto me soava, joguei uma olhada ao Jamie. Ainda tinha o nariz vermelho e a pele mida devido  enfermidade, mas 
seus altos mas do rosto estavam acesos pelo sol da manh e o via bastante corajoso, considerando que tinha passado toda a noite em um frio bosque.
        - Foi divertido, no? -adivinhei.
        - Pois sim! Levava anos sem fazer algo assim. -O sorriso lhe enrugou os olhos, convertendo-os em tringulos azuis- . Foi como quando fazamos incurses nas 
terras dos Grant, com o Dougal e seus homens, sendo eu um menino. Escorramo-nos na escurido e entrvamos no celeiro... meu deus, se tive que me conter para no 
ficar com a vaca! Quer dizer, o teria feito, se tivessem tido vaca.
        Ri com indulgncia.
        -  um perfeito bandido, Jamie.
        - Bandido? -exclamou, um pouco ofendido- . Mas se for um homem muito honrado, Sassenach! Ao menos, quando posso permitir me corrigiu isso, jogando uma olhada 
para trs para assegurar-se de 
      que ningum pudesse nos ouvir.
        - OH!.  totalmente honrado. mais do que te convm. S que no sempre respeita as leis.
        Esta observao pareceu desconcert-lo um pouco, pois enrugou o sobrecenho, com um grunhido que tanto podia ser uma interjeio escocesas negativa como um 
intento de afrouxar o escarro. Tossiu um pouco. Logo freou a suas arreios e, levantando-se nos estribos, agitou o chapu para o Roger, que estava a certa distncia, 
costa acima. O jovem respondeu a seu gesto e ps a seu cavalo em direo a ns.
        Eu detive minha gua junto ao Jamie e deixei cair as rdeas sobre seu pescoo.
        - Farei que o pequeno Roger v com os homens ao Brownsville -explicou Jamie, erguido em sua cadeira- enquanto eu visito os Beardsley. Vem comigo, Sassenach, 
ou vai com ele?
        - Irei contigo -disse sem vacilar- . Quero ver como so esses Beardsley.
         Sorridente, apartou-se o cabelo antes de voltar a impregnar o chapu. Levava o cabelo solto para proteger do frio o pescoo e as orelhas; sua juba brilhava 
como cobre fundido sob o sol da manh.
        - Isso pensava. Mas cuidado com sua cara -acrescentou, em zombadora advertncia- . No vs ficar te boquiaberta nia a te pr como um tomate se se mencionar 
ao servo ausente.
        - Cuida voc a tua -lhe repliquei, bastante chateada- . Tomata! Disse-te Josiah se lod maltratavam? -Talvez havia algo mais que o incidente do queijo depois 
da fuga do Josiah.
        Ele moveu a cabea.
        - No o perguntei, nem ele me disse isso. Mas pensa um pouco, Sassenach: abandonaria uma casa decente para viver sozinha nos bosques, dormir sobre folhagem 
fria e comer vermes e grilos at que aprendesse a caar?
        Aulando a seu cavalo subiu a costa ao encontro do Roger, enquanto eu estudava a conjetura. Retornou minutos depois. Eu pus minhas arreios  altura da sua, 
com outra pergunta na mente.
        - Mas se as coisas estavam to mal para obrig-lo a fugir, por que seu irmo no o acompanho?
        Jamie me dirigiu um olhar de surpresa. Logo sorriu, algo carrancudo.
        - Keziah  surdo, Sassenach.
        No era surdo de nascimento, conforme haviam dito ao Josiah; seu gmeo tinha perdido o ouvido a conseqncia de uma leso, quando tinha ao redor de cinco 
anos. portanto, sabia falar, mas s era capaz de ouvir rudos muito fortes; ao no poder perceber o sussurro das folhas ou o rudo de pegadas, no podia caar nem 
evitar a perseguio.
        - Diz que Keziah entende o que lhe diz, e isso  indubitvel.
        Por ento tnhamos chegado ao p do pendente. Os cavalos se agruparam um instante em volto do Jamie, enquanto se decidiam os rumos e se estabeleciam os pontos 
de reunio. depois de intercambiar despedidas, Roger assobiou entre dentes, mostrando apenas um rastro de acanhamento, e agitou seu chapu no ar em gesto de convocatria. 
Vi-o relaxar-se, girando-se pela metade na cadeira; logo olhou para o fronte.
        - No est seguro de que outros o sigam -comentou Jamie, com ar crtico. Logo se encolheu de ombros- . J as arrumar. Ou no.
        - As arrumar -assegurei, recordando a noite anterior.
        - Alegra-me que o pense, Sassenacha. Vamos.- E estalou a lngua, atirando as rdeas para que seu cavalo desse meia volta.
        - Se no estar seguro de que as possa arrumar, por que deixa que v sozinho? -perguntei a suas costas, ao entrar no bosquecillo que se interpunha entre ns 
e a granja, j invisvel- .por que no manter ao grupo unido e conduzi-lo voc mesmo ao Brownsville?
        - Para comear, no aprender se no lhe dou oportunidade. Por outra parte... -Fez uma pausa, indo para mim- . Por outra parte no quero que todo o grupo 
v a casa dos Beardsley. Poderiam inteirar-se de que desapareceu um servo. E todo o acampamento viu ontem  noite ao Josiah. Se te faltar um menino e se inteira 
de que um guri provocou um alvoroo no bosque prximo, pode tirar certas concluses, no?
        Segui-o atravs de um estreito desfiladeiro entre os pinheiros. O rocio cintilava como diamantes na casca e as agulhas. As gotas geladas que caam dos ramos 
me arrepiavam a 
      pele.
        A menos que esse tal Beardsley seja velho ou aleijado, no deveria unir-se a ti? -objetei- .cedo ou tarde algum mencionar ao Josiah diante dele.
        Jamie sacudiu a cabea.
        - Em todo caso, o que lhe diriam? Os homens viram o guri que trouxemos e o viram fugir outra vez. Por isso eles sabem, pode ter tornado a escapar.
        - Kenny Lindsay os viu ambos, quando voltou com eles.
        encolheu-se de ombros.
        - Sim, falei com o Kenny enquanto selvamos os cavalos. No dir nada.
        Tinha razo: Kenny era um de seus homens do Ardsmuir, dos que o obedeciam sem perguntar.
        - No -prosseguiu ele, guianado a suas arreios em volto de uma grande rocha- , Beardsley no  um aleijado; Josiah me disse que comercializa com os ndios; 
leva mercadorias ao outro lado da Linha do Tratado, s aldeias cherokees.Lo que no sei  se estar em casa nestes momentos. Mas nesse caso...
        Aspirou fundo e se deteve tossir, pelo comicho do ar frio nos pulmes.
        -  outro dos motivos pelos que tenho feito que os homens se adiantem -continuou, algo ofegante- . No nos reuniremos com eles at manh, conforme acredito. 
At ento tero disposto de uma noite para beber e alternar no Brownsville; j no recordaro ao menino e ser difcil que o mencionem em presena do Beardsley.
        Pelo visto, contava com que os donos da granja fossem hospitalares e nos dessem albergue. Era uma expectativa razovel nessa zona boscosa. Decidi que se 
essa noite tossia outra vez, lubrificaria-lhe bem com graxa alcanforada, gostasse ou no; se fosse necessrio, inclusive me 
      sentaria sobre seu peito.
      
        Quando samos das rvores joguei um olhar dbio  casa. Era mais pequena do que me tinha parecido e parecia uma runa, mas eu tinha dormido em stios piores 
e sem dvida voltaria a faz-lo.
        O achaparrado celeiro tinha a porta totalmente aberto, mas no se viam sinais de vida. Todo o lugar parecia estar deserto, se no fora pela voluta de fumaa 
que saa da chamin.
        O dizer que Jamie era honrado, eu falava a srio, embora no fora toda a verdade. Era honrado, e tambm respeitava as leis... quando lhe mereciam respeito. 
que uma lei tivesse sido promulgada pela Coroa no era suficiente. Em troca, havia leis no escritas pelas que ele teria dado a vida.
        No obstante, embora a lei da propriedade tinha menos poder sobre os incursores escoceses que sobre outras pessoas, o certo era que ia pedir a hospitalidade 
de um homem ao que tinham despojado de algo de sua propriedade. Jamie no se opunha energicamente  servido; pelo general teria respeitado o direito do senhor. 
O fato de que no o fizesse significava que percebia o predomnio de uma lei superior, j fora a amizade, a compaixo, o earbsachd ou outra.
        Ele se tinha detido e me estava esperando.
        - por que decidiu ajudar ao Josiah? -perguntem-lhe in rodeios, enquanto cruzvamos o maltratado milharal que se estendia diante da casa.
        Jamie se tirou o chapu e o enganchou  cadeira para atar o cabelo arrumando-se para o encontro.
        - Pois... disse-lhe que, se estava decidido a seguir seu caminho, que o fizesse. Mas se queria vir  Colina, s ou com seu irmo, devamos felpa resa marca 
de seu polegar para no provocar rumores. Do contrrio os Bearsdley podiam inteirar-se e as conseqncias seriam nefastas.
        Aspirou fundo e deixou escapar o ar; logo se voltou para mim, muito srio.
        - O moo no vacilou nem um momento, embora sabia o que  ser marcado. E te direi, Sassenach: por amor ou por valor, o homem desesperado pode fazer algo 
uma vez. Mas quando j o tem feito e sabe o que vais sofrer, requer-se algo mais para faz-lo de novo.
        E, sem esperar rspuesta, entrou no ptio espantando a um bando de pombas, muito erguido na arreios, com os ombros quadrados. No havia sinais das cicatrizes 
que lhe marcavam as costas sob o capote, mas eu as conhecia de sobra.
        De maneira que era isso. " Igual a na gua a cara reflete a cara, o corao do homem reflete ao 
      homem."  E a lei do valor era a que ele tinha respeitado sempre.
      
      - Ah, da casa! -gritou Jamie, detendo-se no centro do ptio.
        Era a etiqueta aceita para quem chegava a uma casa desconhecida. Embora a maioria dos montanheses eram hospitalares, no faltavam quem olhava aos forasteiros 
com cautela e tendiam a fazer as apresentaes a ponta de pistola, enquanto o visitante no tivesse estabelecido sua boa f.
        Tendo isto em conta, mantive a prudente distancia detrs do Jamie, mas cuidei de me manter  vista, estendendo ostensiblemente minhas saias, a fim de exibir 
minha condio feminina como prova de que nossas intenes eram pacficas.
        Jamie se dirigia para o estbulo, gritando a intervalos sem resultado aparente. Joguei uma olhada a meu redor, mas no ptio no havia rastros recentes, alm 
das nossas. Junto ao tronco ao meio serrar se via um monto de esterco, mas no estava fresco; embora as bolas estavam midas de rocio, quase todas se desfeito em 
p.
        Ningum tinha entrado nem sado dali, salvo a p. O mais provvel era que Beardsley estivessem ainda dentro, mas no se deixavam ver. Era cedo, sim, mas 
os granjeiros j deviam estar dedicados a suas tarefas. Ao fim e ao cabo, um momento antes eu tinha visto algum ali.
        Ao me voltar para a porta reparei em uma estranha srie de entalhes cortados na madeira do marco. Eram pequenas, mas numerosas: percorriam uma das ombreiras 
com toda sua longitude e a outra, at a metade. Olhei mais atentamente; estavam dispostas em grupos, tal como os prisioneiros revistam levar a conta das semanas.
        Jamie saiu do estbulo, seguido por uns quantos balidos. As cabras que ele tinha mencionado, sem dvida. Perguntei-me se as ordenhar seria responsabilidade 
do Keziah. Nesse caso no demorariam para 
      descobrir sua ausncia, se  que no a tinham descoberto ainda.
        Jamie deu alguns passos para a casa e voltou a gritar, com as mos ao redor da boca. No houve resposta. depois de aguardar um momento, encolheu-se de ombros 
e subiu ao alpendre para bater na porta com o punho de sua faca. O rudo teria despertado a um morto, se havia algum na vencidad.
        Jamie me olhou com uma sobrancelha arqueada. Os granjeiros no estavam acostumados a ausentar-se deixando a casa desatendida, sobre tudo se tinham ganho.
        - H algum ali -disse ele, respondendo a meu pensamento- . As cabras esto recm ordenhas; ainda tm gotas nas tetas.
        - Crie que tero sado a procurar... n... j sabe? -murmur,acercndome
        -Talvez.
        apartou-se para espiar por uma janela. Quase todos seus cristais tinham desaparecido ou estavam quebrados. Uma parte de musselina puda, sujeita com tachinhas, 
cobria a abertura. Vi que Jamie a observava com ar carrancudo, com o dedn do arteso ante uma reparao mau feita.
        de repente girou a cabea.
        - ouviste, Sassenach?
        - Sim. Pensei que eram as cabras, mas...
        O balido se ouviu outra vez, j inconfundiblemente dentro da casa. Jamie apoiou uma mo na porta, mas no cedeu.
        - Ferrolho -disse brevemente
        E voltou para a janela para soltar cuidadosamente uma esquina do tecido.
        - Fiu! -exclamei, enrugando o nariz ante a baforada que surgia.
        Estava habituada aos aromas das cabanas fechadas do inverno, onde os bafos de suor, roupa suja, ps molhados e bacinillas se mesclavam ao po assado e os 
guisados, mas o aroma que emanava da residncia dos Beardsley ia muito alm do normal.
        - Ou tm porcos dentro da casa -disse, jogando uma olhada ao estbulo- , ou h ali dez pessoas que no saram da primavera.
        -  um pouco forte -coincidiu ele. Aproximou a cara  janela, fazendo uma careta ante o fedor, e uivou: Thig a mach! Se no sair, Beardsley, vou entrar!
        Espiei por cima de seu ombro, para ver o que resultados produzia essa ameaa. O quarto interior era amplo, mas estava to lotado que a madeira manchada do 
cho logo que era visvel entre o amontoamento de coisas.
        A outra janela estava coberta por uma pele de lobo, que deixava o interior em sombras. Com tantas caixas, fardos e mveis amontoados, aquilo parecia uma 
verso empobrecida da cova do Al Bab.
        Outra vez chegou esse rudo da parte traseira da casa, um pouco mais forte; era uma mescla de rugido e chiado. Dava um passo atrs; o aroma acre, somado 
ao som, trouxe-me para a cabea uma imagem de pelagem escura e violncia sbita.
        - Ursos -sugeri, mdio a srio- . A gente se foi e dentro h um urso.
        - Sim, Ricitos de Ouro -disse Jamie, seco- . Sem dvida. Com ursos ou sem eles, aqui passa algo estranho. me traga as pistolas e a caixa de cartuchos que 
tenho na alforja.
        antes de que eu pudesse abandonar o alpendre, dentro se ouviu um rudo de ps que se arrastavam. Girei imediatamente. Jamie tinha jogado mo de sua adaga, 
mas ao olhar para dentro afrouxou os dedos no punho. Vendo seu gesto de surpresa, inclinei-me sobre seu brao para olhar.
        Uma mulher apareceu entre duas montanhas de mercadorias para olhar para fora com desconfiana, como um rato que espiasse de um cubo de lixo. No tinha muito 
aspecto de rato: era bastante robusta e de cabelo ondulado, mas piscou  maneira calculadora dos insetos, avaliando a ameaa.
        - Larguem-se -disse. Ao parecer, deduziu que no fomos a vanguarda de um exrcito invasor.
        - bom dia voc tenha, senhora -comeou Jamie- . Sou James Fraser, de...
        - No me importa quem seja. Largue-se. 
        - No o farei,  obvio -replicou ele com firmeza- . Devo falar com o homem da casa.
        Pela cara gordinha cruzou uma estranha expresso: preocupao, clculo e algo que podia ser diverso.
        - De veraz? -Falava com um ligeiro ceceio- . E por ordem de quem?
        Ao Jamie comeavam a avermelhar-se o as orelhas, mas respondeu com bastante calma.
        - Do governador, senhora. Sou o coronel James Fraser -enfatizou- , e estou a cargo de recrutar uma tropa. Todos os homens fisicamente aptos, de entre dezesseis 
e sessenta anos, devem emprestar servio. voc ter a bondade de chamar o senhor Beardsley, por favor?
        - De maneira que uma mi-li-recua? -disse ela, pausadamente- . por que? Contra quem vo brigar?
        - Com um pouco de sorte, contra ningum. Mas se chamou a recrutamento e devo responder. E tambm todos os homens fisicamente aptos que habitem dentro da 
Linha do Tratado.
        Jamie esticou a mo contra o marco da porta e olhou  mulher de frente, com um sorriso cordial. Ela entreabriu os olhos e franziu os lbios, pensativa.
        - Fzicamente aptoz -disse ao fim- . Bom, no tnemoz nada de ezo. O ziervo tornou a fugir, mas at zi eztuviera aqui no zera apto: zordo como uma taipa, 
e baztante mudo.- Assinalou a porta a modo de ilustrao- . Mas zi quereiz perzeguirlo, podiz quedaroz com ele.
        Ao parecer ningum pensava correr detrs o Keziah. Aspirei fundo para dar um suspiro de alvio, mas o contive imediatamente.
        Jamie no se daria por vencido com tanta facilidade.
        - Est o senhor Beardsley em casa? -perguntou- . Quero v-lo.
        E provou a atirar do marco; a madeira seca se rompeu com um rudo de pistoletazo.
        - No ezt em condicionez de receber a ningum -disse ela. A nota estranha aparecia outra vez em sua voz, cautelosa, mas ao mesmo tempo carregada de um pouco 
parecido ao entusiasmo.
        - Est doente? -perguntei, aparecendo - .Talvez possa ajudar. Sou doutora.
        Ela se adiantou um passo ou dois para me olhar, com o sobrecenho franzido sob uma densa massa de cabelo castanho. Era mais jovem do que eu tinha pensado; 
vista  luz, a safada no apresentava telaraas de velhice nem carnes frouxas.
        - Doutora?
        - Minha esposa  uma curadora de renome -explicou Jamie- . Os ndios a chamam Corvo Branco.
        - A mulher dos conjuros? -Ela abriu os olhos alarmada, e deu um passo atrs.
        Algo me resultava estranho nessa mulher. Ao observ-la compreendi o que era. Pese ao fedor da casa, estava poda, com o cabelo suave e esponjoso; no era 
o  normal na temporada fria; a maioria da gente no se banhava durante vrios meses.
        - Quem  voc? -perguntei sem rodeios- . A senhora Beardsley? Ou talvez a senhorita Beardsley?
        No tinha mais de vinte e cinco anos, pensei, apesar do volumoso de sua figura. Observei-a com certo desagrado, mas ela me sustentou o olhar com bastante 
frieza.
        - Zoy a zeora Beardzley.
        O alarme tinha desaparecido; franziu os lbios, projetando-os para fora com ar de clculo. Jamie flexionou o brao e o marco da janela rangeu violentamente.
        - Pazen, pois.
        Ali estava outra vez esse tom estranho, entre o desafio e a ansiedade. Jamie franziu o sobrecenho ao capt-lo, mas deixou de sacudir o marco.
        Ela saiu de entre as caixas para aproximar-se da porta. Vi-a em ao menos de um segundo, mas bastou para notar que era agarre; arrastava um p contra o 
cho.
        ouviram-se golpes e grunhidos enquanto lutava com o cadeado; logo, um chiado e o golpe seco de este ao cair ao cho. A porta, curvada, entupiu-se no marco; 
Jamie empurrou com o ombro e a abriu de repente; as pranchas ficaram trmulas pelo impacto. Quanto tempo levava sem abrir-se?
        Muito, pelo visto. Jamie entrou soprando e tossindo; eu o segui, tratando de respirar pela boca. Mesmo assim o aroma teria podido deprimir a um furo.  
fetidez da mercadoria acumulada se somava a de alguma letrina. Tambm cheirava a comida podre, mas havia algo mais. Contra cautelosamente as fossas nasais, tratando 
de no inalar mais que umas poucas molculas para sua anlise.
        - Quanto tempo leva doente o senhor Beardsley? -perguntei. Entre a fetidez geral, tinha reconhecido um claro aroma de enfermidade.
        - Puez baztante.
        Quando fechou a porta a nossas costas experimentei uma sbita claustrofobia. Dentro o ar estava denso, tanto pelo fedor como pela falta de luz. Senti um 
forte impulso de arrancar as coberturas de ambas as janelas para que entrasse um pouco de ar, mas apertei as mos contra minha capa para no faz-lo.
        A senhora Beardsley ficou de lado para escorrer-se e Jamie foi atrs dela, passando baixo uns quantos postes para loja. Segui-os com cautela, tratando de 
no pensar que meu p, de vez em quando, pisava em objetos desagradablemente brandos. Mas podres? Ratos mortos? Caminhei me apertando o nariz e sem olhar para 
baixo.
        A casa era de contruccin singela; uma habitao grande na parte frontal e outra detrs.
        A habitao posterior contrastava de maneira chamativa com o asqueroso amontoado de em frente. Tudo estava impecvel; a mesa de madeira e o lar de pedra, 
bem polidos; uns quantos utensillos reluziam em sua prateleira. Uma das janelas tinha o cristal intacto e sem cobrir; o sol da manh atravessava a habitao, puro 
e radiante. Ali havia quietude e silncio; isso aumentou a estranha sensao de ter entrado em uma espcie de santurio, com respeito ao caos do quarto dianteiro.
        A impresso de paz se evaporou ao momento, ante um forte rudo que chegou de acima. Era o mesmo que tnhamos ouvido antes, mas o ouvia mais perto; um chiado 
desesperado, como o de um porco ao que torturassem. Jamie deu um coice e se dirigiu rapido para uma escalerilla que, do lado oposto da habitao, conduzia para um 
desvo.
        - Ezt ali acima -disse a senhora Beardsley.
        No era necessrio, pois Jamie j ia pela metade da escalerilla. O chiado se deixou ouvir outra vez, mais urgente. Decidi no ir procurar minha maleta sem 
ter investigado.
        No momento em que agarrava a escalerilla, Jamie apareceu acima.
        - Traz luz, Sassenach -disse brevemente. E sua cabea desapareceu.
        A mulher permanecia imvel, com as mos sepultadas no xale, sem fazer nada por procurar um candil. Tinha os lbios apertados e as bochechas manchadas de 
vermelho. Passei por seu lado para agarrar uma palmatria da prateleira e, depois de acend-la no lar, subi precipitadamente.
        - Jamie? -Apareci a cabea pelo desvo, sustentando a vela em alto.
        - Aqui, Sassenach. -Ele estava de p ao outro lado do quarto, onde as sombras eram mais densas. Passei sobre o batente da escalerilla para me reunir com 
ele, pisando com cautela.
        Ali o fedor era muito mais forte. Ao ver um reflexo de algo na escurido, aproximei a vela para olh-lo.
        Jamie aspirou bruscamente, to espantado como eu, mas imediatamente dominou suas emoes.
        - O senhor Beardsley, preumo -disse.
        O homem era enorme; ao menos, tinha-o sido. A carne do brao pendia frouxa e branca; o enorme peito se afundava no centro, e o pescoo, que em outros tempos 
devia ter parecido o de um touro, estava consumido at mostrar as fibras. Um s olho brilhava, fentico, depois das mechas condensadas.
        Esse olho se abriu de assombro. O homem emitiu novamente quel rudo, tratando de levantar a cabea com insistncia. Percebi o calafrio que percorria ao Jamie. 
Aquilo bastou para me arrepiar o cabelo da nuca, mas me dominei.
        - Sujeita me o candil -diije, lhe pondo a palmatria na mo.
        Deixei-me cair de joelhos; muito tarde, notei algo lquido atravs da saia. O homem jazia em sua prpria imundcie, desde para tempo, no estou acostumado 
a molhado e talher de substncia viscosa. Estava nu; cobria-o s uma manta de linho. Ao retir-la detectei chagas ulcerosas entre as manchas de excremento.
        O que afetava ao senhor Beardsley era bastante bvio; uma parte de sua cara lhe caa 
      grotescamente, com a plpebra entrecerrado; tanto o brao como a perna jaziam lassos e mortos, com as articulaes nodosas e extraamente distorcidas pelo 
desaparecimento da massa musculas. Entre balidos resoplantes, a lngua aparecia pela comissura da boca, babando, em um vo intento de falar.
        - Chist -lhe disse- . No fale. Tudo ir bem.
        Agarrei-lhe a boneca para avaliar o pulso; a carne se movia sobre os ossos, frouxa, sem a menor resposta a meu contato.
        - Um ataque cerebral -disse brandamente ao Jamie- . Uma apoplexia, como diria voc.
        Apoiei uma mo no peito do Beardsley para lhe oferecer algum consolo.
        - No se preocupe -lhe disse- . viemos a ajud-lo.
        Falava em tom tranqilizador, mas me estava perguntando que ajuda poderamos lhe dar. Higiene e casaco, pelo menos; nesse desvo fazia to frio como no exterior; 
seu peito tinha a pele de galinha sob o plo abundante.
        A escalerilla rangeu pesadamente; ao me voltar vi o contorno de uma cabea esponjosa e dois grossos ombros, recortados contra a luz da cozinha.
        - Quanto tempo leva assim? -perguntei com aspereza.
        - Maz ou menoz... um mez -disse ela, depois de uma pausa. E adicionou  defensiva- : No pude trazladarlo. Ez muito pezado.
        Isso era certo, sem dvida.
        - por que est aqui acima? -inquiriu Jamie- . Se no o moveu voc, como pde chegar at aqui?
        Girou para iluminar o desvo com a luz da vela. Ali havia poucas coisas que pudessem atrair a um homem: um velho colcho de palha, umas quantas ferramentas 
disseminadas e velhos trastes domsticos. A luz brilhou contra a cara da senhora Beardsley, convertendo em gelo seus plidos olhos azuis.
        - Vinha... perziguindome -disse fracamente.
        - O que? -Jamie se aproximou da escalerilla e a agarrou por um brao para ajud-la (contra a vontade da mulher, pareceu-me) a subir o trecho restante- . 
Como  isso de que a estava perseguindo?
        Ela curvou os ombros, redonda e feia como um frasco de bolachas entre seus grandes xales.
        - Golpeou-me -disse simplesmente- . Zub a escalerilla para fugir dele, mas me zigui. Trate de ezconderme aqui, entre laz zombraz, e ele veio... mas entoncez... 
caiu. Y... j no pde levantarze.
        Voltou para encongerse de ombros.
        - Hum, sim -disse Jamie, passando a vista de uma em outro- . Bem. Faa o favor de taer um pouco de gua, senhora. Traga tambm outra vela e alguns trapos 
limpos -adicionou.
        - Jamie, me aproxime a luz, quer?
        ficou a meu lado, sustentando a vela para que iluminasse o corpo arruinado. Jogando ao Beardsley um tenebroso olhar, em que se mesclavam a piedade e o desagrado, 
moveu lentamente a cabea.
        - O castigo de Deus, no te parece, Sassenach?
        - No acredito que seja inteiramente de Deus -disse, baixando a voz para que no chegasse  cozinha. Alarguei a mo para agarrar a vela- . Olhe.
         sombra, perto da cabea do Beardsley, havia um recipiente com gua e um prato de po, duro e azulado de mofo; ali o estou acostumado a estava talher de 
mendrugos de po ao meio comer. Ela o tinha alimentado apenas o suficiente para mant-lo com vida, embora na habitao de abaixo havia grandes quantidades de comida, 
assim como fardos de peles, jarras de azeite, mantas de l empilhadas. Entretanto, o dono de todos esses bens jazia na escurido, esfomeado e tremendo sob um sozinho 
lenol de linho.
        - por que no o deixou morrer, sem mais? -perguntou-se Jamie em voz baixa, fixa a vista no po mofado.
        Ante isso Beardsley lanou uns gorgoteos e grunhidos; seu olho lacrimejou, em tanto umas borbulhas de muco apareciam no nariz. Arqueou o corpo, fustrado, 
mas logo se derrubou com um rudo 
      carnudo, que sacudiu as pranchas do desvo.
        - Acredito que te entende. Verdade? -Tinha dirigido esta pergunta ao doente; pela maneira em que gorgote, babando, resultou bvio que entendia; ao menos 
sabia que lhe estava falando.
        - E se quer saber por que...
        Assinalei com um gesto as pernas do Beardsley, movendo lentamente a vela sobre elas. Algumas das chagas se deviam ao feito de ter acontecido tanto tempo 
tendido e sem mover-se. Outras no. Uma das grandes coxas apresentava talhos paralelos, obviamente feitos com uma faca, j negros e coagulados. A pantorrilha estava 
decorada por uma linha regular de ulceraes: feridas muito vermelhas, rezumantes e bordeadas de negro. Queimaduras que lhe tinham deixado ulcerar.
        Ao ver aquilo, Jamie grunhiu pelo baixo e olhou para a escalerilla. De abaixo nos chegou o rudo de uma porta ao abrir-se; uma rajada fria subiu at o desvo, 
fazendo danar a chama da vela. Quando a porta se fechou, chama-a voltou a estabilizar-se.
        - Acredito que poderia lhe baixar. -Jamie elevou o candil para avaliar as vigas do teto- . Possivelmente, passando por esta viga uma corda grosa. O pode 
mover?
        - Sim -disse. Mas no estava emprestando ateno. Ao me inclinar para as pernas do homem notei uma baforada de algo que levava muitssimo tempo sem cheirar, 
um fedor maligno e sinistro.
        No me tinha encontrado isso muitas vezes, mas bastava com uma: o aroma penetrante da gangrena refrigerante  inesquecvel. No quis dizer nada que pudesse 
alarmar ao Beardsley, se  que podia me entender. Em troca lhe dava um tapinha tranqilizador e fui em busca da palmatria para ver melhor.
        Ao entregrmenla, Jamie se inclinou para me murmurar ao ouvido:
        - Pode fazer algo por ele, Sassenach?
        - No -respondi, tambm em voz baixa- . Quer dizer, pela apoplexia no. Posso lhe tratar as chagas e lhe dar algumas ervas contra a febre. Isso  tudo.
        Contemplou um momento a figura encurvada nas sombras, j imvel. Logo moveu a cabea, fazendo o sinal da cruz-se, e baixou depressa em busca de uma corda.
        Eu voltei lentamente onde o doente, que me recebeu com um denso " Haugggg"  e um incansvel tamborilar com uma s perna, como o aviso dos coelhos. Ajoelhei-me 
junto a seus ps, lhe falando em tom tranqilizador, de nada em particular, enquanto aproximava a luz para examinar-lhe Os dedos. Todos os desdos do p morto estavam 
queimados; alguns s tinham ampolas; outros estavam consumidos quase at o osso. Os dois primeiros se haviam posto negros e um tintura esverdeado se estendia sobre 
a impigem.
        Fiquei horrorizada, tanto pelo ato em si como pelo que podia ter conduzido a isso. Que diabo faramos com esses duas miserveis?
        Obviamente no podamos levar ao Beardsley conosco. E era igualmente bvio que no podamos deix-lo ali, aos cuidados de sua esposa. Talvez pudssemos lev-lo 
at o Brownsville; 
      no estbulo devia haver uma carreta. Mas mesmo assim, o que passaria depois?
        No havia nenhum hospital onde pudessem atend-lo. Se algum lar do Brownsville o recebia por caridade, muito bem. Mas ao ver o estado do Beardsley passado 
um ms, era improvvel que sua paralisia e sua fala melhorassem muito. Quem aceitaria atend-lo dia e noite durante o resto de sua vida?
        Claro que o resto de sua vida podia ser muito curto, segundo o xito que eu tivesse ao tratar a gangrena. A preocupao diminuiu ao me concentrar no problema 
imediato. Teria que amputar; era a nica possibilidade. Os dedos no ofereciam dificuldade, mas talvez no bastasse com eles. Se era mister cortar o p ou parte 
dele, aumentava o risco de shock e de infeco.
        Sentiria algo? s vezes as vtimas de ataques cerebrais retinham a sensao no membro afetado, embora no pudessem mov-lo; outras vezes havia movimento 
sem sensao ou nenhuma das duas coisas. Toquei cautamente um dedo engagrenado, lhe observando a cara.
        No me olhou, no fez rudo algum. Isso respondia  pergunta; no tinha sensibilidade no p. Em certo modo era um alvio; ao menos no sofreria a dor da 
amputao.
        detrs de mim houve um leve roce. A senhora Beardsley estava ali. depois de pr no cho um cubo de gua e um monto de trapos, ficou a minhas costas enquanto 
eu comeava a lavar a 
      imundcie.
        - Pode cur-lo? -perguntou. Sua voz soava serena, remota, como se falasse de um desconhecido.
        De repente, a cabea do paciente se bamboleou para fixar em mim o olho aberto.
        - Acredito que posso ajudar um pouco -disse com cautela, desejando que Jamie retornasse logo. Necessitava minha maleta, mas alm disso a companhia dos Beardsley 
me punha nervosa.
        Mais ainda quando o doente emitiu inadvertidamente uma pequena quantidade de urina. A mulher ps-se a rir. Ele respondeu com um som que me arrepiou a pele 
dos braos. depois de retirar o lquido de sua coxa, continuei com minha tarefa, tratando de no emprestar ateno.
        - voc tm ou o senhor Beardsley algum parente perto? -perguntei, no tom mais coloquial possvel- . Algum que pudesse lhes dar uma mo?
        - Ningum -disse ela- . Eu vivia em Maryland. Ele me zac da caa de meu pai. Para me trazer aqui. -Disse " aqui"  como se se referisse ao inferno; nesse 
momento havia certa similitude, por certo.
        Abaixo se abriu a porta; uma rajada de ar frio anunciou a volta do Jamie. Ouvi o rudo quando ps minha caixa na mesa e me levantei depressa, desejando escapar 
deles embora fora um momento.
        - Ali est meu marido com os reemedios. Irei A... n... a trazer... hum...
        Escorri-me junto  senhora Beardsley para voar esccalerilla abaixo, suando a pesar do frio. Jamie estava junto  mesa, carrancudo, dando voltas  corda que 
tinha nas mos. Para me ouvir levantou a vista, relaxando um pouco a cara.
        - Como vai, Sassenach? -perguntou em voz baixa, assinalando o desvo com o queixo.
        - Muito mal -sussurrei- . Tem dois dedos gangrenados; terei que amputar-lhe E ela diz que no tm familiares que possam ajud-los.
        - Hum. -Apertou os lbios, dedicando sua ateno a estilingue que improvisava.
        Eu ia agarrar minha caixa para revisar os instrumentos, mas me detive o ver as pistolas do Jamie na mesa, junto com o corno de plvora e o estojo de balas. 
Toquei-lhe o brao. " Para que?" , modulei com os lbios assinalando-os com a cabea.
        Entre suas sobrancelhas se acentuou a ruga, mas antes de que pudesse responder, acima se ouviu um terrvel alvoroo: derrubadas e golpes secos, acompanhados 
por um rudo gorgoteante.
        Jamie deixou cair a corda e saiu disparado para a escalerilla, comigo lhe pisando os tales. Quando apareceu a cabea acima deixou escapar um grito e se 
lanou para frente. Ao entrar no desvo, lhe seguindo, vi-lhe lutar com a senhora Beardsley.
        Lhe deu uma cotovelada na cara, golpeando-o em pleno nariz. Isso tirou ao Jamie qualquer inibio que lhe impedisse de maltratar a uma mulher: girou-a em 
redondo e lhe aplicou um seco uppercut ao queixo, que a deixou cambaleante, com os olhos frgeis. Lancei-me para diante para resgatar a vela, enquanto a mulher caa 
sentada em um colcho de saias e anguas.
        - B cago... essa ed... bujed. -A voz do Jamie soava apagada pela manga que pressionava seu 
      cara, para estancar o sangue que surgia de seu nariz, mas sua sinceridade era inconfundvel.
        O senhor Beardsley se agitava como um peixe recm pescado, entre rudos sibilantes e gorgoteos. Ao levantar a palmatria vi que tratava de tocar o pescoo 
com uma mo. Tinha um leno de tecido, retorcido como uma corda; sua cara estava negra, com o nico olho exagerado. Apressei-me a desatar o leno; sua respirao 
se aliviou com um grande sopro de ar ftido.
        - Se tivesse sido mais rpida o teria liquidado. -Jamie baixou o brao manchado de sangue, tocando-a nariz com delicadeza- . Cristo, acredito que me tem 
quebrado isso.
        - por que? por que me impediram isso? -A senhora Beardsley ainda estava consciente, embora se cambaleava e tinha os olhos frgeis- . Deveria morrer, quero 
que mora, deve morrer.
        - A nighean MA galladh, poderia hav-lo matado em qualquer momento deste ltimo ms, se tivesse querido -assinalou ele, impaciente- . por que quiseste esperar 
a ter testemunhas?
        Ela o olhou com olhos sbitamente claros e penetrantes.
        - No o queria morto -disse- . Queria que morrera. -Sorriu mostrando os restos de seus dentes 
      quebrados- . Lentamente.
      
      
      
        - OH, Meu deus! -Passei-me uma mo pela cara. Embora logo que mediava a manh, tinha a sensao de que esse dia j durava vrias semanas- .  minha culpa. 
Disse-lhe que acreditava poder ajudar e pensou que eu o salvaria, que possivelmente o curaria por completo.
        Essa maldita reputao de curadora mgica!
        - Beztia imunda! -gritou a senhora Beardsley, e se incorporou sobre os joelhos para agarrar um pozinho duro e o jogou na cabea- . Beztia imunda, hendionda, 
imunda, perverza...
        Jamie a aferrou pelo cabelo antes de que se tornasse contra o corpo tendido. Logo a separou de um brao, lhe solucem e chiando insultos.
        - Por todos os demnios -disse, por cima do alvoroo- . Me traga essa corda, Sassenach, antes de que os mate aos dois.
        A tarefa de baixar ao senhor Beardsley do desvo deixou a ambos os banhados em suor e manchados de imundcies, fedorentos e com os joelhos frouxos pelo esforo. 
A mulher se instalou em um tamborete do rinco, calada e malvola como um sapo, sem fazer nada por ajudar.
        Jamie se enxugou a frente com uma manga manchada de sangue. Logo contemplou ao Beardsley, movendo a cabea. No pude reprovar-lhe at limpo e abrigado, depois 
de lhe haver dado algumas colheradas de papa quentes, o homem se encontrava em um estado lamentvel. Examinei-o uma vez mais, com esmero,  luz da janela. Sobre 
os dedos dos ps no cabiam dvidas: o fedor da gangrena era muito claro, assim como o tintura esverdeado que cobria a impigem.
        Teria que amputar algo mais que os dedos. Apalpei cuidadosamente a zona em putrefao, me perguntando se seria melhor tentar uma amputao parcial, entre 
os metacarpos, ou cortar simplesmente  altura do tornozelo. Esta ltima operao seria mais rpida; em condies normais, teria tentado a amputao parcial, mais 
conservadora, mas neste caso no tinha sentido: era bvio que o doente no voltaria a caminhar.
        Mordisquei-me o lbio inferior, dbia. Em realidade, todo aquilo podia ser intil; o homem ardia em uma febre intermitente e as chagas das pernas e ndegas 
gotejavam pus. Que possibilidades tinha de recuperar-se da amputao sem morrer a conseqncia da infeco?
        A esposa apareceu detrs de mim sem que eu a tivesse ouvido; para ser to pesada se movia com  notvel suavidade.
        - Que pienzaz fazer? -perguntou, com voz neutra e remota.
        - Os dedos deste p esto gangrenados -disse. J no tinha sentido ocultar a situao ao paciente- . Terei que amputar-lhe 
        Em realidade no havia opo, embora o corao me deu um tombo ao pensar que teria que passar ali talvez semanas inteiras, atendendo ao Beardsley. No podia 
entreg-lo aos " tenros"  cuidados de sua esposa.
        Ela rodeou lentamente a mesa e se deteve perto dos ps. Sua cara no expressava nada, mas nas comissuras da boca titilava um pequeno sorriso que ia e vinha, 
como se no dependesse de sua vontade. depois de contemplar esses dedos enegrecidos por um comprido minuto, sacudiu a cabea.
        - No -disse muito fico- . Deixa que ze apodrea.
        Ao menos, isso resolveu a dvida de se  Beardsley entendia ou no: dilatou o olho aberto, lanando 
      um chiado de ira, e comeou a debater-se em um esforo por alcan-la, at tal ponto que quase cai ao cho. Jamie teve que lutar para manter essa mi na mesa. 
Quando ao fim o doente cedeu, ofegante e emitindo pequenos miados, ele endireitou as costas, tambm agitado, e cravou na senhora Beardsley um olhar de grande desgosto.
        Ela encurvou os ombros e os rodeou com o xale, mas levantou o queixo em um gesto desafiante, sem retroceder nem apartar a vista.
        - Zoy zu ezpoza -disse- . No permitirei que o cortem. Ezo poria zu vida em perigo.
        - Pois assim morrer -disse, seca- . E ser uma morte horrvel. Voc...
        No pude terminar: Jamie me espremeu o ombro com fora.
        - leve-lhe isso fora, Claire -me disse em voz baixa.
        - Mas...
        - Fora.- Esticou a mo em meu ombro, fazendo a presso quase dolorosa- . No entre at 
      que eu te chame.
        Estava carrancudo, mas em seus olhos havia algo que me fez sentir um vazio aquoso nas vsceras. Joguei uma olhada ao aparador, onde estavam suas pistolas, 
junto a minha caixa de remdios. Logo voltei a olh-lo, horrorizada.
        - No pode -disse.
        Ele olhou tristemente ao doente.
        - Se um co estivesse assim, no o pensaria duas vezes -disse- . Posso fazer menos por ele?
        - Mas ele no  um co!
        - No, em efeito.- Deixando cair a mo, rodeou a mesa para deter-se junto ao Beardsley.
        - Se me entende fecha o olho, homem -murmurou. Houve um momento de silncio. O olho avermelhado do doente se fixou na cara de jamie, com inegvel inteligncia. 
A plpebra se fechou lentamente; logo voltou a subir.
        - Vete -me disse Jamie- . Que dita ele. Se quiser... ou se no... chamarei-te.
        Tremiam-me os joelhos. Entrecruzei as mos entre as dobras da saia.
        - No. -Olhei ao Beardsley, tragando saliva com dificuldade. Logo neguei com a cabea- . No. Eu... se voc... necessita uma testemunha.
        Ele vacilou um instante, mas acabou por assentir.
        - Tem razo, sim. -Jogou uma olhada  mulher. Estava muito quieta, com as mos apertadas sob o avental, nos olhando alternativamente aos tres.l moveu brevemente 
a cabea. Logo se voltou de novo para o homem, quadrando os ombros.
        - Pisca uma vez para dizer que sim, dois para dizer que no -instruiu- . entendeste?
        A plpebra descendeu sem vacilar.
        - Escuta, pois.- Jamie aspirou fundo e comeou a falar com voz carente de emoo, sem apartar a vista da cara arruinada e a ferocidade desse olho aberto- 
. Sabe o que te aconteceu?
        Uma piscada.
        - Sabe que minha esposa  doutora, curadora?
        O olho rodou para mim, voltou para o Jamie. Uma piscada.
        - Diz que sofreste uma apoplexia e que o dano no tem remdio. Compreende?
        Da boca torcida surgiu um bufido. No era notcia. Uma piscada.
        - Tem o p pdrido. Se no lhe cortarem isso, a gangrena te matar. Compreende?
        No houve resposta. Tinha farejado a gangrena; talvez suspeitava, mas s agora estava seguro de que provinha de sua prpria carne. Uma lenta piscada.
        Beardsley tinha tomado sua deciso muito antes, talvez inclusive antes de nossa chegada. depois de tudo, levava um ms nesse purgatrio, suspenso na fria 
escurido; tinha podido refletir, lutar a brao partido com suas perspectivas e fazer as pazes com a morte.
        Compreendia?
        OH, sim, muito bem.
        Jamie se inclinou para a mesa, com uma mo no brao do Beardsley, sacerdote de mangas manchadas, oferecendo a absolvio e a salvao. A mulher seguia petrificada 
 luz da janela, como estpido anjo denunciante.
        As asseveraes e as perguntas chegaram a seu fim.
        - Quer que minha esposa te corte o p e trate suas feridas?
        Uma piscada, logo dois, exagerados, deliberados.
        A respirao do Jamie era audvel. O peso que sentia no peito convertia cada palavra em um suspiro.
        - Pede-me que te tire a vida?
        A plpebra caiu... e no voltou a elevar-se.
        Jamie tambm fechou os olhos, percorrido por um pequeno estremecimento. Logo sacudiu por um instante, como se sasse da gua fria, e se dirigiu para o aparador 
onde tinha posto suas pistolas.
        Apressei-me a me aproximar dele para lhe apoiar uma mo no brao. Ele no me olhou, atento  pistola que estava martelando. Estava muito plido, mas suas 
mos no tremiam.
        - Vete -disse- . Leve-lhe isso fora.
        Voltei-me para o Beardsley, mas ele j no era meu paciente. Agarrei  mulher do brao e a conduzi para a porta. Ela me acompanhou com passos mecnicos, 
sem olhar atrs.
      
      
      O ptio iluminado pelo sol parecia irreal. A senhora Beardsley se liberou de mim para ir para o estbulo, apertando o passo. depois de jogar um olhar sobre 
o ombro para a casa, partiu em uma pesada carreira, at desaparrecer pela entrada do estbulo como se a perseguissem os demnios.
        Eu tinha captado sua sensao de pnico. Estive a ponto de correr atrs dela, mas no o fiz. Detive-me esper-la no bordo do ptio. O corao me palpitava 
lentamente, retumbando em meus ouvidos.
        Por fim se ouviu o disparo; foi um som seco, pouco audvel, que no chamou a ateno entre o suave balido das cabrass no estbulo e o sussurro dos frangos 
que escavavam a terra, a pouca distncia. " No corao ou na cabea" , pensei sbitamente. E me estremeci.
        Era j muito passado o meio-dia; uma brisa geada atravessava o ptio, agitando o p e as fibras de feno. Eu seguia esperando. Ele debi de haver-se detido 
a rezar uma breve orao pela alma do Beardsley. Passou um minuto, dois; ao fim se abriu a porta traseira. Jamie deu uns quantos passos para o exterior e se deteve 
vomitar.
        Adiantei-me se por acaso me necessitasse, mas no era assim. Ergueu as costas, limpando-a boca, logo ps-se a andar em direo oposta a mim, rumo ao bosque.
        De repente me senti suprflua e extraamente ofendida. Apenas uns momentos antes estava trabalhando, absorvida na prtica da medicina; conectada  carne, 
a mente e o corpo; atenta aos sintomas, consciente do pulso e a respirao, dos signos vitais do moribundo.Aunque Beardsley no me era simptico absolutamente, tinha-me 
dedicado por completo  luta por lhe conservar a vida e aliviar seus sofrimentos. Ainda sentia nas mos o contato estranho de sua carne quente e frouxa.
        Agora meu paciente estava morto. E eu tinha a sensao de que me tinham amputado uma pequena parte do corpo. Talvez era a impresso.
        Joguei uma olhada  casa; minha cautela original tinha sido substituda por asco... e um pouco mais fundo. Terei que lavar o corpo, certamente, e arrum-lo 
para o enterro. Era algo que eu tinha feito mais de uma vez sem grandes reparos, embora sem entusiasmo; entretanto, agora sentia uma enorme relutncia a entrar novamente.
        Era possvel que seu esprito rondasse ainda a casa, sem haver-se precavido de sua liberdade?
        - No seja supersticiosa, Beauchamp -me disse com severidade- . Basta j disso.
        Mesmo assim no dava um s passo para a casa. Fiquei no ptio, tensa como um colibri indeciso.
        Se Beardsley j no necessitava minha ajuda e Jamie tampouco, ainda ficava algum que podia requer-la. Dava as costas  casa para caminhar para o estbulo.
        Era s um abrigo grande, aberto, com um palheiro fragrante de feno, cheio de formas mveis. Detive-me a entrada at que meus olhos se adaptaram  penumbra. 
Ali estava a mulher, acurrucada em um monto de palha fresca. Cinco ou seis cabras se amontoavam ao redor, puxando entre si e lhe mordiscando as franjas do xale. 
Era pouco mais que uma sombra jibosa, mas surpreendi o breve brilho de um olho cauteloso entre as sombras.
        - J ezt? -Pergunta-a foi apenas audvel por cima dos suaves balidos.
        - Sim. -Vacilei, mas no parecia necessitar meu consolo. J via melhor: ela tinha um cabrito 
      acurrucado no regao e acariciava a cabecita sedosa- . Esto bem, senhora Beardsley?
        - No Z -murmurou.
        Aguardei, mas ela no se moveu. A aprazvel compaia das cabras podia consoloarla tanto coo eu, de modo que a deixei, quase lhe invejando o quente refgio 
do estbulo e seus alegres camaradas. Passaria algum tempo antes de que pudssemos partir, assim que me dediquei a preparar os cavalos.
        Em um lateral havia meio tronco oco, que servia como abrevadero, mas estava vazio. 
      
      
      Agradecida pelo tempo que me levaria essa tarefa, extraj gua do poo e enchi o tronco, cubo 
      depois de cubo.
        Enquanto me secava as mos na saia olhei a meu redor, procurando alguma ocupao til, mas no ficava nenhuma
        Ao levantar a vista, surpreendeu-me encontrar a porta traseira aberta. Estava segura de hav-la fechado. Estaria Jamie dentro? Ou a senhora Beardsley?
        Estirei o pescoo para jogar uma olhada  cozinha, mantendo uma distncia prudente, mas ao me aproximar ouvi o rtmico chuff de uma p na terra. Ao rodear 
a esquina oposta encontrei ao Jamie, cavando perto de um fresno que crescia no ptio, a pouca distncia da casa. Ainda estava em mangas de camisa; o vento esmagava 
o linho manchado contra seu corpo, lhe agitando o cabelo vermelho contra a cara.
        Quando o apartou com a boneca, impressionou-me ver que estava chorando. Chorava em silncio, com certa selvageria, atacando a terra como se fora um inimigo. 
 lombriga pela extremidade do olho fez uma pausa para limpar-se rapidamente a cara, como se queria enxugar o suor da frente.
        Respirava com dificuldade, at o ponto de que lhe ouvia distncia. Aproximei-me para lhe oferecer em silencio gua e um leno limpo. No olhou aos olhos, 
mas bebeu, tossiu e bebeu de novo. Logo se soou o nariz com cautela. Tinha-a torcida, mas j no sangrava.
        - No passaremos a noite aqui, verdade? -arrisquei-me a perguntar, enquanto me sentava em um bloco de madeira, sob o fresno.
        Ele sacudiu a cabea.
        - No, Por Deus -disse com voz rouca. Estava avermelhado e com os olhos avermelhados, mas se controlava com firmeza- . Iremos assim que lhe tenhamos dado 
uma sepultura decente. No me importa voltar a passar frio no bosque, mas no quero dormir aqui.
        Eu estava plenamente de acordo, mas  havia outro detalhe a ter em conta.
        - Y... ela? -perguntei com delicadeza- . Est na casa? A porta traseira est aberta.
        Jamie voltou a cravar a p com um grunhido.
        - No, fui eu. Ao sair tinha esquecido deix-la aberta... para que a alma possa escapar -explicou ao ver meu assombro.
        O que me produziu um calafrio no foi o fato de que isso coincidisse com minha idia anterior, a no ser o tom fleumtico de sua explicao.
        - Compreendo -disse, fracamente.
        Durante um momento, Jamie contunu cavando; a p se afundava profundamente na terra, que ali era margosa e rica em hmus. Por fim, sem quebrar o ritmo da 
tarefa, disse:
        - Em uma ocasio, Brianna me contou algo que tinha lido. No o recordo bem, mas se tratava de um assassinato. O morto era um homem perverso que tinha induzido 
a algum a comet-lo. E ao final, quando lhe perguntava ao narrador qu se devia fazer, ele dizia: " Deixem passar  justia de Deus." 
        - Crie que neste caso se tratou disso? De justia?
        Ele moveu a cabea, mas no como uma negativa, mas sim de desconcerto. Logo continuou cavando. Observei-o por um momento, tranqilizada por sua proximidade 
e pelo ritmo hipntico de seus mivimientos. depois de um momento, preparei-me para a tarefa que me aguardava.
        - Ser melhor que v preparar o corpo e a limpar o desvo -disse a contra gosto- . No podemos deixar a pobre mulher s com essa imundcie, apesar do que 
tenha feito.
        - Espera, Sassenach. -Jamie interrompeu a tarefa e, um pouco desconfiado, jogou uma olhada  casa- . Em um momento entrarei contigo. Mientra -assinalou o 
bosque com a cabea- , poderia trazer algumas pedras para o montculo?
        Um montculo? Isso me surpreendeu o bastante; parecia um detalhe desnecessrio para o defunto 
      senhor Beardsley. Embora no bosque haveria lobos.Tambin me ocorreu que Jamie estava inventando uma desculpa convincente para que eu atrasasse entrar de novo 
na moradia. E nesse caso, carregar rochas parecia uma alternativa muito desejvel.
        Felizmente no faltavam pedras adequadas. Meia hora depois, a idia de entrar tinha comeado a me parecer muito menos objetvel. Mas como Jamie seguia dedicado 
a sua tarefa, eu continuei com a minha.
        Por fim, j ofegante, deixei cair outra carga junto  sepultura, cada vez mais funda. As sombras se alargaram no ptio e o ar era to frio que me tinham 
intumescido os dedos; melhor assim, dado que os tinha cheios de arranhes.
        - Tem uma pinta terrvel -comentei, separando-se de minha cara o cabelo desalinhado- . A senhora Beardsley no saiu ainda?
        Ele fez um gesto negativo, mas demorou um instante em recuperar o flego para falar.
        - No -disse, to rouco que apenas lhe ouvi- . Ainda est com as cabras. Suponho que ali no faz frio.
        Observei-o com desassossego. Cavar tumbas  um trabalho duro.
        - Acredito que j  bastante profunda -disse, inspecionando sua obra. Eu me teria conformado com um buraco superficial, mas  Jamie no fazia nada ao descuido- 
. Deixa-o j, homem, e te troque essa camisa. Est empapado; agarrar um resfriado espantoso.
        Sem incomodar-se em discutir, ele recolheu a p para quadrar pulcramente as esquinas do fossa, de modo que no se desmoronassem. A sombra da casa caa sobre 
a sepultura aberta, larga e fria. Cobri-me os cotovelos com as mos, tremendo em silncio.
        Jamie arrojou a p a terra com um rudo metlico que me sobressaltou. Ao sair do fossa esteve imvel um minuto, com os olhos fechados, cambaleando-se de 
fadiga. Logo os abriu para sonrirme.
        Terminemos com isto -disse.
      
      
      J fora porque a porta aberta tinha permitido a fuga do esprito do defunto, j porque Jamie estava a meu lado, entrem in vacilar. O fogo se apagou, deixando 
a cozinha fria e penumbrosa, mas dentro no se percebia nada maligno. Simplesmente... estava vazia.
        Os restos mortais do senhor Beardsley descansavam apaciblemente sob uma das mantas com que comercializava. Mudo e quieto, vazio ele tambm.
        A esposa tinha declinado assistir s formalidades e at a entrar na casa, enquanto o corpo de seu marido estivesse ali, de modo que varri o lar, acendi outra 
vez o fogo e o avivei at que cobrou vida. Enquanto, Jamie se ocupava de limpar o desvo.
        Na morte, Beardsley parecia muito menos grotesco que em vida; j relaxados os membros disformes, tinha perdido o ar de luta frentica. Tinha a cara coberta 
com uma toalha de algodo, mas quando espiei baixo ela, vi que no devia limpar nenhuma sangria: Jamie lhe tinha disparado limpamente no olho cego, sem que a bala 
arrebentasse o crnio. O olho so estava fechado; a ferida negra continuava aberta e fixa. Voltei a depositar a toalha contra essas faces, s que a morte havia 
devolvido a simetria.
        Jamie se deteve silenciosamente a meu lado, me tocando o ombro.
        - v lavar lhe -disse isso, assinalando o pequeno hervidor que tinha pendurado no lar para esquentar gua- . Eu me posso arrumar isso sozinha.
        Ele se tirou a camisa empapada e a deixou cair dentro do lar. Emprestei ateno aos rudos caseiros que fazia ao lavar-se. de vez em quando tossia, mas sua 
respirao parecia mais tranqila que quando estava fora,  fria intemprie.
        - Ignorava que a apoplexia pudesse ser assim -comet- . Creia que matava imediatamente.
        - s vezes sim -disse, algo distrada, me concentrando no que fazia- . Mas com muita freqncia acontece como neste caso.
        - Sim? Nunca me ocorreu lhe perguntar ao Dougal ou ao Rupert. Ou ao Jenny. Se meu pai...
        A frase se cortou abruptamente, como se a tivesse tragado.
        Ah! De maneira que era isso. Tinha esquecido o que ele me contasse anos antes, pouco depois de nos casar. Seu pai tinha presenciado a flagelao do Jamie 
no Fort William; a impresso o 
      provocou uma apoplexia que o matou. Ao Jamie, ferido e doente, tinham-no tirado subrepticiamente do forte para envi-lo ao exlio. S semanas mais tarde soube 
da morte de seu pai; no tinha tido oportunidade de despedir-se dele, de sepult-lo, nem de honrar sua tumba.
        - Jenny deve sab-lo -comentei- . E ela te haveria dito se...
        Se Brian Fraser tinha padecido uma agonia to lenta como esta, reduzido  impotncia ante os olhos da famlia que tinha tratado de proteger, ela o teria 
contado? Se tinha atendido a seu pai na incontinncia e a discapacidad, se tinha esperado dias, semanas, sbitamente privada de seu pai e de seu irmo, obrigada 
a enfrentar sozinha  morte que se aproximava momento a momento...
        Mas Jenny Fraser era uma mulher muito forte, que amava profundamente ao Jamie. Talvez teria querido protejerlo, tanto da culpa como do conhecimento.
        Voltei-me para ele. Estava mdio nu, mas asseado, aon uma camisa limpa nas mos. Olhava-me, mas notei que seus olhos foram mais  frente e se fixavam no 
cadver com afligida fascinao.
        - Ell lhe haveria isso dito -repeti, me esforando por imprimir certeza a minha voz.
        Jamie aspirou fundo, penosamente.
        - Talvez.
        - Estou segura -disse com mais firmeza.
        Ele assentiu com a cabea e suspirou outra vez, com mais soltura. Compreendi ento que a morte do Beardsley no afetava s a essa casa. Mas s Jenny tinha 
a chave da nica porta que se podia abrir para meu marido.
        Agora compreendia por que o tinha visto chorar, por que tinha posto tanto esmero ao cavar a tumba. No era por espanto nem por caridade, muito menos por 
considerao para o defunto, mas sim pelo Brian Faser, o pai ao que no tinha podido sepultar nem chorar.
        J vestido, Jamie rodeou a mesa para me ajudar a levantar o corpo, mas em lugar de introduzir as mos por debaixo, alargou-as para agarrar as minhas.
        - me jure, Claire -disse. Estava quase afnico; tive que me inclinar para ouvir- . Se algum dia me acontecer o que a meu pai... me jure que me far o mesmo 
favor que eu lhe tenho feito a este miservel.
        A p tinha deixado ampolas novas em sua Palmas. Percebi a brandura estranha, mvel, cheia de fluido.
        - Farei o que deva -sussurrei por fim- . Como voc o tem feito.
        Ele me estreitou as mos e as soltou.
        - Agora vamos enterrar o. Tudo terminou.
      

      28
      
      Brownsville
      
      
      Era meia tarde quando Roger e seus milicianos chegaram ao Brownsville, depois de haver-se desviado do caminho e vagado vrias horas pelas colinas at que dois 
cherokees com os que 
      encontraram-se lhes indicaram o rumo.
        Brownsville estava formado por cinco ou seis choas desmanteladas repartidas em uma colina, como um punhado de lixo jogado entre a maleza moribunda.
        Mesmo assim era, obviamente, bom stio para comear, embora s fora pelo bem dos homens que o acompanhavam: ao ver os tonis tinham comeado a vibrar como 
limagens de ferro perto de um m. O aroma da levedura da cerveja lhes saa ao encontro como uma bem-vinda. Pensando que tampouco iria mal uma jarra, agitou uma 
mo para ordenar o alto. Fazia um frio entumecedor e tinha passado muito tempo do caf da manh. Dificilmente lhes serviriam nada ali, alm de po ou um guisado, 
mas m entra fora possvel comer algo quente e reg-lo com algum tipo de lcool, ningum se queixaria.
        Roger tinha desmontado e estava a ponto de chamar os outros quando uma mo apertou o brao.
        - Attendez.- Fergus falava muito baixo, quase sem mover os lbios. De p junto a ele, olhava algo que estava mais  frente- . No te mova.
        Roger no se moveu, nem tampouco os homens, ainda em seus cavalos. Estavam vendo quo mesmo Fergus, fora o que fosse.
        - O que acontece? -perguntou, baixando tambm a voz.
        - Algum, dois tipos, esto-nos apontando com pistolas da janela.
        - Ah.- Roger compreendeu que Jamie tinha tido muito bom critrio ao no entrar no Brownsville na escurido, a noite anterior. Estava visto que conhecia a 
natureza suspicaz dos lugares remotos.
        Movendo-se com muita lentido, levantou as mos no ar e lhe fez um gesto com o queixo ao Fergus, que o imitou a contra gosto.
        - Ol, aos da casa! -gritou, contoda a autoridade que se  possvel quando se tm as mos por cima da cabea- . Sou o capito Roger MacKenzie, com uma companhia 
de milicianos ao mando do coronel James Fraser, da Colina do Fraser.
        O nico efeito que provocou essa informao foi que um dos canhes se desviasse, apontando para o Roger, o que lhe fez compreender que a arma no tinha pontudo 
contra ele em um comeo; a outra ainda assinalava sobre seu ombro direito, para o grupo de cavaleiros que se removiam em suas cadeiras, entre murmrios inquietos.
        Genial. E agora o que? Os homens esperavam que ele fizesse algo. Sempre com lentido, baixou as mos e tomou flego para gritar outra vez. antes de que pudesse 
falar, ouviu-se uma voz rouca detrs da pele de veado:
        - Estou-te vendo, Morton, cretino!
        Esta imprecao veio acompanhada de um visvel movimento da primeira pistola, que abandonou abruptamente ao Roger para dirigir-se para o mesmo branco que 
sua companheira: presumivelmente, Isaiah Morton, um dos milicianos do Granite Falls.
        Entre os homens a cavalo houve um rudo de roce e gritos de sobressalto. de repente estalou o inferno, ao disparar-se simultaneamente as duas pistolas. Os 
cavalos se encabritaram, espantados.
        Roger se tinha arrojado corpo a terra  primeira exploso, mas ao apag-los ecos, levantou-se como por reflexo, tirando o barro dos olhos, e carregou de 
cabea contra a porta. 
      Para sua prpria surpresa, sua mente funcionava com toda claridade. Se Brianna necessitava vinte segundos para carregar e martelar uma arma, esses bodes no 
podiam faz-lo muito mais depressa. portanto, ficavam uns dez segundos de graa, e tinha a inteno de aproveit-los.
        Golpeou a porta com o ombro, fazendo-a voar para dentro at se chocar com a parede. Roger entrou tropeando na habitao e foi a estelar se contra o muro 
de em frente. Ali se deu um forte golpe no ombro contra a chamin e ricocheteou, mas conseguiu manter-se em p, embora cambaleando-se como se estivesse bbado.
        Na habitao havia vrias pessoas que se voltaram para ele, boquiabertas. Quando sua viso se limpou o suficiente, pde ver que s duas estavam armadas. 
Enchendo-os pulmes de ar, jogou-se contra o tipo que tinha mais perto, um homem mirrado, de barba espaada, e o agarrou pela camisa, imitando a um professor muito 
temido que tinha tido na escola elementar.
        - O que  o que te prope, pequeajo? -bramo Roger, atirando dele at que ficou de 
      puntillas.
        - Senhor! Solte a meu irmo!
        A vtima do Roger tinha deixado cair a arma e o corno do `olvora, cujo contido se pulverizou pelo cho. Mas o outro pistoleiro tinha conseguido recarregar 
sua arma e agora tentava apontar ao Roger. Resultava-lhe difcil por causa das trs mulheres presentes na habitao, dois das quais lhe atiravam do brao, lhe falando 
de uma vez e lhe entorpecendo o caminho. A terceira se havia talher a cabea com o avental e emitia rtmicos chiados de histeria.
        Nesse momento, Fergis entrou na casa, com uma enorme pistola e apontou ao homem armado.
        - Tenha a bondade de baixar isso, por favor -dijo,alzando a voz para fazer-se ouvir por cima da animao- . E voc, senhora, pode jogar gua sobre esta jovem? 
Ou possivelmente melhor esbofete-la? -Assinalou com o gancho  mulher histrica, cujos chiados lhe arrancaram uma leve careta.
        Uma das mulheres se aproximou lentamente a que gritava, como se estivesse hipnotizada; depois de aferr-la pelo ombro e sacudi-la, comeou a lhe murmurar 
algo ao ouvido, sem apartar os olhos do Fergus. Os alaridos cessaram, sendo substitudos por soluos irregulares e convulsivos.
        - E quem demnios  voc? -O segundo homem, que tinha baixado a arma, olhava ao Fergus com ar confundido.
        O francs fez um gesto despreocupado com o gancho de ferro, que parecia fascinar s mulheres.
        - Isso no tem importncia -disse com ar grandioso, elevando dois ou trs centmetros mais seu aristocrtico narigudo- . O que requeiro... quer dizer, o 
que requeremos -corrigiu, dirigindo ao Roger um gesto corts-  saber quem so vocs.
        Os habitantes da cabana se intercambiaram olhadas, como perguntando-se os quais eram. Depois de um momento de vacilao, o mais corpulento dos dois homens 
levantou agressivamente o queixo.
        - Meu nome  Brown, senhor. Richard Brown. Lionel, meu irmo; Meg, minha esposa; Alicia, minha filha... -Essa era a moa que gritava, que j se tirou o avental 
da cabea e seguia banhada em lgrimas- . E Thomasina, minha irm.
        - Para lhes servir, senhora, senhoritas.- Fergus dedicou s damas uma elegante reverencia, sem deixar por isso de apontar com a pistola para a frente do 
Richard Brown- . Peo-lhes perdo por este transtorno.
        A senhora Brown respondeu com uma inclinao de cabea; tinha os olhos algo frgeis. A senhorita Thomasina Brown, alta e de aspecto severo, olhou alternativamente 
ao Roger e ao Fergus.
        Fergus parecia agradado; tinha conseguido transformar uma confrontao armada em uma cena de salo parisino. A seguir olhou ao Roger e lhe cedeu o controle 
da situao com um claro gesto da cabea.
        - Bem.- Roger tinha a sensao de que sua folgada camisa de l se converteu em uma camisa de fora. Voltou a aspirar homdo, enchendo-os pulmes com esforo- 
. Pois como lhes dizia, sou... n... o capito MacKenzie. O governador Tryon nos encomendou recrutar uma companhia de milicianos. viemos a lhes notificar que tm 
vocs a obrigao de contribuir com homens e provises.
        Richard Brown pareceu surpreender-se, seu irmo ficou carrancudo. antes de que pudessem apresentar nenhuma objeo, Fergus se aproximou do Roger, murmurando:
        - Mon capitain, no conviria averiguar se tiverem matado ao senhor Morton, antes de aceit-los em nossa companhia?
        - OH, sim. -Roger cravou nos Brown seu olhar mais severo- . Senhor Fraser, quer ver o que passou com o senhor Morton? Eu esperarei aqui.
        Sem perder de vista aos donos da casa, alargou uma mo para receber a pistola de seu companheiro.
        - OH, o tal Morton est vivinho e abanando o rabo, capito, s que no est aqui. h-se pirado como raposa com o rabo chamuscado, mas quando desapareceu 
se movia perfeitamente. -A voz nasal do do Glasgoww falou da porta.
        Um grupo de cabeas curiosas, entre elas a do Henry Gallegher, espiavam da porta. Tambm se viam vrias armas desencapadas. Roger comeou a respirar com 
mais facilidade.
        Os Brown, tendo perdido todo o interesse pelo Roger, olhavam ao Gallegher completamente desconcertados.
        - O que h dito? -sussurrou a senhora Brown a sua cunhada.
        A outra dama moveu a cabea, com os lbios apertados.
        - Diz que o senhor Morton est so e salvo -traduziu Roger. E tossiu- . O qual  uma sorte para vocs -acrescentou, dirigindo-se aos homens da casa, com 
toda a ameaa que pde pr em sua voz. Logo se voltou para o Gallegher, que se tinha reclinado contra o marco da porta, mosquete em mo, com cara de estar muito 
entretido.
        - Todos esto bem, Henry?
        Ele se encolheu de ombros.
        - Estes sacos de esterco no furaram a ningum, mas deixaram uma bonita perdigonada em seu alforja. Senhor -adicionou tardiamente.
        - Na do usque? -inquiriu, alarmado, Roger.
        - O que vai! -Os olhos do Gallegher refletiram seu horror ante a possibilidade. Logo o tranqilizou com um grande sorriso- . Na outra.
        - Ah, bom. -O capito fez um gesto com a mo- . S eram minhas calas, verdade?
        Essa reao arrancou risadas e exclamaes de apoio entre os homens apinhados na porta. E respirou ao Roger para dirigir-se ao mais pequeno dos Brown.
        - E o que tm vocs contra Isaiah Morton? -quis saber.
        - desonrou a minha filha -replicou o homem imediatamente, j recuperada a compostura. E cravou no Roger um olhar fulminante. A barba lhe retorcia de clera- 
. Hei-lhe dito que, se se atrevia a aparecer essa maldita cara em dez milhas  redonda, veria-o morto aos ps de minha menina. E mailditos sejam meus olhos se essa 
porca vbora no teve o descaramento de cavalgar at minha porta! -O senhor Richard Brown se voltou para o do Glasgoww- . Diz que os dois erramos o tiro?
        Gallagher se encolheu de ombros como pedindo desculpas.
        Sim. Sinto muito.
        A mais jovem das senhoritas Brown escutava o dilogo algo boquiaberta.
        - erraram? -perguntou. A esperana lhe iluminava os olhos avermelhados- . Isaiah vive ainda?
       - No por muito tempo -segur seu tio, carrancudo.
        Roger olhou ao Fergus, que se encolheu levemente de ombros. Tinha que decidir ele.
        E o que podia lhes dizer? Morton era miliciano; portanto, tinha direito a seu amparo. No devia entregar-lhe aos Brown, face ao que tivesse feito, se  que 
conseguiam apanh-lo. Por outra parte, sua misso era recrutar aos dois irmos e a todos os homens do Brownsville que fossem aptos, alm de conseguir provises para 
ao menos uma semana. Dadas as circunstncias, no parecia que a proposta fora a ser bem recebida.
        Tinha a irritante convico de que Jamie no teria tido dvidas de como resolver essa crise diplomtica. Mas, pessoalmente, ele no tinha a mais mnima idia 
do que fazer.
      
      
        Ao menos dispunha de um plano para ganhar tempo. Baixando a pistola com um suspiro, procurou a 
      taleguilla que pendia de sua cintura.
        - Henry, traz a alforja onde tenho o usque, quer? Senhor Brown, espero que me permita adquirir um pouco de comida e um tonel de sua cerveja para alimentar 
a meus homens.
        Com um pouco de sorte, quando o tivessem bebido tudo, Jamie j teria chegado.
      
      

      29
      
      Um tero de cabra
      
      
      No tinha terminado, depois de tudo. Obscureceu muito antes de que acabssemos na granja dos Beardsley: limpar, voltar a carregar as alforjas e selar novamente 
os cavalos. Estive a ponto de sugerir que jantssemos antes de partir (no habiamos comido nada do caf da manh), mas a atmosfera de lugar era to perturbadora 
que nem Jamie nem eu tnhamos apetite.
        - Esperaremos -disse ele, carregando as alforjas a lombos da gua. Logo jogou uma olhada  casa- . Sinto um vazio no estomago, mas com esta casa  vista 
no poderia provar bocado.
        - Compreendo-te. -Eu tambm olhei com inquietao para trs, embora no havia nada que ver, salvo a casa quieta e vazia- . No vejo a hora de me afastar 
daqui.
        Os cavalos davam coices, inquietos, sacudindo as crinas em sua ansiedade de partir. Eu os compreendia. Joguei outro olhar para trs, sem poder me conter. 
Teria sido difcil imaginar algo to desolador. E mais difcil ainda, imaginar-se vivendo sozinha ali.
        Pelo visto, a senhora Beardsley tambm o tinha pensado e tinha chegado a uma concluso similar, pois nesse momento emergiu do estbulo, com o cabrito nos 
braos, anunciando que viria conosco. Ao parecer tambm se levava as cabras. Entregou-me o cabrito e desapareceu novamente no estbulo.
        - No pode as abandonar aqui- murmurei ao Jamie, que protestava na penumbra, a minhas costas- . Ter que as ordenhar. Alm disso no h tanta distncia, 
ou sim?
        - Sabe a que velocidade caminham as cabras, Sassenach?
        - Nunca tive ocasio de lhes medir o tempo -repliquei, um pouco irritada, trocando de posio a minha pequena carga peluda- . Mas no acredito que sejam 
muito mais lentas que os cavalos, na escurido.
        Respondeu com um som gutural escocs, ao que o escarro dava mais expressividade que de costume. Logo tossiu.
        - Que mal est! -observei- . Quando chegarmos te porei a graxa mentolada, moo.
        Ele no ps objees, coisa que me alarmou, pois indicava uma grave depresso de sua vitalidade. Mas antes de que pudesse fazer mais investigaes sobre 
sua estado de sade me interrompeu a apario da senhora Beardsley, que saa do estbulo seguida de seis cabras, atadas  mesma corda como uma banda de sentenciados 
jovialmente brios.
        Jamie observou aquela procisso com ar dbio.
        - A me seguir a sua cria e as otrs seguiro ao macho -me disse- . As cabras so animais sociveis; nenhuma querer afastar-se por sua conta, muito menos 
de noite. Fora! -murmurou, separando-se de sua cara um focinho inquisitivo, enquanto se agachava a revisar a cilha- . Com porcos seria pior. Eles sim se agrupam 
a seu modo.
        E se incorporou, dando uma palmada distrada a um testuz peludo. Logo disse  senhora Beardsley, lhe mostrando o falso n que tinha pacote  cadeira, perto 
de sua mo:
        Se ocorrer algum percalo, soltem imediatamente, ou o cavalo fugiria com todos vs e esta criatura terminar enforcada.
        Ela assentiu; era um vulto curvado a lombos da gua. Logo olhou para a casa.
        - Debemoz irnoz antez de que zalga a lua -disse em voz baixa- . Ez entoncez quando aparece.
        Pelas costas me correu um calafrio. Jamie, com um coice, voltou-se para a casa s escuras. A ningum lhe tinha ocorrido fechar a porta, que permanecia aberta, 
como uma concha 
      ocular vazia.
        - Quem? -perguntou, com um fio de voz.
        - Mary Ann -respondeu- . Ela foi a ltima. -No havia nfase em sua voz; falava como sonmbula.
        - A ltima o que? -perguntei eu.
        - A ltima ezpoza. -E agarrou as rdeas- . Quando zale a lua apareze de p sob o zerbal.
        Jamie girou a cabea para mim. A escurido no me permitiu ver sua expresso, mas no era necessrio. Pigarreei.
        - No seria melhor... fechar a porta? -sugeri.
        Presumivelmente, o esprito do senhor Beardsley j tinha captado a idia. E embora sua viva no tivesse nenhum interesse na casa e seu contedo, no parecia 
decente deix-la a merc dos mapaches e os esquilos. Por outra parte, eu no tinha nenhum desejo de me aproximar da casa deserta.
        - Subida, Sassenach.
        Jamie cruzou o ptio a grandes passos, fechou a porta com mais violncia da necessria e retornou, a passo enrgico.
        - Hop! -exclamou, montando detrs de mim. E partimos, com o resplendor da medial uma apenas visvel por cima das rvores.
        Sentia-me bastante a salvo ali, sobre a mole poderosa do cavalo, com o rudo das cabras a nosso redor e, detrs a presena tranqilizadora do Jamie, que 
me rodeava a cintura com um brao. Mas no o suficiente para voltar a vista atrs. E ao mesmo tempo, o impulso de olhar era to intenso que quase rebatia o medo 
que me inspirava a granja.
        - Em realidade no  um serbal, no?- disse brandamente Jamie, detrs de mim.
        - No- confirmei- .  um fresno silvestre. Mas so muito parecidos.
        Estreitei-lhe a mo cheia de ampolas, e ele me beijou na cabea.
        No alto do atalho me voltei a olhar, mas s se via um vago brilho no telhado erodido da casa. O fresno e o que baixo ele houvesse (ou no) permaneciam ocultos 
nas sombras.
        Foi um grande alvio abandonar por fim as terras dos Beardsley. Quando os pinheiros tamparam tudo o terreno baixo, separei-me da mente os pertubadores acontecimentos 
do dia para pensar no que nos esperava no Brownsville.
        - Confio em que Roger as tenha arrumado bem -disse, me apoiando contra o peito do Jamie, com um pequeno suspro.
        - Hum jum.
        - Espero que tenha encontrado alguma estalagem -insisti, pensando que essa perspectiva podia provocar algo mais de entusiasmo- . Seria magnfico ter comida 
quente e uma cama limpa.
        - Hum jum. -Esta vez tinha uma mescla de humor e cepticismo, sobre a possvel existncia de comida quente e camas podas nos territrios se separados da Carolina.
        - Laas cabras parecem lev-lo muito bem -acrescentei. E aguardei com espera.
        - Hum jum. -Dava-me a razo a contra gosto, embora duvidando sobre a durao dessa boa conduta por parte das cabras.
        Enquanto eu formulava mentalmente outra observao, com a esperana de insisti-lo a repetir aquilo (o mximo tinham sido trs vezes), Gideon justificou sbitamente 
a desconfiana do Jamie elevando-se de mos com um forte bufo.
        Choquei-me com o peito do Jamie e o golpe seco de minha cabea contra sua clavcula me fez ver as estrelas. Ele me sujeitou me rodeando com o brao at me 
deixar sem ar enquanto atirava das rdeas com uma s mo, gritando.
        Eu no tinha idia do que estava dizendo; no sabia sequer se falava em ingls ou em galico. O cavalo relinchava, encabritado, e eu procurava algo ao que 
me agarrar: crinas, cadeira, rdeas... Um ramo me aoitou a cara, me cegando. Reinava o pandemnio; ouviam-se chiados, balidos e um rudo como de tecido rasgado. 
Logo, algo me golpeou com fora, me lanando  escurido.
        No me deprimi, mas faltou pouco. Fiquei escancarada em um matagal, me esforando por respirar, incapaz de me mover e sem ver nada, alm de umas quantas 
estrelas disseminadas no cu.
        A certa distncia se ouvia uma grande animao, no que preponderava um coro de cabras espavoridas, 
      interrompido de gritos que pareciam de mulher. Gritos de duas mulheres.
        Movi a cabea, confundida. de repente me pus de barriga para baixo e comecei a me arrastar: acabava de reconhecer, embora tarde, o que era aquilo. Com freqncia 
tinha ouvido rugidos de jaguar, mas sempre de longe, a distancia segura. Mas este no estava nada longe. O rudo de tecido rasgado tinha sido o bufido de um grande 
felino, que estava muito perto.
        Ao chocar com um grande tronco cansado me apressei a me esconder baixo ele, me introduzindo no oco tudo o que pude. No era o melhor dos esconderijos, mas 
talvez impedisse que algo saltasse das rvores sobre mim.
        Seguia ouvindo os gritos do Jamie, embora o tom de seus comentrios tinha passado a ser uma espcie de rouca fria. As cabras j no baliam; era possvel 
que o felino as houvesse matodo a todas? Tampouco se ouvia a senhora Beardsley. Os cavalos, em troca, armavam um tremendo barulho com tanto relinchar e dar coices.
        - Aqui -grasnei, decidida a no abandonar meu refgio sem saber com certeza onde estava o jaguar... ou ao menos sem ter segurana de que no estava perto 
de mim. Os cavalos tinham deixado de relinchar, embora seguiam soprando e fazendo rudo com os cascos, para demonstrar que nenhum deles tinha fugido nem cansado 
presa do visistante- . Aqui! -repeti, elevando um pouco a voz.
        Mais rangidos a pouca distncia. Jamie apareceu a tropices na escurido e se agachou para medir debaixo do tronco. Sua mo encontrou meu brao e o estreitou.
        - Est bem, Sassenach?
        - No tive tempo de averigu-lo, mas acredito que sim. -Sa do tronco com cuidado para ver se estava ferida. Cardeais aqui e l, cotovelos esfolados e uma 
sensao de ardncia na bochecha golpeada pelo ramo. Basicamente, tudo estava bem.
        - Me alegro. Date pressa, que est ferido. -Ele me levantou e me ajudou a caminhar.
        - Quem?
        - O macho caibro,  obvio.
        Para ento minha vista se adaptou  escurido. Pude distinguir as grandes silhuetas do Gideon e da gua sob um lamo; ambos agitavam crinas e caudas com 
nervosismo. A pouca distncia havia um vulto mais pequeno, que parecia ser a senhora Beardsley, agachada junto a algo.
        Cheirava a sangue e a fetidez de cabra. Pu-me em cuclillas, alargando a mo at encontrar cabelo spero, quente. O macho caibro se sobressaltou com um forte 
" Beeeeh!" , que me tranqilizou um pouco. Possivelmente estivesse ferido, mas no moribundo. O corpo que tinha sob minhas mos estava slido e vital, com os msculos 
tensos.
        - Onde est a fera? -perguntei, enquanto localizava a dureza dos chifres e continuava palapando apressadamente a coluna, as cortillas e os flancos. O animal 
apresentou suas objees com selvagens sacudidas.
        - foi  -disse Jamie, que tambm se agachou. Apoiou uma mo na cabea do macho- . seja  seja a bhalaich. Tudo est bem. Seas,mo charaid.
        No encontrava nenhuma ferida aberta no corpo da cabra; entretanto cheirava a sangue: um bafo quente e metlico, que perturbava o limpo ar noturno do bosque. 
Os cavalos tambm o farejavam e se removiam na escurido, inquietos.
        - Estamos seguros de que se foi? -insisti, tratando de no pensar na sensao de ter uns olhos cravados na nuca- . Cheiro a sangue.
        - Sim. A fera se levou a uma das fmeas -me informou Jamie, enquanto se ajoelhava a meu lado para apoiar uma mo no pescoo do animal- . A senhora Beardsley 
soltou a este bravo moo, que se jogou de cabea contra o felino. No o vi tudo, mas acredito que a bestial e lanou um zarpazo. Ouvi-a chiar e bufar. E nesse momento 
o macho caibro tambm gritou. Pode que se quebrado uma pata.
        Assim era. Com essa informao achei facilmente a fratura, no mero da pata dianteira direita. A pele estava intacta, mas o osso, quebrado. Apalpei o leve 
deslocamento dos extremos. A cabra puxou, tratando de me cornear o brao. Seus olhos se moviam, frenticos; as estranhas pupilas quadradas eram visveis, mas incolores 
sob o fraco claro lunar.
        - Pode cur-lo, Sassenach?
        - No sei.
        O animal seguia lutando, mas seus movimentos se debilitavam perceptivelmente.
        - No sei -repeti. Meus dedos tinham encontrado finalmente o pulso; era muito veloz e dbil. Tratei de imaginar os tratamentos possveis, todos rudimentares- 
.  muito possvel que mora, Jamie, embora lhe reduza a fratura. No seria melhor sacrific-lo? Convertido em carne ser muito mais fcil de transportar.
        Ele acariciou brandamente o pescoo da cabra.
        - A um animal to valente... Seria uma pena.
        Para ouvi reso, a senhora Beardsley soltou uma risita nervosa, como de menina.
        - Ze chama Hiram -disse- . Ez um bom moo.
        - Hiram -repetiu ele, sem deixar de acarici-lo- . Pois bem, Hiram. Courage, mon brave. Sair adiante. Tem os ovos do tamanho de um melo.
        - De caquis, mas bem -observei, pois tinha encontrado inadvertidamente os testculo em questo ao efetuar meu exame- . Embora perfeitamente respeitveis, 
sem dvida.
        Aspirava o menos possvel para no cheir-lo. As glndulas almizcleras do Hiram estavam trabalhando horas extraordinrias. At o penetrante aroma de sangue 
ficava em segundo plano.
        - Disse-o em sentido figurado -me informou jamie, com bastante secura- . O que vais necessitar, Sassenach?
        Pelo visto a deciso estava tomada.
        - Pois bem. -Tirei-me o cabelo da cara com o dorso da boneca- . Busca me um par de ramos retas, de uns trinta centmetros de longitude, sem ramillas laterais, 
e uma parte de corda. Logo me ajudar com ele -acrescentei, tratando de sujeitar a meu inquieto paciente- . Hiram parece te ter simpatia. Talvez te reconhece como 
esprito afim.
        Jamie riu; foi um som grave e reconfortante junto a meu cotovelo. incorporou-se, depois de lhe arranhar uma vez mais as orelhas, e se afastou entre sussurros 
de folhagem. Momentos depois estava de retorno com o que lhe tinha pedido.
        - Bem. -Apartei uma mo do pescoo do Hiram para agarrar os paus- . vou entalar o; desta maneira no poder dobrar a pata e fazer-se mais danifico. Teremos 
que lev-lo nas costas. 
      me ajude a tender o de lado. 
        A senhora Beardsley rondava a meu lado, com um cabrito em braos. O pequeno emitiu um dbil balido, como se despertasse sbitamente de um pesadelo, e Hiram 
respondeu com um forte " beeh" .
        - Tenho uma idia -murmurou jamie. E se levantou para agarrar o cabrito. Logo voltou a ajoelhar-se e o aproximou do macho. Imediatamente o hocique no flanco, 
com um balido. Uma lngua larga e viscosa serpenteou sobre minha mo, lesma, procurando a cabea do pequeno.
        - Sei rpida, Sassenach -sugeriu Jamie.
        No necessitei mais incentivo. Em poucos minutos tive a pata estabilizada e as tabuletas acolchoadas com um dos muitos xales que a senhora Beardsley levava 
em cima. Hiram se tinha tranqilizado e s emitia algun gemido ocasional. O cabrito, em troca, balia a todo pulmo.
        - Onde est sua me? -perguntei. Mas no necessitava a resposta. Embora no fora muito entendida em cabras, sabia de maternidade: s a morte manteria a uma 
me longe do filho que estivesse Armando um alvoroo semelhante. As outras cabras tinham retornado por curiosidade, por medo s sombras ou, simplesmente, por procurar 
companhia, mas a me no se adiantou.
        - Pobrecilla... -disse tristemente a senhora Beardsley- . Uma cabra to doce...
        Hiram j tinha os ossos em seu stio e o entalado bem firme. Emitiu um forte e belicoso " beeeeehhh!"  e se levantou apoiando-se em trs patas. Caiu imediatamente, 
mas sua reao animou a todos. At a senhora Beardsley lanou uma exclamao de palcer ao v-lo.
        - Muito bem. -Jamie se incorporou com um profundo suspro- . E agora...
        - E agora o que? -inquiri.
        - Agora devo decidir o que faremos. -Havia certo nervosismo em sua voz.
        - No continuaremos para o Brownsville?
        - Poderamos continuar. Se a senhora Beardsley conhecer bem o caminho e  capaz de achar o atalho  luz das estrelas.
        voltou-se para ela, espectador, mas at nas sombras vi o gesto negativo da mulher.
        Ento ca na conta de que j no estvamos no caminho; em todo caso, era apenas um estreito caminho aberto pelos veados.
        - No podemos estar to longe, verdade? -Olhei a meu redor, aguando inutilmente a vista na escurido, como se pudesse haver algn letreiro luminoso que 
indicasse a situao do atalho. Em realidade, no tinha nem idia do rumo.
        - No -respondeu Jamie- . Quanto a mim, acredito que cedo ou tarde a encontraria. Mas no penso andar a tropices pelo bosque, na escurido e com tudo isto.
        Percorreu o crculo com a vista, contando cabeas. Dois cavalos muito assustadios, duas mulheres (uma delas bastante estranha e possvel homicida) e seis 
cabras, dois das quais no podiam caminhar. Em realidade tinha razo.
        Jogou os ombros para trs e os encongi um poquito, para acomodar uma camisa estreita.
        - irei jogar uma olhada. Se encontro o caminho em seguida, melhor. Se  no, acamparemos at manh -disse- .  luz do dia ser muito mais fcil encontrar 
o caminho. Tome cuidado, Sassenach.
        E com um espirro final, desapareceu no bosque, me deixando a mim s ao cuidado do ferido e nossos acompanhantes.
        - Acredita que voltar? -A senhora Beardsley se acuclill a meu lado, com o xale bem apertado aos largos ombros. Falava em voz baixa, como se temesse que 
algum pudesse nos ouvir.
        - Quem? O jaguar? No, no acredito. Para que? -Mesmo assim me percorreu um calafrio ao pensar no Jamie, solo na escurido. Hiram soprou, com a paleta firmemente 
apoiada em minha coxa. Logo apoiou a cabea em meu joelho e lanou um comprido suspiro.
        - Como se sente? -perguntei, mais por manter a conversao que por verdadeiro interesse.
        - Alegra-me haver zalido de eze lugar -disse simplesmente.
        Decididamente, eu compartilhava seus sentimentos; ao menos nossa situacion tinha melhorado com respeito  da granja, at com jaguar e tudo. Mas isso no 
significava que desejasse passar uma temporada ali.
        - Conhece algum no Brownsville? -perguntei-lhe. No estava segura do tamanho da populao, embora pelos comentrios de alguns milicianos parecia ser uma 
aldeia importante.
        - No. -Durante um momento guardou silncio. Tinha a cabea inclinada para trs para poder contemplar as estrelas e a aprazvel lua- . Ez que... nunca hei 
eztado no Brownsville -acrescentou, quase tmida.
        Nem em nenhum outro lugar, ao parecer. Contou a histria entre vacilaes, mas quase com nsias, ante o interesse, embora mnimo, por minha parte.
        Resumindo, Beardsley a tinha comprado a seu pai para lev-la a sua casa, junto com outras mercadorias adquiridas em Baltimore. Uma vez ali a manteve essencialmente 
prisioneira; tinha proibido abandonar a granja e deixar-se ver por aqueles que pudessem acontecer por ali. Enquanto ele viajava pelas terras dos cherokees com sua 
mercadoria, deixava-a na casa para que fizesse todo o trabalho. No contava com mais companhia que a de um servo surdo-mudo.
        - Que coisa! -disse. Com todo o acontecido durante o dia tinha esquecido ao Josiah e a seu gmeo. Perguntei-me se ela conheceria os dois ou s ao Keziah.
        - Quanto faz que veio a Carolina do Norte? -perguntei.
        - Doz aoz -respondeu em voz baixa- . Doz aoz, trez mezez e cinco daz.
        Recordei as marcas feitas na ombreira da porta. Quando comearia a levar a conta? Desde o comeo? Estirei as costas; isso incomodou ao Hiram e o fez resmungar.
        - J vejo. A propsito, como te chama? -perguntei, caindo na conta de que no sabia seu nome.
        - Franzez -disse. Mas o tentou outra vez, como se no gostasse desse som confuso- . Fran-cesss.- O final foi um vaio entre os dentes partidos. encolheu-se 
de ombros, rendo. Foi uma risada breve e tmida- . Fanny. Minha me me chamava Fanny.
        Fanny -repeti para respir-la- .  um nome muito bonito. Posso te chamar assim?
        - Zera... um prazer -disse. Tomou ar, mas se deteve sem falar, como se fora muito tmida para expressar o que estava pensando. Morto seu marido, parecia 
totalmente passiva, privada da fora que a tinha animado antes.
        - Ah -exclamei ao compreender- . Claire. Tutame, por favor.
        - Claire. Que bonito!
        - Bom, ao menos no tem nenhuma esse -disse sem pensar- . OH, perdoa.
        Lhe subtraiu importncia com um pequeno bufo. Respirada pela escurido, a sensao de intimidade engendrada pelo tuteo... ou simplesmente pela necessidade 
de falar depois de tanto tempo, falou-me de sua me, que tinha morrido quando ela tinha doze anos; de seu pai, que pescava caranguejos, e da vida que levava em Baltimore, 
onde vadeava pela costa durante o baixo mar, para recolher ostras e almejas, e contemplava os navios pesqueiros e os navios de guerra que passavam frente ao forte 
Howard.
        - Era... aprazvel -disse com melancolia- . To aberto... Zlo o cu e a gua. -E voltou a inclinar a cabea para trs, como se desejasse o trocito de cu 
visvel entre os ramos  que se entrecruzavam em cima de ns. Talvez as montanhas boscosas da Carolina do Norte eram refgio e abrao para um escocs como Jamie, 
mas bem podiam resultar claustrofbicas e estranhas para quem estivesse acostumado  costa martima do Chesapeake.
        - Pensa retornar l? -perguntei.
        - Retornar? -Parecia um pouco sobressaltada- . Pois... no o tinha pensado.
        - No? -Tinha encontrado uma rvore contra o qual me apoiar. Estirei-me um pouco para alivia as costas- . Sem dvida sabia que voc... que o senhor Beardsley 
ia morrer. No tinha nenhum plano?
        Alm de divertir-se torturando-o enquanto morria lentamente, claro. Ca na conta de que tinha comeado a me sentir muito a gosto com essa mulher, s na escurido 
com as cabras. Podia ter sido uma vtima do Beardsley... ou talvez o dizia s para que a ajudssemos. Conviria recorde os dedos queimados de seu marido e o horroroso 
estado do desvo. Endireitei-me um poquito; no caso de, apalpei a pequena faca que levava a cintura.
        - No. -Parecia um pouco aturdida. No era de sentir saudades. Eu mesma estava aturdida, simplesmente pela emoo e a fadiga. Tanto que me perdi o que disse 
a seguir.
        - O que h dito?
        - Que... Mary Ann no me disse  o que devia fazer... dezpuz.
        - Mary Ann -repeti, cautelosa- . Ela era... a primeira esposa do Beardsley, no?
        Fanny se ps-se a rir. O cabelo da nuca me arrepiou de uma maneira muito desagradvel.
        - OH, no. Mary Ann era a quarta.
        - A... quarta -repeti, um pouco deprimida.
        - Ez a nica que ele enterrou sob o zerbal -me informou- . Foi um engano. Laz otraz eztn no bozque. Daria-lhe preguia, zupongo. No quizo caminhar tanto.
        - Ah. -No me ocorria melhor resposta.
        - E ze o disse. Ela aparece sob o zerbal quando zale a lua. A primeira vez que a vi penz que era uma mulher viva. Tive medo do que ele pudesse lhe fazer, 
zi a via zola ali, e zal para adverti-la.
        - Compreendo. -Algo em minha voz deveu expressar pouca credulidade, pois ela voltou a cabea para mim. Agarrei a adaga com mais firmeza.
        - No me creez?
        - claro que sim! -assegurei-lhe, tratando de me tirar a cabea do Hiram do regao. Me tinha dormido a perna esquerda pela presso e no sentia o p.
        - Posso demoztrrtelo -disse ela, com voz serena e segura- . Mary Ann me disse onde eztaban... laz otraz... e as encontrei. Posso enzearte laz tumbaz.
        - No  necessrio -assegurei, flexionando os dedos do p para restaurar a circulao. Se me aproximava, jogaria-lhe a cabra em cima e rodaria para um lado 
para fugir engatinhando enquanto chamava o Jamie. E onde diabos estava Jamie, a tudo isto?- . Assim... Fanny... Dizia-me que o senhor Beardsley... -tampouco sabia 
o nome dele, mas dadas as circunstncias preferia manter  minhas relaes com sua memria em um plano formal- que seu marido assassinou a quatro mulheres. E ningum 
se inteirou?
        Claro que ningum tinha por que inteirar-se. A granja do Beardsley estava muito isolada e no era estranho que as mulheres morreram: por acidente, de parto 
ou, simplesmente, por excesso de trabalho. Se algum sabia que o homem tinha perdido a quatro algemas, era muito possvel que a ningum interessasse averiguar por 
que.
        - Z. -Pareceu-me que estava tranqila; ao menos, de momento no parecia perigosa- . Me teria matado tambm, mas Mary Ann ze o impediu.
        - Como?
        Ela suspirou, acomodando-se no cho. De seu regao surgiu um balido sonolento; ento ca na conta de que o cabrito estava novamente ali. Afrouxei os dedos 
em volto da faca; seria-lhe difcil me atacar com uma cabra no regao.
        Conforme me contou, saa a conversar com a Mary Ann quando a lua estava alta. A fantasmal mulher aparecia sob o serbal s entre medial uma crescente e a 
meia minguante, nunca em lua nova nem em quarto crescente.
        - Que detalhe! -murmurei. Mas ela no se precaveu. Estava absorta em seu relato.
        Aquilo se prolongou durante vrios meses. Mary Ann lhe disse quem era; tambm a informou sobre o destino sofrido por suas predecessoras e como tinha morrido 
ela mesma.
        - A  eztrangul. Vi-lhe no pescoo laz marcaz de zuz dedoz. Ela me advertiu que algum dia faria o mizmo comigo.
        Apenas algumas semanas depois, Fanny teve a certeza de que tinha chegado o momento. 
        - Eztaba at acima de rum, zabez? Ziempre era pior quando bebia. E eza vez...
        Trmula de nervos, tinha deixado cair a bandeja com o jantar do Beardsley, salpicando o de comida. Ele se levantou de um salto, rugindo, e se jogou contra 
ela. Fanny se deu a volta e fugiu.
        - Ele eztaba entre a porta e eu- disse- . Corri ao dezvn. Penz que, bbado como eztaba, no poderia zubir a ezcalerilla. E no pde.
        Beardsley se tinha cambaleado e a escalerilla caiu ruidosamente. Enquanto ele lutava por devolv-la a seu stio, entre rezongos e maldies, algum bateu 
na porta. O homem 
      inquiriu a gritos quem era, mas no houve resposta; s um golpe mais. Do bordo do desvo, Fanny viu sua cara avermelhada; ele a fulminou com o olhar. ouviu-se 
um terceiro golpe. Beardsley tinha a lngua to entorpecida pelo lcool que no podia falar com coerncia; limitou-se a grunhir, com um dedo em alto em sinal de 
advertncia; logo caminhou para a porta, cambaleando-se, e a abriu com violncia. Ao olhar fora lanou um alarido.
        - Eu nunca tinha ouvido algo az -murmurou ela- . Nunca.
        Beardsley girou em redondo e, em sua carreira, tropeou com um tamborete e caiu de bruces, escancarado. Se levanr com muita dificuldade e foi para a escalerilla. 
Subia torpemente, salteando degraus, a tapas, entre exclamaes e gritos.
        - Gritava-me que o ajudasse, que o ajudasse. -Sua voz tinha uma nota estranha. Talvez era s estupefao pelo fato de que semelhante homem lhe tivesse pedido 
socorro. Mas me pareceu que esse tom delatava o profundo e secreto prazer que lhe provocava a lembrana.
        Ele chegou ao batente da escalerilla, mas no pde dar o passo final para o desvo. Sua cara passou repentinamente do vermelho ao branco; os olhos lhe voltaram 
para trs. Logo caiu de bruces s pranchas, inconsciente, com as pernas lhe pendurando absurdamente do bordo.
        - No podia baix-lo; apenaz pude arraztralo hazia dentro. -Suspirou- . O rezto... j o zabez.
        - No de tudo. -Jamie falou da escurido, perto de meu ombro, me sobressaltando. Hiram despertou com um grunhido de indignao.
        - Quando tornaste? -interpelei.
        - Faz o bastante. -Veio a ajoelhar-se a meu lado, com uma mo em meu brao- . E o que foi o que viu na porta? -perguntou  senhora Beardsley. Sua voz no 
expressava mais que um leve interesse, mas notei que sua mo estava tensa. Percorreu-me um calafrio. " O que." 
        - Nada -respondeu ela, simplesmente- . No vi ningum ali. Mas... dezde eza porta ze via o zerbal. E havia zalido a meia lua.
        depois disso houve um momento de silncio. Por fim jamie se esfregou a cara com uma mo e suspirou.
        - Sim. Bem. -levantou-se- . encontrei um stio onde poderemos nos refugiar durante a noite. me ajude com a cabra, Sassenach.
        Felizmente, o stio que jamie tinha encontrado estava a pouca distncia. Era uma espcie de fenda pouco profunda, em um ribazo arciloso mdio desmoronado. 
Em outros tempos tinha deslocado algum arroio por ali; a gua tinha desprendido uma boa parte do ribazo, deixando uma abertura. No obstante, anos atrs algo tinha 
desviado o curso da gua; as pedras arredondadas que tinham formado seu leito estavam disseminadas e meio fundas no cho margoso.
        - Ocorre algo, Sassenach? -Jamie se tinha detido. Estava na ladeira, algo por cima de mim, com o Hiram sobre os ombros. De abaixo, recortado contra o cho, 
era uma figura grotesca e ameaadora, alta e com chifres e uma giba monstruosa.
        - Estou bem -lhe confirmei, quase sem flego- .  aqui?
        - Sim. me ajude, Quer? -Parecia mais sufocado que eu. ajoelhou-se cuidadosamente, enquanto eu me apressava para lhe ajudar a depositar ao Hiram no cho. 
Ele ficou de joelhos, com uma mo em terra para sustentar-se.
        - Espero que pela manh no seja to difcil encontrar o caminho -disse. Olhava-o com preocupao. O esgotamento lhe obrigava a inclinar a cabea e o ar 
gorgoteaba em seu peito com cada flego. Necessitava um stio com fogo e comida, quanto antes.
        Ele moveu a cabea e pigarreou.
        - Sei onde est. -Voltou a tossir- . S que...
        A tosse lhe sacudia com fora; notei que esticava os ombros para agent-la. Quando cessou lhe apoiei brandamente uma mo nas costas; percorria-lhe um tremor 
constante; no era um calafrio, a no ser o estremecimento dos msculos forados alm dos limites de sua fora.
        - No posso continuar, Claire -disse pelo baixo, como se se envergonhasse de admiti-lo- . Estou esgotado. 
        - lhe deite -lhe disse, tambm fico- . Eu me ocuparei de tudo.
        Houve certo alvoroo e confuso, mas meia hora depois todos estvamos mais ou menos instalados, os cavalos maneados e uma pequena fogueira acesa. Ajoelhei-me 
para examinar a meu paciente principal, que estava tendido sobre o peito, com a pata entalada estendida para diante, com suas damas ses e salvas atrs dele, ao 
casaco do ribazo. Hiram emitiu um belicoso " Beh!"  e me ameaou com os chifres.
        - Ingrato -murmurei ao apartrme.
        A risada de jamie se quebrou em um espasmo de tosse que lhe sacudiu os ombros. Estava acurrucado a um lado da costa, com a cabea apoiada na jaqueta dobrada.
        - Quanto -lhe disse- , abre esse capote e te levante a cmisa. Agora mesmo.
        Ele me olhou com os olhos entreabridos; logo jogou uma olhada  senhora Beardsley. Seu recato me fez dissimular um sorriso, mas lhe dava  mulher um heervidor 
pequeno e a enviei em busca de gua e lenha; logo extra a cabaa com o ungento mentolado.
        Agora que podia v-lo bem, o aspecto do Jamie me alarmou um pouco. Estava plido, com os lbios brancos e as fossas nasais circundadas de vermelho, ojeroso 
de fadiga. Parecia muito doente; ouvi-lo era ainda pior: seu flego assobiava no peito ao respirar.
        - Bom, suponho que se Hiram no quis morrer diante de suas fmeas, voc tampouco morrer diante de mim -disse com ar dbio, enquanto colhia com o dedo um 
pouco de graxa fragrante.
        - No penso morrer -disse, bastante vexado- . S estou um pouco cansado. Pela manh serei o de sempre. OH, Deus, como isto dio!
        Tinha o peito bastante quente, mas no me pareceu que fora febre, era difcil determin-lo, com os dedos to frios.
        Ele deu um coice e tratou de escapulir-se, com um agudo "  Auh" . O sujeitei com firmeza pelo pescoo e procedi a fazer minha vontade, apesar de seus protestos. 
Ao fim deixou de resistir e se entregou, entre risadas intermitentes, espirros e algum gemido ocasional, quando lhe tocava algum stio onde houvesse ccegas. s 
cabras pareceu muito entretido.
        Em poucos minutos o tinha deixado ofegante no cho, com a pele do peito e o pescoo brilhantes de graxa e avermelhados pela frico. No ar reinava um forte 
aroma a hortel e cnfora. Pu-lhe uma flanela grosa no peito, baixei-lhe a camisa, agasalhei-o com a capa e lhe cobri at o queixo com uma manta.
        - Bem -disse, satisfeita, enquanto me limpava as mos com um pano- . Assim que tenha gua quente tomaremos uma boa infuso de marrubio.
        Abriu um olho suspicaz.
        - Tomaremos?
        - Bom, voc. Eu prefiro me beber o pis do cavalo.
        - Eu tambm.
        - Infelizmente, que eu saiba, no tem efeitos medicinais.
        Ele fechou o olho com um grunhido. Durante um momento respirou com dificuldade, como um fole quebrado. Logo levantou a cabea alguns centmetros.
        - Essa mulher tornou?
        - No. Suponho que encontrar o arroio na escurido lhe levar algum tempo. -Vacilei- . Ouviu o que me contou?
        Ele moveu a cabea.
        - Tudo no, mas sim bastante. o da Mary Ann e todo isso?
        - Sim.
        - O creste, Sassenach?
        Em vez de responder imediatamente, tomei algum tempo para me tirar a graxa das unhas.
        - Nesse momento, sim -disse ao fim- . Agora... no estou to segura.
        Ele grunhiu outra vez, agora com aprovao.
        - No acredito que seja perigosa -disse- . Mas tenha sua pequena adaga  mo, Sassenach... e no lhe volte as costas. Alternaremo-nos para montar guarda; 
desperta dentro de uma hora.
        Fechou os olhos, tossindo, e dormiu profundamente.
      
      
      As nuvens comeavam a cobrir a lua e o vento frio agitava a erva do ribazo.
        - Despertar dentro de uma hora -murmurei ao trocar de posio, em um esforo por obter uma mnima postura cmoda no cho rochoso- . Ja! Nem o sonhe!
        Levantei-lhe a cabea para apoi-la em meu regao. Ele se queixou um pouco, mas no se moveu. Girei os ombros e me reclinei, procurando algum apoio contra 
a parede inclinada de nosso refgio. face  advertncia do Jamie, no parecia necessrio vigiar  senhora Beardsley; depois de alimentar amavelmente o fogo, havia-se 
acurrucado entre as cabras. Como s era de carne e osso, estava esgotada pelos acontecimentos do dia e dormiu em seguida. Ouvi-a roncar apaciblemente ao outro lado 
da fogueira, entre os bufos de seus companheiros.
        - E voc, do que crie parecer? -acusei  pesada cabea que descansava em meu regao- . De borracha vulcanizada?
        Quase sem querer lhe acariciei o cabelo. Em sua boca se desenhou um sorriso de surpreendente doura. De repente, desapareceu como tinha vindo. Fiquei observando-o, 
atnita. No. Estava profundamente dormido; sua respirao era rouca, mas estvel; as largas pestanas de duas cores descansavam contra as bochechas. Com muita suavidade 
voltei a lhe acariciar o cabelo.
        Tal como esperava: o sorriso piscou como o toque de uma chama e voltou a desaparecer. Suspirou profundamente, dobrou o pescoo para colocar-se melhor e se 
relaxou por completo.
        - OH, Jamie!, Por Deus -lhe sussurrei. As lgrimas me ardiam nos olhos.
        Fazia anos que no o via sorrir assim em sonhos. Em realidade, desde aqueles primeiros dias de nosso matrimnio, no Lallybroch.
        " De pequeno o fazia sempre -me havia dito ento sua irm Jenny- . Acredito que o faz quando est feliz." 
        Dobrei os dedos no cabelo denso e suave da nuca, apalpando a curva slida do crnio, o couro cabeludo quente, a fina linha de uma antiga cicatriz.
        - Eu tambm -sussurrei.
      
      

      30
      
      Fetos de Satans
      
      
      A senhora MacLeod e seus dois filhos se alojaram em casa da esposa do Evan Lindsay quando os irmos MacLeod partiram com a tropa junto com o Geordie Chisholm 
e seus dois filhos maiores. A congesto da casa grande se viu grandemente aliviada, mas no o suficiente, conforme pensava Brianna, tendo em conta que ainda estava 
ali a senhora Chisholm.
        O problema no era ela em si, a no ser seus cinco filhos menores, todos vares, a quem a senhora Bug chamava coletivamente " fetos de Satans" . Os gmeos 
de trs anos causavam esse efeito, sim, disse-se Brianna, olhando ao Jemmy com certo temor, enquanto se imaginava o futuro.
        No momento no dava amostras de ser um possvel bagunceiro; estava mdio dormido no tapete do estudo do Jamie, onde Brianna se retirou com a vaga esperana 
de encontrar quinze minutos de alguma solido para escrever. O respeito ao Jamie bastava para manter aos pequenos vadios fora dessa habitao.
        Na mesa,  mo, tinha o tinteiro do Jamie: uma cabaa oca, bem tampada com uma bolota grande, a seu lado, um frasco de terracota com plumas de peru bem afiadas. 
A maternidade lhe tinha ensinado a Brianna a aproveitar os momentos de tranqilidade que o azar lhe oferecia; aproveitou esse para abrir o pequeno jornal no que 
registrava as notas que considerava ntimas. 
      
        Ontem  noite sonhei que fazia sabo. Pessoalmente nunca tenho feito sabo, mas ontem estive esfregando o cho e, quando me deitei, ainda me cheiravam as 
mos.  um aroma horrvel, entre  cido e a cinzas, com um espantoso fedor a graxa de porco, como a algo que leva morto muito tempo.
        Estava vertendo gua em um hervidor de cinza para fazer leja.  medida que ia vertendo se ia convertendo em leja. Do hervidor se elevavam grandes nuvens 
de fumaa venenosa; essa fumaa era amarela.
        Papai me trouxe uma grande terrina de sebo para mesclar com a leja; dentro havia dedos de beb. Ento no recordo ter pensado que aquilo fora estranho.
        
        Brianna tinha estado tratando de passar por cima uma srie de rudos estrondosos no piso de acima, como se vrias pessoas estivessem saltando em uma cama. 
O alvoroo cessou bruscamente, e foi substitudo por um grito penetrante, ao que seguiu a sua vez um rudo de carne contra carne, como de uma forte bofetada, e vrios 
alaridos mais de tons diversos.
        Bree fez uma careta e fechou os olhos com fora. Um momento depois baixavam atronadoramente a escada. Ela olhou a jemmy, que se tinha despertado com um sobressalto, 
mas no parecia assustado (Cu Santo, estava-se habituando) e deixou a pluma para levantar-se com um suspiro.
        O senhor Bug era o encarregado de atender a granja e o gado e repelir as ameaas fsicas. O senhor Wemyss, de cortar lenha, conduzir aguay, em geral, manter 
em marcha o funcionamento da casa. Mas a gente era calado e o outro, tmido. Assim jamie lhe tinha deixado formalmente o mando a sua filha. portanto, ela era corte 
de apelaes e juiz de todos os conflitos. Quer dizer, a senhora.
        A senhora abriu de par em par a porta do estudo, fulminando  multido com o olhar e todos comearam a gritar ao mesmo tempo.
        - ndios selvagens!
        - O precioso cabelo de meu beb!
        - Ela comeou!
        - Atrever-se a pegar a meu filho!
        - Estvamos jogando aos cortadores de cabeleiras, senhora...!
        - Eeeehhh!
        - ... e estes pequenos fetos tm feito um grande buraco em meu leito de plumas!
        - Pois olhe o que tem feito ela, essa velha maldita!
        - Olhe o que tm feito eles!
        Pois senhora,  s...
        - Aaaahhhhhh!
        Brianna saiu ao corredor e fechou de uma portada. Como era uma porta macia, o estrondo sossegou momentaneamente o olboroto. Por outra parte Jemmy ps-se 
a chorar, mas ela no fez conta.
        Aspirou fundo, disposta a vadear na animao,, mas logo o pensou melhor. No podia lutar com eles em grupo. Dividir para conquistar: no havia outra maneira.
        - Estou escrevendo -declarou, olhando-os um a um com os olhos entreabridos- . Algo
      importante.
        A senhora Aberfeldy parecia impressionada. A Chisholm, ofendida; a Bug, atnita.
        Ela se dirigiu uma a uma com um frio gesto da cabea.
       - Mais tarde falarei com cada uma de vocs, de acordo?
        Abriu a puertay, depois de entrar, fechou-a muito brandamente contra as trs caras atnitas. Logo apoiou as costas contra ela, com os olhos fechados, e deixou 
escapar o flego que continha.
        Ao v-la, Jemmy deixou de chorar para chupar o polegar.
        - Espero que a senhora Chisholm no saiba nada de ervas -lhe sussurrou ela- . Seguro que sua av tem venenos ali.
        Agora Jemmy estava convexo de barriga para cima, com os ps em alto, mascando alegremente uma parte de bolacha que tinha encontrado v uma ou seja onde. 
O jornal se cansado ao cho. Para ouvir que a senhora Chisholm saa da clnica, Bree se apressou a agarrar a pluma e um dos livros contveis amontoados no escritrio.
        A porta se abriu quatro ou cinco centmetros. Houve um momento de silncio, durante o qual ela inclinou a cabea, franzindo o sobrecenho em um exagerado 
gesto de concentrao, enquanto rabiscava com a pluma sem tinta na pgina que tinha ante si. A porta voltou a fechar-se.
        - Zorra -disse ela, pelo baixo. Jemmy deixou ouvir um rudo interrogativo. Ela o olhou- . No ouviste isso, entendido?
        O pequeno emitiu uma exclamao de acordo, enquanto  se metia os restos chupeteados da torrada na fossa nasal esquerda. Ela fez um gesto instintivo para 
tirar-lhe mas se conteve. Essa manh no tinha pacincia para mais conflitos. Pela tarde, tampouco.
        Seu pai os teria posto a tuda em ordem em um segundo, mediante um exerccio conjunto de encanto e autoridade masculina. A idia lhe arranco um pequeno bufo 
de diverso. Vem, diria a uma, e ela se acurrucara a us ps, ronronando como Adso, o gato. V, diria a outra, e ela sairia para a cozinha para lhe assar um prato 
de pozinhos de manteiga.
        Pela centsima vez da partida dos homens, lamentou profundamente no hav-los acompanhado. Era fcil imaginar a mole de um cavalo movendo-se baixo ela, o 
ar limpo e frio nos pulmes e Roger, cavalgando para seu lado, com o sol arrancando reflexos a seu cabelo escuro, e a aventura invisvel a que se enfrentariam juntos, 
algo mais adiante.
        O sentia falta de com uma dor profunda e surda, como um moretn no osso. Quanto tempo podia durar sua ausncia, se se chegava a produzir o combate? Apartou 
a idia por no enfrentar-se a que seguia: se se combatia, existia alguma possibilidade de que ele voltasse doente, ferido... ou que no voltasse nunca mais.
        - No chegaremos a isso -disse com firmeza, em voz alta- . Retornaro dentro de uma ou duas semanas.
        Uma rajada de chuva geada castigou a janela com um repico. Comeava a fazer frio; para quando anoitecesse, estaria nevando. ateu-se o xale aos ombros, estremecida, 
e jogou uma olhada ao Jem para comprovar que estava bem abrigado. Tinha o fralda molhado; uma de suas meias lhe tinha cansado, deixando nu o piececito rosado. Mas 
ele parecia no precaver-se, absorto na cano que dedicava a seus dedos, enquanto os movia ociosamente por cima de sua cabea.
        Ela o olhou com ar dbio, mas se o ve acontento. Alm disso, o braseiro do rinco dava um pouco de calor, sim.
        - Bem -disse. E suspirou. Tinha ao Jem; isso era tudo. O problema era encontrar a maneira de tratar com as Trs Frias antes de que a voltassem louca ou 
se assassinassem mutuamente.
        - Lgica -disse ao Jemmy, lhe apontando com a pluma- . Tem que haver uma soluo lgica.  como esse problema no que tem que levar a borda oposta, em canoa, 
a um lobo, um cordeiro e uma alface. Deixa que o pense.
        Jem tratava de meter o p na boca cheia de miolos, em que pese a que parecia impossvel.
        - Deve te parecer com papai -lhe disse ela, tolerante.
        Deixou a pluma em seu frasco para fechar o livro contvel, mas se deteve, atrada pela escritura torcida das notas. Ao ver a letra do Jamie, caracteristicamente 
desordenada, ainda sentia uma leve emoo. Recordava a primeira vez que a tinha visto, em uma antiga escritura de 
      propriedade cuja tinta com o tempo se tornou de uma cor parda clara.
        Esta tinta tinha sido parda em um comeo, mas agora se obscureceu, a mescla de ferro e blis alcanava seu tpico tom negro azulado com a exposio ao ar, 
durante um ou dois dias.
        Ento viu que no se tratava de um livro contvel, mas sim de um registro dirio das atividades da granja.
      
        16 de julho: Recebido do pastor Gottfried seis leites desmamados, em troca de duas garrafas de vinho moscato e uma tocha. Guardados no estbulo at que 
cresam e possam comer forragem por si s.
      
      17 de julho: Pela tarde uma das colmias comeou a enxamear e entrou no estbulo. Felizmente minha esposa recaptur o enxame e o alojou em uma manteigueira 
vazia. Diz que Ronni Sinclair deve lhe fazer outra.
      
      18 de julho: Carta de minha tia, pedindo conselho sobre serraria do Grinder' Creek. Respondi dizendo que irei inspecionar a situao antes de fim de ms. Carta 
enviada por meio do R.. Sinclair, que vai ao Cross Creek com uma carga de 22 tonis, dos quais devo receber a metade de seu ganho como parte de pagamento de sua 
dvida por ferramentas de sapateiro. acordamos deduzir dessa quantidade o custo da manteigueira nova.
      
        O fluxo de entradas era tranqilizador, aprazvel como os dias do vero que registravam. Bree sentiu que o n de tenso comeava a relaxar-se entre suas 
omoplatas; sua mente se afrouxava e estirava, disposta a procurar uma sada para suas dificuldades.
      
        20 de julho: Cevada do semeado inferior alta at o joelho. Passada a meia-noite a vaca vermelha teve uma vitela s. Tudo vai bem. Dia excelente.
      
      21 de julho: Vou a casa dos Mueller. Intercambiei uma jarra de favo por bridas de couro em mal estado (mas se podem reparar). Retornei muito depois do obscurecer, 
por contemplar um bando de aves aquticas que elevava vo sobre o lago do Hollis's Gap. Detive-me pescar e cobrei dez boas trutas. Tomamos seis no jantar; o resto 
servir para o caf da manh.
      
      22 de julho: Meu neto tem sarpullido, embora minha esposa declara que no tem importncia. A cerda branca se tornou a escapar de seu curral para o bosque. 
No sei se perseguir a ou expressar meus psames  desafortunada fera que a encontre. Seu carter se parece com o de minha filha nestes momentos, depois de estar 
vrias noites quase sem dormir...
      
        Brianna se inclinou para a pgina, com o sobrecenho franzido.
      
      ...pelos gritos do infante, que segundo minha esposa tem clicas, mas passaro. Confio em que tenha razo. Enquanto isso, instalei a Brianna e ao menino na 
cabana velha, para alvio dos que habitamos a casa, se no de minha pobre filha. A cerda branca devorou a quatro leites da ltima ninhada antes de que pudesse impedir-lhe 
      
        - Condenado cretino! -exclamou ela. Conhecia bem  cerda em questo e a comparao no lhe resultava aduladora. Jemmy, alarmado por seu tom, deixou de arrulhar 
e deixou cair a torrada, trmulos os lbios- . No, no, est bem, tesouro. -Ela foi agarrar o e balan-lo brandamente- . Chist, tudo est bem. Mami estava falando 
com o av. Essa palavra tampouco a ouviste, de acordo? Shhh, shhhh...
        Jemmy, j tranqilizado, estirou-se desde seus braos para a bolacha descartada, com pequenos grunhidos de ansiedade. Ela se agachou para recolh-lo, jogando 
ao objeto mdio disolvido um olhar de asco. A casca, alm de estar ranosa, tinha uma ligeira capa de algo que parecia 
      cabelo de gato.
        - Aj! No acredito que isto voc goste. Ou sim?
        Pelo visto , sim. Foi difcil persuadir o de que aceitasse em troca uma grande argola de touro (das que se usavam para conduzir aos machos pelo nariz, conforme 
recordou ela com certa ironia). Confirmada sua aceitao com uma breve dentada, o menino se colocou em seu regao para chupetearla empecinadamente, com o que pde 
reler a concluso da nota ofensiva.
        - Hummm...
        tornou-se para trs, acomodando o peso do Jemmy para estar mais comoda. Ele j se mantenia erguido com facilidade, embora parecia incrvel que esse macarro 
de pescoo pudesse sustentar a cpula redonda da cabea. Bree jogou um olhar carrancudo ao registro contvel.
        - Tenho uma idia -disse ao Jemmy- . Se traslado a nossa cabana a essa bru... digo,  senhora Chisholm, ela e seus pequenos mostruos deixaro de nos incomodar. 
Logo... hum... a senhora Aberfeldy e Ruthie poderiam hospedar-se com o Lizzie e seu pai, se levarmos ali a cama que est na habitao de seus avs. Os Bug recuperam 
sua intimidade e a senhora deixa de ser uma velha... n... E voc e eu dormiremos na habitao dos avs, at que eles retornem.
        Detestava a idia de abandonar a cabana. Era seu lar, seu stio, o de sua famlia. Ali podia entrar e fechar a porta, deixando atrs o furor da casa grande. 
Ali estavam todas suas coisas: o tear ao meio fazer, os pratos de estanho, a jarra de loua que tinha pintado... todos esses pequenos objetos com os que tinha convertido 
esse lugar em seu prprio lar.
        Se a isso somava o sentimento de posse e paz, lhe abandon-lo provocava uma incmoda sensao que tinha algo de supersticioso. A cabana era o lar que compartilhava 
com o Roger; ao abandon-la, embora s fora temporalmente, parecia admitir que talvez ele no retornaria  para seguir compartilhando-a.
        Estreitou com mais fora ao Jemmy, quem a ignorou concentrado em seu brinquedo, com os puitos gordinhos jorrando baba ali onde agarravam a argola.
        No, no queria ceder sua cabana. Mas era uma soluo lgica. A senhora Chisholm estaria de acordo? A cabana era uma construo muito mais tosca que a casa 
grande e carecia de suas comodidades.
        Mesmo assim estava quase segura de que a mulher o aceitaria. Se existia algum cujo lema fora: " Melhor reinar no inferno que servir no parasoSS, essa era 
ela. face s tribulaes, sentiu vontades de rir.
        depois de fechar o regidtro contvel, tratou de voltar a coloc-lo sobre a pilha de onde o tinha pego, mas com uma s mo e estorvada por jemmy, no chegava. 
O livro se escorregou e caiu na mesa.
        - Chifres -murmurou, estirando-se na cadeira para recolh-lo. desprenderam-se vrias folhas soltas, que ela voltou a introduzir com a mo livre, to ordenadamente 
como pde.
        Uma delas era uma carta; ainda tinha os restos do lacre pegos, com a impresso de uma medial uma sorridente. Ela se deteve: era o selo de lorde John Grei. 
Devia ser a carte que ele tinha enviado em setembro, com a descrio de sua caada de veados no Pntano Tenebroso; seu pai a tinha lido vrias vezes a sua famlia, 
pois lorde John era um correspondente cheio de humor. A cecera em questo tinha estado infestada desse tipo de contratempos incmodos de suportar, mas pitorescos 
quando depois se relatam.
        Sonriendo ao record-lo, desdobrou a carta com o polegar, desejosa de rel-la, s para descobrir que se encontrava ante um pouco muito diferente.
      
                                                                                   13 de outubro, Anno Domini 1770
                                                                                                         Senhor James Fraser
                                                                                Colina do Fraser, Carolina do Norte
      
        Meu querido Jamie:
          Esta manh despertou o som da chuva que nos castiga h uma semana, e o suave cacarejo de vrios frangos encarapitados na cabeceira de minha cama. depois 
de me levantar ante o fixo olhar de numerosos ojillos, fui averiguar a que se devia essa 
      
      
      
      circunstncia. Me informou que o rio tinha crescido tanto, sob o mpeto das chuvas recentes, que tinha escavado tanto o desculpado como o galinheiro. O contedo 
deste ltimo foi resgatado pelo William (meu filho, ao que auiz recordaro) e dois dos escravos, que resgataram com vassouras s aves desalojadas quando arrastava 
a corrente. No saberia dizer de quem foi a idia de alojar em meus aposentos s indefesas vtimas plumferas, mas tenho certas suspeitas a respeito.
        Depois de recorrer ao uso de meu bacinilla (eu gostaria que os frangos compartilhassem este adminculo, mas sua incontinncia  alarmante), vesti-me e me 
aventurei a sair para ver o que se podia salvar. Do galinheiro ficam algumas pranchas e o teto, mas ai!, meu desculpado se converteu em propriedade do rei Netuno... 
ou quem quer seja a deidade menor que preside sobre um tributrio to modesto como nosso rio.
        No obstante, rogo-lhe no sofra preocupaes por ns, pois a casa est a certa distncia do rio, construda sobre uma elevao do terreno, o qual nos pe 
a salvo das inundaes mais incmodas. (O desculpado tinha sido cavado junto  casa velha e ainda no tentamos levantar uma nova estrutura, mais conveniente; este 
pequeno desastre, ao nos oferecer a necessria desculpa para reconstruir, pode resultar uma bno dissimulada.)
      
        Brianna ps os olhos em branco ante esse trocadilho, pr mesmo assim sorriu. Jemmy deixou cair a argola e imediatamente comeou a pedi-la choramingando. 
Ela se inclinou para recolh-la, mas se deteve, atrada sua ateno pelo comeo do pargrafo seguinte.
      
        Em sua carta menciona ao senhor Stephen Bonnet e pergunta se tiver notcias ou conhecimento dele. Conheci-o pessoalmente, como recordar, mas por desgraa 
no guardo lembrana algum do encontro, nem to sequer para recordar seu aspecto. No obstante, como sabe voc, conservo em minha cabea um pequeno buraco como singular 
aviso dessa ocasio. (Pode informar a sua senhora algema que estou bem curado, sem mais sintomas de desconforto que alguma dor de cabea ocasional. Alm disso, a 
placa de prata com a que se h talher a abertura est sujeita a esfriamentos sbitos quando o clima  frio, o qual tende a fazer que meu olho esquerdo lacrimeje 
e a provocar uma grande descarrega de mucos, mas isto no tem importncia.)
        Posto que compartilho, portanto, seu interesse pelo senhor Bonnet e seus movimentos, faz tempo venho fazendo averiguaes entre meus conhecidos da costa, 
dado que as descries de suas maquinaes me fazem acreditar que  mais provvel encontrar ao homem ali. Entretanto, posto que o rio  navegvel at o mar, me ocorreu 
que os capites do rio e os vadios da gua que, de vez em quando, honram minha mesa poderiam me trazer, em algum momento, notcias do homem.
        No me agrada a obrigao de imformar que Bonnet ainda reside estre os viventes, mas tanto o dever como a amizade me impem lhe comunicar os dados que obtive. 
So escassos; o miservel parece ter conscincia de sua situao criminal, ao ponto de ter atuado com sutileza em seus movimentos at o presente.
      
        Jemmy esperneava e chiava. Como em  transe, Bree se agachou a recolher a argola, com os olhos ainda cravados na carta.
      
        soube pouco dele, excetuando a informao de que em algum momento se retirou a Frana: boa notcia. Entretanto, faz duas semanas recebi a um hspede, um 
tal capito Liston (o de " capito"  no  mais que um ttulo de scortesa; o homem assegura servir  Marinha Real, mas eu apostaria um tonel de meu melhor tabaco 
[do que o envio uma amostra acompanhando esta missiva, e se no o recebesse lhe agradeceria que me fizesse saber isso, pois no confio de tudo no escravo atravs 
de quem o envio] a que nunca cheirou sequer a tinta de um contrato, muito menos o fedor dos quilhas), quem me proporcionou uma histria mais recente -e extremamente 
desagradvel- desse homem Bonnet.
       Contou Liston que, encontrando-se em liberdade no porto do Charleston, encontrou-se com alguns companheiros de vil aspecto, quem o convidou a acompanh-los 
une briga de galos, no ptio interior de um estabelecimento chamado Taa do Diabo. Entre a chusma havia um homem notvel pela elegncia de sua vestimenta e a liberdade 
com que gastava seu dinheiro; Liston ouviu que o chamavam Bonnet, e o proprietrio lhe informou que esse Bpnnet tinha fama de contrabandista nas Ribeiras Exteriores, 
sendo apreciado entre os mercados das cidades costeiras da Carolina do Norte, embora muito menos entre as autoridades, que eram incapazes de ajustar contas com esse 
homem, devido a seu comrcio e ao feito de que as cidades do Wilmington, Edenton e New Bern dependiam de seu trfico.
       Liston emprestou pouca ateno ao Bonnet (disse), at que surgiu uma briga sobre uma aposta. Houve intercmbio de palavras acaloradas e s o derramamento 
de sangue teria podido salvar a honra. Os espectadores, sem reparos, comearam imediatamente a apostar sobre o resultado dessa luta humana, tal como o estavam fazendo 
sobre as aves de rixa.
        Um dos combatentes era o tal Bonnet; o outro, um tal capito Marsden, capito do Exrcito a meia paga, a quem minha hspede conhecia como bom espadachim. 
Este Marsden, considerando-se parte ofendida, amaldioou os olhos ao Bonnet e convidou  contrabandista a lhe dar satisfao no ato, oferecimento aceito imediatamente. 
As apostas se derrubaram marcadamente a favor do Marsden, pois sua reputao era muita, mas logo ficou em claro que tinha encontrado a seu igual ou superior no Bonnet. 
Em poucos momentos, este conseguiu desarmar a seu adversrio e feri-lo to gravemente na coxa que Marsden caiu de joelhos e se deu por vencido; indubitavelmente 
dadas as circunstncias, no tinha opo.
       Bonnet, sem aceitar a rendio, executou em troca um ato de tal cueldad que causou muito profundo impresion em quem o viu. Depois de comentar, com grande 
frieza, que no seriam seus prprios olhos os condenados, cruzou com a ponta de sua arma os olhos do vencido, retorcendo-a de maneira que no s deixou cego ao capito: 
infligiu-lhe uma mutilao tal que o converteria em objeto de grande horror e compaixo de quem o visse.
       Depois de deixar a seu adversrio assim mutilado e desvanecido na areia ensangentada do ptio, Bonnet limpou seu ao contra a camisa do Marsden, embainhou-o 
e partiu..., no sem antes apoderar-se da bolsa do capito, que reclamou como pagamento de sua aposta original. Nenhum dos pressente teve guelra para impedir-lhe 
tendo ante eles to convincente exemplo de sua destreza.
       Relato-lhe esta histria tanto para familiariz-lo com o ltimo paradeiro conhecido do Bonnet para lhe advertir de seu carter e sua destreza. Sei que j 
est familiarizado com o primeiro, tacho e chamo a ateno sobre a ltima, pelo interesse que me merece seu bem-estar. Certamente, no espero que uma palavra de 
meu bem-intencionado conselho ache alojamento em seu peito, repleto como tem que estar de animadversos sentimentos para o homem, tacho e imploro que tenha em conta, 
quanto menos, a meno que tem feito Liston das vinculaes do Bonnet.
       Em ocasio de meu prprio encontro com o homem, este era um criminoso condenado; no acredito que aps tenha emprestado  Coroa servios que merecessem o 
perdo oficial. Se se atrever a exibir-se to abertamente no Charleston, onde poucos anos atrs escapou  corda do verdugo, diria-se que no teme por sua segurana... 
e isto s pode significar que agora desfruta do amparo de amigos poderosos. Se busca destruir ao Bonnet, deve descobri-los e cuidar-se deles.
       Continuarei minhas averiguaes a respeito e lhe notificarei imediatamente qualquer novo detalhe. Enquanto isso, conserve-se bem e dedique de vez em quando 
algum pensamento a seu bordado e estremecido amigo da Virginia. Fico, senhor, com meus melhores desejos para com sua esposa, filha e famlia,
           Seu seguro servidor,
                                                                                                             John William Grei
                                                                                       Plantao Monte Josiah, Virginia
      
      
      
      
      
       Postcriptum: A sua petio pus  busca de um astrolbio, mas at agora no 
      soube que nada que se adeque a seus propsitos. No obstante, este ms escreverei a Londres para que me mandem mveis diversos e ser um prazer encarregar 
um ao Halliburton, da rua Green, cujos instrumentos so da melhor qualidade.
      
        Com muita lentido, Brianna voltou a sentar-se na cadeira. Logo lhe tampou as orelhas a seu filho com mos suaves, mas firmes, e disse um palavro muito 
mal lhe soem.
      
           
      
      

      31
      
      rfo da tormenta
      
      
              Reclinada contra o ribazo, com a cabea do Jamie na saia, fiquei dormida. Tive sonhos lgubres, como est acostumado a acontecer quando est incmoda 
e tem frio.
              Despertei sbitamente; jazia em uma confuso de capotes e mantas, com os membros do Jamie pesadamente entrelaados a meus; uma neve fina caa entre 
os pinheiros. Desorientada durante um momento, toquei ao Jaime, que se removeu, tossindo com fora; seu ombro se estremeceu sob minha mo. Esse rudo devolveu aos 
fatos do dia anterior: Josiah e seu gmeo, a granja dos Beardsley, os fantasmas da Fanny, o fedor dos excrementos e a gangrena, o aroma mais limpo da plvora e a 
terra molhada. Os balidos das cabras ainda retumbavam desde meus sonhos. 
              Entre o sussurro da neve me chegou um grito dbil. Incorporei-me abruptamente, jogando em um lado as mantas, em uma garoa de gelo em p. No era uma 
cabra.
              Jamie, sobressaltado, rodou para sair de entre o matagal de capotes e mantas; ficou acuclillado, com o cabelo revolto; seus olhos voavam de um lado 
a outro, procurando a ameaa.
      -O que acontece?- sussurrou, afnico. E alargou a mo para sua adaga embainhada, que tinha deixado no cho, a seu alcance. Eu levantei uma mo para impedir 
que se movesse.
      -No sei. Um rudo. Escuta!
              Levantou a cabea, alerta; vi que sua garganta se movia dolorosamente ao tragar. Eu no ouvia outra coisa que o fasco da neve, nem via mais que os 
pinheiros chorreantes. Mas Jamie ouvia algo...ou o via; sua cara trocou sbitamente.
      -Ali-disse pela baixo, assinalando com a cabea algo que estava detrs de mim.
              Ao girar sobre meus joelhos me encontrei com algo que parecia um pequeno monto de trapos; estava a uns trs metros, junto s cinzas da fogueira apagada. 
O pranto se ouviu outra vez, j inconfundvel.
      -Por todos os Santos do cu.- Quase sem conscincia se ter falado, engatinhei para o vulto, recolhi-o velozmente e comecei a escavar entre as capas de roupa. 
Obviamente estava com vida, posto que eu o tinha ouvido gritar; mas jazia inerte, quase sem peso na curva de meu brao.
              A diminuta cara e o crnio imberbe eram de uma cor branca azulada, com as faces fechadas e secas como a vagem de um fruto invernal. Ao apoiar a palma 
contra o nariz e a boca percebi um leve calor mido contra a pele. Sobressaltada por meu contato, os lbios se abriram em um miado, em tanto os olhos oblquos se 
apertavam, deixando fora esse mundo ameaador.
      -Deus bendito.- Jamie se fez o sinal da cruz brevemente. Sua voz era apenas mais que um sussurro fleumtico; depois de um pigarro o tentou outra vez-. Onde 
est essa mulher?
              Espantada pela apario da criatura, eu no me tinha detido a pensar em seus orgenes; tampouco era um bom momento para faz-lo. O beb se contorsion 
um pouco em seus envoltrios, mas as manecitas estavam geladas e tinha a pele azulada e purprea pelo frio.
      -por agora deixa-a. Traz meu xale, quer, Jamie? O pobrecito est quase congelado.
              Usei a mo livre para me desatar o suti; era um dos velhos, abertos pela parte dianteira, que eu usava por comodidade quando saamos de viagem. Uma 
vez afrouxados o espartilho e a cinta da camisa, apertei  pequena criatura geada contra meus peitos nus, ainda quentes pelo sonho. Uma rajada me arrojou neve aguda 
contra a pele exposta do pescoo e os ombros. Atirei precipitadamente da camisa, cobrindo ao beb, e encurvei os ombros, estremecida. Jamie me jogou o xale por cima; 
logo envolveu a ambos com os braos, nos estreitando com ferocidade, como para que o calor de seu prprio corpo entrasse pela fora no menino.
              Calor que era considervel: estava ardendo de febre.
      -Santo Deus! Est bem?- Olhei-o; estava plido e com os olhos avermelhados, mas bastante firme.
      -Estou bem, sim. Onde est?- repetiu, com voz rouca-. A mulher.
              Obviamente se tinha ido. As cabras estavam apertadas ao casaco do ribazo; vi aparecer os chifres do Hiram entre os lombos arrepiados de suas fmeas. 
Seis pares de olhos amarelos nos observavam com interesse. Recordaram aos de meus sonhos.
              O stio onde se deitou a senhora Beardsley estava vazio; s ficavam um rastro de erva esmagada como testemunha de sua presena ali. Devia haver-se 
afastado um pouco para dar a luz, pois perto do fogo no ficavam rastros do nascimento.
      - dela?- perguntou Jamie. A congesto ainda era perceptvel em sua voz, mas o som sibilante do peito se aliviou. J era um alvio.
      -Suponho que sim. De outro modo, de onde veio?
              Repartia minha ateno entre o Jamie e o menino, que tinha comeado a mover-se contra meu ventre, com pequenos movimentos de caranguejo, mas joguei 
um olhar ao redor de nosso improvisado acampamento. Os pinheiros se erguiam sob a neve lhe sussurrem, negros e silenciosos. Se Fanny Beardsley se entrou no bosque, 
no ficava na pinaza rastro alguma que delatasse seu passo.
      -No pode estar longe-disse-. No se levou nenhum dos cavalos.
              Gideon  e Dona Cerdita seguiam juntos sob uma pcea, com as orelhas ceudamente aplanadas pelo clima, rodeados pelas nuvens de vapor de seu flego. 
Ao nos ver levantados e em movimento, Gideon deu coices e relinchou, mostrando os grandes dentes amarelos em uma impaciente exigncia de sustento.
      -Sim, velho vadio, j vou.- Jamie deixou cair os braos e deu um passo atrs, passando-os ndulos pelo nariz-. Se queria se ir em segredo no podia levar um 
cavalo. O outro teria metida animao at despertar.- Depositou uma mo suave sobre o vulto escondido sob meu xale-. Tenho que ir lhes dar de comer. Est bem o menino, 
Sassenach?
      -est-se descongelando, assegurei-lhe-. Mas deve ter fome.
              O beb comeava a mover-se mais, retorcendo-se com movimentos frouxos, como uma lombriga geada; sua boca procurava s cegas. A sensao foi chocante 
por sua familiaridade: meu mamilo saltou por reflexo e no peito vibrou a eletricidade, enquanto a boquita procurava e se agarrava a ele. Lancei um pequeno chiado 
de surpresa; Jamie arqueou uma sobrancelha.
      -N... tem fome- assegurei, colocando-me isso 
      -J o vejo Sassenach.- Jogou uma olhada s cabras, que comeavam a remover-se entre grunhidos sonolentos-. No  o nico esfomeado. Um momento, por favor.
              Da granja do Beardsley havamos trazido grandes sacos com feno seco; Jamie abriu um e pulverizou comida para os cavalos e as cabras. Logo se agachou 
para desenredar um dos capotes de entre o monto de cobertores midos e me ps isso nos ombros. Finalmente rebuscou na mochila uma taa de madeira, com a que se 
aproximou resolutamente s cabras.
              O beb estava mamando com fora, com meu mamilo bem fundo em sua boca. Isso me tranqilizou quanto  sade do menino, mas a sensao era perturbadora.
      -No  que me incomode, me acredite- disse-lhe, tratando de nos distrair a ambos-. Mas me temo que no sou sua me, compreende? Sinto muito.
              E onde diabos estava a me? Girei pouco a pouco, percorrendo a paisagem com mais ateno, mas no via rastro alguma da Fanny Beardsley, muito menos 
o motivo de seu desaparecimento... ou seu silncio.
              Que diabo podia ter acontecido? Era possvel (e evidente) que a senhora Beardsley tivesse oculto um embarao avanado baixo essa montanha de graxa 
e casaco, mas por que?
      -por que no nos disse isso,  o que me pergunto- murmurei para a cabecita do beb.
              Se o responsvel pelo desaparecimento da Fanny Beardsley tinha sido uma ou vrias pessoas, por que tinham deixado ao beb? Ou por que o haviam devolvido?
              Respirei fundo e forte para limpar o nariz; logo girei a cabea, aspirando o ar em diferentes direes. Um parto  muito sujo e eu estava familiarizada 
com seus fortes aromas. A criatura que tinha em meus braos emanava todos esses aromas, mas no se detectava rastro algum de sangue ou lquido amnitico no ventre 
gelado.
      -Muito bem- disse em voz alta, balanando-o, j que comeava a perder a quietude-. Afastou-se da fogueira para dar a luz. foi sozinha, ou algum a obrigou. 
Mas se quem a levou caiu na conta de que estava a ponto de dar a luz, por que se incomodou em te trazer de volta em vez de te conservar, te matar ou, simplesmente, 
te abandonar para que morrera? OH, perdoa, no tinha inteno de te alterar. Cala, tesouro, cala...
              O beb, que comeava a sair de seu sorvete estupor, tinha tido tempo de pensar o que outra coisa faltava em seu mundo. depois de abandonar meu peito, 
frustrado, retorcia-se e chorava com alentadora potncia. Ento retornou Jamie, com uma fumegante taa de leite de cabra e um leno moderadamente limpo. depois de 
retorc-lo at improvisar uma teta, inundou-o no leite e inseriu o tecido lhe gotejem na boca aberta do beb. Os choros cessaram imediatamente; ambos suspiramos 
de alvio.
      -Ah, assim est melhor, no? Seja, a bhalaich, seja - murmurava ele, deixando gotejar o leite.
              Estudei aquela carita diminuta, ainda plida e cerosa de graxa fetal; j no tinha a cor do giz; mamava com profunda concentrao.
      -Como pde hav-lo abandonado?- perguntei-me em voz alta-. E por que?
              Esse era o melhor argumento para explicar um seqestro: o que outra coisa podia fazer que uma flamejante me abandonasse a seu filho? Por no falar 
de afastar-se a p por um bosque s escuras, imediatamente depois de dar a luz, dolorida e torpe, com a carne ainda rasgada e sangrando... A s idia me arrancou 
uma careta e meu ventre se esticou.
              Jamie moveu a cabea, atento a seu trabalho.
      -Teria alguma razo, mas s Deus e os Santos tm que saber qual . Mas no odiava ao menino; pde hav-lo abandonado no bosque sem que ningum se inteirasse.
              Isso era certo; ela (ou alguma outra pessoa) tinha envolto ao beb com cuidado, para logo deix-lo to perto do fogo como era possvel. Queria que 
sobrevivesse... mas sem ela.
      -Crie que se foi por prpria vontade?
              Ele assentiu.
      -Aqui no estamos longe da Linha do Tratado. Puderam ser os ndios, mas se algum a levou, por que no nos capturaram tambm ?por que no mataram a todos?- 
perguntou, com lgica-. Alm disso, os ndios se teriam levado os cavalos. No, acredito que se foi por seus prprios meios. por que o fez...
              Moveu a cabea e voltou a empapar o leno.
              Devamos partir logo, antes de que a tormenta aumentasse. Mas no me parecia bem ir sem mais, sem tentar averiguar que sorte tinha deslocado Fanny 
Beardsley.
              Toda a situao parecia irreal. Era como se a mulher tivesse desaparecido por arte de bruxaria, deixando em troca a esse pequeno substituto. Recordava-me 
extraamente as lendas escocesas de meninos trocados, de bebs humanos substitudos por vergnteas de fadas. Mesmo assim no me ocorria para que queriam as fadas 
a Fanny Beardsley.
      -E nos faltam muitos quilmetros antes de poder dormir- comentei ao Jamie com um suspiro.
      -N? Ah, no, falta s uma hora para chegar ao Brownsville- assegurou-me-. Dois, possivelmente- corrigiu, jogando uma olhada ao cu-. Agora que h luz sei 
onde estamos.
              Outro sbito espasmo de tosse lhe sacudiu o corpo. Logo me entregou a taa e o leno.
      -Toma, Sassenach. Alimenta a esse pobre sgaogan enquanto eu atendo s bestas, sim?
              Sgaogan. Um menino trocado. Assim que o halo estranho e sobrenatural daquilo tambm o tinha impressionado. A mulher assegurava que via fantasmas; era 
possvel que algum deles tivesse vindo para levar-lhe Estremecida, estreitei ao beb contra mim.
      -H alguma populao prxima, alm do Brownsville? Algum lugar aonde a senhora Beardsley pudesse ir?
              Jamie negou com a cabea; tinha uma ruga entre as sobrancelhas. A neve se fundia ao tocar sua pele acalorada e lhe corria pela cara como se fossem 
lgrimas.
      -Nenhuma que eu saiba. Aceita bem o leite de cabra?
      -Como um cabrito- assegurei-lhe, e pus-se a rir.
              Embora desconcertado, ele tambm sorriu. Nesse momento necessitava humor.
      -Assim chamamos os norte-americanos aos meninos... ou os chamaremos no futuro- expliquei-. Cabritos.
              O sorriso se alargou.
      -Sim? Ento  por isso pelo que Brianna e Mackenzie chamam assim ao pequeno Jem. Eu pensava que era s uma brincadeira entre os dois.
              Apressou-se a ordenhar s outras cabras, enquanto eu seguia alimentando ao menino com essa destilao, e trouxe um cubo cheio a transbordar de leite 
quente para nosso caf da manh.
              O menino tinha deixado de mamar para urinar copiosamente: bom signo de sade geral, mas nada conveniente nesses momentos, pois tanto suas roupas como 
o peitilho de meu suti ficaram empapados.
              Jamie revolveu precipitadamente as mochilas, procurando fraldas e roupa seca. Por sorte Dona Cerdita carregava a alforja onde eu tinha panos e tiras 
de algodo para limpar e enfaixar. Agarrou um monto e se fez cargo do beb, enquanto eu iniciava a incmoda e fria tarefa de me trocar a camisa e o suti sem me 
tirar a saia, a angua e o capote.
      -P-te ponha o manto- disse, entre o tagarelo de meus dentes-, se no q-quer morrer de pneumonia.
              Ele sorriu, concentrado em seu trabalho, embora a ponta do nariz, muito vermelha, contrastava com sua cara plida.
      -Estou bem- grasnou. Logo pigarreou, impaciente, e repetiu com mais potencializa-: Bem. 
              de repente se deteve, abrindo muito os olhos pela surpresa.
      -OH!, olhe- disse, mais fico-.  uma menina.
      -Seriamente?- Ajoelhei a seu lado para olhar.
      -Bastante feia- acrescentou, inspecionando-a com ar crtico-. Menos mal que ter uma dote decente.
      -No acredito que voc fosse uma beleza quando nasceu- reprovei-. No a limparam como  devido, pobrecita. Mas o que significa isso da dote?
              Ele se encolheu de ombros, enquanto as compunha para pr diestramente um pano dobrado sob o minsculo traseiro sem mover o xale que cobria  menina.
      -Seu pai morreu e sua me desapareceu. No tem irmos com quem compartilhar. E na casa no encontrei nenhum testamento que dissesse quem devia receber a propriedade 
do Beardsley. Fica uma boa granja e bastante mercadoria, por no falar das cabras.- Olhou com um sorriso ao Hiram e a sua famlia-. Suponho que todo isso tem que 
ser dela.
      -Suponho que sim. Assim que a menina ter uma boa posio, verdade?
      -OH!, bom- resignou-se ele. E trocou de posio para proteg-la melhor do vento.
              A menina parecia s, embora bastante pequena; at com o ventre volumoso pelo leite, no era maior que uma boneca. Essa era a primeira dificuldade: 
mida como era e sem graxa que a isolasse, morreria de hipotermia em muito pouco tempo, a menos que pudssemos mant-la abrigada e alimentada.
      -No deixe que agarre frio.- Coloquei as mos nas axilas para me esquentar isso antes de toc-la.
      -No se preocupe, Sassenach. S me falta lhe limpar o traserillo e... - Interrompeu-se, com a frente enrugada-. O que  isto, Sassenach? Uma leso?  possvel 
que essa estpida a tenha deixado cair?
              Aproximei-me para observar. Ele sustentava os ps do beb com uma mo e um punhado de ataduras sujas na outra. Sobre as pequenas ndegas havia uma 
mancha azul escura, com aspecto de moretn.
              No era um moretn, mas sim explicava um pouco as coisas.
      -No est ferida. Assegurei-lhe, utilizando outro dos xales abandonados pela senhora Beardsley para proteger a cabecita imberbe-.  uma mancha monglica.
      -O que?
      -Significa que a menina  negra- expliquei-. Africana, ao menos em parte.
              Jamie piscou, sobressaltado; logo se inclinou para olhar debaixo do xale.
      -No, nada disso.  to branca como voc, Sassenach.
              Era certo. A menina era to branca que parecia no ter sangue.
      -Os meninos negros no revistam ser negros quando nascem- expliquei-lhe-. Em realidade freqentemente so muito claros. A pigmentao da pele comea a desenvolver-se 
algumas semanas depois. Mas com freqncia nascem com este leve amoratamiento da pele na base da coluna vertebral. chama-se mancha monglica.
              Ele se esfregou a cara com uma mo, piscando para desprender os flocos de neve que tratavam de posar-se o nas pestanas.
      -Compreendo- murmurou-. Pois isso explica algo, no?
              Em efeito. O defunto senhor Beardsley podia ter sido muitas coisas, mas no se podia dizer que fora negro. Essa criatura era filha de um negro. Fanny 
Beardsley sabia (ou temia) que a criatura a ponto de nascer desentupiria seu adultrio; por isso tinha acreditado melhor abandon-la e fugir antes de que se revelasse 
a verdade. Perguntei-me se esse misterioso pai tinha tido algo que ver com a sorte corrida pelo senhor Beardsley.
      -Saberia ela com certeza que o pai era negro?- Jamie tocou o pequeno lbio inferior, que agora tinha um tintura rosado-. Ou talvez no chegou a ver a menina? 
depois de tudo, deve ter nascido na escurido. Se ela tivesse visto que parecia branca, talvez teria preferido arriscar-se.
      -Talvez. Mas no o fez. Quem pde ser o pai?
              Isolada como estava a granja dos Beardsley, no parecia que Fanny tivesse tido oportunidade de conhecer muitos homens, alm de quo ndios deviam comercializar. 
Perguntei-me se os bebs ndios tinham manchas monglicas.
              Jamie jogou um triste olhar ao desolada paragem. Logo levantou a menina.
      -No sei, mas no acredito que seja difcil averigu-lo, uma vez que tenhamos chegado ao Brownsville. Vamos, Sassenach.
      
      
      
              Contra sua vontade, Jamie decidiu deixar ali as cabras, a fim de conseguir teto e sustento para a menina quanto antes.
      -Aqui estaro bem durante um momento- disse, lhes pulverizando o resto do feno-. As fmeas no abandonaro ao velho. E por agora voc no te mover daqui, 
verdade, a bhalaich?
              Arranhou ao Hiram entre os chifres como despedida, e partimos, entre um coro de balidos de protesto, pois as cabras se habituaram a nossa companhia.
              Bem agasalhada em meu grosso capote, com vrios xales debaixo e a menina sujeita contra meu ventre em um tipia improvisado, eu estava abrigada, face 
aos flocos que me roavam a cara e se aderiam a minhas pestanas. Jamie tossia de vez em quando, mas em geral o via muito melhor que antes; a necessidade de atender 
a uma emergncia havia devolvido a energia.
              A menina parecia dormir, mas no se estava quieta; estirava-se e retorcia com os movimentos lnguidos do mundo aqutico, no acostumada ainda  liberdade 
da vida fora do ventre materno.
      -Parece como se estivesse grvida, Sassenach.
              Olhei para trs. Jamie me observava com ar divertido sob a asa de seu chapu, embora me pareceu ver algo mais em sua expresso: talvez certa nostalgia.
      -Pois esta criatura me embaraa o bastante- repliquei, trocando ligeiramente de postura para permitir os movimentos de minha companheira.
              A presso desses pequenos joelhos, a cabea e os cotovelos contra meu ventre era, na verdade, perturbadoramente parecida com as sensaes do embarao; 
pouco importava que estivesse fora e no dentro.
              Como atrado pelo vulto coberto por meu manto, Jamie aulou ao Gideon para ficar a meu lado. O cavalo agitou a cabea, desejoso de adiantar-se, mas 
Jamie o conteve com um suave " Seja!"  de recriminao e o animal cedeu, bufando vapor.
      -se preocupa por ela?- perguntou Jamie, assinalando com a cabea o bosque que nos rodeava.
              No fazia falta perguntar a quem se referia. Assenti. Onde estaria Fanny Beardsley? S no bosque? Arrastando-se para morrer como uma besta ferida? 
Ou possivelmente rumo a algum refgio imaginrio, caminhando s cegas entre a folhagem geada e a neve talvez para a baa do Chesapeake e as lembranas do cu aberto, 
as largas guas e a felicidade?
              Jamie se estirou para apoiar uma mo na minha, posta sobre a menina que dormia. Percebi o frio de seus dedos sem luvas atravs do tecido que nos separava.
      -Ela escolheu, Sassenach- disse-. E nos confiou  pequena. Ocuparemo-nos de p-la a salvo.  quanto podemos fazer por essa mulher.
              Embora no podia girar a mo para estreitar a sua, assenti. Ele me apertou os dedos um momento e ficou atrs, enquanto eu olhava para nosso destino, 
piscando para me tirar das pestanas as gotas de neve fundida.
              Quando Brownville apareceu a nossa vista, quase toda a preocupao que sentia pela Fanny Beardsley tinha desaparecido ante a que me causava sua filha. 
A criatura tinha despertado e chorava, me golpeando o fgado com punhos diminutos em busca de comida.
              Jamie tinha cheia o cantil com leite de cabra, mas me pareceu melhor chegar a algum refugio antes de alimentar novamente a recm-nascida. Se havia 
ali uma me que pudesse lhe oferecer seu leite, isso seria o melhor; se no, terei que esquentar o leite de cabra; dado o frio que imperava, o leite frio podia baixar 
perigosamente a temperatura da menina.
              Dona Cerdita soprou, exalando uma grande baforada de vapor, e de repente acelerou o passo. Conhecia o aroma da civilizao... e de outros cavalos. 
Levantou a cabea com um penetrante relincho e Gideon a imitou. Quando cessou o bulcio pude ouvir as respostas alentadoras de vrios cavalos na distncia.
      -Esto aqui!- exalei, em um vaporoso arranque de alvio-. A tropa. chegaram!
      -Bom, era de esperar, Sassenach- replicou Jamie, enquanto afirmava a mo nas rdeas para evitar que Gideon se desmandasse-. Se o pequeno Roger no soubesse 
dar com uma aldeia no extremo de um caminho reta, sua inteligncia seria to duvidosa como sua vista.
              Mas ele tambm sorria.
              Depois de uma curva do caminho vi que Brownsville era uma verdadeira aldeia. Nossos cavalos avanaram a bom passo; tive que atirar com fora das rdeas 
para que Dona Cerdita no trotasse, pois teria sacudido gravemente a minha passageira. Enquanto a obrigava a partir ao passo, embora resistia, uma silhueta se separou 
do pinheiro que lhe servia de refgio e saiu ao caminho diante de ns, agitando a mo.
      -Milord- saudou Fergus, enquanto Gideon se detinha a contra gosto-. Esto bem? Temia que tivessem tropeado com alguma dificuldade.
      -Och.- Jamie assinalou vagamente o vulto sob meu capote-. Em realidade no foi uma dificuldade, s...
              Fergus observou o vulto com alguma estranheza.
      -Quelle virilit, monsieur- disse ao Jamie, em tom de profundo respeito-. Minhas congratulaes.- Meu marido lhe dedicou um olhar mordaz e a menina rompeu 
a chorar outra vez.
      -Comecemos pelo mais importante- disse-. H aqui alguma mulher que tenha um beb? Esta criatura necessita leite. Imediatamente.
              Fergus assentiu, com os olhos dilatados pela curiosidade.
      -ouis, milady. Vi dois, pelo menos.
      -Bem. me conduza at elas.
              Ele agarrou a Dona Cerdita por uma brida e partiu rumo ao assentamento.
      -O que passou?- perguntou-lhe Jamie, pigarreando.
              Em minha preocupao pelo beb no me tinha detido a pensar no que significava a presena do Fergus ali. Jamie tinha razo: se tinha sado ao caminho 
com esse tempo no era s porque lhe interessasse nosso bem-estar.
      -N... Parece que temos uma pequena dificuldade, milord.- Descritos os acontecimentos de na tarde anterior, concluiu com um galico encolhimento de ombros 
e um bufo-... de modo que monsieur Morton se refugiou entre os cavalos- disse, assinalando com a cabea o estbulo improvisado-, enquanto outros desfrutam de l'hospitalit 
do Brownsville. 
              Jamie parecia algo carrancudo; sem dvida calculava o que lhe custaria a hospitalit para mais de quarenta homens.
      -Estraguem. Quer dizer, os Brown no sabem que Morton est ali? 
              Fergus negou com a cabea.
      -Mas por que est ali?- perguntei, depois de ter sossegado momentaneamente ao beb com meu prprio peito-. Deveria ter fugido ao Granite Falls, agradecido 
de estar com vida.
      -No quer ir, milady. Diz que no pode prescindir do dinheiro.
              Justo antes de nossa partida se soube que o governador oferecia quarenta xelins por cabea, como incentivo para que se arrolassem na tropa. Era uma 
soma considervel, sobre tudo para um colono novo que se enfrentava a um mau inverno.
              Jamie se passou lentamente uma mo pela cara. Era um dilema, sim; a companhia miliciana necessitava homens e provises do Brownsville, mas Jamie no 
podia recrutar aos Brown, que imediatamente tratariam de assassinar ao Morton. Tampouco podia permitir o luxo de pagar de seu bolso ao fugitivo. Parecia sentir a 
tentao de assassin-lo com suas prprias mos, mas supus que no era uma alternativa razovel.
      -No lhe poderia persuadir para que se casasse com a moa?- sugeri delicadamente.
      -Pensei-o- disse Fergus-. Infelizmente, monsieur Morton j tem uma esposa no Granite Falls.- Moveu a cabea, que comeava a parecer uma colina nevada.
      -Mas os Brown, por que no foram detrs o Morton?- perguntou Jamie, que parecia seguir seu prprio curso de pensamentos-. Se um inimigo vier a sua terra e 
os teus esto contigo, no o deixa escapar: persegue-o at mat-lo.
              Fergus assentiu; obviamente estava familiarizado com essa variedade de lgica escocesa.
      -Acredito que essa era a inteno, mas o petit Roger os distraiu.
              Percebi uma clara nota de diverso em sua voz. Jamie tambm.
      -O que tem feito?- perguntou, cauteloso.
      -lhes cantar-. O ar divertido se acentuou-. Aconteceu-se a maior parte da noite cantando e tocando seu tambor. Toda a aldeia veio a escut-lo. H seis homens 
em idade de arrolar-se na tropa e duas mulheres avec pulsei, milady, como j lhe hei dito.
              Jamie tossiu, passou-se uma mo pelo nariz e disse:
      -Bem. Oua, a pequena deve comer e eu no posso me atrasar. Do contrrio os Brown se precavero de que Morton est aqui. v dizer lhe que irei falar com ele 
assim que me seja possvel.
              Apontou o focinho de seu cavalo para o botequim, enquanto eu aulava a Dona Cerdita para que o seguisse.
      -O que far com os Brown?- perguntei.
      -Deus!- murmurou Jamie, mais para seus adentros que para mim-. Como diabos quer que saiba?
              E tossiu outra vez.
      
      
      

      32
      
      Misso cumprida
      
              Nossa chegada com o beb causou a sensao suficiente para distrair aos habitantes do Brownsville de seus assuntos privados, fossem cotidianos ou homicidas. 
Ao ver o Jamie, uma expresso de intenso alvio cruzou pela cara do Roger, embora foi imediatamente reprimida e substituda por uma branda atitude de segurana em 
si mesmo. Baixei a cabea para dissimular um sorriso, enquanto olhava de soslaio ao Jamie, se por acaso tivesse notado essa rpida transformao. Ele evitou me olhar, 
sinal de que a tinha detectado.
      -Bem feito- disse com ar indiferente. E saudou o Roger com uma palmada no ombro, antes de girar-se para receber as saudaes dos outros homens e ser apresentado 
a nossos involuntrios anfitries.
              Roger se limitou a assentir, como se no lhe desse importncia, mas sua cara adquiriu um esplendor discreto, como se algum tivesse aceso uma vela 
em seu interior.
              A pequena senhorita Beardsley causou grande comoo; mandou-se chamar uma das mes lactantes, quem imediatamente ps aos lhe uivem beb ao peito, depois 
de me entregar em troca a seu prprio filho. Era um varo de trs meses, de temperamento plcido; olhou-me com algum desconcerto, mas se limitou a dirigir para mim 
umas quantas borbulhas de saliva, sem que parecesse opor-se  situao.
              Ato seguido houve alguma confuso, pois todos faziam perguntas e especulavam ao mesmo tempo. Mas Jamie ps fim ao bulcio relatando o acontecido na 
granja dos Beardsley, embora abreviado at o laconismo. At a jovem de olhos irritados, a quem reconheci como a inamorata do Isaiah Morton, esqueceu sua dor para 
escutar, boquiaberta.
      -Pobre pequeuela- disse, observando a recm-nascida-. Assim, ao parecer, no tem pais.
              A senhorita Brown arrojou um olhar carrancudo a seu prprio pai; possivelmente pensava que a orfandade tinha suas vantagens.
      -O que ser dela?- perguntou a senhora Brown, mais prtica.
      -Ocuparemo-nos de que receba uma boa ateno, querida. Daremo-lhe um lar seguro.- Seu marido lhe apoiou uma mo tranqilizadora no brao, ao tempo que intercambiava 
um olhar com seu irmo. 
              Jamie tambm o viu; notei que contraa a boca para dizer algo, mas logo se encolheu ligeiramente de ombros e foi falar com o Henry Gallegher e Fergus; 
seus dois dedos rgidos golpeavam brandamente contra a perna.
              A maior das senhoritas Brown se inclinou para mim, disposta a formular outra pergunta, mas o impediu uma sbita rajada de vento rtico que atravessou 
o grande salo, levantando as peles que cobriam as janelas e orvalhando o ambiente com uma perdigonada de gelo. A senhorita Brown lanou uma pequena exclamao e 
esqueceu sua curiosidade para correr a sujeitar as coberturas das janelas. Todo mundo abandonou o tema dos Beardsley e a imitou.
              O senhor Richard Brown, embora um pouco carrancudo, concedeu-nos outra noite de alojamento. Os milicianos se repartiram entre as casas e os celeiros 
da aldeia para jantar.
              Jamie foi em busca de nossas mantas e provises; alm disso se ocupou de alimentar e albergar aos cavalos. Presumivelmente aproveitaria a oportunidade 
para dialogar em privado com o Isaiah Morton, se este espreitava ainda na tempestade de neve.
              Perguntei-me que pensaria fazer com esse Romeo de montanha, mas no tive muito tempo para refletir. Como comeava a anoitecer, vi-me tragada pelo torvelinho 
de atividade que se desenvolvia em torno do lar, enquanto as mulheres se enfrentavam ao novo desafio de preparar o jantar para quarenta hspedes inesperados.
              Julieta (quer dizer, a jovem senhorita Brown) permanecia em um rinco, carrancuda e sem ajudar. Entretanto se ocupou da pequena Beardsley; a menina 
dormia j desde fazia momento, mas ela continuava balanando-a e arrulhando-a.
              Hiram tinha frio e estava cansado e faminto; como no precisava impressionar a seu harm ausente, deixou-se arranhar a cabea e as orelhas, e alimentar 
com fibras de feno. Permitiu-me que entrasse em seu curral para inspecionar o entalado. Eu tambm estava exausta e faminta, pois no tinha comido nada em todo o 
dia, salvo um pouco de leite de cabra ao amanhecer. Entre o aroma do guisado e a piscada de luzes e sombras na escurido, sentia-me enjoada e algo imaterial, como 
se flutuasse ao meio metro do cho.
      - um velho bom, verdade?- murmurei
              depois de passar a tarde em estreito contato com bebs, todos eles em diversos estdios de umidade e pranto, a companhia desse bode irascvel me resultava 
sedativo.
      -vai morrer?
              Levantei a vista, surpreendida; tinha esquecido a jovem senhorita Brown, abandonada entre as sombras de um rinco. Agora estava de p junto ao lar, 
com a menina dos Beardsley em braos, e um olhar carrancudo cravado no Hiram, que tratava de mordiscar o bordo de meu avental.
      -No- disse, enquanto lhe arrancava o tecido da boca-. No acredito.
              Como se chamava? Rebusquei em minha memria, comparando as caras e os nomes das apressadas apresentaes. Alicia, isso era. Como no disse nada mais, 
para manter o dilogo assinalei a quo pequena ela tinha em braos.
      -Como est a menina?
      -Bem- disse, inquieta. Observou  cabra um segundo mais. de repente os olhos lhe encheram de lgrimas-. Eu preferiria estar morta- disse.
      -De ver?- Isso me desconcertou-. N... pois...
              Esfreguei-me a cara com uma mo, tratando de reunir presena de nimo para me enfrentar ao que acabava de ouvir. Onde estava essa besta que a moa 
tinha por me? Joguei uma olhada  porta, mas no vinha ningum. Estvamos momentaneamente sozinhas: as mulheres ordenhavam s cabras ou preparavam o jantar; os 
homens atendiam aos animais.
              Sa do curral do Hiram para lhe apoiar uma mo no brao.
      -Escuta- disse-lhe em voz baixa-, Isaiah Morton no vale a pena. Sabia que est casado?
              Ela abriu muito os olhos. Logo os entreabriu at quase fech-los, em um sbito emanar de lgrimas. No, obviamente no sabia.
              As lgrimas corriam por suas bochechas at cair na cabea do beb. Estendi os braos e agarrei brandamente  criatura; logo, com a mo livre, conduzi-a 
para o banco.
      -CO- como se h...? Quem...?- Gorgoteaba e sorvia pelo nariz, tratando de fazer perguntas e dominar-se, tudo de uma vez. Uma voz de homem gritou algo fora. 
Ela se secou freneticamente as bochechas com a manga.
      -O que como sei? Morton o disse a um dos homens de meu marido. Sua mulher no sei quem ; s sei que vive no Granite Falls.
              Dava uns tapinhas  minsculas costas; a menina arrotou e voltou a relaxar-se, quente seu flego sob minha orelha. As mulheres a tinham lavado e lubrificado 
com azeite; cheirava quase como uma omelete recm feita. Eu mantinha um olho na porta e o outro na Alicia Brown, se por acaso houvesse outro ataque de histeria.
              Ela soluava. depois de um ltimo soluo ficou em silncio, com a vista cravada no cho.
      -Eu desejaria estar morta- sussurrou outra vez, com tal desespero que fixei os olhos nela, sobressaltada. Estava encolhida, com o cabelo murcho sob a boina 
e os punhos cruzados protectoramente sobre o ventre.
      -OH, Meu deus!- exclamei. Dada sua palidez, e as circunstncias e o modo em que tratava  menina, no era difcil tirar concluses-. Seus pais sabem?
              Olhou-me, mas no se incomodou em perguntar como o tinha descoberto.
      -Mame e minha tia sim.
              Respirava pela boca, com sorbetones intermitentes.
      -Me ocorreu que assim papai me permitiria me casar com ele.
              Eu nunca tinha pensado que a extorso fora uma base firme para o matrimnio, mas no parecia bom momento para diz-lo.
      -Hum- murmurei em troca-. E o senhor Morton, sabe?
              Ela negou com a cabea, desconsolada.
      -Tem...? Sabe voc se sua esposa tiver filhos?
      -No tenho nem idia.- Agucei o ouvido. Percebia vozes de homem na distncia, gastas pelo vento. Ela tambm. Apertou-me o brao com assombrosa fora. Nos olhos 
pardos, com as pestanas arrepiadas, havia uma expresso de obrigao.
      -Ontem  noite ouvi que o senhor MacKenzie conversava com os homens. Diziam que era curadora, senhora Fraser. A gente disse que era voc mulher de conjuros. 
Quanto aos bebs, sabe como...?
      -Vem algum.- Separei-me dela, interrompendo-a antes de que pudesse terminar-. Oua, agarra  menina. Tenho que... remover o guisado.
              Pu-lhe  pequena nos braos, sem nenhuma cerimnia, e me levantei. Quando se abriu a porta, dando passo a uma rajada de vento e neve e a um numeroso 
grupo de homens, eu estava de p ante o lar, com a colher na mo, os olhos fixos no caldeiro e minha mente borbulhando to vigorosamente como seu contedo.
              Embora ela no tivesse tido tempo para me pedir isso explicitamente, eu sabia o que estava a ponto de dizer. " Mulher de conjuros" , tinha-me chamado. 
Queria que a ajudasse a desfazer-se da criatura, quase com certeza. Como?, perguntei-me. Que mulher podia pensar algo assim com um beb palpitante nos braos, que 
ainda no levava um dia fora do ventre?
              Era lgico que estivesse afligida e procurasse freneticamente a maneira de escapar. " lhe demos um pouco de tempo para recuperar-se" , pensei, jogando 
uma olhada ao banco, onde as sombras a ocultavam. " Deveria falar com sua me, com sua tia..." 
              Jamie apareceu sbitamente a meu lado, esfregando-as mos avermelhadas sobre o fogo; a neve se fundia nas dobras de sua roupa. O via extremamente alegre, 
a pesar do resfriado, as complicaes amorosas do Isaiah Morton e a tormenta.
      -Como isso marcha, Sassenach?- perguntou com voz rouca.
              E sem aguardar resposta, tirou-me a colher e, me rodeando com um brao duro e frio me levantou em velo para me dar um quente beijo, quanto mais surpreendente 
pela neve que cobria sua barba ao meio crescer.
              Ao emergir um pouco aturdida desse estimulante abrao, ca na conta de que a atitude geral dos homens era igualmente jubilosa. Entre os uivos e os 
bramidos habituais dos homens que se sente eufricos, ouviam-se palmadas nas costas, e rudo de botas e de casacos que se tiravam.
      -O que acontece?- perguntei, surpreendida.
              Para minha estupefao, no centro da reunio descobri ao Joseph Wemyss. Tinha a ponta do nariz avermelhado de frio e os homens lhe aplaudiam as costas 
para felicit-lo, com o risco de jog-lo no cho.
              Jamie me dedicou um sorriso luminoso, brilhantes os dentes na congelada espessura da cara, e me ps na mo uma folha de papel mido, que ainda conservava 
fragmentos de lacre vermelho.
              A tinta se correu ao molhar-se, mas pude ler o mais importante. Ao saber que o general Waddell estava em marcha, os reguladores tinham decidido que 
convinha dispersar-se. E por ordem do governados Tyron, a tropa devia retirar-se.
      -OH, que bem!- exclamei.
              E rodeei com os braos ao Jamie para lhe devolver o beijo, apesar da neve e o gelo.
      
      
      
              Encantados com a notcia da retirada, os milicianos aproveitaram o mau tempo para celebr-la. Os Brown, igualmente encantados por no ter que incorporar-se 
 tropa, somaram-se  celebrao, a que contriburam com trs grandes tonis da melhor cerveja da Thomasina e vinte e cinco litros de cidra alcolica... na metade 
de seu preo.
              Quando terminou o jantar, sentei-me na esquina de um banco, com a menina dos Beardsley nos braos, mdio fundida pelo cansao; s me mantinha vertical 
o fato de que no houvesse ainda um lugar onde deitar-se.
              Alicia Brown no tinha tido mais oportunidades de falar comigo... e eu tampouco tive nenhuma de falar com sua me ou com sua tia. A moa, sentada junto 
ao curral do Hiram, alimentava-o metodicamente com cascas de po restantes do jantar; na cara lhe tinham fixado umas linhas de sombria angstia.
              A pedido geral, Roger cantava balidas francesas com voz suave e afinada. diante de mim, flutuava a cara de uma jovem, com as sobrancelhas arqueadas 
em um gesto de pergunta. Disse algo que se perdeu no falatrio das vozes; logo alargou brandamente os braos para agarrar  menina.
              Claro. chamava-se Jemima. Era a jovem me que se ofereceu a amament-la. Levantei-me para lhe deixar o stio no banco e ela a ps imediatamente ao 
peito.
              Os milicianos, felizes ante a perspectiva da iminente volta a casa, beberam-se quase tudo o que era potvel no Brownsville e se esforavam por consumir 
o que ficava. Mas a festa j comeava a dissolver-se; alguns homens se retiravam, cambaleando-se, a seus frios leitos em celeiros e estbulos; outros se enrolavam 
em mantas junto ao fogo, agradecidos.
              Vi que Jamie jogava a cabea para trs em um enorme bocejo. levantou-se, tratando de sacudir o estupor da comida e a cerveja; ento me viu junto ao 
lar. Obviamente estava to cansado como eu, se no igualmente enjoado, mas sua profunda satisfao era evidente na tranqilidade com que desperez seus largos membros.
      -vou ver como esto os cavalos- disse-me, com a voz enrouquecida pela gripe e o excesso de bate-papo-. Quer dar um passeio  luz da lua, Sassenach? 
      
      
      
              J no nevava e a lua brilhava atravs de uma bruma de nuvens que se foram desvanecendo. O ar congelava os pulmes; ainda frio e inquieto pelo fantasma 
da tormenta recente, ajudou-me a me limpar a cabea.
              Com o deleite infantil de ser primeira em marcar essa neve virginal, caminhava com cuidado, levantando bem os ps para deixar rastros ntidos; logo 
me voltava para as admirar.
      -Eu gosto de te observar, Sassenach. Sobre tudo em sociedade. Quando ri, seus dentes tm um brilho encantador- disse-me Jamie carinhosamente.
      -Adulador- respondi-lhe. Mas me sentia lisonjeada, sobre tudo considerando que levava vrios dias sem me lavar sequer a cara.
              Era uma neve seca, que se comprimia sob os ps com um leve rangido. A respirao do Jamie seguia sendo rouca e trabalhosa, mas tinha desaparecido o 
matraqueio do peito e tinha a pele fria.
      -Amanh teremos bom tempo- disse ele, levantando a vista  lua brumosa-. V o anel?
              Era difcil no v-lo: um imenso crculo de luz difusa que circundava a lua, cobrindo a totalidade do cu oriental. Atravs do resplendor se viam vagamente 
as estrelas. No curso de uma hora a noite seria luminosa e clara.
      -Sim. Isso significa que manh podemos ir a casa?
      -Sim. Suponho que voltar a haver barro outra vez. nota-se a mudana no ar; agora faz frio, mas a neve se fundir assim que quente o sol.
              Talvez, mas no momento fazia bastante frio. O refgio dos cavalos tinha sido reforado com mais ramos de pinheiro e disco; parecia uma pequena colina 
desigual que se elevasse do cho, densamente coberta de neve. Mas j apareciam algumas mancha escuras, derretidas pelo flego dos cavalos que despediam volutas de 
vapor, apenas visveis. Tudo estava em silncio, com uma evidente sensao de dormitada felicidade.
      -Se Morton estiver aqui, tem que estar cmodo- comentei.
      -No acredito. Assim que chegou Wemyss com a nota mandei ao Fergus a lhe dizer que a tropa tinha sido disolvida.
      -Sim, mas se eu fosse Isaiah Morton, no sei se teria partido diretamente a casa em meio de uma cegadora tormenta de neve- disse, dbia.
      -Acredito que o teria feito, se tivesse a todos os Brown do Brownsville te buscando com uma arma.
              Mas deteve seus passos e gritou um pouco para chamar o Isaiah, com voz rouca.
              Como do improvisado estbulo no surgisse resposta alguma, voltou a me agarrar do brao para retornar  casa. A neve j no era virginal; tinha sido 
pisoteada e revolta por muitos ps, quando os milicianos se dispersaram para suas camas. Roger j no cantava, mas ainda se ouviam vozes dentro; no todo mundo estava 
disposto a retirar-se.
              Sem muitas vontades de voltar imediatamente para essa atmosfera de fumaa e rudo, continuamos caminhando; rodeamos a casa e o estbulo, desfrutando 
da mtua cercania e do silncio nevado. Ao retornar, vi que a porta do abrigo estava entreabrida e corredor ao vento. A mostrei ao Jamie.
              Ele apareceu a cabea dentro, para verificar que tudo estivesse em ordem; logo, em vez de fechar a porta, agarrou-me do brao para me arrastar ao interior 
do abrigo.
      -antes de entrar, quero te fazer uma pergunta, Sassenach- disse.
              Tinha deixado a porta completamente aberta, de modo que a luz da lua entrava em torrentes, iluminando os presuntos pendurados, os tonis e as bolsas 
de tecido embreado que havia no abrigo. Embora dentro fazia frio, a ausncia de vento me fez entrar em calor; joguei o capuz para trs.
      -O que?- perguntei, com leve curiosidade.
      -Qu-la, Sassenach?- perguntou ele, em voz baixa. Seu rosto era um ovalide claro, esfumado pelas brumas de seu flego.
      -A quem?- perguntei, sobressaltada.
              Ele respondeu com um grunhido de diverso.
      - menina,  obvio.
               obvio.
      -Se quero ficar com ela, diz?- perguntei, precavida-. Adot-la?
              A idia no me tinha passado pela cabea mas devia estar espreitando no subconsciente, pois a pergunta no me surpreendeu. Uma vez formulada, a idia 
floresceu plenamente.
              Tinha os peitos sensveis da manh, como se estivessem cheios; senti na memria o puxo exigente da pequena. Embora eu no pudesse amament-la, Brianna 
sim, ou Marsali. E se no, podia alimentar-se de leite de vaca ou de cabra.
              de repente ca na conta de que me estava massageando brandamente um peito. Detive-me o momento, mas Jamie tinha visto o gesto e se aproximou para me 
abraar. Reclinei a bochecha contra o tecido spero e frio de sua camisa de caador.
      -Qu-la voc?- perguntei, sem saber se temia sua resposta ou se a esperava com ansiedade.
              Ele se encolheu de ombros.
      -A casa  grande, Sassenach- disse-. Bastante grande.
              No era uma declarao ressonante; entretanto eu sabia que era um compromisso, por indiferente que soasse. Ele tinha recolhido ao Fergus em um bordel 
de Paris, trs minutos depois de hav-lo conhecido. Se adotava  menina, trataria-a como a uma filha. Quanto a am-la... Ningum pode garantir o amor. Nem ele... 
nem eu.
              Jamie tinha notado meu tom dbio.
      -Vi-te com a pequena, Sassenach. Sempre  muito tenra, mas ao verte com a menina sob seu manto... te recordei grvida do Faith.
              Contive o flego. Surpreendeu-me ouvi-lo pronunciar assim o nome de nossa primognita, como se nada. Estranha vez falvamos dela; sua morte tinha ficado 
to longe no passado que s vezes me parecia irreal; entretanto, a ferida de sua perda nos tinha deixado a ambos os tremendas cicatrizes.
              Entretanto, Faith no era irreal absolutamente.
              Estava a meu lado cada vez que tocava a um beb. E essa criatura, essa rf sem nome, to pequena e frgil, com a pele to transparente que se viam 
com claridade os fios azuis das veias... Sim, os ecos do Faith eram potentes. Mesmo assim, esta no era minha filha. Mas podia s-lo; isso era o que Jamie dizia.
              Era acaso um presente para ns? Ou mas bem uma responsabilidade?
      -Crie que deveramos ficar a perguntei-lhe com cautela-. Quer dizer... o que poderia lhe passar se no?
              Jamie soprou um pouco e deixou cair o brao para apoiar-se contra a parede da casa. Logo se limpou o nariz, com a cabea inclinada para o vago murmrio 
de vozes que penetrava pelas frestas entre os lenhos.
      -Cuidaro-a bem, Sassenach. Receber uma herana, Recorda?
              Esse aspecto do assunto no me tinha ocorrido.
      -Est seguro?- duvidei-.  certo que os Beardsley desapareceram, mas como  ilegtima...
              Ele negou com a cabea.
      -No.  legtima.
      -Mas no pode ser! Embora ningum saiba ainda, salvo voc e eu, seu pai...
      -Para a lei, seu pai foi Aaron Beardsley- informou-me-. Segundo as leis inglesas, o menino nascido durante o vnculo matrimonial  filho e herdeiro legal do 
marido, at se se tem a certeza de que a me cometeu adultrio. E essa mulher disse que Beardsley se casou com ela, no?
              Notei que estava muito seguro sobre esse aspecto da lei inglesa. E compreendi (a tempo, graas a Deus, antes de dizer nada) por que estava to seguro.
              William, seu filho varo. Tinha sido concebido na Inglaterra e, por isso todo mundo ali sabia (excetuando a lorde John Grei), era supostamente o nono 
conde do Ellesmere. Por isso Jamie dizia, o condado era legalmente dele, fora ou no filho do oitavo conde. " A lei  muito estpida" , pensei.
      -Compreendo- disse lentamente-. Assim que a pequena sem nome herdar todas as posses do Beardsley, mesmo que tire o chapu que no pode ser filha dela. ... 
reconfortante.
              Ele olhou aos olhos durante um momento. Logo baixou a vista.
      -Sim- disse em voz baixa-. Reconfortante.
              Possivelmente houve em seu tom um sotaque de amargura, mas desapareceu com uma tosse e um pigarro.
      -J v que no corre perigo de que a maltratem- disse, despreocupadamente-. A Corte dos rfos entregar a propriedade do Beardsley, com cabras e tudo, a quem 
quer que seja seu tutor, para ser usada em benefcio dela.
      -E de seus tutores- disse, recordando sbitamente o olhar que Richard Brown tinha intercambiado com seu irmo antes de dizer a sua esposa que a menina seria 
" bem cuidada" . Me esfreguei o nariz, que se tinha intumescido na ponta.
      -Assim que os Brown aceitariam encantados.
      -OH, sim- afirmou-. Conheciam o Beardsley e sabem bem o que ela vale. Em realidade, apartar a deles seria delicado. Mas se a quer, Sassenach, ter-a. Prometo-lhe 
isso.
              Toda aquela conversao me estava provocando uma sensao muito estranha, um pouco parecido ao pnico. Era como se uma mo invisvel me estivesse empurrando 
para o bordo de um precipcio. Ficava por ver se era um abismo perigoso ou, simplesmente, um lugar para apoiar o p e ver um panorama mais amplo.
              Vi na lembrana a suave cabea do beb e as orelhas, finas como papel de seda, pequenas e perfeitas como conchitas, suaves redemoinhos rosados que 
se esfumavam em azulados tinturas ultraterrenos. Por ganhar um pouco de tempo para organizar meus pensamentos, perguntei:
      -por que disse que seria delicado apartar a dos Brown? No tm nenhum direito sobre ela, verdade?
      -No, mas nenhum deles matou a seu pai.
      -O que...? Ah.
              Era uma armadilha que eu no tinha tido em conta: a possibilidade de que acusassem ao Jamie de matar ao Beardsley para apoderar-se da granja e os bens 
do comerciante, mediante a adoo da rf. Traguei saliva; no fundo da garganta tinha um vago gosto a blis.
      -Mas ningum sabe como morreu Aaron Beardsley, exceto ns- assinalei.
              Jamie s tinha contado que o mercado tinha sofrido uma apoplexia, a conseqncia da qual morreu, omitindo que ele tinha sido o anjo liberador.
      -Ns e a senhora Beardsley- disse, com uma leve ironia-. E se ela retornasse e me acusasse de assassinar a sua esposa? Neg-lo seria difcil. E eu teria a 
sua filha.
              No lhe perguntei que razes podia ter para fazer algo assim; por isso j tinha feito, era bvio que Fanny Beardsley era capaz de algo.
      -No retornar- disse.
              face s dvidas que todo me inspirava, disso estava segura. Fanny Beardsley se foi para sempre.
      -At se o fizesse- prossegui, apartando minha viso da neve caindo em um bosque deserto e um vulto envolto junto  fogueira apagada-. Eu estive ali. Poderia 
declarar o que aconteceu.
      -Se lhe permitissem isso- assinalou ele-. E no o faro.  uma mulher casada, Sassenach; no pode emprestar testemunho ante um tribunal, embora no fosse minha 
mulher.
              Isso me deteve em seco. Ao viver em stios to apartados, estranha vez me tropeava com a mais revoltante das injustias legais da poca, mas conhecia 
algumas. Jamie tinha razo. De fato, por estar casada, eu no tinha nenhum direito legal. E o irnico era que Fanny Beardsley sim os tinha, posto que era viva. 
Ela poderia atestar ante um tribunal, se assim o desejava.
      -meu deus!- disse com muito sentimento.
              Jamie riu pelo baixo. Logo tossiu.
              Lancei um bufo e uma satisfatria exploso de vapor branco. Nesses momentos me teria gostado de ser um drago; teria sido um grande prazer lanar chamas 
e enxofre contra vrias pessoas, comeando pela Fanny Beardsley. Em troca suspirei; meu inofensivo flego branco se desvaneceu na penumbra do abrigo.
      -Agora compreendo por que disse que seria delicado- murmurei.
      -Mas no impossvel.- Acariciou-me a bochecha com uma mo grande e fria. Seus olhos procuraram meus, escuros e apaixonados-. Se quiser a essa menina, Claire, 
receberei-a. J enfrentaremos ao que sobrevenha.
              Se eu a queria. Senti o peso leve da menina dormida contra meu peito. Tinha esquecido a embriaguez da maternidade; tinha afastado a lembrana da exaltao, 
o esgotamento, o pnico, o deleite. Mas a proximidade do Germain, Jemmy e Joan me recordavam isso vividamente.
      -Uma ltima pergunta- disse. Agarrei-lhe a mo e entrelacei seus dedos com meus-. O pai da pequena no era branco. Que conseqncias poderia ter isso para 
ela?
              Eu sabia quais seriam as conseqncias na cidade de Boston de 1960, mas estvamos em um stio muito diferente; embora em alguns aspectos esta sociedade 
era mais rgida e oficialmente menos esclarecida, em outros era, extraamente, muito mais tolerante.
              Jamie refletiu atentamente; os dedos rgidos da mo direita marcavam um silencioso ritmo de contemplao em um barril de porco salgado.
      -Acredito que no haver problemas- disse ao fim-. No  possvel que a faam pulseira. At se se pudesse provar que seu pai foi um escravo (e no h prova 
alguma) todo menino recebe a condio de sua me. O menino nascido de mulher livre  livre; o menino nascido de pulseira  escravo. E essa horrvel mulher no era 
pulseira.
      -Oficialmente no, ao menos- disse, pensando nas marcas da porta-. Mas alm da escravido?
              Jamie se ergueu com um suspiro.
      -Acredito que no, aqui no.  possvel que nisso Charleston tivesse importncia, sobre tudo se ela alternasse em sociedade. Mas em lugares apartados...
              Encolheu-se de ombros. Em realidade, como se encontravam a to pouca distncia da Linha do Tratado havia muitos meninos mestios. No era nada estranho 
que os habitantes se casassem com mulheres cherokees. No campo, os meninos nascidos de relaes entre brancos e negros eram menos freqente, mas na costa tambm 
abundavam. Embora a maioria fossem escravos, ali estavam.
              E a pequena senhorita Beardsley no alternaria em sociedade se  que a deixvamos com os Brown. Ali suas possveis riquezas importariam muito mais 
que a cor de sua pele. Se vivia conosco talvez fora diferente, pois Jamie era um senhor e o seria sempre, quaisquer fossem seus ganhos.
      -Essa no foi minha ltima pergunta- disse. Apoiei uma mo sobre a sua, fria contra minha bochecha-. A ltima : por que me sugere isso?
      -N... pois me ocorreu...- Apartou a vista-. O que me disse quando retornamos a casa da congregao. Que poderia ter escolhido a esterilidade segura, mas no 
o fez por mim. Pensei...
              Interrompeu-se outra vez para esfregar a ponte do nariz com um ndulo da mo livre. Logo aspirou fundo.
      -Por mim- disse com firmeza, dirigindo-se ao ar como se fora um tribunal-. No quero que tenha outro filho, Sassenach. No me arriscaria a te perder- disse, 
com voz sbitamente rouca-. Nem por dez meninos. Tenho filhos, sobrinhos e netos. So suficientes.- Falava com suavidade, me olhando aos olhos-. Mas no tenho mais 
vida que voc, Claire.
              depois de tragar saliva audiblemente continuou, com os olhos fixos em meus.
      -Entretanto... pensei que se desejava outro filho... talvez pudesse te dar um.
              As lgrimas me empanaram os olhos. Fazia frio no abrigo e tnhamos os dedos rgidos. Girei minha mo na sua para estreit-la com fora. Enquanto ele 
falava minha mente imaginava possibilidades, dificuldades, bnes. No precisava pensar mais, pois a deciso se tomou por si s. Uma criatura era uma tentao da 
carne e do esprito. Eu conhecia a bem-aventurana dessa ilimitada unidade, assim como a alegria agridoce de ver que essa unidade se esfumava segundo o filho tirava 
o chapu a si mesmo e procurava distncia.
              Mas tinha cruzado alguma linha sutil. J porque tinha nascido com alguma cota secreta incorporada a minha carne, j porque sentia que agora devia lealdade 
total a outra pessoa, soube. Como me gozava a ligeireza do esforo realizado, da honra satisfeita. Da misso cumprida.
              Recostei a frente contra seu peito.
      -No. Disse-lhe brandamente ao tecido escuro que lhe cobria o corao-. Mas te amo, Jamie. 
      
      
      
              Passamos um momento abraados, escutando o rumor de vozes atravs da parede que separava a casa do abrigo, mas calados e contentes com essa paz. Estvamos 
muito exaustos para fazer o esforo de entrar e no queramos abandonar a tranqilidade de nosso tosco refgio.
      -Logo ter que entrar- murmurei ao fim-. De outro modo cairemos aqui mesmo e pela manh nos encontrassem com os presuntos.
              Um vago zumbido de risada lhe correu pelo peito, mas antes de que pudesse responder uma sombra caiu sobre ns. Algum estava de p no vo da porta, 
bloqueando o claro de lua.
              Jamie levantou bruscamente a cabea e esticou as mos contra meus ombros, mas logo deixou escapar o flego e afrouxou sua presso; ento pude dar um 
passo atrs e me voltar.
      -Morton- disse meu marido, em tom de larga pacincia-. No nome de Cristo, o que faz aqui?
              Isaiah Morton no tinha pinta de audaz sedutor; claro que tudo  questo de gostos. Era algo mais baixo que eu, mas largo de ombros, com torso de tonel 
e pernas um pouco curvadas. Isso sim, tinha uns olhos muito bonitos e um bom arbusto de cabelo encaracolado, embora na penumbra do abrigo no pude distinguir sua 
cor. Calculei que teria uns vinte e dois anos.
      -Meu coronel- disse em um sussurro-. Senhora.- Dedicou-me uma breve reverencia-. No era minha inteno assust-la, senhora. Mas ouvi a voz do coronel e me 
pareceu melhor aproveitar a oportunidade, por assim diz-lo.
      -Por assim diz-lo- repetiu.
      -Sim, senhor. No sabia como fazer para que Ally sasse; estava rodeando a casa uma vez mais quando a escutei conversar com sua senhora.
              Fez-me outra reverncia, como por reflexo.
      -Morton- repetiu Jamie brandamente, mas com um pouco de ao na voz-, por que no te foste? No te disse Fergus que a tropa se desfeito?
      -OH, sim que me disse isso, senhor.- Esta vez se inclinou ante o Jamie, algo nervoso-. Mas no podia partir sem ver o Ally, senhor.
              Pigarreei. Meu marido, com um suspiro, fez-me um sinal afirmativa.
      -N... Temo que a senhorita Brown j sabe o de seu compromisso anterior- disse delicadamente.
      -N?- Isaiah pareceu no compreender. Jamie lanou uma exclamao irritada.
      -Quer dizer: a moa se inteirou de que j tem esposa- disse, brusco-. E se seu pai no te mata de um balao assim que te veja,  possvel que ela lhe chave 
uma adaga no corao. E se nenhum dos dois tem xito- prosseguiu, erguendo-se em toda sua ameaadora estatura-, sinto-me inclinado a me ocupar disso eu mesmo, a 
emano poda. Que classe de homem se correia com uma moa e a deixa grvida, se no ter direito a lhe dar seu sobrenome?
              At com to pouca luz foi evidente que Morton empalidecia.
      -Grvida?
      -Assim - assegurei framente.
      -Assim - repetiu Jamie-. E agora, pequeno bgamo, ser melhor que v antes de que...
              Interrompeu-se abruptamente, pois Isaiah tirou de debaixo do capote uma pistola. Ao estar to perto, vi que estava carregada e martelada.
      -Sinto-o muitssimo, senhor- disse em tom de desculpa. E se umedeceu os lbios, nos olhando a ambos-. No quereria lhe fazer nenhum dano, senhor, e muito menos 
a sua senhora. Mas ver, preciso ver o Ally.
              Suas faces gordinhas se afirmaram um pouco, embora seus lbios pareciam inclinados a tremer. Mesmo assim apontava ao Jamie com deciso.
      -Senhora- disse-me-, se fosse voc to amvel, quereria entrar na casa e fazer que Ally saia? Ns... o coronel e eu esperaremos aqui.
              Eu no tinha tido tempo de sentir medo. E ainda no o tinha, embora estava muda de estupefao. Jamie fechou os olhos um instante, como pedindo fortalece. 
Logo os abriu com um suspiro; seu flego foi uma nuvem branca no ar frio.
      -Baixa isso, idiota- disse, quase com amabilidade-. Bem sabe que no vais disparar me. E eu tambm sei.
              Isaiah apertou de uma vez os lbios e o dedo que apoiava no gatilho. Eu contive o flego. Jamie continuava olhando-o, com uma mescla de censura e piedade. 
Por fim o dedo se afrouxou e o canho da pistola apontou para baixo, junto com os olhos do Isaiah.
      - que preciso ver o Ally, coronel- disse brandamente.
              Aspirei fundo e olhei ao Jamie. depois de uma breve vacilao, ele assentiu.
      -Est bem, Sassenach. Sei ardilosa, n?
              Fiz um gesto afirmativo e me voltei para entrar subrepticiamente na casa, enquanto Jamie murmurava algo em galico a minhas costas; o sentido geral 
era que esse homem tinha perdido a cabea. Eu no podia assegurar o contrrio, embora tambm tinha percebido a fora de sua petio. Mas se por acaso algum dos Brown 
descobria o encontro, o preo seria muito caro... e no seria Morton o nico que o pagaria.
              depois de cruzar o salo, pisando com cuidado entre os corpos tendidos, joguei uma olhada  cama posta contra a parede. Richard Brown e sua esposa 
dormiam profundamente nela.
              S havia um stio onde Alicia Brown podia estar; abri to silenciosamente como pude a porta que conduzia  escada do desvo. Ao parecer, um dos homens 
tratava de que Hiram bebesse da jarra, e o estava obtendo.
              Em contraste com a habitao de abaixo, no desvo fazia bastante frio. Isto se devia a que o ventanuco estava aberto; tinha entrado um monto de neve, 
junto com um vento glacial. Vi a Alicia Brown debaixo da janela, tendida no pequeno montculo de neve, completamente nua.
              Aproximei-me para olh-la. Jazia de costas, rgida e com os braos cruzados contra o peito, tremendo. Tinha os olhos fechados, franzidos em feroz concentrao. 
Obviamente, os rudos de abaixo no lhe tinham permitido ouvir minhas pegadas.
      -No nome de Deus, o que faz?- perguntei cortesmente.
              Ela abriu os olhos com um pequeno chiado, que afogou com a mo. Logo se sentou abruptamente, com a vista cravada em mim.
      -Sei de muitas maneiras originais de provocar o aborto- disse, enquanto agarrava um edredom para tornar-lhe sobre os ombros-, mas morrer congelada no serve.
      -Se m-morro no terei que ab-abortar- disse, com certa lgica. Mesmo assim se ateu o edredom aos ombros, com um toco castanholas de dentes.
      -Tampouco  o melhor meio de suicidarse, sem nimo de criticar. De qualquer modo, deixa-o para outro momento. O senhor Morton est no abrigo e se nega a partir 
para menos que voc baixe a falar com ele. Ser melhor que te levante e ponha algo.
              Ela abriu muito os olhos e ficou de p; tinha os msculos to rgidos do frio que se cambaleou torpemente. Se algum reparava nela, ao v-la s daria 
por sentado que ia a letrina. nos ver juntas, em troca, podia provocar algum comentrio.
              J s no desvo s escuras, rodeei-me o capote para esperar junto ao ventanuco os minutos necessrios antes de baixar tambm. Ouvi o suave golpe da 
porta ao fechar-se, mas desde esse ngulo no via a Alicia. A julgar pela maneira em que tinha respondido a minha convocatria, no tinha intenes de apunhalar 
ao Isaiah no corao, mas s Deus sabia o que pensavam fazer esses dois.
              Movi-me abruptamente, arranco de minha abstrao por um repentino movimento, ali abaixo. Silenciosas como renas em fuga, duas silhuetas na sombra corriam 
da mo atravs do campo nevado; os capotes os envolviam como nuvens. Vacilaram um momento junto ao refgio dos cavalos; logo desapareceram no interior.
              Inclinei-me sobre o batente, sem emprestar ateno aos cristais de  neve em que apoiava as Palmas. No ar limpo me chegou claramente o rudo dos cavalos 
ao despertar: breves relinchos e tamborilar de cascos. O bulcio de abaixo se feito mais leve; um claro e potente " B-n-n"  subiu pelas pranchas do cho, como 
se Hiram percebesse o desassossego dos cavalos.
              Onde estava Jamie? Apareci, com o vento me inflando o capuz e arrojando uma garoa de gelo contra minha bochecha.
              Ali estava: uma silhueta alta e escura que cruzava a neve para o refgio; mas caminhava com lentido, levantando nuvens de gelo em p. Que...? Ento 
ca na conta de que seguia os rastros dos amantes, as pisoteando deliberadamente para apagar toda pista que pudesse contar tudo com claridade a quem queria rastre-los.
              de repente apareceu um buraco no refgio: uma parte da parede levantada com ramos caiu a terra. Nuvens de vapor rodaram pelo ar. Logo emergiu um cavalo 
carregado com dois cavaleiros; partiu para o oeste, urgido do passo ao trote, logo ao trote comprido. A neve no era profunda: apenas oito, dez centmetros. Os cascos 
do animal deixaram um ntido rastro escuro caminho abaixo.
              Do refgio saiu um relincho penetrante, seguido por outro. De abaixo me chegaram exclamaes de alarme, rudos de pegadas e golpes secos: os homens 
abandonavam suas mantas e agarravam suas armas. Jamie tinha desaparecido.
              De imediata os cavalos saram violentamente do refgio, depois de derrubar a parede, pisoteando os ramos quedas. A bufos, relinchos, patadas e trancos, 
lanaram-se ao caminho em um caos de crinas ao ar e olhos exagerados. O ltimo saltou do refgio para unir-se aos fugitivos, agitando a cauda para apartar a vara 
que aoitava sua garupa.
              Jamie arrojou longe essa vara e voltou para interior, justo no instante em que as portas da casa se abriam de par em par, vertendo sobre a cena uma 
plida luz de ouro.
              Aproveitei a comoo para baixar correndo, sem que ningum me visse. Todo mundo estava fora, at a senhora Brown, com gorro de dormir e tudo. Hiram 
se bamboleava; quando passei baliu de uma forma bria, com forte aroma de cerveja, midos e protuberantes de cordialidade os olhos amarelos.
              Fora, na estrada, homens ao meio vestir corriam de um lado a outro e agitavam os braos. Em meio dessa multido distingui ao Jamie, que era o que mais 
gesticulava. Entre as perguntas e os comentrios nervosos, ouvi alguns fragmentos: " ... enfeitiados" , " ... jaguar?" , " ... do demnio!"  e coisas parecidas.
              depois de algumas voltas e discusses incoerentes, decidiu-se por unanimidade que os cavalos retornariam por si s. Muitos deles estavam maneados e 
no poderiam chegar muito longe; alm disso, a neve se desprendia das rvores em vus de gelo formado redemoinhos; fazia frio, o vento introduzia seus dedos gelados 
por qualquer abertura da roupa.
      -Ficariam fora em uma noite assim?- inquiriu Roger, muito razovel.
              Decidiu-se que ningum em seu so julgamento o faria. E como os cavalos so, se no pessoas cordas, ao menos bestas sensatas, o grupo voltou para interior 
da casa, entre rezongos e estremecimentos, j perdido o calor do entusiasmo.
              Entre os ltimos estava Jamie, que se voltou para a casa e me viu de p no alpendre. Tinha o cabelo solto e a luz que saa pela porta lhe iluminava 
como uma tocha. Buscou-me os olhos e ps os seus em branco, com um imperceptvel encolhimento de ombros.
              Levei-me os dedos aos lbios frios para lhe enviar um pequeno beijo gelado.
      
      
      QUARTA PARTE
      
      No ouo mais msica
      que o bater dos tambores
      
      33
      
      Em casa por Natal
      
              O que teria feito voc?- perguntou Brianna. E se girou com cuidado na estreita cama do senhor Wemyss, para apoiar o queixo no ombro do Roger,  e estar 
mais cmoda.
      -O que teria feito com respeito ao que?- Sem frio pela primeira vez em vrias semanas, satisfeito depois de uma boa comida da senhora Bug e de ter alcanado 
por fim o nirvana depois de uma hora de intimidade com sua esposa, Roger se sentia gratamente dormitado e alheio a tudo.
      -Com respeito ao Isaiah Morton e Alicia Brown. 
              Ele bocejou at quase desconjunt-la mandbula e se acomodou melhor; o colcho de barbas de milho sussurrou sonoramente. O que acabavam de fazer devia 
haver-se ouvido em toda a casa, mas em realidade no lhe importava. Em sua honra, Bree se tinha lavado o cabelo, que caa em ondas sobre seu peito, com um brilho 
sedoso a luz mortia do lar. Ainda no tinha anoitecido, mas as persianas fechadas brindavam a agradvel iluso de estar dentro de uma pequena cova.
      -No sei. Quo mesmo seu pai, suponho. O que outra coisa se podia fazer? Seu cabelo cheira de maravilha.- Alisou um cacho com seu dedo para admirar o brilho.
      -Obrigado. usei isso que prepara mame, com azeite de noz e malmequer. Mas o que me diz da pobre algema que Morton tinha no Granite Falls? 
      -O que posso te dizer dela? Jamie no podia obrig-lo a reunir-se com ela... at caso que ela queria receb-lo- acrescentou, com lgica-. Quanto  moa, Alicia, 
estava mais que disposta. Seu pai no podia apregoar que Morton ia fugir se com ela, a no ser que o quisesse morto. Se os Brown o tivessem descoberto ali, o teriam 
matado no ato para cravar sua pele na porta do celeiro.
              Disse-o com segurana, pois recordava as pistolas com que o tinham recebido no Brownsville. afundou-se de novo no travesseiro.
      -Acredito que, dadas as circunstncias, o melhor foi brindar aos jovens amantes a oportunidade de ficar a salvo- disse-. E assim o fizeram.
              Brianna suspirou, lhe arrepiando gratamente o plo do peito com seu flego. Logo levantou a cabea olhando com interesse.
      -O que acontece? Ainda tenho algo sujo?- Roger se tinha lavado, mas depressa, desejoso de comer e mais ainda de ir  cama.
      -No, mas eu gosto quando te pe a pele de galinha. Te arrepia todo o cabelo do peito. E os bicos da mamadeira, tambm.
              Tocou ligeiramente com a unha um dos objetos em questo; para seu contente, outra quebra de onda de erizamiento cruzou o peito do Roger. Ele arqueou 
um poquito as costas e voltou a relaxar-se. No: logo teria que baixar a atender as tarefas vespertinas; j tinha ouvido sair ao Jamie.
              Era hora de trocar de tema. Aspirou fundo e levantou a cabea do travesseiro, farejando com interesse o rico aroma que se filtrava da cozinha, entre 
as pranchas do cho.
      -O que esto cozinhando?
      -Ganso. Vrios. Uma dzia.
      -Que manjar- disse, enquanto deslizava lentamente uma mo por suas costas; o fino plo dourado que a cobria era invisvel, salvo quando as velas a iluminavam 
desde atrs, como nesse momento-. O que celebramos? Nossa volta?
              Bree apartou a cabea de seu peito e lhe cravou o que ele, em privado, denominava Um Olhar.
      -O Natal- disse.
      -O que?- Roger, atnito, tratou de calcular os dias, mas os acontecimentos dessas trs semanas tinham apagado por completo seu calendrio mental-. Quando?
      -Amanh, idiota- replicou ela, com exagerada pacincia.
              depois de lhe fazer algo impronunciablemente ertico a seu bico da mamadeira, incorporou-se com um sussurro de cobertores, deixando-o privado da bendita 
calidez e exposto s glidas correntes de ar.
      -No viu ao entrar os ramos verdes que h abaixo? Lizzie e eu mandamos aos pequenos monstros dos Chisholm em busca de ramos de pinheiro; levamos trs dias 
fazendo grinaldas.
              As palavras soavam um pouco apagadas, pois se estava pondo a camisa mas lhe pareceu que o tom no era de aborrecimento, mas sim de incredulidade. Oxal.
      -Ao entrar s vi a ti.
              Era verdade, e ao parecer o melhor era a franqueza, pois ela tirou a cabea pelo pescoo da camisa e lhe cravou um olhar intenso, que se transformou 
em lento sorriso ao ver a evidente sinceridade estampadas em suas faces.
              Aproximou-se da cama para rode-lo com seus braos, lhe envolvendo a cabea em uma nuvem de malmequeres e um linho suave como a manteiga e... leite. 
Ah, claro. O menino teria que comer muito em breve. Resignado, apoiou os braos na curva desses quadris e descansou a cabea entre seus peitos; esses breves momentos 
eram sua parca rao de tanta abundncia.
      -Perdoa- disse, afogando as palavras em seu calidez-. Tinha-o esquecido por completo. Deveria ter trazido algo para ti e para o Jem.
      -Que por exemplo? Uma parte de pele do Isaiah Morton? 
              Entre risadas, endireitou-se para arrumar o cabelo. Tinha posto o bracelete que lhe tinha agradvel outra Vspera de natal; ao levantar o brao, a 
luz do lar arrancou brilhos da prata.
      -Sim. Para fazer com ele a coberta de um livro. Ou um par de botitas para o Jem.
              O rodeio tinha sido larga; homens e animais desdenhavam o cansao, desejosos de chegar a casa. Ele estava exausto; o melhor presente que poderiam lhe 
fazer seria voltar para a cama com ela, apertar-se a seu calor e deixar-se levar para as acolhedoras a Honduras do sonho profundo e as fantasias amorosas. Mas o 
dever o chamava. incorporou-se com uma piscada e um bocejo.
      -Os gansos so ento para o jantar de esta noite?- perguntou. Em algum lugar devia ter uma camisa limpa, mas, como os Chisholm ocupavam sua cabana, e Bree 
e Jem se alojaram provisoriamente no dormitrio dos Wemyss, ele no sabia onde estavam suas coisas. De qualquer modo, no tinha sentido ficar algo limpo s para 
ir trabalhar ao estbulo e alimentar aos cavalos. barbearia-se e se trocaria antes de jantar.
      -A senhora Bug est assando fora meio porco para a comida de amanh. Ontem, eu cacei esses gansos e ela decidiu aproveitar e cozinh-los tambm. Espervamos 
que vs retornassem a tempo.
              Ele a olhou  ao detectar outra vez esse tom estranho em sua voz.
      -Voc no gosta do ganso?- perguntou-
              Bree o olhou com expresso estranha.
      -Nunca o provei. Oua Roger...
      -Sim? 
      -estive pensando... Queria te perguntar se sabia...
      -Se souber o que?
              Ele se movia com lentido, ainda envolto em uma grata bruma de esgotamento e amor. Bree se tinha posto o vestido; j tinha o cabelo escovado e pulcramente 
recolhido em um grosso coque sobre a nuca; enquanto que s lhe tinha dado tempo a procurar suas meias trs-quartos e suas calas. Sacudiu-os distradamente e uma 
chuva de fragmentos de barro seco repicou no cho.
      -No faa isso! O que te passa?- Avermelhada por um sbito chateio, lhe arrebatou as calas e apareceu  janela para sacudi-los violentamente do batente. Logo 
os atirou e Roger teve que lanar-se para apanh-los.
      -N! Que inseto te picou?
      -Inseto? Suja-o tudo e me pergunta que inseto me picou?
      -Perdoa, no me dava conta... 
              Ela grunhiu. No foi um grunhido muito potente, mas sim ameaador. Gravado por um reflexo masculino profundamente gravado, Roger colocou uma perna 
dentro das calas. Passasse o que acontecesse, preferia enfrentar-se a isso com a roupa posta. Os subiu a puxes, falando depressa.
      -Oua, lamento ter esquecido o Natal.  que... Tinha coisas importantes que atender; perdi a conta. J o arrumarei. Possivelmente quando formos ao Cross Creek 
para as bodas de sua tia...
      -Ao diabo com o Natal!
      -O que- Ele se deteve, com as calas ao meio abotoar. O crepsculo de inverno obscurecia a habitao, mas inclusive  luz das velas pde ver a cor que acendia 
a cara da Brianna. 
      -Ao diabo com o Natal, ao diabo com o Cross Creek! E voc, joder, vete tambm ao diabo!- Ela sublinhou isto ltimo lhe arrojando uma saboneteira que passou 
zumbindo junto a sua orelha esquerda e se estrelou contra a parede de detrs.
      -Espera um minuto, joder!
      -E no seja desbocado!
      -Mas se voc...
      -Voc e suas " coisas importantes" !- A mo do Bree se fechou sobre a bacia de porcelana. Roger se preparou para esquiv-la, mas ela o pensou melhor e baixou 
a mo-. Passei-me um ms inteiro aqui, colocada at as orelhas em roupa suja, fraldas cagados, mulheres gritonas e meninos horrveis, enquanto voc fazia " suas 
coisas importante" ! E agora chega talher de barro e me suja isso tudo sem te precaver sequer de quo limpo o tinha deixado! Tem idia do que costa esfregar chos 
de pinheiro te arrastando de mos e joelhos? E com sabo de leja!
              Agitou as mos  um gesto de acusao, mas ele no teve tempo de ver se estavam cobertas de chagas, podres at as bonecas ou simplesmente avermelhadas.
      -E nem sequer pergunta por seu filho, que j aprendeu a engatinhar! Eu lhe queria ensinar isso mas voc s pensava em ir  cama! E nem te incomodaste em te 
raspar antes!
              Roger tinha a sensao de ter cansado entre os sinais de multiplicao de um enorme ventilador que girasse a grande velocidade. arranhou-se a curta 
barba com ar culpado.
      -Eu... n... supus que quereria...
      -E queria!- Ela descarregou o p contra o cho, levantando uma pequena nuvem de p, proveniente do barro seco desintegrado-. Isso no tem nada que ver contigo!
      -De acordo.- Ele se agachou para recuperar a camisa, sem deixar de vigi-la com um olho precavido-. De modo que... te zangaste porque no me precavi de que 
tinha esfregado o cho.  isso?
      -No!
      -No- repetiu ele. Aspirou fundo e o tentou outra vez-. Pois tem que ser porque me esqueci do Natal.
      -No!
      -Zangaste-te porque quis te fazer o amor, em que pese a que voc tambm queria faz-lo?
      -Nooo! por que no te cala?
              Roger sentiu a forte tentao de acessar a essa petio, mas teimada necessidade de chegar ao fundo das coisas o obrigou a insistir.
      - que no compreendo por que...
      -J sei que no compreende! A est o problema!
              Bree girou sobre seus ps descalos e foi revolver no arca posto junto  janela, entre grunhidos e bufos. Seu marido abriu a boca, fechou-a outra vez 
e ficou a camisa suja pela cabea. sentia-se de uma vez irritado e culpado; m combinao. Terminou de vestir-se em um clima carregado de silncio, enquanto analisava 
e rechaava possveis comentrios e perguntas, dando-se conta de que todos podiam inflamar ainda mais a situao.
              Ela tinha encontrado suas meias; depois de ficar as se ajustou as ligas com pequenos movimentos bruscos, e afundou os ps em um par de tamancos velhos.
              Roger se aproximou dela por detrs, com lentido, e lhe apoiou as mos nos ombros. Como ela no se girou para lhe pisar um p ou lhe cravar o joelho 
na entrepierna, arriscou-se a lhe dar um beijo ligeiro na nuca.
      -foste dizer me algo sobre os gansos.
              Bree aspirou fundo e deixou escapar o ar em um suspiro, apoiando-se ligeiramente nele. Sua clera parecia haver desparecido to de sbito como se apresentou, 
o qual causou no Roger uma desconcertada gratido. Rodeou-lhe a cintura com os braos para estreit-la contra si.
      -Ontem- disse ela- a senhora Abernathy queimou as bolachas do caf da manh.
      -Sim?
      -A senhora Bug a acusou de estar muito embevecida com os laos de sua filha para emprestar ateno ao que fazia. E acrescentou que a quem lhe ocorria pr amoras 
nas bolachas de manteiga.
      -O que tm de mau as amoras nas bolachas de manteiga?
      -No tenho nem idia, mas a senhora Bug diz que no se deve mesclar. Logo Billy Macleod caiu pela escada. E no podamos encontrar a sua me. ficou-se entupida 
na letrina e ...
      -Como?
              A senhora Macleod era baixa e bastante fornida, mas estava muito bem definida pela cara posterior: seu traseiro parecia um par de balas de canho dentro 
de um saco. Era muito fcil imaginar o acidente em questo. Roger sentiu que a risada lhe borbulhava no peito e fez um viril esforo por sufoc-la, mas lhe brotou 
pelo nariz, em um doloroso bufo.
      -Fazemos mal em rir. Lhe cravaram as lascas.- Apesar de se aborrecimento, Brianna tambm se estremecia contra ele, com a voz quebrada por tremores de regozijo.
      -Santo cu. E logo?
      -Billy chorava a gritos. No tinha nada quebrado, mas sim um forte golpe na cabea. A senhora Bug saiu da cozinha blandiendo a vassoura, convencida da nos 
atacavam os ndios. A senhora Chisholm foi em busca da me do menino e comeou a chiar da letrina e..., em meio de tudo, passam os gansos; ento, a senhora Bug olhe 
para cima com os olhos saltados e grita: " Gansos!" , em voz to alta que todo mundo deixou de chiar. Logo correu em busca da escopeta de papai e me trouxe isso.
              A narrao a tinha acalmado um pouco. reclinou-se contra ele, com um bufo de risada.
      -Eu estava to furiosa que tinha vontades de matar a algum. E os gansos eram um monto. Os ouvia grasnar por todo o cu.
              Todo mundo correu a v-los: os selvagens dos meninos Chisholm com dois de seus ces, mdio selvagens tambm,  brincavam de correr entre as rvores 
com exclamaes e latidos de entusiasmo, em busca das presas quedas, enquanto Brianna disparava e voltava a carregar to depressa como lhe era possvel.
      -Um dos ces cobrou um. Toby tratou de tirar-lhe e o co lhe mordeu. E o menino corria por todo o ptio, gritando que lhe tinha arrancado o dedo. Estava talher 
de sangue, mas ningum podia agarr-lo para ver o que lhe passava. E mame ausente, e a senhora Chisholm abaixo, junto ao arroio, com os gmeos...
              Estava-se pondo tensa outra vez. Ele notou que voltava a subir a sangre  cabea, lhe avermelhando o pescoo, e a estreitou pela cintura.
      -Mas o co lhe tinha arrancado o dedo ou no?
              Brianna aspirou profundamente. Logo se voltou a olh-lo; sua cara tinha perdido um pouco a cor.
      -No. Nem sequer estava ferido. O sangue pertencia ao ganso.
      -Pois ento o tem feito muito bem, no? A despensa enche, nem um dedo perdido... e a casa em p.
              Havia-o dito em brincadeira mas lhe surpreendeu que ela deixasse escapar um suspiro e parte de sua tenso.
      -Sim- disse, com uma nota de inegvel satisfao na voz-. Fiz-o bem. Estamos todos inteiros e bem alimentados. Com um mnimo derramamento de sangue.
      -Bom, o que se diz sobre as omeletes e os ovos  certo, no?- Roger se inclinou para lhe dar um beijo, mas se lembrou da barba-. OH, perdoa. irei barbear me, 
quer?
      -No. No te barbeie.- Ela se voltou para lhe passar a gema de um dedo pela mandbula-. Em certo modo, eu gosto. Alm disso pode deix-lo para mais tarde, 
no?
      -Posso, sim.
              Ento inclinou a cabea para beij-la com suavidade, mas profundamente. Com que isso era? Bree s queria lhe ouvir dizer que se desenvolvido bem, sem 
ajuda de ningum. E na verdade o merecia. Ele estava seguro de que, durante sua ausncia, no se tinha ficado sentada junto ao lar, arrulhando ao Jemmy, mas no 
imaginava os detalhes mais sangrentos.
              Nesses momentos a pequena habitao resplandecia com uma suave luz dourada, que os tinha iluminado enquanto faziam o amor, lhe deixando lembranas 
de matizes vermelhos e marfileos do plo dourado que a cobria das sombras carmesins e purpreas em seus lugares secretos, sua prpria pele escura contra a palidez 
dela.
              O estou acostumado a estava limpo (ou o tinha estado); as pranchas de pinheiro branco, bem esfregadas; nos rinces tinha colocado romeiro seco. Alm 
disso, fazia a cama com lenis limpa e tinha posto um edredom novo. Tudo para lhe dar a bem-vinda. E ele tinha entrado como uma tromba, transbordante de aventuras, 
esperando louvores pela faanha de retorna com vida, e sem ver nada de todo isso. Cego a tudo, em sua urgncia de t-la sob seu corpo e possui-la.
      -Oua- murmurou-lhe ao ouvido-, pode que seja bobo, mas te amo, sabe?
              Ela suspirou profundamente, seus peitos puxaram contra o torso nu do Roger, mornos ainda atravs da camisa e o vestido. Eram firmes; estavam-se enchendo 
de leite, mas ainda no estavam duros.
      - bobo, sim- disse com franqueza-, mas eu tambm te amo. E me alegra que tenha retornado.
              Ele a soltou, rendo. Em cima da janela havia um ramo de zimbro, carregada de bagos glaucas. Alargou a mo para arrancar uma ramita, beijou-a e a ps 
no decote do vestido, entre os peitos, como objeto de paz... e a maneira de desculpa.
      -Feliz Natal. me diga agora o que aconteceu esses gansos.
              Ela apoiou uma mo contra a ramita de zimbro, com uma meia sorriso que despareci em seguida.
      -OH... no tem importncia. S que...
              Roger seguiu a direo de seus olhos e viu a folha de papel apoiada contra a parede, depois do lavamanos. Era um desenho ao lpis-carvo: gansos silvestres 
contra um cu de tormenta, batendo as asas com fora sobre as rvores agitadas pelo vento. Pareceu-lhe estupendo; ao contempl-lo teve a mesma sensao estranha 
que tinha experiente para ouvi-los grasnar: mescla de alegria e dor.
      -Feliz Natal- disse Brianna brandamente, a suas costas. E lhe envolveu um brao com a mo.
      -Obrigado. ... Que bem desenha, Bree.
              Era certo. inclinou-se para beij-la com paixo; precisava fazer algo para aliviar os desejos que enfeitiavam esse papel.
      -Olhe o outro.- Ela se apartou um pouco, sem lhe soltar o brao, e assinalou o lavamanos.
              Roger no tinha visto que eram dois.
              Ela desenhava muito bem, sim. Tanto que lhe congelou o sangue no corao. O segundo desenho tambm era um lpis-carvo: os mesmos brancos, negros e 
cinzas nus. No primeiro ela tinha derrubado a selvageria do cu: as nsias e o valor, o esforo que resiste com f no vazio do ar e a tormenta. Em este tinha visto 
quietude.
              Era um ganso morto que pendurava pelas patas, com as asas mdia desdobradas, o pescoo lasso e o pico entreaberto, como se at na morte procurasse 
o vo e a potente reclamao de seus companheiros. Suas linhas eram delicadas; os detalhes da plumagem, o pico e os olhos vcuos, deliciosos. Ele nunca tinha visto 
nada to belo nem to desolador.
      -Desenhei-o ontem  noite- explicou ela, em voz baixa-. Todo mundo estava na cama, mas eu no podia dormir.
              Tinha pego um castial para rondar, inquieta, pela casa cheia de gente. Por fim saiu ao escuro frio dos abrigos, em busca de solido, j que no de 
repouso. No abrigo de defumar,  luz das brasas, chamou-lhe a ateno a beleza dos gansos pendurados, a nitidez da plumagem branca e negra contra o muro coberto 
de fuligem.
      -Uma vez segura de que Jemmy dormia profundamente, voltei com minha caixa de desenho. Desenhei at que meus dedos estavam to frios, que no podiam sujeitar 
o lpis-carvo. Esse  o melhor.- E assinalou o desenho com olhos ausentes.
              Pela primeira vez Roger reparou em suas olheiras. Imaginou  luz de uma vela, completamente s em meio da noite, desenhando gansos mortos. ia abraar 
a, mas ela se afastou para a janela, onde as venezianas comeavam a golpear-se.
              O degelo tinha cessado. Seguia-lhe um vento gelado que despia as rvores de suas ltimas folhas e arrojava bolotas e castanhas contra o telhado com 
um repico de perdigonada. Ele se aproximou para fechar as venezianas e as assegurar contra o forte vento.
              Bree se incorporou. ia passar a seu lado, mas ele a rodeou com os braos para det-la. Estreitou-a contra si, para que no lhe visse a cara.
      -Gansos- disse ao fim, com a voz mdio apagada contra o cabelo da Brianna-. Quando eu era pequeno meus vizinhos criavam gansos. Grandes e brancos, os vadios. 
Eram seis; andavam sempre juntos, grasnando com o pico em alto. Aterrorizavam aos ces, aos meninos e a tudo o que passasse pela rua.
      -E a ti?- O flego quente do Bree era um comicho contra sua clavcula.
      -OH, sim, constantemente. Quando jogvamos na rua saam grasnando para nos picar e nos castigar com as asas. Eu no podia sair ao ptio traseiro, a jogar com 
um amigo, se a senhora Graham no nos acompanhava para afugentar a esses cretinos com um pau de vassoura. Uma manh, quando veio o leiteiro, os gansos estavam ainda 
no jardim dianteiro e o atacaram. Ele correu para seu carro; tanto chiados espantaram ao cavalo, que pisoteou a duas das aves, as deixando plainas como omeletes. 
Os meninos da rua estvamos encantados.
              Ela ria contra seu ombro, mdio escandalizada, mas tambm divertida.
      -E logo o que aconteceu?
      -A senhora Graham os levou dentro e os depenou. Comemos bolo do ganso durante uma semana- respondeu ele, divertido. Logo ergueu as costas para lhe sorrir-. 
Isso  tosse o que sei sobre os gansos: que so uns verdadeiros cretinos, mas que esto muito saborosos.
              E se agachou para recolher do cho a jaqueta manchada de barro.
      -Bom, agora deixa que ajude a seu pai com a tarefa. Logo quero ver como engatinha meu filho.
      
      
      

      34
      
      Feitios
      
              Toquei com o dedo a superfcie branca e brilhante; logo a esfreguei entre meus dedos apreciando-a.
      -No h absolutamente nada mais gorduroso que a graxa de ganso- passei, enquanto me limpava os dedos no avental para agarrar uma colher grande.
      - o melhor para a massa de bolos- acrescentou a senhora Bug e ficou nas pontas dos ps para observar celosamente, enquanto eu dividia a suave matria branca 
entre duas grandes vasilhas: uma para a cozinha, a outra para minha clnica.
      -Para a festa do Hogmanay faremos um rico bolo de venado-acrescentou, entreabrindo os olhos para estudar a perspectiva-. Depois faam com caldo de pescado. 
E um pouco de corn crowdie, farinha de aveia com leite ou gua quente. E de sobremesa, um grande bolo de passas com gelia e nata montada.
      -Estupendo- murmurei. Meus prprios planos para a graxa de ganso incluam um blsamo de zarzaparrilla para queimaduras e abrases, um ungento mentolado para 
os narizes tampados e as congestes de peito, e outro suavizante e perfumado para as queimaduras dos fraldas... possivelmente uma infuso de alfazema com suco de 
malva.
              Olhei para baixo, procurando o Jemmy; embora tinha aprendido a engatinhar poucos dias antes, j era capaz de alcanar uma velocidade assombrosa, especialmente 
quando ningum o olhava. Estava tranqilamente sentado no rinco, roendo apaixonadamente o cavalo de madeira que Jamie lhe tinha esculpido como presente de Natal.
              Catlicos como eram a grande maioria dos escoceses das Terras Altas (e nominalmente cristos, todos eles), o Natal era um data religiosa mais que uma 
grande ocasio festiva.
              Mas Hogmanay era outra coisa. S Deus sabia que razes pags tinha a celebrao escocesa do Ano Novo, mas eu tinha meus motivos para preparar com antecipao 
uma boa quantidade de remdios: os mesmos motivos pelos que Jamie estava nesses momentos no manancial do usque, identificando que tonis estavam o bastante envelhecidos 
como para no envenenar a ningum.
              Uma vez retirada a graxa de ganso, no fundo do recipiente ficou uma boa quantidade de caldo escuro, formado redemoinhos com trocitos de pele e fios 
de carne. Vi que a senhora Bug o observava com vises de molho lhe danando no crebro.
      -A metade- disse-lhe severamente, jogando mo de um frasco grande.
              Ela, sem discutir, limitou-se a encolher-se de ombros e voltou para seu tamborete, resignada.
      -O que pensa voc fazer com isso?- perguntou-me com curiosidade, enquanto eu cobria o pescoo do frasco com um quadrado de musselina, a fim de filtrar o caldo-. 
 certo que a graxa  uma maravilha para ungentos. E sem dvidas o caldo  benfico para o corpo debilitado pela gota ou por males de ventre. Mas se estraga.- Uma 
sobrancelha superficial se arqueou a modo de advertncia, se por acaso eu no sabia-. Se se deixar um ou dois dias, fica azul de mofo.
      -Bom, isso  o que espero- disse, jogando caldo no quadrado de musselina-. Acabo de pr uma fogaa de po a embolorar; quero ver se tambm aparece no caldo.
              Vi que pela mente da mulher cruzavam todo tipo de perguntas e respostas; e todas apoiadas no medo que essa minha loucura pela comida podre, ao expandir-se, 
pudesse abranger toda a produo da cozinha. Seus olhos jogaram uma olhada ao bolo; logo voltaram para mim, carregados de suspeita.
              Ao apartar a cara para dissimular um sorriso, vi que Adso, o gatinho, subiu-se ao banco, erguido sobre as pata traseiras e com as garras plantadas 
na mesa; seus grandes olhos verdes seguiam com fascinao os movimentos da chaleira.
      -Ah, quer um pouco?
              Agarrei um platito da prateleira e verti nele um escuro atoleiro de caldo, cheio de saborosos fragmentos de carne e glbulos de graxa.
      -Isto corresponde a minha metade- assegurei-lhe  senhora Bug. Mas ela moveu vigorosamente a cabea.
      -De maneira nenhuma, senhora Fraser- disse-me-. Esse pequen caou aqui seis ratos nos dois ltimos dias.- Sorriu afetuosamente ao Adso, que se tinha descido 
de um salto e estava lambendo o caldo a toda a velocidade que lhe permitia sua diminuta lngua rosada-. Seu bichano pode comer tudo o que queira de meu lar.
      -De ver? Estupendo. Tambm pode dever provar sorte com os que tenho na clnica.
              Por ento tnhamos uma praga de ratos, aos que o frio empurrava aos espaos interiores, onde brincavam de correr pelos zcalos depois do anoitecer. 
At a pleno dia cruzavam sbitamente o cho ou saltavam dos armrios abertos, provocando leves paradas cardacas e ruptura de baixela.
      -Mas no podemos criticar aos ratos- comentou a senhora Bug, me olhando fugazmente-. A fim de contas, vo aonde est a comida.
              Quase todo o caldo tinha passado pela musselina, deixando uma grosa capa de restos flutuantes. Os reba para p-los no platito do Adso, logo joguei 
outra chaleira de caldo.
      -Sim que o fazem- disse sem me alterar-. E o sinto, mas o mofo  importante.  um remdio e...
      -OH, sim, certamente!- apressou-se a assegurar-. Isso sei.
              Em sua voz no havia sotaque de sarcasmo, coisa que me surpreendeu. Vacilava, mas ao fim afundou a mo no amplo bolso que pendurava depois da abertura 
de sua saia.
      -Quando Arch e eu vivamos no Auchterlonie havia um homem, um carline. chamava-se Johnnie Howlat. A gente lhe tinha medo, mas apesar de tudo ia a sua casa. 
Alguns, a pleno dia, para que os curasse com ervas e beberagens; outros, de noite, para comprar feitios. Sabe voc disso?
              Eu sabia, sim, a que tipo de pessoa se referia. Alguns curandeiros das Terras Altas no se limitavam a preparar remdios (os " filtros"  que ela mencionava), 
mas sim tambm praticavam a magia menor: vendiam filtros de amor, poes para a fertilidade... e conjuros daninhos. Algo frio me correu pelas costas e despareci, 
deixando detrs de si uma vaga sensao de inquietao, como o rastro baboso de um caracol.
              Traguei saliva; via em minha lembrana o pequeno molho de novelo espinhosas, to cuidadosamente atadas com fio branco e negro, posto sob meu travesseiro 
por uma moa ciumenta, chamada Laoghaire, que o tinha comprado a certa bruxa: Geillis Duncan, bruxa como eu.
              Aonde queria chegar a senhora Bug? Eu no estava muito segura do que significava a palavra carline, embora a relacionava com bruxos ou um pouco parecido. 
Ela me observava com ar pensativo, bastante apagada sua vivacidade normal.
      -Era um homenzinho sujo, esse Johnnie Howlat. No tinha mulher e sua cabana cheirava a coisas horrveis. Ele tambm.- estremeceu-se de repente, embora tinha 
o fogo a suas costas-. s vezes o via no bosque ou nos brejos, pinando na terra. Quando encontrava animais mortos trazia as peles, ossos, patas e dentes, para fazer 
seus feitios.
      -Que desagradvel- murmurei, com a vista fixa no frasco, enquanto raspava novamente o pano e voltava a jogar caldo-. E ainda assim a gente ia consult-lo?
      -No havia ningum mais- replicou ela, simplesmente.
              Levantei a vista. Seus olhos escuros seguiam fixos em meus, sem piscar; movia lentamente a mo, como se tocasse algo dentro do bolso.
      -Ao princpio eu no sabia- continuou-, mas Johnny tinha musgo do cemitrio, p de ossos, sangue de galinha e esse tipo de coisas. Mas voc- observava-me com 
ar pensativo, imaculado o leno branco  luz do fogo-, voc  uma pessoa limpa.
      -Obrigado- disse, entre divertida e emocionada. Em boca da senhora Bug, esse era um grande completo.
      -Salvo pelo po bolorento- acrescentou, apertando um pouco os lbios-. E essa taleguilla de pagos que tem no armrio. Mas  certo, no? Voc  feiticeira, 
como Johnny.
              Vacilei, sem saber o que dizer. Na memria tinha a lembrana do Cranesmuir, to vvido como no o tinha visto em muitos anos. Quo ltimo desejava 
era que a senhora Bug divulgasse o rumor de que eu era uma carline; j havia quem me denominava " mulher de conjuros" . No temia que me acusassem de bruxa ante 
a lei; ali no, j no. Mas uma coisa era ter reputao de curandeira e outra, que a gente fosse para mim por essas outras coisas que ofereciam os feiticeiros.
      -No exatamente- disse, cautelosa-. Solo sei bastante sobre novelo. E de cirurgia. Mas em realidade no sei absolutamente nada de feitios nem... encantamentos.
              Ela assentiu com satisfao, como se eu tivesse confirmado suas suspeitas em vez das negar.
      -Uma vez fui ver o. Ao Johnnie Howlat.
      -Sim?- Sentei-me  com o Jemmy nos joelhos-. Estava doente?
      -Queria um filho.
              No soube o que dizer. Em silncio, escutei a destilao do caldo que caa da musselina, enquanto ela jogava  frigideira o ltimo resto e a levava 
a lar.
      -Tive quatro abortos no curso de um ano- explicou, de costas a mim-. Quem me veja agora no acreditaria, mas por ento era s pele e ossos, no tinha mais 
cor que o soro e minhas tetas se reduziram a nada.
              Uma vez bem afirmada a frigideira entre as brasa, cobriu-a.
      -De modo que agarrei o pouco dinheiro que tnhamos e fui a casa do Johnnie Howlat. Ele aceitou o dinheiro e encheu uma caarola de gua. Logo fez que sentasse 
a um lado da caarola e ele ao outro; e assim passamos comprido tempo. Ele olhava a gua; eu a ele. Ao cabo de um momento, agitou-se e se foi  parte traseira da 
cabana. No pude ver que fazia, pois estava escuro, mas revolvia pinava e dizia coisas pelo baixo; por fim me entregou um amuleto.
              A senhora Bug se incorporou para aproximar-se de mim. Ps uma mo na sedosa cabea do Jemmy, com muita suavidade.
      -Johnny me disse que isso me fecharia a boca do ventre e manteria ao beb so e salvo dentro, at que chegasse o momento de nascer. Mas na gua tinha visto 
uma coisa e devia me advertir. Se eu tinha um menino vivo, disse-me morreria meu marido. De modo que me daria o amuleto e a orao que o acompanhava. Era eu quem 
devia decidir. No se podia atuar com mais justia.
              O dedo romo e desgastado seguiu a curva da bochecha infantil.
      -Tive esse objeto no bolso durante um ms. Logo, guardei-o.
              Alarguei uma mo para estreitar a sua. No se ouvia outra coisa que o mordisco do beb e o estalo dos ossos sobre as brasas. Ela permaneceu imvel 
um momento; logo retirou a mo para coloc-la novamente no bolso. Extraiu um pequeno objeto que depositou na mesa, a meu lado.
      -Nunca me decidi a atir-lo- disse, contemplando-o serenamente-. depois de tudo, custou-me trs peniques de prata. E  muito pequeno. Quando samos de Esccia 
foi fcil traz-lo comigo.
              Era um trocito de pedra de cor rosa plido, veteado de cinza; estava muito gasto. Estava esculpido grosseiramente e tinha forma de mulher grvida. 
Era pouco mais que um ventre enorme, de peitos e ndegas inchados, cujas pernas curtas se afiavam at perder-se. Tinha visto outras similares em distintos museus. 
Perguntei-me se Johnny Howlat a teria esculpido pessoalmente. Ou talvez a teria encontrado em suas buscas pelo bosque e os brejos, resto de um tempo muito mais antigo.
              Toquei-o com delicadeza. Pouco importava o que tivesse feito Johnnie Howlat, o que tivesse visto em sua caarola de gua: tinha tido a astcia de reconhecer 
o amor que unia ao Arch e a Murdina Bug. O que era mais fcil para uma mulher: abandonar a esperana de ter filhos, considerando que fazia um nobre sacrifcio por 
seu amado algemo, ou sofrer a amargura e a culpa do fracasso constante? Johnnie Howlat poderia parecer um feiticeiro, mas realmente era um curador.
      -Pois nada- disse a senhora Bug, como a quem j no lhe importa-, que possivelmente voc encontre alguma moa a que possa lhe ser til. Seria uma pena no 
lhe tirar proveito, no crie?
      
      
      

      35
      
      Hogmanay
      
              O ano terminou claro e frio, com uma lua pequena e brilhante que se elevou muito alta na abbada crdena do cu, banhando de luz os terrenos baixos 
e os caminhos da montanha. Era uma sorte, pois vinha gente desde todos os rinces da Colina (e alguns, desde mais longe ainda) para celebrar Hogmanay na Casa Grande.
              Ombreia-os tinham espaoso o estbulo novo e rastelado o cho para o baile. Sob a luz dos abajures, alimentadas com azeite de urso, danavam-se jigas, 
reels, strathspeys e outras danas das quais eu ignorava o nome, mas que pareciam divertidas, acompanhadas pela msica do lhe chiem violino do Evan Lindsay e a grit 
flauta de madeira de seu irmo Murdo, compassados pelos batimentos do corao cardacos que Kenny arrancava a seu bodhran.
              Depois de uma ou duas horas de baile, comeava a compreender por que a palavra reel se utilizava para indicar embriaguez; inclusive sem que se bebeu, 
a dana podia chegar a enjoar. Sob a influncia do usque, fazia que tudo o sangue da cabea girasse como gua em uma mquina de lavar roupa. Ao terminar uma delas, 
j cambaleante, fui apoiar me em um dos postes e fechei um olho, com a esperana de que cessassem as voltas em minha cabea. Uma cotovelada em meu lado cego me fez 
abrir esse olho. Ali estava Jamie, com duas taas transbordantes de algo. Acalorada e sedenta como estava, s me importou que fora algo lquido. Felizmente era cidra, 
que bebi a grandes goles.
      -Se a beber assim ir a rivalidade, Sassenach- disse ele, esvaziando a sua de maneira exatamente  igual. Estava avermelhado e suarento de tanto danar, mas 
seus olhos faiscavam ao me sorrir.
      -Tolices!- disse. Com um pouco de cidra a modo de lastro, a habitao tinha deixado de girar e eu me sentia alegre, a pesar do calor-. Quantas pessoas crie 
que h aqui?
      -Sessenta e oito, a ltima vez que contei- disse-me, enquanto se reclinava a meu lado, contemplando a multido com expresso profundamente satisfeita-. Mas 
como entram e saem, no estou muito seguro. E no contei aos meninos- acrescentou.
              Aos lados do estbulo, entre sombras, havia montes de feno fresco onde dormiam os meninos muito pequenos para manter-se acordados, envoltos e amontoados 
igual aos gatinhos. A piscada dos abajures arrancou um brilho de sedoso ouro avermelhado: Jemmy dormia profundamente em sua manta, felizmente arrulhado pelo bulcio. 
Vi que Bree se separava do baile e lhe acariciava a bochecha. Roger, moreno e sorridente, alargou uma mo para ela, e Bree a aceitou rendo; ambos voltaram a perder-se 
no redemoinho.
              A ltima ronda de danas chegou a seu fim e se produziu uma carreira geral fazia o tonel da cidra, presidido pelo senhor Wemyss, em um extremo do celeiro. 
Os bailarinos se apertaram como uma horda de vespas sedentas, de modo que de este s ficou  vista o cocuruto, quase branco o cabelo loiro ao fulgor dos abajures.
              Procurei com o olhar ao Lizzie, para ver se estava desfrutando da festa. Evidentemente, sim: estava sentada em um monto de feno, rodeada por quatro 
ou cinco torpes adolescentes que se comportavam mais ou menos como os bailarinos ao redor da cidra.
      -Quem  o grandalho?- perguntei ao Jamie, assinalando o pequeno grupo-. No sei quem .
              Ele o olhou, forando a vista. Logo se tranqilizou.
      -Ah,  Jacob Schnell. veio de Salem com um amigo; acompanham aos Mueller.
      -V!
      Salem ficava longe, a mais de quarenta e cinco quilmetros. Perguntei-me se a nica atrao era a festa. Procurei o Tommy Mueller, a quem secretamente tinha 
escolhido como possvel casal para o Lizzie, mas no o vi entre a multido.
      -Sabe algo desse Schnell?- perguntei, observando-o com ar crtico. Era um ou dois anos maior que os outros pretendentes do Lizzie, e bastante alto. Algo feio 
de faces, mas com cara de bom aspecto; de uma corpulncia que anunciava o desenvolvimento de uma prspera pana na maturidade.
      -No o conheo pessoalmente, mas sim a seu tio.  uma famlia decente; acredito que o pai  sapateiro.
              Ambos olhamos automaticamente os sapatos do jovem; no eram novos, mas sim de muito boa qualidade e com fivelas metlicas, grandes e quadradas, na 
moda alem. O jovem Schnell parecia levar vantagem; aproximou-se muito ao Lizzie para lhe dizer algo; ela tinha os olhos cravados em sua cara, com uma leve enruga 
de concentrao entre as sobrancelhas loiras, tratando de entender o que ele dizia. Quando compreendeu, suas faces se relaxaram em risadas.
      -No acredito.- Jamie sacudiu a cabea, algo carrancudo-. Sua famlia  luterana; no permitiro que o jovem se casa com uma catlica... e ao Joseph partiria 
o corao que sua filha se fora a viver to longe.
              Em realidade, o pai do Lizzie estava profundamente apegado a ela; depois de hav-la perdido uma vez, no estaria disposto a perder a de vista quando 
a desse em matrimnio. Mesmo assim, Joseph Wemyss faria quase algo por lhe assegurar uma vida feliz.
      -Talvez se iria com ela.
              Jamie se entristeceu ao pens-lo, mas assentiu a contra gosto.
      -Suponho que sim, mas seria uma pena perd-lo. Bom, suponho que Arch Bug poderia...
              Interromperam-no uns gritos:
      -MAC Dubh! MAC Dubh!
      -voc venha, ao Sheumais ruaidh, lhe demonstre como se faz!- chamou Evan do outro extremo do celeiro, agitando o arco em gesto autoritrio.        
              Produziu-se uma pausa no baile, para que os msicos tivessem uma pausa e pudessem beber algo; enquanto isso, alguns dos homens provavam sua habilidade 
para a dana das espadas, que s se pode executar com acompanhamento de gaitas de fole ou de um s tambor.
      -MAC Dubh, MAC Dubh!- convidavam Kenny e Murdo, fazendo gestos.
              Mas Jamie os rechaou entre risadas.
      -No. Faz tanto tempo que no fao isso...
      -MAC Dubh! MAC Dubh! MAC Dubh!- Kenny batia seu bodhran, cantando ao compasso, e o grupo que o rodeava fez outro tanto-. MAC Dubh! MAC Dubh! MAC Dubh!
              Ele me dirigiu um breve olhar de splica, mas Ronnie Sinclair e Bobby Sutherland j vinham para ns com ar decidido. Apartei-me um passo, entre risadas, 
e eles o agarraram pelos braos, sufocando seus protestos com vozes alegres, enquanto o empurravam para o centro da pista.
              Entre aplausos e gritos de aprovao, depositaram-no em um espao espaoso, onde a palha tinha sido calcada na terra mida, a fim de formar uma superfcie 
dura. Ao ver que no havia opo, Jamie ergueu as costas e endireitou sua saia. depois de intercambiar um olhar comigo, pondo os olhos em branco em zombador gesto 
de resignao, comeou a tir-la jaqueta, o colete e as botas, enquanto Ronnie cruzava as duas espadas a seus ps.
              Kenny Lindsay comeou a tocar brandamente seu bodhran, com pausas entre toque e toque, criando um som de leve suspense. A multido murmurava e se removia, 
espectador. Jamie, em camisa, saia e meias trs-quartos, fez uma complexa reverncia que repetiu quatro vezes, girando no sentido do sol, para cada um dos airts. 
Logo ocupou seu lugar, de p sobre as espadas cruzadas, e elevou as mos com os dedos rgidos por cima da cabea.
              A pouca distncia estalou um aplauso. Brianna se levou dois dedos  boca para emitir um ensurdecedor assobio de aprovao, que provocou escandalizada 
surpresa entre quem a rodeava. Vi que Jamie a olhava com um leve sorriso; logo seus olhos procuraram outra  minha vez. Em seus lbios perdurava o sorriso, mas em 
se expresso havia algo distinto, melanclico. O ritmo do bodhran se fez mais veloz.
              A dana escocesa das espadas se podia executar por trs motivos: por exibio e entretenimento, como ele estava a ponto de fazer; como competio e, 
como se tinha feito ao princpio, a maneira de pressgio. Quando se danava na vspera de uma batalha, a habilidade do bailarino anunciava o xito ou o fracasso. 
Os jovens tinham danado entre espadas cruzadas na noite prvia ao Prestonpans e Falkirk. Mas no antes do Culloden; na vspera desse combate final no houve fogueiras 
nem tempo para os bardos e as canes jaquetas. No tinha importncia; nnaquele tempo naquele tempo ningum necessitava pressgios.
              Jamie fechou um momento os olhos e inclinou a cabea. O ritmo do tambor se fez mais rpido.
              Eu sabia por ele que a primeira vez que tinha danado a dana da espada foi em competio; depois, em mais de uma ocasio, em vsperas de uma batalha: 
primeiro nas Terras Altas, logo na Frana. Os soldados veteranos lhe pediam que o fizesse, pois apreciavam sua habilidade como garantia de que sairiam vivos e vitoriosos. 
Posto que os Lindsay conheciam sua destreza, tambm devia ter danado no Ardsmuir. Mas isso era no Velho Mundo e em sua antiga vida.
              Sabia, sem necessidade de que Roger o dissesse, que os costumes antigos estavam trocando. Estvamos em um mundo novo; jamais se voltaria a danar a 
dana das espadas com esse fim, procurando pressgios e o favor dos antigos deuses da guerra e o sangue.
              Abriu os olhos e endireitou bruscamente a cabea. O tambor emitiu um sbito " dunc!" , e um grito da multido marcou o comeo. Os ps do Jamie golpearam 
a terra calcada, ao norte e ao sul, para o este e o oeste, movendo-se depressa entre os aos. Golpeavam sem rudo, seguros no cho, e sua sombra danava contra o 
muro de atrs, alta, com os largos braos levantados. Sua cara apontava ainda para mim, mas sem dvida j no me via.
              Danava com toda a destreza do guerreiro que tinha sido e ainda era. Mas me pareceu que agora danava s em altares da memria, para que seus espectadores 
no esquecessem. E o suor voava de sua frente com o esforo, e em seus olhos havia uma expresso de inexprimvel lonjura.
      
      
      
              A gente ainda o comentava quando nos reunimos na casa, justo antes de meia-noite.
              A senhora Bug trouxe um cesto de mas e reuniu s moas solteiras em um rinco da cozinha. Entre muitas risitas e olhares furtivos para os meninos, 
cada uma cortou uma fruta, cuidando de que a pele formasse uma s pea. Logo as arrojavam para trs e se aproximavam para observar entre exclamaes as letras que 
tinham formado cada parte de pele ao cair.
              Como as exumaes de ma so normalmente circulares, abundavam os cs, os gs e as oes: boas notcias para o Charley Chisholm e o jovem Geordie Sutherland, 
e muitas discusses sobre se a Ou podia representar ao Angus Ou, pois Angus Og MacLeod era um moo sagaz e muito querido, enquanto que o nico Owen era um ancio 
vivo, que no passava do metro e meio de estatura e tinha um grande quisto sebceo na cara.
              Eu tinha subido para deitar ao Jemmy em seu bero, depravado e roncando; baixei a tempo para ver o Lizzie arrojar sua pele.
      -C!- fizeram coro duas das meninas Guthrie, quase entrechocando as cabeas ao inclinar-se para olhar.
      -No, no,  uma j!
              Convocou-se  senhora Bug, a perita residente, quem se agachou para observar a banda vermelha com a cabea inclinada, como faz o petirrojo ao avaliar 
a uma lombriga.
      - uma j, sem lugar a dvidas- opinou ao incorporar-se.
              E o grupo, com um estalo de risadas, voltou-se para unssono para o John Lowry, jovem granjeiro do Woolam's Mill, quem as olhou totalmente desconcertado.
              Um brilho vermelho me chamou a ateno para a porta que dava a corredor. Ali estava Brianna, me fazendo gestos. Corri a me reunir com ela.
      -Roger est preparado para sair, mas no encontramos o sal. Na despensa no est- Tem-na em seu consultrio?
      -OH, sim, ali est!- exclamei, culpado-. Estive-a usando para secar razes e esqueci devolv-la a seu stio.
              Os convidados enchiam os alpendres e formavam uma fila no largo corredor, ulcerando at a cozinha e o estudo do Jamie, todos dedicados  a conversar, 
beber e comer. Abri-me passo entre a multido detrs da Brianna, intercambiando saudaes e esquivando taas de cidra.
              O consultrio estava quase deserto; a gente tendia a evit-lo, j fora por superstio, associaes penosas ou simples cautela, e eu tinha deixado 
a habitao s escuras e o fogo apagado, para no anim-los a entrar. Nesse momento ardia ali uma s vela. Roger, nica pessoa presente, pinava entre as diversas 
coisas que eu tinha deixado na encimera.
              Quando entramos levantou a vista com um sorriso, ainda um pouco sufocado pela dana.
              Como Roger era, sem discusso, o mais alto e bonito dos morenos disponveis, o tinha eleito como " primeiro p" ; quer dizer, seria o primeiro que 
cruzaria a soleira, no s da Casa Grande, mas tambm tambm dos lares dos arredores. Fergus e Marsali, assim como os outros que viviam perto, j tinham deslocado 
a suas casas, a fim de estar preparados para saudar seu " primeiro p"  quando chegasse.
      -Doze menos dez- declarou Brianna, aparecendo na consulta detrs de mim, com seu prprio capote no brao-. Acabo de consultar o relgio do senhor Guthrie.
      -H tempo de sobra. vais vir comigo?- Roger lhe sorriu ao ver o casaco.
      -Est brincando? Faz anos que no saio depois de meia-noite.- Com idntico sorriso, ela fez girar o capote ao redor de seus ombros-. J tem tudo?
      -Salvo o sal.- Roger assinalou o saco de lona que tinha deixado na encimera. O " primeiro p"  devia chegar com presentes: um ovo, um feixe de lenha, um poquito 
de sal... e um pouco de usque; todo isso garantiria que na casa no faltassem as coisas imprescindveis durante o ano em floraes.
      -Bem. Onde pus...? meu Deus!- Ao abrir a porta do armrio em busca do sal, encontrei-me com uma par de olhos cintilantes que me fulminaram da escurido-. Que 
susto!- Apoiei uma mo contra meu peito para impedir que meu corao sasse de um salto. Logo agitei fracamente a outra para o Roger, que tinha dado um salto ante 
meu grito, preparado para me defender., No lhes preocupem.  s o gato.
      Adso se tinha refugiado ali, com os restos de um camundongo recm caado como companhia. Grunhiu-me, mas o apartei com chateio. O saquito de sal estava debaixo 
de suas peludas patas. Fechei o armrio, deixando ao gato a ss com seu festim, e entreguei o sal ao Roger. Ao agarr-la, ele deixou o objeto que tinha na mo.
      -Onde conseguiu esta mujercilla to antiga?- perguntou, assinalando o objeto, enquanto guardava o sal no saco.
              Ao olhar para a encimera vi que se referia  figurinha de pedra rosa.
      -Deu-me isso a senhora Bug- respondi-. Diz que  um amuleto para a fertilidade. E certamente tem aspecto de s-lo.  muito antiga, no crie?
              Isso pensava eu e o interesse do Roger confirmava essa impresso. Ele assentiu com a cabea, sem deixar de olh-la.
      -Muito. As que vi em museus datam de milnios atrs.
              Seguiu os contornos bulbosos com um dedo reverente. Brianna se aproximou para ver. Eu, sem pens-lo, detive-a agarrando a de um brao.
      -O que - exclamou ela, girando a cabea para me sorrir-. No devo toc-la? To efetiva ?
      -No,  obvio que no.
              Apartei a mo, rendo, mas me sentia coibida. Ao mesmo tempo cobrei conscincia de que, em realidade, preferia que ela no a tocasse. Foi um alvio 
ver que se limitava a inclinar-se para examin-la, sem retirar a da encimera. Roger tambm a observava... melhor dizendo, tinha os olhos cravados na nuca da Brianna, 
com um estranho paixo. Era fcil imaginar que desejava que ela tocasse o objeto, com a mesma fora que eu queria que no o fizesse.
              " Beauchamp- disse para meus adentros-, esta noite bebeste muito."  Ao mesmo tempo, levada por um impulso, agarrei a figura e me meti isso no bolso.
      -Vamos!  hora de sair!- J quebrado o estranho clima do momento, Brianna acudiu ao Roger.
      -Tem razo. Vamos.
              Ele jogou o saco ao ombro, sorriu-me e agarrou ao Bree do brao. Logo desapareceram; a porta se fechou detrs deles.
              Apaguei a vela, disposta a segui-los, mas me detive. de repente sentia certa relutncia a retornar ao caos da celebrao. Sentia palpitar a casa inteira 
a meu redor e a luz entrava em torrentes por debaixo da porta, mas ali havia quietude. No meio do silncio percebi o peso do pequeno dolo em meu bolso, um vulto 
duro apertado contra minha perna.
              E ali estava eu, na escurido, alerta aos rudos que fazia o gato ao mascar dentro do armrio, ao poder da terra que se movia e agitava sob meus ps, 
enquanto o ano (ou algo) dispunha-se a trocar. A pouca distncia havia uma buliosa multido, mas eu estava sozinha, enquanto aquele sentimento me percorria a pele 
e zumbia em meu sangue.
              O curioso  que no me era estranho. No se tratava de algo que viesse de fora de mim, mas sim de algo que eu j possua e reconhecia embora no soubesse 
como cham-lo. Mas a meia-noite se aproximava depressa. Ainda sentida saudades, abri a porta e sa  luz e ao clamor do corredor.
              Um grito, ao outro lado do corredor, anunciou a chegada da hora mgica, segundo o relgio do senhor Guthrie; os homens saram a trancos do estudo brincando 
entre si, com as caras espectadores voltas para a porta.
              No aconteceu nada. Acaso Roger teria decidido entrar pela porta de atrs, devido  multido que havia na cozinha? Dava-me a volta para olhar para 
ali, mas no: na porta da cozinha se amontoavam muitas caras que me observavam espectadores.
              Ainda no se tinham ouvido os golpes na porta. No corredor se produziu um pequeno revo de inquietao e uma pausa nas conversaes. Era um desses 
incmodos silncios nos que ningum quer falar por medo s ser bruscamente interrompido.
              Por fim se ouviram pisadas no alpendre e um rpido tamborilar: uno-dos-tres. Jamie, como dono da casa, adiantou-se para abrir a porta e dar a bem-vinda 
ao " primeiro p" . Eu, que estava o bastante perto, vi sua expresso estupefata e me apressei a procurar o motivo.
              No alpendre no vi o Roger e nem a Brianna, a no ser a duas silhuetas mais pequenas, fracas e esfarrapadas, mas definitivamente morias. Os dois gmeos 
Beardsley se adiantaram timidamente ante o gesto do Jamie.
      -Feliz Ano Novo, senhor Fraser- disse Josiah, com um grasnido de r. Logo se inclinou cortesmente ante mim, sem soltar o brao de seu irmo-. chegamos.
      
      
      
              Em geral, todos estiveram de acordo em que dois morenos gmeos eram um pressgio muito afortunado, pois obviamente levariam o dobro de boa sorte que 
um solo " primeiro pie" . Mesmo assim, Roger e Bree (que ao encontrar os gmeos no ptio, vacilantes, tinham-nos enviado  porta) saram para fazer o melhor papel 
possvel nas outras casas da Colina. Bree foi severamente advertida de que no devia entrar em nenhuma casa antes de que Roger tivesse cruzado a soleira.
              Bom augrio ou no, a apario dos Beardsley provocou muitos comentrios. Todo mundo estava informado do falecimento do Aaron Beardsley (a verso oficial, 
quer dizer, que tinha morrido de apoplexia) e do misterioso desaparecimento de sua mulher, mas o advento dos gmeos fez que tudo fora desenterrado e discutido outra 
vez. Ningum se explicava o que tero estado fazendo os moos entre a expedio miliciana e o Ano Novo. Josiah s disse, com seu rouco grasnido, " estivemos vagando" 
; seu irmo Keziah no disse absolutamente nada, com o qual todo mundo se viu obrigado a falar do comerciante e sua esposa at que o esgotamento provocou uma mudana 
de tema.
              Os Beardsley ficaram imediatamente sob a custdia da senhora Bug que os levou a cozinha para que se lavassem, comessem e entrassem em calor.
              Encontrei ao Jamie em seu estudo, reclinado na cadeira; tinha os olhos fechados e uma espcie de desenho na mesa, frente a ele. No dormia. Para ouvir 
minhas pegadas abriu os olhos.
      -Feliz Ano Novo- disse pelo baixo. E me inclinei para lhe dar um beijo.
      -Feliz Ano Novo a ti tambm, a nighean donn.- Estava morno e cheirava um pouco a cerveja e a suor seco.
      -Ainda quer sair?- perguntei-lhe, jogando uma olhada  janela. A lua se ps muito antes e as estrelas ardiam no cu, plidas e frite. O ptio estava negro 
e lgubre.
      -No- disse francamente, enquanto se passava uma mo pela cara-. Quero me deitar.- Bocejou, tratando de alisar o cabelo. Logo acrescentou, generosamente-: 
Mas quero que voc tambm venha.
      -Nada eu gostaria mais. O que  isso?
              Aproximei-me por detrs dele para observar o desenho; parecia uma espcie de plano, com clculos matemticos rabiscados nos mrgenes. Ele se incorporou, 
algo mais espaoso.
      -Bom...  um presente do Roger para a Brianna, pelo Hogmanay.
      -vai construir uma casa para ela? Mas se...
      -Para ela no.- Olhou-me com um sorriso-. Para os Chisholm.
              Roger, com uma astcia digna do mesmo Jamie, tinha indagado entre os habitantes da Colina at obter um acordo entre o Ronnie Sinclair e Geordie Chisholm.
      -E enquanto isso, Roger e Bree recuperaro sua cabana, Lizzie e seu pai no tero que dormir no consultrio e tudo ser mel sobre folhinhas?- perguntei, encantada-. 
Que acerto to estupendo! O plano  tua obra?
      -Sim. Geordie no  bom carpinteiro; no quero que a construo se derrube sobre ele.
              depois de analisar os desenhos com os olhos entreabridos, agarrou uma pluma do frasco, abriu o tinteiro e corrigiu uma cifra.
      -Preparado- disse, deixando cair a pluma-. Com isto bastar. O pequeno Roger quer acostumar-lhe ao Bree esta noite, quando voltarem; prometi-lhe deix-lo  
vista.
      -Ela estar encantada.- Apoiei-me no respaldo da cadeira para lhe massagear os ombros. Ele se inclinou para trs, quente o peso de sua nuca contra meu ventre, 
e fechou os olhos com um suspiro de prazer.
      -Di-te a cabea?- perguntei pelo baixo, detectando a ruga vertical entre os olhos.
      -um pouco. OH, sim, que maravilha!
              Eu tinha elevado as mos para lhe massagear brandamente as tmporas. A casa estava em silncio, embora ainda me chegava um rumor de vozes na cozinha. 
Mais  frente, o som agudo e doce do violino do Evan flutuava no ar frio.
      -Minha donzela de cabelo castanho- suspirei, cheia de lembranas-. eu adoro essa cano.
              E soltei a cinta que sujeitava sua trana; desfiz-a entre os dedos, desfrutando de sua morna suavidade.
      - estranho que no tenha ouvido para a msica- comentei por distrai-lo, enquanto penteava os arcos avermelhados de suas sobrancelhas, pressionando o bordo 
das conchas-. No sei por que, mas a aptido para as matemtica est acostumada vir acompanhada do talento para a msica. Bree tem ambas as coisas.
      -Eu tambm, antes- disse ele, distrado.
      -Voc tambm o que?
      -Tinha ambas as coisas.- inclinou-se para diante para estirar o pescoo, com os cotovelos apoiados na mesa-. Humm, Santo Cu. Por favor, sim.
      -De ver?- Massageei-lhe o pescoo e os ombros, esfregando os msculos duros sob o pano-. vais dizer me que antes sabia cantar?
              Era uma piada familiar: Jamie tinha boa voz para falar, mas seu ouvido era to errtico que qualquer cano, entoada por ele, dormia aos bebs por 
atordoamento, no porque os arrulhasse.
      -Bom, possivelmente nem tanto.- Percebi o sorriso em sua voz, apagada pelo cabelo que lhe cobria a cara-. Mas podia distinguir uma melodia de outra e reconhecer 
se estava bem ou mau cantada. Agora  s rudo ou chiados.- E se encolheu de ombros, descartando o tema.
      -O que aconteceu? E quando?
      -Pois foi entes de te conhecer, Sassenach. Muito pouco antes, em realidade.- Elevou uma mo, buscando-a nuca-. Recorda que tinha estado na Frana? Enquanto 
retornava, com o Dougal MacKenzie e seus homens, apareceu Murtagh, vagando pelas Terras Altas com sua camisa...
              Falava com ligeireza, mas meus dedos tinham achado a antiga cicatriz sob o cabelo. No era a no ser um fio; a cicatriz se reduziu at ficar da grossura 
de um cabelo. Mas tinha sido uma ferida de vinte centmetros, aberta com uma tocha, e esteve a ponto de mat-lo. Passou quatro meses em uma abadia francesa, ao bordo 
da morte, e durante vrios anos sofreu terrveis dores de cabea.
      -Foi por isso? Diz que, depois de receber essa ferida, j no voltou a perceber a msica?
              Ele encolheu brevemente os ombros.
      -No percebo mais msica que o bater dos tambores- disse simplesmente-. Ainda fica o ritmo, mas a melodia h desparecido.
              Minhas mos se detiveram em seus ombros. Ele se voltou a me olhar com um sorriso, como se tratasse de tom-lo a brincadeira.
      -No se preocupe, Sassenach. No  nada. Antes tampouco cantava bem. E Dougal no me matou, depois de tudo.
      -Dougal? Crie que foi ele?
              Surpreendeu-me a certeza de sua voz. Ento eu tinha pensado que podia ter sido seu tio o que lanasse esse ataque homicida contra ele e que, surpreso 
por seus prprios homens antes de poder concluir sua obra, tinha fingido que acabava de encontrar o ferido. Mas no tinha provas para afirm-lo.
      -OH, sim. Ele tambm parecia surpreso, mas logo trocou de expresso-. OH, sim- repetiu com mais lentido-. No me tinha dado conta... No entendeu o que disse 
ao morrer, verdade? Quero dizer Dougal.
              Minhas mos ainda descansavam em seus ombros; senti que o percorria um estremecimento involuntrio, que se estendeu por meus braos, me arrepiando 
o plo at a nuca.
              Voltei a ver o desvo da Casa Culloden, com tanta claridade como se a cena se desenvolvesse ante mim. Mveis desprezados, objetos tombados na luta... 
e no cho, encolhido a meus ps, Jamie lutava com o Dougal, que corcoveava e resistia, com um borbulho de sangue e ar na ferida que a adaga de seu sobrinho lhe tinha 
aberto no pescoo. Sua cara mudada pela perda do sangue vital, os olhos negros e ferozes, cravados no Jamie, enquanto sua boca se movia em galico silencio, dizendo... 
algo. E Jamie, to plido como Dougal, olhava fixamente os lbios do moribundo para ler essa ltima mensagem.
      -O que disse?
              Ele apartou a cara, enquanto eu subia os polegares sob seu cabelo em busca dessa velha cicatriz.
              " Embora seja filho de minha irm... oxal te tivesse matado aquele dia, na montanha. Do comeo soube que seria voc ou eu." 
              Disse-o em voz baixa e serena. A mesma falta de emoo dessas palavras fez que o calafrio voltasse a passar, esta vez de mim a ele.  estudo estava 
em silncio.
      -Por isso disse que tinha feito as pazes com o Dougal- murmurei.
      -Sim.- Reclinado na cadeira, elevou as mos para me rodear calidamente as bonecas-. Ele tinha razo, sabe? Era ele ou eu. E assim teria sido, de um modo ou 
outro.
              Com um suspiro, uma pequena carga de culpa se desprendeu de meu ser. Como Jamie tinha matado ao Dougal por me defender, eu sempre tinha pensado que 
essa morte pesava sobre mim. Mas ele tinha razo: havia muito entre eles; se esse conflito final no tivesse surto ento, na vspera do Culloden, teria sido em outro 
momento.
              Jamie me estreitou as bonecas e girou na cadeira, sem me soltar.
      -Deixemos aos mortos com os mortos, Sassenach- murmurei-. O passado se foi; o futuro ainda no chegou. E aqui estamos juntos, voc e eu.  
      
      
      

      36
      
      Mundos invisveis
      
      A casa estava em silncio; era a oportunidade perfeita para realizar meus experimentos. Preparei uma bandeja com uma taa e uma bule, nata e acar, que levei 
comigo  consulta, junto com as amostras, e enquanto o ch repousava, agarrei um par de frasquitos do armrio e sa da casa. 
      O dia era glacial, mas belo, com um cu plido que prometia melhores temperaturas para quando avanasse a manh. Nesse momento o frio era tal que me alegrei 
de ter posto meu xale. Na artesa dos cavalos a gua tinha uma capa de frgil gelo, mas no estaria to geada como para que os micrbios se morreram. Os largos fios 
de algas que recubran as pranchas da artesa se moveram lentamente sob a gua quando parti a fina capa de gelo e raspei o bordo viscoso com um de meus frascos. 
      Recolhi mais amostras de lquido da vertente e do atoleiro estagnado perto da letrina. Logo voltei apressadamente para a casa, para fazer minhas provas com 
boa luz. 
      O microscpio seguia junto  janela, onde eu o tinha instalado no dia anterior. Bastaram uns poucos segundos para depositar umas gotas nas platinas que tinha 
preparadas; logo me inclinei para olhar pelo ocular, arrebatada pela espera. 
      O ovide de luz se avultou, diminuiu, desapareceu por completo. Fiz girar a porca com tanta lentido como pude Y... ali estava! Estabilizado o espelho, a luz 
resolveu em um crculo perfeito, janela ao outro mundo.
      Encantada, contemplei o furioso bater de clios de um paramecio, que perseguia empecinadamente a uma presa invisvel. Logo, um silencioso movimento do campo 
visual, enquanto a gota de gua variava em suas microscpicas mars. Aguardei um momento mais, com a esperana de identificar a uma dessas velozes e elegantes euglenas, 
ou possivelmente alguma hidra. Mas no tive sorte: s misteriosos fragmentos verdinegros, manchas de refugos celulares e clulas de algas arrebentadas. 
      Movi a platina de um lado a outro sem achar nada de interesse. No importava: tinha muitas outras coisas que observar. depois de esclarecer o retngulo de 
vidro com lcool, deixei-o secar. Logo inundei uma varinha de vidro em um dos pequenos copos de precipitao alienados ante o microscpio e deixei cair uma gota 
de lquido no portaobjetos limpo. 
      Tinha tido que provar vrias vezes antes de poder armar corretamente o microscpio. No se parecia muito  verso moderna, sobre tudo se se dividia em partes 
para guard-lo na atrativa caixa do doutor Rawling. Mesmo assim as lentes eram identificveis; com elas como ponto de partida, tinha conseguido ajustar  base as 
peas pticas sem maior dificuldade. O mais difcil foi obter suficiente luz. Foi muito emocionante obter que funcionasse. 
      - O que faz, Sassenach? - perguntou-me Jamie da soleira da porta, com uma torrada na mo. 
      - Vejo coisas  - respondi, ajustando o foco. 
      - Sim? Que tipo de coisas? - Entrou com um sorriso -. Espero que no sejam fantasmas. J estou farto de esses. 
      - Vem  olhar - lhe ofereci, me apartando do microscpio. 
      Um pouco intrigado, inclinou-se para o ocular, fechando o outro olho em um gesto de concentrao. Entortou os olhos um momento. Logo lanou uma exclamao 
de trfico surpresa. 
      - Vejo-as! Pequenas coisas com cauda que nadam por toda parte!
      Ergueu as costas com um sorriso encantado. Em seguida voltou a inclinar-se. Experimentei uma clida sensao de orgulho ante meu novo brinquedo. 
      - No  uma maravilha? 
      - Uma maravilha, sim - confirmou ele, absorto -. Olhe como se esforam esses pequeajos, puxando e retorcendo uns contra outros. E quantos h!
      Observou uns segundos mais, entre exclamaes. Logo moveu a cabea, assombrado. 
      - Nunca tinha visto nada igual, Sassenach. Voc me tinha falado dos grmenes, sim, mas na vida pensei que fossem assim! Me imaginava com dientecitos, e no 
tm. E nunca pensei que teriam esses rabos to bonitos nem que nadariam to apertados. 
      -  Bom, alguns microorganismos so assim - comentei, enquanto jogava uma olhada pelo ocular-. No obstante, estas bestezuelas no so grmenes, a no ser espermatozides. 
      - O que? - Ps cara de no compreender.   
      - Espermatozides - repeti, paciente-. Clulas reprodutivas masculinas. Das que servem para fazer bebs, entende?
      Pareceu-me que ia sufocar se. Ficou boquiaberto, com um atrativo matiz rosado no semblante. 
      - Semente? - grasnou. 
      - Pois... sim. 
      Observei-o atentamente enquanto vertia o ch fumegante em um copo de precipitao limpo. O dava como tnico, mas no lhe emprestou ateno. Mantinha a vista 
fixa no microscpio, como se algo pudesse saltar por ali e ficar retorcendo-se no cho, a nossos ps. 
      - Espermatozides - murmurou para seus adentros -. Espermatozides. - Agitou vigorosamente a cabea e se voltou para mim, como se lhe tivesse  ocorrido algo 
espantoso-. De quem so?
      Seu tom expressava a mais sinistra suspicacia. 
      - Pois... teus,  obvio. - Pigarreei, um pouco sobressaltada -. De quem foram ser se no?
      Como por reflexo, ele colocou uma mo entre as pernas para agarrar-se protectoramente. 
      - Como diabos os conseguiu?
      - Como crie? - pronunciei, bastante  fria -. Esta manh, ao despertar, tinha-os em custdia. 
      Ele afrouxou a mo, mas um intenso rubor de mortificao lhe tingia as bochechas de escuro carmesim. bebeu-se  de um gole de ch, apesar do quente que estava. 
      - Compreendo. - E tossiu. 
      Houve um instante de profundo silncio. 
      - No ... n... ignorava que pudessem manter-se com vida - disse ao fim - . N... fora, quero dizer. 
      - Pois no podem se  que os deixa secar em uma mancha do lenol - lhe expliquei com ligeireza -. Mas se impedir que se sequem - assinalei o pequeno copo abafado, 
com uma pequena quantidade de fluido blancuzco -, resistem umas quantas horas. E no hbitat adequado sobrevivem at uma semana depois de... n... ser liberados. 
      - No hbitat adequado - repetiu ele, pensativo -. Refere-te A... 
      - Em efeito - confirmei, com certa aspereza. 
      - Hum. - Nesse momento se lembrou da torrada que ainda tinha na mo e lhe deu uma dentada. Mastigava com ar meditativo -. A gente sabe isto? Agora, quero dizer. 
      - Se souber o que? Como so os espermatozides? Sim, quase com segurana. O microscpio existe h mais de cem anos. E quando tem um microscpio em funcionamento, 
o primeiro que faz  observar tudo o que tem ao alcance de sua mo. Considerando que o inventor do microscpio foi um homem, eu diria que... No te parece? 
      Ele me olhou e mastigou com deciso outro bocado. 
      - Eu no diria exatamente " ao alcance da mo" , Sassenach - disse, com a boca enche-. Mas entendo o que quer dizer. 
      Como atrado por uma fora irresistvel, foi olhar outra vez pelo microscpio. 
      - Parecem muito enrgicos - aventurou, depois de uma breve inspeo. 
      - Pois assim devem ser - assegurei, contendo um sorriso ante o envergonhado orgulho que lhe produziam as proezas de suas gametas-. depois de tudo, o trajeto 
 largo. E ao final os espera um terrvel combate. S a gente obtm a honra, sabe?
      Levantou a vista, sem compreender. Ento ca na conta de que no sabia. Em Paris tinha estudada matemtica, idiomas e filosofia grega e latina, mas no medicina. 
E embora os cientistas da poca j conheciam espermatozide como entidade individual, antes que como substncia homognea, me ocorreu que provavelmente no tinham 
a menor ideia de como se comportava. 
      - D onde acreditava que vinham os bebs? - inquiri, depois de lhe informar a respeito de vulos, espermatozides, zigotos e coisas parecidas, todo o qual 
o deixou obviamente vesgo. 
      Olhou-me com bastante frieza. 
      - Eu, granjeiro de toda a vida? Sei exatamente de onde vm - me informou-. O que no sabia era... n... que havia tanto animao. Acreditava que... pois... 
que o homem plantava sua semente no ventre da mulher e que ali... pois... crescia. Como qualquer semente. Nabos, milho, meles e coisas assim. Ignorava que nadassem 
como girinos. 
      -Compreendo. - Esfreguei-me o nariz com um dedo, tratando de no rir-. Desde a essa classificao agrcola das mulheres entre frteis ou estreis. 
      - Hum. - Desprezou isso com um gesto. Ainda olhava, carrancudo, a platina lhe bulam-. Uma semana, h dito. portanto realmente sim  possvel que o pequeno 
seja filho do Astuto. 
      A essa hora to temprana demorei como segundo meio em saltar da teoria s aplicaes prticas. 
      - Ah, refere ao Jemmy? Sim,  muito possvel que seja filho do Roger. - Ele e Bonnet tinham tido contato sexual com a Brianna com dois dias de diferena -. 
 o que te disse. E tambm a ela. 
      Ele assentiu com ar distrado. Logo se meteu o resto da torrada na boca. Enquanto mastigava se inclinou para olhar outra vez. 
      - me diga, so distintos? os de um homem se podem distinguir dos de outro?
      - N... pelo aspecto no. - Agarrei minha taa para beber um sorvo de ch, desfrutando de seu delicado perfume. - Mas sim que so diferentes; cada um  portador 
das caractersticas que cada homem passa a sua prole. 
      No era prudente passar dali; j o tinha confundido muito ao lhe descrever a fertilizao; lhe explicar o que eram gens e os cromossomos, podia ser excessivo. 
      - Mas as diferenas nem sequer se vem com o microscpio.
      Ele tragou seu bocado com um grunhido e endireitou as costas. 
      - E para que est olhando?
      - Por curiosidade. - Assinalei a srie de frascos e copos de precipitao alinhados na encimera. - Queria ver que resoluo tinha o microscpio, que tipo de 
coisas se podiam ver com ele. 
      - Se? E agora o que? Quer dizer, para que o quer?
      - Pois para diagnosticar com mais preciso. Se coxo uma amostra dos excrementos de uma pessoa, por exemplo, e vejo que tem parasitas intestinais, saberei melhor 
que remdio lhe dar. 
      - Sim, tem sentido. Bem, segue com o teu. 
      Deu-me um beijo fugaz e partiu para a porta, mas se voltou antes de sair. 
      - Oua, os... hum.. espermatozides - disse, com certo sobressalto. 
      - Sim? 
      - No pode lev-los fora e lhes dar sepultura decente ou algo assim? 
      Escondi um sorriso em minha taa de ch. 
      Cuidarei-os bem - lhe prometi -. como sempre.
      
      
      
      
      Ali estavam. Caules escuros, terminados em esporos em forma de bastoncillos, densos contra o fundo claro do campo visual do microscpio. Confirmao. 
      - Tenho-os. 
      Ergui-me para me esfregar lentamente a cintura, enquanto observava meus preparados. Junto ao microscpio havia trs platinas, cada uma com uma mancha escura 
no centro e um cdigo escrito na esquina, com um trocito de cera. Eram amostras de mofo, tiradas de po de milho mido, bolachas passadas e a casca de um bolo que 
sobrou do Hogmanay. Com diferena, o melhor cultivo era o do trocito de casca, por efeito da graxa de ganso, sem dvida. 
      Das diferentes prova que tinha realizado, estas trs eram as que continham maior proporo do Penicillium... ou do que parecia s-lo. No po molhado brotavam 
quantidade de mofos, alm de vrias cepas diferentes de penicillium, mas as amostras escolhidas por mim continham o mais parecido s ilustraes de esporofitos que 
mostravam meus livros de texto de anos atrs, da outra vida. 
      S terei que confiar em que no me falhasse a memria... e que as cepas de mofo ali pressente figurassem entre aquelas que produziam maior quantidade de penicilina; 
que eu no  tivesse introduzido inadvertidamente  alguma bactria virulenta na mescla e que... Cabia esperar muitas coisas, mas chega um momento em que se abandona 
a esperana pela f e se confia no destino antes que na caridade. 
      Na encimera se alinhavam vrias terrinas de caldo, cada um talher com uma parte de musselina para evitar que algo casse dentro. Alguns dos cultivos tinham 
prosperado; outros no. Um par de terrinas apresentavam grumos peludos de cor verde escura, que flutuavam sob a superfcie como sinistras bestas marinhas. Havia 
alguns intrusos: musgo, bactrias ou talvez uma colnia de algas, mas o precioso Penicillium brilhava por sua ausncia. 
      Alguns dos meninos tinha derrubado uma terrina; Adso derrubou outro, enlouquecido pelo aroma de caldo de ganso, e lambeu o contedo, com mofo e tudo, dando 
amostras de desfrut-lo. Obviamente, em esse no havia nada txico. Joguei uma olhada ao gatinho, que dormitava no cho, acurrucado em um atoleiro de sol; era a 
imagem viva de um sonolento bem-estar. 
      No obstante, trs das terrinas restantes apresentavam  na superfcie um esponjoso veludo azul. Ao examinar uma amostra de um deles, confirmei que tinha obtido 
o que procurava. O mofo, por si mesmo, no era um antibitico, mas sim a substncia clara que segregava, como amparo contra o ataque das bactrias. Essa substncia 
era a penicilina, e era o que eu desejava. 
      Assim o tinha explicado ao Jamie, que me observava de um tamborete, enquanto eu filtrava o caldo de outro cultivo em uma parte de gaze. 
      - Assim a tem caldo mijado pelo mofo, no  assim?
      - Se insistir em expressar o desse modo, sim. - Olhei-o severamente. Logo recolhi a soluo filtrada para distribui-la em vrios botes de barro. 
      Ele insistiu, satisfeito por hav-lo interpretado bem. 
      - E os pise em do mofo so o que curam a enfermidade, no?  razovel. 
      - Parece-te?
      - Se usar outros tipos de mijadas como remdio, por que no? - disse-me assinalando o grande registro negro, que eu tinha deixado aberto na encimera detrs 
apontar a ltima srie de experimentos. Ele se tinha entretido lendo algumas das pginas anteriores, escritas pelo doutor Daniel Rawlings, antigo proprietrio do 
livro. 
      -  possvel que Daniel Rawlings as usasse. Eu no. - Como tinha as mos ocupadas, mostrei a pgina aberta com o queixo-. Para que as usava? 
      - " Electuario para o tratamento do escorbuto"  - leu, seguindo com o dedo as pulcras linhas do Rawlings -. "  Duas cabeas de alho trituradas com seis rabanetes 
picantes, ao que se adiciona Blsamo do Peru e dez gotas de mirra, composto este que se mescla com as guas de um menino varo, para ser convenientemente bebido. 
" 
      - Salvo pelo ltimo, parece um condimento bastante extico - comentei, divertida-. Com que ira melhor? Lebre escabechada? Guisado de vitela? 
      - No, a vitela tem um sabor muito suave para combin-la com o rabanete picante. Panela de cordeiro, possivelmente - replicou -. O cordeiro suporta algo. - 
Sua lngua percorreu distradamente o lbio superior-. por que de um menino varo, Sassenach?  encontrei a meno em outras receitas. No Aristteles e tambm em 
outros filsofos antigos. 
      Comecei a limpar minhas platinas. 
      -  mais fcil de recolher a urina de um menino varo que a de uma menina; bastaria-te provando uma vez. Embora parea mentira, a urina dos bebs vares  
muito limpa, sem que chegue a ser completamente estril. Possivelmente os antigos filsofos notaram que obtinham melhores resultados quando a incluam em suas frmulas, 
porque era mais limpa que a gua potvel que se recolhia dos aquedutos pblicos, poos artesianos e stios  similares. 
      - Quando diz estril no te refere a que no possa reproduzir-se, mas sim no contm grmenes, verdade? - Jogou uma olhada receosa ao microscpio. 
      - Sim. Quer dizer... os grmenes no podem reproduzir-se porque no h nenhum. 
      Uma vez limpa a mesa de trabalho, excetuando o microscpio e as terrinas de caldo de penicilina (ao menos, era de esperar que isso contiveram), iniciei os 
preparativos para a operao: baixei meu pequeno estojo de instrumentos cirrgicos e extra do armrio uma grande garrafa de lcool de cereais. 
      O entreguei ao Jamie, junto com o pequeno aquecedor que me tinha fabricado: uma garrafa de prova vazia, por cuja cortia passava uma mecha de linho retorcido 
e encerado. 
      - me encha isto, quer? Onde esto os meninos?
      - Na cozinha, embebedando-se. - Verteu cuidadosamente o lcool, franzindo as sobrancelhas em um gesto de concentrao. - Com que a urina das meninas no  
poda?  Ou s mais difcil de obter? 
      - No, em realidade no  to limpa como a dos vares.    
      Sobre um pano limpo estendido na encimera distribu dois bisturis, um par de frceps de extremo comprido e vrios cauterios pequenos. Rebusquei no armrio 
at desenterrar um punhado de plugues de algodo. Embora o pano de algodo era terrivelmente custoso, tinha tido a sorte de que a esposa do Facquard Campbell me 
trocar um saco de flocos crudos por um frasco de mel. 
      - poderia-se dizer que o... hum... o caminho para o exterior no  to direto, de modo que a urina tende a recolher bactrias e refugos de entre as dobras 
da pele. - Olhei-o por cima de meu ombro, sorridente. - Mas isso no o autoriza a considerar-se superiores. 
      - Nem me sonh-lo assegurou. - J est preparada, Sassenach?
      - Se. V a por eles.  Ah, e traz a bacia!
      Quando saiu me voltei para a janela que dava a Levante. Durante a vspera tinha nevado intensamente, mas agora tnhamos um bom dia, luminoso e frio. No podia 
pedir nada melhor: necessitava toda a luz possvel. No era uma operao difcil; j a tinha praticado vrias vezes, mas nunca em algum que estivesse bem sentado 
e consciente. Isso sempre trocava as coisas.
      Alm disso levava vrios anos sem faz-lo. Fechei os olhos para recordar, visualizando os passos a  seguir; os msculos de minha mo se contraam apenas, como 
eco de meus pensamentos, antecipando-se aos movimentos que deveria fazer. 
      - Que Deus me ajude - sussurrei, enquanto me fazia o sinal da cruz. 
      Pisadas em inseguras, risitas nervosas e a voz grave do Jamie no corredor. Voltei-me para saudar meus pacientes com um sorriso. 
      Um ms de boa alimentao, roupa poda e camas quentes tinham melhorado enormemente aos Beardsley, tanto em sade como em aspecto. Ainda eram midos, fracotes 
e algo patizambos, mas os ocos da cara lhes tinham recheado um pouco, o cabelo escuro era mais suave e seus olhos tinham perdido em parte a expresso de acossada 
desconfiana. 
      Em realidade, ambos os pares de olhos escuros estavam nesses momentos algo frgeis. Lizzie teve que sujeitar ao Keziah por um brao para que no tropeasse 
com um tamborete. Jamie, que tinha ao Josiah bem obstinado pelo ombro, guiou-o para mim. Logo baixou o molde para pudins que trazia sob o brao. 
      - Est bem? - Olhei-o ao fundo dos olhos, com um sorriso reconfortante, e a apertei o brao. 
      Ele tragou saliva com dificuldade. O sorriso com que me respondeu era horripilante; no estava to brio como para no sentir medo. Fiz que se sentasse, sem 
parar de falar para tranqiliz-lo; depois de lhe rodear o pescoo com uma toalha, deposite a bacia sobre seus joelhos. Oxal no a deixasse cair; era de porcelana 
e quo nica servia para fazer pudins. Para minha surpresa, Lizzie lhe aproximou por detrs e  lhe ps  as mos nos ombros. 
      - Quer ficar, Lizzie? - perguntei, dbia. - Acredito que podemos nos arrumar perfeitamente. 
      Jamie estava acostumado ao sangue e a todo tipo de aougues, mas Lizzie no devia ter visto nada, alm das enfermidades tpicas e um ou dois partos. 
      - OH, no, senhora. Ficarei. - Ela tambm tragou saliva, mas afirmou com valentia a pequena mandbula. - Prometi ao Jo e ao Kezzie  que os acompanharia desde 
o comeo at o fim. 
      Olhei ao Jamie; ele se encolheu imperceptivelmente de ombros. 
      - Pois adiante. 
      Enchi duas taas com o caldo que continha penicilina e lhe dava uma a cada gmeo, para que o bebessem. Era provvel que os cidos estomacais rebatessem a maior 
parte da penicilina, mas eu esperava que matasse as bactrias da garganta. depois da operao outra dose sobre a superfcie em carne viva poderia evitar a infeco. 
      No havia maneira de saber exatamente quanta penicilina havia no caldo;  possvel que lhes tivesse dado dose enormes ou possivelmente fossem muito pequenas 
para causar algum efeito. Pelo menos estava razoavelmente segura de que a droga do caldo estava ativa. 
      No havia mdios para estabilizar o antibitico nem para saber quanto tempo duraria suas propriedades, mas como estava fresco, a soluo tinha que atuar. E 
era possvel que o resto do caldo fora til durante alguns dias mais. 
      Prepararia mais cultivos assim que tivesse terminado a operao; com um pouco de sorte poderia administrar a medicao aos gmeos com regularidade durante 
trs ou quatro dias. E se a fortuna nos acompanhava, desse modo evitaria qualquer infeco. 
      - Ah, com que isso se pode beber, n? - Jamie me estava observando por cima do Josiah. 
      Uns anos antes eu lhe tinha injetado penicilina por causa de uma ferida de bala; obviamente, agora pensava que o tinha feito por puro sadismo. Sustentei seu 
olhar. 
      - pode-se, mas a penicilina injetvel  muito mais efetiva, sobre tudo em casos de infeco declarada. Neste momento no tenho como injet-la. E no a estou 
aplicando para curar uma infeco, a no ser para evitar a possibilidade. E agora, se j estivermos preparados... 
      Espera que Jamie sujeitasse a meu paciente, mas tanto Lizzie como Josiah insistiram em que no seria necessrio. O moo se manteria imvel, passasse o que 
acontecesse. Lizzie seguia lhe estreitando os ombros, at mais plida que ele, com os ndulos recortados em branco.
      - Preparado? - perguntei 
      O depresor de lngua, feito com uma parte de madeira de fresno, lhe impedia de falar, mas emitiu um grunhido que interpretei como assentimento. 
      Teria que ser rpida e fui. Se os preparativos tinham requerido horas inteiras, a operao s levou um minuto. Sujeitei com os frceps uma amdala vermelha 
e esponjosa, estirei-a para mim e realizei vrios cortes rpidos, separando diestramente as capas de malha. Da boca do menino surgia um fio de sangue que corria 
por sua mandbula, mas no era nada srio. 
      Retirei o grumo de carne e, depois de jog-lo na bacia, sujeite a outra amdala, com a que repeti o processo; o fato de trabalhar com a mo inclinada para 
trs me atrasou muito pouco. 
      Todo aquilo no durou mais de trinta segundos por cada lado. Quando retirei os instrumentos da boca do Josiah, ele me olhou com os olhos dilatados, atnito. 
Logo tossiu e se inclinou para diante para arrojar outra pequena parte de carne  bacia, acompanhado por certa quantidade de sangue muito vermelho. 
      O assim pelo nariz para lhe jogar a cabea atrs. depois de lhe encher a boca de algodo a fim de que absorvesse o sangue e me permitisse ver, agarrei um pequeno 
cauterio e o apliquei aos copos sangneos maiores; os mais pequenos se fechariam por si s.
      Os olhos lhe lacrimejavam ferozmente e suas mos aferravam a bacia com rigidez mortal, mas no se moveu, nem emitido queixa alguma. Era o que eu esperava, 
depois de hav-lo visto quando Jamie lhe tirou a marca do polegar. Lizzie seguia lhe estreitando os ombros, com os olhos bem fechados. Ao lhe tocar Jamie o cotovelo, 
abriu-os sbitamente. 
      - J esta, a muirninn. terminou. leve-lhe isso e faz que se deite, n?
      Mas Josiah se negou. To mudo como seu irmo, sacudiu violentamente a cabea e ocupou um tamborete. Ali ficou, embora plido e cambaleante. Com os dentes delineados 
em sangue, dedicou a seu irmo um horrendo sorriso. 
      Lizzie rondava entre os dois gmeos, vacilando entre um e outro. Jo lhe assinalou com firmeza ao Keziah, que tinha ocupado o tamborete dos pacientes. Exteriormente 
demonstrava fortaleza, com o queixo erguido. Lhe deu uns tapinhas  cabea e foi estreitar os ombros do Keziah. O se voltou a olh-la, com um sorriso de notvel 
doura, e lhe beijou a mo. Logo fechou os olhos e abriu a boca; parecia um pintinho pedindo vermes. 
      Essa operao foi algo mais complicada, pois suas amdalas e adenoides estavam muito engrossadas  e danificadas pela infeco crnica. Saiu muito sangue; tanto 
a toalha como meu avental ficaram completamente manchados antes de que eu terminasse. depois de lhe cauterizar as feridas observei atentamente a meu paciente, que 
estava to branco como a neve e com os olhos frgeis. 
      - Encontra-te bem? - perguntei-lhe. 
      No podia me ouvir, mas minha expresso preocupada foi bastante clara. Torceu a boca no que pareceu um galhardo esforo por sorrir. Quis assentir com a cabea, 
mas ps os olhos em branco e se deslizou do tamborete a meus ps, com grande estrondo. Jamie apanhou a bacia no ar com bastante destreza. 
      Pensei que Lizzie tambm se deprimiria, pois havia sangue por toda parte. Na verdade se cambaleou um poquito, mas obedeceu minha ordem de sentar-se junto ao 
Josiah. Lhe estreito a mo com firmeza, enquanto Jamie e eu recolhamos os fragmentos. 
      Jamie elevou ao Keziah, lao e ensangentado como a vtima de um homicdio. Seu irmo se levantou, fixos os olhos ansiosos no corpo inconsciente de seu irmo. 
      - Tudo sair bem - assegurou Jamie, em tom de absoluta confiana.- Como te hei dito, minha mulher  uma grande curadora. 
      E todos se voltaram a me olhar com um sorriso; Jamie, Lizzie e Josiah. Tive a impresso de que correspondia agradecer com uma reverncia, mas me contente sorrindo 
tambm. 
      - Tudo sair bem, sim - disse, imitando ao Jamie. - Agora vo descansar.
      A pequena procisso abandonou o consultrio de uma maneira mais silenciosa que a sua chegada, enquanto eu guardava meus instrumentos e limpava tudo. 
      Sentia-me muito feliz, iluminada pela serena satisfao que acompanha a um trabalho obtido. Levava muito tempo sem fazer algo assim; as exigncias e limitaes 
do sculo XVIII impediam qualquer operao cirrgica, salvo aquelas que se praticavam em casos de emergncia. Ao no contar com anestesia nem antibiticos, a cirurgia 
era muito difcil e perigosa. 
      Mas agora tinha ao menos penicilina. E tudo sairia bem, sim, disse-me, cantarolando para meus adentros enquanto apagava a chama do aquecedor. Tinha-o percebido 
na carne dos moos, ao toc-los enquanto operava. Nenhum germe os ameaaria, nenhuma infeco deveria arruinar o esmero de meu trabalho. Na prtica da medicina, 
a sorte sempre contava, mas esse dia as probabilidades estavam de minha parte. 
      - Tudo sair bem - repeti para o Adso, que lambia concentrado uma das terrinas vazias -. E tudo sair bem. E todo  tipo de coisas sair bem. 
      O grande registro negro seguia aberto na encimera, ali onde Jamie o tinha deixado. Procurei as ltimas pginas, onde tinha pontudo o desenvolvimento de meu 
experimento, e agarrei a pluma. depois do jantar descreveria os detalhes da operao. No momento... Fiz uma pausa. Logo escrevi ao p da pgina: " Eureca!" 
                  
      

      37
      
      A visita do correio
      
      
      Em meados de fevereiro Fergus fez sua viagem bimensal ao Cross Creek, de onde retornou com sal, agulhas, anil, outros elementos imprescindveis e uma bolsa 
cheia de correspondncia. Chegou no meio da tarde, to desejoso de reencontrar-se com o Marsali que apenas ficou o suficiente para beber um tigela de cerveja antes 
de ir-se. Brianna e eu ficamos classificando os pacotes e nos regozijando ante tanta riqueza. 
      Havia um monto de peridicos publicados no Wilmington e New Bern; tambm uns quantos da Filadelfia e Boston, que os amigos do norte enviavam a Yocasta Cameron 
e ela nos reenviava depois. Folheei-os; o mais recente datava de trs meses atrs, mas no importava, nesse lugar, onde o material de leitura era literalmente mais 
escasso que o ouro, os peridicos eram como novelas. 
      Yocasta tinha enviado tambm, para a Brianna, dois nmeros do livro Brigham para a dama, uma publicao peridica com desenhos da moda elegante de Londres 
e artigos de interesse para as mulheres que tivessem esses gostos. 
      - " Como limpar o encaixe de ouro" - leu Brianna ao azar, com uma sobrancelha arqueada-. Isso  algo que todo mundo deveria saber, sem duvid-lo.
      - Olhe as pginas de atrs - lhe aconselhei-. Ali  onde publicam os artigos sobre como evitar o contgio de gonorria e o que fazer com as hemorroides de 
seu marido. 
      A outra sobrancelha subiu tambm; parecia-se com o Jamie quando lhe apresentava alguma proposta extremamente questionvel. 
      - Se meu marido me contagiasse a gonorria, teria que ocupar-se de seus hemorroides por si s. - Passou umas quantas pginas, arqueando as sobrancelhas cada 
vez mais -. " Incentivo para Vnus. Uma lista de remdios infalveis para a fadiga do membro viril. " 
      Apareci em olhar por cima de seu homem, arqueadas minhas prprias sobrancelhas. 
      - Por certo, onde est Jemmy?
      - Dormindo... ao menos isso acredito. - Jogou um olhar suspicaz ao teto. Como no se ouvisse nenhum rudo funesto, continuou lendo. 
      Voltei para a correspondncia, deixando que continuasse com seu fascinante estudo. 
      Havia um pacote dirigido ao Jamie que parecia ser um livro; enviava-o uma livraria da Filadelfia, mas levava o selo de lorde John Grei: uma mancha de cera 
azul, caprichosamente marcada com uma medialuna sorridente e uma s estrela. A metade de nossa biblioteca provinha do John Grei, quem assegurava que nos enviava 
isso para sua prpria satisfao, pois alm do Jamie, no conhecia nas colnias a outra pessoa capaz de manter uma discusso decente sobre literatura. 
      Tambm havia vrias cartas dirigidas a ele; inspecionei-as uma a uma, com a esperana de ver a caracterstica letra bicuda de sua irm, mas no houve sorte. 
Uma era do Ian, que nos escrevia fielmente uma vez ao ms. Do Jenny, nada; no tnhamos tido notcias dela nos seis ltimos meses, desde que Jamie lhe escrevesse, 
relutante, para lhe informar do destino de seu filho menor. 
      - Como , Jenny Murray - murmurei pelo baixo-. Perdoa-o e acabemos de uma vez!
      - Hum? - Brianna tinha deixado o peridico para examinar uma carta quadrada, com o sobrecenho enrugado. 
      - Nada, nada. O que tem a? - Deixei as que eu tinha estado classificando para me aproximar de ver.
      -  do tenente hayes, Para que ter escrito?
      Uma pequena descarga de adrenalina me esticou o estmago. Deveu notar-se em minha despreparada cara, pois Brianna deixou a carta para me olhar, franzindo as 
sobrancelhas.
      - O que aconteceres? - inquiriu. 
      - Nada. 
      Mas j era muito tarde. Ela me olhava com um punho parecido no quadril e uma sobrancelha arqueada. 
      - Que mal memore, mame! - disse, tolerante. E sem vacilao alguma, rompeu o selo. 
      - Est dirigida a seu pai - assinale, embora meu protesto carecia de fora. 
      - Sim. A outra tambm - replico ela,  com a cabea inclinada sobre a folha. 
      - Qual? - Mas minta lhe perguntava, aproximei-me de ler junto a ela. 
      
      Tenente Archibald Hayes
      Postmouth, Virginia
      Senhor James Fraser
      Colina de Frase, Carolina do Norte
      18 de janeiro de 1771
      
      Senhor:
      Escrevo-lhe para lhe informar que  presente estamos no Portsmouth, onde provavelmente deveremos permanecer at a primavera. Se conhecer voc a algum capito 
de mar que esteja disposto a brindar passagem ao Perth para quarenta homens, com a promessa de ser recompensado pelo Exrcito, uma vez que cheguemos a porto, muito 
lhe agradeceria que me fizesse saber isso a sua mais breve comodidade.
      Enquanto isso, aplicamos a diversos trabalhos, a fim de poder nos manter durante os meses de inverno. Vrios de meus homens conseguiram emprego na reparao 
de navios, que aqui  abundante. Por minha parte, desempenho-me como cozinheiro em um botequim local, mas procuro tempo para visitar regularmente a meus homens, 
nos diferentes alojamentos nos que esto distribudos, com o propsito de me inteirar de seu estado. 
      Faz duas noites visitei uma dessas penses. No curso da conversao um dos homens (o recruta Ogilvie, a quem voc recordar) repetiu-me uma conversao que 
tinha ouvido casualmente no estaleiro. Como se referia a certo Stephen Bonnet, em quem est voc interessado, segundo lembrana, transmito-lhe aqui o que soube a 
respeito. Conforme os informe, Bonnet parece ser contrabandista, ocupao nada estranha nesta zona. Entretanto, parece traficar com mercadoria de maior qualidade 
e em maior quantidade que as habituais. Como conseqncia, a natureza de suas vinculaes tambm parece ser fora do corrente. Isto implica que certos depsitos da 
costa da Carolina contm periodicamente mercadorias de caractersticas que, pelo general, no se encontram ali, e que essas visitas coincidem com os avistamientos 
do Stephen Bonnet nos botequins e casas de jogo clandestino prximos. 
      O recruta Ogilvie guarda pouca memria dos nomes especificamente ouvidos, pois no tinha conhecimento de que se tivesse interesse no Bonnet; se me mencionou 
o assunto foi s como informao curiosa. Um dos homens mencionado era " Butler" , conforme diz, mas no pode assegurar que esse sobrenome tivesse alguma relao 
com o Bonnet. Outro nome era " Karen" , mas o recruta no sabe se corresponder a uma mulher ou a um navio.
      O depsito que, segundo ele supe,  o que se mencionou na conversao de referncia (embora admita francamente no estar seguro disso) encontra-se por acaso 
a no muita distncia do estaleiro. Quando ele me teve informado desses conhecimentos, ocupei-me de passar frente a esse edifcio e fazer averiguaes quanto a seus 
donos. O edifcio  propriedade conjunta de dois scios: um tal Ronald Priestly e um tal Phillip Wylie. No momento no possuo infamacin alguma concernente a um 
ou outro, mas continuarei investigando segundo me permita isso o tempo de que disponho. 
      Tendo descoberto o mencionado, fiz um esforo por cercar conversao sobre o Bonnet nos botequins locais, pr com pouco xito. diria-se que o nome  conhecido, 
mas que poucos desejam falar dele. 
      Seu muito seguro servidor, 
      
      
      Archibald Hayes, tenente
      67 Regimento das Terras Altas
      
      
      Ainda nos envolviam os rudos normais da casa, mas Bree e eu parecamos nos encontrar em uma pequena borbulha de silncio, onde o tempo se deteve abruptamente. 
      Resistia a deixar a carta, pois isso faria que o tempo voltasse a correr. E ento deveramos fazer algo. Mas de uma vez no desejava s deix-la, a no ser 
arojarla ao fogo e fingir que nenhuma das duas a tinha visto. 
      Nesse momento Jemmy rompeu a chorar no piso alto; Brianna reagiu com um coice e foi para a porta. Tudo voltou para seu leito normal. 
      Deixei a carta no escritrio, separada das outras, e continuei classificando o resto da correspondncia, para que Jamie a atendesse depois, empilhei pulcramente 
os peridicos e as publicaes e desatei o pacote. Tal como eu supunha, era um livro: A expedio do Humphrey Clinker, do Tobas Smollett. Enrole a corda para me 
guardar isso no bolso. Durante todo esse tempo, no fundo de minha mente ressonava um pequeno " Agora-o que, agora-o que!" , como um metrnomo. 
      Brianna retornou trazendo para o Jemmy, que estava avermelhado e com as marcas da sesta na cara; obviamente, seu estado de nimo era o de quem acordada do 
sonho a uma aturdida irritao pelas molestas exigncias da vida consciente. Sabia como se sentia. 
      Bree tomou assento e se abriu a camisa para lhe dar de mamar. Os prantos cessaram como por arte de magia. Experimentei um momento de intensa melancolia por 
no ser capaz de fazer por ela um pouco igualmente efetivo. A via plida, mas inteira. 
      Terei que dizer algo. 
      - Sinto muito, querida - disse-. Tratei de impedir-lhe refiro ao Jamie. Sei que ele no queria que se inteirasse; no queria preocupar-se. 
      - No importa. J sabia. 
      Com uma s mo, retirou um dos livros de contabilidade da pilha que Jamie tinha sobre o escritrio e o sacudiu pelo lombo para fazer cair uma carta dobrada. 
      - Olhe isso. Encontrei-a enquanto viajavam com a tropa. 
      Ao ler o relato que lorde John fazia do duelo entre o Bonnet e o capito Marsden senti algo frio debaixo do esterno. Embora no me fazia iluda sobre o carter 
do Bonnet, ignorava que fora to hbil. Sempre preferi que os criminosos perigosos sejam ineptos. 
      - Pensei que era a resposta e lorde John a uma pergunta casual de papai, mas vejo que no. O que opina voc? - pergunto Bree. Olhei-a com ateno. 
      - O que opina voc? - A meu modo de ver, a pessoa mais importante em todo aquilo era Brianna. 
      - Sobre o que? - Ela apartou os olhos de meus para a carta, logo para a cabea do menino. 
      - Pois... sobre o preo do ch na China, para comear - exclamei, com certa irritao -. Mas passemos agora ao tema do Stephen Bonnet, se no te incomodar. 
      Resultava estranho pronunciar esse nomeie em voz alta; todos o tnhamos evitado durante meses, por acordo tcito. Ela se mordeu o lbio inferior. Manteve a 
vista cravada no cho um instante. Depois moveu muito levemente a cabea. 
      - No quero ouvir falar desse homem. Nem pensar nele - disse, sem alterar-se -. E se voltasse a v-lo, poderia... poderia... - estremeceu-se violentamente. 
Logo levantou os olhos para mim, com brusca ferocidade, exclamando -: O que lhe passa? como pde fazer isto? 
      E descarregou o punho contra sua coxa. Jemmy, sobressaltado, soltou o peito e comeou a chorar. 
      - Refere a seu pai, no ao Bonnet.
      Ela assentiu, estreitando novamente ao Jemmy contra o peito, mas o menino tinha percebido sua agitao e se retorcia. Inclinei-me para agarr-lo e me apoiei 
isso contra o ombro, consolando-o com tapinhas nas costas. As mos do Bree, j vazias, cravaram-se em seus joelhos e enrugaram o tecido da saia. 
      - por que no deixa ao Bonnet em paz? - Teve que elevar a voz para fazer-se ouvir por cima do pranto do beb. Os ossos de sua cara pareciam ter trocado de 
posio, pelo tensa que estava a pele sobre eles. 
      - Porque  homem... e, alm disso, escocs das Terras Altas - disse -. Em seu vocabulrio no figura a expresso " Vive e deixa viver" . 
      O leite gotejava do mamilo  camisa. Ela se cobriu o peito com uma mo e pressionou para det-la. 
      - Mas o que pensa fazer se o encontra?
      - Quando o encontrar - corrigi a contra gosto -. Muito me temo que no deixar de busc-lo. Quanto ao que far ento... pois bem... suponho que o matar. 
      Dito desse modo adquiria um tom despreocupado, mas na verdade no havia outra maneira de express-lo. 
      - Tratar de mat-lo, querer dizer. - Ela  olhou a carta de lorde John e tragou saliva -.E se ele...?
      - Seu pai tem muita experincia quanto a matar - disse tristemente -. Para falar a verdade,  muito  destro nisso... embora faz tempo que no o faz.
      Isso no pareceu tranqiliz-la muito. Tampouco  a mim. 
      - Amrica  to grande... - murmurou, movendo a cabea -. por que no se comprido, simplesmente?
      Excelente pergunta. Jemmy soprava, esfregando furiosamente a cara contra meu ombro, mas tinha deixado de gritar. 
      - Eu tinha a esperana de que Stephen Bonnet tivesse o bom tino de ir fazer contrabando na China ou nas ndias Ocidentais. Mas suponho que tem vinculaes 
aqui e no quis as abandonar. - encolhi-me de ombros. 
      Brianna alargou os braos para o menino, que seguia retorcendo-se como uma enguia. 
      - depois de tudo, ele no sabe que lhe seguem a pista Sherlock Fraser e seu companheiro lorde John Watson. 
      Foi um bom intento, mas lhe tremiam os lbios ao diz-lo e voltou a morder-lhe Embora me doa lhe causar mais preocupaes, j no tinha sentido evitar o tema. 
      - No, mas  muito provvel que se inteire logo - disse, a contra gosto -. Lorde John  muito discreto, mas o recruta Ogilvie no. Se Jamie contnua fazendo 
perguntas (e muito me temo que assim ser) no passar muito tempo sem que todo mundo saiba de seu interesse. 
      Ignorava se Jamie queria descobrir logo ao Bonnet e agarr-lo despreparado... ou se seu plano consistia em provocar, mediante suas perguntas, que o homem sasse 
a cara descoberta. Possivelmente tinha a inteno de chamar deliberadamente a ateno do Bonnet para que ele viesse a ns. Essa ltima possibilidade me afrouxou 
os joelhos; tive que me sentar pesadamente no tamborete. 
      Brianna aspirou fundo, lentamente, e exalou o ar pelo nariz; logo ficou o beb ao peito. 
      - Roger sabe? Est a par desta... desta maldita vingana?
      - Acredito que no - respondi -. Em realidade, estou segura. Do contrrio lhe haveria isso dito, verdade?
      Sua expresso se abrandou um pouco, embora em seus olhos ficava uma sombra de dvida. 
      - Detesto pensar que poderia me ocultar algo assim. Ao fim e ao cabo - acusou com voz mais seca -, voc me ocultou isso. 
      Apertei os lbios ao receber o aguijonazo. 
      - Disse que no queria pensar no Stephen Bonnet - observei, apartando a vista das turbulentas emoes que se refletiam em sua cara -.  natural. Eu... no 
queramos te obrigar a record-lo. 
      Com certa sensao de coisa inevitvel, ca na conta de que me estava deixando arrastar pelo torvelinho das intenes do Jamie, sem consentimento por minha 
parte. Ergui-me no tamborete para lhe cravar um olhar enrgico. 
      - Oua, tampouco me parece boa idia procurar o Bonnet, fiz quanto pude para dissuadir a seu pai. Mais ainda - acrescentei melancolicamente-, acreditava hav-lo 
conseguido. Ao parecer, no  assim. 
      Uma expresso decidida endurecia a boca da Brianna. acomodou-se melhor na cadeira. 
      - Pois eu o dissuadirei, sim - assegurou. 
      Joguei-lhe um olhar reflexivo. Se existia algum com tanta teima e tanta fortaleza para desviar ao Jamie do caminho eleito, essa era sua filha. Mesmo assim 
no havia nenhuma segurana. 
      - Pode tent-lo - disse, com certa dvida. 
      - No tenho direito? - Desaparecido o horror inicial, suas faces estavam novamente sob controle, frite e duras -. No sou eu quem devo dizer se quiser... 
o que quero?
      - Sim - reconheci. Pelo general, todo pai tende a pensar que ele tambm tem direito. E tambm os maridos. Mas possivelmente fora prefervel no dizer nada. 
      Entre ns se fez um silncio momentneo, quebrado s pelos rudos do Jemmy e os grasnidos dos corvos. Quase por impulso formulei a pergunta que me aflorava 
na mente. 
      - O que  o que quer, Brianna? Quer que Stephen Bonnet mora?
      Ela me olhou; logo desviou os olhos para a janela, enquanto dava tapinhas nas costas do Jem. No piscava. Por fim fechou brevemente os olhos e, ao abri-los, 
olhou-me de frente. 
      - No posso - disse, em voz baixa -. Temo que, se permitir que essa ideia entre em minha mente... j no poderei pensar em nada mais, de tanto como o desejo. 
E por nada do mundo permitirei que... ele... arrune-me a vida desse modo. 
      - Sim - continuou, com voz muito fica -. Quero que mora. Mas ainda mais quero a papai e ao Roger vivos. 
      
      
      
      

      38
      
      O momento dos sonhos
      
      
      Tal como se tinha acordado na congregao, Roger foi cantar  bodas do sobrinho do Joel MacLeod e retornou a casa com um novo tesouro, ansioso por registr-lo 
em papel antes de que pudesse escapar 
      depois de tir-las botas cheias de barro na cozinha e aceitar da senhora Bug uma taa de ch e um bolo de uvas passas, subiu diretamente ao estudo. Ali estava 
Jamie, escrevendo cartas. Saudou-o com um murmrio distrado, mas imediatamente voltou para sua composio com uma ruga entre as densas sobrancelhas, tida cibras 
e torpe a mo que sustentava a pluma. 
      No estudo havia uma pequena livraria de trs prateleiras, que continha toda a biblioteca da Colina. As obras srias ocupavam a prateleira superiora, a prateleira 
do meio estava dedicado a leituras mais ligeiras, enquanto que a ltima prateleira continha um exemplar do Dicionrio do Dr. Sam Johnson, os registros do Jamie, 
vrios cadernos de desenho da Brianna e um volume magro, encadernado em pele de carneiro, no que Roger registrava a letra das canes e poemas desconhecidos que 
aprendia em ceilidhs e  beira dos lares. 
      Ocupou um tamborete ao outro lado da mesa que Jamie utilizava como escritrio e cortou uma pluma nova para o trabalho, com muito cuidado; queria que esses 
registros fossem bem legveis. No sabia exatamente para que podia servir essa coleo, mas tinha a avaliao instintiva do erudito gravado pela palavra escrita. 
Embora s fora para seu prprio uso e prazer, gostava de pensar que tambm podia deixar algo  posteridade; por isso se tomava a molstia de escrever com claridade 
e documentar as circunstncias nas que tinha adquirido cada cano. 
      Quando terminou, um quarto de hora depois, com a cabea gratamente vazia, se desperez para aliviar a dor dos ombros. Enquanto esperava a que a tinta se secasse 
para guardar o livro, retirou da ltima prateleira um dos cadernos da Brianna.
      A ela, no lhe incomodaria que o visse; havia-lhe dito que podia faz-lo quando quisesse. Mas ao mesmo tempo s lhe ensinava aqueles desenhos com os que estava 
agradada ou os que fazia especialmente para ele. 
      Passou as pginas do caderno, com essa mescla de curiosidade e respeito que se experimenta ao espiar nos mistrios, desejoso de captar pequenas vises de sua 
mente. 
      Em esse havia muitos esboos do beb. deteve-se observar um, apanhado pela lembrana. Mostrava ao Jemmy dormido, de costas ao observador, com o corpo curvado 
em uma vrgula. A seu lado esta Adso, o gato, acurrucado de maneira similar, com o queixo apoiado no p gordinho do Jemmy; seus olhos, ranhuras de comatosa bem-aventurana. 
Ele  recordava essa cena. 
      Brianna desenhava ao Jemmy com freqncia (em realidade, quase todos os dias), mas estranha vez de frente.
      -  que os bebs no tm cara - lhe havia dito, observando criticamente a sua vergntea, que roa com empecinamiento uma correia de couro. 
      - Que no?  E o que  isso que tm no centro da cabea? - Lhe sorriu do cho, onde estava tendido com o menino e o gato, o qual facilitou que Brianna o olhasse 
com o nariz em alto. 
      - Estritamente falando, digo. Certamente que tm cara, mas todos so parecidos.
      - Sbio  o pai que conhece seu filho, no? - brincou ele. Mas se arrependeu imediatamente ao ver a sombra que nublava os olhos do Bree. Passou com a celeridade 
de uma nuvem no vero, mas mesmo assim tinha existido. Ela afinou o lpis-carvo com a folha de seu canivete. 
      - Do ponto de vista plstico, no - explicou -. No tm ossos visveis. E so os ossos os que se utilizam para dar forma  cara; sem ossos no h muito que 
ver ali. 
      Com ossos ou sem eles, tnia uma notvel habilidade para captar os matizes de expresso. Roger sorriu ante um esboo: a cara do Jemmy tinha a expresso fechada 
e inconfundvel de quem est concentrado na produo de um fralda realmente espantoso. 
      alm dos apontamentos do Jemmy havia vrias pginas que pareciam diagramas de engenharia. Como esses no lhe interessavam muito, guardou o caderno e tirou 
outro. Notou em seguida que no eram apontamentos. As pginas estavam cobertas com a escritura pulcra e angulosa da Brianna. Ele passou as pginas com curiosidade; 
no era um jornal propriamente dito, a no ser um registro de seus sonhos. 
      Ontem  noite sonhei que me barbeava as pernas. 
      Roger sorriu ante a intrascendencia do comentrio, mas ao imagin-las pantorrilhas da Brianna, largas e brilhantes, continuou lendo. 
      Usava a navalha de papai e sua nata de barbear; pensava que ele protestaria ao descobri-lo, mas isso no me preocupava. A nata de barbear vinha em uma lata 
branca com letras vermelhas, que dizia Old Spice na etiqueta. No sei se existiu alguma vez uma nata de barbear assim, mas papai sempre cheirava ao Old Spice j 
defumo de cigarro. Ele no fumava, mas a gente com a que trabalhava sim, e suas jaquetas sempre cheiravam como o salo depois de uma festa. 
      Roger se encheu os pulmes, consciente pela metade dos aromas que recordava; po recm assado, ch, cera para mveis e amnia. Ningum fumava nas decorosas 
reunies que se celebravam no salo da casa solariega; entretanto, as jaquetas de seu pai tambm cheiravam a fumaa. Passou a pgina, com inexprimvel culpabilidade 
por essa intromisso, mas sem poder resistir ao impulso de penetrar na intimidade de seus sonhos, de conhecer as imagens que enchiam sua mente dormida. 
      As notas no tinham data, mas todas comeavam com as mesmas palavras: " Ontem  noite sonhei..." 
      Ontem  noite sonhei que chovia. No  estranho, pois na realidade estava chovendo no amainou em dois dias. Essa manh, quando foi asa letrina, tive que saltar 
por cima de um enorme atoleiro formado junto  porta e me afundei at os tornozelos no stio brando que est junto s amoras. 
      Ontem  noite nos deitamos com a chuva castigando o telhado. Que grato era acurrucarse junto ao Roger, estar abrigada na cama depois de um dia mido e gelado! 
Pela chamin entravam gotas de chuva que vaiavam no fogo. Contamo-nos anedotas de nossa juventude; possivelmente dali surgiu o sonho, de ter pensado no passado. 
      No h muito que contar, salvo que eu olhava por uma janela de Boston; via passar os carros, que levantavam grandes cortina de gua, e ouvia o sussurro de 
suas cobertas na rua molhada. Quando despertei ainda ouvia esse rudo com tanta claridade que fui olhar pela venda; quase esperava me encontrar com uma rua transitada, 
cheia de carros que sussurrassem na chuva. Foi uma surpresa ver piceas, castanhos, ervas silvestres  e trepadeiras, e no ouvir mais que o suave repico das gotas 
que ricocheteavam e se estremeciam nas folhas. 
      Tudo estava to verde, to vioso e crescido, que parecia uma selva ou um planeta estranho, algum lugar que eu no conhecia, no que nada podia reconhecer, 
embora o vejo todos os dias. 
      Passei-me o dia ouvindo o secreto sussurro das cobertas na chuva, algo por detrs de mim. 
      Culpado, mas fascinado, Roger voltou a pgina.
      Ontem  noite sonhei que conduzia meu carro. Era meu Mustang azul. Ia depressa por uma rota lhe serpenteiem, atravs das montanhas; destas. Nunca conduzi por 
estas montanhas, embora sim pelas de Nova Iorque. Mas sabia que estava aqui na Colina. 
      Foi to real! Ainda sinto o cabelo agitado pelo vento, o volante em minhas mos, a vibrao do motor e o rumor das rodas contra o pavimento. Mas essa sensao, 
assim como o carro,  impossvel. J no pode passar em nenhuma parte, salvo em minha cabea. No obstante est ali, incrustada nas clulas de minha memria, to 
real como a letrina ali fora. 
      De qualquer modo, essa parte ( a de conduzir) provm de uma lembrana conhecida. Mas o que tem que os sonhos, igualmente vividos e reais, de coisas que no 
conheo em meu eu acordado? Acaso alguns sonhos so lembranas de coisas que ainda no aconteceram?
      Ontem  noite sonhei que fazia o amor com o Roger. 
      Tinha estado a ponto de fechar o livro, pois essa intromisso o havia sentir-se culpado. Naquele momento, o sentimento de culpa seguia presente, e era muito, 
mas no o suficiente para conter sua crescente curiosidade. Jogou uma olhada nervosa  porta, mas a casa parecia tranqila; as mulheres transportavam na cozinha 
e no se via ningum perto do estudo. 
      Ontem  noite sonhei que fazia o amor com o Roger.
      Foi estupendo. Por uma vez no pensava, no era como se observasse desde fora, como sempre me passava. De fato, durante muito tempo no tive sequer conscincia 
de meu mesma. S existia essa... essa coisa excitante, selvagem. Eu era parte dela e Roger tambm, mas no havia ele ou eu: somente ns. 
      O curioso  que era Roger, mas ao pensar nele eu no lhe dava esse nome. Era como se tivesse outro, um nome secreto, o verdadeiro. E eu o conhecia. 
      (Sempre pensei que todos temos esse tipo de nome, algo que no  uma palavra. Eu sei quem sou eu. E quem quer que seja, no se chama " Brianna" . Sou eu, simplesmente. 
" Eu"  funciona bem como substituto do que quero dizer, mas como escreve o nome secreto de outra pessoa?)
      O fato  que conhecia o verdadeiro nome do Roger; ao parecer, por isso o nosso funcionava. E funcionava de verdade. No o pensei, no me interessou. To somente 
ao final me disse. " N, est acontecendo!" 
      Ento aconteceu; tudo se dissolveu, tremendo e palpitando...
      Ali tinha tachado o resto da linha; na margem havia uma pequena nota cruzada que dizia: 
      depois de todo nenhum dos autores que tenho lido pde tampouco descrev-lo!
      em que pese a sua assombrada fascinao, Roger riu em voz alta. conteve-se imediatamente e jogou um olhar pressuroso a seu redor, para ver se ainda estava 
sozinho. Na cozinha se ouviam rudos, mas nenhum no corredor. Seus olhos voltaram para a pgina como limagens de ferro a um m. 
      No sonho tinha os olhos fechados e esta tendida ali, ainda percorrida por pequenas descargas eltricas. Ao abrir os olhos vi que quem estava dentro de mim 
era Stephen Bonnet.
      Foi uma impresso to forte que despertou. Pensei que tinha gritado, pois tinha a garganta irritada, mas no era possvel; Roger e o menino dormiam profundamente. 
Sentia-me acalorada at o ponto de suar, mas tambm tinha fritou e o corao me palpitava com fora. Passou muito tempo antes de que todo se tranqilizasse o suficiente 
para voltar a conciliar o sonho. Os pssaros cantavam.
      Em realidade foi isso o que me permitiu que dormisse outra vez: os pssaros. Papai (agora que o penso tambm meu outro pai) disse-me que os arrendajos e os 
corvos lanam gritos de alarme quando algum se aproxima, mas as aves cantoras deixam de cantar. portanto, se estiver em um bosque deve estar alerta a isso. Com 
tanto bulcio como havia nas rvores que rodeiam a casa, compreendi que estava a salvo, que ali no havia ningum. 
      Ao p da pgina havia um pequeno espao em branco. Roger passou pgina, com as Palmas suarentas e o pulsar do corao forte em seus ouvidos. A anotao se 
reatava na parte de acima. At ento a escritura tinha sido fluda, quase precipitada, com as letras aplanadas ao correr atravs da pgina. Ali estava formadas com 
mais esmero, redondas e erguidas, como se tivesse passado o primeiro impacto da experincia e ela voltasse a refletir, com teimada cautela. 
      Tratei de esquec-lo, mas no resultou. Aquilo insistia em voltar para minha mente. Por fim sa a ss para trabalhar no abrigo das ervas. Quando vou ali, mame 
se ocupa do Jemmy, para que no estorve isso me assegurava que estaria a ss. Sentei-me em meio de todos esses ramalhetes pendurados, com os olhos fechados, e tratei 
de recordar todos os detalhes. Dos diferentes momentos, pensava: " Isso est bem"  ou " Isso  to somente um sonho"  Porque Stephen Bonnet me assustava; sentia-me 
chateada ao pensar no final, mas em realidade queria recordar como era. O que sentia e como o fiz. Assim talvez possa repeti-lo com o Roger. 
      Mas ainda tenho esta sensao de que no poderei, a no ser que recorde o nome secreto do Roger. 
      Ali termina a anotao. Os sonhos continuavam na pgina seguinte, mas Roger no leu mais. depois de fechar o livro com muito cuidado, voltou a p-lo na prateleira, 
detrs dos outros. Passou um momento de p frente  janela, esfregando inconscientemente as mos suarentas contra as costuras de suas calas. 
      

      QUINTA PARTE
      
      Melhor casados que no inferno
      
      
      39
      
      Na gruta de cupido
      
      
      Crie que compartilharo o leito?
      Jamie no tinha elevado a voz, mas tampouco fez nenhum esforo por baix-la. Por sorte estvamos em um extremo da terrao, onde o casal nupcial no podia nos 
ouvir. No obstante, vrias cabeas se voltaram para ns. 
      Ninian Bell Hamilton nos olhava. Dediquei-lhe um sorriso ao ancio escocs, agitando meu leque fechado a modo de saudao, enquanto dava a meu marido uma cotovelada 
nas costelas. 
      - Bonita coisa para que um sobrinho respeitoso pense de sua tia! - disse-lhe pelo baixo. 
      Ele ficou fora de meu alcance e arqueou uma sobrancelha. 
      - O que tem que ver o respeito com isto? J estaro casados. E os dois cumpriram de sobra a maioria de idade - acrescentou, com um grande sorriso dirigido 
ao Ninian, que se havia posto vermelho por tentar sufocar a risada. Eu ignorava a idade do Duncan Innes, mas lhe calculava uns cinqenta e cinco anos. Quanto a Yocasta, 
a tia do Jamie, devia lhe levar pelo menos dez. 
      por cima das cabeas da multido podia ver a cabea da Yocasta, que aceitava graciosamente as saudaes de amigos e vizinhos ao outro lado da terrao. Era 
uma mulher alta, e levava um vestido de l de cor avermelhada; com uma elegante touca de encaixe branco a modo de coroa sobre a proeminente estrutura ssea dos Mackenzie, 
flanqueavam-na enormes floreiros de pedra com varas de ouro seca; Ulises, o mordomo negro, montava guarda junto a seu ombro, muito digno com sua peruca e seu librea 
verde. Era, inegavelmente, reina-a da Plantao River Run. Pu-me nas pontas dos ps, procurando a seu consorte. 
      At que Duncan era algo mais baixo que Yocasta, tambm teria que ser visvel de ali. Eu o tinha visto antes, vestido com os ornamentos das Terras Altas; seu 
aspecto era deslumbrante, embora muito tmido. Estirei o pescoo, me aferrando do brao do Jamie para no perder o equilbrio. Ele me sujeitou pelo cotovelo. 
      - Que buscas, Sassenach?
      - Ao Duncan. No deveria estar com sua tia?
      A simples vista, nade teria adivinhado que Yocasta era cega, que os grandes floreiros serviam para orient-la e que Ulises estava ali para lhe sussurrar ao 
ouvido o nome de quem se aproximava. Vi que sua mo esquerda subia a tocar o ar vazio e se retirava. No obstante sua cara no se alterou; saudou o juiz Henderson, 
com um sorriso e lhe disse algo. 
      - Pode ter fugido antes da noite de bodas? - sugeriu Ninian, levantando o queixo e as sobrancelhas em um esforo por olhar sobre a multido, sem levantar-se-. 
A mim, em seu lugar, a perspectiva me poria algo nervoso. Sua tia  simptica, Fraser, mas se queria poderia lhe congelar os cojones ao rei do Japo. 
      Jamie contraiu a boca. 
      - Duncan poderia estar em apuros, por qualquer motivo - comentou -. Esta manh foi quatro vezes ao desculpado. 
      Ante isso fui eu quem arqueou as sobrancelhas. Duncan padecia de constipao crnica. De fato eu havia lhe trazido um pacote de folhas de sena e razes de 
cafeto, face aos grosseiros comentrios do Jamie sobre o que se devia dar de presente nas bodas. O noivo devia estar mais nervoso do que eu pensava. 
      - No acredito que suponha nenhuma surpresa para minha tia, que j teve trs maridos - disse Jamie, respondendo a um murmrio do Hamilton -. Para o Duncan, 
em troca, ser a primeira vez. Isto assusta a qualquer. Recordo minha prpria noite de bodas... 
      Olhou-me com um grande sorriso. Eu senti que o calor subia s bochechas. Eu tambm a recordava... muito vividamente. 
      - No crie que faz muito calor aqui? - Desdobrei meu leque em um arco de encaixe cor marfim para agit-lo contra minhas bochechas. 
      - Seriamente? - se estranho ele, sempre sorridente -. No me tinha precavido. 
      - Duncan sim - interveio Ninian. E franziu os lbios enrugados para conter a risada -. A ltima vez que o vi suava como um pudim cozido ao vapor. 
      Aquele dia de maro era claro e luminoso; pela casa, a terrao, o prado e o jardim pululavam os convidados  bodas, luzindo seus ornamentos como mariposas 
fora de temporada. As npcias da Yocasta seriam o acontecimento social do ano, no que  sociedade de Cape Fear concernia. Calculei no menos de duzentos convidados, 
que provinham de stios to distantes como Halifax e Edenton. 
      Ninian baixou a voz para dizer algo ao Jamie, em galico, ao tempo que me olhava de esguelha. Meu marido respondeu com um comentrio de elegante fraseologa, 
mas contido extremamente grosseiro, e me sustentou meigamente o olhar, enquanto o cavalheiro maior se afogava de risada. 
      Em realidade, naquela poca eu entendia o galico bastante bem, mas h ocasies em que mais vale a discrio que o valor. Estendi meu leque para dissimular 
minha expresso. Em realidade se requeria alguma pratica para conquistar a elegncia do leque, mas resultava uma ferramenta social muito til para quem, como eu, 
padecia a maldio de uma cara transparente. No obstante, at os leques tm seus limite. 
      Voltei as costas a essa conversao, que ameaava degenerando ainda mais, e inspecionei os arredores em busca do noivo ausente. Possivelmente Duncan estivesse 
realmente doente, e no s dos nervos. Nesse caso devia lhe jogar uma olhada. 
      - Fedra! Viu esta manh ao senhor Innes?
      A criada da Yocasta, que passava voando carregada de toalhas, deteve-se abruptamente. 
      - No o vi do caf da manh, senhora - respondeu, movendo a cabea, pulcramente coberta por uma touca. 
      - Que aspecto tinha? Comeu bem?
      - No, senhora, nem um bocado. - Fedra enrugou a suave frente, pois estava afeioada com o Duncan. - A cozinheira tratou de tent-lo com um rico ovo revolto, 
mas ele se limitou a mover a cabea. Estava muito plido. Isso sim bebeu uma taa de ponche de rum - acrescentou, como se a idia a animasse um pouco. 
      - Sim isso lhe assentar o estmago - comentou Ninian, que o tinha ouvido. - No se preocupe, senhora Claire; Duncan estar bem. - Fez-me uma reverncia e 
continuou para as mesas instaladas baixo os mastreie. 
      Brianna, radiante com seu vestido azul, como o cu primaveril, estava de p junto a uma das esttuas de mrmore que adornavam o prado, com o Jemmy sobre o 
quadril, enfrascada em sua conversao com o Gerald Forbes, o advogado. Ela tambm levava um leque, mas lhe estava dando um uso melhor que o habitual: Jemmy se tinha 
dado procurao dele e mascava a manga de marfim, com uma expresso de concentrao na carita corada.
      Claro que Brianna no necessitava tanto como eu dominar a tcnica do leque, pois tinha herdado do Jamie a habilidade de esconder todos seus pensamentos depois 
de uma mscara de grata doura. Nesse momento a levava posta; isso me deu uma idia da opinio que lhe merecia o senhor Forbes. E Roger, onde estaria? Algo mais 
cedo o tinha visto com ela. 
      Quando quis perguntar ao Jamie o que opinava sobre essa epidemia de maridos desaparecidos, descobri que ele se contagiou. Jamie tinha desaparecido entre a 
multido. Girei devagar, buscando-o com a vista pela terrao e os prados mas no havia sinais dele entre a multido. Como o fulgor do sol me fazia entreabrir os 
olhos, usei uma mo a modo de viseira. 
      depois de tudo, meu marido no era dos que passam desapercebidos. Como todo escocs com sangue de gigantes vikingos nas veias, era to alto que sua cabea 
e seus ombros apareciam por cima da maioria; seu cabelo captava o sol como bronze gentil. Se por acaso fora pouco, esse dia se ps seus melhores ornamentos: uma 
manta de tartn negro e carmesim, a jaqueta e o colete cinzas e os meias trs-quartos mais vistosos que jamais levassem as pantorrilhas de um escocs. Deveria destacar 
como uma mancha de sangue sobre um algodo limpo. 
      No o via, mas divisei uma cara familiar. Desci da terrao para me abrir passo entre os grupos de convidados. 
      - Senhor MacLenan!
      Ele se voltou para mim com expresso de surpresa, mas imediatamente sorriu cordialmente.
      - Senhora Fraser!
      -Que prazer v-lo! - dava-lhe a mo -. Como est voc'
      Lhe via muito melhor que a ltima vez; limpo e arrumado, com traje escuro e um chapu singelo. Mesmo assim tinha as bochechas afundadas e uma sombra detrs 
dos olhos, que nem sequer desapareceu com o sorriso.
      - Pois... bastante bem, senhora. Bastante bem. 
      - No est...? onde vive agora? - Era mais delicado que perguntar: Como  que no est no crcere? Como no era tolo, respondeu s duas perguntas. 
      -  que seu marido teve a amabilidade de escrever ao senhor Ninian - assinalou com a cabea a magra figura do Hamilton, que estava encetado em uma acalorada 
discusso - e lhe explicou minhas dificuldades. Este cavalheiro  grande amigo da Regulao.... e tambm do juiz Henderson. 
        Moveu a cabea, com os lbios cavados em um gesto de desconcerto. 
      - No saberia dizer como foi, mas o senhor Ninian foi recolher me ao crcere e me levou a sua prpria casa. E ali estou na atualidade. foi muito bondoso. - 
Falava com evidente sinceridade, mas tambm com certa abstrao. Logo ficou em silncio. 
      Eu continue passeando pelo prado e intercambiando saudaes com os conhecidos por cima de meu leque. Alegrava-me ter visto novamente ao Abel e comprovar que 
estava bem, ao menos fisicamente, mas no podia negar que me provocava certo calafrio. Tinha a sensao de que pouco lhe importava onde residisse seu corpo: seu 
corao tinha ficado na tumba de sua esposa. 
      Perguntei-me para que teria o trazido Ninian. As bodas lhe fariam recordar a sua, como a todo mundo. 
      Embora o sol se elevou o suficiente para enfraquecer o ar, estremeci-me. O pesar do MacLenan me recordava muito aos dias posteriores ao Culloden, quando eu 
tinha retornado a meu prprio tempo, convencida de que Jamie tinha morrido. Conhecia muito bem essa inrcia do corao, a sensao de caminhar como sonmbulo atravs 
dos dias, o jazer na noite sem descanso, com os olhos abertos, em um vazio que no era a paz. 
      A voz da Yocasta flutuou da terrao, chamando o Ulises. Tinha perdido a trs maridos e agora estava a ponto de tomar um quarto. Por cega que fora, em seus 
olhos no havia inrcia. Significava isso que nenhum de seus maridos lhe tinham interessado muito? Ou s que era uma mulher muito forte, capaz de sobrepor uma e 
outra vez?
      Eu tambm o tinha feito uma vez... pela Brianna. Mas Yocasta no tinha filhos, ao menos agora. Acaso os tinha tido em outros tempos? Tinha afastado a dor de 
um corao destroado para viver por um filho?
      Sacudi-me, tratando de dissipar esses pensamentos melanclicos. depois de tudo, a ocasio e o dia eram para celebrar. Os discos do bosquecillo estavam em flor; 
mirlos e cardeais em zelo revoavam entre eles como papel picado, enlouquecidos pelo cortejo. 
      - Pois claro!- dizia uma mulher com tom de autoridade. - mas se compartilharem a casa h meses! 
      - Sim,  certo - confirmou uma de suas companheiras, com ar de dvida. - Per ningum o diria ao v-los. Mulher, se apenas se olharem! Quero dizer... Claro 
que ela no pode olh-lo, cega como esta, mas qualquer diria... 
      Os pssaros no eram os nicos, pensei, divertida. Em toda a reunio reinava um efeito de seiva em ascenso. Na terrao se viam grupos de moas que fofocavam 
como galinhas, enquanto os homens se passeavam com ar de indiferena frente a elas, vistosos como perus reais com suas roupas de festa. No seria surpreendente que 
dessa celebrao resultassem uns quantos compromissos.. e mais de um embarao. Havia sexo no ar; percebia-se sob as embriagadoras fragrncias das flores primaveris 
e a comida. 
      Estava livre de melancolias, mas ainda sentia a forte necessidade de encontrar ao Jamie. 
      Percorri todo o prado, por um lado e pelo outro, sem ver sinais dele entre a casona e o mole, onde os escravos com librea ainda recebiam aos ltimos convidados, 
que chegavam pelo rio. Entre os que ainda faltavam (e levava muito atraso,  por certo) encontrava-se o sacerdote que devia celebrar as bodas. 
      O pai LeClerc era jesuta; viajava desde Nova Orleans a uma misso prxima ao Quebec quando Yocasta  o seduziu com uma substanciosa doao  Companhia do Jesus, 
apartando-o do estrito atalho do dever. Embora o dinheiro no comprasse a felicidade, era um artigo bastante til. 
      Ao jogar uma olhada em direo oposta, fiquei petrificada. Ronnie Campbell, a um lado, fez-me uma reverncia; elevei meu leque a modo de resposta, mas estava 
muito distrada para lhe falar. Embora no tinha encontrado ao Jamie, acabava de ver o provvel motivo de seu abrupto desaparecimento. Farquard Campbell, o pai do 
Ronnie, subia pelo prado do embarcadero, acompanhado por um cavalheiro que vestia as cores vermelha e cervo do exrcito de sua majestade; seu segundo companheiro 
luzia o uniforme da marinha: era o tenente Wolff. 
      V-lo foi uma desagradvel surpresa. O tenente Wolff no era meu personagem favorito. Em realidade, no era querido por ningum que o conhecesse. 
      Farquard Campbell me tinha visto e vinha para mim entre a multido, com as foras armadas a reboque. Levantei meu leque e realizei os ajustes faciais necessrios 
para uma conversao corts. 
      O outro militar lhe jogou uma olhada, mas seguiu responsavelmente detrs do Farquard. Eu estava segura de no conhec-lo. Da partida do ltimo regimento escocs, 
durante o outono, era estranho ver uma jaqueta vermelha na colnia. Quem podia ser este?
      Uma vez fixas as faces no que pretendia ser um simptico sorriso, inundei-me em uma reverncia formal, estendendo minhas saias bordadas para as luzir melhor. 
      - Senhor Campbell... - Olhei com dissimulo detrs dele, mas felizmente o tenente Wolff tinha desaparecido em busca de sustento alcolico. 
      - A seu servio, senhora Fraser.- Farquard respondeu dobrando graciosamente os joelhos. 
      Ele tambm olhou sobre meu ombro, com leve gesto de intriga. 
      - Pareceu-me ver... Acreditava ter visto seu marido junto a voc. 
      - OH, pois... acredito que ter ... que se ausentou. - Desviei delicadamente o leque para as rvores, onde se levantavam as letrinas, separadas da casa a uma 
distncia prudente e por um biombo de pequenos pinheiros brancos. 
      - Ah, compreendo, sim - pigarreou Campbell. Logo indicou ao homem que o acompanhava. -Senhora Fraser, me permita lhe apresentar ao maior Donald MacDonald. 
      Era um cavalheiro de nariz aquilino, pelo resto bastante arrumado, de uns trinta e oito anos. 
      - A seu servio, senhora. - MacDonald se inclinou com muita elegncia. - Posso lhe expressar o bem que lhe sinta essa cor?
      - Pode - disse, me relaxando um pouco. - Obrigado. 
      - O major acaba de chegar ao Cross Creek. Assegurei-lhe que esta seria a melhor oportunidade para estabelecer relao com seus compatriotas e familiarizar-se 
com a zona. - Farquard assinalou a terrao com um gesto, que abrangia a um Quem  Quem da sociedade escocesa residente em Cape Fear. 
      - E por certo - disse o major, muito corts-, no ouvi tantos sobrenomes escoceses desde minha ltima viagem ao Edimburgo. O senhor Campbell me h dito que 
seu marido  sobrinho da senhora Camero... ou a senhora Innes, deveria dizer. 
      - Se. A apresentaram j? - Olhei para o outro lado da terrao. Ainda no havia sinais do Duncan, muito menos do Roger ou Jamie. Demnio! Onde estavam todos 
Reunidos na letrina para uma conferncia cpula?
      - No, mas estou desejoso de lhe apresentar meus cumpridos. O defunto senhor Cameron era meio parente de meu pai, Robert MacDonald, do Stornoway. - Inclinou 
respetuosamente a peruca em direo  pequena construo de mrmore branco que se levantava  um extremo: o mausolu que albergava os restos do Hector Cameron. - 
por acaso, seu marido tm alguma vinculao com os Fraser do Lovat?
      Grunhi para meus adentros ao reconhecer a telaraa escocesa que estava tecendo e mantive um olho alerta durante todo o interrogatrio, mas Jamie se evaporou. 
      Farquard Campbell, que no era mau jogador, por certo, parecia estar desfrutando com essa partida verbal; seus olhos brunos foram do major a mim, com expresso 
divertida. A diverso se converteu em surpresa ao terminar eu uma anlise bastante confusa da linhagem do Jamie por via paterna, em resposta ao perito catecismo 
do major. 
      - O que o av de seu marido era Simon, lorde Lovat? - exclamou. - A Velha Raposa?
      Tinha elevado a voz com certa incredulidade. 
      - Pois... se - confirmei, algo intranqila. - Supus que voc saberia. 
      - Homem! - disse Farquard. Sabia, sim, que Jamie era jacobita perdoado, mas ao parecer Yocasta no tinha mencionado sua estreita vinculao com a Velha Raposa, 
executado como traidor por seu papel na sublevao do Estuardo. Nessa ocasio, a maioria dos Campbell tinham combatido pelo bando do governo. 
      - Se - disse MacDonald, sem emprestar ateno  reao do Campbell, com o sobrecenho um pouco franzido pela concentrao. - Tenho a honra de conhecer um pouco 
ao atual lorde Lovat. Entendo que o ttulo lhe foi devolvido, verdade? 
      E se dirigiu ao Campbell: 
      - Refiro ao Simon o Jovem, que armou um regimento para lutar contra os franceses em... o ano cinqenta e oito? No: no cinqenta e sete, sim. Homem galhardo 
e excelente soldado. E deveria ser o sobrinho de seu marido? No; seu tio. 
      - Meio tio - esclareci. O velho Simon se casou trs vezes e no ocultava a seus bastardos, entre os quais se contava o pai do Jamie. Mas no havia necessidade 
de assinal-lo. 
      MacDonald assentiu, com a cara iluminada pela satisfao de ter tudo em ordem. a do Farquard se relaxou um pouco ao saber que a reputao familiar estava to 
reabilitada. 
      - Papista, certamente - acrescentou MacDonald -, mas excelente soldado, apesar disso. 
      - E falando de soldados  - interrompeu-o Campbell-, sabe voc...?
      Lancei um suspiro de alvio que fez ranger as ataduras de meu espartilho, pois o cavalheiro guiou brandamente  major  anlise de algum acontecimento militar 
passado. Ao parecer MacDonald no estava em ativo, a no ser retirado e percebendo a metade do pagamento, como tantos outros. A menos que a Coroa requeresse de seus 
servios, estava em liberdade de farejar pelas colnias em busca de ocupao. A paz era dura para os militares de carreira. 
      Farquard Campbell levava algum tempo falando sem que eu tivesse a menor ideia do que havia dito. Ao ver meu desconcerto sorriu com certa ironia. 
      - Devo ir apresentar meus respeitos a outras pessoas, senhora Fraser - disse. - Se me permitir isso, deixarei-a na excelente companhia do major.
      O major, assim abandonado a minha presena, procurou algum tema de conversao adequado e caiu na pergunta mais comum entre as pessoas que acabam de conhecer-se. 
      - Voc e seu marido, levam muito tempo na colnia, senhora?
      - No muito - respondi, bastante cautelosa -. Uns trs anos. Em um lugar chamada Colina do Fraser. 
      - Ah, sim, ouvi-o mencionar. 
      Um msculo se contraiu em sua boca; perguntei-me, intranqila, o que lhe teriam comentado. O alambique do Jamie era um segredo a vozes nos territrios apartados 
e entre os colonos escoceses de Cape Fear(mais ainda, diante de ns, junto aos estbulos, havia vrios tonis de usque sem envelhecer que constituam o presente 
de bodas do Jamie), mas eu confiava em que no o fora tanto como para que um militar recm-chegado j tivesse sabido dele. 
      - me diga, senhora Fraser... - depois de uma breve vacilao se lanou de cabea. - H muita atividade dos reguladores em sua zona?
      - OH... n... no, no muita. 
      Desviei um olhar, cautelosa para o mausolu do Hector Cameron, onde Hermon Husband, com o traje cinza escuro dos quaisquer, destacava-se como um borro contra 
o puro mrmore branco. 
      - Agrada-me sab-lo, senhora - disse MacDonald -. Esto vocs bem informados nesse lugar to remoto?
      - No muito. N... bonito dia verdade? Este ano tivemos muita sorte com o clima. teve voc uma viagem cmoda? Vir desde o Charleston neste momento do ano... 
o barro...
      -  claro que sim, senhora, sofremos algumas pequenas dificuldades, mas no mais que...
      - Enquanto falava, o major me avaliava abertamente, apreciando o corte e a qualidade de meu vestido, as prolas que levava no pescoo e nas orelhas (emprestadas 
pela Yocasta) e os anis de meus dedos. Eu conhecia esse tipo de olhares; no havia nela rastro algum de libertinagem nem de seduo. Simplesmente, estava julgando 
minha posio social, assim como a prosperidade e influncia de meu marido. 
      Isso no me ofendeu. depois de todo eu estava fazendo o mesmo com ele. 
      - me diga, senhora Fraser... - comeou o major. 
      - No me insulta s , senhor, a no ser a todos os homens honorveis aqui pressente!
      A voz aguda do Ninian Bell Hamilton ressonou em uma pausa da conversao geral. Todas as cabeas do prado giraram para ele. 
      Estava frente a frente com o Robert Barlow, homem ao que me tinham apresentado um momento antes. 
      - Reguladores, chama-os voc? Bagunceiros e presidirios! E voc sugere que essa chusma tem sentido da honra?
      - No o sugiro! Afirmo-o como realidade, e como tal o defenderei!
      O ancio cavalheiro, muito erguido, meo em busca de sua espada. Felizmente no ia armado, assim que lhe atirou um chute no traseiro. Pego por surpresa, Barlow 
perdeu o equilbrio e caiu a quatro patas. 
      Eu procurava freneticamente ao Jamie... ou ao Roger... ou ao Duncan. Condenados homens! Onde se tinham metido?
      Buchannan, um dos genros do Hamilton, avanava decididamente por entre a multido, j com inteno de apartar a seu sogro do Barlow, j  para assisti-lo em 
seu intento de assassinar ao homem. 
      - OH! Demnios - murmurei. - me sustente isto. - depois de plantar meu leque em mos do maior MacDonald, recolhi minhas saias, dispostas a vadear no alvoroo 
assim que decidisse a quem golpearia primeiro (e onde) para obter o maior efeito. 
      - Quer voc que os detenha?
      O major, que desfrutava de do espetculo, pareceu decepcionado ante a perspectiva, mas tambm resignado a cumprir com seu dever. Ante meu surpreso gesto de 
afirmao, desencapou a pistola, apontou-a ao cu e disparou ao ar. 
      O estalo foi o bastante ruidoso para sossegar momentaneamente a todos. Os combatentes ficaram petrificados. Em meio dessa pausa, Hermon Husband se abriu passo 
para o lugar da cena. 
      - Amigo Ninian - disse cordialmente -, amigo Buchannan, me permitam. 
      Aso ao ancio escocs por ambos os braos para levant-lo em velo, separando o do Barlow. Logo cravou no James Hunter um olhar de advertncia. O homem emitiu 
um audvel " Hum" , mas se retirou alguns passos. 
      - Seu leque, senhora Fraser...
      Arranco de minha avaliao do conflito, descobri que o maior MacDonald me oferecia isso cortesmente, muito agradado consigo mesmo. 
      - Obrigado. - Olhei-o com certo respeito. - me diga maior, sempre leva consigo uma pistola carregada?
      - foi um descuido, senhora - respondeu meigamente -, mas possivelmente afortunado, verdade? Senhora Fraser, quem  esse indivduo mau barbeado? Parece homem 
de guelra, em que pese a suas maneiras deficientes,  possvel que agora ele seja quem se atei a golpes?
      Dava-me a volta. Hermon Husband estava frente a frente com o Barlow.
      - Hermond Husband  qualquer - expliquei, em tom de leve recriminao. - No , ele no recorrer  violncia. S s palavras. 
      Muitssimas palavras. Barlow tratava de interpor suas prprias opinies, mas Husband, sem lhe emprestar ateno, emprestava seus argumentos com tanto entusiasmo 
que das comissuras de sua boca voavam gotas de saliva. 
      - Sobre o que discutem? - perguntou MacDonald, que presenciava o intercmbio com interesse. - Sobre religio?
      Eu no estava muito disposta a examinar em detalhe a retrica da Regulao, mas fiz o possvel por brindar ao MacDonald uma superficial vista geral da situao. 
      - ... e portanto, o governador Tryon se viu obrigado a organizar a tropa para combater aos reguladores, mas eles se retiraram - conclu. - Ainda assim, no 
abandonaram suas exigncias. 
      - Compreendo - disse MacDonald, interessado.- Farquard Campbell me falou desse movimento subversivo. Diz voc que o governador ordenou uma tropa e poderia 
faz-lo outra vez. Quem dirige suas tropas, senhora?
      - Hum... acredito que o general Waddell, Hugh Waddell, est  frente de vrias, companhias. Mas o corpo principal estava ao mando do governador em pessoa, 
que foi militar. 
      - Seriamente? - O major parecia muito interessado; em vez de embainhar a pistola, acariciava-a distradamente -. Campbell me disse que seu marido recebeu uma 
grande extenso de terras em territrio despovoado. Por acaso,  ntimo do governador?
       - Eu no diria tanto- respondi secamente. - Mas sim que conhece governador. 
      O rumo que tinha tomado a conversao me inquietava um pouco. Em trminos estritos, era ilegal que os catlicos recebessem da Coroa terras nas colnias. Eu 
ignorava se o maior MacDonald estava informado disso, mas obviamente devia imaginar que Jamie era catlico, jogo de dados seus antecedentes familiares. 
      - voc crie que seu marido poderia me apresentar, estimada senhora?- os plidos olhos azuis brilhavam de especulao; sbitamente compreendi o que  o que 
tentava. 
      - Poderia ser - respondi, precavida. No via motivos pelos que Jamie pudesse opor-se a lhe dar uma carta de apresentao para o Tryon. E na verdade eu estava 
em dvida com esse homem por ter evitado uma rixa a grande escala. - Ter voc que discuti-lo com meu marido, mas ser um prazer lhe falar por voc.
      - estarei-lhe eternamente agradecido, senhora. - depois de embainhar a pistola se inclinou para minha mo. Ao erguer as costas jogou uma olhada por cima de 
meu ombro. - Com sua permisso, senhora Fraser, j devo me retirar, mas confio conhecer muito em breve a seu marido. 
      O major se afastou para a terrao. Ao me voltar, vi que Hermon Husband se aproximava de grandes passos para mim, seguido pelo Hunter e alguns outros. 
      - Senhora Fraser, venho a lhe pedir que voc expresse  senhora Innes meus bons augrios e minhas desculpas, por favor - disse sem prembulo.- Devo me retirar. 
      - OH!, to logo se vai? - vacilei. 
      - Ser melhor assim. Yocasta Cameron foi uma grande amiga para mim e para meus. Estaria pagando mal sua bondade se trouxesse a discrdia s celebraes de 
suas bodas. No quero faz-lo... e de uma vez a conscincia no me permite guardar silncio quando ouo opinies to perniciosas como as que se expressaram aqui. 
      Jogou ao grupo do Barlow um olhar de frio desprezo, que foi enfrentada de igual modo. 
      - Alm disso - acrescentou, voltando as costas aos barlowistas-, h assuntos que requerem nossa ateno. - Vacilou obviamente, como se estivesse a ponto de 
me dizer algo mais, mas decidiu no faz-lo. - O dir voc?
      - Certamente, senhor Husband. E me crie que o sinto. 
      Dedicou-me um vago sorriso, tinta de melancolia, e moveu a cabea sem dizer mais. Mas enquanto ele se afastava, seguido por seus companheiros, James Hunter 
se deteve me dizer em voz baixa: 
      - Os reguladores se esto congregando. H um acampamento grande perto do Salisbury - disse-. Talvez convenha que seu marido saiba. 
      Saudou-me tocando a asa de seu chapu e, sem aguardar resposta, afastou-se a grandes passos. 
      
      
      
      Do bordo da terrao podia observar  toda a festa, que flua em uma corrente de festividade da casa at o rio; seus redemoinhos eram evidentes para o olho entendido. 
      Enquanto observava, vinham a minha mente pensamentos sobre o que ali estava acontecendo. 
      - Homem, a senhora Fraser! - uma voz ligeira interrompeu meus pensamentos. Phillip Wylie estava junto a meu cotovelo.- O que est voc pensando, querida minha? 
A v indiscutivelmente... feral. - Falava em voz baixa; tinha-me pego a mo e despia seus dentes em um sorriso sugestivo. 
      - No sou querida sua - lhe disse com certa acritud, retirando bruscamente a mo. - Quanto ao de feral, surpreende-me que ningum lhe tenha mordido ainda no 
traseiro. 
      - OH!, no perco a esperana - me assegurou, faiscantes os olhos. E enquanto me fazia uma reverncia conseguiu apoderar-se novamente de minha mo. - Posso 
aspirar  honra de danar com voc mais tarde, senhora Fraser?
      -  obvio que no - respondi, atirando de minha mo -. Me solte.  
      - Seus desejos so ordens para mim. - soltou-me mas sem antes me plantar um beijo no dorso da mo. Contive o impulso de me limpar o stio mido na saia. 
      - Vete, menino - Agitei o leque para ele. - Fora, fora. 
      Phillip Wylie era um petimetre. At ento o tinha visto duas vezes, em ambas as ocasies muito polido: calas de cetim, meias de seda e todos os jaezes que 
revistam ir com eles, includos a peruca e a cara empoeirada e um pequeno lunar em forma de medialuna negra, garbosamente pego junto a um olho. 
      Mas agora a podrido se estendeu. A peruca empoeirada era malva e o colete de cetim estava bordado com .... pisquei. Sim: eram lees e unicrnios de fios de 
ouro e prata. As calas de cetim o rodeavam como uma luva bifurcada: a medialuna tinha cedido passo a uma estrela na comissura da boca. O senhor Wylie se converteu 
em um macarro... com queijo. 
      - OH!, no tenho intenes de abandon-la senhora Fraser- assegurou-me. - estive-a procurando por toda parte. 
      - Pois j me encontrou - disse, enquanto observava sua jaqueta de veludo rosa intenso.
      - Ah!, este ano me sorriu a Fortuna. O trfico com a Inglaterra est bastante recuperado, graas aos deuses, e eu tive minha parte nele, alm de outras coisas. 
Deveria voc me acompanhar para ver... 
      Nesse momento me resgatou a sbita apario do Adlai Osborn, um endinheirado mercado de costa acima, quem lhe deu um tapinha no ombro. Aproveitando a distrao, 
levantei meu leque e me escorri por um oco entre a multido. 
      Um tigela fumegante de vinho especiado, posto sob meu nariz como convite, monopolizou minha ateno. 
      - voc beba um pouco, senhora Fraser. - Era Lloyd Stanhope, com bonachona amabilidade. - No lhe convm agarrar frio, querida senhora. 
      No havia perigo, pois o dia era cada vez mais temperado, mas aceitei a taa, desfrutando do aroma a canela e mel que dele brotava. 
      Inclinei-me para um lado procurando o Jamie, mas no estava  vista. Um grupo de cavalheiros discutia os mritos comerciais do tabaco enquanto trs jovencitas 
observavam atravs de seus leques, entre rubores e risitas agudas. 
      - ... inigualvel - dizia Phillip Wylie a algum. Os redemoinhos da conversao haviam o trazido de novo a meu lado. - Absolutamente inigualvel! Prolas negras, 
as chama. Nunca viu voc nada igual, o asseguro. - Jogou uma olhada a seu redor,  lombriga alargou uma mo para me tocar o cotovelo. - Tenho entendido que voc 
aconteceu algum tempo na Frana, senhora Fraser. Talvez as viu l?
      - Prolas negras? - disse, me esforando por apanhar os fios da conversao. - Pois sim, umas quantas. Lembrana que o arcebispo do Ruan tinha um pequeno pajem 
mouro que levava uma muito grande na orelha. 
      Stanhope ficou ridiculamente boquiaberto. Wylie me olhou por uma frao de segundo logo lanou uma gargalhada to potente que os do tabaco e as jovencitas 
se interromperam em seco para nos olhar. 
      - Acabar por me matar, minha querida senhora -  ofegou Wylie, enquanto Stanhope proferia sufocados bufos de regozijo. 
      Seu amigo extraiu um leno de encaixe para tocar-se delicadamente as comissuras dos olhos, para no arruinar o p com lgrimas de alegria. 
      - Na verdade, senhora Fraser, no viu meus tesouros? - agarrou-me pelo cotovelo para me propulsar fora da multido, com assombrosa habilidade. - Venha, me 
permita que os mostre. 
      Guiou-me habilmente entre a multido, alm da casa, onde um atalho de pedras conduzia aos estbulos. 
      Eram cinco: duas guas, um par de potros de dois anos e um semental. Os cinco eram negros como o carvo; sua pelagem refulgia sob o plido sol da primavera, 
at lanzudos como estavam pelo cabelo do inverno. 
      - So deles? - perguntei-lhe sem olh-lo, por no apartar os olhos dessa encantadora viso. Como os conseguiu?
      - So meus, sim - disse, varridas pelo simples orgulho as afetaes de costume. - So frisones. A mais antiga das raas; sua linhagem se remonta a vrios sculos. 
Quanto a como os obtive... - inclinou-se sobre a perto, com a mo estendida, e agitou os dedos para  os cavalos em um gesto de convite. - Os pirralho h vrios anos. 
estes traje por convite da senhora Cameron. Quer comprar uma de minhas guas e sugeriu que um ou dois de seus vizinhos tambm podiam estar interessados. 
      - Ah, estava aqui, Sassenach. - A voz do Jamie soou sbitamente em meu ouvido. - Estive-te procurando. 
      - De ver? - voltei as costas ao curral. - E voc, onde estiveste?
      - OH!, aqui e l - respondeu, sem que meu tom acusador o perturbasse. - Esplndido cavalo, senhor Wylie, de verdade. 
      Saudou-o com uma inclinao de cabea e me conduziu do brao para o prado antes de que o outro pudesse murmurar: "  A seu servio, senhor" . 
      - O que faz aqui com o pequeno Phillip Wylie?- perguntou. 
      - Ver os cavalos - respondi, com uma mo contra o estmago, com a esperana de sossegar os rudos ocasionados pela apario da comida. - E voc?
      - Procurando o Duncan. - Guiou-me para sortear um atoleiro. - No estava na letrina; tampouco na ferraria, nem nos estbulos ou as cozinhas. Agarrei um cavalo 
e cavalguei at os depsitos de tabaco, mas ali no havia rastro dele. 
      - Pode que o tenente Wolff o tenha assassinado - sugeri. - O rival desdenhado e todo isso. 
      - Wolff? - deteve-se com um gesto consternado. - Esse escupitajo est aqui?
      - Em carne e osso- assegurei, assinalando o prado com o leque. 
      Wolff tinha ocupado um posto junto  mesa do refrigrio; sua silhueta baixa e fornida, com o uniforme azul e branco, resultava inconfundvel. 
      -  possvel que sua tia o haja convidado?
      - Acredito que sim - respondeu, carrancudo mas resignado. - Suponho que no resistiu a tentao de esfregar-lhe nos narizes. 
      -  o que pensei. Faz s meia hora que chegou, mas se continua bebendo desse modo, quando se celebrar a cerimnia estar inconsciente. 
      Jamie descartou  tenente com um gesto depreciativo. 
      - Pois como se se conserva em lcool, se assim o quiser, enquanto no abra a boca mais que para beber. Mas onde se escondeu Duncan?
      - E se se tivesse arrojado  gua? - Disse-o em brincadeira, mas mesmo assim joguei um olhar ao rio. Um bote vinha para o embarcadero, com o remador de p 
na proa para arrojar a amarra ao escravo que o esperava. - Olhe:  por fim o sacerdote? 
      tratava-se de uma figura baixa e gordinha; com a batina negra recolhimento por cima dos joelhos peludos, subiu ignominiosamente ao mole, ajudado por um empurro 
do barqueiro. Ulises j corria a saud-lo.
       - Bem - disse Jamie, em tom satisfeito. - J temos um sacerdote e uma noiva. Dois de trs;  um progresso. 
      - Ali est! - exclamei, me movendo to sbitamente que pisei ao Jamie  na ponta do p. - OH!, perdoa. 
      - No importa - me assegurou. Tinha seguido a direo de meu olhar e agora se erguia decididamente. - Irei a por ele. Sobe  casa, Sassenach, e no perca de 
vista a minha tia nem ao padre. Que no escapem at que as bodas se celebrou. 
      
      
      Jamie desceu pelo prado para os salgueiros, respondendo distradamente s saudaes de amigos e conhecidos. Em realidade, pensava menos nas iminentes npcias 
do Duncan que em sua prpria esposa. 
      Tinha conscincia de que tinha sido bento com uma bela mulher, at em roupa de andar por casa. Deus Santo! S de pensar em corpos sob as matas, sua mente lhe 
tinha devotado uma indecente viso do Claire com os peitos aparecendo pelo vestido; as folhas murchas e a erva seca tinham as mesmas cores que suas saias enrugadas 
e o plo encaracolado de seu... Afogou bruscamente o pensamento para dedicar uma reverncia cordial  anci senhora Alderdyce, a me do juiz. 
      - Um servidor, senhora. 
      - bom dia voc tenha, jovem, bom dia. - a dama inclinou magistralmente a cabea sem deter seu caminho, apoiada no brao de sua companheira, uma jovem sofrida 
e paciente, que respondeu  saudao do Jamie com um vago sorriso. 
      - Amo Jamie?
      Uma das criadas rondava a seu lado com uma bandeja cheia de taas. Ele agarrou uma; depois de agradecer-lhe com um sorriso, bebeu a metade de seu contedo 
de um s gole. 
      No podia evit-lo: devia voltar em busca do Claire. O que o tinha assim era hav-la visto com seu vestido novo. Levava meses sem v-la embelezada como corresponde 
a uma dama, com a cintura estreita envolta em seda e os peitos brancos, redondos e doces como pras de inverno, aparecidos em um bom decote. de repente parecia uma 
mulher distinta, intimamente familiar, mas tambm estimulante pelo estranha. 
      Desde dia em que lhe tinha mostrado os espermatozides, tinha incmoda conscincia da acumulao que, de vez em quando, padecia nos testculo, impresso que 
se fortalecia em situaes como esta. Sabia muito bem que no havia perigo de ruptura ou exploso, mas no podia a no ser pensar em todos os trancos que se estavam 
produzindo ali dentro. 
      Queria ver o Duncan bem casado; logo o homem teria que ocupar-se de seus prprios assuntos. Assim que casse a noite... e se no encontrava melhor lugar que 
os matagais, nos matagais seria. Apartou um ramo de salgueiro e se agachou para passar. 
      - Duncan - comeou. 
      Mas se interrompeu; o redemoinho de pensamentos carnais desapareceu como gua por um ralo. A jaqueta escarlate no pertencia ao Duncan Innes, a no ser a um 
desconhecido que girou em redondo, to surpreso como ele. Luzia o uniforme do exrcito de sua majestade.
      Na cara do homem se apagou a expresso de sobressalto, quase to rpido como a de  surpresa do Jamie. Devia ser MacDonald, o militar que Farquard Campbell 
lhe tinha mencionado. Ao parecer Farquard tambm tinha dado  major sua descrio, pois era evidente que o homem o identificava. 
      - O coronel Fraser, presumo...
      - Maior MacDonald, - disse ele a sua vez, com uma inclinao de cabea em que se mesclavam a cortesia e a cautela. - Um servidor, senhor. 
      O outro se inclinou, puntilloso. 
      - Posso lhe roubar um minuto de seu tempo, coronel? - Olhava por cima do ombro do Jamie. - Em privado? 
      Jamie notou que pronunciava seu cargo de miliciano com azeda diverso, mas assentiu brevemente dirigindo-se a casona. Como esse lugar lhe parecesse o melhor 
para evitar interrupes, Jamie conduziu  major pelo atalho de pedras que conduzia para os estbulos. 
      - Viu voc os cavalos do Wylie?- perguntou o militar, enquanto rodeavam a casa; procuraria uma conversao qualquer at que estivessem fora do alcance de ouvidos 
alheios.
      - Sim. O semental  um magnfico animal, verdade? - Por ato reflito os olhos do Jamie se desviaram para o cercado. Lucas mordiscava a erva junto  artesa, 
enquanto as duas guas se olisqueaban amigavelmente perto do estbulo, lustrosos os largos lombos sob o sol plido. 
      - Sim? Talvez. - o major olhou para l com um olho mdio fechado em dbio acordo. - Parecem fortes. Bom peito. Mas todo esse cabelo... no serviriam para a 
cavalaria. Embora suponha que, bem barbeados e vestidos...
      Jamie conteve o impulso de lhe perguntar se as mulheres tambm gostava de barbeadas. 
       - H algum assunto que lhe preocupe, maior? - perguntou, mais abruptamente do que tinha calculado. 
      - No  exatamente minha preocupao - replico afablemente MacDonald. - Me h dito que lhe interessa o paradeiro de uma pessoa chamada Stephen Bonnet. Estou 
bem informado, senhor? 
      - Eu... sim. Sabe voc onde est?
      - Infelizmente, no. - O maior arqueamento uma sobrancelha ao ver sua reao. - Mas sei onde esteve. M pessoa, o tal Stephen,  por isso parece - inquiriu, 
com ar algo jocoso. 
      - poderia-se expressar assim. matou a vrios homens, e me roubou... e violou a minha filha- enumerou Jamie sem rodeios. 
      O major aspirou fundo, com a cara escurecida por uma sbita compreenso.
      - Ah, compreendo. 
      Levantou apenas a mo, para toc-lo no brao, mas a deixou cair a um lado. Deu uns passos mais, com a frente enrugada em um gesto de concentrao. 
      - Compreendo - repetiu. De sua voz tinha desaparecido qualquer rastro de diverso. - No sabia... Compreendo sim. 
      E voltou a cair no silncio; seus passos se fizeram mais lentos ao aproximar-se do cercado dos cavalos. 
      - Suponho que pensa me dizer o que sabe desse homem- disse Jamie, corts. 
      MacDonald pareceu reconhecer que, quaisquer fossem suas intenes, a de seu interlocutor era inteirar-se do que ele soubesse, seja por meio do dilogo,  seja 
por mtodos mais diretos. 
      - No o conheo pessoalmente- disse com suavidade. - O que sei  o que escutei durante uma reunio social em New Bern, o ms passado. 
      Foi uma tarde durante uma partida do Whist organizada pelo David Howell, armador endinheirado e membro do Conselho Real do governado. A seleta reunio se iniciou 
com um jantar excelente; logo passaram aos naipes j  conversao, bem marinhada com ponche de rum e brandy. 
      Ao avanar a noite, com a fumaa dos cigarros j denso no ar, a conversao se tornou mais franco; fizeram-se referncias jocosas a recente fortuna de certo 
senhor Butler, com muitas especulaes semiveladas quanto  fonte dessas riquezas. A um cavalheiro lhe ouviu dizer com inveja: " Se a gente pudesse ter a um Stephen 
Bonnet no bolso ... "  Imediatamente foi sossegado pela cotovelada de um amigo cuja discrio no estava to disolvida pelo rum. 
      - O senhor Butler estava entre os pressente? - perguntou Jamie, com aspereza. O nome no lhe era familiar, mas se os membros do Conselho Real conheciam... 
Na colnia, os crculos dos capitalistas eram reduzidos; sua tia ou Farquard Campbell podiam conhecer algum deles. 
      - No, no estava ali. 
      Tinham chegado ao cercado. MacDonald apoiou os braos cruzados no corrimo, fixos os olhos no semental. 
      - Conforme acredito, residem no Edenton. 
      Igual a Phillip Wylie. Lucas, o semental, aproximou-se deles, dilatando com curiosidade as negras fossas nasais. 
      Edenton estava sobre o Estreito do Albemarle, de fcil acesso para os navios. O mais  provvel era que Bonnet tivesse retomado seu ofcio de marinho... e tambm 
o de pirata e contrabandista. 
      - Voc disse que Bonnet era m pessoa- comentou. - por que?
      - Joga whist, coronel Fraser? - MacDonald lhe jogou um olhar inquisitivo. - Particularmente, o recomendo. Compartilha algumas qualidades com o xadrez quanto 
a descobrir a mente do adversrio. E tem uma grande vantagem: que se pode jogar contra mais pessoas. - As linhas marcadas de sua cara se relaxaram em um momentneo 
sorriso. - Outra vantagem, at maior,  que com ele te pode ganhar a vida, coisa que estranha vez acontece com o xadrez. 
      - Estou familiarizado com o jogo, senhor - replicou Jamie, com soma secura. 
      MacDonald era oficial, sem regimento nem tarefas ativas pelo que s recebia a metade do pagamento. No era absolutamente estranho que esses homens completassem 
seu magro salrio compilando dados que pudessem se vende ou permutar. No momento no tinha posto preo, mas isso no significava que no reclamasse mais adiante 
o pagamento da dvida. Jamie reconheceu a situao com um breve cabaada. O major assentiu a sua vez satisfeito. Ao seu devido tempo lhe diria o que desejava. 
      - Pois bem, senhor: como suporo, senti curiosidade por averiguar quem era  Bonnet. E se na verdade era um ovo de ouro, que gansa o tinha posto. 
      Mas seus companheiros de jogo tinham recuperado a cautela. No pde saber nada mais do misterioso Bonnet. Salvo o efeito que causava em quem o conhecia. 
      - Conhece voc o velho dito de que  to revelador o que o homem diz como o que cala? Ou a maneira de diz-lo? - continuou sem aguardar resposta. - Fomos oito 
jogadores. Trs especulavam livremente, mas notei que sabiam to pouco do senhor Bonnet como eu mesmo. Outros dois no pareciam interessados. Mas os dois restantes... 
- moveu a cabea. - Estavam muito  calados, senhor. Como se no queriam memorar ao diabo por medo de que aparecesse. 
      Seus olhos refulgiam de especulaes. 
      - Conhece voc pessoalmente a esse homem?
      - Sim. Quais eram os dois cavalheiros que lhe conheciam?
      - Walter Priestly e Hosea Wright - respondeu imediatamente o major. - Ambos, muito amigos do governador. 
      - Mercados?
      - Entre outras coisas. Ambos tm depsitos: Wright, no Edenton e Plymouth; Priestly, no Charleston, Savannah, Wilmington e Edenton. Priestly tem tambm interesse 
comerciais em Boston - acrescentou MacDonald, como se acabasse de record-lo, - embora no sei bem no que consistem. Ah... e Wright  banqueiro. 
      Jamie assentiu. Caminhava com as mos cruzadas sob as abas da jaqueta; ningum podia ver a fora com que apertava os dedos. 
      - Acredito ter ouvido falar do senhor Wright - disse. -Phillip Wylie mencionou que um cavalheiro assim chamado possui uma plantao perto da sua.   
      MacDonald assentiu. O extremo do nariz lhe tinha posto muito vermelho e em suas bochechas se destacavam pequenos copos sangneos quebrados, lembranas de 
anos passados em campanha. 
      - Sim, tem que ser Quatro Chamins. - Olhou de soslaio ao Jamie, pinando-se com a lngua em um molar. - Pensa voc mat-lo?
      - Por supostos que no- replicou Jamie sem alterar-se. - A um homem com tantos contatos nas altas esferas?
      O major o olhou com aspereza; logo soprou. 
      - Sim, claro. 
      Durante alguns instantes continuaram caminhando sem falar, cada um ocupado em seus pensamentos... e cada um consciente dos de seu companheiro. 
      A notcia dos contatos do Bonnet tinha dobro fio; por um lado agora seria mais fcil encontrar ao homem. Por outro, essas vinculaes complicariam bastante 
as coisas quando chegasse o momento de mat-lo. Aquilo no deteria o Jamie ( e o major o percebia com claridade), mas sem dvida era algo que levava a refletir. 
      No momento no havia maneira de sossegar ao MacDonald. Jamie no tinha mdios para suborn-lo. E de qualquer modo era pobre recurso, pois o homem que se deixa 
compara uma vez est sempre  venda. Dada a vida que levava, o major devia ter seus pontos dbeis, mas haveria tempo para descobri-los? Essa idia o levou a outra. 
      - Como soube voc que eu procurava notcias do Stephen Bonnet? - perguntou bruscamente. 
      O militar se encolheu de ombros. Logo acomodou melhor o chapu e a peruca. 
      - Soube-o por cinco ou seis fontes distintas, senhor, tanto em botequins como nas cortes dos magistrados. Temo-me que seu interesse  muito conhecido. - E 
acrescentou delicadamente, com um olhar de soslaio: - Embora no seu motivo. 
      Jamie lanou um fundo grunhido. Se em toda a costa se sabia que ele procurava o Bonnet... Bonnet tambm saberia. Isso podia ser ou no mau. Se Brianna se inteirava.... 
Logo que comeava a analisar as possibilidades quando MacDonald voltou a falar. 
      - Sua filha... tem que ser a senhora MacKenzie, verdade?
      - Importa isso?
      Havia-o dito com frieza. O major esticou os lbios um momento. 
      - No certamente. S que... conversei um momento com a senhora Mackenzie e me pareceu muito... encantadora. A idia de que...
      Pigarreou. Logo se deteve para girar para o Jamie. 
      - Eu tambm tenho uma filha - disse de repente. 
      - Sim? - Jamie ignorava que MacDonald estivesse casado. Certamente no o estava. - Em Esccia? 
      - Na Inglaterra. Sua me  inglesa.  
      O frio tinha pintado nervuras de cor em sua bochecha curtida. 
      - Tambm conversei com sua esposa - comentou MacDonald.- Uma mulher encantadora e muito amvel.  voc um homem afortunado, senhor.
      - Inclino-me a pensar que sim - respondeu Jamie.
      O militar tossiu delicadamente. 
      - A senhora Fraser teve a amabilidade de sugerir que voc poderia, possivelmente, me proporcionar uma carta de apresentao dirigida a sua excelncia, o governador. 
 luz da recente ameaa de conflito, pensou que talvez um homem de minha experincia poderia oferecer algo assim que A..., voc compreende...
      Compreendia perfeitamente. E embora duvidava que Claire tivesse sugerido semelhante coisa, era um alvio inteirar-se de que o preo era to barato. 
      - Farei-o imediatamente - assegurou. - me busque esta tarde, depois das bodas, e a entregarei. 
      MacDonald inclinou a cabea, gratificado. 
      Quando chegaram ao atalho que conduzia s letrinas, o major se despediu com uma mo em alto. Ao afastar-se, passou junto ao Duncan Innes, que vinha em direo 
contrria, ojeroso e plido como se tivesse as vsceras atadas. 
      - Encontra-te bem, Duncan? - perguntou Jamie, observando a seu amigo com certa preocupao. face ao afresco do dia, em sua frente brilhava um filme de suor, 
e suas bochechas estavam plidas. 
      - No - foi a resposta. - No, sinto-me... Preciso falar contigo, MacDubh.
      -  obvio, a charaid. - Alarmado pelo aspecto do Duncan, agarrou-o do brao para lhe emprestar apio. - quer que procure a minha esposa? Necessita um gole?
      - No, MacDubh.  a ti a quem necessito. Um conselho, se tivesse a bondade. 
      - Claro, homem, claro. - J mais curioso que alarmado, Jamie soltou o brao a seu amigo. - me diga do que se trata. 
      - De... da noite de bodas - resmungou Duncan. - Eu... quer dizer... tenho... 
      Ao ver que algum saa ao atalho diante deles, rumo s letrinas, interrompeu-se abruptamente. 
      - por aqui. - Jamie o guiou para o pomar, onde estariam a salvo entre os protetores muros de tijolo. " a noite de bodas?" , pensou, a um tempo tranqilizado 
e cheio de curiosidade. Sabia que Duncan nunca tinha tido esposa. E no Ardsmuir no falava de mulheres, como os outros. Por ento ele o tinha atribudo ao pudor, 
mas possivelmente... No: Duncan tinha mais de cinqenta anos. Sem dvida lhe teria apresentado a oportunidade. 
      S ficavam duas possibilidades: preferncias estranhas ou enfermidade sexual. E ele podia jurar que ao Duncan no gostava dos vares. Seria algo embaraoso, 
mas Claire poderia cur-lo, sem lugar a dvidas. Mas oxal no fora a praga francesa; essa sim que era cruel.
      - Aqui, a charaid - disse, conduzindo ao Duncan ao macio das cebolas. - Aqui ningum nos incomodar. me diga agora, que problema tem?
      
      
      
      
      

      40
      
      O segredo do Duncan
      
      O pai LeClerk no falava ingls, excetuando um jubiloso" Tally-ho!" , que usava alternativamente como saudao, como interjeio de assombro ou para expressar 
aprovao. Como Yocasta ainda estava em seu toilette, fui eu quem o apresentou ao Ulises. Logo o acompanhei ao salo principal, fiz que lhe servissem um bom refrigrio 
e o sentei a conversar com os Sherston, estes eram protestantes e estavam assustados pela presena do jesuta, mas to desejosos de exibir seu francs que passaram 
por cima a desafortunada profisso do padre. 
      Depois dessa delicada manobra social, desculpei-me para sair a terrao, a fim de ver se Jamie tinha conseguido capturar ao Duncan. Nenhum dos duas estava  
vista, mas Brianna vinha pelo prado, com o Jemmy em braos. 
      Acabava de ouvir as badaladas do relgio do salo, que davam o meio-dia. Era de esperar que Jamie tivesse ao Duncan bem sujeito. Talvez fora melhor encer-lo 
para evitar que voltasse a desaparecer. 
      - Conhece os Sherston? - perguntou Brianna. 
      - Sim - foi minha precavida resposta. - Porqu O que tm feito?
      Ela arqueou uma sobrancelha. 
      - Pediram-me que pinte o retrato da senhora Sherston.  um encargo. Ao parecer tia Yocasta lhes falou maravilhas de mim e lhes mostrou algumas costure que 
fiz a primavera passada, quando estive aqui. Agora querem um retrato. 
      - Seriamente? OH!, querida, que estupendo. 
      - Seria estupendo se tivessem dinheiro - observou ela, prtica. - O que opina?
      Eram uma boa pergunta. As roupas finas no sempre refletem o valor real. Eu no conhecia bem aos Sherston; no eram do Cross Creek, mas sim do Hillsborough. 
      - Bom, so bastante vulgares - disse, vacilando, - e terrivelmente esnobes, mas acredito que ele tem dinheiro. Se no me equivocar,  dono de uma cervejaria. 
por que no pergunta a Yocasta? Ela tem que saber. 
      - Bs-tante vul-gares - repetiu ela com um grande sorriso, imitando meu acento britnico. - quem  a esnobe?
      - Eu no - me defendi com dignidade; - s observo atentamente os matizes sociais. Viu a seu pai ou ao Duncan? 
      - Ao Duncan no, mas papai est abaixo, junto s rvores, com o senhor Campbell. 
      E assinalou o lugar para me ajudar. O cabelo do Jamie e seu tartn carmesim refulgiam ferozmente ao p do prado. Mas no havia sinais da jaqueta escarlate 
do Duncan. 
      - Que o diabo se leve a esse homem - murmurei. - Onde se colocou? 
      - Na letrina, e tem cansado dentro - sugeriu Bree. 
      Ajustei-me o xale e fui reunir me com o Jamie. Ali se estava servindo um almoo ao ar livre, para comodidade dos convidados; ao passar junto  mesa de refrigrio 
agarrei uma bolacha e uma fatia de presunto, com os que improvisei um sanduche para acalmar minhas prprias pontadas de fome. 
      Ao parecer, Jamie acabava de dizer algo gracioso, pois Campbell emitiu esse rudo grave e lhe chiem que nele passava por risada, enquanto me saudava com uma 
inclinao de cabea. 
      - Deixarei-o para que se voc ocupe de seus assuntos - disse ao Jamie, recuperada a compostura. - Mas pode  me chamar quando me necessitar. - Com uma mo a 
modo de viseira, olhou para a terrao. - Ah, retorna o filho prdigo. Em xelins ou em garrafas do Brandy? 
      Duncan cruzava a terrao, saudando com tmidos sorrisos a quem expressava seus bons desejos. Devo ter posto cara de estranheza, pois o senhor Campbell me fez 
uma reverncia e grasnou, com ar divertido: 
      - Fiz uma pequena aposta com seu marido, senhora. 
      - Cinco a um pelo Duncan, esta noite - explicou Jamie. - Que ele e minha tia compartilharo a cama. 
      - Santo cu - exclamei, bastante chateada. -  que ningum aqui falar de outra coisa? Todos vs tenes a mente como um esgoto. 
      Campbell, rendo, apartou-se para atender as urgncias de um de seus netos pequenos. 
      - No me diga que voc no te estiveste perguntando o mesmo. - Jamie me deu uma suave cotovelada. 
      -  obvio que no - respondi, escandalizada. Era certo, mas s porque j sabia. 
      - OH!,  obvio- repetiu ele, torcendo a boca. - Mas se te v a luxria na cara, como os bigodes ao gato!
      - O que quer dizer com isso? - interpelei. 
      Se por acaso fora certo, desdobrei o leque para me cobrir a parte inferior da cara, enquanto piscava sobre o encaixe, fingindo inocncia. Ele emitiu uma interjeio 
de brincadeira, muito escocesa. depois de olhar a seu redor, inclinou-se para me sussurrar ao ouvido: 
      - Quero dizer que  assim como miras quando quer que v a sua cama. - O quente flego me agitou o cabelo da tmpora. -  assim?
      Meu marido se esfregou o nariz, me observando com intensa especulao; seu olhar azul se atrasou no decote de meu vestido novo. Eu fiz bater as asas delicadamente 
o leque sobre a zona. 
      - N... poderamos... - Avaliou os arredores, estudando as perspectivas de intimidade, mas sua vista voltou ineludiblemente ao leque, como se fora um m. 
      - No, no podemos - lhe informei, enquanto dedicava uma sorridente saudao s ancis senhoritas MacNeil, que passaram tranqilamente atrs dele. - Todos 
os rinces da casa esto cheios de gente. Os celeiros, estbulos e abrigos, tambm. E se tiver pensado em uma rendez-vous sob as matas do ribazo, esquece-o. Este 
vestido h flanco uma fortuna. 
      Uma fortuna em usque ilegal, mas fortuna ao fim e ao cabo. 
      - Sei perfeitamente. 
      Percorreu-me lentamente com os olhos, da cabeleira recolhimento at as ponteiras dos sapatos novos. O vestido era de seda ambarina, com folhas de seda parda 
e dourada bordadas no suti e na prega. E a meu parecer, sentava-me como uma luva.
      - Mas vale a pena - adicionou brandamente. E se inclinou para me beijar. Uma brisa geada agitou os ramos do carvalho que nos cobria. Aproximei-me mais a ele, 
procurando seu calor.
      - meu deus! - disse, apoiando a frente nas dobras de sua camisa para inalar seu aroma de homem, misturado com o amido - se sua tia e Duncan no necessitam 
a cama possivelmente...
      - Ah!, assim que voc tambm o pensaste. 
      - No, absolutamente. Por outra parte, o que te importa?
      - No me importa,  verdade - disse, impertrrito. - Mas esta manh, quatro homens me pediram opinio: se o fariam... ou se j o tinham feito. O qual  todo 
um completo para minha tia, no?
      Era verdade. Yocasta MacKenzie devia estar bem entrada na sexta dcada, mas a idia de que compartilhasse o leito com um homem no resultava absolutamente 
inconcebvel. Eu conhecia muitas que tinham abandonado com gosto a vida sexual, logo que o fim da idade frtil o fez possvel. Yocasta no era dessas. E ao mesmo 
tempo...
      - No o tm feito- informei. - Soube ontem, pela Fedra. 
      - Sei. Duncan acaba de me dizer isso 
      - De ver? - Isso me surpreendeu o bastante. 
      - Queria te perguntar algo, Sassenach- disse, olhando por cima do ombro para assegurar-se de que ningum nos escutasse. - Pode procurar uma ocasio para falar 
a ss com minha tia?
      - Neste  manicmio? - Joguei uma olhada a terrao; um enxame de convidados rodeava ao Duncan. - Suponho que poderia pilh-la em sua habitao, antes de que 
baixe para a cerimnia. subiu a descansar. 
      No me teria ido mal me deitar tambm; doam-me as pernas detrs passar horas inteiras de p; alm disso, os sapatos novos eram algo estreitos. 
      - Perfeito. - Saudou amavelmente a um conhecido que se aproximava, mas logo lhe voltou as costas para evitar interrupes. 
      - De acordo - disse. - por que?
      - Pois... trata-se do Duncan. - Parecia de uma vez divertido e um pouco preocupado. - H uma pequena dificuldade e ele no se atreve a tocar o tema com ela. 
      - No me diga nada - adivinhei. - Esteve casado e acreditava que sua primeira esposa tinha morrido, mas acaba de v-la aqui, comendo encurtidos. 
      - No  to grave - assegurou ele, sorridente. - E possivelmente no seja to problemtico como Duncan teme. Mas est muito preocupado e no se decide a falar 
com minha tia; lhe intimida um pouco, sabe?
      - Entendo-o, mas o que  o que lhe tem to preocupado?
      - Bom - respondeu, ele, com lentido - , te ocorreu te perguntar por que alguma vez se casou?
      - No. S supus que a sublevao... OH, Deus mijo!... - interrompi-me. - No me diga... Santo cu... gosta dos homens?
      Tinha levantado involuntariamente a voz. 
      - No! - exclamou ele, escandalizado. - Ia eu a permitir que minha tia se casasse com um sodomita?
      - Pois no tinha por que sab-lo - observei, divertida. 
      - me acredite que saberia - assegurou, carrancudo. - Vem aqui. 
      Levantou um ramo pendente para que eu passasse e ao chegar a um pequeno espao aberto entre os troncos, repetiu: 
      - No. Que mente mais suja tem, Sassenach! Nada disso. - Jogou uma olhada atrs, mas estvamos a boa distncia do prado e razoavelmente ocultos  vista. - 
Mas ... incapaz. 
      Escolheu ligeiramente um ombro, como se a idia o incomodasse profundamente. 
      - O que? Impotente? - senti que me abria a boca e a fechei. 
      - Sim. Durante sua juventude esteve comprometido, mas sofreu um horrvel acidente: um cavalo de tiro o derrubou na rua e o chutou no escroto. - Pareceu a ponto 
de tocar-se a modo de comprovao, mas se conteve. - curou-se, mas... j no era apto para os ritos nupciais, de modo que liberou a jovem de seu compromisso e ela 
se casou com outro. 
      - Pobre homem! - exclamei, com solidariedade. - Sempre teve m sorte!
      - Mas est vivo - comentou Jamie. - Muitos outros morreram. Alm disso - assinalou a extenso do River Run- , no acredito que, em sua situao atual, possa 
falar de m sorte. Excetuando essa pequena dificuldade, claro est. 
      Com a frente enrugada, repassei as possibilidades mdicas. Se o acidente tivesse provocado um grave dano vascular, no havia muito que se pudesse fazer; eu 
no estava preparada para uma boa cirurgia reconstructiva. Mas se era s um cogulo...
      - Diz que aconteceu quando era jovem? Hum, vai ser difcil, depois de tanto tempo. Mas posso jogar uma olhada e ver se...
      Jamie me olhou com incredulidade. 
      - Uma olhada? Sassenach! Esse homem se muda quando lhe pergunta pela sade de seus intestinos. Quase morreu que vergonha ao me contar isto. Se te entremeter 
em suas intimidades lhe dar uma apoplexia. 
      Irritada, coloquei depois de uma orelha a mecha de cabelo que tinha liberado uma ramilla de carvalho. 
      - Mas que esperas de mim? O que o cure com encantamentos?
      - No,  obvio - replicou, algo impaciente. - No quero que faa nada pelo Duncan. S que fale com minha tia. 
      - Mas... quer me dizer que ela no sabe? Esto comprometidos h meses! E conviveram a maior parte deste tempo!
      - Pois ele no pensou que minha tia o quisesse por sua beleza viril, verdade? - observou Jamie. - S parecia questo de negcios e convenincia. Como proprietrio 
do River Run, ele poderia dirigir coisas que como capataz estava fora de seu alcance. Mesmo assim no teria acessado, mas ela o persuadiu. 
      - E no lhe ocorreu mencionar esse... impedimento? 
      - Pensou-o, sim. Mas minha tia no dava amostras de pensar no matrimnio mas sim como uma questo de negcios. Ela no mencionou o fato e ele era muito tmido 
para faz-lo. De modo que no surgiu nunca. 
      - E suponho que agora surgiu. O que aconteceu? Acaso esta manh sua tia lhe colocou uma mo sob a saia? Fez algum comentrio soez sobre a noite de bodas?
      - Ele no me h isso dito - replicou, seco. - Mas s esta manh, quando comeou para ouvir as brincadeiras dos convidados, lhe ocorreu que possivelmente minha 
tia esperava... pois... - Encolheu um ombro e o deixou cair. - No sabia o que fazer. E escutando a todos entrou o pnico. 
      - Compreendo. - Passei-me um ndulo pelo lbio superior, pensativa. - Pobre Duncan, no  de sentir saudades que esteja to nervoso. 
      - Sim. - Jamie endireitou as costas com o ar de quem resolveu algo. - Pois bem, se tiver a bondade de falar com a Yocasta e esclarecer coisas... 
      - Eu? Quer que eu o diga?
      - Olhe, no acredito que lhe importe muito - disse, zombador. - depois de tudo, a sua idade no acredito que...
      - A sua idade? - bufei. - A ltima vez que se soube de seu av Simon, j setuagenrio avanado, ainda estava fazendo das suas. 
      - Mas minha tia  mulher - observou ele, bastante austero, - se por acaso no te precaveste. 
      - E voc crie que isso troca as coisas?
      - Voc no?
      - Pois sim, troca-as. - Reclinei-me contra uma rvore, com os braos cruzados sob o busto, e o olhei com as pestanas entreabridas. - Quando eu tenha cento 
um anos e voc, noventa e seis, convidarei a meu leito... e ento veremos quem se comporta  altura das circunstncias, de acordo?
      Observou-me com um brilho no azul escuro de seus olhos. 
      - Estou pensando te fazer o amor aqui mesmo, Sassenach - disse. - Como pagamento a conta, n?
      - E eu estou pensando tomar a palavra - repliquei. Entretanto... Joguei uma olhada para a casa, que se via perfeitamente atravs dos ramos. As rvores comeavam 
a brotar, mas aquelas ramillas tenras no eram absolutamente camuflagem suficiente. Girei no momento em que as mos do Jamie descendiam para a curva de meus quadris. 
      A partir de ento os fatos so algo confusos; as impresses predominantes so um apressado sussurro de tecidos, o aroma penetrante da erva pisoteada e o ranger 
das folhas murchas sob os ps. 
      Poucos segundos depois abri repentinamente os olhos. 
      - No te detenha! - disse , incrdula. - Agora no, pelo amor de Deus! 
      Ele deu um passo atrs, com um grande sorriso malicioso, e deixou cair o bordo de sua saia. O esforo lhe tinha avermelhado a cara com um tom de bronze avermelhado; 
seu peito subia e baixava contra os volantes da camisa. passou-se a manga pela frente. 
      - Darei-te o resto quando tiver noventa e seis anos, sim?
      - No viver at ento! Vem aqui!
      - Falar com minha tia?
      - Que suja extorso! - ofeguei, gesticulando as dobras de sua saia. - Pagar-me isso, juro-lhe isso. 
      - Sem dvida. claro que sim. 
      Rodeou-me a cintura com um brao para me elevar em velo. Logo se girou para ficar de costas  casa, me ocultando com seu corpo. Seus largos dedos recolheram 
diestramente a saia de meu vestido e as duas anguas; logo com mas destreza ainda, deslizaram-se entre minhas pernas nuas. 
      - Cala - murmurou a meu ouvido, - se no querer que a gente se inteire. 
      Com a curva de minha orelha entre os dentes, ps mos  obra como bom trabalhador, sem emprestar ateno a minhas resistncias intermitentes... e bastante 
dbeis,  preciso admiti-lo. 
      Eu estava mais que lista e ele sabia o que estava  fazendo. No fez falta muito tempo. Cravei-lhe os dedos no brao, duro como o ferro contra minha cintura; 
durante um momento de vertiginosa infinitud me arqueei para trs e logo me derrubei contra ele, me retorcendo como a lombriga no anzol. Jamie sufocou uma risada 
grave e me soltou a orelha. 
      levantou-se uma brisa fria que me agitava as dobras da saia. Do prado chegavam, no ar da primavera, aromas de fumaa e a comida, junto com o rumor das conversaes 
e as risadas.  Eu o ouvia apagado sob o tamborilar lento e forte de meu corao. 
      - Agora que o penso - comentou Jamie, me soltando, - Duncan conserva uma mo til. - depositou-me brandamente sobre meus ps, sem me soltar o cotovelo, se 
por acaso me afrouxavam os joelhos. - Pode mencionar-lhe a minha tia, se for necessrio.    
      
       
      

      41
      
      A msica tem seu encanto
      
      Roger MacKenzie caminhava atravs da multido; aqui e l saudava algum conhecido, mas continuava avanando sem deter-se, para evitar qualquer intento de dilogo. 
No estava de humor para conversar.
      Brianna se tinha ausentado para amamentar ao menino; embora a sentia falta de, no momento preferia que estivesse fora da vista. No gostava absolutamente de 
quo olhadas estava atraindo. Ao mesmo tempo se sentia muito orgulhoso de sua mulher. Estava preciosa com seu vestido novo; ao olh-la experimentava um grato sentido 
de posse.
      O fraco gemido de um violino, que provinha da casa, fez que erguesse as orelhas. Tinha que haver msica para a festa, certamente. E, com sorte, umas quantas 
canes desconhecidas para ele.
      Girou para a casa. No havia trazido caderneta, mas sem dvida Ulises teria algo para lhe dar.
      Embora o violino tinha calado, ouviam-se sons de cordas e emplastros, algum estava provando e afinando instrumentos no salo grande. Nesse momento s havia 
uns quantos convidados que conversavam com ar indiferente.
      Roger passou junto ao Ulises; de p frente ao lar, com peruca e imaculada librea verde, fiscalizava a duas criadas que preparavam uma gigantesca tina de ponche 
de rum. Seus olhos se desviaram automaticamente  porta; depois de registrar a presena e a identidade do Roger, voltaram para o seu.
      Os msicos se agruparam no outro extremo da habitao, de onde jogavam olhadas sedentas ao lar, enquanto preparavam seus instrumentos. Ele se deteve junto 
ao violinista.
      - O que ides interpretar hoje?- perguntou, sorridente- . "Ewie wi'the Crooked Horn", talvez, ou "Shawn Bwee"?
      - OH!, Senhor, nada rebuscado.-  O diretor, um irlands com aspecto de grilo, cujos olhos brilhantes contrastavam com suas costas encurvada, assinalou com 
um gesto de cordial desdm a seu matizado conjunto de msicos- .Estes no sabem mais que jigas e reels. De qualquer modo,  o que a gente querer danar -acrescentou, 
com ar prtico- . depois de tudo, aqui no estamos nos grandes sales do Dubln, nem sequer no Edenton. Um bom violinista pode mant-los contentes.
      - E esse  voc, suponho? -perguntou Roger com um sorriso.
      - Esse sou eu- confirmou o cavalheiro, com uma elegante reverencia- . Seamus Hanlon, senhor. A seu servio.
      -  uma honra. Roger MacKenzie, da Colina do Fraser. -inclinou-se a sua vez, desfrutando dessa formalidade antiquada.
      Hanlon o observou com sagacidade, apreciando a amplitude de seu peito.
      - E que voz! Sem dvida voc  cantante, senhor MacKenzie.
      Uma vibrao enfermo interrompeu a resposta do Roger. Ao girar em redondo viu o chelista inflado sobre seu instrumento, como uma galinha com um pintinho muito 
grande, para proteger o de um dano maior contra o cavalheiro que, pelo visto, tinha-o chutado despreocupadamente ao passar.
      - voc tenha cuidado, homem! -exclamou o chelista- . Torpe bbado!
      - N? -O intruso, homem corpulento que vestia o uniforme naval, olhou-o amenazadoramente- . Como shhe atreve... atreve-se... a hab...blarme ash...
      Tinha a cara anormalmente avermelhada e se bamboleava um pouco. Roger percebeu os vapores alcolicos a dois metros de distncia.
      O oficial assinalou ao msico com um dedo, como se estivesse a ponto de falar.
      - Cuidado, senhor Ou'Reilly -advertiu secamente Seamus Hanlon ao chelista- . Se estivssemos perto do mar, haveria uma ronda de gancho esperando que voc sasse. 
Tal como esto as coisas, no seria estranho que esse homem o ataque com algum passador.
      Ou'Reilly cuspiu eloqentemente ao cho. 
      - Conheo-o -disse, depreciativo- . Chama-se Wolf, "Lobo", mas no  mais que um co de m morte. Est mais bbado que uma Cuba. dentro de uma hora j no 
se lembrar de mim.
      Hanlon, caviloso, contemplou com os olhos entreabridos a porta pela que o tenente tinha desaparecido.
      - Pode ser -reconheceu- . Mas eu tambm o conheo. E acredito que sua mente pode estar mais lcida do que sua conduta d a entender.
      Refletiu durante um instante, golpeando-a palma da mo com o arco do violino. Logo se voltou para o Roger.
      - Da Colina do Fraser, h dito voc?  acaso parente da senhora Cameron? Da senhora Innes, deveria dizer -se corrigiu.
      - Estou casado com a filha do Jaime Fraser -explicou Roger, paciente. Tinha descoberto que era a descrio mais eficaz, pois todo o condado parecia saber quem 
era Jaime Fraser. Desse modo evitava mais pergunta sobre seus prprios vnculos familiares.
      - Diabo! -exclamou Seamus, visivelmente impressionado- . Vamos! Hum!
      - E o que est fazendo aqui essa esponja? -inquiriu o chelista, ainda furioso, enquanto dava a seu instrumento uns golpecitos tranqilizadores- . Todo mundo 
sabe que tinha intenes de casar-se com a senhora Cameron para ficar com o River Run. Que descaramento, mostrar-se hoje por aqui!
      - Talvez veio para demonstrar que no guarda rancores -sugeriu Roger- . Um gesto corts. Que ganhou o melhor e todo isso, no?
      Ante isso os msicos emitiram uma mescla de risitas burlonas e bufidos de hilaridade.
      - Talvez -disse o flautista, movendo a cabea- . Mas se voc for amigo do Duncan Innes, lhe diga que durante o baile cuide suas costas.
      - Sim, diga o repetiu Seamus Hanlon- . Voc v, jovem, e fale com ele. Mas retorne, por favor.
      E chamou com um dedo ao lacaio que estava  espera. depois de agarrar uma taa da bandeja que lhe oferecia, elevou-a a maneira de saudao, sonriendo ao Roger.
      - Pode que voc possa me ensinar uma ou duas canes novas.
      
      

      42
      
      O amuleto Deasil
      
      Sentada na poltrona de pele, frente ao lar, Brianna dava o peito ao Jemmy, enquanto sua tia av se preparava para as bodas.
      - O que lhe parece? -perguntou Fedra, lhe afundando penteie de prata em um pequeno pote de pomada- . Penteio-a para cima, com os cachos no cocuruto? -Sua voz 
soava esperanada, mas cautelosa. No ocultava sua desaprovao pelo fato de que sua ama se negasse a usar peruca; se o permitia, esmeraria-se em criar um efeito 
similar com o cabelo natural da Yocasta.
      - Tolices -disse a anci- . Isto no  Edimburgo, filha, muito menos Londres. -respaldou-se no assento, com a cara em alto e os olhos fechados, desfrutando 
de do sol primaveril, que entrava em torrentes pelos cristais, fazia faiscar o pente de prata e convertia em sombras as mos da pulseira, contra o nimbo de lustroso 
cabelo branco.
      - Pode ser, mas tampouco  o Caribe selvagem, nem os pramos -contra-atacou Fedra- . Voc  a senhora;  suas bodas e todo mundo a olhar. Quer me morrer de 
calor, com o cabelo solto sobre os ombros como as ndias, para que todos criam que no conheo meu ofcio?
      - OH!, Deus no o permita. -A larga boca da Yocasta se contraiu com irritvel humor- . Me penteie com simplicidade, por favor: para trs e recolhido com pentes 
de prender cabelos. Possivelmente minha sobrinha te permita exibir sua habilidade em seus cachos.
      Fedra jogou um olhar penetrante a Brianna, quem se limitou a negar com a cabea, sorridente.
      Brianna olhou com inveja o tamanho do grande leito da Yocasta. Entre as exigncias da viagem, Jemmy e a aglomerao do River Run, levava mais de uma semana 
sem dormir com o Roger. E dificilmente pudesse faz-lo antes de retornar  Colina.
      Em realidade, dormir com ele no era o que mais lhe interessava, por agradvel que fora. Os estires do beb em seu peito despertavam necessidades no maternais 
em outros stios, cuja satisfao requeria do Roger e de alguma intimidade. A noite anterior tinham iniciado algo promissor na despensa, mas os interrompeu um dos 
escravos ao entrar em busca de queijo. No estbulo, possivelmente... Estendeu as pernas, curvando os dedos, e se perguntou se as moos de quadra dormiriam ali ou 
no.
      - Est bem, porei-me os brilhantes, mas s para te agradar, a negam.
      A voz humorstica da Yocasta a arrancou de uma tentadora viso: um pesebre cheio de palha e o corpo nu do Roger, entrevido na penumbra.
      - Com isso basta, com isso basta. -A anci ficou de p, afugentando a Fedra, que abandonou a habitao. Tamborilava com os dedos contra o penteadeira, enrugado 
o sobrecenho, obviamente concentrada nos detalhes que devia atender. de repente se pressionou a frente com dois dedos, por cima dos olhos.
      - Di-te a cabea, tia? -perguntou Brianna.
      Yocasta baixou a mo e se voltou para ela com um sorriso irnico.
      - OH!, no  nada. Cada vez que troca o tempo me alvoroa a cabea.
      face ao sorriso, a moa viu as rugas de dor que apareciam nas dobras dos olhos.
      - Jem est a ponto de terminar. Irei a por mame, quer? Ela pode te preparar uma infuso.
      Sua tia descartou o oferecimento com um gesto da mo, desprezando a dor com bvio esforo.
      - No  necessrio, a muirninn. No  to grave. -E se esfregou as tmporas cuidando de no arruinar o penteado. O gesto desmentia suas palavras.
      Jemmy se desprendeu com um leitoso "pop!" e deixou cair a cabea para trs, com a diminuta orelha enrugada e de cor carmesim; o oco do brao onde tinha descansado 
ficou quente e suarento.
      - Est cheio, verdade? -Yocasta sorriu, voltando para eles os olhos cegos.
      - Como um tambor -lhe assegurou Brianna. Para assegurarlhe deu uns tapinhas nas costas, mas no se ouviu mais que o suave suspiro do sonho. Ento se levantou, 
limpou-lhe o leite do queixo e o deitou de barriga para baixo no bero improvisado: uma gaveta do chiffonier da Yocasta, posto no cho e bem acolchoado com travesseiros 
e edredons.
      - Quer que chame a Fedra para que te ajude a te vestir, moa?
      - No faz falta: posso me arrumar sozinha... se me ajudar com os cordes. 
      - Suponho que posso. Oua, o menino no est muito perto do fogo? Olhe que podem saltar fascas.
      Brianna se contorsion dentro do espartilho, recolhendo os peitos nos ocos festoneados que os sustentavam; logo ficou o vestido por acima.
      - No, no est muito perto do fogo -disse, paciente, mas o apartou um pouco do lar, no caso de.
      - Obrigado por seguir a corrente a esta velha -disse Yocasta, em tom seco, para ouvir o roce da madeira.
      - De nada, tia. -Brianna deixou traslucir na voz o afeto e a desculpa. Apoiou uma mo no ombro de sua tia av e Yocasta a cobriu com a sua, estreitando-lhe 
com suavidade.
      - No  porque cria que descuida ao menino -disse- , mas quando viveste tanto como eu tambm  mais cautelosa, filha. Vi as coisas terrveis que lhe podem 
acontecer at beb, sabe? -acrescentou com mais suavidade- . E preferiria me queimar viva eu mesma antes que nosso pequen sofresse nenhum dano.
      Suas mos percorreram ligeiramente as costas da moa, procurando as ataduras sem dificuldade.
      - Vejo que recuperaste a silhueta -disse com aprovao, ao roar a cintura- . O que  isto? Tecido em relevo? De que cor ?
      - Azul anil escuro. Com folhas de videira e pmpanos em algodo grosso, em contraste com o azul claro da l. -Guiou os dedos da Yocasta pelas vinhas que cobriam 
cada baleia do suti, do decote at a V da cintura, que descendia marcadamente por diante para destacar a esbelta silhueta que sua tia acabava de ponderar.
      Aspirou fundo ao at-los cordes; seu olhar voou do espelho a cabecita de seu filho, pequena e redonda como um melo cantalupo e comovedora em sua perfeio. 
No era a primeira vez que se perguntava que vida teria levado Yocasta. Devia ter tido filhos (ao menos isso pensava Jaime), mas nunca falava deles e a moa no 
se atrevia a perguntar. Possivelmente os tivesse perdido durante a infncia, como tantas. Sentiu um n no peito ao pens-lo.
      - No se preocupe -disse sua tia. Seu semblante, refletido no espelho, adotou um decidido otimismo- . Seu pequeno nasceu para grandes costure. No sofrer 
nenhum dano, estou segura.
      E se deu a volta, fazendo ranger a seda verde da bata sobre as anguas. Bree se surpreendeu uma vez mais ante essa faculdade de adivinhar os sentimentos alheios, 
at sem ver as caras.
      - Fedra! -chamou Yocasta- . Fedra! me traga o estojo... o negro.
      A pulseira estava perto, como sempre. Um breve sussurro nas gavetas do armrio e trouxe o estojo negro. Yocasta se sentou com ele ante seu secreter.
      Era uma caixa estreita, velha e gasta, recubierta de couro e sem mais adornos que o fechamento de prata. A anci  guardava suas melhores jias em um joalheiro 
muito mais grandioso, de madrea de cedro, com o interior recubierto de veludo. O que teria em esse?
      aproximou-se de sua tia, que acabava de levantar a coberta. Dentro havia uma varinha de madeira torneada, da grossura de um dedo, com trs anis: uma simples 
banda de ouro, com um berilo engastado; outro com uma esmeralda grande, e o ltimo com trs diamantes rodeados de pedras mais pequenas, que captavam a luz e a refletiam 
em arco ris, fazendo-os danar contra os muros e as vigas.
      - Que preciosidade de anel! -exclamou Bree, involuntariamente.
      - o de diamantes?  que Hector Cameron era rico, sim -comentou Yocasta, tocando distradamente o anel maior. Seus largos dedos sem adornos rebuscaram diestramente 
entre as bagatelas amontoadas na caixa, junto aos anis, at encontrar algo pequeno e opaco que entregou a Brianna.
      Era um pequeno broche de metal em forma de corao, um pouco brunido, com um trabalho de bordado.
      -  um amuleto deasil, a muirninn -explicou a anci, com um gesto de satisfao- . Engancha-o nas saias do menino, do reverso. 
      - Um amuleto? -Brianna olhou ao Jemmy- . Que classe de amuleto?
      - Contra as fadas. Que o pequeno o leve sempre grampeado a seu avental (sempre dado a volta, recorda), e nada proveniente do Povo Antigo poder lhe fazer danifico.
      A Brianna lhe ps a pele de galinha dos antebraos ante o tom objetivo daquela voz.
      - Sua me lhe deveria haver isso dito -prosseguiu Yocasta, com um sotaque de recriminao- . Claro que  uma Sassenach. E a seu pai no lhe ocorreria. Os homens 
no pensam nessas coisas -acrescentou, com certa amargura- .  mulher corresponde cuidar dos pequenos e proteger os de todo mal.
      inclinou-se para o cesto da isca e, depois de procurar provas, extraiu uma larga ramilla de pinheiro, com a casca ainda aderida.
      - Toma isto -ordenou- . Acende um extremo no lar e caminha trs vezes ao redor do menino. Na direo do sol!
      Brianna, intrigada, agarrou a varinha e a aproximou do fogo. Logo fez o que lhe indicava, cuidando de sustentar a varinha acesa longe do bero improvisado 
e de suas prprias saias. Yocasta golpeava ritmicamente o cho com o p, cantando em voz baixa. Falava em galico, mas lentamente, de modo que a moa pde reconhecer 
a maior parte das palavras.
      
      Que a sabedoria da serpente seja tua,
      que a sabedoria do corvo seja tua,
      e a sabedoria da guia valente.
      
      Que a voz do cisne seja tua,
      que a voz do mel seja tua,
      e a voz do Filho das estrelas.
      
      Que o amparo da fada seja tua,
      que o amparo dos elfos seja tua,
      que o amparo do co avermelhado seja tua.
      
      Que a riqueza do mar seja tua,
      que a riqueza da terra seja tua,
      e a riqueza do Pai do Cu.
      
      Que cada dia seja alegre para ti,
      que no haja dias maus para ti,
      uma vida gozosa e satisfeita.
      
      Yocasta fez uma pausa, com uma ruga na frente, como alerta para perceber qualquer resposta do pas das fadas. Claramente satisfeita, assinalou o lar.
      - isso arroja ao fogo. Assim o menino estar protegido contra as queimaduras.
      Brianna obedeceu. Fascinava-a descobrir que nada disso lhe parecia ridculo. Era estranho, mas muito satisfatrio, pensar que desse modo protegia ao Jem de 
todo dano, at contra as fadas, nas que pessoalmente no acreditava. Ao menos, no tinha acreditado nelas antes de todo isso.
      De abaixo lhe chegou um fio de msica, o chiado de um violino e uma voz grave e amadurecida. Embora no chegava a distinguir as palavras, reconheceu o som.
      Yocasta inclinou a cabea para escutar, sorridente.
      - Tem boa voz, seu marido.
      Brianna tambm escutava. Percebeu muito fracamente o familiar ir e vir de "Meu amor est na Amrica". "Sempre canto para ti." Os peitos brandos, j vazios 
de leite, arderam-lhe um pouco ante a lembrana.
      - Tem bom ouvido, tia -comentou, apartando o pensamento com um sorriso.
      - Est satisfeita com seu matrimnio? -perguntou Yocasta abruptamente- . Leva-te bem com o moo?
      - Sim - respondeu ela, um pouco sobressaltada- . Muito bem, sim.
      - Me alegro. -Sua tia av escutava, imvel e com a cabea inclinada a um lado- . Me alegro, sim -repetiu em voz baixa.
      Levada por um impulso, Brianna lhe apoiou uma mo na cintura.
      - E voc, tia? -perguntou- . ... est satisfeita?
      "Feliz" no parecia ser a palavra adequada, tendo  vista essa fileira de anis no estojo. Tampouco podia falar de "levar-se bem", se recordava ao Duncan, 
tmido  e emudecido a noite anterior, nervoso e decomposto essa manh.
      - Satisfeita? -disse Yocasta, desconcertada- . Ah, de me casar! -Para alvio da Brianna, sua tia ps-se a rir; as linhas de sua cara se elevaram em sincera 
diverso- . Pois sim, certamente! Mas se for a primeira vez que trocarei de apelido em cinqenta anos!
      Com um pequeno bufido de diverso, a anci se voltou para a janela e apoiou a palma contra o cristal.
      - O dia  perfeito, moa -acrescentou- . por que no te pe o manto e sai a tomar um pouco de ire em companhia?
      Estava no certo; o rio distante refulgia como prata entre um encaixe de ramos verdes. O ar interior, to morno momentos antes, parecia agora sbitamente ranoso 
e gelado.
      - Acredito que sim. -Brianna olhou para o bero- . Tenho que chamar a Fedra para que cuide do menino?
      Yocasta o descartou com um gesto da mo.
      - Anda, vete, vete. Eu cuidarei do pequen. No penso descer em um momento.
      - Obrigado, tia.
      Bree lhe deu um beijo na bochecha e se disps a sair. Logo, olhando a sua tia, deu um passo atrs, para o lar, e apartou discretamente o bero do fogo.
      
        
      
      
      O ar fresco de fora cheirava a erva nova e a fumaa de andaime. Sentiu desejos de saltar pelos atalhos de pedra, com o sangue cantando nas veias. Da casa lhe 
chegavam compases de msica e a voz do Roger. Daria um passeio rpido e logo entraria; talvez ento Roger estivesse disposto a dar um descanso Y...
      - Brianna!
      Ouviu seu nome vaiado do pomar. Ao voltar-se, sobressaltada, descobriu a cabea de seu pai, aparecida por uma esquina do muro, como um caracol avermelhado. 
Chamou-a com um gesto e desapareceu.
      Ela jogou uma olhada sobre seu ombro, para assegurar-se de que ningum a observasse, e entrou apressadamente. Seu pai estava agachado entre as cenouras recm 
brotadas, junto a uma criada negra que jazia escancarada em um monto de esterco, com a touca sobre a cara.
      - Que demnios...? -comeou ela. Logo captou uma penetrante baforada de lcool entre os aromas das novelo e o esterco esquentado pelo sol- . Ah.
      E ficou em cuclillas junto a seu pai, com as saias avultadas sobre o atalho.
      - Foi minha culpa -explicou ele- , ao menos em parte. Deixei uma taa mdio vazia sob os salgueiros. -Assinalava uma taa para ponche, atirada no caminho, 
com uma gota de lquido pegajoso ainda aderida ao bordo- . Ela deve hav-la encontrado.
      Bree levantou o volante da touca com um dedo cauteloso. Era Betty, uma das maiores; tinha os lbios frouxos e a mandbula queda em um estupor alcolico.
      - Sim, no foi sua primeira meia taa -confirmou Jaime, ao v-la- . Deve ter estado como uma Cuba. No sei como pde caminhar at aqui da casa, nessas condies.
      - O que bebia? Ponche de rum? -perguntou Brianna.
      - Brandy.
      - Nesse caso ou foi voc quem a empurrou ao outro lado.
      Mostrou-lhe a taa, inclinando-a para que ele pudesse ver os sedimentos escuros do fundo. O ponche da Yocasta no se preparava s com rum, acar e manteiga, 
segundo o costume, mas tambm com passas de Corinto, e se terminava de especiar com um ferro quente. O resultado no era s uma mescla de cor parda escura, mas sim 
deixava um denso sedimento, composto de pequenos gros de fuligem, provenientes do ferro, e restos chamuscados das passas.
      Jaime agarrou a taa, carrancudo, e meteu nela o nariz para aspirar profundamente. Logo afundou um dedo no lquido e o levou a boca.
      - O que ? -perguntou ela, ao ver sua mudana de expresso.
      - Ponche. -Mas repassou vrias vezes os dentes com a lngua, para limp-los- . Com ludano, conforme acredito.
      - Ludano! Est seguro?
      - No -reconheceu ele, francamente- . Mas se isto no contm algo alm das passas de Corinto, eu sou holands.
      - Acredito-te -disse, limpando-a ponta do nariz com o dorso da mo- . vou procurar a mame?
      Jaime se agachou junto  mulher para examin-la com ateno. depois de apalpar uma mo laa e escutar a respirao, moveu a cabea.
      - No sei se est drogada ou s bria, mas no parece moribunda.
      - O que faremos com ela? No podemos deix-la tendida aqui.
      - No,  obvio.
      Com muita suavidade, Jaime elevou  mulher. Um sapato gasto caiu ao caminho. Brianna o recolheu.
      - Sabe onde dorme? -perguntou seu pai, manobrando cuidadosamente com sua carga estentrea para rodear um macio de pepinos.
      - Trabalha na casa; deve dormir na gua-furtada.
      Ele sacudiu a cabea para tirar uma mecha de cabelo vermelho que o vento lhe tinha metido na boca.
      - Pois bem, rodearemos os estbulos e trataremos de subir pela escada posterior sem que nos vejam. V diante, filha, e me faa um gesto quando o caminho esteja 
livre.
      Quando se voltava para fazer o sinal a seu pai divisou ao mesmo senhor Wylie, que entrava nos estbulos acompanhando a uma dama. Um brilho de seda dourada... 
Um momento! Era sua me! Por um instante, Claire voltou sua cara plida para ela, mas estava atenta ao que seu acompanhante dizia e no reparou na presena de sua 
filha.
      Bree vacilou. Teria querido chamar a sua me, mas no podia faz-lo sem chamar a ateno. Ao menos sabia onde encontr-la. Uma vez que Betty estivesse a salvo 
em sua cama, poderia ir pedir lhe ajuda.
      
      
      Depois de uns momentos de alarme e livrar-se por pouco de ser vistos, conseguiram subir a Betty at o comprido apartamento de cobertura que compartilhava com 
as outras pulseiras da casa. Jaime, ofegante, deixou-a cair sem cerimnias em um dos camastros.
      - Bom -disse, algo resmungo- . J est a salvo. Se disser a algumas das outras pulseiras que se h sentido indisposta, suponho que o assunto no chegar a 
maiores.
      - Obrigado, papai. -Ela se aproximou para lhe dar um beijo na bochecha- .  muito doce.
      - OH!, sim -exclamou ele, resignado- . Tenho os ossos cheios de mel. -Mesmo assim no parecia aborrecido- . trouxeste esse sapato?
      Tirou-lhe o outro e os ps juntos, sob a cama. Logo cobriu com a tosca manta de l os ps da mulher, embainhados em sujas meias brancas. Brianna verificou 
seu estado; at onde podia julgar, tudo estava bem; a mulher ainda roncava com uma regularidade tranqilizadora. Enquanto se afastavam nas pontas dos ps para a 
escada posterior, deu ao Jaime a taa de prata.
      - Toma. Sabia que esta  uma das taas do Duncan?
      - No. -Ele arqueou uma sobrancelha- . Como que  do Duncan?
      - Tia Yocasta encarregou um jogo de seis taas, como presente de bodas. Ensinou-me isso ontem. Olhe. -Fez girar a taa na mo para lhe mostrar o monograma 
gravado- . O I do Innes, com um pequeno peixe que nada ao redor da letra; note no belo detalhe das escamas. -te til sab-lo? -perguntou, ao ver que seu pai enrugava 
a frente, interessado.
      - Possivelmente. -Ele tirou um leno limpo para envolver o recipiente com cuidado e o guardou no bolso da jaqueta- . irei averiguar. Enquanto isso, pode procurar 
o Roger MAC?
      -  obvio. Para que?
      - Pois me ocorreu que se Betty bebeu parte do ponche e ficou tendida como um pescado na encimera, eu gostaria de encontrar ao que bebeu a primeira parte e 
ver se estiver no mesmo estado. Se o ponche estava drogado,  possvel que estivesse destinado a outra pessoa, verdade? Voc e Roger MAC poderiam procurar discretamente 
entre os arbustos, se por acaso houvesse algum corpo tendido.
      Em sua pressa por levasse a Betty acima, ela no o tinha pensado.
      - De acordo. Mas antes deveria procurar a Fedra ou ao Ulises para lhes dizer que Betty est indisposta.
      - Sim. Se falas com a Fedra, poderia averiguar se a mulher consome pio, alm de beber, Embora me parece improvvel -acrescentou com secura.
      - Tambm a mim -reps ela, no mesmo tom.
      Compreendia por que. Podia dar o caso de que o ponche no estivesse drogado e que Betty tivesse tomado ludano por si mesmo, deliberadamente. Ela sabia que 
Yocasta tinha um pouco na despensa. Mas se o tinha consumido, era s por divertir-se ou porque tinha inteno de suicidarse?
      Era muito mais provvel que Betty fora alcolica, simplesmente, do tipo que bebe algo vagamente etlica; assim o sugeria o aroma de sua roupa. Mas nesse caso, 
por que arriscar-se a roubar ludano em meio de uma festa que assegurava bebidas em abundncia?
      A contra gosto, chegou  mesma concluso que devia ter tirado seu pai: Betty tinha ingerido o ludano (se disso se tratava) por acidente. E nesse caso... para 
quem era a taa da que tinha bebido?
      Jaime se voltou, franzindo os lbios em sinal de silncio, e lhe indicou por gestos que no havia mouros na costa. Ela o seguiu a passo rpido. Quando chegaram 
ao caminho, sem ter sido vistos, deixou escapar um suspiro de alvio.
      - O que fazia ali, papai? -perguntou. 
      Seu pai ps cara de no entender.
      - No pomar -explicou Brianna- . Como  que encontrou a Betty?
      - Ah! -Ele a agarrou do brao para afastar a da casa. Partiram tranqilamente para o curral, como dois inocentes convidados que queriam contemplar os cavalos- 
. Acabava de trocar umas palavras com sua me no bosquecillo. Retornei atravessando o pomar. E ali estava a mulher, tendida de costas no monto de esterco.
      - Esse  um detalhe que ter que tomar em conta, no te parece? deitou-se no pomar a propsito ou foi s por acidente que a encontrei ali?
      Jaime moveu a cabea. 
      - No sei. Mas assim que Betty esteja sbria quero falar com ela. Sabe onde est sua me agora?
      - Sim, com o Phillip Wylie. Acredito que foram aos estbulos.
      Seu pai dilatou um pouco as fossas nasais para ouvir esse nome; ela conteve um sorriso.
      - Irei a por ela -disse Jaime- . Enquanto isso, voc v em busca de seu marido. E algo mais, moa... Que ningum se inteire do que faz, n?
      Ela assentiu com um gesto. Ento Jaime girou sobre seus tales e se dirigiu para os estbulos, tamborilando brandamente a jaqueta com os dedos da mo direita, 
como estava acostumado a faz-lo quando estava muito pensativo.
      O vento frio se filtrou sob as saias e as anguas do Bree, as cavando, e lhe provocou um calafrio. Entendia bem o que seu pai tinha querido sugerir.
      Se no era um intento de suicdio nem um acidente, podia tratar-se de um intento de assassinato. Mas de quem?
      
      

      43
      
      Paqueras
      
      depois de nosso interldio, Jaime me deu um comprido beijo e se afastou ruidosamente entre a maleza, em busca do Ninian Bell Hamilton, decidido a averiguar 
o que pensavam fazer os reguladores no acampamento que Hunter tinha mencionado. Deixei passar uns momentos em altares da decncia e sa tambm, mas me detive no 
bordo do bosquecillo antes de aparecer  vista do pblico, para me assegurar de apresentar um aspecto decoroso.
      Quando estava a ponto de sair de detrs das rvores me ocorreu revisar a parte posterior de minha saia, se por acaso houvesse ali mancha ou trocitos de casca. 
Quando estirava o pescoo para olhar para trs, choquei de frente com o Phillip Wylie.
      - Senhora Fraser! - Agarrou-me pelos ombros para evitar que casse de costas- . Est voc bem, querida minha?
      - Sim,  obvio. - Minhas bochechas ardiam com legtima justificao. Dava um passo atrs para me sacudir. por que tropeava sempre com o Phillip Wylie? Acaso 
essa pequena peste me estava seguindo?- . voc desculpe, por favor.
      - Nada, nada - disse ele, cordialmente- . foi minha culpa. Sou muito torpe. Posso lhe trazer algo que lhe restaure o nimo, querida minha? Um copo de cidra? 
Veio? Ponche de rum? Licor de mas? O... No: brandy. Isso, me permita lhe trazer um pouco de brandy para repor do susto. 
      - No, nada, obrigado! - No pude menos que rir do absurdo. Ele sorriu de brinca a orelha; obviamente se considerava muito engenhoso.
      - Bom, se j estiver reposta, querida senhora, deve me acompanhar. Insisto.
      Tinha apanhado minha mo no oco de seu cotovelo e me rebocava decidido em direo aos estbulos, em que pese a meus protestos.
      - No levar mais que um momento - assegurou-me- . Passei-me o dia desejoso de lhe mostrar minha surpresa. Ficar voc absolutamente encantada, o asseguro.
      Rendi-me fracamente. Parecia mais fcil ir ver novamente esses benditos cavalos que discutir com ele.
      - Esse potro tem muito bom carter - comentei com aprovao, comparando mentalmente os bons maneiras do Lucas com a rapace personalidade do Gideon. Como Jaime 
ainda no tinha tido tempo de castr-lo, durante a viagem ao River Run o cavalo tinha mordido a quase todo mundo, animais e humanos por igual.
      -  caracterstico da raa -explicou Wylie, abrindo a porta dos estbulos- . So cavalos muito amistosos, embora seu carter gentil no os priva de inteligncia, 
o asseguro. por aqui, senhora Fraser.
      Em contraste com o exterior fulgurante, no estbulo a escurido era total, tanta que tropecei com um tijolo saliente do cho e ca para diante, com uma exclamao 
de sobressalto. O senhor Wylie me sujeitou por um brao.
      - Est voc bem, senhora Fraser? - perguntou, enquanto me ajudava a me endireitar.
      - Sim - assegurei, um pouco sufocada. Em realidade me tinha torcido o tornozelo e me doa a ponta do p; esses sapatos novos eram encantadores, mas ainda no 
estava habituada a eles- . Me permita esperar um momento, at que minha vista se adapte.
      Ele esperou, mas sem me soltar o brao. Sujeitava solidamente minha mo no oco do cotovelo, para me brindar mais apio.
      - Recline-se contra mim - disse simplesmente.
      Fiz-o. Por um instante permanecemos quietos; eu, com o p dolorido em alto, como uma gara,  espera de que os dedos deixassem de palpitar. Por uma vez o senhor 
Wylie parecia falto de ocorrncias e sadas, possivelmente pelo aprazvel da atmosfera.
      - Aqui se est como dentro de um ventre, verdade? - comentei- .  to quente e escuro... Quase me parece sentir o batimento do corao do corao.
      Wylie riu pelo baixo.
      -  o meu - disse. E se tocou o colete; sua mo foi uma sombra escura contra o cetim claro.
      Meus olhos se adaptavam rapidamente  escurido, mas ainda assim o lugar era muito penumbroso. A silhueta esbelta de um gato se deslizou junto a ns fazendo 
que baixasse o p dolorido. Ainda no suportava o peso, mas ao menos podia apoi-lo.
      - Pode sustentar-se sem apoio um momento? - perguntou ele.
      Sem esperar resposta, apartou-se para acender um abajur, a pouca distncia. Ento Wylie voltou a me agarrar do brao com a mo livre para me conduzir para 
o extremo oposto do estbulo.
      Estavam no ltimo pesebre. Phillip elevou o abajur, ao tempo que se voltava para me sorrir. A luz brilhou sobre uma pelagem que reluzia e ondulava como gua 
a meia-noite, e se refletiu nos grandes olhos pardos da gua.
      - OH, que beleza! - comentei. E logo, elevando um pouco a voz- : OH!
      Uma cria aparecia por detrs de sua garupa, toda ela patas largas e joelhos avultados; a pequena garupa e as paletas inclinadas eram ecos arredondados da perfeio 
muscular de sua me. A cria piscou uma s vez, deslumbrada pela luz; logo se apressou a refugiar-se depois do corpo de sua me. Um momento depois apareceu cautelosamente 
o focinho. Seguiu um ojazo lhe pisquem... e o focinho desapareceu, s para reaparecer quase imediatamente, algo mais longe.
      - Pois voc olhe a essa pequena coquete! - exclamei, encantada.
      Wylie riu.
      -  coquete, sim - disse, com a voz cheia de orgulho- No so magnficas?
      - Sim que o so - confirmei, pensativa- . Mas no estou segura de que essa seja a palavra correta. Magnfico  o que se diria de um semental ou um cavalo de 
guerra. Estas so... so doces!
      - Doces? - sentiu saudades ele, com um bufo de risada- . Doces!
      -  obvio. Encantadoras. Deliciosas. De bom carter.
      - So todo isso, sim - confirmou ele- . E belas, alm disso.
      No olhava aos cavalo, a no ser a mim, com um vago sorriso.
      - Sim - murmurei, embora experimentava uma escura pontada de inquietao- . So muito belas.
      Wylie estava muito perto; dava um passo a um lado e lhe voltei as costas, com o pretexto de observar aos cavalos. A cria hocique a bere cheia de sua me, 
agitando a cauda com entusiasmo.
      - Como se chamam? - perguntei.
      Wylie se aproximou da barra do pesebre com ar de indiferena, mas as comps para que seu brao me roasse a manga ao pendurar a lanterna de um gancho instalado 
no muro.
      - A gua  Tessa - disse- . E voc j viu ao Lucas, o semental. Quanto a potra... - Agarrou-me da mo, sorridente- . Pensava cham-la-a Belle Claire.
      Por um segundo no me movi, estupefata ante a expresso que via em sua cara.
      - O que? - disse, atnita. Devia estar equivocada. Tratei de retirar a mo, mas tinha vacilado por um segundo de mais. Seus dedos espremeram meus. No teria 
intenes de...?
      Sim.
      - Encantadora - disse brandamente, aproximando-se- . Deliciosa. De bom carter. Y... bela.
      Beijou-me. Estava to desconcertada que por um momento no me movi. Seu beijo foi breve e casto, branda a boca. Mas o que importava era o fato de que se atreveu.
      - Senhor Wylie! - exclamei. Retrocedi precipitadamente um passo, mas me deteve o corrimo.
      - Senhora Fraser - disse ele com voz fica, avanando a sua vez um passo- . Querida minha.
      - Eu no sou seu ...
      E me beijou outra vez. J sem nenhum rastro algum de castidade. Ainda horrorizada, mas j livre de estupefao, empurrei-o com fora. Ele se cambaleou e teve 
que me soltar a mo, mas se recuperou instantaneamente e me sujeitou por um brao, me deslizando a outra mo por detrs.
      - Coquete - sussurrou. E baixou a cara para a minha.
      Dava-lhe um chute. Por desgraa o fiz com o p dolorido, o qual privou ao golpe de fora.
      - Basta! - vaiei- . Basta j!
      - Enlouquece-me - sussurrou ele, me estreitando contra seu peito. E tentou me afundar a lngua na orelha.
      Eu pensava que tinha enlouquecido, mas rechaava qualquer responsabilidade por esse estado. Consegui aferr-lo pelo pescoo, mas esse maldito corbatn me interps; 
tratei de introduzir os dedos. Ele deu um coice para o flanco e me sujeitou a mo.
      - Por favor - disse- , quero...
      - Importa-me um rabanete o que voc queira! - espetei-lhe-, Me solte imediatamente, maior... - procurei s cegas algum insulto adequado-  cachorrinho!
      Para minha surpresa, deteve-se em seco. No podia empalidecer, pois j tinha a cara coberta de ps de arroz (seu sabor me tinha ficado nos lbios). Mas apertou 
a boca com expresso... doda.
      -  isso o que pensa de mim? - perguntou em voz baixa.
      - Pois sim, diabos! O que outra coisa posso pensar? perdeu voc a cabea, que se comporta desta maneira to... desprezvel? Que inseto lhe picou?
      - Desprezvel? - Parecia atnito para ouvir qualificar desse modo suas insinuaes- . Mas se eu... quer dizer, voc... Supus que... no lhe desgostaria...
      - No  possvel - disse, com toda firmeza- . No  possvel que voc tenha concebido uma idia desse tipo. Nunca lhe dei o menor motivo para pensar algo assim!
      Intencionadamente no, certamente. Mas me ocorreu a inquietante ideia de que talvez tnhamos distintas percepes de minha conduta.
      - Que no? Sua cara ia trocando, nublando-se de clera- . Me permita voc que difira, senhora!
      Com certa apreenso, ca na conta de que a paquera, no plano social do Phillip, dissimulava-se com um ar de brincadeira. O que lhe havia dito, Por Deus? Recordava 
difusamente ter analisado, com ele e seu amigo Stanhope, a Lei do Selo. Impostos, sim, e talvez cavalos... Teria sido suficiente para inflamar esse mal-entendido?
      - "Seus olhos so como os lagos de peixes do Heshbon" - recitou, em voz baixa e azeda- . No recorda voc a noite em que o disse? O salmo do Salomn lhe parece 
"uma conversao corts"?
      - Cu Santo!... - Contra minha vontade, comeava a me sentir algo culpado; na festa da Yocasta tnhamos mantido um breve dilogo desse tipo. E ele o recordava? 
O salmo do Salomn era bastante forte; possivelmente a simples referncia... Mas me sacudi mentalmente e ergui as costas.
      - Tolices - declarei- . Voc o disse a modo de brincadeira provocadora e eu me limitei a lhe responder no mesmo tom. E agora devo...
      - veio aqui comigo. A ss.
      E deu um passo mais para mim, com deciso nos olhos. estava-se convencendo a si mesmo, esse petimetre teimado!
      - Senhor Wylie - disse com firmeza, me apartando para um lado- , lamento profundamente que voc tenha interpretado mal a situao, mas sou muito feliz com 
meu marido e voc no me inspira nenhum interesse romntico. E agora, se me desculpar...
      Passei esquivando-o e sa precipitadamente do estbulo, to deprecia como os sapatos me permitiam isso. Cheguei s portas sem que me incomodasse, com o corao 
acelerado.
      No contratempo recente s me tinha solto uma mecha de cabelos. Sujeitei-o com cuidado e sacudi algumas fibras de palha aderidas a minhas saias. Felizmente 
no me tinha esmigalhado a roupa; uma vez assegurado o leno, voltava a ficar decente.
      - Est bem, Sassenach?
      Saltei como um salmo no anzol e meu corao fez outro tanto. Girei em redondo, com a adrenalina me percorrendo o peito como uma corrente eltrica. Ali estava 
Jaime, de p a meu lado, me observando com uma leve enruga no sobrecenho.
      - O que estiveste fazendo, Sassenach?
      Ainda tinha o corao na garganta, me sufocando, mas me obriguei a pronunciar umas quantas palavras, com a esperana de que soassem despreocupadas.
      - Nada. Quer dizer, devi ver aos cavalos. Ao cavalo.  gua. teve um potro.
      - Sim, j sei - disse. Observava-me com ar estranho.
      - Encontrou ao Ninian? O que te h dito? - Acomodei-me o cabelo na nuca, aproveitando a oportunidade para evitar seu olhar.
      - Diz que  certo, embora nunca o duvidei. H mais de um milhar de homens acampados perto do Salisbury. E todos os dias lhes somam mais, h dito. O velho estpido 
est muito agradado!
      Franziu o sobrecenho, tamborilando com os dois dedos rgidos contra a perna. Compreendi que estava muito preocupado. Se se convocava novamente  tropa, s 
ficariam as mulheres para ocupar-se da semeia.
      - Os homens desse acampamento, abandonaram suas terras?
      Salisbury tambm estava ao p da montanha. Era inconcebvel que um agricultor abandonasse sua terra a essa altura do ano s para protestar contra o governo, 
por muito irritado que estivesse.
      - Abandonaram-nas ou as perderam - disse ele brevemente. Seu cenho se acentuou ao me olhar- . falaste com minha tia?
      - N... no - reconheci, me sentindo culpado- . Ainda no. Ia A... Mas h dito que havia outro problema. Que mais aconteceu?
      Emitiu o rudo de uma bule ao ferver, o qual expressava nele uma estranha impacincia.
      - Cristo, quase o tinha esquecido! Acredito que envenenaram a uma das pulseiras.
      - O que? A quem? Como? - Deixei cair as mos para olh-lo com fixidez- . por que no me h isso dito?
      - Mas se acabar de lhe dizer isso No se preocupe; no corre perigo. S est bbada perdida. - Encolheu os ombros, irritado-  O nico inconveniente  que possivelmente 
no era a ela a quem queriam envenenar. Fiz que Roger MAC e Brianna sassem a jogar uma olhada. No vieram a me informar de nenhum cadver, talvez me equivoque.
      - Talvez? - Esfreguei-me a ponte do nariz, distrada de minhas preocupaes por essa novidade- .  certo que o lcool  um veneno, embora ningum parea entend-lo, 
mas existe uma diferena entre embriagar-se e ser envenenado intencionadamente. O que significa...?
      - Sassenach - interrompeu-me.
      - O que?
      - No nome de Deus, o que estiveste fazendo? - estalou.
      Olhei-o com desconcerto. Enquanto discutamos tinha avermelhado progressivamente, mas eu o atribu  frustrao e a seus temores pelo do Ninian e os reguladores. 
Ao ver o perigoso brilho azul de seus olhos ca na conta de que em sua atitude havia algo mais pessoal. Inclinei a cabea a um lado para olh-lo com desconfiana. 
      - por que o pergunta?
      Apertou os lbios sem responder. Em troca estendeu um ndice para tocar, muito delicadamente, a comissura de minha boca. Logo me mostrou a gema, com um pequeno 
objeto negro aderido: o lunar em forma de estrelas do Phillip Wylie.
      - Ah... - Senti um claro zumbido nos ouvidos- . Isso. Pois...
      Sentia-me enjoada. Ante meus olhos danavam pequenas manchas, todas em forma de estrela negra.
      - Sim, isso - espetou-me ele- . Por Deus, mulher! Como se no bastassem os problemas do Duncan e as diabruras do Ninian... E por que no me disse que havia 
renhido com o Barlow?
      - No acredito que isso fora exatamente uma rixa - expliquei, me esforando por recuperar a serenidade- . Alm disso, o maior MacDonald lhe ps fim, j que 
a ti no te encontrava por nenhuma parte. E se quiser que se lhe relatrio de tudo, o major quer...
      - J sei o que quer. - Descartou ao MacDonald com um seco gesto da mo- . Estou at os narizes de maiores, reguladores e faxineiras bbadas. E voc, te beijocando 
com esse petimetre no estbulo!
      Como sentia subir o sangue detrs dos olhos, apertei os punhos para me dominar e no esbofete-lo.
      - No estava "me beijocando" com ele absolutamente, e voc sabe! Esse pequeno estpido me insinuou, mas isso foi tudo.
      - O que te insinuou? Quer dizer que te fez o amor? Isso  evidente!
      - Nada disso!
      - No? Acaso lhe pediste que te emprestasse este lunar para que te trouxesse sorte?
      Moveu o dedo sob meu nariz; eu o separei de um tapa. Muito tarde, recordei que "fazer o amor" no significava fornicar, a no ser enredar-se em uma paquera 
amorosa.
      - Quero dizer - esclareci entre dentes-  que me beijou. Provavelmente por brincar. Mas se poderia ser sua me!
      - At sua av - assinalou ele, de maneira brutal- . De maneira que te beijo. E por que diabos o incitou, Sassenach?
      Fiquei boquiaberta de indignao. Era to insultante que me considerasse a av do Phillip Wylie quanto me acusasse de hav-lo incitado.
      - O que o incitei? Condenado idiota! Sabe perfeitamente que no o incitei!
      - Sua prpria filha te viu entrar ali com ele. No tem vergonha? Com tudo o que tenho que me enfrentar aqui, quer que me veja obrigado a desafi-lo a duelo?
      Senti algum remorso ao pensar na Brianna, e outro major ainda pela possibilidade de que Jaime desafiasse ao Wylie. Mas desprezei ambas as idias. 
      - Minha filha no  tola nem fofoqueira - disse, com imensa dignidade- . Ela no pensaria mal se eu fosse ver um cavalo. E por que teria ningum que pensar 
mau?
      Ele exalou um comprido suspiro, com os lbios cavados. Seu olhar era fulminante.
      - por que? Pois possivelmente porque todo mundo te viu paquerar com ele no prado. Porque o viram te seguir como um co depois de uma fmea em zelo.
      Deveu notar que minha expresso se alterava perigosamente, pois tossiu um pouco antes de continuar:
      - mais de uma pessoa acreditou necessrio me comentar isso Crie que eu gosto de ser o bobo de todos, Sassenach?
      - Mas... mas... - Afogava-me a fria. Teria querido lhe pegar, mas vi que algumas cabeas se voltavam para ns com interesse- . Cadela em zelo? Como te atreve 
a me dizer algo assim? Cretino infame!
      Teve a decncia de mostrar-se um pouco envergonhado, embora seguia jogando fascas.
      - De acordo, no devi diz-lo assim. No era minha inteno... Mas o certo  que o acompanhou, Sassenach. Como se eu no tivesse suficientes problemas, minha 
prpria esposa... E se tivesse ido falar com minha tia, como te pedi, no teria acontecido nada disto. V o que tem feito agora?
      Eu tinha trocado de ideia com respeito  convenincia do duelo. Queria que Jaime e Phillip Wylie se matassem mutuamente, quanto antes, em pblico e com o mximo 
derramamento de sangue. Tampouco me importava que nos olhassem. Fiz um srio intento de castr-lo a emano poda, mas ele me aferrou pelas bonecas.
      - Por Deus! A gente nos olhe, Sassenach!
      - Me... importa... um... rabanete! - vaiei, lutando por me liberar- . Me solte, que j lhes darei algo para olhar!
      No tinha afastado os olhos de sua cara, mas tinha conscincia de muitas outras que se voltavam para ns do prado. Ele tambm.
      - Pois bem, que olhem - disse.
      Envolveu-me em seus braos para me estreitar com fora e me beijou. Como no podia me liberar, deixei de lutar e me pus rgida, furiosa.  distncia se ouviram 
risadas e soezes exclamaes de flego. Ninian Hamilton gritou algo em galico que me alegrei de no entender.
      Por fim apartou seus lbios de meus, sem me soltar, e inclinou lentamente a cabea; sua bochecha se apoiou contra a minha, fresca e firme.
      - Sinto muito - disse em voz baixa. Seu flego me fez ccegas na orelha- . No quis te insultar. Seriamente. Quer que o mate e logo me suicide?
      Relaxei-me um pouco. Tinha os quadris solidamente apertados a ele e, com apenas cinco capas de tecido, ali, o efeito era reconfortante.
      - Hum, ainda no. - Sentia-me enjoada pela corrente de adrenalina. Aspirei fundo para me tranqilizar.
      - v jogar uma olhada a Betty, a faxineira, e oxal possa lhe fazer dizer algo sensato z-disse, olhando o sol, que pendia por sobre as taas dos salgueiros 
que bordeaban o rio- . Mas de faz tarde. Ser melhor que suba a falar primeiro com minha tia, se quisermos que haja bodas s quatro.
      Aspirei fundo, tratando de me serenar. Ainda chapinhavam em mim muitas emoes inexpresadas, mas obviamente havia muito que fazer. 
      - Bem - disse- . irei falar com a Yocasta e logo jogarei uma olhada a Betty. Quanto ao Phillip Wylie...
      - Quanto ao Phillip Wylie - interrompeu-me- , no volte a pensar nele, Sassenach. - A seus olhos apareceu certo paixo interior- . Mais tarde me ocuparei dele.
      
      

      44
      
      Parte pudendas
      
      
      Deixei ao Jaime no vestbulo e subi ao quarto da Yocasta, saudando os amigos e conhecidos com que me cruzava. Estava desconcertada, irritada... e divertida 
a meu pesar. Dos dezesseis anos no tinha dedicado tanto tempo  assombrada contemplao do pnis, e ali estava agora, preocupada com trs.
      Deduzi que Duncan estava mais ou menos intacto. O mais provvel era que sua impotncia tivesse orgenes psicolgicos; possivelmente alguma experincia prematura 
tinha convencido ao Duncan de que essa parte de sua vida estava terminada. 
      Bati na porta da Yocasta e entrei.
      Ali estava o pai LeClerc, sentado ante uma pequena mesa do rinco, liquidando uma variedade de comestveis; na mesa havia tambm duas garrafas de vinho, uma 
das quais estava j vazia. O sacerdote levantou a vista para mim com um sorriso gordurento.
      - Tally- ho, Madame! -saudou alegremente, blandiendo uma pata de peru- . Tally- ho, tally- ho!
      Por contraste, bonjour parecia quase repressivo, de modo que me contentei com uma reverncia e um breve Cheerio!
      Toquei a Yocasta no cotovelo e lhe perguntei se podamos nos instalar no assento da janela, pois tinha que discutir com ela algo importante. Pareceu surpreender-se, 
mas aceitou. depois de desculpar-se com uma reverncia ante o pai LeClerc, veio a sentar-se a meu lado.
      - Sim, sobrinha? -perguntou- . O que  o que acontece?
      - Pois  que -disse, aspirando fundo-  tenho que te falar do Duncan. Ver...
      Ficou atnita assim que comecei a falar, mas notei algo mais em sua atitude. Algo que parecia... alvio, pensei com surpresa. Em sua atitude havia preocupao, 
mas no parecia muito inquieta. Em realidade, sua expresso ia passando da surpresa ao contente de quem descobre uma explicao para algo que lhe afligia.
      Talvez a tinha surpreso e at inquietado um pouco no despertar no Duncan nenhuma amostra de interesse fsico.
      Agora sabia por que. Aspirou fundo e moveu lentamente a cabea.
      - meu deus!, pobre homem -disse- . Sofrer semelhante coisa e chegar a aceit-lo, s para ver-se repentinamente obrigado a preocupar-se de novo por isso. por 
que o passado no nos deixa viver tranqilos?
      Baixou a vista, piscando; comoveu-me ver que tinha os olhos midos.
      de repente apareceu a seu lado o pai LeClrec.
      - Algum problema? -disse-me em francs- . Monsieur Duncan sofreu alguma ferida?
      Yocasta no sabia de francs mais que Comment a vai?, mas entendeu claramente o tom da pergunta e reconheceu o nome de seu prometido.
      - No o diga -me pediu.
      - No, no -a tranqilizei. Logo olhei ao padre, movendo os dedos em sinal de que no tinha que o que preocupar-se- . No, non. C'est rien. No  nada.
      Jogou-me um olhar dbio, franzindo o sobrecenho. Logo, a Yocasta.
      - Uma dificuldade no leito marital? -perguntou sem rodeios, em francs.
      Minha cara deveu expressar consternao, pois fez um gesto discreto para baixo, contra o peitilho de seu hbito.
      - ouvi a palavra "escroto", Madame, e no acredito que voc falasse de animais.
      - Merde -disse pelo baixo.
      Yocasta, que tinha levantado bruscamente a cabea para ouvir a palavra "escroto", voltou-se para mim. Tranqilizei-a com uns tapinhas na mo, tratando de resolver 
o que faria.
      - Temo que adivinhou que o que se bolo, em geral - desculpei-me ante minha tia- . Ser melhor que o explique.
      Ela se mordeu o lbio inferior, mas no ps objees. Expliquei-lhe o caso ao sacerdote, to brevemente como pude.
      - Oui, merde, Madame - disse- . Quelle tragdie! - fez o sinal da cruz se brevemente com o crucifixo; logo, tomou assento junto  Yocasta- . Por favor, Madame, 
lhe pergunte qual  seu desejo.
      - Seu desejo?
      - Oui. Deseja ainda casar-se com o Monsieur Duncan, at sabendo isto? Ver voc, senhora: segundo as leis da Santa Me Igreja, esse impedimento  um obstculo 
para a consumao do matrimnio. Ao conhecer estas condies, eu no deveria administrar o sacramento. No obstante... No obstante, o propsito dessa proibio 
 que o matrimnio seja uma unio frutfera, se Deus assim o quiser. Neste caso no  possvel que Deus assim o queira. portanto...
      Quando traduzi a pergunta a Yocasta, sua cara empalideceu e se apoiou um pouco no respaldo do assento. Apenas um momento depois, deixou escapasse um profundo 
suspiro.
      - Bom, graas a Deus tive a sorte de contar com um jesuta - disse secamente- . Qualquer deles poderia argumentar at persuadir  Batata de que se tirasse 
os cales. Nem pensar de algo to nimio como conhecer as intenes do Senhor. Sim. lhe diga que ainda desejo me casar.
      Transmiti isso ao pai LeClerc, quem franziu algo o sobrecenho, examinando a Yocasta com muita ateno. O sacerdote pigarreou antes de falar. dirigia-se para 
mim, mas com a vista fixa nela.
      - Por favor, Madame, lhe diga isto. Embora  certo que a base para esta lei da Igreja  a procriao, o verdadeiro matrimnio entre homem e mulher, esta... 
unio da carne,  importante por si mesmo. A linguagem do rito... "os duas sero uma s carne", diz. E h razes para isso.  muito o que acontece entre duas pessoas 
que compartilham um leito e se gozam mutuamente. O matrimnio no se reduz a isso, mas na verdade importa.
      Eu devi pr cara de surpresa, pois sorriu apenas.
      - No sempre fui sacerdote, Madame - disse- . Em outros tempos estive casado. Sei o que significa renunciar para sempre a essa parte... carnal... da vida.
      Assenti com a cabea e, depois de tomar flego, traduzi o que havia dito. Yocasta escutou at o final, mas estava decidida.
      - lhe diga que lhe agradeo o conselho - disse, com um imperceptvel toque de irritao- . Eu tambm estive casada anteriormente, mais de uma vez. E com sua 
ajuda voltarei a me casar. Hoje.
      Traduzi, mas ele j tinha compreendido, pela postura da Yocasta e seu tom de voz. Por um momento esfregou as contas entre os dedos. Logo assentiu.
      - Oui, Madame - disse. E lhe estreitou a mo em um suave gesto de flego- . Tally-ho, Madame! 
      
      
      

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      Se parecer pato...
      
      
      Bem: isso parecia, pensei, enquanto subia a escada para o apartamento de cobertura. Na lista de assuntos urgentes seguia a pulseira Betty: teria sido realmente 
drogada? Jaime a tinha descoberto no pomar duas horas antes, mas talvez houvesse ainda sintomas visveis.
      A porta do dormitrio das pulseiras estava entreabrida; ao abri-la, encontrei-me com o Ulises, cruzado de braos ante a cabeceira de um camastro. A seu lado, 
vi um  homem mido e pulcro, de jaqueta e volumosa peruca, com um pequeno objeto na mo.
      antes de que eu pudesse falar, apertou esse objeto contra o brao frouxo da criada e se ouviu um estalo seco. Uma vez retirado, ficou um retngulo de sangue 
contra a pele parda da criada. As gotas caram na terrina que tinha sob o cotovelo.
      - Um escarificador - explicou o homem ao Ulises- . Um grande adiantamento com respeito s lancetas e as navalhas. Comprei-o na Filadelfia.
      - No duvido que a senhora Cameron lhe estar muito agradecida por sua amvel condescendncia, doutor Fentiman - murmurou o mordomo.
      Fentiman. Com que essa era a autoridade mdica do Cross Creek. Para ouvir meu pigarro, Ulises levantou a cabea, alerta.
      - Senhora Fraser - disse, com uma reverncia- . O doutor Fentiman acaba de...
      - A senhora Fraser? - O mdico me olhou com a mesma suspicacia com que eu o observava, mas se impuseram os bons maneiras e me fez uma reverncia.
      - A seu servio, senhora.
      Percebi aroma de genebra em seu flego e a vi nos capilares quebrados do nariz e as bochechas.
      - Encantada. - Dava-lhe a mo a beijar.
      - Sua bondade  elogiable, senhora Fraser - opinou o mdico- . Mas no h necessidade de que se incomode. A senhora Cameron  uma velha e apreciada amiga; 
atender a sua pulseira  um prazer para mim - e sorriu benignamente.
      A respirao da pulseira era profunda e estertrea, bastante regular. Morria por tomar o pulso. Inalei profundamente, tratando de no chamar a ateno.
      Reconheci facilmente os miasmas alcolicos que haviam descrito Jaime e Brianna, mas no teria podido dizer quanto delas provinha da Betty e quanto do Fentiman. 
Se na mescla havia ludano, teria que me aproximar mais para detect-lo e faz-lo deprecia, antes de que os volteis leos aromticos se desvanecessem por completo.
      - Que amvel  voc, doutor - disse, com um sorriso cnico- . No duvido que a tia de meu marido lhe estar muito agradecida por seus esforos. Mas um cavalheiro 
como voc... tem que ter coisas muito mais importantes que requeiram sua ateno. Acredito que Ulises e eu podemos nos ocupar de atender  pulseira. Seus companheiros 
devem jogar o de menos, doutor.
      Para minha surpresa, o mdico no sucumbiu imediatamente a essas adulaes. Soltou-me a mo, com um sorriso to falsa como a minha.
      - Absolutamente, querida minha. Asseguro-lhe que aqui no se requer ateno alguma,  um simples caso de abuso. Administrei-lhe um emtico; assim que surta 
efeito ser possvel deix-la aqui sem perigo. Retorna voc a seus prazeres, minha senhora; no h necessidade de que se arrisque a sujar to bonito vestido.
      antes de que eu pudesse replicar, da cama nos chegou um forte rudo de arcadas. O doutor Fentiman girou imediatamente, agarrando a bacinilla de debaixo da 
cama. O vmito fedia a uma mescla de rum e brandy, mas me pareceu perceber tambm o fantasma do pio.
      - Que classe de emtico utilizou? - perguntei, me inclinando para a mulher para lhe abrir um olho com o polegar. A ris olhava para cima, pardo e frgil, com 
a pupila reduzida a um ponto. Definitivamente: pio.
      - Senhora Fraser! - O mdico me fulminou com um olhar de irritao- . Sirva-se retirar-se, por favor, e no entremeter-se! Estou extremamente ocupado e no 
tenho tempo para suas fantasias. Voc, senhor, leve-lhe 
      depois de agitar uma mo ante o Ulises, girou para a cama.
      - Mas... maior...! - Ao ver que Ulises dava um passo inseguro para mim, calei o epteto.
      Furiosa, abandonei a habitao. Jaime me estava esperando ao p da escada.  lombriga tomou imediatamente do brao para me conduzir ao ptio.
      - Esse... esse... - Faltavam-me palavras.
      - Verme oficioso? - sugeriu, para ajudar.
      - Sim! Escutaste-o? Que descaramento o desse aougueiro, esse insignificante... escupitajo! Que no tem tempo para minhas fantasias! Como se atreve?
      - Quer que subida e o apunhale? - perguntou, com a mo na adaga- . Posso estrip-lo, se quiser... ou s lhe romper a cara.
      - Pois... no. - Dominei minha clera com certa dificuldade- . No acredito que deva fazer isso.
      Pareceu-me ouvir o eco de uma conversao similar, referida ao Phillip Wylie. Jaime tambm o notou, pois curvou a boca com ironia.
      - Diabos - disse, tristemente.
      - Sim. - A contra gosto retirou a mo da adaga- . Parece que hoje no me permite derramar sangue, n?
      - Voc gostaria?
      - Muitssimo - assegurou- . E a ti tambm, por isso vejo.
      No podia discutir, pois me teria encantado estripar ao doutor Fentiman.
      - Podem seus mtodos matar a essa mulher? - perguntou-me Jaime.
      - Em princpio no. Ah!, quanto ao do ludano, acredito que tinha razo.
      Jaime assentiu, cavando pensativamente os lbios.
      - Pois bem: o importante  falar com a Betty, uma vez que esteja em condies de expressar-se coherentemente. No acredito que Fentiman vele junto  cama de 
uma pulseira doente, ou sim?
      - No - admiti a contra gosto- . At onde se v, ela no corre perigo. Terei que vigi-la, mas s se por acaso vomita e se afoga enquanto dorme. E duvido que 
ele fique a fazer isso, se  que lhe ocorre.
      - Bem. - Jaime refletiu um momento; a brisa lhe levantava o cabelo do cocuruto- . pedi a Brianna e ao Roger que comprovem se algum convidado est roncando 
por algum rinco. Eu irei ver nas dependncias dos escravos. Poder te escapulir at o apartamento de cobertura quando se for Fentiman e falar com a Betty assim 
que desperte?
      - Suponho que sim. - De qualquer modo pensava subir para me assegurar de que a mulher estava bem- . Mas no te demore muito. J esto quase preparados para 
a cerimnia.
      Olhamo-nos durante um instante.
      E com uma reverncia, girou sobre seus tales para cumprir com sua tarefa.
      
      

      46
      
      Azougue
      
      Para alvio do Jamie, as bodas se realizou sem dificuldades. A cerimnia foi em francs e se celebrou no saloncito privado da Yocasta, no piso de acima; alm 
dos noivos e o sacerdote, estavam pressentem ele e Claire como testemunhas, Brianna e seu jovem marido, e Jemmy, que dormiu durante a cerimnia.
        Duncan estava plido, mas inteiro, e a tia do Jaime pronunciou seus votos com voz firme. Brianna, que se tinha casado recentemente, contemplava-o espremendo 
o brao de seu marido, em tanto Roger MAC a olhava com olhos tenros. Jaime tambm se comoveu; enquanto o sacerdote entoava a bno, ele se levou os dedos do Claire 
aos lbios para ro-los com um beijo breve.
        Concludas as formalidades e assinados os contratos, todos baixaram para reunir-se com os convidados ante um opparo banquete de bodas.
        Jaime agarrou uma taa de vinho e se reclinou contra o muro sob a terrao, sentindo que suas costas descarregava as tenses do dia. Um problema menos.
        Betty permanecia inconsciente, mas fora de perigo. E como no tinha aparecido nenhum outro envenenamento, era provvel que tivesse ingerido a droga ela mesma.
        O que em realidade queria Jaime era estar com sua esposa. Desejava-a a morrer.
        Ela se encontrava no extremo da terrao. Lhe contraram os dedos: assim que estivesse com ela a ss lhe recolheria a juba para cima com as mos, s pelo 
prazer de deix-la cair outra vez por suas costas.
        Ela ria por algo que Lloyd Stanhope acabava de lhe dizer. Tinha uma taa na mo e estava ruborizada pelo vinho; ao v-la sentiu uma pontada de desejo.
        Deitar-se com ela podia ser algo, desde ternura at orgia, mas possui-la quando estava algo bria era sempre deleite especial. Ento se preocupava menos 
dele, abandonada e alheia a tudo o que no fora seu prprio prazer; arranhava-lhe, mordia-lhe... e lhe implorava que fizesse o mesmo com ela. lhe encantava essa 
sensao de poder, a eleio entre unir-se a ela imediatamente, com luxria selvagem, ou conter-se por um tempo para dirigi-la a seu desejo.
        Viu-a utilizar com efetividade o leque: aparecia os olhos pelo bordo e se fingia espantada por algo que esse sodomita do Forbes havia dito. Misericrdia? 
No, no a teria.
        A apario do George Lyon interrompeu seus pensamentos. O tinham apresentado, mas sabia pouco desse homem elegante e presunoso.
        - Senhor Fraser, permite-me uma palavra?
        - Para servi-lo, senhor.
        voltou-se para deixar a taa; esse ligeiro movimento foi suficiente para ajustar-se discretamente a manta.
        - Caminhamos um pouco, senhor Lyon? -sugeriu. Se queria tratar algum assunto ntimo, era melhor no faz-lo ali, onde podia interromp-los algum convidado.
        Caminharam lentamente at o extremo da terrao, intercambiando frases comuns entre si e cortesias com outros hspedes, at chegar ao ptio, onde vacilaram 
um instante.
        - Falaram-me muito de voc, senhor Fraser -comeou seu companheiro, enquanto partiam para a alta torre do relgio que coroava os estbulos.
        - Seriamente, senhor? Confio que no tudo fora desfavorvel.
        Ele tambm tinha ouvido algumas costure sobre o Lyon; comercializava com algo que a gente queria comprar ou vender... e no era escrupuloso quanto  origem 
de sua mercadoria.
        Lyon se ps-se a rir.
        -  obvio que no, senhor Fraser. Alm do ligeiro impedimento de seus vnculos familiares, no ouvi mais que calorosos elogios, tanto sobre seu carter como 
seus lucros.
        " A Dhia" , pensou Jamie. Extorso e adulao, tudo na primeira frase.
        - Chisholm, McGillivray, Lindsay... - repetiu o homem, pensativo- .. Assim que a maioria de seus homens so escoceses das Terras Altas, no, senhor Fraser? 
Filhos de colonos? Ou possivelmente militares retirados como voc?
        - OH!, duvido que um militar se retire jamais de tudo, senhor -comentou Jamie- . Quem viveu sobre as armas fica marcado de por vida. At ouvi comentar que 
os velhos soldados no morrem: s se esfumam.
        Lyon riu com exagero, declarando que era um bom epigrama.
        - Agrada-me lhe ouvir expressar esses sentimentos, senhor Fraser. Sua majestade sempre confiou na reciedumbre dos escoceses. Acaso voc ou algum de seus 
vizinhos serve no regimento de sua primo?
        Agora Lyon perguntava se Jaime no tinha tratado tambm de estabelecer seus crditos como leal soldado da Coroa arrolando-se em algum dos regimentos escoceses. 
A estupidez desse homem era incrvel.
        - Pois no. Infelizmente, no poderia emprestar esse servio -respondeu ele- . Certa incapacidade provocada por uma campanha anterior, compreende voc? -a 
pequena incapacidade de ter sido prisioneiro da Coroa durante vrios anos, mas no mencionou essa parte.
        Por ento tinham chegado ao cercado e estavam comodamente apoiados na cerca.
        - Que cavalos estranhos, verdade? -Jamie, que os observava com fascinao, interrompeu a disquisicin do Lyon.
        - Sim,  uma raa muito antiga -disse Lyon- . Tinha-os visto antes... na Holanda.
        - Na Holanda. viajou voc muito?
        - Nem tanto, mas estive l alguns anos e a casualidade quis que conhecesse um parente dele. Um mercado de vinhos, chamado Jared Fraser? 
        Jaime sentiu uma descarga de surpresa, a que seguiu uma clida sensao de prazer ante a lembrana de sua primo.
        - Seriamente? Sim, Jared  primo de meu pai. Confio em que voc o encontrasse bem.
        - Muito bem, sim.
        Lyon se aproximou um pouco, e Jaime compreendeu que ia entrar em matria. Esvaziou sua taa e a deixou, disposto a escutar.
        - Tenho entendido que sua famlia tem tambm certo... talento para os licores, senhor Fraser.
        - Afeio, talvez sim, senhor. Quanto a talento, no saberia lhe dizer.
        - No? Pois j vejo que voc  muito modesto. Seu usque  clebre por sua qualidade.
        - Adula-me voc. -Agora sabia o que se morava. No seria a primeira vez que algum lhe sugeria uma associao: que ele proporcionasse o usque e seus scios 
se encarregariam de distribui-lo no Cross Creek, no Wilmington e at no Charleston.
        Ao parecer, Lyon tinha planos mais grandiosos. O mais envelhecido iria por navios guas acima, at Boston e Filadelfia, sugeriu. O afresco, em troca, podia 
ir s aldeias cherokees, ao outro lado da Linha do Tratado, em troca de couros e peles. Ele tinha scios que lhe proporcionariam...
        Jamie escutava com crescente desaprovao. Por fim o interrompeu.
        - Sim. Agradeo seu interesse, senhor, mas temo que minha produo no alcana para o que voc sugere. Produzo usque s para consumo familiar, e uns poucos 
tonis mais para a troca local. Nada mais.
        Lyon grunhiu amigavelmente.
        - Mas com seus conhecimentos e sua habilidade, senhor Fraser, voc poderia incrementar sua produo. Se for questo de materiais... Posso falar com os cavalheiros 
que atuariam como scios na empresa e...
        - No, senhor. Temo-me que no. Se me desculpar.
        Fez-lhe uma abrupta reverncia e girou sobre seus tales para retornar a terrao. Devia perguntar ao Farquard Campbell quem era esse homem. Se alguma vez 
se dedicava a esse comrcio, faria-o pessoalmente, possivelmente com a ajuda do Fergus ou Roger MAC, talvez o velho Arch Bug e Joe Gemem... mas ningum mais.
        Voltou para grandes passos a terrao, pensativo, mas a apario de sua esposa lhe apagou por completo o usque da cabea.
        Claire se tinha separado do Stanhope e seus amigos; estava de p ante a mesa do refrigrio, observando os aprimoramentos exibidos. Jaime viu que Gerald Forbes 
a observava com olhos acesos de especulao; imediatamente, interps-se entre sua esposa e o advogado. Sentiu que os olhos do homem se chocavam com suas costas e 
sorriu para seus adentros. " Esta  minha, velho" , disse-se
        - No sabe por onde comear, Sassenach? -Agarrou a taa vazia do Claire, enquanto aproveitava o movimento para aproximar-se contra suas costas.
        Ela se apoiou contra ele, rendo, e se reclinou contra seu brao. Cheirava a ps de arroz e a pele quente, junto com o perfume dos pimpolhos de rosa que lhe 
adornavam o cabelo.
        - Toma, Sassenach. -Depositou a taa vazia em uma bandeja que passava e a substituiu por outra enche.
        OH!, no posso...- Comeou ela, mas Jamie, para sosseg-la, agarrou outra taa e a elevou para ela, como em um brinde. As bochechas do Claire avermelharam.
        - Pela beleza -disse ele, com um suave sorriso. 
      
      
      Sentia-me estupendamente, e no todo se devia ao vinho, embora era muito bom. Mas bem era a ausncia de tenses, depois de todos os conflitos desse dia.
        A apario do Jamie foi algo prematura para meu programa, posto que eu ainda no tinha comido nada, mas no me opunha a reajustar minhas prioridades.
        - Pela beleza -disse brandamente, e bebeu, sem apartar os olhos de mim.
        - Pela intimidade -respondi, levantando minha prpria taa.
        Elevei lentamente as mos para me tirar o encaixe ornamentado do cabelo e meus cachos caram soltos por minhas costas. Ouvi que algum afogava uma exclamao 
escandalizada. Jamie tinha os olhos cravados em mim como os de um falco no coelho. Sustentei-lhe o olhar e bebi, tragando com lentido.
        Nesse momento, uma voz falou detrs dele, dos grandes ventanales iluminados pelas velas.
        - Senhor Fraser.
        Ambos demos um coice. Ao ver a figura recortada no vo da porta, Jamie afrouxou o corpo e deu um passo atrs, torcendo a boca em uma careta de ironia.
        Phillip Wylie saiu para a luz das tochas. Seu enrojecimiento era tal que se via apesar dos ps.
        - Meu amigo Stanhope tem proposto que esta noite organizemos uma ou duas mesas de whist -disse- . Quer jogar, senhor Fraser?
        Jamie lhe cravou um olhar largo e frio, o pulso palpitava a um lado de seu pescoo, mas sua voz soou serena.
        - Ao whist?
        - Sim. -Wylie sorriu esmerando-se em no me olhar- . Ho-me dito que voc tem boa mo para as cartas, senhor. Claro que nossas apostas so bastante elevadas. 
Talvez no considere...
        - Ser um prazer -replicou Jamie. Seu tom deixava perfeitamente em claro que o nico prazer verdadeiro teria sido lhe fazer tragar os dentes.
        - Ah!, estupendo. Espero... com nsias a ocasio.
        - A suas ordens, senhor. -Jamie se inclinou abruptamente. Logo deu meia volta e me agarrou do cotovelo para nos afastar da terrao.
        Acompanhei-o em silncio at que estivemos o bastante longe para que ningum nos ouvisse.
        - perdeste a cabea? -perguntei cortesmente.
        - Posso permitir que esse petimetre pisoteie minha honra e logo me insulte  cara? -Girou para mim, jogando fascas pelos olhos.
        - No acredito que haja... - comecei, mas me interrompi. Era evidente que, se a inteno do Wylie no era insult-lo diretamente, ao menos queria desafi-lo. 
E para um escocs ambas as coisas eram quase o mesmo.
        - Mas no tem por que aceitar!
        -  obvio que sim -disse, rgido- . Tenho orgulho.
        - Sim, e Phillip Wylie sabe perfeitamente! O orgulho precede  queda. Alguma vez o ouviste dizer?
        - No tenho a menor inteno de cair -assegurou- . D-me seu anel de ouro?
        - O que...? Meu anel?
        Meus dedos foram involuntariamente  mo esquerda,  aliana do Frank. Ele me observava com ateno, os olhos fixos em meus.
        - Necessito algo com o que apostar -explicou em voz baixa.
        - Ao demnio! -Voltei-lhe as costas, olhando para o prado.
        - No o perderei -disse Jamie, detrs de mim. Apoiou-me uma mo no ombro- . E se o perdesse... o resgataria. Sei que o aprecia.
        Torci o ombro para me sacudir sua mo e me afastei alguns passos. Ele no disse nada nem me tocou; limitava-se a esperar.
        - o de oro -disse por fim, inexpressiva- . o de prata no?
        Seu anel, esse no. Sua marca de propriedade, essa no.
        - o de oro vale mais -explicou ele E acrescentou- : Em dinheiro.
        - Isso sei.
        Girei-me para me enfrentar a ele. As chamas das tochas, batendo as asas no vento, arrojavam uma luz mvel contra suas faces; assim era mais difcil ler 
nelas.
        - No seria melhor que te desse os dois? -Tinha as mos frite e escorregadias de suor. O anel de ouro se desprendeu com facilidade; o de prata estava mais 
ajustado, mas o retorci at fazer que acontecesse o ndulo. Agarrei-lhe a mo para deixar cair nela os dois anis, com um tinido.
        Logo dava meia volta e me afastei.    
      
      

      47
      
      Os campos de batalha de Vnus
      
      
      Roger saiu do salo a terrao, serpenteando entre a multido que se aglomerava em torno das mesas. Estava acalorado e suarento, o ar da noite foi como uma 
palmada refrescante. deteve-se no extremo da terrao, onde poderia desabotoar o colete sem chamar a ateno.
        Ali estava Bree: saa da sala, voltando-se pela metade para dizer algo  mulher que levava detrs. Imediatamente o viu e lhe acendeu a cara.
        - Por fim! Apenas te vi em todo o dia. Mas te escutava de vez em quando -acrescentou ela, assinalando com a cabea as portas abertas do salo.
        - Sim? E cantei bem? -perguntou ele como sem lhe dar importncia.
        Ela sorriu e lhe golpeou o peito com o leque fechado, imitando o gesto de uma consumada coquete... costure que no era.
        - OH!, senhora MacKenzie -disse, em tom agudo e nasal- , que voz to divina tem seu marido! Se eu tivesse sua sorte, tenha a segurana de que me passaria 
horas inteiras me embriagando com sua melodia...
        Entre risadas, ele reconheceu  senhorita Martin, a dama de companhia da anci senhorita Bledsoe.
        - Sabe perfeitamente que canta bem -disse Brianna- . No faz falta que eu lhe diga isso.
        - Talvez no -admitiu ele- . Mas isso no significa que eu no goste de ouvi-lo.
        - Seriamente? No  suficiente com a adulao das multides?
        Roger no soube o que responder e optou por agarrar a da mo.
        Brianna pediu a um dos escravos que lhe trouxesse uma garrafa de vinho e duas taas.
        - Encontrou a algum convidado desvanecido entre os arbustos? -perguntou ela. depois de trag-lo esclareceu- : Esta tarde, quando papai te pediu que sasse 
a investigar.
        Ele lanou um breve bufido.
        - Sabe no que se diferencia umas bodas escocesa  de um velrio escocs?
        - No, no que?
        - No velrio h um bbado menos.
        Ela se ponho-se a rir.
        - No -respondeu ele, enquanto a guiava diestramente para a direita do embarcadero, onde estavam os salgueiros- . Agora se vem uns quantos ps aparecendo 
entre as matas, mas esta tarde ainda no tinham tido tempo de ficar patas acima.
        - Voc sim que domina a linguagem -comentou ela, apreciativa- . Eu fui falar com os escravos; todos pressente e em sua maioria, sbrios. Um par de mulheres 
admitiram que Betty bebe nas festas.
        - O qual  pouco dizer, a julgar pelos comentrios de seu pai. Disse que estava como uma Cuba. E me parece que no se referia s  bebedeira.
        - Hum... Mame disse que mais tarde j parecia estar bem, apesar de que o doutor Fentiman insistiu em sangr-la. Esse mdico me d calafrios. Parece um duende 
ou algo assim. E tem as mos mais frite e midas que eu haja meio doido em minha vida.
        - Ainda no tive o prazer -disse Roger, divertido- . Vem.
        Apartou o vu pendente dos ramos de salgueiro, e Brianna procurou o banco de pedra a provas para deixar a bandeja.
        Roger fechou os olhos com fora e contou at trinta. Ao abri-los pde distinguir a silhueta do Bree, e a linha horizontal do banco. Ali ps as taas e serviu 
o vinho, fazendo tilintar o pescoo da garrafa contra as taas.
        Logo alargou uma mo e a deslizou pelo brao do Bree, at que localizou a dela e pde lhe entregar sem perigo a taa enche.
        - Pela beleza -disse, elevando a sua.
        - Pela intimidade -brindou ela. E bebeu. Ao cabo de um momento murmurou, sonhadora- : Ah, que rico...! Fazia tanto tempo que no provava vinho... Um ano? 
No: quase dois. Desde antes de que nascesse Jemmy. Em realidade, desde... - Interrompeu-se abruptamente; logo continuou com mais lentido- : Desde nossa primeira 
noite de bodas. No Wilmigton, recorda?
        - Sim, lembrana.
        No era estranho que Bree recordasse agora aquela noite. Tinha comeado assim, sob os ramos de um enorme castanho. A situao atual se parecia estranha e 
conmovedoramente a aquela: a escurido, o segredo, o aroma da folhagem e a gua prxima.
        Mas aquela tinha sido uma noite calorosa, to densa e mida que a carne se fundia contra a carne. Agora o frio o fazia desejar o calor do Bree.
        - Crie que dormiro juntos? -perguntou Brianna. Parecia um pouco sufocada, talvez por efeito do vinho.
        - Quais? Ah, Yocasta e Duncan? por que no, se se casaram?
        Roger esvaziou sua taa e a deixou com um tinido do cristal contra a pedra.
        - foi umas belas bodas, verdade? -Ela se deixou tirar a taa sem resistncia- . Tranqila, mas muito bela.
        - Muito bela, sim. -Beijou-a com suavidade, estreitando-a contra si, enquanto apalpava a atadura do vestido  costas, entrecruzada sob o fino xale de ponto.
        - No trouxe meu... quer dizer... - Ela se apartou um pouco, dbia.
        - Mas tomaste as sementes, no?
        - Sim.
        Mas ainda parecia duvidar. Ele chiou os dentes e a sujeitou melhor, para impedir que fugisse.
        - No importa -sussurrou, deslizando a boca por seu pescoo, at o pendente onde se unia com o msculo do ombro- . No necessitamos... quer dizer... no 
vou deixar que...
        O decote do vestido era profundo debaixo do leno, como o indicava a moda; mais profundo ainda com os cordes desatados. Roger sentiu o peito brando e pesado 
no oco de sua mo, grande e redondo o mamilo, e se deixou levar pelo impulso de aproximar a boca.
        Ela ficou rgida; logo se relaxou com um suspiro estranho. Roger sentiu na lngua um sabor quente e doce; logo, um estranho palpitar e um jorro de... Tragou 
por reflexo, horrorizado... Horrorizado e excitadsimo. Tinha-o feito sem pensar, sem inteno... Mas lhe sujeitou a cabea com fora.
        Isso lhe deu valor para continuar; empurrou-a brandamente para trs, deitando-a no bordo do banco para poder ajoelhar-se ante ela. Lhe tinha ocorrido uma 
sbita idia, provocada pela lembrana daquela anotao no caderno dos sonhos.
        - No se preocupe -lhe sussurrou- . No ...arriscaremos a nada. Deixa que o faa... s por ti.
        Ainda vacilando, lhe permitiu deslizar as mos sob sua saia, subir pela curva sedosa da pantorrilha, embainhada na mdia, e a coxa nua, sob a curva aplanada 
das ndegas. Uma das canes do Seamus descrevia as faanhas de certo cavalheiro " nos campos de batalha de Vnus" . As palavras se deslizaram por sua cabea, e 
decidiu desempenhar-se com honra nessa palestra.
        Embora ela no soubesse descrev-lo, ele o faria conhecer. Bree se estremeceu entre suas mos.
        - Senhorita Bree?
        Os dois deram um coice. Roger sentia o trovejar do sangue nos ouvidos...e nos testculo.
        - Sim, o que acontece?  voc, Fedra? O que acontece?  pelo Jemmy?
        - Sim, senhora. -A voz da Fedra vinha do salgueiro mais prximo  casa- . O pobre menino despertou acalorado e inquieto; no quis o mingau nem o leite. E 
agora comeou a tossir muito. Teresa queria que procurssemos o doutor Fentiman, mas lhe hei dito...
        - O doutor Fentiman!
        Brianna ps-se a correr para a casa, seguida pela pulseira.
        Roger ficou de p e esperou um momento, com a mo contra os botes da braguilha. A tentao era forte; s demoraria um minuto. Possivelmente menos, nesse 
estado. Mas no: Bree podia necessit-lo para que se entendesse com o Fentiman. A s idia de que o doutor utilizasse seus sanguinrios instrumentos na carne branda 
do Jemmy bastou para que se lanasse de cabea entre os salgueiros, detrs das duas mulheres. Os campos de batalha de Vnus teriam que esperar.
      
      
      Encontrou ao Bree com o Jemmy  no boudoir da Yocasta, centro de um pequeno grupo de mulheres, que pareceram escandalizadas ao v-lo aparecer. Apesar de tudo, 
abriu-se passo entre elas at reunir-se com a Brianna.
        O pequeno tinha mau aspecto, sim. Roger sentiu um n de medo na boca do estmago. Virgem Santa!, Como podia ter ocorrido algo assim em to pouco tempo? Na 
festa, tinha estado to bulioso e simptico como de costume, mas agora jazia contra o ombro da Brianna, com as bochechas acesas e os olhos pesados, choramingando 
um pouco; de seu nariz brotava um fio de muco claro.
        - Como vai?-Tocou-lhe uma bochecha com a mo. Por Deus, ardia!
        - Doente -foi a seca resposta.
        Jemmy comeou a tossir; era um rudo espantoso: forte, mas mdio sufocado. O sangue se amontoou na carita j vermelha; os olhos azuis, redondos, dilataram-se 
no esforo de tomar flego entre um espasmo e outro.
        - Maldio! -murmurou Roger- . O que fazemos?
        - gua fria -disse com autoridade uma das mulheres- . Inundem por completo em um banheiro de gua fria. E que bebe tambm.
        - Voc, moa, v em busca do doutor Fentiman -disse a Fedra uma das mulheres- . No me ouviste?
        - No! Ele no, no! -gritou Brianna e a seguir se dirigiu ao Roger- : Procura mame. Logo!
        Roger baixou como uma tromba ao vestbulo, onde se encontrou com o Claire, que vinha apressadamente para ele. Algum o havia dito.
        - Jemmy? -perguntou ela.
        Ante seu mudo gesto afirmativo, subiu a escada em um segundo, seguida pelos olhares atnitos da gente que enchia o vestbulo. Roger a alcanou acima, no 
corredor, a tempo para lhe abrir a porta, e se manteve atrs para no estorvar, maravilhado. Assim que Claire entrou na habitao, a atmosfera de preocupao lhe 
confinem com o pnico troco imediatamente. Embora a aflio perdurava, as mulheres se retiraram a seu passo sem vacilar, murmurando entre si. Claire se aproximou 
diretamente ao Jemmy e ao Bree, sem emprestar ateno a ningum mais.
        - Ol, tesouro. O que acontece? Encontramo-nos muito mal?
        Enquanto falava em murmrios com o beb, desviou-lhe a cabea a um lado e a outro, apalpando sob as bochechas gordinhas e detrs das orelhas.
        - Pobrecito... No importa, tesouro. Mame est aqui, a av est aqui e todo se arrumar... Quanto tempo leva assim? bebeu algo? Sim, querido, sim... Traga 
com dificuldade?
        Claire agarrou uma folha do grosso papel da Yocasta. Enrolou-a para formar um tubo, que usou para auscultar atentamente as costas e o peito do Jemmy.
        - Sim, claro que  cruz -disse distradamente, em resposta ao diagnstico interrogante que oferecia uma das mulheres- . Mas isso  s tosse e dificuldade 
para respirar. O cruz pode apresentar-se sozinho, por assim diz-lo, ou como sintoma cedo de outras enfermidades.
        - Por exemplo? -Bree estreitava ao Jemmy com fora.
        - Pois... - Claire parecia escutar atentamente o que acontecia dentro do Jemmy, que tinha deixado de tossir e jazia contra o ombro de sua me, exausto, respirando 
com ofegos- . Hum... resfriado comum, gripe, asma, difteria... mas no  isso -acrescentou depressa, ao ver a cara da Brianna.
        - Est segura?
        - Sim -replicou Claire com firmeza- . No acredito que seja difteria. Alm disso, no houve casos por aqui. E como ainda lhe d o peito, tem a imunidade...
        interrompeu-se abruptamente, notando que as mulheres a olhavam. Logo tossiu deliberadamente, para incitar ao Jemmy com o exemplo. O menino gemeu um poquito 
e voltou a tossir. Roger sentia uma rocha em seu prprio peito.
        - No  grave -assegurou Claire ao incorporar-se- . Mas  preciso comear j a trat-lo. Baixemo-lo  cozinha. Fedra, pode me trazer um par de edredons velhos, 
por favor?
        E se dirigiu para a porta, afugentando s mulheres a seu passo.
        Guiado por um impulso, Roger alargou os braos para o beb. Depois de um instante de vacilao, Brianna permitiu que o agarrasse. Jemmy no resistiu; pendia 
lasso e pesado, em terrvel contraste com sua normal elasticidade de borracha. Sua bochecha queimava atravs da camisa. Baixou a escada com ele em braos e Bree 
a seu lado.
        - Tem alguma infeco no ouvido, tesouro? -Claire lhe soprou em um ouvido; logo, em outro. O beb piscou, entre roucas tosses, e se passou uma mo  gordinha 
pela cara, mas sem amostras de dor.
        Guiados pelas indicaes do Claire, os escravos transportavam em um rinco da cozinha; trouxeram gua fervendo e com os edredons unidos com alfinetes formaram 
uma loja.
        Ento, Brianna se meteu sob o edredom e alargou os braos para que entregassem ao Jemmy. Claire, que tinha mandado a uma pulseira a procurar sua caixa de 
remdios, revolveu nela at encontrar uma redoma cheia de um azeite amarelo e um frasco de cristais brancos.
        antes de que pudesse fazer nada com eles, Joshua, uma das moos de quadra, baixou ruidosamente a escada, mdio sufocado pela pressa.
        - Senhora Claire! Senhora Claire!
        Ao parecer, enquanto alguns cavalheiros disparavam suas pistolas em celebrao do feliz acontecimento, um deles tinha sofrido certo percalo, embora Josh 
no sabia exatamente do que se tratava.
        - No est ferido gravemente -assegurou- , mas sangra muito. E o doutor Fentiman... possivelmente no esteja to firme como conviria. Viria voc, senhora?
        -  obvio.
        Em um abrir e fechar de olhos, ela ps o frasco e a redoma em mos do Roger.
        - Tenho que ir. Agarra isto. Ponha um pouco na gua quente; que respire o vapor at que deixe de tossir.
        Rpida e pulcra, recolheu sua caixa e, depois de entregar-lhe ao Josh, desapareceu pela escada antes de que Roger pudesse lhe perguntar nada.
        - Onde est mame? foi-se? -perguntou Bree.
        - Sim. H uma emergncia. Mas tudo sair bem -assegurou Roger- . Deu-me o que devemos jogar na gua. Disse que lhe faamos respirar o vapor at que a tosse 
cesse.
        sentou-se no cho, junto  bacia. A escurido no era total ali abaixo. Quando seus olhos se habituaram pde ver o bastante. Bree parecia preocupada mas 
no to aterrada como antes. Ele tambm se sentia melhor; ao menos sabia o que devia fazer. E Claire no parecia to preocupada como para no separar-se de seu neto.
        A redoma continha azeite de pinheiro, penetrante e perfumado de resinas. No sabia quanto usar, mas jogou  gua uma quantidade generosa. Enquanto o fazia 
sentiu saudades da instintiva familiaridade do gesto.
        - Ah! Assim era isso -disse de repente.
        - O que?
        - Isto. -Assinalou com aquele gesto abrigado santurio, que se enchia rapidamente de um vapor perfumado- . Lembrana ter estado em minha cama com uma manta 
na cabea. Minha me ps isto em gua quente; cheirava igual. Por isso me pareceu familiar.
        - Ah...! -A idia pareceu tranqilizar ao Bree- . Voc tambm teve croup quando foi pequeno?
        - Suponho que sim. No recordo nada. Somente o aroma.
        A essas alturas o vapor tinha cheio a pequena loja, mido e penetrante. Ele se encheu os pulmes. Logo deu uns tapinhas  perna da Brianna.
        - No se preocupe. Com isto se curar.
        Roger tinha deixado cair a cortia da cnfora. Buscou-o provas no cho e tampou com firmeza o frasco.
        - Eu gostaria de saber o que tem feito sua me com os anis -comentou por procurar algum tema de conversao que rompesse esse mido silncio.
        - por que? -perguntou Brianna.
        - Quando me entregou estas coisas no os deixava postos. -Tinham-lhe chamado a ateno, pois nunca a tinha visto sem esses anis de ouro e prata.
        - Est seguro? Nunca os tira, salvo para fazer algo muito horrvel. -Bree deixou escapar uma risita nervosa, inesperada- . A ltima vez foi quando Jem deixou 
cair seu " bobi"  na bacinilla.
        Roger riu, divertido. " Bobi"  se referia a qualquer objeto pequeno, mas assim chamavam agora  argola que ao Jem gostava de mascar. Era seu brinquedo favorito 
e no podia deitar-se sem ele.
        - BA BA? -Jem levantou a cabea, com os olhos entrecerrados. Ainda respirava com dificuldade, mas comeava a demonstrar interesse por algo que no fora seu 
desconforto- . BA BA!
        A escura intimidade da loja fez que Roger recordasse algo: havia ali a mesma sensao de paz e retiro que no banco dos salgueiros, embora fizesse muito mais 
calor. O algodo de sua camisa tinha perdido rigidez; sentia o fio de suor que lhe corria pelas costas, da nuca.
        - Oua -disse ao Bree- , no quer subir a te tirar o vestido novo? Aqui te danificar.
        - Pois... - Ela se mordeu o lbio- . No, no importa. Ficarei.
        Roger se incorporou, mdio agachado sob os edredons, e levantou o Jem, que tossia e gotejava em seu regao.
        - V -disse com firmeza- . Pode recolher seu b... j sabe o que. E no se preocupe.  bvio que o vapor est sortindo efeito. Logo estar bem.
        Ao fim ela consentiu. Roger ocupou o tamborete, com o Jemmy acurrucado no oco de seu brao. A presso do assento lhe fez tomar conscincia de certa congesto 
residual, originada no encontro sob os salgueiros. Trocou um pouco de posio para aliviar o desconforto.
        - Bom, o dano  passageiro -murmurou a jemmy- . Qualquer moa lhe dir isso.
        Jemmy soprou e disse algo ininteligvel, que comeava com " o BA...?" . Logo voltou a tossir, mas por pouco tempo. Ele acariciou a bochecha, que parecia 
algo menos afiebrada. Mas no era fcil apreci-lo, com tanto calor como fazia ali.
        - BA BA? -perguntou uma vocecita de r contra seu peito.
        - Sim, j vem. Cala, cala.
        - BA...
        - Era ru-Bia, como um ha-d...
        - BA...!
        - E cala-ba cento e dez! -Roger levantou abruptamente a voz, com o que provocou um sobressaltado silncio, to dentro como fora da loja, na cozinha. depois 
de um pigarro, retomou um tom de arrulho- . OH minha ama-da, OH minha ama-da, OH minha ama-da Clementine...
        A cano parecia sortir efeito. Jemmy tinha posto as plpebras a meia haste. Comeou a chupar o polegar, mas no podia respirar pelo nariz. Roger apartou 
brandamente o dedo e lhe reteve o punho. Estava molhado e pegajoso; era muito pequeno, mas lhe percebia tranquilizadoramente forte.
        - golpeou-se... com uma asti-lla...
        As plpebras bateram as asas ligeiramente; logo abandonaram a luta. Jemmy suspirou, j completamente lasso. O calor emanava de sua pele em feitas ondas. 
Tinha diminutas gotas de umidade nas pestanas: lgrimas, suor, vapor ou as trs coisas de uma vez.
        - ... e perdi a meu Clementine. OH minha amada, OH minha amada...
        enxugou-se a cara outra vez. Logo beijou aquele arbusto suave de cabelo mido. " Obrigado" , pensou com sinceridade, dirigindo-se a todos, de Deus para baixo.
        - OH minha ama-da Clementine.
      
      

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      Estranhos na noite
      
      
      Quando cheguei a minha cama, depois de examinar por ltima vez a todos meus pacientes, j era muito tarde. No primeiro patamar me detive olhar ao outro lado 
do corredor, onde Yocasta tinha suas habitaes.  Ali tudo era silncio; as brincadeiras pesadas tinham terminado. Emprestei ateno, mas na escurido no se ouvia 
mais que a forte respirao do Ulises, e continuei me arrastando para cima, com os joelhos e as costas doloridas, sentindo falta de minha prpria cama... e a compreenso 
de meu marido.
        No segundo patamar, uma janela aberta deixava ouvir gritos longnquos, risadas e algum disparo recreativo, gasto pelo vento da noite.
        Com tantos hspedes na casa, quo nicos gozavam o luxo de uma quarto privada eram os recm casados; outros nos tnhamos apinhado de qualquer modo nas habitaes 
disponveis. Avancei nas pontas dos ps entre aqueles corpos para ocupar meu espao, ao p de uma das grandes camas.
        A pesar do arrulho hipntico de tantos seres dormidos a mim ao redor, permanecia rgida e dolorida, contemplando os dedos de meus ps, que se recortavam 
contra a luz moribunda do lar.
        Betty tinha passado do estupor a um sonho que parecia profundo e normal. Pela manh, quando despertasse, poderamos averiguar quem lhe tinha dado a taa... 
e, possivelmente, o que havia nela. Oxal Jemmy tambm pudesse dormir plcidamente. Mas o que em realidade me preocupava era Jamie
        No lhe tinha visto entre os que jogavam s cartas nem entre os que conversavam. Tampouco tinha visto o Phillip Wylie na planta baixa da casa.
        Esse no era o tipo de gente nem o estilo do Jamie, mas foi imaginar o entre eles o que me encolheu os ps de frio.
        " No cometer nenhuma estupidez" , disse-me enquanto me punha de lado para recolher os joelhos tanto como era possvel nesse lotado espao. No as faria, 
 verdade, mas sua definio de estupidez no sempre coincidia com a minha.
        Os hspedes vares estavam alojados nos edifcios exteriores ou nos vestbulos. Ao passar, havia visto annimos adormecidos no cho, envoltos em seus capotes 
e roncando sonoramente junto ao fogo. No procurei entre eles, mas Jamie devia estar ali; ao fim e ao cabo, sua jornada tinha sido to larga como a minha.
        Mas no era habitual que se retirasse sem vir a me dar as boa noite, quaisquer que fossem as circunstncias. Claro que estava irritado comigo, e nossa rixa 
no estava resolvida, a no ser inflamada pelo convite dessa besta. Phillip Wylie. Fechei as mos, esfregando com os polegares a leve calosidade que marcava o stio 
onde normalmente estavam os anis. Condenados escoceses!
        Jemima Hatfield se removeu e murmurou a meu lado, perturbada por meu desassossego. Voltei a me tender de lado, a vista perdida no p de carvalho da cama.
        Sim, ele seguia zangado pelos atrevimentos do Phillip Wylie. E eu tambm o teria estado, de no ser pelo cansao. Como se atrevia...? Em realidade, no merecia 
a pena irritar-se, ao menos no no momento. Embora no era normal que Jamie me evitasse, zangado ou no.
        O cansao me venceu, fiquei dormida e comecei a sonhar.
        Em meu sonho havia cavalos: lustrosos frisones negros, de crinas flutuantes que ondulavam ao vento, enquanto os semeia corriam a meu lado. Via minhas prprias 
patas, estendidas para o salto; eu era uma gua branca. O estou acostumado a passava em um borro verde sob meus cascos, at que me detive esper-lo: um semental 
de peito amplo que me aproximou, quente e mido seu flego contra meu pescoo. Fechou os dentes brancos contra minha nuca...
        - Sou o Rei da Irlanda -disse.
        Despertei lentamente, vibrando de ps a cabea, e descobri que algum me acariciava a planta desses mesmos ps.
        Como seguia desconcertada pelas imagens de meus sonhos, no me alarmei; simplesmente, curvei os dedos e flexionei o tornozelo, desfrutando de do delicado 
polegar que avanava pelo arco 
      e subia pelo oco do tornozelo. de repente, com uma pequena sacudida, despertei por 
      completo.
      
        Quem quer que fosse percebeu minha volta  conscincia, pois o contato se deteve momentaneamente. Retornou com mais firmeza; uma mo grande e morna executou 
com o polegar uma massagem contra a base dos dedos.
        Por ento eu estava acordada e um pouco sobressaltada, mas sem medo. Movi o p, para desprender essa mo, mas os dedos me estreitaram isso ligeiramente a 
modo de resposta. Logo sua companheira me beliscou brandamente o dedo gordo.
        O contato continuou pela planta do p, me fazendo ccegas. Sacudi-me involuntariamente, contendo uma risita.
        Aqueles dedos seguiram a curva da pantorrilha e procuraram refgio na branda cara posterior do joelho. Ali tocaram um ritmo veloz contra a pele em tanto 
eu me contorsionaba de agitao. fizeram-se mais lentos at deter-se com firmeza na artria onde a pele era to fina que as veias se desenhavam em azul; percebi 
a corrente de sangue que passava por ali.
        Ele trocou de posio, com um suspiro; logo uma mo me rodeou a redondez da coxa e se deslizou pouco a pouco para cima. A outra a seguiu, pressionando inexoravelmente 
para me separar as pernas. 
        O corao me palpitava nos ouvidos; sentia os peitos inchados e os mamilos possantes contra a musselina da camisa. Aspirei fundo... e percebi aroma de ps 
de arroz.
        Meu corao se deteve por um momento, pois a idia cobrou existncia em minha mente: e se no era Jamie?
        Permaneci muito quieta, tratando de no respirar, concentrada nessas mos, que estavam fazendo algo delicado e indescritvel. Eram mos grandes; senti que 
os ndulos pressionavam contra a suave carne interior da coxa. Mas Phillip Wylie tambm tinha as mos grandes, muito para sua estatura. Tinha-o visto recolher um 
punhado de aveia para o Lucas, seu semental, e o focinho do cavalo cabia na palma.
        Calos: essas mos vagabundas (OH, bom Deus!) estavam calejadas. Mas tambm as do Wylie; sua Palmas de cavaleiro eram to duras como as do Jamie.
        Tinha que ser Jamie. Levantei um pouco a cabea, para espiar na escurido.  obvio que era Jamie! Nesse momento uma das mos fez algo que me sobressaltou. 
Sacudi os membros com um grito afogado e meu cotovelo se cravou contra as costelas de minha vizinha, quem se incorporou imediatamente, com uma forte exclamao. 
As mos se retiraram abruptamente, me espremendo os tornozelos em uma apressada despedida.
        Algum engatinhava pelo cho. Logo, um brilho de luz mortia e uma rajada fria que entrou do corredor: a porta se aberto para voltar a fechar-se imediatamente.
        - O que...? -murmurou Jemima a meu lado, em aturdida estupefao- . Quem anda?
        Ao no receber resposta, murmurou algo e voltou a dormir. Eu no.
      

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      In veio veritas
      
      
      Passei comprido tempo insone, escutando os roncos e sussurros de minhas companheiras, e o palpitar de meu corao. Quando Jemima Hatfield se tombou inconscientemente 
contra mim, atirei-lhe uma cotovelada nas costelas.
        - Juf? -murmurou ela, sobressaltada. E se incorporou pela metade, piscando, antes de afundar-se.
        Eu no sabia o que sentir. Por uma parte estava excitada; contra minha vontade, mas definitivamente excitada. Quem quer que tivesse sido meu visitante noturno, 
sabia o que fazer com um corpo feminino.
        Isso argumentava a favor do Jamie. Mesmo assim, eu no sabia que grau de experincia tinha Wylie nas artes do amor; No estbulo o tinha rechaado sem lhe 
dar oportunidade de demonstrar suas habilidades nesse sentido.
        Mas meu visitante de meia-noite no tinha aplicado nenhuma carcia que eu pudesse identificar como o repertrio do Jamie. Se tivesse usado a boca, em troca... 
No sabia se me sentir divertida ou indignada, seduzida ou violada. Mas estava enojadsima disso, estava segura.
        - Uf! -disse Jemima. Ao parecer eu no era a nica prejudicada por minhas emoes.
        - Hum? -murmurei, fingindo estar semidormida- . Glrgl. Bzg.
        Na mescla havia tambm um sotaque de culpa. Se eu tivesse tido a segurana de que tinha sido Jamie, me teria zangado?
        O pior era que no podia fazer absolutamente nada por averiguar quem tinha sido. No podia perguntar ao Jamie se tinha vindo a me acariciar na escurido, 
pois, se no tinha sido ele, assassinaria ao Phillip Wylie com suas prprias mos.
        Por fim abandonei a cama e me aproximei da porta. Com grande sigilo, abri-a para jogar um olhar ao corredor e caminhei em silencio at a escada posterior, 
com inteno de sair a tomar ar.
        No batente da escada me detive em seco. Ao p dos degraus havia um homem: uma silhueta alta e negra contra os cristais dos ventanales. Eu no acreditava 
ter feito nenhum rudo, mas ele se voltou, levantou a cara para mim. Reconheci imediatamente ao Jamie.
        - Baixa -disse com voz fica.
        Joguei um olhar vacilante detrs de mim. Do quarto que acabava de abandonar surgia uma confuso de roncos, mas ningum se movia.
        Voltei a olh-lo. Ele no disse nada mais, mas levantou dois dedos em gesto de chamada. Seu aroma de fumaa e usque enchia o oco da escada.
        O sangue me palpitava nos ouvidos... e em outro stio. Sentia-me avermelhada, com o cabelo mido pego s tmporas e ao pescoo; o ar frio se metia sob minha 
camisa, tocando o filme viscoso entre as coxas.
        Descendi tratando de que os degraus no rangessem sob meus ps e me detive antes de baixar o ltimo degrau. Graas a Deus, no tinha sangue na roupa.
        No era a primeira vez que via brio ao Jamie, mas esta vez havia algo muito diferente. mantinha-se slido como uma rocha, com as pernas separadas, delatando 
sua estado s por certa deliberao na maneira de mover-se.
        - O que...? -sussurrei.
        - Vem aqui. -Sua voz soava grave, rouca, de insnia e de usque.
        No tive tempo de responder nem de obedecer. Ele me agarrou do brao para me baixar do ltimo degrau e me estreitou contra si para me beijar. Foi um beijo 
desconcertante, como se sua boca conhecesse a minha muito bem e pudesse me obrigar ao prazer, sem parar-se a pensar em meus desejos. Liberei minha boca o tempo suficiente 
para lhe ofegar ao ouvido:
        - Aqui no!
        Jamie levantou a cabea, piscando como se despertasse de um pesadelo, com os olhos dilatados e cegos. Logo fez um gesto afirmativo, e se levantou, atirando 
de mim ao mesmo tempo.
        junto  porta pendiam os capotes das criadas. depois de me envolver em um, elevou-me em velo e atravessou a porta a golpes de ombro. Ao chegar ao atalho 
me deixou no cho; um momento depois avanvamos juntos por uma paisagem de sombras e vento, ainda entrelaados, a tropees, lutando.
        Os estbulos. Golpeou a porta e me arrastou consigo para a morna escurido. J dentro, empurrou-me com fora contra a parede.
        - Se no te possuir agora vou morrer -disse, sem flego, e sua boca procurou outra vez a minha. de repente se apartou. Cambaleei-me e tive que apoiar as 
mos contra os tijolos do muro para no perder o equilbrio.
        - Estende as mos -disse.
        - O que?
        - As mos. as estenda.
        Obedeci, totalmente desconcertada, e ele tomou a esquerda. Uma clida presso; a dbil luz que penetrava pela porta brilhou sobre meu anel de ouro. Logo 
me cog a direita para me pr o de prata. A seguir me mordeu os ndulos com fora. Um momento depois se emano estava em meu peito e o ar frio me roava as coxas; 
senti o arranho dos tijolos contra o traseiro nu.
        - Olhe. -Seu flego me queimou o ouvido- . Olhe para baixo. Observa como te possuo. Olhe, maldita!
        Apertou-me a nuca com uma mo, me inclinando a cabea para que observasse na penumbra como me possua. Arqueei as costas e logo me derrubei, mordendo a ombreira 
de sua jaqueta para no fazer rudo. Senti sua boca contra meu pescoo. Aferrei-me com fora, enquanto ele se estremecia contra mim.
      
      
      Enredados entre a palha, contemplamos a luz do dia que se filtrava pela porta entreabrida do estbulo. Ainda me retumbava o corao nos ouvidos e meu sangue 
fazia ccegas nas tmporas, as coxas e os dedos. Mas de algum modo me sentia alheia a essas sensaes, como se as estivesse experimentando outra pessoa. Estava como 
fora da realidade... e um pouco escandalizada.
        O ritmo de sua respirao pareceu cortar-se durante um segundo, mas no se moveu. Duas exalaes, trs... e logo a vaga presso de um dedo contra minha coluna.
        - Assim ganhou -disse  costas do Jamie. Minha voz soava estranha, como se levasse muito tempo sem us-la.
        - Tal como te prometi -respondeu com suavidade, inclinando a cabea para colocar as dobras da manta.
        Levantei-me, um pouco enjoada, e procurei apoio no muro para sacudir a areia e a palha de meus ps. O contato dos toscos tijolos contra minhas costas era 
uma vvida lembrana; estendi os dedos contra eles, tratando de resistir a investida das sensaes recordadas.
        - Est bem, Sassenach? -Ao perceber meus movimentos girou bruscamente a cabea para me olhar.
        - Sim. Sim. Bem. S que... Estou bem. E voc?
        O via plido e desalinhado, com a barba enchente, gasto pelas tenses e com negras olheiras provocadas por uma larga noite de insnia.
        - Eu... - Tragou saliva audiblemente. Logo ficou de p ante mim- . No me odeia? -perguntou abruptamente.
        Pilhada por surpresa, pus-se a rir.
        - No. Parece-te que h motivos?
        Ele torceu um pouco a boca e a esfregou com os ndulos.
        - Possivelmente, mas me alegra que no os veja.
        Agarrou-me as mos para acariciar com o polegar o desenho entrelaado do anel de prata. Tinha as mos frite.
        - por que poderia te odiar? Pelos anis?
        Em realidade me teria enfurecido se ele tivesse perdido qualquer dos dois, mas como no era assim...
        - Pois poderamos comear por isso -disse, cortante- . Fazia tempo que no me deixava levar por meu orgulho, mas no pude me conter. Esse pequeno Phillip 
Wylie pavoneando-se a nosso redor, te olhando os peitos com ar ufano e...
        - Isso fazia? -No me tinha precavido.
        - Isso fazia. -Jamie voltou a irritar-se ao record-lo. Logo retomou o catlogo de seus prprios pecados- . Mas tambm leste de te haver miservel at aqui 
em camisa, para te montar como uma besta faminta...
        Roou-me o pescoo, onde ainda sentia a ardncia de uma dentada.
        - Pois na verdade essa parte me gostou.
        - Seriamente? -piscou, com surpresa.
        - Sim. Embora tema que tenho moretones no traseiro.
        - OH!... -Baixou a vista, envergonhado- . Sinto muito. Quando terminei a partida de whist no podia pensar em outra coisa que em ir a por ti, Sassenach. 
Subi e baixei essa escada dez ou doze vezes. Chegava at sua porta e retrocedia.
        - De verdade? -Agradou-me ouvir isso, pois aumentava as possibilidades de que ele tivesse sido meu visitante noturno.
        - Tratava de que viesse para mim, suponho. Pensei que a fora de meu desejo podia despertar. E ento veio... - Interrompeu-se. Seus olhos se haviam posto 
suaves e escuros- . Cristo, que bela estava ali, no alto da escada, com a cabeleira solta e a sombra de seu corpo recortada contra a luz! -Moveu lentamente a cabea- 
. Pensei que morreria se no te possua.
        Acariciei-lhe a cara; sua barba foi um suave ourio contra minha palma.
        - No podia permitir que morrera -sussurrei, lhe pondo uma mecha de cabelo detrs da orelha.
        Baixei a mo e Jamie se inclinou para recolher sua jaqueta, mdio sepultada na palha. agachou-se sem perder o equilbrio, mas o vi fazer uma careta de dor 
quando o sangue lhe chegou sbitamente  cabea.
        - Bebeu muito ontem  noite? -perguntei ao reconhecer os sintomas.
        Ele se incorporou com um pequeno grunhido de diverso.
        - Jarras, sim -foi sua melanclica resposta- . Nota-se?
        Uma pessoa, muito menos experimentada que eu o teria detectado a oitocentos metros; at sem os sinais mais bvias de sua intoxicao recente, seu aroma era 
o de uma destilaria.
        - Pelo visto no te impediu de jogar bem s cartas -comentei, com tato- . Ou acaso Phillip Wylie estava to afetado como voc?
        Pareceu surpreso e um pouco afrontado.
        - Crie-me capaz de me embebedar enquanto jogo? depois de ter apostado seus anis? No, isso foi depois. MacDonald trouxe uma garrafa de champanha e outra 
de usque paraque celebrssemos nossos lucros.
        - MacDonald? Donald MacDonald jogava contigo? Lucros, h dito? -Na tenso do momento s parecia importante que tivesse conservado meus anis, mas essas jias 
eram s sua aposta- . O que ganhou no Phillip Wylie? -perguntei, rendo- . Os botes bordados da jaqueta? As fivelas de prata de seus sapatos?
        - Pois no -disse- . Seu cavalo.
      
      P-me sua jaqueta sobre os ombros e me conduziu pelo corredor principal do estbulo. Joshua tinha entrado silenciosamente pela outra porta e estava trabalhando 
no extremo oposto. Parecia to cansado como eu; tinha os olhos inchados e avermelhados.
        - Como vai? -perguntou Jamie, assinalando o pesebre com o queixo.
        Josh se animou um pouco ante a pergunta.
        - OH!, muito bem -assegurou- .  um bom moo, o cavalo do senhor Wylie.
        -  obvio que sim -coincidiu Jamie- . S que agora  meu.
        - De quem? -Josh ficou boquiaberto e com os olhos saltados.
        - Meu. -Jamie se aproximou do corrimo para arranhar as orelhas do grande semental- .Seja -murmurou ao animal- . Ciamar a tha thu, a ghille mhoir?
        Contemplei ao cavalo, que levantou a cabea para nos dirigir um olhar simptico e se separando da cara o vu de suas crinas, voltou a concentrar-se em seu 
caf da manh.
        - Um animal encantador, verdade? -Jamie admirava ao Lucas com ar de longnqua especulao.
        - pois sim, mas... - Minha prpria admirao estava tinta de consternao. face  irritao que Wylie me inspirava, senti pena ao pensar no que devia afet-lo-a 
perda de seu magnifico frisn.
        - Mas o que, sassenach?
        - Pois... - Procurei torpemente as palavras. Nessas circunstncias, no podia expressar compaixo pelo Phillip Wylie- . Pois... o que pensa fazer com ele?
        - No penso ficar o assegurou meu marido- . eu adoraria, mas tem razo: no serve para a Colina. Penso vend-lo.
        - Ah!, bem. -Sab-lo era um alvio. Wylie quereria comprar novamente ao Lucas, qualquer que fosse o preo. A idia me reconfortou. E o dinheiro no nos viria 
mau.
        Enquanto conversvamos, Joshua se tinha afastado. Nesse momento reapareceu com um saco de cereais ao ombro. Parecia alerta e um pouco alarmado.
        - Senhora Claire? -disse- . Com sua permisso, senhora, acabo de me encontrar com a Teresa; diz que a Betty acontece algo mau. Pareceu-me que devia dizer-lhe 
      
      

      50
      
      Sangre no apartamento de cobertura
      
      O apartamento de cobertura parecia a cena de um crime brutal. Betty se debatia no cho, junto  cama, tombada com os joelhos recolhidos e os punhos cravados 
no abdmen; a musselina de sua camisa estava rasgada e empapada em sangue. Fentiman, tambm no cho, lutava com seu corpo espasmdico, quase to ensangentado como 
ela.
        Antes que eu pudesse chegar, Betty deixou escapar uma tosse gorgoteante, expulsando mais sangre pela boca e o nariz. Logo se curvou para diante, arqueou-se 
para trs, voltou a dobrar-se... e ficou lassa.
        Fentiman estava ajoelhado atrs dela, plido e sem peruca. O lugar fedia a sangue, sedimentos e blis; ele mesmo estava talher de todas essas substncias. 
Levantou a vista para mim, sem dar sinais de me reconhecer, com os olhos dilatados e aturdidos pelo shock.
        - Doutor Fentiman. -Falei em voz baixa- . Fez voc quanto pde -disse, lhe estreitando o ombro- . No  culpa dela.
        Acontecido-o no dia anterior no tinha importncia. Ele era um colega e eu lhe devia a absolvio, se estava em meu poder dar-lhe 
        Ele se passou a lngua pelos lbios secos e assentiu com a cabea. Logo depositou brandamente o cadver no cho. Um grave gemido me obrigou a girar, sem 
lhe soltar o brao. Em um rinco da habitao se amontoavam vrias pulseiras, mudadas e com as mos batendo as asas de inquietao contra a musselina de suas camisas. 
Na escada se ouviam vozes masculinas, apagadas e nervosas. Reconheci a do Jamie, grave e serena.
        - Gussie? -disse o primeiro nome que me veio  memria.
        A pulseira se adiantou; era uma jamaicana plida e mida, com um turbante de calic azul.
        - Sim, senhora? -Olhava aos olhos, evitando o corpo tendido no cho.
        - vou levar a doutor Fentiman abaixo. Farei que alguns dos homens subam para... ocupar-se da Betty. Isto...
        Assinalei a sujeira que cobria o cho. Ela assentiu; ainda estava impressionada, mas era um alvio ter algo que fazer.
        - Esta Betty, mame dessa moa, Fedra -explicou Gussie, e tragou saliva- . Algum... posso ir, senhora? Posso ir e dizer?
        - Por favor. -Dava um passo atrs, lhe indicando por gestos que baixasse. Ela caminhou nas pontas dos ps junto ao cadver e logo fugiu para a porta.
        O doutor Fentiman comeava a emergir do shock. Vi que seu instrumental, cansado na resistncia, estava semeado por toda parte, em um esparramo de metal e 
cristais quebrados.
        Mas antes de que pudesse recolh-lo-se ouviu uma breve comoo na escada. Duncan entrou no quarto, com o Jamie lhe pisando os tales. Notei com algum interesse 
que ainda levava suas roupas de noivo, embora sem jaqueta nem colete. teria se deitado sequer?
        Saudou-me com a cabea, mas seus olhos foram imediatamente para a Betty. Piscou vrias vezes, e logo aspirou fundo. Finalmente recolheu um edredom para cobri-la 
com suavidade.
        - me ajude com ela, MAC Dubh -disse.
        Ao ver o que se propunha, Jamie elevou em braos a difunta. Seu companheiro se voltou para as mulheres.
        - No se preocupem -assegurou em voz baixa- . Eu me ocuparei dela.
        Em sua voz havia uma estranha nota de autoridade. Compreendi que, apesar de sua natural modstia, tinha aceito que era o amo.
        Ao ver que Fentiman ia recolher um dos frascos, disse-lhe:
        - Deixe. As mulheres se ocuparo disto. -E sem esperar resposta, colhi-o com firmeza pelo cotovelo para conduzi-lo escada abaixo.
        Assim Betty era a me (ou tinha sido) da Fedra. A ela eu no a conhecia bem, mas a Fedra sim. A dor que senti pela moa me atou a garganta. De qualquer modo, 
nesses momentos no podia auxili-la; em troca ao doutor sim.
        Mudo de espanto, seguiu-me sem resistncia. Junto ao rio havia um banco de pedra, mdio escondido sob um salgueiro choro. Dificilmente haveria algum ali 
a essas horas da manh.
        No havia ningum, mas sim duas taas de vinho, manchadas de vermelho, abandonados restos dos festejos. Perguntei-me por um momento se ali tinha tido lugar 
alguma entrevista romntica. Apartei a inoportuna pergunta junto com as taas e tomei assento, convidando ao doutor Fentiman com um gesto.
        - sente-se melhor?
        - Sim. Obrigado, senhora Fraser.
        - Foi um verdadeiro golpe, no? -sugeri, empregando minhas melhores maneiras de cabeceira.
        - Um verdadeiro golpe, sim -murmurou fechando os olhos- . No devi...
        - Voc foi muito amvel ao acudir imediatamente -disse ao fim- . Vejo que o tiraram que a cama. A piora foi sbito?
        - Sim. Ontem  noite, depois de sangr-la, teria jurado que essa mulher se recuperaria. O mordomo despertou justo antes do amanhecer. Quando subi, ela se 
queixava outra vez de dores no abdmen. Voltei a sangr-la e lhe administrei um clster, mas de nada serve.
        - Um clster? - . Eram enemas, remdio muito popular nessa poca.
        - Tintura de nicotiana -explicou- . Segundo minha experincia, surge muito bom efeito em casos de dispepsia.
        Respondi com um murmrio, sem me comprometer. A nicotiana era tabaco. Em soluo forte, administrada por via retal, podia curar muito em breve um caso de 
parasitas intestinais, mas dificilmente faria algo pela indigesto. Mesmo assim, tampouco podia provocar uma hemorragia como aquela.
        - Que extraordinria quantidade de sangue -comentei- . Nunca tinha visto nada parecido. -Inclinei-me para ele para lhe apoiar uma mo consoladora no brao- 
. Sei que voc fez tudo o que se podia fazer -continuei- . Ontem  noite, quando voc a viu, no sangrava pela boca, verdade?
        Ele sacudiu a cabea, curvado dentro do capote.
        - No. Mesmo assim me sinto culpado, seriamente.
        - Assim so as coisas -comentei, melanclica- . Sempre fica a sensao de que se deveria ter feito algo mais.
        Ele captou o profundo sentimento de minha voz e se voltou para mim, surpreso. Sua tenso cedeu um pouco e as manchas vermelhas de suas bochechas comearam 
a atenuar-se.
        -  voc... muito pormenorizada, senhora Fraser.
        Sorri-lhe sem responder. Embora fora um mdico ruim arrogante e colrico, tinha acudido, disposto a lutar por seu paciente com a melhor vontade. A meu modo 
de ver, isso o convertia em merecedor de solidariedade.
        Passado um momento me cobriu uma mo com a sua. O aroma de sangre mdio seca de suas roupas me fazia ver outra vez a cena do apartamento de cobertura. De 
que diabo tinha morrido essa mulher?
        Fiz-lhe perguntas diplomticas a fim de lhe extrair os detalhes que tivesse podido observar, mas no serve de nada, pois aquilo tinha acontecido a hora muito 
temprana, com a estadia s escuras.
        - Confio que a senhora Cameron... quer dizer, a senhora Innes... no pense que tra sua hospitalidade -disse, intranqilo.
        O doutor Fentiman considerava a possibilidade de que Yocasta o culpasse por no ter evitado a morte de sua pulseira e tratasse de cobrar uma compensao.
        - Ela compreender que voc tem feito todo o possvel -assegurei- . Eu o direi, se voc quiser.
        - Minha querida senhora. -O mdico, agradecido, espremeu-me a mo- .  voc to amvel como encantadora.
        - Parece-lhe, doutor?
        Uma voz masculina tinha falado framente detrs de mim. Ali estava Phillip Wylie, com uma expresso muito sardnica na cara.
        - No  " amvel"  a palavra que me vem  mente, para falar a verdade. " Lasciva" , possivelmente. " Caprichosa" , certamente. Mas " encantadora" , isso 
sim, reconheo-o.
        Seus olhos me percorreram de ps a cabea, com uma insolncia absolutamente reprochable. Levantei-me, me rodeando a bata com grande dignidade.
        - est-se ultrapassando, senhor Wylie -disse, com toda frieza possvel.
        Ele riu, mas no como se aquilo lhe parecesse divertido.
        - O que eu me ultrapasso? No esqueceu voc algum detalhe, senhora Fraser? O vestido, por exemplo? No teme agarrar frio com essa vestimenta? Ou possivelmente 
os abraos do doutor so casaco suficiente?
        Fentiman, to espantado como eu pela apario do Wylie, ps-se de p para interpor-se entre os dois, vermelho de fria.
        - Como se atreve, senhor! Como tem o atrevimento de apostrofar desse modo a uma dama! Se eu estivesse armado, senhor, exigiria-lhe satisfao neste mesmo 
instante, posso jur-lo!
        Ao ver o sangue que manchava as pernas e as calas do doutor Fentiman, o gesto carrancudo e irritado do Wylie perdeu certeza.
        - Eu... aconteceu algo, senhor?
        - Nada que seja de sua incumbncia, o asseguro. -O mdico se ergueu e me ofereceu o brao com um gesto grandioso- . Voc venha, senhora Fraser. No tem por 
que ver-se exposta aos sarcasmos insultantes deste cachorrinho. me permita acompanh-la at onde a espera seu marido.
        Ao olhar por cima de meu ombro vi que Wylie seguia com a vista cravada em ns, e levantei a mo em um pequeno gesto de despedida. A luz chispou em meu anel 
de ouro. Notei que ele ficava ainda mais rgido.
        - Oxal cheguemos a tempo para o caf da manh -disse o doutor Fentiman, alegremente- . Acredito que recuperei o apetite.
      

      51
      
      Suspeita
      
      Os  convidados comearam a partir depois do caf da manh. Yocasta e Duncan, despediam-nos da terrao, enquanto a fila de carruagens e carretas descendia lentamente 
pelo meio-fio.
        - Parece cansada, mame. -Ao Bree tambm lhe notava a fadiga; ela e Roger se deitaram muito tarde.
        - No me explico por que -Lhe respondi, contendo um bocejo- . Como amanheceu Jemmy?
        - Resfriado, mas sem febre. comeu um pouco de porridge e...
        Escutei-a assentindo automaticamente com a cabea. Logo a acompanhei para examinar a jemmy, que alvoroava alegremente, face aos mucos. O menino estava aos 
cuidados do Gussie; a moa tinha o mesmo semblante plido e ojeroso que todos os pressente, mas me pareceu que seu ar de mudo sofrimento se devia mais  tenso emocional 
que  ressaca.
        Ao voltar para a casa com o doutor Fentiman, depois de p-lo em mos do Ulises para que o alimentasse e limpasse, tinha ido diretamente em busca da Fedra, 
sem me deter mais que para me lavar e me trocar de roupa, por no me apresentar diante dela manchada com o sangue de sua me.
        Encontrei-a na despensa, aturdida pelo shock; estava sentada no tamborete que Ulises usava para lustrar a prata, com uma grande monopoliza de brandy intacta 
a seu lado. Acompanhava-a Teresa, outra das pulseiras;  lombriga soltou um breve suspiro de alvio e se aproximou de me saudar.
        - No est muito bem -murmurou, movendo a cabea- . No h dito uma palavra, no verteu uma lgrima.
        A tez da Fedra tinha empalidecido, e seu olhar estava fixo na parede nua, que havia mais  frente do vo da porta.
        - Sinto-o muito -lhe disse em voz baixa, ao tempo que apoiava uma mo em seu ombro- . O doutor Fentiman a atendeu e fez tudo o que pde.
        No houve resposta. Respirava, mas isso era tudo.
        Mordi-me a cara interior do lbio, em busca de algo ou algum que pudesse consol-la.
        - O padre -me ocorreu sbitamente- . Voc gostaria que o pai LeClerc... benzera o corpo de sua me?
        Um leve estremecimento percorreu o ombro sob minha mo. A bela cara imvel girou para mim os olhos opacos.
        - Do que servir? -sussurrou.
        - Pois... bom... - Procurei s cegas uma resposta, mas ela j havia tornado a fixar a vista em uma mancha da mesa.
        Ao final, dava-lhe uma pequena dose de ludano para que dormisse e indiquei a Teresa que a deitasse no cama de armar onde dormia normalmente, no vestidor 
da Yocasta.
      
      
      Abri a porta do vestidor para ver como estava, e me tranqilizou ouvir sua respirao lenta e profunda. Bree, que me tinha seguido, olhou por cima de meu ombro, 
e lhe indiquei com um gesto que tudo estava bem.
        Brianna se deteve ante a porta do boudoir e girou sbitamente para mim para me abraar com ferocidade. Na habitao iluminada, Jemmy a sentiu falta de e 
comeou a chiar.
        - Mame! MA! Ma-m!
        Esgotada, dirigi-me para a escada que levava a segundo piso. O dormitrio estava deserto, com os colches ao ar e o lar limpo; as janelas tinham sido abertas 
para ventilar a habitao. O ambiente estava frio, mas em paz. Meu manto seguia pendurado no guarda-roupa. Deitei-me sobre a capa do colcho, coberta com o manto, 
e dormi imediatamente.
      
      
      Despertei justo antes do ocaso, faminta e aliviada porque o aroma de sangue e flores tinha dado passo ao aroma do sabo e linho esquentado pelo corpo.
        De repente, Jamie abriu a porta e me sorriu. Estava barbeado e penteado, com roupa limpa e claros os olhos; parecia ter apagado qualquer rastro da noite 
anterior.
        - Por fim acordada. dormiste bem, Sassenach?
        - Como os mortos -respondi, e ao diz-lo senti um tombo em meu interior. Ele o viu refletido em minha cara e vinho a sentar-se a meu lado.
        - O que acontece? tiveste algum mau sonho, Sassenach?
        - No acredito -respondi. Entretanto, minha mente parecia ter seguido funcionando nas sombras da inconscincia, tomando notas e extraindo dedues.
        - Essa mulher, Betty... J a sepultaram?
        - No. Lavaram o corpo e o puseram em um dos abrigos. Yocasta preferiu deixar o enterro para amanh, por no afligir aos convidados. Alguns ficaro uma noite 
mais. -Observou-me com o sobrecenho franzido- . por que?
        - H algo mau. Refiro a sua morte.
        - Mau... em que sentido? -Arqueou uma sobrancelha- . Foi uma morte horrvel, sem dvida, mas no refere a isso, verdade?
        - No. Acredito que algum a matou.
        - Quem? -perguntou ao fim- . Est segura, Sassenach?
        - No tenho nem idia. E no posso estar do todo segura, mas... - Vacilei. Ele me estreitou uma mo, para me respirar- . Vi morrer a muchsima gente e por 
todo tipo de causas. No posso expressar em palavras do que se trata, mas sei... acredito... que h algo mau -conclu, sem muita convico.
        - Compreendo -disse ele, pelo baixo- . Mas no tem maneira de assegur-lo, verdade?
        - H uma maneira -disse.
      

      52
      
      O final de um dia agitado
      
      O lugar onde tinham posto o cadver estava muito longe da casa; era um pequeno abrigo para ferramentas, edificado junto ao pomar. Jamie me apoiou uma mo nas 
costas.
        - Est bem, Sassenach? -sussurrou.
        - Sim. -Agarrei-me de sua mo livre para me reconfortar.
        Embora exteriormente Jamie parecesse to inteiro como sempre tampouco estava tranqilo. Por ser celta e catlico, acreditava firmemente em um mundo invisvel 
que se estendia alm da dissoluo do corpo. Nisso estava implcita a crena nos tannasgreach (os espritos) e no desejava encontrar-se com eles. No obstante, 
posto que eu estava decidida, ele se enfrentaria por mim com o outro mundo; estreitou-me a mo com fora, sem solt-la, e respondi de igual modo, agradecida por 
sua presena.
        - Uma coisa  ver morrer a um homem  golpes de tocha no campo de batalha -me havia dito antes, enquanto discutamos- . Isso  parte da guerra, algo honorvel, 
por cruel que parea. Mas agarrar uma faca e trinchar a sangue frio a uma pobre inocente como essa... - Olhou-me com os olhos sombrios, afligidos- . Est segura 
de que  necessrio, Claire?
        - Estou segura -havia dito eu, inspecionando o contedo do saco. Um grande cilindro de ataduras de algodo para absorver os fluidos, frascos pequenos para 
amostras de rgos, o maior de meus serrotes para osso, um par de escalpelos... A coleo era sinistra, em realidade. Envolvi as grandes tesouras em uma toalha, 
e as pus na bolsa. Logo medi cuidadosamente minhas palavras.
        - Olhe -disse ao fim, olhando-o aos olhos- . Aqui h algo mau, estou segura. E se algum assassinou a Betty, temos a obrigao de averiguar o que aconteceu. 
Se algum te assassinasse, no quereria que se fizesse todo o possvel para demonstr-lo? para... te vingar?
        Calou durante um comprido instante; olhava-me com os olhos entreabridos, pensativo. Logo se relaxou.
        - Sim,  certo -disse, e comeou a envolver o serrote com tecido.
        No havia tornado a protestar nem a me perguntar se estava segura. limitou-se a dizer, com firmeza, que se eu estava decidida ele me acompanharia. Isso foi 
tudo.
        - No tem por que faz-lo, Claire. -Jamie me apertou a mo- . No por isso pensarei que  covarde.
        - Mas eu sim -disse. Ele assentiu com a cabea. No havia mais que discutir; soltou-me a mo e se adiantou para abrir o porto.
        Olhei a meu redor; logo, de novo  casa. Apesar de ser to tarde ainda ardiam as velas no salo posterior, onde se prolongava uma partida de naipes. Os pisos 
superiores estavam s escuras, salvo a janela de yocasta.
        - Sua tia vela at tarde -sussurrei ao Jamie.
        Ele se voltou a olhar.
        - No,  Duncan -corrigiu- . Minha tia no necessita luz.
        - Pode que lhe esteja lendo na cama -sugeri, tratando de aliviar a solenidade de nossa misso.
        Jamie respondeu com um pequeno bufido zombador, e o opressivo da atmosfera se aliviou um pouco. Elevou o fecho e empurrou o porto, deixando ver detrs um 
quadro completamente negro. Quando atravessei a soleira, senti-me como Persfone ao entrar no inferno. Jamie entreabriu a porta e me entregou o abajur.
        Foi quase um alvio entrar ali, onde o ar estava imvel. Tinham posto a difunta em uma tabela sobre dois cavaletes, j lavada e envolta em um sudrio de 
musselina. A seu lado vi uma pequena fogaa de po e uma taa de brandy; sobre o sudrio, em cima do corao, um ramalhete de ervas secas, pulcramente atadas. Ao 
as ver Jamie se fez o sinal da cruz, me olhando com ar quase acusador. 
        -  m sorte tocar coisas de uma tumba.
        - S se as rouba -lhe assegurei em voz baixa, mas eu tambm me fiz o sinal da cruz antes de agarrar os objetos para p-los em um rinco do abrigo- . Quando 
acabar os colocarei em seu stio.
        Com um de meus escalpelos, cortei cuidadosamente a costura do sudrio. Havia trazido uma agulha forte e fio encerado para costurar a cavidade do corpo; com 
um pouco de sorte poderia reparar tambm o sudrio, de modo que ningum se precavesse do que tinha feito.
        A cara estava quase irreconhecvel; as bochechas redondas tinham ficado frouxas e afundadas; o suave brilho da negra pele estava reduzido a um cinza cinzento; 
os lbios e as orelhas tinham um tintura lvido. Isso me facilitou as coisas; obviamente, isso era s uma casca, no a mulher que eu tinha conhecido.
        Jamie se limitou a sustentar o abajur em alto, para que eu pudesse trabalhar. A luz projetava sua sombra contra o muro do abrigo, gigantesca e fantasmagrica. 
Apartei a vista dela para concentr-la em meu trabalho.
        - No tem por que olhar, Jamie -assinalei, enquanto me apartava um momento para me secar a frente com a boneca- . Na parede h um prego. Se quer sair um 
momento, pendura o abajur ali.
        - Estou bem, Sassenach. O que  isso? -inclinou-se para diante, assinalando com cautela. Sua expresso intranqila tinha cedido passo a outra de interesse.
        - A traquia e os brnquios -expliquei, seguindo com o dedo os grcis anis de cartilagem- , e uma parte de pulmo. Se se sentir bem, pode aproximar um pouco 
a luz?
        E procedi a cortar o lbulo superior do pulmo direito.
        - me d um pouco mais de algodo, quer?
        Alguma mancha de sangue no sudrio no preocuparia a ningum, pelo espetacular que tinha sido seu falecimento, mas no queria despertar tanta suspeita como 
para que algum olhasse dentro.
        Ao me inclinar para agarrar o algodo apoiei uma mo em um flanco do cadver, e o corpo emitiu uma queixa. Jamie deu um salto atrs, sobressaltado. Eu tambm 
tinha dado um  coice, mas me repus imediatamente.
        - No  nada -disse, embora tinha o corao acelerado e o suor da cara me tinha esfriado sbitamente- . S um pouco de gs apanhado. Os cadveres revistam 
emitir rudos estranhos.
        - Sim. -Jamie tragou saliva- . Sim, vi-o freqentemente. Mas te agarra por surpresa, verdade? -Sorriu pela metade, com a frente coberta por uma ptina de 
suor.
        Como no dispunha de luvas, tinha as mos ensangentadas at a boneca; os rgos e as membranas apresentavam uma desagradvel viscosidade, produto da decomposio. 
Pus uma mo sob o corao para levant-lo para a luz, procurando manchas na superfcie ou rupturas visveis nos grandes copos.
        Continuando, desprendi o esfago e o cortei ao longo. Logo dava a volta  malha. No extremo inferior se notava um pouco de irritao e um pouco de sangue, 
mas no havia sinais de ruptura nem de hemorragia. Inclinei-me para olhar dentro da cavidade farngea, mas no havia luz suficiente para ver grande coisa. Ento, 
dirigi meus exames para o outro extremo: deslizei uma mo sob o estmago para retir-lo.
        Imediatamente se agudiz a sensao de maldade que tinha experiente de um princpio. Se havia algo mau ali, esse era o lugar onde haveria mais possibilidades 
de achar as evidncias.
        No estmago no haveria comida; depois de tanto vmito, isso no era estranho. No obstante, quando cortei a grosa parede muscular surgiu um penetrante aroma 
de ipecacuana, que se imps ao fedor do cadver.
       - O que? -Ante minha exclamao Jamie se inclinou para diante, carrancudo.
        - Ipecacuana. Esse mdico ruim a medicou com ipecacuana... e o fez no faz muito! Cheira-a?
        Embora com uma careta de asco, aspirou cautelosamente e assentiu.
        - no  o que corresponde fazer quando h espasmos no estmago? Voc deu ao Beckie MacLeod quando bebeu de seu lquido azul.
        -  certo. -Beckie, de cinco anos, tinha bebido meio frasco de uma coco que eu tinha preparado para envenenar ratos- . Mas o fiz imediatamente. Dar-lhe 
depois, quando o veneno ou o irritante j saiu que estmago, no tem sentido.
        Podia Fentiman saber isso, com os conhecimentos mdicos de sua poca? Provavelmente havia tornado a medic-la com ipecacuana porque no lhe ocorria outra 
coisa. Voltei para a grosa parede do estmago. Essa era a fonte da hemorragia, sim: a parede interior estava spera e de cor vermelha escura, como carne picada. 
Havia ali uma pequena quantidade de lquido: linfa clara, que comeava a separar-se do sangue coagulado.
        - Crie que pde ser a ipecacuana o que a matou?
        - Agora no estou segura -murmurei, pinando com cuidado.
        Se Fentiman lhe tinha dado a Betty uma forte dose de ipecacuana, os vmitos violentos podiam ter causado uma ruptura interna, com a conseguinte hemorragia; 
mas no aparecia nenhuma evidncia disso. Utilizei o escalpelo para abrir o estmago um pouco mais, apartar os borde e abrir o duodeno.
        - Pode me dar um desses frascos vazios? E a garrafa de lavagem, por favor.
        Jamie pendurou o abajur do prego e se ajoelhou para rebuscar em minha bolsa, enquanto eu pinava no estmago. Nas retiradas havia material granuloso que 
formava um resduo plido. Ao rasp-lo, descobri que se desprendia com facilidade, me deixando uma massa densa e arenosa na ponta dos dedos. Eu no sabia que era, 
mas no fundo de minha mente se ia formando uma suspeita desagradvel. Tinha que lavar o estmago, recolher esse resduo e lev-lo a casa, onde poderia examin-lo, 
quando chegasse a manh. Se era o que eu pensava...
        Sem prvio aviso, a porta do abrigo se abriu de par em par e pude ver a cara do Phillip Wylie, plido e espantado, no marco da porta.
        Olhou-me, boquiaberto, e tragou saliva; o rudo me chegou com claridade. depois de percorrer a cena com a vista, seus olhos voltaram para minha cara convertidos 
em largos lagos de horror.
        Eu tambm estava horrorizada. O que aconteceria se ele alvoroava? Seria um escndalo terrvel, embora eu pudesse explicar o que estava fazendo. E se no 
podia... Em uma ocasio tinha estado a ponto de que me queimassem por bruxaria; com uma bastava.
        depois de tragar saliva, disse o primeiro que me veio  mente.
        - boa noite.
        passou-se a lngua pelos lbios. No se tinha posto seus ps de arroz, mas estava to plido como um recorte de musselina.
        - Senhora... Fraser -disse- . Eu... n... o que  o que faz?
        Em minha opinio, isso devia ser bastante bvio; presumivelmente, sua pergunta se referia aos motivos pelos que o fazia. E eu no tinha intenes de aprofundar 
no tema.
        - Isso no  de sua incumbncia -disse secamente, recuperando um pouco o valor- . O que faz voc aqui a estas horas da noite?
        Pelo visto era uma boa pergunta; sua cara passou do horror  cautela. Sua cabea se moveu como se queria olhar por cima do ombro, mas deteve o movimento 
antes de complet-lo. Mesmo assim, meus olhos seguiram a direo do gesto. detrs dele havia um homem alto, que agora se adiantava, plido o rosto, sardnicos os 
olhos verdes. Stephen Bonnet.
        - Por todos os Santos do inferno! -exclamei.
        Jamie saiu de debaixo da mesa como uma cobra ao ataque, Phillip Wylie se separou da porta com um grito e o abajur caiu ao cho. Houve um forte aroma de azeite 
e brandy derramados, um suave vaio de chama ao acender-se, e o sudrio cansado a meus ps comeou a arder.
        Jamie tinha desaparecido; fora se ouviam gritos e um rudo de ps que corriam sobre o pavimento. Pisoteei o tecido em chamas, com inteno de apag-la.
        Logo o pensei melhor. Tinha que sair dali. Recolhi minha bolsa e fugi na noite, com as mos vermelhas e o punho ainda apertado em torno da evidncia. No 
sabia que acontecia nem o que poderia acontecer a seguir, mas tinha a certeza de no me haver equivocado. Betty tinha sido assassinada.
      
      
      Ningum tinha sado ainda da casa principal, mas os gritos e as chamas no demorariam para chamar a ateno. O aroma de queimado era forte; sem dvida pensavam 
que o estbulo ardia ou estava a ponto de incendiar-se.
        e se resgatavam do abrigo o profanado cadver da Betty? No saberiam quem era o responsvel, mas o descobrimento causaria uma terrvel indignao, com os 
conseqentes rumores e histeria pblica.
        detrs de mim estalou um gemido agudo; devido ao sobressalto, golpeei-me o cotovelo contra as pedras. Fedra tinha cruzado o porto, seguida pelo Gussie e 
outra pulseira. Corria atravs do pomar, gritando " Mame" , enquanto sua camisa branca refletia a luz das chamas que j abriam buracos no teto do abrigo.
        Invadiu-me uma horrvel sensao de culpa. Sua voz, to parecida com a do Bree, fez que imaginasse o que haveria sentido minha filha se tivesse sido meu 
corpo o que se queimava no abrigo. Mas Fedra teria podido sentir coisas piores se eu no tivesse provocado o incndio. Apesar dos nervos, procurei a bolsa que tinha 
deixado cair a meus ps.
        Revolvi no saco at encontrar um frasco abafado, que normalmente usava para guardar sanguessugas, e a pequena garrafa de lavagem, com lcool diludo em gua. 
No via nada, mas senti que o sangue se quebrava, desprendendo-se em escamas, ao abrir os dedos duros para depositar cautelosamente no jarro o contedo de minha 
mo. Os dedos me tremiam tanto que no podia sujeitar a cortia da garrafa; por fim o arranquei com os dentes e verti o lcool sobre a palma aberta, de modo que 
os restos desse resduo granuloso cassem ao recipiente.
        Por ento o alarme tinha chegado  casa; ouviam-se vozes que provinham dali. O que acontecia? onde estava Jamie? e Bonnet e Phillip Wylie? Meu marido no 
tinha mais arma que uma garrafa de gua bendita, e os outros? Ao menos no se ouviram disparos... mas as adagas no fazem rudo.
        Havia gente que corria de um lado a outro do pomar, sombras fugazes ao longo dos caminhos, a poucos passos de meu esconderijo. de repente uma das figuras 
gritou e recebeu a resposta de outra. Zumbiam-me os ouvidos.
        " No seja idiota -me disse- . Est ao bordo do desmaio. Sente-se!" 
        Uma vez reposta, sa ao atalho escuro com a bolsa na mo. A primeira pessoa a que vi foi ao maior MacDonald; de p no caminho, contemplava o incndio do 
abrigo. Aferrei-o por um brao, lhe provocando um sobressalto.
        - O que acontece? -disse-lhe, sem me incomodar em pedir desculpas.
        - Onde est seu marido? -perguntou ele simultaneamente, procurando o Jamie com a vista.
        - No sei. -Infelizmente, era muito certo- . Eu tambm o estou procurando.
        - Senhora Fraser! Est voc bem, querida? -Lloyd Stanhope surgiu junto a mim.
        - Ouvi que gritavam " Fogo!"  e pensei que podia haver algum ferido -expliquei com serenidade, mostrando a bolsa- . trouxe minha equipe mdica. Sabe voc 
se todos estiverem bem?
        - At onde posso... - comeou MacDonald, mas imediatamente salto para trs, alarmado, me arrastando por um brao. A coberta cedeu com um rudo profundo e 
as fascas se elevaram a grande altura para cair logo entre a multido reunida no pomar.
        Todo mundo retrocedeu entre gritos afogados. Logo se fez uma dessas pausas breves e inexplicveis, em que todos os membros de uma multido ficavam mudos 
ao mesmo tempo. O abrigo ainda ardia, com um rudo de papel enrugado, mas por cima dele se ouvia uma voz que gritava ao longe. Era uma voz de mulher, aguda e quebrada, 
mas potente e plena de fria.
        - A senhora Cameron! -exclamou Stanhope.
        Mas o major j ia para a casa a tudo correr. 
      

      53
      
      O ouro do francs
      
      Encontramos a Yocasta no assento junto a sua janela; estava em camisola, maa de ps e mos com tiras de lenol e completamente escarlate de ira. Duncan Innes, 
sem outra roupa que a camisa de dormir, jazia de bruces no cho, perto do lar.
        Corri a me ajoelhar a seu lado para procurar o pulso.
        - morreu? -O major olhava por cima de meu ombro, com mais curiosidade que simpatia.
        - No. Tire toda esta gente daqui, por favor.
        A quarto estava lotada de hspedes e serventes, que rodeavam a Yocasta entre especulaes, comentrios e protestos. O major piscou ante o peremptrio de 
meu tom, mas no perdeu tempo em discutir a situao.
        Meu exame superficial do Duncan s revelou um grande galo detrs de uma orelha. Ao parecer o tinham golpeado com um candelabro de prata, que jazia a seu 
lado no cho. Tinha muito m cor, mas seu pulso era firme e sua respirao, rtmica.
        Yocasta foi muito mais efetiva. Uma vez liberada de suas ataduras, cruzou a tropices a habitao, dividindo a multido como se fora o Mar Vermelho.
        - Duncan! Onde est meu marido? -inquiriu, girando a cabea de lado a lado, ferozes os olhos cegos. A gente se apartava ante ela; em poucos segundos esteve 
a meu lado.
        - Quem est aqui? -sua mo descreveu um arco ante ela em busca de orientao.
        - Sou eu... Claire. -Agarrei-lhe a mo para gui-la at mim. Seus dedos estavam gelados e tremiam; as ligaduras lhe tinham deixado profundas marcas vermelhas 
nas bonecas- . No se preocupe; acredito que Duncan est bem.
        Estendeu uma mo para comprov-lo por si mesmo; eu lhe guiei os dedos at o pescoo e os apoiei na veia grande que via palpitar a um flanco. Ela se inclinou 
para diante, com uma pequena exclamao, e apalpou suas faces com ternura.
        - Golpearam-no. Est ferido gravemente?
        - Acredito que no -lhe assegurei- . S tem um galo na cabea.
        - Est segura? Cheiro a sangue.
        Foi uma desagradvel surpresa descobrir que ainda ficavam bordem de sangre seca nas unhas, restos da autpsia improvisada.
        - Acredito que sou eu -murmurei discretamente- ; a regra.
        Na porta se produziu um pequeno revo. Ao me voltar descobri, com intenso alvio, que era Jamie. Sua expresso se endureceu ao ver o Duncan. Fincou um joelho 
meu lado.
        - Est bem -disse, sem lhe dar tempo a perguntar- . Algum lhe golpeou na cabea e atou a sua tia.
        - Sim? Quem? -Depois de jogar uma olhada a Yocasta, apoiou uma mo no peito do Duncan, para assegurar-se de que de verdade respirava.
        - No tenho a mais remota idia -respondi secamente- . Do contrrio j teria mandado aos homens atrs desses criminais.
        - ningum viu a esses vadios? -perguntou Yocasta.
        - Acredito que no, tia -respondeu Jamie, com calma- . Com semelhante hervidero na casa ningum sabe o que procurar.
        O que tinha querido dizer? Acaso Bonnet tinha escapado? Pois sem dvida era ele quem tinha invadido a quarto da Yocasta; era impossvel que houvesse vrios 
criminosos em operao ao mesmo tempo, em um lugar como aquele.
        Jamie moveu apenas a cabea. Ao ver o sangue sob minhas unhas, arqueou uma sobrancelha. tinha descoberto algo, tinha j a certeza? Assenti com a cabea, 
percorrida por um ligeiro calafrio. " Assassinada" , modulei com os lbios.
        O major fechou a porta com firmeza e se aproximou de ns.
        - Levamo-lo a cama?
        Duncan comeava a mover-se; tossia um pouco, mas felizmente no vomitou. Jamie e o maior MacDonald  o levantaram, e o tenderam na grande cama de dossel.
        - Est reposta, tia? -perguntou Jamie.
        Ela elevou uma sobrancelha em sardnica resposta.
        - Com uma taa estarei melhor -disse, aceitando a taa que Ulises lhe punha nas mos- . Mas sim, sobrinho, estou bastante bem. Duncan...?
        Eu estava sentada na cama, junto a ele, com sua boneca entre os dedos. Senti-o subir para a superfcie da conscincia; suas plpebras se estremeceram e esticou 
um pouco os dedos contra minha palma.
        - Est reagindo -lhe assegurei.
        - lhe d brandy, Ulises -ordenou Yocasta.
        - Ainda no -disse eu- . Engasgaria-se.
        - Sente-se em condies de nos contar o que aconteceu, tia? -perguntou Jamie, com certa dureza na voz- . ou devemos esperar a que o faa Duncan?
        Yocasta fechou um instante os olhos, suspirando. Tinha a habilidade de todos os MacKenzie para ocultar o que pensava, mas neste caso era evidente que pensava 
a toda velocidade. A ponta de sua lngua foi tocar um ponto irritado na comissura da boca. Ento compreendi que deviam hav-la amordaado.
        Fora se ouviam murmrios no corredor; no todos os hspedes se dispersaram. Captei frases apagadas:" ... completamente queimado, no ficaram a no ser os 
ossos" , " ...roubado? No sei..." , " ...revisar os estbulos" , " Sim, consumido por completo..." . Percorrida por um intenso calafrio, apertei com fora a mo 
do Duncan, lutando contra um pnico que no compreendia. Minha expresso deveu ser estranha, pois Bree disse, suave:
        - Mame? -Olhava-me com a frente enrugada de preocupao.
        Jamie apoiou em meus ombros as mos grandes e quentes. O maior MacDonald me olhou com curiosidade, mas imediatamente desviou a ateno para a Yocasta, que 
girou a cabea nessa direo.
        - O maior MacDonald, verdade?
        - Para servi-la, senhora. -O homem lhe fez automaticamente uma reverncia, esquecendo que ela no podia v-lo.
        - Agradeo-lhe seus amveis servios, maior. Meu marido e eu estamos em dvida com voc.
        MacDonald respondeu com um murmrio corts.
        - No, no -insistiu ela, erguendo as costas- . Tomou-se voc muitas molstias por ns. No devemos abusar mais de sua amabilidade. Ulises, acompanha  major 
ao salo e te ocupe de lhe servir um bom refrigrio.
        O mordomo se inclinou e conduziu  major para a porta.
        Meu pnico comeava a desaparecer e pude centrar a ateno em meu paciente, que j tinha aberto os olhos, e olhava ao Jamie.
        - MAC Dubh,o que aconteceu?
        Jamie retirou uma mo de meu ombro para lhe estreitar o brao.
        - No se preocupe, a charaid. -Desviou um olhar significativo para a Yocasta- . Sua esposa vai contar nos o que foi o que aconteceu. Verdade, tia?
        Yocasta franziu os lbios, mas logo suspirou, resignada  ingrata e necessria confidncia.
        - no h ningum aqui que no seja da famlia?
        Quando lhe asseguramos que assim era, comeou.
        Tinha despedido de sua donzela e estava a ponto de retirar-se, disse, quando a porta que dava ao corredor se abriu sbitamente, dando passo a dois homens, 
conforme lhe pareceu.
        - Estou segura de que havia mais de um. Ouvi os passos e a respirao -disse, franzindo o sobrecenho para concentrar-se- . Possivelmente fossem trs, mas 
no acredito. S falava um. O outro devia ser algum a quem conheo pois se manteve a distncia, como se temesse que eu pudesse reconhec-lo.
        O homem que falava lhe era desconhecido. Ela estava segura de no ter ouvido antes aquela voz.
        - Era irlands -disse. A mo do Jamie se esticou contra meu ombro- . Expressava-se bem, mas no era um cavalheiro.
        - No,  claro que sim -murmurou Jamie.
        Bree tinha dado um ligeiro coice ante a palavra " irlands" , embora s havia uma pequena ruga de concentrao em sua frente.
        - O homem era corts, mas direto em suas exigncias. Queria o ouro.
        - Ouro? -foi Duncan quem falou, mas a pergunta era evidente em todas as caras- . Que ouro? No h oro na casa, alm de umas quantas libras esterlinas e algum 
dinheiro da Proclamao.
        Yocasta apertou os lbios, mas j no havia remdio.
        - O ouro do francs -disse abruptamente.
        - O que? -Duncan, atnito, tocou-se o galo que tinha detrs da orelha, como se acreditasse que lhe tinha afetado ao ouvido.
      - O ouro do francs -repetiu Yocasta, irritada- . que enviaram justo antes do Culloden.
        - antes de... - comeou Bree, com os olhos dilatados. Mas Jamie a interrompeu.
        - O ouro do Luis -disse- . A isso refere, tia? O ouro dos Estuardo?
        Yocasta deixou escapar um risada breve, sem nenhuma fumaas.
        - Alguma vez foi.
        E mandou ao Bree a procurar o estojo que no dia anterior lhe tinha mostrado. Quando retornou, depositou-o em seu regao. Yocasta esvaziou sua taa, deixou-a 
com um golpe seco e abriu o estojo. Dentro surgiu um brilho de ouro e diamantes. Ela retirou uma varinha de madeira com trs anis.
        - Faz tempo tinha trs filhas -comeou- . Trs mulheres. Clementina, Seonag e Morna. -Tocou um dos anis: uma banda larga com trs grandes diamantes- . Isto 
era para minhas meninas. Hector me deu isso ao nascer Morna, que era dela. Morna... sabem que significa " amada" ?
        Estendeu a outra mo, procurando provas, e tocou a bochecha do Bree, que a encerrou entre as suas.
        - De cada um de meus matrimnios sobreviveu uma menina. -Os dedos da Yocasta tocavam delicadamente os anis- . Clementina era filha do John Cameron, com 
quem me casei quando eu era pouco mais que uma criatura. Iluminei-a aos dezesseis anos. Seonag era filha do Hugh, o Negro: moria como seu pai, mas com os olhos 
de meu irmo Colum. E logo Morna, a menor. Quando morreu tinha apenas dezesseis anos.
        Sua expresso era triste, mas a linha de sua boca se suavizou ao pronunciar os nomes de suas trs filhas desaparecidas.
        - Este me deu isso Hector Cameron -disse Yocasta tocando a banda dos trs diamantes- . E ele as matou a todas. Matou-as pelo ouro do francs.
        A horrvel surpresa me deixou sem flego, com um oco no estmago. Senti que Jamie ficava muito quieto a minhas costas; dilataram-se os olhos avermelhados 
do Duncan. Brianna, sem trocar de expresso, fechou os olhos durante um momento, mas reteve aquela mo larga e ossuda.
        - O que foi delas, tia? -perguntou, sem elevar a voz- . Me conte.
        Para minha surpresa, quando voltou a falar no se dirigiu a Brianna, a no ser ao Jamie.
        - Voc sabe o do ouro, verdade, a mhic mo pheathar? -disse.
        - ouvi falar disso -respondeu com calma; depois se sentou a meu lado, mais perto de sua tia- .  um rumor que circulava pelas Terras Altas desde o do Culloden. 
dizia-se que Luis enviaria ouro para ajudar a sua primo naquela luta. Depois disseram que o ouro tinha chegado, mas ningum o viu.
        - Eu o vi. -A larga boca da Yocasta, to parecida com a de seu sobrinho, alargou-se ainda mais- . Eu o vi, Trinta mil libras em lingotes de ouro. Eu estava 
com eles a noite em que o desembarcaram a remo do navio francs. Vinha em seis cofres, to pesados que o bote s podia trazer os de dois em dois; do contrrio se 
teria fundo. Cada cofre tinha a flor de lis esculpida na coberta; cada um estava fechado com bandas de ferro e um cadeado; cada cadeado, selado com lacre vermelho, 
e o lacre luzia o selo do anel do rei Luis: a flor de lis.
        Essas palavras fizeram correr um suspiro coletivo de sobressaltado respeito. Yocasta assentiu lentamente.
        - Onde o desembarcaram, tia? -perguntou Jamie pelo baixo.
        Ela movia a cabea com lentido, como assentindo para si mesmo, com os olhos cravados na cena que a lembrana lhe pintava.
        - No Innismaraich. Uma pequena ilha frente a Coigach.
        Olhei ao Jamie aos olhos: Innismaraich significava " Ilha do Povo de Mar" ; quer dizer, a ilha das focas. Conhecamo-la.
        - Ali estavam os trs homens aos que lhes confiou -disse Yocasta- . Um deles era Hector; outro meu irmo Dougal; o terceiro estava mascarado. Os trs tinham 
mscara, mas eu conhecia o Hector  e ao Dougal. Ao terceiro homem no o conhecia e nenhum deles pronunciou seu nome. No obstante reconheci a seu servente; chamava-se 
Duncan Kerr.
        Jamie se tinha posto algo rgido para ouvir o nome do Dougal; ante o do Duncan Kerr ficou petrificado.
        - Havia tambm serventes? -perguntou.
        - Dois -confirmou sua tia, com um sorriso amargo- . O mascarado trouxe para o Duncan Kerr, como hei dito; meu irmo dougal, a um homem do Leoch. Eu o conhecia 
de vista, mas no por seu nome. Hector contava comigo para que o ajudasse. Eu era uma mulher forte, como voc, a leannan -acrescentou brandamente, estreitando a 
mo da Brianna- . Era forte e Hector confiava em mim como em ningum. Eu tambm confiava nele..., por ento.
        O fantasma de um sorriso tocou de melancolia os lbios do Jamie. Olhou primeiro a Brianna e logo, de novo, a mim. 
        - Foi em maro -disse Yocasta- . Uma noite glacial, mas clara como o gelo. De p no escarpado, contemplei o mar e o atalho que a lua tendia sobre a gua, 
como de ouro. A nave chegou navegando por esse caminho de ouro, como um rei a sua coroao, e pensei que era um sinal.
        Girou a cabea para o Jamie, torcendo abruptamente a boca.
        - Na verdade me pareceu ouvir que ele ria -disse- . Brian, o negro. que me separou de minha irm. No teria sido estranho nele. Mas no estava ali.
        Eu observava ao Jamie. No se movia, mas o cabelo avermelhado de seus antebraos se arrepiou.
        - Ignorava que tivesse conhecido a meu pai -disse, com voz algo dura- . Mas deixemos isso por agora, tia. Diz que foi em maro.
        Ela assentiu.
        - Muito tarde. Deveu chegar dois meses antes, disse Hector. Houve atrasos...
        Em realidade muitos atrasos. Em janeiro, depois da vitria do Falkirk, essa mostra do respaldo da Frana poderia ter sido decisiva. Mas em maro o exrcito 
das Terras Altas se retirava para o norte, rechaada no Derby sua invaso a Inglaterra. Os homens do Carlos Estuardo partiam para sua destruio ao Culloden.
        Com os cofres em terra e a salvo, os novos custdios do ouro conferenciaram para decidir o que se faria com o tesouro. O exrcito estava em movimento e Estuardo 
com ele. Edimburgo tinha voltado para mos dos ingleses. No havia lugar seguro aonde lev-lo, mos confiveis nas que o pudesse entregar.
        - Eles no confiavam em Ou'Sullivan nem nos outros que rodeavam ao prncipe -explicou Yocasta- . Irlandeses, italianos... Dougal disse que no se tomou tantas 
molstias s para que o ouro fora roubado ou dilapidado por estrangeiros. Quer dizer: no queria perder o mrito de hav-lo obtido.
        Por fim se dividiu o ouro; cada homem agarrou dois dos cofres e fez um juramento de sangue: guardar o segredo e conservar o tesouro com fidelidade em nome 
de seu monarca legtimo, o rei Jacobo.
        - Tambm tomaram juramento aos dois serventes -disse Yocasta- . Fizeram-lhes um corte;  luz das velas, as gotas de sangue eram mais vermelhos que o lacre 
dos cofres.
        Os conspiradores, nervosos pela posse de tanta riqueza, partiram antes do amanhecer, com os cofres envoltos em mantas e farrapos.
        - Quando baixvamos o ltimo dos cofres, chegaram um par de viajantes. Foi isso o que salvou a vida ao hospedeiro, pois era um lugar solitrio e a era a 
nica testemunha de nossa presena ali. Acredito que Dougal e Hector no teriam pensado assim; mas o terceiro homem se propunha elimin-lo; li-o em seus olhos, na 
posio de seu corpo enquanto esperava, ao p da escada, com a mo na adaga. Ele viu que eu o observava e me sorriu sob a mscara.
        - alguma vez se tirou a mscara? -inquiriu Jamie.
        Yocasta negou com a cabea.
        - No. de vez em quando, ao recordar aquela noite, perguntava-me se o reconheceria em caso de v-lo novamente. Parecia-me que sim; era moreno e magro, mas 
forte como uma faca. Se visse outra vez esses olhos, sem dvida. Mas agora... No sei se poderia reconhec-lo s pela voz.
        - Mas est segura de que no era irlands? -Duncan escutava absorto, incorporado sobre um cotovelo.
        - Ah! No, a dhuine. Por sua maneira de falar era escocs. Um cavalheiro das Terras Altas.
        Jamie e seu amigo intercambiaram um olhar.
        - um dos MacKenzie ou dos Cameron? -sugeriu Duncan, em voz fica.
        - Ou um dos Grant, possivelmente -disse Jamie.
         Eu entendi essas especulaes. Entre os cls das Terras Altas existia uma muito complexo srie de associaes e inimizades; eram muitos os que no teriam 
podido cooperar em uma empresa to importante e secreta.
        Os conspiradores se separaram, cada qual por seu caminho, com um tero do ouro do francs. Yocasta ignorava o que tinham feito com seus cofres Dougal e o 
desconhecido. Hector Cameron colocou os sua em um fossa aberto no cho de seu dormitrio.
        Sua inteno era deix-lo ali at que o prncipe tivesse chegado a algum lugar seguro, onde pudesse receber o ouro e utiliz-lo para obter seus objetivos. 
Mas Carlos Estuardo j estava em fuga e durante muitos meses no acharia stio onde descansar. E ento se produziu o desastre.
        - Hector abandonou a casa, o ouro e a mim para incorporar-se ao exrcito do prncipe. Retornou em dezessete de abril, ao ficar o sol. Ordenou-me que recolhesse 
as coisas de valor que tivesse  mo. A causa estava perdida, disse; devamos fugir ou morrer com os Estuardo, mas Cameron era o bastante ardiloso para no levar 
em sua fuga os dois cofres do ouro francs.
        - Retirou trs barras de um cofre e me entregou isso para que os escondesse sob o assento do carro, enquanto ele e o palafrenero levavam o resto aos bosques; 
no vi onde os enterraram.
        Em 18 de abril, a meio-dia, Hector Cameron subiu a sua carruagem com sua esposa, o palafrenero, sua filha Morna e trs barras de ouro, e partiu a toda velocidade 
para o sul, rumo ao Edimburgo.
        - Seonag estava casada com o Mestre do Garth, que tinha apoiado aos Estuardo: mataram-no no Culloden, embora ento no sabamos. Clementina j tinha enviuvado 
e vivia no Rovo, com sua irm. Eu sabia aonde nos dirigamos, mas ignorava que tivesse tudo to disposto.
        Os Cameron foram descobertos dois dias depois, perto do Ochtertyre.
        - desprendeu-se uma roda da carruagem -disse Yocasta, com um suspiro- . Ainda a vejo girar sozinha caminho abaixo. quebrado-se o eixo. No tivemos mais remedeio 
que acampar junto  estrada, enquanto Hector e a moo de quadra se apressavam a arrum-lo.
        As reparaes requereram a maior parte do dia. O nervosismo do Hector piorou durante a tarefa e se contagiou ao resto do grupo.
        - Por ento eu ignorava o que tinha visto no Culloden -disse Yocasta- . Ele sabia que, se os ingleses o apanhavam tudo teria terminado. Se no o matavam 
no ato o enforcariam por traidor.
        " Quando puderam colocar novamente a roda no carro j comeava a anoitecer; era primavera e obscurecia cedo. Quando chegvamos ao alto da colina, dois homens 
armados de mosquetes saram  estrada de entre as sombras, diante de ns.
        Eram soldados ingleses, homens do Cumberland. Ao v-los, Hector se afundou em um rinco da carruagem, com a cabea inclinada e coberta com um xale, fingindo 
ser uma velha profundamente dormida. Atenta s instrues que ele sussurrava, Yocasta apareceu pelo guich, disposta a desempenhar o papel de dama respeitvel que 
viajava com sua me e sua filha.
        Os soldados no lhe deram tempo a pronunciar seu discurso. Um deles abriu violentamente a portinhola e a baixou a puxes. Morna, espavorida, saltou atrs 
dela e tentou apart-la do soldado. Outro homem aferrou  menina e a arrastou para trs, interpondo-se entre a Yocasta e a carruagem.
        - Em um minuto mais " a av"  teria estado tambm em terra; ento descobririam o ouro e tudo teria terminado para ns.
        Um pistoletazo os surpreendeu a todos. Hector, aparecido na portinhola aberta, tinha disparado contra o soldado que sujeitava a Morna. Mas a luz do crepsculo 
era escassa; possivelmente os cavalos se moveram, meneando a carruagem. O fato  que o disparo alcanou a Morna na cabea.
        - Corri para ela -disse Yocasta, com voz rouca- . Corri para ela, mas Hector desceu de um salto e me deteve. Os soldados estavam abobalhados. Ele me arrastou 
para o carro e gritou  moo de quadra: " Adiante, adiante!" 
        umedeceu-se os lbios com a lngua e tragou saliva.
        - " morreu" , disse-me, uma e outra vez. " morreu, no pode fazer nada. "   E me sujeitou com fora para impedir que, arrojasse-me da carruagem.
        " Assim Hector salvou sua prpria vida... e a minha, por isso valesse ento -continuou, ainda remota- . E o ouro, certamente.
        Seus dedos procuraram novamente o anel e o fizeram girar lentamente em sua varinha; as pedras cintilaram sob a luz do abajur.
        - Certamente -murmurou Jamie.
        Yocasta apartou os anis e se levantou; a seguir se ajoelhou no assento junto  janela e apartou as cortinas. Pressionou as mos contra o cristal sorvete 
da noite; uma branca bruma se estendeu em volto de seus dedos, como chama fria.
        - Hector comprou esta plantao com o ouro que trouxemos -disse- . A terra, o moinho, os escravos. Se tiver que lhe fazer justia -seu tom sugeria que no 
era essa sua inclinao- o que vale agora se deve em grande parte para seu prprio trabalho. Mas a comprou com esse ouro.
        - e seu juramento? -perguntou Jamie, pelo baixo.
        - Seu juramento? -Ela lanou uma risada breve- . Hector era prtico. Os Estuardo estavam acabados. Para que necessitavam o ouro, l na Itlia?
        - Prtico -repeti.
        - Prtico, sim -assentiu- . Minhas filhas tinham morrido e ele no encontrava motivos para esbanjar lgrimas nelas. Jamais as mencionou; tampouco me permitia 
falar delas. Tinha sido homem endinheirado e voltaria a s-lo. No lhe teria sido to fcil, se algum o tivesse sabido. -Lanou um forte suspiro, carregado de ira 
contida- . Atreveria-me a dizer que, neste pas, ningum sabe que uma vez fui me.
        - Ainda o  -assinalou Brianna, brandamente- . Isso sei.
        Seus olhos azuis procuraram meus, escuros de compreenso. Senti a ardncia das lgrimas detrs do sorriso com a que lhe respondi. Sim, ela sabia e eu tambm. 
E Yocasta; as linhas de sua cara se relaxaram, a nostalgia substituiu  fria e  lembrana do desespero. aproximou-se lentamente a Brianna e lhe ps a mo livre 
na cabea. Logo os dedos largos e sensveis se deslizaram para baixo, sondando os mas do rosto fortes, os lbios largos e largos e o nariz reta.
        - Sim, a leannan -disse com suavidade- . Voc sabe o que quero dizer. Compreende agora por que quero que tudo isto seja teu... ou de algum de seu sangue?
        Jamie interveio com uma posecilla antes de que Bree pudesse responder.
        - Sim -disse, em tom prtico- . E isso  o que lhe contou ao irlands ontem  noite? No tudo, sem dvida, mas lhe h dito que no tem o ouro aqui?
        Yocasta deixou cair as mos e se voltou para ele.
        - Sim. Disse-lhe que os cofres seguiam enterrados no bosque, l em Esccia. Que fora a desenterr-los e ficasse, se queria.
        - e no aceitou sua palavra?
        - No era cavalheiro -repetiu- . No sei como poderiam ter resultado as coisas; sempre tenho uma pequena adaga sob o travesseiro. No teria tolerado que 
me pusesse impunemente as mos em cima. Mas antes de que pudesse agarrar a adaga ouvi passos no vestidor.
        Assinalou com um gesto a porta prxima ao lar; detrs estava seu vestidor, que unia seu dormitrio com o que antes era do Hector Cameron e agora, presumivelmente, 
do Duncan.
        Os intrusos tambm tinham ouvido os passos; o irlands vaiou algo a seu amigo; logo se separou da Yocasta para o lar. Ento o outro personagem se aproximou 
dela por detrs e lhe tampou a boca com uma mo.
        - S posso lhes dizer que o homem usava uma boina bem encasquetada e emprestava a licor, como se o tivesse vertido em cima em vez de beb-lo.  -Fez uma pequena 
careta de asco.
        A porta se aberto, dando passo ao Duncan. Ao parecer, o irlands saltou desde atrs da porta e o golpeou na cabea.
        - No recordo nada -disse ele, melanclico- . Vim a lhe dar as boa noite a se... a minha esposa. Lembrana que pus a mo no pomo da porta. Um momento depois 
estava tendido ali, com a cabea partida.  depois de tocar com cuidado o galo, olhou a Yocasta com ar preocupado- . Est bem, mo chridhe? Esses bodes no lhe maltrataram?
        - Claro que estou bem -disse, procurando provas at encontrar a mo do Duncan- . Excetuando a inquietao de me acreditar viva pela quarta vez. Logo o irlands 
se aproximou de mim e a besta que me sujeitava me soltou.
        O irlands lhe tinha informado que no acreditava nem por um momento que o ouro tivesse ficado em Esccia. Tinha a segurana de que estava no River Run e, 
embora no se teria atrevido a maltratar a uma dama, no experimentava as mesmas inibies com respeito a seu marido.
        - Disse que, se eu no lhes dizia onde estava, ele e seu companheiro comeariam a cortar ao Duncan em trocitos, comeando pelos dedos do p para avanar 
para os ovos -disse Yocasta sem rodeios.
        Duncan no tinha muito sangue na cara, mas a pouca que ali havia desapareceu para ouvir isso. Jamie apartou a vista dele, pigarreando.
        - E voc o creste, suponho.
        - Tinha uma boa faca; passou-me isso pela palma da mo, para me demonstrar que falava a srio.
        - Pois bem, e logo...
        - E logo os disse que o ouro estava enterrado sob o abrigo do pomar. -A seu rosto voltou brevemente a expresso satisfeita- . Pensei que ao encontrar o cadver 
se desconcentraran um pouco. Para quando tivessem reunido valor para cavar, eu podia ter achado uma maneira de escapar ou de dar o alarme... e assim foi.
        depois de at-la e amorda-la apressadamente, os homens saram rumo ao abrigo, com a ameaa de retornar para reatar as operaes se descobriam que tinha 
mentido. Mas no se esmeraram muito com a mordaa; ela no demorou para arrancar-lhe e gritar pedindo auxlio.
        - Suponho que, ao ver o cadver, a impresso lhes fez atirar o abajur, com o que incendiaram o abrigo. -Assentiu com lgubre satisfao- . Pouco aprecio 
a pagar. S lamento que no se queimaram tambm.
        - No crie que tenham podido iniciar o incndio a propsito? -sugeriu Duncan- . para cobrir os sinais da escavao?
        Yocasta descartou a idia com um encolhimento de ombros.
        - Com que fim? Ali no havia nada que pudessem encontrar, embora cavassem at a China.
        Ao parecer, no havia nada mais que dizer ou fazer. Ulises entrou trazendo outro candelabro e uma bandeja com brandy e vrias taas. O maior MacDonald reapareceu 
para informar que no tinham achado rastros dos malfeitores. depois de examinar ao Duncan e a Yocasta, deixei-os com o Bree e Ulises para que os deitassem.
        Jamie e eu descendemos em silncio. Ao p da escada me voltei para ele. Estava plido e gasto pela fadiga.
        - Retornaro, verdade? -disse-lhe em voz baixa.
        Ele assentiu com a cabea. Logo me agarrou pelo cotovelo para me conduzir para a escada da cozinha.
      

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      Conversa com bolo
      
      Nessa poca do ano ainda se utilizava a cozinha do poro. Jamie se deteve para um corts dilogo com a cozinheira; com o que conseguiu, no s um bolo recm 
assado, mas tambm tambm uma grande jarra de caf fumegante. Assim que se teve despedido, arrancou-me do tamborete no que eu me tinha deixado cair, e partimos outra 
vez, no vento frio da noite moribunda.
        Caminhvamos serenamente, emano  mo, e s lembranas do dia anterior se sobrepunham os inquietantes aromas do sangue e o incndio. Com cada passo, sentia-me 
como se estivesse a ponto de empurrar as portas de vaivm de algum hospital; logo me envolveriam o zumbir das luzes fluorescentes e o discreto aroma de remdio e 
cera para chos.
        - Falta de sonho -murmurei para meus adentros.
        - J haver tempo para dormir, Sassenach -disse Jamie- . Antes temos uma ou duas coisas que fazer. -Trocou de mo o bolo envolto para me agarrar pelo cotovelo 
e impedir que a fadiga me fizesse cair de bruces.
        Eu s tinha querido dizer que era a falta de sonho a que me causava a sensao de estar novamente em um hospital. Durante muitos anos, em minhas funes 
de interna, residente e me, tinha trabalhado longamente sem dormir; assim se aprende a funcionar bem pese ao cansao absoluto.
        A sensao de lcido desapego me acompanhou mesmo que nos desviamos para os estbulos. Ele havia dito que tnhamos algo que fazer. No acreditava que tivesse 
intenes de repetir as faanhas do dia anterior. Mas se pensava em um tipo de orgia mais tranqila, com caf e bolo, resultava estranho celebr-la no estbulo e 
no na sala.
        A porta lateral estava sem tranca; os aromas quentes do feno e os animais dormidos saram ao encontro.
        - Quem ? -disse uma voz fica e grave, das sombras interiores. Roger. Claro: no lhe tinha visto entre os que invadiram o quarto da Yocasta.
        - Fraser -respondeu Jamie, tambm em voz baixa. depois de me fazer entrar consigo, fechou a porta.
        A silhueta do Roger, que estava envolto em um capote, recortava-se contra o resplendor de um abajur, para o final da fila de pesebres.
        - Como est, ao Smeraich? -Jamie entregou a jarra de caf. Roger afundou uma pistola na cintura das calas e a agarrou. Sem comentrios, retirou a cortia 
e bebeu.
        - OH, Deus! -disse com um suspiro- . Isto  o melhor que provei em vrios meses.
        - No de tudo. -Um pouco divertido, Jamie agarrou a jarra para lhe entregar o bolo envolto- . Como est esse?
        - Ao princpio colocou bastante bulha, mas h um momento se aquietou. Talvez se tenha dormido. -Roger assinalou o pesebre com a cabea. Jamie desprendeu 
o abajur de seu gancho e a sustentou em alto por cima do porto trancado. Por debaixo de seu brao vi uma silhueta acurrucada e mdio escondida na palha, no fundo 
do pesebre.
        - Senhor Wylie? -chamou Jamie, sempre em voz baixa- . Dorme voc?
        A silhueta se agitou entre sussurros de feno.
        - No, senhor -foi a resposta, framente amarga. A silhueta se desdobrou lentamente e Phillip Wylie ficou de p, sacudindo-a palha da roupa.
        Realmente eu o tinha visto em melhores momentos. Era evidente que tinha recebido um golpe no nariz, pois tinha um sulco de sangue seca no lbio superior 
e uma mancha pardusca no colete de seda bordada.
        em que pese a isso, sua atitude se mantinha inclume em uma indignao glacial.
        - Ter que responder por isso, Fraser! Por Deus que sim!
        - Com muito prazer, senhor -respondeu Jamie, impertrrito- . Mas no antes de obter algumas respostas de voc. -Tirou o fecho ao pesebre e abriu- . Saia, 
senhor Wylie.
        O homem saiu com a cabea em alto. Passou a um palmo de mim, com o olhar fixo para diante, fingindo no lombriga.
        Aceitou rigidamente a jarra de caf que lhe ofereceram, mas uns quantos sorvos pareceram lhe devolver notavelmente a compostura.
        - O agradeo, senhor. -Devolveu a jarra com uma reverncia- . Bom, posso perguntar quais so os motivos desta inqualificvel conduta?
        - Pode, senhor -respondeu Jamie, erguendo-se a sua vez- . Quero descobrir no que consiste sua associao com certo Stephen Bonnet e o que sabe voc de seu 
atual paradeiro.
        A cara do Wylie ficou quase comicamente em branco.
        - Quem?
        - Stephen Bonnet.
        Wylie cravou no Jamie um olhar fulminante, com as sobrancelhas escuras muito franzidas.
        - No conheo nenhum cavalheiro com esse nome, senhor Faser; portanto, no tenho idia alguma de seus movimentos. At se o tivesse, duvido muito que me sentisse 
obrigado a lhe informar.
        - No? -Jamie bebeu um sorvo de caf, pensativo; logo me entregou a jarra- . O que me diz voc das obrigaes de um convidado para com seu anfitrio, senhor 
Wylie?
        As sobrancelhas escuras se elevaram em um gesto de estupefao.
        - A que se refere, senhor?
        - Vejo que voc no est informado, senhor, de que ontem  noite a senhora Innes e seu marido sofreram um ataque e um intento de roubo.
        Wylie ficou boquiaberto. A menos que fora muito bom ator, sua surpresa era autntica.
        - No sabia. Quem...? -O desconcerto desapareceu e deu passo  ira- . Voc acredita que eu estive envolto nesta... esta...?
        - Desprezvel empresa? -sugeriu Roger, que parecia divertir-se- . Sim, acredito que sim. um pouco de bolo para acompanhar o caf, senhor?
        E lhe alargou uma parte. Wylie o olhou fixamente um momento; logo se levantou de um salto e o fez cair de um golpe.
        - Maior canalha! -Girou para o Jaime com os punhos apertados- . Atreve-se a insinuar que sou um ladro?
        Jamie se tornou um pouco para trs, com o queixo em alto.
        - Em efeito -disse serenamente- . Voc tratou de me roubar a minha esposa ante meus prprios narizes. portanto, que escrpulo poderia ter para com os bens 
de minha tia?
        A cara do Wylie se ruborizou, e a seguir se lanou contra Jamie. Os dois rodaram com um revoou de braos e pernas. Roger se lanou para a refrega, mas eu 
o sujeitei pelo capote.
        Jamie tinha a seu favor a habilidade e a corpulncia, mas Wylie no era novio na arte dos punhos; alm disso, impulsionava-o uma ira desatada.
        Ferozmente irritada contra os dois, adiantei-me um passo e verti sobre eles o contedo da jarra.
        - J estou farta disto!
        - Pois eu no! -exclamou Wylie, acalorado- . Ele me insultou em minha honra! Exijo...!
        - OH, ao diabo com sua maldita honra! E com o teu tambm! -bramei.
        Jaime se contentou com um ressonante bufido. Empurrei com o p um dos tamboretes cansados, com a vista ainda cravada nele.
        - Sente-se!
        Ele levantou o banquinho e se  sentou com imensa dignidade.
        Wylie no parecia to disposto a me emprestar ateno e continuava com os comentrios sobre sua honra. Atirei-lhe um chute na tbia. Esta vez calava botas 
fortes. Ele lanou um chiado e saltou sobre o outro p, sujeitando-a pantorrilha afetada.
        - No convm chate-la quando est irritada -disse Jamie a seu competidor, me jogando um olhar cauteloso- .  perigosa, sabe voc?
        Wylie me olhou, muito carrancudo, fez um esforo por trag-lo que estava a ponto de dizer e se sentou lentamente no outro banquinho.
        - Eu gostaria de saber o que acontece aqui, por favor -disse, com deliciosa cortesia.
        - Pois eu opino o mesmo, senhor -disse Jamie. 
        - Roubo, assassinato e s o cu sabe que mais -enumerei com firmeza- . E queremos chegar ao fundo do assunto.
        - Assassinato?  - repetiram Roger e Wylie ao mesmo tempo. Ambos pareciam sobressaltados.
        - Quem foi assassinado? -inquiriu o prisioneiro, nos olhando alternativamente ao Jamie e a mim.
        - Uma pulseira -informou Jamie- . Minha esposa suspeitou que havia doo em sua morte. Precisvamos descobrir a verdade. Esse foi o motivo de nossa presena 
no abrigo, ontem  noite.
        - Presena. -Ante a lembrana do que me tinha visto fazer no abrigo pareceu chateado- . Sim... compreendo. -E me olhou pela extremidade do olho.
        - Com que a mataram? -Roger entrou no crculo de luz e se sentou no cubo investido, a meus ps- . O que a matou?
        - Algum lhe deu de comer cristal modo -respondi- . Encontrei uma boa quantidade em seu estmago.
        Enquanto o dizia, emprestei muita ateno ao Philip Wylie, mas sua cara tinha a mesma expresso estupefata que Jamie e Roger.
        - Cristal. -Jamie foi o primeiro em recuperar-se- . Quanto demora algo assim em matar, Sassenach?
        Esfreguei-me o sobrecenho com dois dedos. O atordoamento da hora temprana foram dando passo a uma palpitante dor de cabea.
        - No sei. Chega ao estmago em poucos minutos, mas poderia demorar bastante em provocar uma grande hemorragia. E se algo dificultasse os processos digestivos 
(a bebida, por exemplo), poderia demorar ainda mais. Tambm se ela tivesse comido em quantidade ao ingerir o cristal.
        -  a mulher que voc e Bree encontraram no pomar? -Roger se voltou para o Jamie.
        - Sim. -Ele manteve os olhos fixos em mim- . Estava inconsciente por efeitos da bebida. Mais tarde, quando a viu, Sassenach, havia j sinais disso?
        Neguei com a cabea.
        - Talvez o cristal j estava fazendo efeito, mas ela estava inconsciente. Uma coisa: Fentiman disse que se despertou em metade da noite, queixando de sofrer 
retortijones.  seguro que por ento j estava afetada. Mas no posso dizer com certeza se lhe subministrou o cristal modo antes de que voc e Bree a encontrassem 
ou se despertou de seu estupor ao anoitecer e algum o deu ento.
        - Mas por que? Quem podia lhe desejar a morte? -perguntou Jamie.
        -  uma boa pergunta -assentiu Wylie- . Entretanto, posso lhes assegurar que to no fui.
        Jamie o estudou longamente.
        - Pode ser, sim -disse- . Mas se no... A que foi voc ontem  noite ao abrigo? O que podia lev-lo ali, como no fora contemplar o rosto de sua vtima?
        - Minha  vtima! -Wylie ficou rgido de ira renovada- . No era eu o que estava no abrigo, ensangentado at os cotovelos com as vsceras dessa mulher e 
lhe arrancando trocitos! -Girou a cabea para mim- . Minha vtima! Profanar um cadver  um crime capital, senhora Fraser. E me chegaram rumores... OH, sim que me 
chegaram rumores sobre voc! Eu digo que foi voc quem matou  mulher, a fim de obter...
        Suas palavras terminaram em um gorgoteo, pois Jamie aferrou o peitilho de sua camisa e a retorceu em torno do pescoo. Logo o golpeou com fora no estmago. 
O jovem se dobrou em dois, tossindo e vomitando.
        - Estou seguro de que no pensa fazer acusaes to infundadas contra minha esposa, verdade... senhor? -disse Jamie ao Wylie, com excessiva cortesia.
        No me surpreendeu que Phillip negasse com a cabea; pelo visto, ainda no tinha recuperado a fala.
        - Bem -disse, apartando para trs uma mecha de cabelo- . Se todo isso est acordado... Onde estvamos?
        - No assassinato da Betty -apontou Roger- . No sabemos quem, no sabemos quando e no sabemos por que. No obstante, como base para a discusso, sugeriria 
partir do suposto de que nenhum dos pressente teve nada que ver com isso.
        - Muito bem. -Jamie desprezou o assassinato com um gesto brusco, enquanto se sentava- . O que tem que o Stephen Bonnet?
        O semblante do Roger se escureceu para ouvir isso.
        - Sim, o que tem que ele? Est envolto neste assunto?
        - Possivelmente no assassinato no, mas ontem  noite minha tia e seu marido foram atacados em seu quarto por dois vilos, um dos quais era irlands.
        - Repito -disse Wylie framente- que no conheo nenhum cavalheiro com esse nome, seja irlands ou hotentote.
         - Stephen Bonnet no  um cavalheiro -disse Roger. As palavras eram muitos suaves, mas seu tom fez que Wylie levantasse a vista para ele.
        - No conheo esse homem -disse com firmeza. Provou a tragar saliva e, como lhe resultasse suportvel, respirou mais fundo- . por que supem vocs que esse 
tal Bonnet  o irlands que cometeu essa tropelia contra o matrimnio Innes? Acaso deixou seu carto de visita?
        Surpreendi-me mesma com uma gargalhada. Jamie me jogou uma olhada e logo se voltou para o Wylie.
        - No -disse- . Eu sim conheo um pouco ao Stepjen Bonnet, que  um traidor, degenerado e ladro. E o homem estava com voc, senhor, quando encontrou a minha 
esposa e a mim no abrigo.
        - Sim -confirmei- . Eu tambm o vi, de p detrs de voc. E que fazia voc ali, a fim de contas? -de repente me tinha ocorrido a pergunta.
        Os olhos do prisioneiro se alargaram ante a acusao do Jamie.
        - No o conheo -repetiu em voz baixa- . Tive a sensao de que me seguiam, mas ao olhar para trs no vi ningum, de modo que no emprestei muita ateno. 
Quando vi... o que havia no abrigo... fiquei to impressionado que s pude atender ao que tinha ante meus olhos.
        Era perfeitamente compreensvel. Wylie encolheu os ombros e os deixou cair.
        - Se na verdade esse tal Bonnet me seguia, terei que considerar sua palavra, senhor. Mas lhes asseguro que no estava ali em minha companhia nem com meu 
conhecimento.
        - Logo viro as moos de quadra. -Jamie aspirou fundo, encolhendo pela metade os ombros. Logo olhou ao Wylie- . Pois bem, senhor. Aceito sua palavra de cavalheiro
        - Seriamente? Adula-me voc.
        - Mesmo assim -continuou Jamie, desdenhando deliberadamente o sarcasmo- , eu gostaria de saber a que ia voc a esse abrigo ontem  noite.
        Wylie se tinha levantado pela metade. Ante essa pergunta voltou a sentar-se com lentido e piscou uma ou duas vezes, como se pensasse. Por fim suspirou.
        - Fui a pelo Lucas -disse simplesmente- . Eu estava ali a noite em que nasceu. Criei-o, ensinei-lhe a tolerar a cadeira, adestrei-o. -Tragou saliva uma vez; 
detestei o estremecimento dos volantes que lhe adornavam o pescoo- . Vim ao estbulo para passar alguns instantes a ss com ele... para me despedir.
        Pela primeira vez a cara do Jamie perdeu a sombra de desgosto que exibia ao olh-lo.
        - Compreendo, sim -disse em voz baixa- . E logo?
        Wylie endireitou as costas.
        - Ao sair do estbulo me pareceu ouvir vozes perto do muro do pomar. E quando me aproximei para ver o que acontecia vi luz no abrigo. Abri a porta. E voc 
sabe melhor que eu o que aconteceu logo, senhor Fraser.
        Jamie se esfregou a cara com fora. Logo assentiu energicamente.
        - Sei, sim. Lancei-me detrs o Bonnet e voc me interps.
        - Voc me atacou -corrigiu Wylie, frio, enquanto se acomodava a jaqueta destroada- . Eu me defendi. E estava em meu direito de faz-lo. Logo voc e seu 
genro me sujeitaram, trouxeram-me pela fora aqui e me retiveram cativo durante a metade da noite.
        Roger pigarreou. Jamie tambm, embora sua inteno era mais azeda.
        - Pois sim -disse- , no discutiremos isso. -Com um suspiro, despediu-se de seu prisioneiro com um gesto- . Sabe voc por ventura em que direo fugiu Bonnet?
        - OH, sim!, embora por ento ignorava seu nome, claro. Suponho que a estas horas estar completamente fora de seu alcance. -Havia uma nota estranha em sua 
voz, um pouco parecido  satisfao. Jamie girou bruscamente.
        - O que quer voc dizer?
        - Lucas. -Wylie assinalou com a cabea o penumbroso corredor do estbulo- . Seu pesebre  o ltimo. Conheo bem sua voz e o rudo de seus movimentos. Esta 
manh no o ouvi. Bonnet, se dele se tratava, fugiu para os estbulos.
        antes de que ele tivesse terminado de falar, Jamie tinha o abajur na mo e partia a grandes passos pelo corredor.
        A luz amarela se derrubava sobre a palha vazia.
        Guardamos silncio durante um comprido instante. Logo Phillip Wylie se estirou com um suspiro.
        - Se j no for meu, senhor Fraser, tampouco ser dele. -Seus olhos se posaram logo em mim com escura ironia- . Mas lhe desejo que desfrute de sua esposa.
        afastou-se com as meias quedas e os saltos vermelhos piscando os olhos  luz do amanhecer.
      
      
      Fora rompia o alvorada, serena e encantadora. S o rio parecia mover-se; a luz arrancava brilhos de prata a seu corrente, alm das rvores.
        Roger se foi para a casa, bocejando, mas Jamie e eu nos demoramos junto a cercado. Em poucos minutos a gente comearia a despertar; haveria mais perguntas, 
especulaes, bate-papo. No momento, nenhum dos dois queria mais conversao.
        Por fim. Jamie me rodeou os ombros com um brao e, com ar decidido, voltou as costas  casa.
        - No compreendo por que no pensei neste stio quando procurava um lugar ntimo -disse.
        Estvamos no abrigo das carruagens. Entre as sombras, vi uma carreta e o faetn da Yocasta, um veculo descoberto que parecia um grande tren sobre duas 
rodas. Jamie me elevou pela cintura para me depositar dentro e subiu detrs de mim. Sobre as almofadas havia uma manta de bfalo que estendeu no fundo do faetn. 
Ali havia espao suficiente para duas pessoas acurrucadas, sempre que no lhes incomodasse estar muito juntas.
        - Vem, Sassenach -disse, deixando cair de joelhos- . O que venha depois... pode esperar.
        Eu estava completamente de acordo. Embora na soleira da inconscincia, no pude menos que perguntar, dormitada:
        - Sua tia... a crie? O que contou do ouro e todo isso?
        - Certamente que sim -murmurou a meu ouvido- . Ao menos at onde posso comprovar o que h dito.
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      Dedues
      
      Quando finalmente a sede e a fome nos obrigaram a abandonar nosso refgio, passamos frente ao ptio dos escravos, que desviaram prudentemente a vista, ainda 
ocupados em retirar os restos da festa. No extremo do prado vi a Fedra, que vinha do mausolu com os braos carregados de pratos e taas abandonados entre as matas.
        Ao nos ver se deteve, dizendo:
        - OH!, a senhorita Eu o busca, amo Jamie. -Falava sem expresso, como se as palavras tivessem pouco sentido para ela.
        - Ah, sim? -Jamie se esfregou a cara com uma mo- . Bem, subirei a v-la.
        Ela se dava a volta j para afastar-se quando Jamie lhe tocou um ombro.
        - Lamento sua perda, moa -disse em voz baixa.
        Os olhos da Fedra se encheram de lgrimas, mas no disse nada. Ainda um pouco desorientada, ouvi que Jamie dizia algo.
        - ... ir lavar te e descansar um pouco, Sassenach?
        - O que? OH, no! Irei contigo.
        de repente ansiava acabar com tudo esse assunto e voltar para casa. J tinha tido suficiente vida social por uma temporada.
      
      
      Encontramos a Yocasta, ao Duncan, ao Roger e a Brianna reunidos na sala da Yocasta, devorando um caf da manh tardio, mas substancioso. Brianna dirigiu um 
olhar penetrante  roupa arruinada do Jamie, mas continuou sorvendo seu ch sem dizer nada. Ela e Yocasta estavam em bata; Roger e Duncan, embora vestidos, pareciam 
gastos e sujos. Nenhum dos dois se barbeou; Duncan tinha um grande moretn azul no flanco da cara, ali onde se golpeou com a pedra do lar; pelo resto os via bem.
        Por fim, saciados e um pouco mais repostos, respaldamo-nos nos assentos e, com toda firmeza, declarei iniciada a sesso.
        - Tudo isto comea com a Betty, no lhes parece?
        - Pode que sim, pode que no, mas suponho que  um ponto de partida to til como qualquer outro, Sassenach -respondeu ele.
        Brianna terminou de lubrificar de manteiga uma fina torrada.
        - Continue, Miss Marple -me disse com ar divertido, antes de dar a dentada.
        - Bem. Vejamos: quando vi a Betty me pareceu que estava drogada, mas como o doutor Fentiman me impediu de examin-la, no pude me assegurar. Mesmo assim, 
estamos seguros de que bebeu ponche com alguma droga, verdade?
        - Sim -disse Jamie- . Na taa percebi o sabor de algo que no era licor.
        - E eu interroguei s pulseiras da casa depois de falar com papai- acrescentou Brianna- . Duas das mulheres admitiram que Betty bebia os restos das taas, 
mas ambas asseguraram que s estava achispada quando ajudou a servir o ponche de rum na sala.
        - E nesses momentos eu estava ali, com o Seamus Hanlon e seus msicos- confirmou Roger, estreitando o joelho do Bree- . Vi que Ulises preparava pessoalmente 
o ponche. Era o primeiro que preparava esse dia, Ulises?
        Todas as cabeas giraram para o mordomo, que permanecia depois da cadeira da Yocasta, inescrutvel. Sua pulcra peruca e seu librea engomada eram uma recriminao 
silenciosa ao ar generalizado de desalinho e esgotamento.
        - No, o segundo -especificou- . O primeiro se bebeu no caf da manh. -A casa e os serventes estavam a seu cargo; era bvio que os acontecimentos recentes 
lhe desejavam muito uma mortificante recriminao pessoal.
        - Bem. -Roger se esfregou a barba enchente- . Por minha parte, no reparei na Betty, mas se ela tivesse estado bbada nesses momentos, eu no teria deixado 
de me precaver. E tampouco Ulises, suponho.
        Olhou por cima do ombro em busca de confirmao e o mordomo assentiu a contra gosto.
        - O tenente Wolff sim estava bbado -continuou- . Todo mundo comentou que era muito cedo para que estivesse nesse estado.
        Yocasta soltou uma exclamao grosseira, e Duncan baixou a cabea para dissimular um sorriso. Jamie resumiu:
        - O facho  que a segunda ronda de ponche se serve justo depois do meio-dia. Apenas uma hora mais tarde encontrei a essa mulher tendida de costas no esterco, 
emprestando a bebida e com uma taa de ponche a seu lado. No digo que seja impossvel, mas terei que apressar-se muito para embriagar-se desse modo em to pouco 
tempo, sobre tudo bebendo s restos.
        -  de supor, pois, que em realidade estava drogada -disse- . A substncia mais provvel seria o ludano. Havia ludano na casa?
        Yocasta compreendeu que a pergunta lhe estava dirigida a ela e se ergueu na cadeira. Parecia muito reposta do acontecido a noite anterior.
        - OH, sim!, mas isso no significa nada -objetou- . Qualquer pde ter trazido um pouco; no  to difcil de obter, se se pode pagar. Sei de duas mulheres, 
entre os convidados pressente, que o consomem com regularidade. Atreveria-me a dizer que elas deveram trazer um pouco.
        Me teria encantado saber quais eram essas viciadas no pio e como sabia Yocasta, mas descartei esse ponto para passar ao seguinte.
        - Ento, qualquer que fosse a procedncia do ludano, ao parecer acabou dentro da Betty. -Voltei-me para o Jamie- . Disse que, quando a encontrou assim, 
te ocorreu que podia ter bebido uma droga ou um veneno destinado a outra pessoa.
        - Sim, pois no sei por que algum quereria indispor a uma pulseira.
        - No sei por que, mas algum a matou -interrompeu Brianna- . No vejo como pde ingerir cristal modo que ia destinado a outra pessoa.
        - No me coloque pressa! Estou tratando de ser lgica. -Dirigi um olhar carrancudo ao Bree, quem fez um rudo to grosseiro como o da Yocasta- . No, no 
acredito que pudesse ingeri-lo por acidente, mas no sei quando tomaria. Quase com segurana, foi depois de que Fentiman a examinasse pela primeira vez.
        Se Betty tivesse ingerido e cristal antes, os emticos e purgantes do Fentiman lhe teriam provocado uma grande hemorragia, como em realidade aconteceu quando 
ele voltou a atender suas molstias internas, para o amanhecer.
        - Acredito que tem razo -disse a Brianna- , mas s por ser ordenada; quando saiu a percorrer os jardins, Roger, encontrou a algum convidado que parecesse 
dorgado?
        Ele negou com a cabea, carrancudo, como se o sol o incomodasse. Possivelmente lhe doa a cabea.
        - No -disse- . Havia uns vinte indivduos que comeavam a cambalear-se um pouco, mas todos pareciam legitimamente brios.
        - E o tenente Wolff? -perguntou Duncan, para surpresa de todos. Ao ver que todos o olhvamos, ruborizou-se. Mas insistiu- :A smeraich disse que o homem 
estava completamente bbado quando passou pela sala. Pde beber a metade do ludano ou o que fora e dar o resto  pulseira?
        - No sei -observei- . Pelo menos  possvel. Viu algum  tenente, j mais avanado o dia?
        - Sim -disse Ulises, fazendo que todos girassem outra vez para ele- . Entrou na casa durante o jantar e me pediu que lhe conseguisse imediatamente uma barco. 
foi pela gua, ainda muito brio, mas lcido.
        - No esquecem algo? -Yocasta tinha seguido os argumentos com ateno. Inclinada para diante, estirou a mo para a mesa, tocando at localizar o que procurava: 
uma pequena taa de prata- . Voc, sobrinho, mostrou-me a taa da que Betty bebeu -disse ao Jamie, mostrando-lhe Era como esta, verdade?
        tratava-se de uma flamejante pea de praa esterlina. O desenho gravado era apenas visvel. I maisculo e o pececillo que nadava em torno dela quase se perdiam 
no brilho do metal.
        - Sim, era como essa, tia -confirmou Jamie- . Brianna diz que  parte de um jogo.
        - Sim. O dei de presente ao Duncan a manh de nossas bodas. -Ela deixou a taa, mas manteve os largos dedos cruzados acima- . Ele e eu usamos duas delas 
durante o caf da manh, mas as outras quatro ficaram aqui acima. -Moveu a mo para trs, assinalando o pequeno aparador instalado contra a parede. Contei: as seis 
taas de prata estavam nesse momento na mesa, cheias do  oporto que Yocasta preferia para o caf da manh. Mas no havia maneira de saber qual delas tinha contido 
o licor drogado. Ela perguntou:
        - O dia das bodas, Ulises, levou alguma destas taas ao salo?
        - No, senhora. -O mordomo pareceu horrorizar-se ante a sugesto- . Certamente que no.
        Ela girou os olhos cegos para o Jamie; logo para mim.
        - J vem -disse simplesmente- . Era a taa do Duncan.
        Seu marido pareceu sobressaltar-se; logo ficou intranqilo ao compreender as implicaes do que ela havia dito.
        - No. -Moveu a cabea- . No pode ser.
        - Algum te ofereceu uma taa esse dia, a cariem? -perguntou Jamie, inclinando-se atentamente.
        Todo mundo!  obvio. Ao fim e ao cabo era o noivo. Mas o transtorno digestivo ocasionado pelos nervos lhe tinha impedido de aceitar esses oferecimentos. 
Tampouco recordava se alguma dessas taas que lhe serviram era de prata.
        - Estava distrado, MAC dubh; no me teria precavido se algum me tivesse devotado uma serpente viva.
        Ulises agarrou um guardanapo da bandeja para oferecer-lhe sem chamar a ateno. Duncan a aceitou s cegas e se enxugou a cara.
        - Acreditam vocs que algum tratava de fazer mal ao Duncan? -O tom estupefato do Roger podia no ser estritamente adulador, mas ele pareceu no tom-lo 
a mau.
        - Mas por que? -disse desconcertado- . Quem pode me odiar?
        Jamie riu pelo baixo; a tenso se afrouxou um pouco em volto da mesa. Era certo: embora Duncan era inteligente e hbil, seu carter modesto fazia impossvel 
que tivesse ofendido a ningum; muito menos podia ter provocado esse frenesi homicida.
        - Bom, a cariem -Observou meu marido, com tato- , poderia no ser pessoal, compreende? -E me olhou com uma careta irnica.
        mais de uma vez tinham atentado contra ele, por motivos que no se relacionavam com o que ele tivesse feito, a no ser com o que era. Certamente, ocasionalmente 
tambm tinham tratado de mat-lo por coisas que tinha feito.
        Yocasta parecia estar pensando o mesmo.
        - Por certo -disse- . estive refletindo. Recorda, sobrinho, o que aconteceu na Congregao?
        Jamie, com uma sobrancelha arqueada, levantou sua taa de ch.
        - Ali aconteceram muitas coisas, tia. Mas suponho que refere ao que aconteceu o pai Kenneth.
        - Sim. -Ela levantou de maneira automtica uma mo e Ulises ps nela outra taa enche- . No me contou que Lillywhite havia dito algo com respeito a impedir 
que o sacerdote celebrasse cerimnias?
        - Em efeito. Crie que se referia a suas bodas com o Duncan? O que essa era a cerimnia que devia impedir?
        - Espera um momento -disse- . Diz que algum queria impedir as bodas de sua tia com o Duncan? E depois de obter seu propsito na Congregao, no lhe ocorreu 
outra maneira de impedi-lo agora, pelo qual tentou matar ao Duncan? -Minha voz refletia estupefao.
        - No sou eu o que o diz -esclareceu Jamie, observando a Yocasta com interesse- , mas  o que sugere minha tia.
        - Assim  -confirmou ela, serena. depois de acabar seu ch, deixou a taa com um suspiro- . No quero me dar ares, sobrinho, mas o fato  que fui cortejada 
por uns quantos, desde que Hector morreu. River Run  um imvel rico e eu, uma anci.
        Houve um instante de silncio enquanto o assimilvamos. A cara do Duncan refletiu inquietao e horror.
        - Mas... gaguejou- , mas se foi assim, MAC Dubh, por que esperar?
        - Esperar?
        - Sim. -Olhou em volto da mesa, procurando quem o entendesse- . Olhe, se algum quis impedir as bodas na Congregao, tudo est bem. Mas aps aconteceram 
quatro meses e ningum levantou uma mo contra mim. Quase sempre cavalgo sozinho; teria sido muito fcil me tender uma emboscada no caminho e me pr uma bala na 
cabea.
        - por que esperar quase at o momento das bodas e em presena de centenares de pessoas, diz. Pois sim, tem razo, Duncan -admitiu Jamie.
        Roger tinha escutado todo isso com os cotovelos apoiados nos joelhos e o queixo nas mos. Para ouvir isso se ergueu.
        - Me ocorre um motivo -disse- . O sacerdote.
        Todo mundo o olhou com as sobrancelhas arqueadas.
        - O sacerdote estava aqui -explicou- . Se tudo isto foi pelo River Run, no se trata s de tirar ao Duncan de no meio. depois de mat-lo, nosso assassino 
estaria como ao comeo: Yocasta no se casou com o Duncan, mas tampouco ele. Mas se todo esta preparado para celebrar uma cerimnia privada, com o sacerdote aqui... 
resulta simples. Mata ao Duncan, de um modo que possa passar por suicdio ou acidente; logo invade as habitaes da Yocasta e  obriga ao padre a consagrar o matrimnio 
a ponta de pistola. Como os serventes e os convidados esto pendentes do Duncan, ningum intervm nem se ope. O leito est  mo... Assinalou a grande cama de dossel, 
visvel pela porta que comunicava com a quarto- . Leva a Yocasta ali e consuma o matrimnio pela fora. E o indivduo j  seu tio.
      - Chegado a esse ponto viu que Yocasta tinha ficado boquiaberta e Duncan, estupefato; s ento caiu na conta de que essa no era s uma interessante proposio 
acadmica.
        - N... quero dizer -pigarreou- . H quem o tem feito.
        Jamie tambm pigarreou. Era certo. Seu prprio av, homem de ms intenes, tinha iniciado sua ascenso na sociedade ao desposar pela fora (e possuir imediatamente) 
 anci lady Lovat, rica e viva.
        - O que? -Brianna olhou ao Roger, obviamente horrorizada- . Mas que coisa to...! No poderiam sair-se com a sua!
        - No vejo a dificuldade -observei, me sacudindo os miolos do peito- . Obviamente esta operao no foi realizada por um s homem. Quem quer que seja o aspirante 
a noivo... vocs Recordem que no sabemos se existir, mas suponhamos que sim. Quem quer que seja, se existir, tem cmplices, sem dvida. Randall Lillywhite, para 
comear.
        - Que no estava aqui -me recordou Jamie.
        - Hum, isso  certo -admiti- . Mesmo assim, o princpio  vlido.
        - Sim -insistiu Roger- . E se ele existir, o principal suspeito  o tenente Wolff, no? Todo mundo sabe que tentou mais de uma vez casar-se com a Yocasta. 
E ele sim que estava aqui.
        - Mas bbado como uma Cuba -acrescentou Jamie, duvidando- . Ou no. Como j disse, ao Seamus e a seus moos surpreendeu que algum pudesse estar to brio 
a hora to temprana. E se tivesse sido uma patranha? Se fingia estar bbado perdido, ningum lhe emprestaria ateno nem o consideraria suspeito mais tarde; enquanto 
isso, ele podia envenenar uma taa de ponche, entregar-lhe a Betty com instrues de oferec-la ao Duncan, escapulir-se e rondar por a, preparado para correr escada 
acima assim que se soubesse que Duncan se derrubou. Talvez Betty ofereceu a taa, Duncan a rechaou e... Ali estava a mulher, com uma taa cheia de ponche de rum 
na mo. -encolheu-se de ombros- . Quem poderia lhe reprovar que se fora ao pomar para desfrut-la?
        Yocasta e Ulises bufaram simultaneamente, deixando bastante em claro o que pensavam do reprochable dessa ao. depois de um breve pigarro, Roger continuou 
com sua anlise.
        - Bem, de acordo. Mas a dose no matou a Betty, j fora porque o assassino calculou mau ou... - lhe ocorreu outra idia brilhante- . Possivelmente sua inteno 
era deix-lo inconsciente e logo jog-lo no rio. Isso teria sido at melhor. No sabe nadar, verdade? -perguntou, voltando-se para ele.
        Duncan moveu a cabea, como aturdido, e levantou mecanicamente sua nica mo para massagear o coto do brao ausente.
        - Sim. Uma bonita morte no rio teria passado por acidente, sem problemas. -Roger se esfregou as mos, muito agradado- . Mas tudo saiu mau, porque no foi 
Duncan quem bebeu o ponche com a droga, a no ser a criada. E por isso a mataram.
        - por que? -Yocasta parecia to aturdida como seu flamejante marido.
        - Porque ela podia identificar ao homem que lhe tinha dado a taa -interveio Jamie, pensativo e ajeitado em sua cadeira- . E o teria feito assim que algum 
a interrogasse. Isso tem sentido, sim. Certamente, o assassino no podia desfazer-se dela por meios violentos; corria o risco de que o vissem o subir ou descer do 
apartamento de cobertura.
        Roger fez um gesto de aprovao ante seu rpido entendimento.
        - Fica por resolver o problema de como lhe subministrou o cristal modo. Ulises, sabe se a Betty deram algo de comer ou de beber? -perguntei.
        - O doutor Fentiman ordenou que lhe dessem um syllabub -disse Ulises lentamente- e um pouco de porridge, se estava o bastante  acordada para tragar. Eu preparei 
o syllabub e o enviei por meio do Mariah. Quanto ao porridge, o encarreguei  cozinheira, mas no sei se Betty o comeu nem quem pde lev-lo.
        - Hum... - Yocasta fruci os lbios- . Bastaria com um momento, no? Distrai  moa, joga o cristal...
        - Ou possivelmente algum subiu ao apartamento de cobertura com o pretexto de ver como estava e lhe deu algo para beber, com o cristal dentro -sugeri- . 
Um syllabub era o veculo perfeito. Algum pde perfeitamente subir sem que o vissem.
        - Muito bem, inspetor Lestrade -disse Brianna ao Roger, sotto voce- . Mas no h provas, verdade?
        -  certo -disse Yocasta- . No h provas. Recorda que Betty te oferecesse uma taa de ponche, a dhuine?
        Duncan se mascou furiosamente o bigode, concentrando-se, mas logo sacudiu a cabea.
        -  possvel... a bhean. Mas  possvel que no.
        - Pois bem...
        Todo mundo guardou silncio um momento, enquanto Ulises caminhava silenciosamente ao redor da mesa, retirando as coisas. Por fim Jamie lanou um profundo 
suspiro e se incorporou.
        - Bom: hei aqui o que aconteceu ontem  noite. Todos estamos de acordo em que o irlands que entrou em seu quarto, tia, era Stephen Bonnet?
        A Brianna tremeu a mo e sua taa de ch caiu sobre a mesa.
        - Quem? -perguntou com voz rouca- . Stephen Bonnet... aqui?
        - Sim -confirmou Jamie, relutante- . Vi-o.
        - E foi ele quem veio a pelo ouro... ou um deles? -Brianna agarrou uma das taas de oporto para beb-la como se fora gua. Ulises, embora piscando, apressou-se 
a ench-la com o vinho do botelln.
        - Isso parecia. -Roger alargou a mo para um po-doce, evitando cautelosamente os olhos da Brianna.
        - Como pde descobrir o do ouro, tia? -Jamie se respaldou em sua cadeira, com os olhos entrecerrados para concentrar-se.
        Yocasta lanou um bufo e alargou a mo. Ulises, acostumado a suas necessidades, ps nela uma torrada com manteiga.
        - Um deles deveu dizer-lhe a algum: Hector Cameron, meu irmo Dougal ou o terceiro homem. E apostaria a que no foram Hector nem Dougal. Mas h algo que 
posso lhes dizer. O segundo homem que entrou em minha habitao, que emprestava a bebida. Disse que no falou, verdade? Pois parece bastante bvio: era algum que 
eu conheo, cuja voz teria podido reconhecer.
        - O tenente Wolff? -sugeriu Roger.
        Jamie assentiu; entre suas sobrancelhas se formou uma ruga.
        - Que melhor que a Marinha para achar a um pirata quando o necessita?
        - E quem necessita de um pirata? -murmurou Brianna. O oporto lhe havia devolvido a compostura, mas ainda estava plida.
        - Sim -disse Jamie, sem lhe emprestar ateno- . No  pouca empresa, dez mil libras em ouro. requereria-se mais de um homem para carregar com semelhante 
soma. Luis da Frana e Carlos Estuardo sabiam; por isso enviaram a seis indivduos para que carregassem com os trinta mil.
        Se algum se inteirou de sua existncia, no era estranho que tivesse contratado a ajuda do Stephen Bonnet, que no s tinha os meios para transportar o 
ouro, mas tambm tambm contatos para vend-lo.
        - O tenente partiu em um bote durante o jantar -disse lentamente- . Suponhamos que foi guas abaixo para encontrar-se com o Bonnet. Logo voltaram juntos 
e aguardaram a oportunidade para entrar na casa e tentaram aterrorizar a Yocasta, a fim de que lhes dissesse onde estava o ouro.
        Jamie assentiu.
        - Poderia ser. Sim. Faz anos que o tenente faz negcios aqui.  possvel, tia, que visse algo e suspeitasse que esse ouro estava aqui? Disse que Hector tinha 
trs barras; fica algo disso?
        Yocasta apertou os lbios, mas depois de um momento assentiu a contra gosto.
        - teimava em ter uma parte em seu escritrio como pisapapeles. Sim, Wolff pde hav-lo visto, mas como pde saber o que era?
        - Pode que no momento no soubesse -sugeriu Brianna- , mas mais tarde soube o do ouro francs e somou dois mais dois.
        Ante isso houve um murmrio de assentimento. Como teoria funcionava bem; o que eu no via era a maneira de prov-lo, e assim o disse. Jamie se encolheu de 
ombros.
        - No acredito que o importante seja prov-lo, a no ser saber o que pode acontecer agora. -E olhou diretamente ao Duncan- . Retornaro, a cariem -disse 
serenamente- . Sabe, verdade?
        - Sei, sim. -Duncan parecia desventurado, mas decidido, e alargou uma mo para agarrar a da Yocasta; era o primeiro gesto desse tipo que eu o via fazer- 
. Encontraro-nos preparados, MAC Dubh.
        Jamie assentiu lentamente.
        - Devo partir, Duncan. Semeia-a no pode esperar. Mas porei sobre aviso a todos meus conhecidos para que vigiem  tenente Wolff.
        Yocasta guardava silncio, imvel sua mo na do Duncan, mas para ouvir isso ergueu as costas.
        - E o irlands? -perguntou. Com a outra mo se esfregava brandamente o joelho, pressionando-a com o canto da mo.
        Jamie intercambiou um olhar com o Duncan; logo, outra comigo.
        - Retornar -disse, com voz carregada de sombria certeza.
        Eu estava olhando a Brianna quando o disse. Seu rosto permaneceu sereno, mas vi o medo que se movia em seus olhos. Stephen Bonnet (pensei-o com um tombo 
no corao) j tinha retornado.
      
      
      Ao dia seguinte partimos para as montanhas. Quando logo que tnhamos percorrido uns oito quilmetros, ouvi rudo de cascos no caminho, detrs de ns. Era o 
maior MacDonald; o deleite que expressava seu rosto me disse tudo o que precisava saber.
        - Por todos os diabos! -exclamei.
        A nota trazia o selo do Tryon.
        - Esta manh estive no Greenoaks -explicou o major, enquanto Jamie rompia o selo- . Posto que vinha para aqui, ofereci-me para traz-lo.
        J conhecia o contedo da nota. Farquard Cambell devia hav-la aberto.
        Observei a expresso do Jaime enquanto lia; no trocou. Ao terminar de me l-la entregou a nota.
      
      
                                                                                                19 de maro de 1771
                                                               Aos oficiais Comandantes da Tropa
      
      Senhores:
        No dia de ontem determinei, com o consentimento do Conselho de sua majestade, partir com um corpo de regimentos milicianos para os assentamentos dos insurgentes, 
a fim de reduzi-los  obedincia, pois com seus atos e declaraes rebeldes desafiaram ao governo e interrompido o curso da justicia,obstruyendo , desordenando e 
fechando as Cortes da lei. Posto que alguns de seus regimentos podem desempenhar uma parte na honra de emprestar ao pas este importante servio, requeiro-lhes que 
vocs escolham a trinta homens, que se incorporaro ao Corpo de minhas foras nesta empresa.
        No existe inteno de mobilizar estas tropas antes do vigsimo dia do prximo ms, antes do qual lhes informar da data em que devem reunir a seus homens, 
o tempo da marcha e o caminho a seguir.
         recomenda-se como dever cristo, que incumbe a todos os plantadores que permaneam em seus lares, que cuidem e auxiliem s famlias daqueles homens que 
emprestaro este servio, a fim de que nem suas famlias nem suas plantaes se prejudiquem enquanto eles esto aplicados a um servio que concerne ao interesse 
de todos.
        Para os gastos ordenados nesta expedio estenderei garantias impressas  ordem dos portadores, garantia que se tornaro negociveis at que o tesouro possa 
as pagar com os recursos contingentes, em caso de que no haja no tesouro dinheiro suficiente para responder aos servios necessrios desta expedio.
            Seu seguro servidor,
                                                                                                                       William Tryon
      
      
        Saberiam j Hermon Husband e James Hunter, quando abandonaram River Run? Supus que sim. E o major, certamente, ia agora a New Bern para oferecer seus servios 
ao governador.
        - Por todos os diabos -amaldioei com nfase.
        O maior MacDonald piscou, e Jamie me jogou uma olhada.
        - Bom -disse- . Fica quase um ms. Justo o tempo que necessito para semear a cevada.
       
      
      
      

      SEXTA PARTE
      
      
      A guerra da Regulao
      
      56
      
      ...e combater contra eles,
       dizendo que tinham suficientes homens
      para mat-los, podemos mat-los!
      
      Declarao do Waightstill Avery, testemunha
      Carolina do Norte
      Comando do Mecklenburg
      
      Waightstill Avery testemunhou e disse que, nos dia seis de maro, ao redor das nove ou dez da manh, o declarante se encontrava na atual residncia de certo 
Hudgins, quem vive no extremo inferior da Ilha Larga.
      E que o declarante viu trinta ou quarenta dessas pessoas que se autodenominan reguladores, e que foi ento detido e feito prisioneiro por um deles (quem 
disse chamar-se John Mc Quiston) no nome de todos eles. E que pouco depois um tal James Graham (ou Grimes) falou com declarante com estas palavras: Voc  agora 
prisioneiro e no deve ir a lugar algum sem algum que o vigie, ao qual acrescentou imediatamente que Enquanto no se alm de seu vigilante no sofrer dano algum.
      Este declarante foi logo conduzido, sob a custdia de dois homens, at o acampamento regular (conforme o denominaram) distante uma milha, aonde horas depois 
acudiram muitas mais pessoas da mesma denominao e outras, cuja totalidade este declarante supe e calcula em duzentos e trinta indivduos.
      Que por eles mesmos o declarante conheceu os nomes de cinco de seus capites ou lderes, por ento pressente, ou seja: Thomas Hamilton e outro do mesmo sobrenome, 
James Hunter, Joshua  Teague, certo Gillespie e o mencionaod James Grimes (ou Graham). Que o declarante ouviu muitos daqueles cujos nomes desconhece pronunciar-se 
em trminos oprobiosos contra o governador, os juizes da Corte Superior, contra a Casa de Assemblia e outro altos funcionrios. Enquanto a multido circundante 
pronunciava palavras ainda mais oprobiosas, o mencionado Thomas Hamilton se ergueu no centro e pronunciou frases do seguinte tenor, enquanto a multido assentia 
e afirmava a verdade do dito:
      Que direito tem Maurice Moore a ser juiz, ele no  juiz, no foi renomado pelo rei, como tampouco Henderson, nenhum deles tem corte. A Assemblia tem feito 
uma lei de desmandos, e a gente est mais enfurecida que nunca, foi o melhor que se pde fazer pelo pas, pois agora nos veremos obrigados a matar a todos os escrives 
e advogados, e os mataremos e que me leve o diabo se no os executa. Se no tivessem feito essa lei poderamos ter deixado a alguns com vida. Uma lei de desmandos! 
Nunca houve semelhante lei na Inglaterra nem em pas algum salvo a Frana, trouxeram-na da Frana e traro tambm a Inquisio.
      Muitos deles diziam que o governador era amigo dos advogados e que a Assemblia tinha arruinado aos reguladores a fazer leis por dinheiro. Encerraram ao Husband 
no crcere, para que no pudesse ver seus pcaros procedimentos, e logo o governador e a Assemblia fizeram as leis que os advogados queriam. O governador  amigo 
dos advogados, os advogados o dirigem tudo, nomeiam a juizes de paz dbeis e ignorantes para seu prprio benefcio.
      No deveria ter advogados na provncia, diziam entre maldies. Fanning foi proscrito em vinte e dois de maro e qualquer regular que o visse a partir de ento 
devia mat-lo antes de retornar, se o encontravam no Salisbury. Alguns desejavam encontrar ao juiz Moore do Salisbury, para aoit-lo, e outros, para mat-lo. Certo 
Robert Thomson disse que Maurice Moore era perjuro e lhe aplicou nomes aprobiosos, como bandido, vadio, vilo, canalha, etctera, e os outros assentiam.
      Quando chegou a notcias de que o capito Rutherford,  cabea de sua companhia, desfilava pelas ruas do Salisbury, este declarante ouviu que vrios deles 
insistiam pertinazmente para que todo o corpo de reguladores ali presente partisse ao Salisbury com suas armas e combater contra eles, dizendo que tinham homens 
suficientes para mat-los, Podemos mat-los, j ensinaremos a no opor-se a ns.
      Disposta juramento e assina o antecedente, o oitavo dia de maro de 1771, ante mim que dou f.
                                              (Assinado) Waightstill Avery
                                                      (Testemunha) William Harris, Juiz de Paz
      
                      Do William Tryon ao general Thomas Gage, Carolina do Norte
                                                              New Bern, 19 de maro de 1771
      
      Senhor:
              No dia de ontem, o Conselho de sua majestade desta provncia decidiu recrutar um corpo de foras entre os regimentos e companhias de milicianos, a 
fim de partir para os assentamentos de insurgentes, quem por seus atos e declaraes de rebeldia desafiaram a este governo.
              Posto que neste pas temos poucas mquinas e implementos militares, devo requerer sua ajuda para me procurar os artigos (caon, projteis, estandartes, 
tambores, etctera) enumerados abaixo.
              Minha inteno  iniciar a marcha nesta cidade, ao redor do dia vinte do ms prximo, e reunir  tropa enquanto parta atravs dos condados, Descida 
recrutar a mil e quinhentos homens, embora pelo esprito que agora se manifesta a favor do governo, esse nmero poderia incrementar-se notavelmente.
               Fico a suas ordens, com grande respeito e estima.
              Seu seguro servidor.
                                                              William Tryon
      

      57
      E agora me deito a dormir...
      
      Colina do Fraser
      15 de abril de 1771
      
      Roger, tendido na cama, escutava o zumbido de um mosquito que tinha conseguido passar entre o couro que cobria a janela da cabana. O bero do Jem estava coberta 
por um tul de gaze, mas ele e Brianna careciam desse amparo. O mosquito parecia circular por cima da cama; ocasionalmente descendia em picado para provoc-lo com 
diminutas canes junto a seu ouvido, antes de remontar-se outra vez na escurido.
      Tinha passado todo o dia ajudando a preparar a Colina para a partida dos homens; cada vez que fechava os olhos, detrs de suas plpebras passavam imagens fragmentadas 
da tarefa.
      Corria abril, com bastante calor, e o pomar do Claire estava transbordante de brotos. Quem faz um jardim trabalho com Deus. Essas palavras estavam escritas 
em um velho relgio de sol, na casa solariega do Inverness onde tinha crescido. Irnico, se se tinha em conta que o reverendo no tinha tempo nem talento para a 
jardinagem; aquilo era uma selva de grama sem cortar e vetustos roseiras asilvestrados. Mentalmente deu as boa noite  sombra do reverendo.
      boa noite, papai. Que Deus te benza.
      Muito tempo atrs tinha perdido o hbito de dar assim as boa noite a uma breve lista de parentes e amigos, ressaca de uma infncia em que as oraes noturnas 
terminavam com a habitual contagem: Deus benza a abuelita, ao av Guy que est no Cu, e a meu grande amigo Peter; e ao Lillian, a cadela, e ao gato do lojista...
      Llevava anos sem faz-lo, mas a lembrana da paz que lhe brindava esse pequeno rito o induziu a redigir uma lista nova. Parecia melhor que contar ovelhas. 
E mais que dormir desejava aquela paz que recordava.
      boa noite, pequen -pensou, girando a cabea para o bero- Deus te benza. E a Brianna. 
      Girou a cabea para outro lado e abriu os olhos para ver o ovalide escuro de sua cara dormida no travesseiro. Tratando de no fazer rudo, tendeu-se sobre 
o flanco para observ-la. A habitao estava to escura que s podia ver as tnues marca dos lbios e as sobrancelhas.
      Com o suave calor de sua respirao na cara, perguntou-se o que estaria sonhando Brianna nesses momentos.
      Ela e o menino tambm partiriam pela manh; a bagagem de ambos estava preparado, junto a seu prprio hatillo, junto  porta. O senhor Wemyss os levaria de 
carro ao Hillsborough estava em pleno centro do territrio dos reguladores, e ele tinha dvidas quanto a essa viagem. Mas Brianna tinha desdenhado a idia de que 
ela ou Jem pudessem estar em perigo. Provavelmente estava no certo; entretanto, ele tinha a suspeita de que, at com perigo, teria atuado igual.
      Ela cantarolava para seus adentros; Loch Lomond, nada menos. OH!, v pelo caminho alto, que eu irei pelo baixo, e chegarei ao Loch Lomond antes que voc...
      -Ouviste-me? -perguntou-lhe Roger, sujeitando-a por um brao, enquanto ela dobrava o ltimo vestido do Jemmy.
      -Se querdo -murmurou Bree, pestanejando com zombadora submisso. Isso o irritou ao ponto de agarr-la pela boneca para olhar a de frente.
      -Falo a srio -disse. Olhou-a aos olhos e lhe apertou a boneca com mais fora. de repente imaginou seus ossos sob a pele: mas do rosto largos e altos, crnio 
curvo e largos dentes brancos; era muito fcil imaginar esses dentes expostos at a raiz em um rictus sseo permanente.
      Ento a tinha estreitado contra si com sbita violncia, para beij-la com tanta fora que sentiu seus dentes contra os prprios, sem lhe importar que algum 
dos dois pudesse sair machucado.
      Bree levava posta a regata; ele no se incomodou em tirar-lhe simplesmente a arrojou de costas na cama e recolheu o objeto por cima de suas coxas. Ela elevou 
as mos, mas Roger no se deixou tocar; comeou por lhe imobilizar os braos, logo a afundou no colcho com o peso de seu corpo para procurar consolo na magra capa 
de carne que separava seus ossos dos prprios.
      Fizeram-no em silncio, conscientes pela metade de que o menino dormia a pouca distncia. No obstante, em algum momento o corpo da Brianna tinha respondido, 
de uma maneira profunda e surpreendente, que ia alm das palavras.
      -Digo-o a srio -tinha repetido momentos depois, em voz baixa, falando com o matagal de cabelos vermelhos.
      -Sei -disse ela-. Eu tambm o digo a srio.
      -Era isso o que queria? -Sussurrou-o muito fico para no despert-la. O calor de seu corpo atravessava as mantas; estava profundamente dormida.
      Se isso era o que desejava, o que era, exatamente? Tinha respondido  brutalidade de sua posse? Ou acaso tinha respondido  fora do que se escondia detrs, 
a sua necessidade de mant-la a salvo?
      E se era a brutalidade... Apertou um punho ao pensar no Stephen Bonnet. Nunca lhe tinha contado o acontecido entre ela e Bonnet. Perguntar o era inconcebvel, 
e mais ainda suspeitar que algo nesse encontro pudesse hav-la excitado. No obstante, ela se excitava visivelmente nas estranhas ocasies em que lago o impulsionava 
a possui-la abruptamente.
      Estava muito tenso outra vez. O mosquito passou zumbindo e lhe atirou um tapa... muito tarde. Incapaz de estar-se quieto, levantou-se silenciosamente para 
fazer uma rpida srie de flexes, a fim de relaxar os msculos.
      Por fim se levantou, com os msculos trmulos de passageiro esgotamento, e se aproximou da janela para  desencravar o couro. Assim, nu, deixou que o ar mido 
da noite corresse sobre ele.
      Em  um lateral da casa grande, no lado oposto do claro, brilhava uma luz mais potente. Um abajur; duas silhuetas caminhavam juntas; uma, alta; a outra, mais 
mida. O homem disse algo em um rumor interrogativo; reconheceu a voz do Jaime, mas no chegou a distinguir as palavras.
      -No -respondeu a do Claire, mais ligeira e clara ao aproximar-se- Suja que estou depois de plantar? vou lavar me antes de entrar. Voc v deitar te.
      A silhueta maior vacilou por um momento; logo lhe entregou o abajur. Roger viu a cara do Claire um momento, sorridente e volta para cima. Jaime se inclinou 
para beij-la e logo retrocedeu.
      -Date pressa, pois -disse. Roger percebeu o correspondente sorriso em sua voz- .No durmo bem se no tiver a meu lado, Sassenach.
      -Pensa dormir em seguida? -Ela fez uma pausa, com um sotaque de brincadeira provocadora na voz.
      -No, em seguida no. -A figura do Jaime se fundiu nas sombras, mas a brisa levou sua voz para a cabana- .Mas tampouco posso fazer nada se no tiver a meu 
lado, no?
      Claire riu brandamente.
      -Comea sem mim -disse, girando para o poo -. J te alcanarei.
      Roger aguardou junto  janela at v-la retornar, balanando o abajur ao caminhar depressa. Ela entrou.
      Roger olhou para o bosque; sua pele j estava fresca e o cabelo do peito lhe arrepiou. Ao esfreg-lo, distrado, tocou o stio dolorido da dentada. Era uma 
marca escura  luz da lua; seguiria ali quando chegasse a manh?
      Depois, voltou para a cama. Ao passar junto ao bero se deteve para aproximar uma mo, procurando a respirao do beb atravs do tul, morna e tranqilizadora 
contra sua pele.
      Jem se tinha destampado; Roger levantou o tul para agasalh-lo a provas e lhe rodeou as mantas com firmeza. Havia algo brando... sim, o boneco de trapo; o 
beb o tinha apertado contra o peito. Roger lhe ps a mo nas costas durante um instante, para sentir o sedativo ir e vir de sua respirao.
      -boa noite, pequen -sussurrou por fim, tocando o pequeno e brando traseiro -. Deus te benza e te proteja.
      58
      feliz aniversrio
      
      1 de maio de 1771
      Acampamento do Mai Union
      
      Despertei ao amanhecer. Tnhamos chegado ao acampamento a noite anterior, depois de uma viagem montanha abaixo e atravs do vale, at chegar ao stio de reunio: 
a plantao do coronel Bryan. Fizemo-lo a tempo; Tryon ainda no tinha chegado com suas tropas desde New Bern, nem tampouco os destacamentos do Craven e Carteret, 
que trariam consigo as peas de artilharia e os canhes giratrios. esperava-se que Tryon e suas tropas chegassem esse dia.
      A senhora Bryan me tinha proposto que me alojasse em sua casa, junto com outras algemas que tinham acompanhado aos oficiais, mas Jaime insistia em dormir no 
campo, com seus homens, e eu preferi dormir com ele.
      Olhei de soslaio, cuidando de no me mover se por acaso ainda dormia. No era assim, mas estava muito quieto, completamente depravado. S tinha levantado a 
mo direita e parecia examin-la com ateno: era uma mo calejada e maltratada pelo trabalho. A pele estava muito bronzeada e curtida, e coberta de cabelo dourado. 
Eu lhe encontrava uma beleza notvel.
      -feliz aniversrio -disse em voz baixa- Est fazendo inventrio?
      -Sim, algo assim. Mas suponho que me faltam algumas horas. Nasci s seis e meia. S na hora do jantar terei vivido meio sculo inteiro.
      -OH!, no acredito que me v desprender nada -respondeu, pensativo-. Quanto ao funcionamento... pois bem...
      -Tudo parece estar em perfeita ordem -lhe assegurei.
      -Bem -disse ele- Como soube o que estava fazendo... inventrio?
      -Eu o fao sempre, em todos meus aniversrios... Mas bem  um olhar para trs, para refletir sobre o ano que acaba de passar. Suponho que todos o fazemos, 
s para ver se formos a mesma pessoa que no dia anterior.
      -Eu estou razoavelmente seguro de me s-lo assegurou-. No vejo mudanas notveis. E voc?
      Levantei a cabea para observ-lo cuidadosamente. Em realidade, era bastante difcil avali-lo com objetividade; estava de uma vez to habituada a suas faces 
e to afeioada com elas que tendia a reparar nos detalhes queridos. Tambm respondia ao menor mudana em sua expresso. Mas na verdade no o examinava como a um 
tudo integrado.
      -No -disse ao fim, apoiando de novo o queixo com um suspiro satisfeito-. Segue sendo voc.
      Grunhiu com ar divertido, mas no se moveu. Um dos cozinheiros passou a pouca distncia, a tombos e amaldioando ao tropear com algo. O acampamento ainda 
se estava organizando; algumas das companhias eram pulcras e organizadas. Muitas outras no; havia lojas torcidas e peas de equipe pulverizadas pela pradaria, em 
uma mixrdia quase militar.
      -Crie que o governador possa fazer algo com estas tropas? -perguntei, dbia.
      -OH!, sim. Tryon  militar e sabe o que deve fazer... pelo menos para comear. No  muito difcil fazer que os homens partam em fila e escavem letrinas, sabe? 
Fazer que combatam  outra coisa.
      -E poder faz-lo?
      -Pode que sim, pode que no. A questo : ser necessrio?
      Essa era a questo, sim. Os reguladores tinham  dez mil homens, que partiam em bloco para New Bern. O general Gage se embarcou em Nova Iorque com um regimento 
de oficiais para submeter  colnia. A tropa do condado do Orange, elevada em rebelio, tinha matado a seus oficiais. Entre os homens do condado do Wake, a metade 
tinha desertado. Hermon Husband, prisioneiro a bordo de um navio, ia rumo a Londres para responder s acusaes de traio. Hillsborough estava em poder dos reguladores, 
que se preparavam para incendiar a cidade e passar ao Edmund Fanning e a todos seus associados pelas armas.
      - Alguma vez pensa...? -comeou Jaime, mas no acabou.
      - Se pensar no que?
      - Bom, me ocorreu que j vivi mais tempo que meu pai. E isso  algo que no esperava.  que... bom, resulta-me estranho. Perguntava-me se voc tambm pensava 
nisso.
      - Sim. Estava acostumado a faz-lo quando era mais jovem.
      - Eu imaginava como seria ter trinta anos, quarenta, mas agora o que?
      - Inventa-te. Olha a outras pessoas. Prova-te outras vidas para ver como lhe sintam. Agarra o que pode usar e buscas dentro de ti mesmo o que no pode achar 
em outra parte. E sempre te pergunta se o est fazendo bem.
      - Sim, isso  -repetiu muito baixo.
      O acampamento comeava a entrar em atividade, entre rudos metlicos, golpes secos e o rouco som de vozes dormitadas.
      - Esta  uma manh que meu pai nunca viu -disse Jaime, em voz baixa-. O mundo e cada dia vivido nele  um presente, mo chridhe, sem que importe o que traga 
o manh.
      59
      Mquinas militares
      
      
      Jornal da expedio contra os insurgentes
      Escrito pelo William Tryor, governador
      
      Quinta-feira, 2 de maio
      Os destacamentos do Craven e Carteret partiram de New Bern com os dois canhes de campanha, seis canhes giratrios montados sobre cureas, dezesseis carretas 
e quatro carros, todos carregados de bagagem, munies e as provises necessrias para os diversos destacamentos que se incorporariam a eles no trajeto ao domiclio 
do coronel Bryan em 1 de maio. Hoje se uniram as tropas dos dois distritos.
      
      Sexta-feira, 3 de maio, Union Camp
      s 12 em ponto, o governador passou revista aos destacamentos na pradaria do Smiths Ferry, sobre a borda ocidental do rio Neuse.
      
      Sbado, 4 de maio
      A totalidade partiu at o Johnston Court House. Nove milhas.
      
      Domingo, 5 de maio
      Parte at a casa do maior Theophilus Hunter, no condado do Wake. Treze milhas.
      
      Segunda-feira, 6 de maio
      O exrcito se deteve e o governador passou revista ao regimento do Wake em uma reunio geral. O senhor Hinton, coronel do regimento, informou ao governador 
que s tinha vinte e dois homens na companhia que lhe tinha ordenado recrutar, devido ao descontentamento imperante entre os habitantes do condado.
      O governador observou um descontente general no regimento do Wake ao passar frente  primeira fila do batalho, vendo que no mais de um homem de cada cinco 
tinham armas, e posto que, ante sua convocatria a oferecer-se como voluntrios para o servio, negavam-se a obedecer, ordenou que o exrcito rodeasse ao batalho; 
efetuado isto, ordenou que trs de seus coronis recrutassem a quarenta dos homens mais arrumados e ativos, manobra que causou no pouco pnico no regimento, que 
 maturao consistia em quatrocentos homens.
      Durante o recrutamento, os oficiais do exrcito atuaram para persuadir aos homens de que se arrolassem; em menos de duas horas elevaram a companhia do Wake 
a cinqenta homens. Ao chegar a noite o regimento do Wake foi despedido, muito envergonhado tanto de sua desgraa como de sua prpria conduta, que o tinha ocasionado. 
O exrcito retornou ao acampamento.
      
      Quarta-feira, 8 de maio
      O destacamento do coronel Hinton foi deixado atrs, com vistas a impedir que os descontentamentos desse condado formem um corpo que se uma aos reguladores 
dos condados adjacentes.
      Essa manh um destacamento partiu  moradia do Turner Tomlinson, notrio regulador, e o trouxe prisioneiro ao acampamento, onde foi celosamente encerrado, 
Confessou ser regulador, mas no fez revelaes. 
      O exrcito partiu e acampou perto do Booth, em New Hope Creek.
      
      Sexta-feira, 10 de maio
      Fizemos alto e ordenamos que as carretas fossem reabastecidas, os cavalos ferrados e reparado tudo o que fizesse falta. passou-se revista no Hillsborough a 
dois compaias da tropa do Orange.
      Esta tarde se fugiu o prisioneiro Tomlinson. Os destacamentos enviados atrs dele no tiveram xito.
      
      Domingo, 12 de maio
      Partimos e vadeamos o rio Haw para acampar na ribeira oeste. esperava-se que os reguladores se opor ao passo dos realistas por esse rio, tal como era sua inteno, 
mas ao no suspeitar que o exrcito sairia do Hillsborough antes da segunda-feira, este sbito movimento do exrcito os derrotou nessa parte  de seu plano.
      Hoje recebemos informe que o general Waddell foi obrigado pelos reguladores a cruzar novamente o rio Yadkin com as tropas a seu mando.
      Ofcio Divino, com Sermo, celebrado pelo reverendo senhor McCartny, Texto: Se no ter espada, vende seu objeto e compra uma.
      No dia de hoje vinte cavalheiros voluntrios se incorporaram ao exercito, principalmente nos condados do Granville e Bute. conformou-se com eles uma tropa 
de cavalaria ligeira, ao mando do maior MacDonald. Partida-las dos flancos capturaram a um regulador, tendido em emboscada com sua arma. O delegado retirou de sua 
casa parte de um tonel de rum, posto ali para uso dos reguladores. Tambm alguns porcos que deviam ser atribudos a sua famlia.
      
      Segunda-feira, 13 de maio
      Parte at OuNeal. s doze em ponto chegou um cavaleiro enviado pelo general Waddell com uma mensagem verbal, pois no se atreveu a trazer uma carta por medo 
a ser interceptado. A mensagem informava que, na quinta-feira 9 de noite, os reguladores rodearam seu acampamento em um nmeros de dois mil e, da maneira mais atrevida 
e insolente, requereram que o general se retirasse com suas tropas ao outro lado do rio Yadkin, que estava a duas milhas de distncia. Ele recusou obedecer, informando 
que o governador lhe tinha dado ordens de avanar. Ante isso aumentou a insolncia dos reguladores, que tentaram intimidar a seus homens com muitos gritos ndios.
      O general, vendo que seus homens no passavam de trezentos, que no estavam dispostos a combater, e que muitos de seus sentinelas se passavam aos reguladores, 
viu-se obrigado a cumprir com o pedido; pela manh cedo voltou a cruzar o rio Yadkin, com seu canho e sua bagagem. Os reguladores acordaram dispersar-se e retornar 
a seus domiclios.
      Imediatamente se celebrou um conselho de guerra para deliberar sobre a informao gasta pelo cavaleiro: compunham-no o Honorvel John Rutherford, Lewis DeRosset, 
Robert Palmer e Sam Cornell, do Conselho de sua majestade, e os coronis e oficiais de campo do exrcito. Ali resolveu que o exrcito devia trocar seu rumo, partir 
da moradia do capito Holt pela rota que conduz do Hillsborough ao Salisbury, cruzar os rios Alamance, o pequeno e o grande, com toda a prontido possvel, e partir 
sem perda de tempo a reunir-se com o general Waddell. Por ende o exrcito ficou em marcha e, antes de obscurecer, acampou na borda esquerda do pequeno Alamance. 
ordenou-se que um forte destacamento se adiantasse para apoderar-se dos ribazos ocidentais do Grande Alamance, a fim de impedir que partidas inimizades ocupassem 
esse importante posto.
      Este entardecer recebemos informao de que os reguladores enviavam exploradores a todos seus assentamentos para congregar-se na Sandy Creek, perto do domiclio 
do Hunter.
      Partimos e nos unimos ao destacamento em ribeira oeste do Grande Alamance, onde foi escolhido um bom stio para acampar. Ali o exrcito fez alto at que pudessem 
se traz mais provises desde o Hillsborough, para cujo fim se esvaziaram vrias carretas que foram enviadas do acampamento para sHillsborough.
      Tendo chegado este entardecer a informao de que os rebeldes pensam atacar o acampamento durante a noite, fizeram-se os necessrios preparativos para um combate. 
ordenou-se a um tero do exrcito permanecer sob as armas toda a noite; ao resto, deitar-se com elas  mo. No se deu aviso de alarme.
      
      Tera-feira, 14 de maio
      Fizemos alto e se ordenou aos  homens no sair do acampamento.
      O exrcito esteve em armas toda a noite, como ontem. No houve alarme.
      
      Quarta-feira, 15 de maio
      ao redor das seis da tarde, o governador recebeu uma carta dos insurgentes, que apresentou ao conselho de guerra, onde se determinou que o exrcito devia encontrar-se 
com os rebeldes a primeira hora  da manh seguinte que o governador lhes enviaria uma carta lhes oferecendo as condies e, em caso de negativa, atacaria-se.
      Os homens passaram a noite em armas. No se deu o alarme, embora os rebeldes se encontram a cinco milhas do acampamento.
      
      Do Livro do Sonhos:
      Hillsborough, 15 de maio
      Ontem  noite dormi cedo e despertei antes do amanhecer, dentro de uma nuvem cinza. Durante todo o dia me hei sentido como se caminhasse dentro da bruma; 
falam-me e no ouo; vejo que as bocas se movem e assento, sorrio e logo vou. O ar est quente e muito  mido; tudo cheira a metal quente. Di-me a cabea e a cozinheira 
est fazendo muito rudo com as caarolas.
      Hei pasadotodo o dia tratando de recordar o que sonhei, mas no posso. S cinza e uma sensao de medo. Nunca estive perto de uma batalha, mas tenho a sensao 
de que o que sonho  fumaa de canhes.
      

      60
      Conselho de guerra
      
      Jaime retornou do conselho de guerra bem passada a hora do almoo e informou brevemente aos homens quais eram as intenes do Tryon. A reao geral foi de 
aprovao, que no de franco entusiasmo.
      -Melhor nos mover agora -disse Ewald Mueller- . Se esperarmos mais, criamos musgo.
      Essa opinio foi recebida com risadas e gestos de assentimento. O humor da companhia se animou notavelmente ante a perspectiva de entrar em ao pela manh.
      Jaime fez um rpido percurso de inspeo, respondendo perguntas e acalmando inquietaes; logo veio a reunir-se comigo ante nossa pequena fogueira. Observei-os 
com ateno; face s tenses da situao imediata, havia nele um ar de satisfao contida que despertou imediatamente minhas suspeitas.
      - O que tem feito? -perguntei-lhe, enquanto entregava uma grande parte de po e uma tigela de guisado.
      -retive ao Cornell por um bom momento depois do conselho, para lhe perguntar pelo Stephen Bonnet. -Arrancou uma parte de po com os dentes e o tragou sem logo 
que mastig-lo- Cristo, estou faminto! No comi nada em todo o dia; passei-o me arrastando entre os espinheiros, como as serpentes.
      - No acredito que Samuel Cornell estivesse arrastando-se entre os espinheiros.
      - No, isso foi depois. Estivemos procurando as linhas dos rebeldes -explicou- . No esto muito longe, sabe? Embora falar de linhas  lhes conceder o benefcio 
de uma considervel duvida. No tinha visto chusma como essa desde aquela vez na Frana, quando tomamos uma aldeia onde se alojavam uma banda de contrabandistas 
de vinho. A metade deles estavam com prostitutas, e todos bbados; para prend-los foi preciso levant-los do cho. Estes no so muito melhores, por isso pude ver, 
embora no h tantas rameiras -acrescentou para ser justo.
      - averiguaste algo sobre o Bonnet?
      Ele assentiu.
      - Cornell no o conhece pessoalmente, mas ouviu comentrios. Parece que o tio trabalha ao redor dos Bancos Exteriores por um tempo e logo desaparece durante 
trs ou quatro meses. Reaparece um dia qualquer, nos botequins do Edenton ou Roanoke, com os bolsos repletos de ouro.
      - Isso significa que traz mercadorias da Europa e as vende. -Trs ou quatro meses era o tempo que demorava um navio em chegar a Inglaterra e retornar- Contrabando?
      Jaime assentiu com a cabea.
      -  o que Cornell pensa. E a que no sabe onde desembarca a mercadoria? No mole do Wylie. Ao menos assim se rumorea.
      - O que? Quer dizer que Phillip Wylie est associado com ele? -Foi uma inquietante surpresa escutar isso. Mas Jaime moveu a cabea.
      - No poderia assegur-lo. Mas o mole est junto  plantao do Phillip Wylie, sem dvida alguma. E esse afemine estava com o Bonnet a noite em que veio ao 
River Run, embora depois o tenha negado -acrescentou. Logo agitou uma mo, descartando momentaneamente ao Phillip Wylie- .Mas Cornell diz que Bonnet tornou a desaparecer; 
este ltimo ms no o viu, de modo que minha tia e Duncan parecem estar a salvo, no momento. Uma preocupao menos para mim... e me alegro; j tenho suficientes. 
-Disse-o sem ironia, percorrendo com o olhar o acampamento que nos rodeava- .Hermon Husband est aqui -acrescentou.
      Apartei a vista da tigela que estava enchendo de guisado.
      - falaste com ele?
      -No pude me aproximar. Est com os reguladores, recorda? Vi-o de longe; eu estava em uma pequena colina, olhando atravs do arroio. Estava rodeada de uma 
grande massa de homens, mas sua vestimenta  inconfundvel.
      - O que far? -Entreguei-lhe a tigela enche- . No acredito que combata... nem que lhes permita combater.
      Inclinava-me por considerar que a presena do Husband era um sinal de esperana. Ele era o mais parecido a um lder que havia entre os reguladores; estava 
segura de que o escutariam.
      Jaime, em troca, parecia preocupado.
      - No sei, Sassenach. No acredito que empunhe pessoalmente as armas, no, mas quanto a outros...
      Deixou a frase sem terminar enquanto refletia. Logo sua cara expressou uma repentina deciso. Devolveu-me a tigela e, girando sobre seus tales, cruzou o acampamento. 
Vi-o tocar ao Roger no ombro e lev-lo  parte.         Ambos conversaram alguns momentos; logo Jaime extraiu de sua jaqueta algo branco e o entregou. Roger o olhou 
um momento. Logo fez um gesto afirmativo e o escondeu sob sua prpria jaqueta.
      Jaime o deixou com uma palmada no ombro e voltou a cruzar o acampamento, embora se deteve trocar um par de comentrios risonhos e grosseiros com os irmos 
Lindsay. Retornou aliviado e sorridente.
      - indiquei ao Roger MAC que v em busca do Husband a primeira hora da manh -explicou, atacando a tigela de guisado com renovado apetite- .Pedi-lhe que o traga, 
se puder, para que fale com o Tryon cara a cara. Se ele no consegue convencer  ao Tryon (e no acredito que possa), talvez este possa convenc-lo a ele de que a 
coisa vai a srio. Se Hermon vir que haver derramamento de sangue, talvez possa convencer a seus homens de que deponham as armas.
      - De verdade o crie?
      - No sei -disse simplesmente- .Mas nada se perde provando, no  certo?
      Fiz um gesto afirmativo e me inclinei para jogar mais troncos no fogo. Essa noite ningum se deitaria cedo.
      
      
      61
      
      Ultimato
      
      
                                                                      Acampamento do Grande Alamance
                                                                                           16 de maio de 1771
      
           s gente agora elevadas em armas,
          Que se autodenominan reguladores:
                Em resposta a sua petio, devo lhes informar de que sempre estive atento aos verdadeiros interesses deste pas e ao de todos os indivduos que nele 
residem.  Lamento a fatal necessidade a que agora me obrigaram, ao retirar-se da  misericrdia da Coroa e das leis, de lhes requerer que deponham as armas, entreguem 
aos cabeas proscritos e se submetam s leis de seu pas, e logo confiem na indulgncia e a compaixo do governo. Ao aceitar estes trminos no curso de uma hora 
a partir da entrega deste despacho, evitaro um derramamento de sangue, pois neste momento se encontram vocs em estado de guerra e rebelio contra seu rei, seu 
pas e suas leis.
                                                                                                                         W. Tryon
      
      
      
      Quando despertei, Jamie se tinha ido; sua manta estava dobrada a meu lado e Gideon no estava sob o carvalho ao que Jamie o tinha pacote a noite anterior.
        - O coronel foi a reunir-se com o conselho de guerra do governador -me disse Kenny Lindsay, com um enorme bocejo- . Ch ou caf, senhora?
        - Ch, por favor.
        Talvez era o curso dos acontecimentos atuais os que me faziam pensar na festa do Ch de Boston. No recordava quando devia ter lugar essa revolta e os fatos 
subseqentes, mas tinha a escura sensao de que convinha aproveitar qualquer oportunidade de tomar ch enquanto ainda pudesse consegui-lo, com a esperana de saturar 
minhas malhas.
        Reposta com o ch, agarrei um par de cntaros e me encaminhei para o arroio. Esperava que no fizesse falta, mas no estaria de mais ter gua fervida  mo, 
no caso de.
        Quando voltei para acampamento o encontrei j acordado e com todos os homens em estado de alerta, embora com os olhos avermelhados. Entretanto no parecia 
haver preparativos para uma batalha imediata; s a volta do Jamie despertou um movimento de interesse geral. Gideon serpenteou entre as fogueiras com surpreendente 
delicadeza.
        - Como esto as coisas, MAC Dubh? -perguntou Kenny, levantando-se para saud-lo- . Alguma novidade?
        Ele negou com a cabea. Vestia com esmero prximo  severidade: o cabelo recolhido para trs, adaga e pistolas  cintura, espada ao flanco. Preparado para 
a batalha; ao me pens-lo correu um calafrio pela coluna.
        - O governador enviou sua carta aos reguladores. Quatro delegados levaram uma cpia cada um. Devem l-la a cada grupo com que se cruzem.  preciso esperar 
e ver o que acontece.
        Segui seu olhar por volta da terceira fogueira. Roger devia ter partido com a primeira luz, antes de que o acampamento despertasse.
        Depois de esvaziar os cubos no hervidor, recolhi-os para fazer outra viagem ao arroio, mas Gideon  ergueu as orelhas e levantou sbitamente o testuz, com 
um forte relincho. Imediatamente Jamie o talone para p-lo diante de mim e baixou a mo  espada. O enorme peito e a cruz do cavalo me bloqueavam a vista, me impedindo 
de ver quem vinha, mas notei que a mo do Jamie se relaxava no punho da espada. Devia ser um amigo.
        Para ouvir a saudao de uma voz familiar, olhei por debaixo dos beiudos do Gideon: o governador Tryon vinha cruzando a pequena pradaria, acompanhado por 
dois ajudantes de campo. depois de deter seu cavalo, saudou o Jamie tocando o chapu.  lombriga  sombra do Gideon, o tirou em um gesto de cortesia, inclinando-se 
na cadeira.
        - A suas ordens, senhora Fraser. -Jogou uma olhada aos cubos que eu carregava e se voltou por volta de um dos ajudantes- . Senhor Vickers, voc tenha a amabilidade 
de ajudar  senhora Fraser.
        Muito agradecida, entreguei os cubos ao senhor Vickers, mas em vez de ir com ele me limitei a lhe indicar aonde devia lev-los. Tryon me olhou com uma sobrancelha 
arqueada, mas eu respondi com um suave sorriso e me mantive em meus treze. No me moveria dali.
        Teve a inteligncia de entend-lo e, em vez de pr objees a minha presena, me soslay.
        - Suas tropas esto em ordem, coronel Fraser?
        - Sim, senhor.
        O governador arqueou as duas sobrancelhas, com visvel cepticismo.
        - Convoque-os, senhor. Quero inspecionar sua preparao.
        Jamie fez uma pausa para agarrar as rdeas. Logo avaliou a arreios do Tryon, entreabrindo os olhos contra o sol nascente.
        - Bom cavalo o seu, senhor.  tranqilo?
        -  obvio. -O governador franziu o sobrecenho- . por que?
        Jamie jogou a cabea para trs para emitir um te ululem grito das montanhas escocesas, daqueles que devem ouvir-se grande distancia. O cavalo do Tryon atirou 
das rdeas e ps os olhos em branco. Da maleza brotaram milicianos chiando como demnios; uma negra nuvem de corvos estalou nas rvores, elevando bulliciosamente 
o vo, como se fossem a baforada de fumaa de um canho. O cavalo se elevou de mos, desmontando ao Tryon, que ficou atirado na erva, e fugiu atravs da pradaria.
        Dava vrios passos para trs para me pr fora do passo.
        O governador se incorporou, purpreo e ofegante, s para descobrir que era o centro de um arco de sorridentes milicianos que lhe apontavam com suas armas. 
Ele cravou um olhar flamgera no canho do rifle que tinha ante a cara e o apartou com uma mo, fazendo rudos de esquilo zangado. Jamie pigarreou de uma maneira 
muito significativa, com o que os homens se esfumaram silenciosamente pelo bosquecillo.
        O senhor Vickers reapareceu saindo do bosque, com cara de sobressalto e um cubo de gua em cada mo.
        - O que aconteceu? -ia aproximar se do Tyron, mas eu o detive com uma mo. Era melhor dar ao governador um momento para recuperar tanto seu flego como sua 
dignidade.
        - Nada importante -disse, recuperando meus cntaros antes de que pudesse derrub-los- . N... sabe quantos milicianos congregou aqui?
        - Mil e sessenta e oito, senhora -disse, completamente sentido saudades- . Sem contar as tropas do general Waddell,  obvio. Mas o que?
        - E tm canhes?
        - OH!, sim vrios, senhora. Temos dois destacamentos com artilharia. Dois de seis, dez canhes giratrios e dois morteiros de oito libras.
        - Ao outro lado do arroio h dois mil homens, senhor, mas esto quase desarmados. Muitos no tm mais que uma faca. -A voz do Jamie chegou de detrs, atraindo 
a ateno do Vickers.
        - Isso me ho dito, senhor Fraser -disse Tryon secamente- , embora me agrada saber que sua informao corrobora a minha. Senhor Vickers, voc ter a bondade 
de ir em busca de meu cavalo?
        - Suponho que seus agentes tambm lhe ho dito que os reguladores no tm nenhum lder real.
        - Pelo contrrio, senhor Fraser. Tenho a impresso de que Hermon Husband  e foi durante bastante tempo um dos principais agitadores deste movimento. Outro 
nome que vi freqentemente  o do James Hunter, assinando cartas de protesto e as interminveis solicite que chegam a New Bern. E h outros: Hamilton, Gillespie...
         - Em algumas circunstncias, senhor, estaria disposto a discutir com voc se a pluma for mais capitalista que a espada..., mas no ao bordo de um campo 
de batalha, como estamos agora. A audcia na redao de panfletos no faz a um homem apto para dirigir tropas. E Husband  qualquer.
        - Isso me ho dito -conveio Tryon. Assinalou para o arroio distante, com uma sobrancelha elevada em desafio- . Entretanto est aqui.
        - Est aqui -confirmou Jamie.
        Fez uma pausa, avaliando o humor do Tryon antes de continuar. O governador estava muito tenso, mas a batalha no era ainda iminente e sua tenso estava bem 
controlada. Ainda podia escutar.
        Esse homem comeu em minha casa, senhor -disse Jamie, com cautela- . E eu comi na sua. Nunca ocultou suas opinies nem seu carter. Se estiver hoje aqui, 
no duvido que veio com a mente atormentada.
        Respirou fundo. Estava pisando terreno perigoso.
        - Fiz que um de meus homens cruzasse o arroio em busca do Husband, senhor, para lhe rogar que se entreviu comigo. Possivelmente possa persuadi-lo para que 
se use seu considervel influencia sobre esses homens, esses cidados -assinalou brevemente o arroio e os invisveis seguidores que acampavam mais  frente- , lhes 
fazendo abandonar esse desastroso curso de ao, que s pode acabar em tragdia.
        Olhou ao Tryon diretamente aos olhos.
        - Posso lhe pedir, senhor... posso lhe rogar...? Se Husband viesse, falaria voc mesmo com ele?
        Tryon guardou silncio, sem conscientiza de estar dando voltas e voltas ao poeirento tricornio entre as mos.
        - So cidados desta colnia -disse ao fim, movendo a cabea em direo ao arroio- . Lamentaria que sofressem algum dano. Seus queixa no carecem de fundamento; 
reconheci-o assim, publicamente!, e tomei medidas para que os indenize.
        Jogou uma olhada ao Jamie, para ver se aceitava essa asseverao. Ele esperou em silncio. Tryon aspirou fundo e se golpeou uma coxa com o chapu.
        - No obstante, sou governador desta colnia. No posso permitir que se perturbe a paz, que se desobedea a lei, que os desmandos e o derramamento de sangue 
fiquem impunes. -Olhou-me com tristeza- . E no o farei.
        Logo sua ateno voltou para o Jamie.
        - Acredito que no vir, senhor. Eles fixaram seu curso e eu o meu. Mesmo assim... - Vacilou por um momento, mas logo moveu a cabea, decidido- . No, se 
realmente vier, voc raciocine com ele, por favor. Se acessar a conseguir que seus homens retornem pacificamente a casa, s ento me traga isso para que acordemos 
as condies. Mas no posso procurar essa possibilidade.
        Jamie sustentou o olhar ao governador um momento. Logo aceitou o inevitvel.
        - Quanto tempo? -perguntou em voz baixa.
        Tryon jogou uma olhada ao sol; faltava muito pouco para a meia amanh. Roger tinha partido duas horas antes. Quanto podia demorar para encontrar ao Hermon 
Husband e retornar?
        - As companhias esto preparadas para o combate -opinou Tryon. E jogou um olhar ao bosquecillo, com uma leve contrao na boca. Logo cravou um olhar carrancudo 
ao Jamie- . No falta muito. Esteja preparado, senhor Fraser.
        E ficando o chapu, agarrou as rdeas e montou seu cavalo. afastou-se sem olhar atrs, seguido por seus ajudantes.
      
      
      62
      
      Suspeitos
      
      
        Artculo12: Nenhum oficial nem soldado poder ir alm dos limites do acampamento que estejam dentro da distncia do grande guarda.
      
      
      Artculo63: Os oficiais ao mando devem interrogar a todas aquelas pessoas que lhes paream suspeitas; e aqueles que no possam dar uma explicao convincente 
de sua presena sero confinados, logo depois do qual apresentar um relatrio ao Quartel Geral.
      
                                                                        " Deveres e regras do acampamento" :
                                                    Ordens dadas por sua excelncia o governador Tryon 
                                                                        Aos provincianos da Carolina do Norte
      
      
      Roger se tocou o bolso das calas, onde tinha guardado a insgnia que o identificava como miliciano: um boto de quatro centmetros de dimetro, com o bordo 
perfurado e estampada com um tosco " CF" , que significava " Companhia do Fraser" ; costuradas na jaqueta ou no chapu, essas insgnias, assim como os distintivos 
de pano, eram o nico uniforme para a maior parte da infantaria do governador e o nico meio de distinguir a um miliciano de um regular.
        - E como sabe um contra quem deve disparar? -tinha perguntado ironicamente dois dias antes, quando Jamie lhe entregou aquilo- . Se te aproximar o suficiente 
para ver a insgnia antes de disparar, no disparar primeiro o outro tio?
        Por minha parte no esperaria -disse Jamie- . Se algum correr para ti com um revlver, dispara e roga que tudo saia bem. Cada companhia seguir seu prprio 
caminho, de modo que no  provvel que veja nenhum outro miliciano, pelo menos ao princpio. Se algum vier para ns, provavelmente ser o inimigo.
        Logo curvou um pouco para cima a boca, assinalando com um gesto a todos os homens que os rodeavam, ocupados com o jantar.
        - Conhece bem a todos loas que esto aqui? No dspares contra nenhum deles e ir bem, de acordo?
        Com um sorriso melanclico, Roger descendeu cuidadosamente por uma costa coberta de diminutas novelo com flores amarelas. Na intimidade havia resolvido no 
disparar contra ningum, quaisquer que fossem as circunstncias ou a possibilidade de dar no branco. Tinha escutado suficientes relatos de reguladores: Abel MacLennan, 
Hermon Husband. At tendo em conta o estilo naturalmente hiperblico do Husband, seus panfletos ardiam com ineludible sentido de justia. Como ia Roger a matar ou 
mutilar a um homem s por protestar contra uns abusos e uma corrupo to flagrantes que deviam ofender a qualquer pessoa justa?
        Para ouvir vozes se deteve um momento; logo se escondeu sem fazer rudo depois do tronco de um lamo grande. Um momento depois apareceram trs homens, conversando 
entre si com ar despreocupado. Os trs levavam armas e caixas de munies, mas no davam a impresso de ser carrancudos soldados em vsperas de uma batalha, a no 
ser trs amigos que tivessem sado a caar coelhos.
        Enquanto Roger observava desde seu esconderijo, um homem se deteve com a mo em alto; seus camaradas ficaram rgidos como ces de caa, com o nariz apontado 
para um grupo de rvores, a uns sessenta metros de distncia.
        At sabendo que havia algo ali, Roger demorou um momento em distinguir ao pequeno veado, muito quieto contra um grupo de rvores jovens; o vu de luz salpicada 
que penetrava por entre as folhas primaveris o dissimulava quase completamente  vista.
        O primeiro homem desprendeu sigilosamente a arma do ombro e jogou mo de um cartucho, mas um de seus companheiros o deteve lhe pondo uma mo no brao.
        - Espera, Abram -disse, em voz baixa mas clara- . No te convm disparar to perto do arroio. J ouviste o que disse o coronel: os reguladores esto reunidos 
na ribeira, perto desse ponto. -Assinalou com a cabea o denso bosquecillo de alisos e salgueiros que marcava o bordo do arroio invisvel, a cem metros escassos- 
. No vs provocar os justamente agora.
        Abram assentiu a contra gosto e voltou a pendurar o rifle do ombro.
        - Sim, suponho que sim. Criem que ser hoje?
        - No vejo como. -O terceiro homem tirou da manga um leno amarelo para enxug-la cara; o clima era caloroso e mido- . Tryon tem os canhes instalados do 
amanhecer; o tio no vai permitir que ningum lhe salte em cima. Poderia esperar aos homens do Waddell, mas talvez pense que no os necessita.
        Abram soprou com leve desprezo.
        - Para esmagar a essa chusma? Viu-os? Em minha vida vi piores soldados.
        O homem do leno sorriu cinicamente.
        - Bom, mesmo assim, Abie, viu a esses milicianos de terra adentro? Isso sim que  chusma. E falando dos reguladores, so muitos, chusma ou no. Dois a um, 
diz o capito Neale.
        Abram grunhiu, jogando um ltimo olhar ao bosque e ao arroio.
        - Chusma -repetiu, mais crdulo. E lhes voltou as costas- . Vai!, vamos jogar uma olhada mais acima.
        Os caadores estavam no mesmo bando que ele; no levavam distintivo, mas sim as insgnias de miliciano no peito e no chapu, brilhos chapeados sob o sol 
da manh. Mesmo assim Roger se manteve  sombra at que os homens tiveram desaparecido. Estava razoavelmente seguro de que Jamie o tinha enviado a essa misso sem 
mais autoridade que a sua; era melhor que no lhe pedissem explicaes.
        A atitude dos milicianos para com a Regulao era, no melhor dos casos, desdenhosa. No pior (entre os oficiais superiores) de fria vingana.
         - Esmaguemos os de uma vez por todas -havia dito Caswell a noite anterior, enquanto tomava seu caf junto ao fogo. Era dono de uma plantao na parte oriental 
da colnia e no simpatizava absolutamente com as queixa dos reguladores.
        Roger voltou a dar uma palmada a seu bolso, pensativo. No, era melhor deixar a insgnia ali. Se o detinham poderia mostr-la. E no acreditava que ningum 
lhe disparasse pelas costas sem lhe dar ao menos um grito de advertncia.
        Com a aprovao do Jamie tinha deixado seu mosquete no acampamento, no trazia mais arma que a faca, elemento normal para qualquer homem. Pelo resto, toda 
sua equipe era um grande leno branco, dobrado dentro de sua jaqueta. 
        - Se algum te ameaar, seja onde for, agita-o e grita " Trgua!"  - tinha-lhe indicado Jamie- . Logo lhes diga que vo me buscar. E no diga nada mais at 
que eu chegue. Se ningum lhe impedir isso, ponha sob o amparo do Husband e traz-o contigo.
        Ao imaginar-se trazendo para o Hermon Husband do outro lado do arroio, com o leno ondulando por cima de sua cabea no extremo de um pau, como se fora um 
guia turstico no aeroporto, sentiu desejos de uivar de risada. Mas Jamie no tinha sorrido sequer, de modo que ele aceitou o tecido com ar solene e o guardou cuidadosamente. 
Jogou uma olhada entre as folhas que penduravam, mas o arroio passava faiscando ao sol, sem mais rudo que o sussurro da gua  contra a pedra e a argila. No havia 
ningum  vista e o rumor da gua afogava qualquer rudo que pudesse provir desde alm das rvores, ao outro lado. Embora os milicianos no lhe disparassem pelas 
costas, no estava to seguro de que os reguladores no fuerana lhe disparar de frente, em caso de v-lo cruzar do lado do governo.
        Mesmo assim no podia passar o dia escondido entre as rvores. Saiu ao ribazo e caminhou guas abaixo, para o ponto que tinham indicado os caadores, tratando 
de distinguir entre as rvores qualquer sinal de vida. Perto desse ponto, o cruzamento era melhor: pouca profundidade e fundo rochoso. Mesmo assim, se os reguladores 
estavam " congregados"  nas cercanias, guardavam absoluto silncio.
        Teria sido difcil imaginar uma cena mais aprazvel; entretanto o corao o martille sbitamente nos ouvidos. Voltava a experimentar essa estranha sensao 
de que havia algum muito perto. Olhou em todas direes, mas nada se movia, salvo a corrente da gua e as folhas dos salgueiros.
        -  voc, papai? -disse pelo baixo. E imediatamente se sentiu tolo. Mesmo assim, a sensao de que havia algum ali seguia presente, embora era uma sensao 
positiva.
        Por fim, com um encolhimento de ombros, agachou-se para tir-los sapatos e as mdias. Sem dvida era pelas circunstncias. Claro que ningum podia comparar 
o fato de vadear um arroio em busaca de um qualquer bagunceiro com o de pilotar um Spitfire atravs do Canal para bombardear a Alemanha. Mas toda misso  uma misso, 
disse-se.
        Voltou a olhar a seu redor, mas s havia girinos que se retorciam no fundo. Com um sorriso um pouco torcido, colocou o p na gua, com o que os girinos fugiram 
freneticamente.
        - Aqui estamos -disse a um pato silvestre.
        No se ouvia nada entre as rvores de um lado ou do outro, nada, salvo o alegre bulcio dos pssaros. S quando se sentou em uma rocha morna pelo sol para 
sec-los ps e voltar a calar-se, s ento ouviu por fim alguma sinal de que essa borda estivesse povoada por seres humanos.
        - Anda e me diga o que quer, bombom.
        - No sei, preciosa. Quanto me custar?
        - Oohh, mas escuta-o! Verdade que no  momento para contar os peniques?
        - No se preocupem, senhoras. Se for necessrio faremos uma coleta.
        - Ah, com que assim o fazem vocs? Pois seja, senhor, mas tenham em conta que, nesta parquia, a coleta vai antes dos cnticos.
        Ao escutar esta amistosa negociao, Roger deduziu que as vozes em questo pertenciam a trs homens e a duas mulheres, e todos pareciam seguros de que, quaisquer 
que fossem os acertos financeiros, trs penetrariam em duas sem dificuldades nem conseqncias molestas.
        Recolheu seus sapatos e se escabull silenciosamente, deixando aos invisveis sentinelas (se acaso o eram) dedicados a seus clculos. Pelo visto, o exrcito 
da Regulao no estava to organizado como as tropas do governo.
        O qual era pouco dizer, conforme pensou algo depois. Como no sabia com certeza onde estava o corpo principal do exrcito, tinha percorrido uns quatrocentos 
metros pelo ribazo, sem ver nem ouvir ningum, salvo s duas prostitutas e a seus clientes. Com a crescente sensao de estar fora da realidade, cruzou sem rumo 
pequenos pinares e borde pradarias cobertas de ervas, sem mais companhia que os pssaros em pleno cortejo e pequenas mariposas alaranjadas e amarelas.
        - Esta  maneira de liberar uma guerra? -murmurou, enquanto se abria passo entre matas de amora.
        de repente, ao rodear um meandro do arroio, viu os reguladores propriamente ditos: um grupo de mulheres que lavavam a roupa na corrente, junto a um monto 
de rochas.
        Voltou a esconder-se na maleza antes de que o vissem e se separou do arroio, j com mais nimo. Se havia mulheres ali, os homens no deviam estar longe.
        Assim era. uns quantos metros mais  frente ouviu os rudos de um acampamento: vozes despreocupadas, risadas, ressonar de colheres e caarolas, o golpe seco 
da tocha ao partir lenha. Ao rodear um arbusto de espinillo esteve a ponto de ser derrubado por uma panda de jovens que passaram correndo, entre gritos e chiados.
        Passaram junto ao Roger sem olh-lo duas vezes; ele continuou a marcha, j sem tanta cautela. Ningum lhe deu o alto; no havia sentinelas. Na verdade, as 
caras desconhecidas no pareciam ser ali novidade nem ameaa. Alguns o olharam sem lhe dar importncia e continuaram com suas conversaes, sem ver nada estranho 
em sua apario.
        - Procuro o Hermon Husband -disse sem rodeios a um homem que assava um esquilo nas chamas de uma fogueira. Por um momento o interpelado pareceu no entender- 
. O qualquer.
        - Ah!, sim. -As faces do homem se esclareceram- . Est por ali... nessa direo, acredito.
        " por ali"  resultou ser um bom trecho. Roger atravessou outros trs acampamentos dispersos antes de chegar ao que parecia ser o corpo principal do exrcito... 
se lhe podia dignificar com esse trmino. O ambiente parecia cada vez mais srio. Mesmo assim, aquilo estava muito longe de ser o quartel geral de um comando estratgico.
        Aqui a situao era muito diferente que nas ordenadas foras da tropa, mas ainda menos preparada para hostilidades imediatas. No obstante, ao avanar um 
pouco mais, perguntando o caminho ante cada fogueira pela que acontecia, comeou a perceber algo diferente na atmosfera: uma urgncia crescente, quase desesperada. 
Os jogos bruscos dos acampamentos mais afastados tinham desaparecido; ali os homens discutiam em grupos fechados, com as cabeas juntas, ou permaneciam a ss, carrancudos, 
carregando as armas e afiando as facas.
        Conforme se aproximava, o nome do Hermon Husband era reconhecido por todos e os ndices assinalavam o rumo com mais segurana. Seu sobrenome parecia quase 
um m que o atraa mais e mais ao centro de uma massa cada vez mais densa; compunham-na homens e moos, todos armados. O rudo ia em aumento; as vozes lhe golpeavam 
os ouvidos como martelos na forja.
        Por fim encontrou ao Husband; estava de p em uma pedra, como um grande lobo cinza encurralado, rodeado por trinta ou quarenta homens que clamavam em furiosa 
agitao. Abundavam as cotoveladas e os pises, sem considerar a quem foram dirigidos. Obviamente exigiam uma resposta, mas lhes era impossvel fazer uma pausa para 
escut-la.
        Husband, em mangas de camisa e vermelha a cara, falava com gritos com um ou dois dos que estavam mais perto, mas Roger no pde ouvir uma palavra por cima 
do bulcio generalizado. abriu-se passo atravs dos crculos exteriores, mas o apertado da multido o deteve perto do centro. Ao menos ali pde distinguir umas quantas 
palavras.
        -  preciso! Bem sabe, Hermon, que no h opo! -gritou um homem mirrado, de chapu maltratado.
        - Sempre h opo! -uivou Husband a sua vez- . chegou o momento de escolher! E Deus nos diz que o faamos com prudncia!
        - Sim, com os canhes apontados contra ns?
        - No, no, ter que avanar. Ter que avanar ou tudo estar perdido!
        - Perdido? at agora o perdemos tudo! Devemos...
        - O governador nos deixou sem alternativa.  preciso...
        -  preciso...
        -  preciso!
        As palavras soltas se perdiam em um rugido geral de ira e frustrao. Ao ver que nada obteria se aguardava ter pblico, Roger se abriu aconteo implacavelmente 
entre dois granjeiros e sujeitou ao Husband pela manga da camisa.
        - Senhor Husband, devo falar com voc! -gritou-lhe ao ouvido.
        O qualquer o olhou com olhos frgeis. Fez gesto de livrar-se, mas logo piscou ao reconhec-lo. Sua cara quadrada estava vermelha por cima da barba enchente; 
o cabelo spero e cinza, sem atar, arrepiava-se como puas de puercoespn. Sacudiu a cabea com os olhos fechados; ao abri-los olhou ao Roger como se tratasse inutilmente 
de dissipar uma viso impossvel.
        Aferrou ao Roger por um brao e, com um gesto feroz para a multido, desceu de um salto de sua pedra para procurar refgio em uma maltratada cabana que se 
incitava, como bria,  sombra de alguns arces. Roger foi atrs dele, depois de arrojar um olhar fulminante aos mais prximos, a fim de desalentar a perseguio.
        Mesmo assim uns quantos os seguiram, com muito agitar de braos e gritos acalorados, mas Roger lhes fechou a porta na cara e jogou o ferrolho; logo apoiou 
as costas contra a porta, para maior segurana. Husband se deteve no centro, ofegante; logo agarrou uma chaleira para beber a grandes goles a gua de um cubo posto 
no lar; era o nico objeto que ainda ficava na cabana.
        - O que lhes traz por aqui, amigo MacKenzie? -perguntou com caracterstica suavidade- . Acaso vm a lhes unir  causa da Regulao?
        - No, claro que no- assegurou-lhe Roger. Jogou um olhar cauteloso  janela, temendo que a multido tentasse entrar por ali, mas no se ouviam rudos de 
ataque imediato contra o edifcio, embora fora o rumor de vozes continuava com a discusso- . vim a lhe perguntar se estaria disposto a cruzar o arroio comigo para 
falar com o Jamie Fraser. Sob bandeira de trgua, sua segurana estaria garantida.
        Husband tambm jogou uma olhada  janela.
        - Temo que o tempo de falar j passou- disse, com uma irnica toro de lbios.
        Roger era da mesma opinio, mas insistiu, decidido a cumprir com seu encargo.
        - No que ao governador concerne, no  assim. No tem nenhum desejo de massacrar a seus prprios cidados; se se pudesse persuadir  multido de que se dispersasse 
pacificamente...
        - Parece-lhes uma perspectiva provvel? -Husband assinalou a janela com um gesto cnico.
        - No -reconheceu Roger- . Mesmo assim, se voc viesse... se eles vissem que existe alguma possibilidade de...
        - Se houvesse uma possibilidade de reconciliao e indenizao, teriam devido oferec-la muito antes -ou interrompeu Husband- . Assim demonstra o governador 
sua sinceridade? Vem com tropas e canhes para enviar uma carta que...?
        - De indenizao no -disse o jovem sem rodeios- . Refiro-me  possibilidade de salvar a vida a esta gente.
        - chegamos a isso? -perguntou em voz baixa, olhando o de frente.
        Roger aspirou fundo e fez um gesto afirmativo.
        - No h muito tempo. O senhor Fraser me encomendou lhe dizer, se no ir voc a falar pessoalmente com ele, que h duas companhias de artilheiros desdobradas 
contra vocs e oito mil milicianos, todos bem armados. Tudo est preparado. E o governador no esperar muito tempo; no mximo at o prximo amanhecer.
        - Aqui h uns dois mil homens da Regulao -disse Husband, como para seus adentros- . Dois mil! No acredita que ver tantos lhe faria trocar de opinio? 
O que tanta gente abandone o lar para ir em protesto...?
        - O governador opina que se elevaram em rebelio e, portanto, esteve que guerra -interrompeu Roger. Jogou uma olhada   janela, onde o pergaminho azeitado 
pendia em farrapos- . E depois de hav-los visto, reconheo que sua opinio tem bases razoveis.
        - No  rebelio -assegurou Husband, teimoso. E tirou do bolso uma gasta cinta de seda negra para atar o cabelo para trs, com as costas muita erguida- . 
Mas nossas queixa legtimas foram deixadas de lado por completo! No temos mais opo que ir em massa a apresentar nossas demandas ante o senhor Tryon, para lhe 
fazer ver a justia de nossas objees.
        - Faz um momento me pareceu ouvi-lo falar de alternativas -assinalou o jovem, seco- . E se tiver chegado o momento de escolher, como disse voc, parece-me 
que a maior parte dos reguladores escolheram a violncia, a julgar pelos comentrios que escutei ao vir.
        - Possivelmente -disse Husband, relutante- . No obstante no somos... no so um exrcito vingador nenhuma turfa...
        - Tm algum lder designado, algum que possa falar oficialmente por eles? -Roger voltou a interromp-lo, impaciente por transmitir sua mensagem e afastar-se 
dali- . Voc mesmo? O senhor Hunter, possivelmente?
        - Em realidade no tm nenhum lder -disse Husband depois de uma larga pausa- . Jim Hunter  bastante audaz, mas no tem dotes de mando. Perguntei-lhe; diz 
que cada homem deve atuar por si mesmo.
        - Voc tem esse dom. Pode lider-los.
        Husband pareceu escandalizar-se.
        - Eu no.
        - Mas se os guiou at aqui...
        - Eles acudiram! No pedi a ningum que...
        - Voc est aqui. Eles o seguiram. Voc falou com eles e o escutaram. Vieram seguindo-o. Escutaro-o, sem dvida.
        Fora da cabana o rudo ia em aumento; a multido se impacientava. Se no era ainda uma turfa, estava muito perto. E o que fariam se descobriam quem era o 
que estava ali e a que tinha vindo?
        Husband o observou um instante; logo lhe agarrou as duas mos.
        - Rezemos juntos, amigo -disse em voz baixa.
        - Mas eu...
        - No faz falta que voc diga nada. Sei que  papista, mas no temos por costume rezar em voz alta. Basta com que permanea em silncio e pea, no fundo 
de seu corao, que descenda a sabedoria... no s sobre mim, mas tambm sobre todos os pressente.
        Roger se mordeu a lngua para no corrigi-lo; nesse momento sua prpria filiao religiosa no tinha importncia, embora sim a do Husband, pelo visto. limitou-se 
a conter a impacincia e estreitou as mos do qualquer, lhe oferecendo o apoio que estava a seu alcance. 
        Husband estava imvel, com a cabea um pouco inclinada. Um punho esmurrou a dbil porta da cabana.
        - Hermon! Est bem?
        - Sal, Hermon! No h tempo para isto! Caldwell j retornou que ver o governador...
        - Uma hora, Hermon! Deu-nos s uma hora!
        Derrubariam a porta, sem dvida. Mas no: os golpes diminuram at reduzir-se a toques impaciente; logo, a algum murro isolado. O palpitar do corao do 
Roger se foi acalmando gradualmente at reduzir-se a um ritmo sereno e parecido; a ansiedade se esfumava em seu sangue.
        Fechou os olhos em um intento de fixar seus pensamentos, tal como Husband lhe tinha pedido. Procurou provas em sua mente alguma orao adequada, mas s lhe 
vinham  memria fragmentos confusos do Livro de Culto Comum.
        " nos socorra, OH, Senhor!..." 
        " nos escute..." 
        " nos ajude, OH, Senhor!" , sussurrou a voz de seu pai... seu outro pai, o reverendo, que falava no fundo de sua mente. " nos ajude, OH, Senhor!, a recordar 
com quanta freqncia obramos mau, no por falta de amor, mas sim por falta de reflexo, e quo engenhosas som as armadilhas que nos fazem tropear." 
        Cada palavra passou por sua mente, fugaz como a folha em chamas que se eleva no vento da fogueira, para desaparecer feita cinzas antes de que ele pudesse 
agarr-la. Por fim renunciou; limitou-se a estreitar as mos do Husband, atento a sua respirao, que era uma nota grave e spera.
        " Por favor" , pensou em silncio, sem saber o que pedia. Tambm essas palavras se evaporaram sem deixar nada.
        Nada aconteceu. Fora ainda se ouviam vozes, mas no pareciam ter mais importncia que a reclamao dos pssaros. O ar da habitao estava em calma, mas fresco 
e vivaz, como se pelos rinces circulasse uma corrente sem chegar a tocar o  centro, onde estavam eles. Roger sentiu que sua prpria respirao se tranqilizava 
e seu corao se fazia ainda mais lento.
        No recordava ter aberto os olhos, mas os deixava abertos. Ao baixar a vista reparou em suas prprias mos, que ainda estreitavam as do Husband, mais pequenas. 
Invadiu-o um respeito sobressaltado ao apreciar a beleza de seus prprios dedos, os ossos curvados da boneca e os ndulos, o encanto de uma fina cicatriz vermelha 
que cruzava a articulao do polegar.
        Husband deixou escapar o flego em um fundo suspiro e retirou as mos. Roger se sentiu momentaneamente abandonado, mas logo a paz do ambiente voltou a posar-se 
nele.
        - O agradeo, amigo Roger -disse o qualquer, em voz baixa- . No esperava receber tal graa, mas bem-vinda seja.
        Ele assentiu sem dizer nada. Viu que Husband desprendia sua jaqueta e a punha; em sua cara se viam agora linhas de serena deciso. Sem vacilar, o qualquer 
tirou o ferrolho da porta e abriu.
        A multido reunida fora retrocedeu; a expresso de surpresa cedeu aconteo imediatamente  ansiedade e a irritao. O qualquer, sem emprestar ateno  tempestade 
de perguntas e exortaes, partiu diretamente at um cavalo amarrado a um arvorezinha, detrs da cabana; desatou-o e subiu  cadeira. S ento olhou de acima a seus 
companheiros da Regulao.
        - vocs voltem para casa! -disse em voz alta- . Devemos abandonar este stio; que cada homem retorne a seu lar.
        Este anncio foi recebido com um atnito silncio; logo houve exclamaes de indignao e desconcerto.
        - Que lar? -inquiriu um jovem, de escassa barba avermelhada- . Possivelmente voc tenha lar aonde voltar! Eu no!
        Husband permanecia slido na cadeira, sem deixar-se comover pela gritaria.
        - Voltem para casa! -gritou outra vez- . Os precatrio. Aqui no fica nada, salvo a violncia.
        - Sim, e bem que a faremos! -uivou um homem corpulento, mostrando o mosquete em alto entre um coro de vtores.
        Roger tinha seguido ao Husband, ignorado pela maioria dos reguladores. deteve-se certa distncia, enquanto o qualquer se afastava com lentido, inclinando-se 
da arreios para responder com gritos e gestos aos homens que corriam a seu lado. Algum o aferrou pela manga; ele atirou das rdeas e se inclinou para escutar um 
discurso obviamente apaixonado. Mas ao fim ergueu as costas, sacudiu a cabea e se plantou o chapu.
        - No posso ficar e permitir que se derrame sangue por minha presena. Se permanecerem aqui, amigos, haver homicdio. Partam! Ainda podem partir. Imploro-lhes 
que o faam!
        J no gritava, mas o bulcio se acalmou o suficiente como para que sua voz corresse. Ao levantar a cara, enrugada pela preocupao, viu o Roger de p  
sombra de um disco. A serenidade da paz o tinha abandonado, mas em seus olhos perdurava a deciso.
        - Vou! -anunciou- . O rogo! Retornem todos a casa!
        Com sbita determinao, voltou garupas e ps a seu cavalo ao trote. uns quantos homens correram atrs dele, mas logo se detiveram, desconcertados e ressentidos, 
murmurando entre si e movendo a cabea com ar de confuso.
        O rudo voltou a crescer; todos discutiam ao mesmo tempo, insistindo e negando. Roger se afastou discretamente para o bosquecillo de arces. O mais prudente 
seria empreender a volta quanto antes, agora que Husband tinha partido.
        Uma mo o aferrou por um ombro, obrigando-o a girar.
        - Quem diabos  voc? O que h dito ao Hermon para que se fora?
        Era um tio carrancudo, de pudo colete de pele, com os punhos apertados.
        - Disse-lhe que o governador no quer que ningum sofra dano, se se pode evitar -respondeu Roger, tratando de que seu tom fora apaziguador.
        - Envia-te o governador? -perguntou um homem de barba negra, olhando com cepticismo sua roupa singela- . vieste a oferecer umas condies diferentes das 
do Caldwell?
        - No. -Roger ainda estava sob o efeito de seu encontro com o qualquer; sentia-se protegido das correntes de clera e histeria incipiente que se formavam 
redemoinhos em torno da cabana, mas essa paz se ia esfumando com celeridade. A seus interrogadores se somaram outros, atrados pela confrontao- . No -repetiu, 
em voz mais alta- . vim para lhe advertir ao Husband... e a todos vs. O governador quer...
        Interrompeu-o um coro de gritos grosseiros: o que Tryon quisesse no tinha nenhum interesse para os pressente. Ento se encolheu de ombros e deu um passo 
atrs.
        - Faam o que lhes parea, ento- disse, com toda a serenidade possvel- . O senhor Husband lhes deu o melhor dos conselhos. E eu o apio.
        Girou para afastar-se, mas um par de mos descenderam sobre seus ombros, obrigando-o uma vez mais a enfrentar-se ao crculo de interrogadores.
        - Espera um momento, tio -disse o homem do colete de couro- . falaste com o Tryon, verdade?
        - No -admitiu Roger- . Enviou-me... - Devia utilizar o nome do Jamie Fraser? No: igual podia lhe economizar problemas como provocar-lhe vim a pedir ao 
Hermon Husband que cruzasse o arroio comigo para que visse com seus prprios olhos qual  a situao. Ele preferiu aceitar meu relatrio da situao. J viram vocs 
qual foi sua reao.
        - Isso o diz voc! -Um homem fornido, de costeletas avermelhadas, elevou o teimoso queixo- . E por que ter que aceitar seu relatrio da situao?
        A calma que Roger trazia da cabana no o tinha abandonado de tudo; recolheu os restos para falar com serenidade.
        - No posso obrig-lo a escutar, senhor. Mas quem tenha ouvidos, escutem isto.
        Olhou-os  cara, um a um. Embora a contra gosto, deixaram de alvoroar, at que ele se viu no centro de um crculo que lhe emprestava relutante ateno.
        - As tropas do governador esto listas e bem armadas. -Sua voz soava estranha, serena mas um pouco apagada, como se fora outro o que falasse com certa distncia- 
. No vi pessoalmente ao governador, mas me h dito quais so seus propsitos: no quer que se derrame sangue, mas est decidido a levar a cabo as aes que considere 
necessrias para dispersar esta assemblia. No obstante, se retornarem pacificamente a seus lares, est disposto a mostrar-se clemente.
        fez-se um momento de silncio. Rompeu-o um pigarro. Um escupitajo de muco, com nervuras pardas de tabaco, aterrissou no barro, junto  bota do Roger.
        - Isso vai para o governador e sua clemncia -disse o do escupitajo, conciso.
        - E isto vai para ti, estpido! -acrescentou um de seus companheiros, lanando um bofeto ao Roger.
        Ele esquivou o golpe e baixou o ombro para carregar contra o atacante, que se cambaleou, perdendo terreno. Mas atrs havia mais deles. Roger se deteve, com 
os punhos apertados, preparado para defender-se se era necessrio.
        - No lhe faam mal, moos -ordenou o homem do colete de couro- . Ao menos por agora. -aproximou-se do jovem, sem ficar ao alcance de seus punhos, e o observou 
com desconfiana- . Tenha visto ou no a cara do Tryon, suponho que viu suas tropas, verdade?
        - Em efeito. -O corao do Roger pulsava depressa e o sangue lhe cantava nas tmporas.
        - Sabe quantos homens tem Tryon?
        - Algo mais de mil -respondeu, observando com ateno a cara do homem. No houve surpresa: j sabia- . Mas so milicianos adestrados e tm artilharia.  
verdade que vocs no tm nada disso, senhor?
        - Pensa o que queira -respondeu secamente- . Mas pode lhe dizer ao Tryon que lhe dobramos em nmero. Alm disso, adestrados ou no -sua boca se torceu com 
ironia- , todos estamos armados, cada homem com seu mosquete.
        Inclinou a cabea para trs, com os olhos entronizados, para avaliar a luz.
        - Uma hora, no? -perguntou, um pouco mais suave- . Acredito que ser antes. -E olhou ao Roger aos olhos- . Volte a cruzar o arroio, senhor. lhe diga ao 
governador Tryon que temos inteno de lhe dizer o nosso e nos sair com a nossa. Se ele nos escutar e acessa a nossas exigncias, bem. Se no...
        Tocou a culatra da pistola que levava a cintura. Em sua cara se assentaram linhas sombrias.
        Roger percorreu com a vista o crculo de caras silenciosas. Algumas expressavam incerteza, mas em sua maioria estavam sombrias ou desafiantes. Sem dizer 
uma palavra girou para afastar-se.
      
      
      63
      
      O livro do cirurgio, Tomo I
      
      
        Artigo n 28: Os cirurgies devem levar um livro no que registraro a todos os homens que se submetam a sua ateno, incluindo seu nome, a companhia a que 
pertencem, a data em que entram em seu cuidado e a data em que lhe do o alta.
                                                                                 " Deveres e regras do acampamento" 
      
      
      Estremeci-me ao sentir que uma brisa fria me tocava a bochecha, embora o dia era muito quente. Tive a absurda idia de que era o roce de uma asa, como se o 
Anjo da Morte tivesse passado silenciosamente a meu lado, atento a sua lgubre tarefa.
        - Tolices -disse em voz alta. Evan Lindsay me ouviu; vi-o girar momentaneamente a cabea, mas imediatamente apartou o olhar. Como todos, vigiava o este.
        Ainda no tinha chegado nenhum mensageiro, mas viria. Eu no o duvidava. Algo tinha acontecido em algum lugar.
        Todo mundo esperava, imvel em seu stio. Levada por uma entristecedora necessitem de me mover, girei abruptamente; minhas mos se flexionaram como pedindo 
fazer algo. A gua estava fervida e lista, coberta com uma parte de linho limpo. Tinha posto a caixa de remdios sobre um toco; retirei a coberta para revisar outra 
vez seu contedo, embora segura de que tudo estava em ordem.
        Toquei um a um os frascos cintilantes; seus nomes eram uma sedativo letana.
        Atropina, beladona, ludano, paregrico, azeite de lavanda, azeite de zimbro, hortel... E a garrafa parda, de forma achaparrada, que continha o lcool. 
Tinha um barril pequeno cheio na carreta.
        Um movimento atraiu minha ateno; era Jamie; caminhava tranqilamente sob as rvores, inclinando-se aqui para dizer uma palavra ao ouvido de algum, tocava 
mais  frente um ombro, como um mago que desse vida s esttuas.
        Permaneci imvel, por no distrai-lo, face ao muito que desejava atrair sua ateno. Ele se movia com facilidade, brincando despreocupadamente; entretanto 
eu podia perceber sua tenso.
        A pouca distncia soou um rudo de cascos e o estrpito de uns cavalos que avanavam pela maleza. Todo mundo se deu a volta, espectador e com os mosquetes 
na mo. Uma exclamao afogada e um murmrio geral saudaram o primeiro cavaleiro que surgiu  vista, agachando a cabea vermelha sob os ramos dos arces.
        - Cristo! -disse Jamie- . Que diabos faz esta aqui?
        As risadas dos homens que a conheciam romperam a tenso como gretas no gelo, Jamie relaxou um pouco os ombros, mas saiu a seu encontro com expresso bastante 
carrancuda.
        Quando Brianna desmontou a seu lado, eu tambm estava ali.
        - O que...? -comecei.
        Mas Jamie j estava cara a cara com sua filha, os olhos entreabridos, a mo em seu brao, falando em voz baixa, em uma veloz corrente de galico.
        Brianna lhe replicou algo que no entendi, tambm em galico, e ele se tornou para trs. Ela moveu secamente a cabea, como satisfeita com o impacto de sua 
declarao, e girou sobre seus tales. Ento,  lombriga, um largo sorriso lhe transformou a cara.
        - Mame! -Abraou-me.
        - Ol, querida. De onde vem? -depois de lhe dar um beijo na bochecha dava um passo atrs; apesar de todo me alegrava v-la.
        - Do Hillsborough -respondeu- . Ontem  noite, algum que foi jantar a casa dos Sherston disse que a tropa estava acampada aqui. Por esse vim. Traje algo 
de comer -assinalou as avultadas alforjas de seu cavalo- e algumas ervas do pomar dos Sherston; me ocorreu que podiam te ser teis.
        - N? OH!, sim. Que bem! -Sentia a presena carrancuda do Jamie a minhas costas, mas no me voltei a olh-lo- . Eeh... no  que no me alegre de verte, 
querida, mas  possvel que aqui se livre uma batalha dentro de muito pouco e...
        - J sei. -Ainda estava muita sufocada e sua cor se acentuou para me ouvir. Levantou um pouco a voz- . No importa. No vim a combater. Nesse caso me teria 
posta calas de montar.
        Jogou uma olhada por cima de meu ombro; detrs de mim se ouviu um forte bufido, seguido por algumas risadas afogadas dos irmos Lindsay. Ela baixou a cabea 
para dissimular um sorriso; eu no pude menos que sorrir tambm.
        - Ficarei contigo -disse em voz mais baixa- . Se houver depois feridos que atender, posso ajudar.
        Vacilei, mas no podia negar que, se se chegava ao enfrentamento, teria feridos que atender e um par de mos mais seria muito til. Brianna no era enfermeira, 
mas sabia de grmenes e antisepsia, coisa muito mais til, em certo modo, que os conhecimentos de anatomia e fisiologia.
        Ela tinha erguido as costas para procurar entre os homens que esperavam  sombra dos arces.
        - Onde est Roger? -perguntou em voz baixa, mas serena.
        - Est bem -lhe assegurei, com a esperana de que fora verdade- . Esta manh Jamie lhe mandou cruzar o arroio com uma bandeira de trgua, para trazer para 
o Hermon Husband a falar com o governador.
        - E ainda est l? -Tinha subido involuntariamente a voz, mas voltou a baix-la, controlando-se- . Com o inimigo? Se se pode chamar assim.
        - Retornar. -Jamie apareceu junto a mim; olhava a sua filha sem muita alegria, mas obviamente resignado a sua presena- . No se preocupe, moa. Sob a bandeira 
branca ningum lhe far nada.
        - Do que lhe servir a bandeira se trgua se ainda estiver ali quando comearem os disparos?
        Retornar -repetiu ele, embora em tom mais suave. Logo lhe tocou a cara e alisou uma mecha de cabelos- . Prometo-lhe isso, moa. No lhe acontecer nada.
        Bree pareceu encontrar algo tranqilizador na cara de seu pai, pois sua expresso apreensiva se aliviou um pouco. Assentiu com a cabea, em muda aceitao. 
depois de lhe dar um beijo na frente, Jamie se voltou para falar com o Rob Byrnes.
        Por um momento ela o seguiu com a vista; logo desatou os cordes de seu chapu e vinho a sentar-se a meu lado, em uma pedra.
        - H algo que possa fazer agora? -perguntou, assinalando com a cabea minha caixa de remdios- . Quer que te traga algo?
        Neguei com a cabea.
        - No, tenho todo o necessrio. No h mais que esperar. -Fiz uma careta- .  o pior.
        Ela respondeu com um relutante murmrio de assentimento e fez um esforo por relaxar-se. Logo avaliou a equipe preparada, com uma ruga entre as sobrancelhas: 
fogo aceso, gua fervendo, mesa dobradia, a caixa grande com o instrumental e um pacote mais pequeno, que continha minha equipe de emergncias.
        - O que h a? -perguntou, tocando o saco de lona com a ponteira da bota.
        - lcool e ataduras, um escalpelo, frceps, serrote de amputao, torniquetes. Se se puder me traro os feridos at aqui ou a outro dos cirurgies. Mas se 
devo atender a algum no campo... a algum que esteja muito mal para caminhar ou ser transladado, posso agarrar isto e ir imediatamente.
        Notei que passeava o olhar pelo claro, posando-a aqui em um homem, l em outro. Adivinhei o que estava pensando: como era possvel? Como podia uma ver um 
grupo to compacto e ordenado, uma cabea inclinada para escutar ao amigo, um brao estendido para o cantil, sorrisos e sobrecenhos enrugados, olhos luminosos e 
msculos tensos... e logo visualizar a ruptura, a abraso, a fratura... e a morte.
        De repente, ouviu-se o rudo de um cavalo que se aproximava a toda pressa. Quando o mensageiro apareceu, eu j estava de p, como o resto do acampamento. 
Era um dos jovens ajudantes do Tryon, plido pelo nervosismo contido.
        - Estejam em alerta -disse, mdio desprendendo-se da cadeira, sem flego.
        - E o que voc crie que estivemos fazendo do amanhecer? -inquiriu Jamie, impaciente- . Por todos os Santos, homem, o que acontece?
        Muito pouco, ao parecer, mas esse pouco era importante. Um ministro dos reguladores tinha ido parlamentar com o governador.
        - Um ministro? -interrompeu Jamie- . Um qualquer?
        - No sei, senhor -disse o ajudante, vexado pela interrupo- . Mas os quaisquer no tem claro; isso sabe qualquer. No: era um ministro chamado Caldwell, 
o reverendo David Caldwell.
        Qualquer que fosse sua filiao religiosa, Tryon no se deixou comover pela splica do embaixador. No podia nem queria tratar com o povo, e no havia mais 
que dizer. Se os reguladores se dispersavam, ele prometia estudar qualquer queixa justa que o fora apresentada da maneira correta. Mas deviam dispersar-se no curso 
de uma hora.
        - No poderia nem quereria em uma gaveta -cantarolei pelo baixo, mdio desequilibrada pela espera- . No poderia nem quereria com um leo.
        Jamie se tinha tirado o chapu e o sol brilhava em seu cabelo avermelhado. Bree soltou uma risita contida, tanto por estranheza como por diverso.
        - No poderia nem quereria com o povo -adicionou a sua vez- . No poderia nem quereria... fazer o macho?
        - Pode, sim -disse, sotto voce- . E muito me temo que o far.
        Pela centsima vez na manh joguei uma olhada para o grupo de salgueiros pelo que Roger tinha desaparecido, rumo a sua misso.
        - Uma hora -repetiu Jamie, como resposta  mensagem do ajudante. E olhou na mesma direo- . Quanto fica para isso?
         - Meia hora, possivelmente. -O moo pareceu de repente muito mais jovem do que era. Tragou saliva e ficou o chapu- . Devo partir, senhor. voc esteja atento 
ao canho. Boa sorte!
        - O mesmo a voc, senhor.
        Como se tivesse sido um sinal, o acampamento saltou em um torvelinho de atividade, at antes de que o ajudante tivesse desaparecido entre as rvores. voltaram-se 
a revisar armas que j estavam cevadas e carregadas, soltaram-se fivelas para as voltar para prender, poliram-se as insgnias; alguns sacudiam o p dos chapus e 
lhes prendiam os distintivos, ajustavam-se os meias trs-quartos e as ligas, sacudiam os cantis enche, para assegurar-se de que seu contedo no se evaporou na ltima 
meia hora.
        Era contagioso. Descobri-me deslizando os dedos pelas fileiras de frascos, uma vez mais; os nomes que murmurava se rabiscavam em minha mente, como se fossem 
as palavras de algum que rezasse o rosrio, perdendo o sentido no ardor do petio: " Romero, atropina, lavanda, azeite de prego..." 
        Bree se destacava por sua imobilidade em meio de tanto alvoroo. Sentada em sua pedra, sem mais movimento que o de suas saias agitadas por alguma brisa, 
mantinha a vista fixa nas rvores longnquas. Ouvi que dizia algo pelo baixo.
        - O que h dito? -perguntei, me voltando.
        - Que no figura nos livros. -Apontou com o queixo para o campo, as rvores, os homens que nos rodeavam- . No figura nos livros de histria. Tenho lido 
o da massacre de Boston. Li-o l, nos livros, e aqui, no peridico. Mas nunca soube disto l. No tenho lido uma s palavra sobre o governador Tryon, Carolina do 
Norte ou um lugar chamado Alamance. De modo que no acontecer nada. -Falava com ferocidade, aplicando toda sua vontade- . Se aqui houve uma grande batalha, algum 
deveria ter escrito sobre ela. Ningum o fez, de modo que no acontecer nada. Nada! 
        - Oxal tenha razo -disse. E me aliviou em parte o frio das costas. Talvez era certo. Pelo menos no seria uma batalha importante. Faltavam apenas quatro 
anos para que estalasse a Revoluo; at as pequenas escaramuas que precederam ao conflito eram bem conhecidas.
        A massacre de Boston se produziu pouco mais de um ano antes: um combate guia de ruas, o choque de uma turfa com um peloto de soldados nervosos. Insultos 
a gritos, algumas pedradas; um disparo no autorizado, uma descarga provocada pelo pnico e cinco homens mortos. Um dos peridicos de Boston informou da notcia, 
acompanhada por um apaixonado editorial; eu o tinha visto no salo da Yocasta; um de seus amigos lhe tinha enviado um exemplar.
        E duzentos anos depois, esse breve incidente seria imortalizado nos textos escolar, como evidncia do crescente descontente dos colonos. Joguei uma olhada 
aos homens que nos rodeavam, dispostos a brigar. Se ali, livrava-se uma grande batalha, se um governador real sufocava o que era, em essncia, uma rebelio de contribuintes, 
sem dvida teria valido a pena registr-lo!
        Mesmo assim, era pura teoria. E eu tinha incmoda conscincia de que nem a guerra nem os livros de histria tomavam muito em conta o que teria devido ocorrer.
        Jamie estava de p junto ao Gideon. Tinha-o pacote a uma rvore, pois entraria em combate a p, com seus homens. Vi-o retirar as pistolas da alforja, guardar 
na taleguilla de seu cinturo as munies de reserva. Tinha a cabea inclinada, absorto nos detalhes da tarefa.
        de repente experimentei um impulso horrvel e repentino. Precisava toc-lo, lhe dizer algo. Tratei de me persuadir de que Bree tinha razo; no era nada; 
provavelmente no haveria um s disparo. Entretanto havia trs mil homens armados nos ribazos do Alamance, e entre eles zumbia a idia do derramamento de sangue.
        Deixei a Brianna sentada em sua rocha, fixos os olhos no bosque, e corri para ele.
        - Jamie -disse, lhe pondo uma mo no brao. Ele apoiou uma mo sobre a minha.
        - A nighean donn -disse, com um pequeno sorriso- . vieste a me desejar sorte?
        - No podia deixar ir dizer... algo. Suponho que bastar com " Boa sorte" . -Vacilei; as palavras me entupiam na garganta, pela sbita urgncia de dizer 
muito mais do que o tempo permitia. Ao final disse s as coisas importantes- : Jamie... te amo. te cuide!
        Ele dizia que no recordava o do Culloden. Perguntei-me se a amnsia se estendia s horas prvias  batalha, a nossa despedida. Ao olh-lo aos olhos soube 
que no era assim.
        - Com " Boa sorte"  basta -disse- . " Amo-te"   muito melhor.
        Logo levantou a mo para me tocar o cabelo e a cara, me olhando aos olhos para reter minha imagem desse momento, no caso de fora a ltima.
        - Talvez chegue um dia em que voc e eu nos separemos outra vez -disse pelo baixo. Seus dedos me roaram os lbios, ligeiros como o roce de uma folha ao 
cair. Sorria apenas- . Mas no ser hoje.
      
      
      
      64
      
      Sinal de ataque
      
      
      
      Tenham em conta que, durante a marcha, o disparo de trs canhes ser o sinal para formar a linha de batalha; cinco, o sinal de ataque.
                                                                                                  Ordem da batalha, W. Tryon
      
      
      Roger se afastou devagar do acampamento dos reguladores. Gritaram-lhe uns quantos insultos e ameaas sem muita convico, mas quando se encontrou entre as 
rvores a multido j tinha perdido interesse nele, encetada novamente em sua agitada controvrsia.
        logo que esteve fora da vista se deteve. Tinha a respirao agitada e se sentia enjoado. No centro desse crculo de caras hostis no havia sentido nada, 
absolutamente nada. Agora, longe e a salvo, tremiam-lhe os msculos das pernas e lhe doam os punhos de tanto apert-los. Desdobrou os dedos rgidos, flexionou-os 
e tratou de dominar sua respirao.
        Talvez depois de todo aquilo no era to distinto ao vo noturno sobre o Canal e os canhes anti-areos.
        A seu redor, soprava uma leve brisa, que lhe separou do pescoo o cabelo mido, com um flego de bem-vindo frescor. Tinha completamente empapada a camisa 
e a jaqueta; o gravata-borboleta molhado parecia estar a ponto de estrangul-lo. tirou-se a jaqueta e atirou da gravata com dedos trmulos. Logo, com os olhos fechados 
e o objeto pendurando da mo, respirou a grandes baforadas, at que cedeu a sensao de nusea.
        Convocou a sua mente a ltima imagem da Brianna, no vo da porta, com jemmy nos braos. Viu suas pestanas, molhadas de lgrimas, e os olhos redondos e solenes 
do beb, e percebeu um grave eco da sensao que tinha experiente na cabana, com o Husband: uma viso de beleza, uma convico de gozo que serenava a mente e aliviava 
a alma. Retornaria com eles; era o nico que importava.
        Ao cabo de um momento abriu os olhos, recolheu sua jaqueta e ficou em marcha; enquanto avanava lentamente para o arroio comeou a sentir-se mais sereno 
no fisico, j que no no mental. 
        No ia acompanhado do Husband, mas tinha obtido o que o mesmo Jamie tivesse podido fazer. Era possvel que a turfa (no eram um exrcito, face ao que Tryon 
pensasse deles) desmembrasse-se e voltasse para casa, privado agora at da escassa liderana que Husband tinha representado. Oxal.
        Mas talvez no se dispersassem. Dessa turfa ardente podia surgir outro homem apto para tomar o mando. de repente recordou uma frase ouvida no alvoroo, frente 
 cabana. " vieste a oferecer umas condies diferentes das do Caldwell?"  Isso lhe tinha perguntado o homem da barba negra. E momento antes, enquanto rezava com 
o Husband, tinha ouvido vagamente que algum gritava: " No h tempo para isto! Caldwell j retornou que ver o governador..." > E outra voz, em tom desesperado: 
" Uma hora, Hermon! Deu-nos s uma hora!
        - Homem, claro! -disse em voz alta. David Caldwell, o ministro presbiteriano que o tinha casado. Devia ser ele. Pelo visto, o homem tinha ido falar com o 
Tryon em nome dos reguladores... e retornou rechaado, com uma advertncia.
        Uma hora, no mais. Uma hora para dispersar-se, para retirar-se pacificamente? Ou uma hora para responder a algum ultimato?
        Levantou a vista. O sol estava quase no cenit; era logo que passado o meio-dia. depois de fic-la jaqueta guardou o corbatn no bolso, junto  bandeira de 
trgua que no tinha utilizado. Qualquer que fosse o significado dessa hora de trgua, tinha que ficar em marcha.
        O dia continuava espaoso e caloroso; o aroma da erva e a folhagem vibrava de seiva em ascenso. Mas agora a sensao depressa e a lembrana dos reguladores, 
zumbindo como vespas, lhe impediam de apreciar as belezas naturais. Mesmo assim, algum rastro de paz perdurava nele enquanto apertava o passo para o arroio, um vago 
eco do que tinha experiente na cabana.
        Essa estranha sensao de respeito sobressaltado seguia acompanhando-o, oculto mas acessvel, como uma pedra polida no bolso. Fez-a girar na mente, sem emprestar 
muita ateno s saras e os matagais que atravessava em seu caminho. 
        Um ramo pendente lhe roou a cara; alargou uma mo para apart-la, um pouco surpreso pelo fresco brilho das folhas, a estranha delicadeza de seus borde, 
trincados como facas, mas leves como o papel. Era um eco leve, mas perceptvel, pelo que tinha visto antes, essa penetrante beleza. de repente se perguntou se Claire 
a veria. Percebia o toque da beleza nos corpos que tinha sob as mos? Era possivelmente a causa de que fora curadora, o que lhe permitia curar?
        Husband tinha compartilhado sua percepo, sem dvida. E isso o tinha confirmado em seus princpios de qualquer. Por isso abandonou o campo, impossibilitado 
de exercer a violncia ou de toler-la.
        E seus prprios princpios? No pareciam ter sofrida mudanas; se antes no tinha intenes de disparar contra ningum, menos as teria agora.
        " E os princpios do Jamie Fraser?" , disse-se. Freqentemente, levado por sua simpatia pessoal e pela curiosidade do historiador, perguntava-se o que movia 
ao Fraser. Com respeito a este conflito, Roger tinha tomado sua prpria deciso... ou possivelmente a deciso se tomou sozinha. No podia, a conscincia, fazer mal 
a ningum, embora em caso de necessidade se acreditava capaz de defender sua prpria vida. Mas Jamie... 
        Estava seguro de que simpatizava com os reguladores. Tambm parecia provvel que seu sogro no tivesse nenhum sentido de lealdade pessoal com a Coroa, com 
juramento ou sem ele. No,  Coroa no, mas possivelmente ao William Tryon?
        Tampouco ali havia lealdade pessoal, mas sim uma obrigao, decididamente. Tryon o tinha convocado e Jamie Fraser acudia. Dadas as condies imperantes, 
no tinha muita alternativa. Mas uma vez ali, combateria?
        E como no faz-lo? Devia ficar  cabea de seus homens e, se se chegava ao combate, ento teria que combater, quaisquer que fossem seus sentimentos pessoais 
sobre o tema.
        Tratou de imaginar-se pontudo e disparando um mosquete contra um homem contra quem no tinha nada. Era compreensvel que Jamie tivesse tratado de obter a 
ajuda do Husband para acabar com o conflito antes de que comeasse.
        Mesmo assim, Clareie lhe havia dito uma vez que, em sua juventude, Jamie tinha combatido na Frana como mercenrio. Presumivelmente, nnaquele tempo naquele 
tempo teria matado a homens contra quem no tinha nada. Como...?
        Ao abrir-se passo entre os salgueiros ouviu as vozes antes de ver ningum. Um grupo de mulheres, das que acompanham a todo exrcito, trabalhavam ao outro 
lado do arroio. Passeou entre elas um olhar indiferente, mas de repente deu um coice, surpreso Por que? O que era?
        Ali. No teria podido dizer como identificou; no havia nela nada que a distinguisse. Entretanto sobressaa entre as demais como se algum tivesse remarcado 
seus contornos em tinta negra, para destac-la contra o fundo do arroio e a folhagem tenra.
        - Morag -sussurrou. E seu corao pulsou com mais fora, com um pequeno estremecimento de gozo. Ela vivia.
        Saiu dos salgueiros antes de que lhe ocorresse perguntar-se que fazia e por que o fazia. Por ento j era muito tarde: estava no ribazo, caminhando abertamente 
para elas.
        Vrias das mulheres lhe jogaram uma olhada; algumas ficaram imveis, vigilantes. Mas ia sozinho e estava desarmado. Elas eram mais de vinte e seus homens 
estavam perto.
        Ela ficou muito quieta, inundada na gua at os joelhos, com as saias recolhidas. Tinha-o identificado, obviamente, mas no dava sinais de conhec-lo.
        As outras mulheres retrocederam um pouco, desconfiadas. Ela se ergueu entre as liblulas, com um vestido molhado entre as mos; algumas mechas de cabelo 
castanho apareciam de sua touca. Roger saiu da gua e se ergueu ante ela, molhado at os joelhos.
        - Senhora MacKenzie -saudou em voz baixa- . Me alegro de encontr-la.
        - Senhor MacKenzie -disse a sua vez, com uma pequena inclinao de cabea.
        A mente do Roger seguia a toda marcha, perguntando-se o que fazer. Devia adverti-la, mas como? No podia faz-lo diante de todas essas mulheres.
        Por um momento se sentiu indefeso e torpe; logo, inspirado, agachou-se para recolher uma braada de roupa lhe jorrem que se formava redemoinhos na gua, 
junto s pernas da mulher, e subiu ao ribazo. Morag o seguiu com repentina pressa.
        - O que faz? -acusou- . Oua, me devolva essa roupa!
        Roger levou a roupa molhada para as rvores; logo a deixou cair em um arbusto, com cuidado de que no tocasse o p. Morag vinha lhe pisando os tales, avermelhada 
de indignao.
        - Como lhe ocorre? Olhe que roubar roupa! -acusou, acalorada- . Me devolva isso!
        - No a roubei -lhe assegurou ele- . S queria falar com voc a ss um momento.
        - Sim? -Ela o olhou com suspicacia- . Do que?
        - Quero saber se estiver bem.  e seu filho... Jemmy? -Pronunciar esse nome lhe provocou um estranho calafrio; por uma frao de segundo viu a imagem da Brianna 
no vo da porta, com seu filho nos braos, superpuesta  lembrana do Morag com seu beb, na penumbra da adega, disposta a matar ou morrer por conserv-lo.
        - Ah -murmurou ela. A desconfiana desapareceu em parte, substituda por um relutante reconhecimento de seu direito a perguntar- . Estamos bem... os dois. 
E tambm meu marido -acrescentou intencionadamente.
        - Alegra-me sab-lo -assegurou ele- . Alegra-me muito. -Procurou algo mais que dizer; sentia-se incmodo- . Eu... s vezes a lembrana; perguntava-me se... 
se tudo estava bem. E agora, ao v-la... bom, me ocorreu perguntar. Nada mais.
        - OH!, sim. Compreendo, sim. Pois muito obrigado, senhor MacKenzie. -Disse-o olhando-o diretamente aos olhos, srios os seus- . Sei o que voc fez por ns. 
No o esquecerei; todas as noites o menciono em minhas oraes.
        - OH!... -Roger teve a sensao de que um peso leve o tinha golpeado no peito- . N... obrigado.
        perguntou-se mais de uma vez se ela o recordaria. Se recordava o beijo que lhe tinha dado naquela adega, procurando a fasca de seu calidez como escudo contra 
o frio da solido. Pigarreou, ruborizado pela lembrana.
        - Vive perto daqui?
        Ela sacudiu a cabea; algum pensamento, alguma lembrana lhe fez apertar os lbios.
        - Antes sim, mas... No vem ao caso. -Sbitamente lhe voltou as costas para retirar a roupa molhada do arbusto; sacudia objeto por gosta muito antes de preg-la- 
. Agradeo-lhe seu interesse, senhor MacKenzie.
        Obviamente, dava por terminada a conversao. Ele se secou as mos nas calas e trocou de posio. No queria afastar-se. Devia lhe dizer... mas detrs hav-la 
reencontrado sentia uma estranha relutncia a separar-se dela detrs hav-la posto sobreaviso; borbulhava de curiosidade. Curiosidade e uma peculiar sensao de 
vnculo.
        Possivelmente no fora to peculiar; essa mujercita moria era de sua famlia, a nica pessoa de seu prprio sangue que tinha encontrado depois da morte 
de seus pais. E ao mesmo tempo era muito peculiar, sim; compreendeu-o at enquanto alargava a mo para curv-la em volto do brao do Morag. depois de tudo, ela era 
sua antepassada direta, uma av de vrias geraes atrs.
        A mulher ficou rgida e tratou de largar-se, mas ele a reteve. Embora tinha a pele fria pela gua, Roger sentiu o palpitar de seu pulso sob os dedos.
        - Espere -disse- . Por favor. Um momento. Eu... devo lhe dizer... algumas costure.
        - No, nada disso. Preferiria que no me dissesse nada. -Ela atirou com mais fora e se liberou.
        - Seu marido, onde est? -O crebro do Roger comeava a relacionar tardiamente algumas ideia. Se ela no vivia perto, era o que ele tinha pensado ao v-la: 
uma das mulheres que acompanhavam aos exrcitos. Mas teria apostado a vida a que no era prostituta; portanto seguia a seu marido, e isso significava que...
        - Est muito perto! -Ela retrocedeu um passo.
        Roger se interps entre ela e o arbusto com a penetrada; para recuperar suas anguas e suas meias teria que acontecer seu lado. de repente caiu na conta 
de que Morag lhe tinha um pouco de medo; ento girou precipitadamente para arrebatar algumas objetos ao azar.
        - Perdoe. Sua penetrada... Aqui tem.
        Ela as agarrou como por reflexo. Algo caiu ao cho: um vestido de beb. Ambos se agacharam para recolh-lo e chocaram as frentes com um golpe slido.
        - OH! OH! Pela Mara e Santa Bride! -Morag se esfregou a cabea, sem soltar os objetos molhados que estreitava contra o seio, com uma s mo.
        - Cristo! Est voc bem? Morag... senhora MacKenzie... est bem? Sinto-o muito! -Roger a tocou no ombro, olhando-a com olhos lagrimeantes de dor. agachou-se 
para recolher o pequeno vestido que tinha cansado entre ambos e fez um vo esforo por lhe limpar as manchas de barro.
        - Estou bem, sim. -depois de enxug-los olhos e sorver pelo nariz, tocou apenas o ponto dolorido da frente- . Tenho a cabea dura, como dizia minha me. 
E voc? Est bem?
        - Bem, sim. -Roger tambm se tocou a frente. de repente cobrava conscincia de que a curva do osso sob sua mo se repetia com exatido na cara que tinha 
ante si. a dela era mais pequena, mais ligeira... mas a mesma- . Eu tambm tenho a cabea dura. -Sorriu-lhe de brinca a orelha, ridiculamente feliz- .  coisa de 
famlia.
        E lhe entregou o objeto manchado de barro.
        - Sinto-o muito -se desculpou outra vez, no s pelo vestido sujo- . Seu marido. Perguntei-lhe por ele porque... est com os reguladores, verdade?
        -  obvio. Voc no?
        - No -respondeu- . vim com a tropa. -Assinalou com uma mo a fumaa do acampamento do Tryon, a boa distncia.
        Os olhos do Morag voltaram a expressar cautela, mas no medo. Ele estava sozinho.
        - Isso  o que desejava lhe dizer -explicou ele- . lhes advertir, a voc e a seu marido. Esta vez o governador vai a srio; trouxe tropas organizadas e canhes. 
Muitas tropas, todas armadas.
        inclinou-se para ela para lhe entregar o resto das meias molhadas. Ela alargou uma mo, mas manteve os olhos cravados nos dele,  espera.
        - Est decidido a esmagar esta rebelio por qualquer meio. deu ordens de matar, se houvesse resistncia. Compreende voc? Diga-lhe a seu marido. Devem partir 
ambos antes de... antes de que acontea nada.
        Ela empalideceu; sua mo foi cobrir o ventre como por reflexo. A gua da roupa tinha empapado o vestido de musselina; agora se notava o pequeno abultamiento 
escondido ali, redondo e suave como um melo sob o tecido mido. Roger recebeu a descarga desse medo, como se as meias molhadas conduzissem a eletricidade.
        " Antes sim" , tinha respondido ela a sua pergunta de se viviam perto. Talvez s queria dizer que se mudaram a outro lugar, mas... Entre sua penetrada havia 
roupa de beb, tinha a seu filho com ela. Seu marido devia estar nesse hervidero de homens.
        Um homem s podia agarrar sua pistola e unir-se a uma turfa, sem mais motivos que o aborrecimento ou uma bebedeira; um homem casado e com um filho no o 
faria. Isso indicava um descontentamento grave, um problema srio. E se tinha levado a sua esposa e a seu filho  guerra era porque no tinha um lugar seguro onde 
deix-los.
        Provavelmente Morag e seu marido se ficaram sem lar; seu medo era perfeitamente compreensvel. Se matavam ou mutilavam a seu marido, como faria ela para 
manter ao Jemmy e ao beb que tinha em seu ventre? No tinha ali famlia que pudesse ajud-la.
        Em realidade, tinha famlia, s que o ignorava. Lhe aferrou a mo para atrai-la para si, afligido pela necessidade de proteg-los, a ela e a seus filhos. 
Uma vez os tinha salvado; podia faz-lo novamente.
        - Morag -disse- . Me escute. Se algo lhe acontecesse, o que fosse, v para mim. Se necessitar algo, algo. Eu cuidarei de voc.
        Ela no fez esforo algum por largar-se. Roger sentiu o irresistvel impulso de criar algum contato fsico entre ambos, esta vez tanto por ela como por si 
mesmo. inclinou-se para diante para beij-la com muita suavidade.
        Logo abriu os olhos e levantou a cabea. tirou o chapu olhando por cima de seu ombro, para a cara incrdula de seu tatarabuelo.
        - Com exceo de se de minha mulher.
        William Buccleigh MacKenzie saiu dos arbustos com uma expresso sinistra na cara. Era alto e muito largo de ombros. Qualquer outro detalhe pessoal parecia 
carecer de importncia, considerando que tambm tinha uma faca. Ainda estava embainhado, mas a mo do homem descansava sobre o punho de uma maneira muito significativa.
        - No quis lhe faltar ao respeito -disse, erguendo lentamente as costas. Qualquer movimento brusco parecia imprudente- . Ofereo-lhe minhas desculpas.
        - No? E que diabos quis fazer, pois? -MacKenzie apoiou uma mo possessiva no ombro de sua mulher, fulminando ao Roger com o olhar.
        - Conheci sua esposa... e tambm a voc... faz um ou dois anos, a bordo do Gloriana. Ao reconhec-lame ocorreu perguntar como estava a famlia. Isso  tudo.
        - No queria me fazer danifico, William. -Morag tocou a mo de seu marido e a dolorosa presso afrouxou- . O que diz  certo. No o reconhece?  o que me 
encontrou com o Jemmy na adega, quando nos escondemos ali; trouxe-nos gua e comida.
        - Voc me pediu que cuidasse deles -adicionou Roger, intencionadamente- . Durante a briga, aquela noite em que os marinheiros jogaram nos doentes ao mar.
        - Sim? -As faces do MacKenzie se relaxaram um pouco- . Com que era voc? Na escurido no lhe vi a cara.
        - Eu tampouco vi a sua.
        Agora a via com claridade; face ao incmodo das circunstncias, no pde menos que estud-la com interesse. De modo que esse era o filho no reconhecido 
do Dougal MacKenzie, antigo chefe de guerra dos MacKenzie do Leoch. Lhe notava. Sua cara era uma verso mais robusta, mais quadrada, mais loira, mas ao olhar melhor 
Roger identificou sem dificuldade os mas do rosto largos, a frente larga que Jamie Fraser tinha herdado do cl materno. Isso e a estatura: William superava o metro 
oitenta.
        O homem se girou um pouco para ouvir um rudo na espessura. Dois homens saram das matas, cautelosos e sujos pela vida na intemprie. Um deles trazia um 
mosquete; o outro s um tosco pau, feito com um ramo queda.
        - Quem , Buck? -perguntou o do mosquete, observando ao Roger com alguma desconfiana.
        - Isso  o que quero averiguar. -O momentneo abrandamento tinha desaparecido, deixando um gesto carrancudo na cara do MacKenzie. Apartou a sua esposa com 
um leve empurro- . V com as outras mulheres, Morag. Eu me ocuparei deste tio.
        - Mas William... - Ela os olhou a ambos- . Mas se no ter feito nada...
        - Parece-te que no  nada, tomar-se atrevimentos contigo  vista de todos, como se fosse uma qualquer? -William lhe cravou um olhar sombrio.
        - Eu... no, quero dizer.. isso foi... ele foi bondoso conosco, no deveramos...
       - Vete, hei dito!
        Morag abriu a boca para protestar, mas se encolheu de medo ao lhe ver faz um sbito movimento para ela, com o punho apertado. Sem um instante de deciso 
consciente, Roger elevou o punho da cintura e o estrelou contra a mandbula do MacKenzie.
        William, pego por surpresa, cambaleou-se e caiu de joelhos, movendo a cabea como boi desnucado. O grito afogado do Morag se perdeu entre as exclamaes 
dos outros homens. antes de que pudesse enfrentar-se a eles, Roger ouviu um rudo detrs dele: era o frio estalo de uma pistola martelada.
        Houve um breve " pst!"  de plvora acesa; logo a arma se disparou com um rugido e uma baforada de fumaa negra. Todos deram um coice e se cambalearam pelo 
rudo. Roger se encontrou lutando confusamente com um dos outros; ambos tossiam, mdio ensurdecidos. Enquanto se largava de seu atacante viu que Morag, de joelhos 
entre as folhas, limpava a cara a seu marido com um objeto molhado. William a apartou com rudeza e se levantou para jogar-se para o Roger, com os olhos saltados 
e a cara arroxeada de fria.
        Roger girou sobre seus tales, escorregando entre as folhas, e se desprendeu do homem do mosquete para refugiar-se entre as matas. Um momento depois cruzava 
a espessura, rompendo ramos, arranhando-a cara e os braos. detrs dele se ouviam fortes estalos e uma respirao ofegante. Uma mo de ferro o sujeitou pelo ombro.
        Agarrou essa mo e a retorceu com fora. ouviu-se um rangido de articulao e osso. O dono daquela mo se apartou com um chiado, enquanto Roger se jogava 
de cabea por uma abertura entre a maleza.
        Caiu sobre um ombro, meio acurrucado, e rodou sobre si; depois de romper um pequeno arbusto, deslizou-se como por um tobog por um ngreme ribazo de argila, 
at cair  gua com um chapinho.
        esforou-se por afirmar os ps, entre tosses e tapas, sacudindo o cabelo e a gua dos olhos, s para ver o William MacKenzie de p no alto do ribazo. Ao 
ver seu inimigo em tanta desvantagem, ele tambm se lanou com um grito.
        Um pouco parecido a uma bala de canho se estrelou contra o peito do Roger e o fez cair novamente  gua. No podia respirar, no via nada, mas lutou contra 
o enredo de roupas, membros e barro revolto, tratando inutilmente de fazer p; os pulmes lhe estalavam por falta de ar.
        Apareceu a cabea por cima da superfcie, boqueando como um peixe para tragar ar. Ouviu o assobio de seu prprio flego e tambm o do MacKenzie. O outro 
se apartou e fez p algo mais  frente, ofegando como uma locomotiva. Roger se agachou, palpitante, com as mos apoiadas nas coxas e os braos trmulos pelo esforo. 
Logo se endireitou, apartando o cabelo molhado que lhe pegava  cara.
        - Olhe -comentou, ofegando.
        No disse mais, pois MacKenzie, que ainda respirava tambm com dificuldade, avanava para ele com a gua  cintura. Tardiamente, Roger recordou algo mais. 
Esse homem era filho do Dougal MacKenzie. Mas tambm o filho do Geillis Duncan, a bruxa.
        Em algum lugar, alm dos salgueiros, ouviu-se um forte estrondo. A batalha tinha comeado.
      
      
      
      65
      
      Alamance
      
      
      Depois, o governador enviou sua carta ao capito Malcom, um de seus ajudantes, e ao delegado do Orange; nela requeria a quo rebeldes depuseram as armas, entregassem 
a seus cabeas e demais. O capito Malcom e o delegado retornaram ao redor das dez e meia, com a informao de que o delegado lhes tinha lido a carta quatro vezes 
a diferentes divises de rebeldes, quem rechaou com desdm os trminos oferecidos, dizendo que no queriam tempo para as analisar; e com clamores rebeldes chamaram 
 batalha.
                                             " Jornal da expedio contra os insurgentes" , W. Tryon
      
      
      Estejam alertas se por acaso vem o MacKenzie. -Jamie tocou ao Geordie Chisholm no ombro. O outro girou a cabea, aceitando a mensagem com um ligeiro gesto.
        Avanou para o primeiro posto apartando a maleza com tanta violncia como se fora um inimigo. Se estavam alerta veriam o MacKenzie a tempo e no lhe disparariam 
por engano. Ao menos isso se disse, sabendo perfeitamente que em meio dos inimigos e no calor da batalha, uma dispara ante algo que se mova.
        Logo, para seu alvio, no houve mais tempo para pensar, pois saram a campo aberto e os homens se disseminaram correndo, agachados e serpenteando pela erva, 
em grupos de trs e quatro, como ele lhes tinha ensinado: tinha que haver um soldado com experincia em cada grupo. Em algum lugar, detrs deles, o primeiro caonazo 
surgiu como um trovo em um cu ensolarado.
        Ento viu os primeiros reguladores; um grupo vinha pela direita, correndo ao campo raso. Ainda no tinham visto seus homens.
        antes de que os divisassem, ele uivou:" Casteal an DUIN!"  E carregou contra eles com o mosquete em alto, como sinal para os que o seguiam. O ar se partiu 
em alaridos. Os reguladores, agarrados por surpresa, detiveram-se amontoados, gesticulando as armas e incomodando-se entre eles.
        - Thugham! Thugham! -A mim, a mim. J estava o bastante perto. Cravou um joelho em terra, agachou-se sobre o mosquete, apontou e disparou sobre a cabea 
dos homens apinhados.
        detrs dele se ouviu o grunhido de seus homens que assumiam a formao de fogo, o estalo do pederneira e, por fim, o rudo ensurdecedor da descarga. Um ou 
dois dos reguladores se agacharam para responder ao fogo. Os outros correram em busca de refgio, para uma pequena elevao coberta de erva.
        - A draigha! Esquerda! Nach links! lhes cortem o passo! -ouviu-se gritar a si mesmo. Mas o tinha feito sem pens-lo; j ia correndo.
        O pequeno grupo de reguladores se desfez; uns quantos correram para o arroio; os outros, juntos como ovelhas, galopavam para o amparo da elevao. Chegaram 
a tempo e desapareceram depois da curva da colina. Jamie chamou a suas tropas com um assobio, capaz de ouvir-se sobre o trovejar dos canhes. J se ouviam disparos 
de mosquete  esquerda. Partiu nessa direo crdulo em que os outros o seguiriam.
        Foi um engano; ali a terra era pantanosa; estava cheia de fossas lamacentos e barro aderente. Lanou um grito e agitou o brao, lhes indicando retroceder 
para o stio mais alto. Que o inimigo viesse para eles cruzando o pntano, se  que podia.
        O terreno alto estava talher de densas malezas, mas pelo menos estava seco. Ele agitou a mo bem aberta para que os homens se disseminassem para refugiar-se.
        Avanou lentamente para poente, alerta. Ali o matagal se compunha de zumaque e escaramujo, matagais de saras que chegavam at a cintura e grupos de pinheiros 
que se elevavam por cima da cabea. A visibilidade era escassa, mas poderia ouvir qualquer que se aproximasse muito antes de v-lo... ou de ser visto.
        Nenhum de seus homens estava  vista. J refugiado em um grupo de discos, emitiu uma reclamao aguda, como o da codorna. Outros gritos similares surgiram 
desde atrs; nenhum de diante. Bem: agora cada um sabia, mais ou menos, onde estavam outros. Avanou com cautela, abrindo-se passo entre a maleza.
        Ao sentir um tamborilar de pegadas se apertou contra os ramos de um disco, com os leques de escuras agulhas balanando-se sobre ele e o mosquete preparado 
para apontar por uma abertura das matas. Quem quer que fosse vinha depressa. Entre o ranger de ramillas pisadas e o rudo de uma respirao dificultosa, um jovem 
surgiu entre o matagal, ofegante. No tinha pistola, mas em sua mo cintilava uma faca de esfolar.
        Nada mais veracreditou conhecer esse moo. antes de que seu dedo pudesse relaxar-se contra o gatilho, sua memria ps nome a essa cara.
        - Hugh! -exclamou, em voz baixa mas penetrante- . Hugh Fowles!
        O jovem deixou escapar um chiado de sobressalto e se deu a volta. Ao ver o Jamie com sua pistola, entre a cortina de agulhas, ficou petrificado como um coelho.
        Uma determinao movida pelo pnico se refletiu em sua cara: imediatamente se lanou para o Jamie, gritando. Fraser, sobressaltado, teve apenas tempo de 
levantar o mosquete para deter a adaga com seu canho, empurrando-o para cima e para trs; a folha escorregou no canho com um chiado metlico e lhe roou os ndulos. 
Quando o jovem Hugh levantou o brao para apunhal-lo, lhe atirou um chute no joelho e se apartou, e o moo, perdido o equilbrio, caiu para um lado; a faca saiu 
disparado, dando voltas no ar.
        Jamie chutou outra vez ao moo fazendo-o cair. A faca ficou parecido no cho.
        - Quer te estar aquieto? -disse, bastante irritado- .  que no me reconhece?
        No teria podido dizer se Fowles o reconhecia ou no, nem sequer se o tinha escutado. Com a cara branca e os olhos fixos, debatia-se em um ataque de pnico, 
ofegante, tratando de levantar-se e de liberar sua faca ao mesmo tempo.
        - por que no...? -comeou Jamie. Imediatamente deu um coice, pois Fowles tinha renunciado  faca e se lanava para diante com um grunhido de esforo.
        O peso do moo o arrojou para trs. Suas mos o arranharam em busca do pescoo. Ele deixou cair o mosquete, ps o ombro contra a mo do menino e o deteve 
com um brutal murro no ventre. Hugh Fowles se derrubou feito uma bola no cho, retorcendo-se como uma centopia ferida.
        Mais rudo de pegadas que corriam. Logo que teve tempo de levantar o mosquete antes de que as matas se abrissem uma vez mais. Era Joe Hobson, o sogro do 
Fowles, com o mosquete preparado.
        - Detenha! -Jamie, escondido depois da arma, apontou a boca para o peito do homem.
        - O que lhe tem feito? -Seus olhos foram do Jamie ao genro e voltaram.
        - Nada definitivo. Baixa a arma, quer?
        Hobson no se moveu. Estava sujo e com a barba enchente, mas seu olhar era vivaz e alerta.
        - No quero te fazer danifico. Baixa isso!
        - No nos deixaremos capturar -disse Hobson.
        - J esto capturados, estpido. Mas no se preocupe, que nem voc nem o moo sofrero dano algum. est-se mais seguro no crcere que aqui, homem!
        Um estrondo sibilante confirmou essa afirmao: algo voou por entre as rvores, um par de metros mais acima, rompendo os ramos a seu passo. " Bala de cadeia" 
, pensou Jamie automaticamente, enquanto se agachava por reflexo, com as vsceras crispadas.
        Hobson deu um coice de terror e girou o canho de seu mosquete para o Jamie. Imediatamente saltou outra vez, com os olhos dilatados pela surpresa: uma mancha 
vermelha floresceu lentamente em seu peito. Ele se olhou com ar desconcertado; o canho de sua pistola descendeu como caule murcho. Logo deixou cair a arma, sentou-se 
bruscamente e, apoiando as costas contra uma rvore cansada, morreu.
        Jamie girou sobre seus tales, ainda agachado. Geordie Chisholm estava atrs dele, com a cara mdio enegrecida pela fumaa de seu disparo.
        ouviu-se novamente o trovejar da artilharia e um segundo projtil atravessou a ramagem, at cair a pouca distancia com um golpe seco, que Jamie percebeu 
atravs das reveste. Ento se arrojou de barriga para baixo para arrastar-se para o Hugh Fowles, que se tinha incorporado sobre mos e joelhos e estava vomitando.
        Ele o aferrou do brao e atirou com fora, sem emprestar ateno ao atoleiro de vmito.
        - Vem! -Agarrado pela cintura e um ombro, arrastou-o para o refgio do bosquecillo- . Geordie! Geordie, me ajude!
        Ali estava Chisholm. Entre ambos puseram ao Fowles de p e, mdio em velo, mdio a rastros, levaram-no com eles, tropeando em sua carreira.
         esquerda algum surgiu entre os arbustos. Jamie levava a arma na mo esquerda; elevou-a por reflexo e disparou. Cruzou a tropices sua prpria fumaa, 
enquanto o homem contra quem tinha disparado punha-se a correr sem tino, chocando-se com as rvores.
        Fowles j podia manter-se em p; Jamie lhe soltou o brao, deixando que Geordie carregasse com ele, e cravou um joelho em terra. Procurou s cegas a plvora 
e o projtil, rasgou o cartucho com os dentes e a verteu dentro, introduziu a carga a fundo, encheu a cazoleta, verificou o pederneira... Ao levantar o canho mostrou 
os dentes, consciente pela metade do que fazia. Trs homens se aproximavam para eles. Apontou ao primeiro. Com um ltimo resto de conscincia, disparou por cima 
de suas cabeas e o mosquete recuou em suas mos. Os homens se detiveram; ele baixou a arma, desenvain a adaga e carregou contra eles, entre uivos.
        As palavras lhe queimavam a garganta, j irritada pela fumaa.
        - Corram!
        viu-se como de longe. E pensou que estava fazendo quo mesmo com o Hugh Fowles. E lhe tinha parecido uma estupidez.
        - Corram!
        Os homens se dispersaram como perdizes em vo. Como teria podido fazer um lobo, ele se lanou depois do mais lento. O homem ao que perseguia olhou para trs 
e, com um alarido de terror, chocou-se contra uma rvore. Jamie se jogou sobre sua presa; ao aterrissar contra suas costas sentiu o rangido elstico das costelas 
sob seus joelhos. Agarrou-o dos cabelos e atirou para lhe levantar a cabea. Teve que conter-se para no cortar o pescoo nu que tinha ante si, estirado e indefeso. 
Podia sentir o impacto da folha na carne, o calor do sangue ao brotar. E o desejava.
        Tragou o ar a grandes baforadas, ofegante. Com muita lentido apartou a faca do pulso acelerado.
        -  meu prisioneiro -disse.
        O homem o olhou sem compreender. Chorava; as lgrimas riscavam sulcos no p de sua cara. Tentou falar entre soluos, mas nessa posio no podia agarrar 
flego para formar as palavras. Jamie caiu na conta de que tinha falado em galico: o homem no compreendia.
        Afrouxou lentamente o punho e se obrigou a lhe soltar a cabea. Procurou provas as palavras inglesas, sepultadas sob a sede de sangue que palpitava em seu 
crebro.
        - ... meu... prisioneiro -balbuciou por fim, ofegando entre uma palavra e outra.
        - Sim, sim! Como quero, mas no me mate, por favor, no me mate. -O homem se acurrucaba debaixo dele.
        apartou-se lentamente de seu prisioneiro para ajoelhar-se junto ao corpo tendido. de repente sentiu uma ternura para esse homem. Alargou a mo para toc-lo, 
mas ao sentimento lhe seguiu uma sensao de horror, igualmente repentina, que desapareceu com a mesma prontido.
        - te levante. -Tremiam-lhe as mos. Teve que fazer trs intentos para embainhar a adaga.
        - Ciamar a tha thu, MAC Dubh? -Ronnie Sinclair estava a seu lado e lhe perguntava se estava bem.
        Assentiu com a cabea e deu um passo atrs, enquanto Sinclair ajudava ao homem a levantar-se e o obrigava a que desse a volta a sua jaqueta. Os outros foram 
chegando: Geordie, os Lindsay, Gallegher se amontoavam em torno dele, como limagens de ferro atradas por uma parte de m.
        Os outros tambm tinham feito prisioneiros: seis em total. Entre eles estava Fowles, plido e miservel.
        Jamie j sentia a mente limpa, embora seu corpo seguisse lasso e pesado.
        - Pergunta se tiverem visto o MacKenzie -disse ao Kenny Lindsay em galico, fazendo um pequeno gesto aos prisioneiros.
        Entre os que conheciam o Roger MacKenzie, ningum o tinha visto. Jamie fez um gesto afirmativo e se limpou com a manga os restos de suor.
        - Haja ou no retornado so e salvo, o que vs tinham que fazer, tm-no feito muito bem, moos. Agora, vamos. 
      
      
      66
      
      Um sacrifcio necessrio
      
      
      Aquela mesma noite enterraram aos mortos com honras militares. Trs proscritos capturados na batalha foram enforcados diante do exrcito. Isso brindou grande 
satisfao aos homens e, nesse momento, foi um sacrifcio necessrio para apaziguar as falaes das tropas, quem solicitava que se fizesse imediatamente justia 
pblica contra alguns proscritos agarrados durante a ao, pela que se arriscaram a tantos perigos e sofrido tanta perda de vidas e sangue.
                                             " Jornal da expedio contra os insurgentes" , W. Tryon
      
      
      Roger atirou com fora da soga que lhe rodeava as bonecas, mas s pde afundar um pouco mais na pele esse tosco esparto. Sentia o ardor da pele raspada e uma 
umidade que podia ser sangue, mas tinha as mos to intumescidas que no estava seguro.
        Estava tendido onde Buccleigh e seus amigos o tinham arrojado depois de atar o de ps e mos,  sombra de um tronco cansado e empapado pela gua do rio. 
Tinham-no amordaado com a bandeira de trgua to pega  garganta que quase o afogava, e seu prprio corbatn em torno da boca.
        A pouca distncia ainda se ouviam disparos; j no eram descargas, a no ser uns quantos estalos desiguais. O ar emprestava a fumaa de plvora; de vez em 
quando algo chegava assobiando entre as rvores, como um falatrio sem sentido, com um tremendo rasgar de ramos e folhas. Bale em cadeia? Balas de canho?
        Uma delas tinha cansado um momento antes no ribazo, onde se afundou com uma pequena exploso de barro, interrompendo momentaneamente a briga. Um dos amigos 
do Buccleigh lanou um grito e ps-se a correr, chapinhando, para o amparo das rvores; o outro, em troca, seguiu dando golpes e tapas, sem emprestar ateno aos 
disparos e os gritos, at que ele e Buccleigh conseguiram lhe afundar a cabea sob a gua e sujeit-lo ali.
        Por fim conseguiu incorporar-se sobre os joelhos, dobrado como um verme, mas sem atrever-se a levantar a cabea, por medo de que a voasse algum disparo. 
Esfregou a cara com fora contra a casca do tronco que estava mdio desprendida, em um intento de arrancar a banda de tecido atado em torno de sua cabea. Deu resultado. 
entupiu-se no coto de um ramo e, ao dar um puxo para cima, pde baixar o corbatn por debaixo de seu queixo. Entre grunhidos de esforo, empurrou o leno para fora, 
enganchou-o no mesmo ramo e retrocedeu; o trapo molhado saiu de sua garganta, como se fora um tragasables mas ao reverso.
        Ao fim podia respirar. E agora? Os disparos continuavam. A sua esquerda ouviu o rudo de vrios homens que se abriam passo entre as matas, sem que os obstculos 
os detiveram.
        Vrios ps corriam para ele; agachou-se do tronco, bem a tempo para evitar que o esmagasse um corpo que passou catapultado sobre ele. Seu novo companheiro 
engatinhou at apertar-se contra o lenho; s ento reparou em sua presena.
        - Voc! -Era Barba Negra, do acampamento do Husband. Aferrou-o pelo peitilho da camisa para aproximar-lhe Tudo isto  tua culpa! Bode!
        - Solta, louco!
        S ento o tipo notou que ele estava pacote e o soltou, estupefato. Roger, perdido o equilbrio, caiu de lado e se raspou dolorosamente a cara contra a casca 
do tronco. Os olhos de Barba Negra, exagerados de assombro, entreabriram-se gozosamente.
        - Homem, com que lhe capturaram! Pois sim que estamos de sorte! Quem te prendeu, idiota?
        -  meu. -Uma voz grave, de acento escocs, anunciou a volta do William Buccleigh MacKenzie- . Como  isso de que tudo  culpa dele? A que te refere?
        - A isto! -Barba Negra estirou um brao para assinalar os arredores e a batalha moribunda.
        - Este condenado pico de ouro veio esta manh ao acampamento e se levou ao Hermon Husband para lhe falar em privado. No sei que diabos lhe disse, mas, quando 
acabou, Husband montou a cavalo, disse a todos que voltssemos para casa e partiu!
        Barba Negra cravou no Roger um olhar fulminante e, jogando a mo atrs, esbofeteou-o com fora.
        - O que lhe disse, bode?
        Sem guardar resposta se voltou para o Buccleigh, que os olhava a ambos com profundo interesse.
        - Se Hermon se ficou conosco talvez teramos podido resistir -clamou- . Mas que se fora desse modo nos escavou o cho sob os ps. Ningum sabia o que fazer. 
E quando menos o esperava, tryon nos grita que nos rendamos. No era algo que se pudesse fazer, certamente, mas tampouco estvamos o que se diz preparados para combater...
        Ao dizer isso, vendo que Roger o observava, lhe apagou a voz ao recordar que esse homem o tinha visto fugir apavorado.
        Ao outro lado do tronco se fez o silncio; os disparos tinham cessado. Roger caiu na conta de que a batalha estava terminada e completamente perdida. O mais 
provvel era que os milicianos invadissem muito em breve esse lugar.
        - O que disse ao Husband  o que lhes digo a vs -manifestou- . O governador est decidido a esmagar esta rebelio e, por isso se v, acaba de faz-lo. Se 
lhes interessa salvar o pele... - Barba Negra, com um uivo de ira, agarrou-o pelos ombros e tentou estelar o a cabea contra o tronco. Roger se retorceu como uma 
enguia, tornando-se para trs, com o que conseguiu largar-se; logo o golpeou com a frente em pleno nariz. Sentiu um satisfatrio rangido de osso e cartilagem e o 
calor mido do sangue contra a cara.
        Era a primeira vez que aplicava a algum " o beijo do Glasgow" , mas ao parecer surgia espontaneamente. O impacto lhe tinha deixado a boneca dolorida, mas 
j no importava. S desejava que Buccleigh se aproximasse o suficiente para lhe fazer o mesmo.
        O outro o olhou com uma mescla de diverso e cauteloso respeito.
        - Ah, com que  homem de talento, n? Traidor, ladro de algemas e, alm disso, grande lutador, tudo no mesmo pacote, no?
        Barba Negra se levantou, afogando-se no sangue do nariz rota, mas Roger no lhe emprestou ateno. J lhe tinha espaoso a vista e no a separava do Buccleigh; 
sabia qual desses dois representava a pior ameaa.
        - O homem que est seguro de sua esposa no teme que algum outro a roube -disse, logo que moderada a ira pela cautela- . Eu estou seguro de minha esposa 
e no necessito a tua, amadain.
        Buccleigh estava bronzeado pelo sol e muito avermelhado pela luta, mas a suas bochechas subiu um vermelho mais escuro. Mesmo assim manteve a compostura.
        - Ah!, est casado -disse, com um pequeno sorriso- . Bastante feia tem que ser sua esposa para que devas fareje a minha. Ou acaso te jogou que sua cama porque 
no sabia servi-la decentemente?
        A presso da corda nas bonecas recordou ao Roger que no estava em situao de intercambiar palavras fortes.
        - A menos que queira deixar viva a essa tua esposa,  hora de que v, no? -disse. Apontou com a cabea para o lado oposto do tronco onde ao breve silncio 
seguia um rumor de vozes distantes.
        - A batalha terminou e sua causa est perdida. No sei se pensam tomar prisioneiros...
         - tomaram a vrios. -Buccleigh o olhou franzindo o sobrecenho obviamente indeciso.
        -  melhor que v enquanto possa -sugeriu- . Sua esposa estar preocupada.
        Mencionar outra vez ao Morag foi um engano. A cara do Buccleigh se obscureceu ainda mais, mas antes de que pudesse dizer nada o interrompeu a apario da 
nomeada em pessoa, em companhia do homem que, momento antes tinha ajudado a amarr-lo.
        - Will! OH, Willie, est a salvo, graas a deus! Tem alguma ferida? -estava plida e preocupada; trazia em braos a um menino pequeno.
        - no se preocupe, Morag -respondeu buccleigh, resmungo- . No sofri nenhum dano.
        Deu-lhe umas palmadas afetuosas na mo e um tmido beijo na frente. Seu companheiro, sem emprestar ateno a esse tenro reencontro, aulou ao Roger com a 
ponteira da bota, muito interessado.
        - O que faremos com isto, Buck?
        Buccleigh apartou momentaneamente a ateno de sua esposa. Morag, ao ver o Roger no cho, sufocou um grito e se levou uma mo  boca.
        - O que tem feito, Willie? -exclamou- . Solta-o, pela Santa Bride!
        - Nada disso.  um sujo traidor. -Buccleigh apertou os lbios em uma linha carrancuda, obviamente aborrecido pelo fato de que sua esposa se fixasse no prisioneiro.
        - No, no pode ser! -Com o menino apertado contra o seio, Morag se inclinou para observar ao Roger. Ao ver o estado de suas mos se voltou para seu marido 
com uma exclamao indignada- . Hill! Como pudeste tratar assim a este homem, depois do que fez por sua esposa e por seu filho?
        - te largue, Morag -disse, expressando os desejos do Roger em uma linguagem menos galante- . Nem voc nem o menino tm nada que fazer aqui. leve-lhe isso 
        Por ento Barba Negra se recuperou um pouco. De p junto ao William, olhava ao Roger com gesto carrancudo, sem soltar o nariz torcida.
        - lhe cortemos o pescoo e acabemos de uma vez. -Sublinhou sua opinio com um chute s costelas do Roger.
        Morag deu um grito feroz e chutou ao agressor na tbia.
        - Deixe-o em paz!
        Barba Negra, pego por surpresa, retrocedeu com um alarido. O outro companheiro do Buccleigh parecia encontrar todo isso mais que divertido, mas sufocou sua 
hilaridade ao ver que o ciumento voltava para ele um olhar horrvel.
        Morag estava de joelhos, com uma pequena adaga entre as mos, tratando de cortar as ataduras do Roger com uma s mo. Por muito que ele agradecesse sua inteno, 
teria sido melhor que no tentasse ajud-lo. O marido a agarrou por um brao para levantar a de um puxo. O pequeno, sobressaltado, rompeu em chiados.
        - Deixa-o, Morag! -bramou Buccleigh- . Vete, vete j!
        - Vete, sim! -interveio Barba Negra, jogando fascas- . Ningum te pediu ajuda, pequena entremetida!
        - Que modo  esse de lhe falar com minha esposa! -Buccleigh girou sobre seus tales e lhe atirou um rpido golpe no estmago.
        O homem caiu sentado, abrindo e fechando comicamente a boca. Roger sentiu certa pena por Barba Negra; ao parecer, no tinha mais sorte que ele mesmo com 
os dois MacKenzie.
        O outro homem, que observava a cena com fascinao, aproveitou a oportunidade para intervir, enquanto Morag tratava de acalmar o pranto de seu beb.
        - No sei o que pensa fazer, Buck, mas ser melhor que o faamos e nos larguemos de uma vez. -Assinalou o arroio, intranqilo. A julgar pelo rumor de vozes, 
dali vinham vrios homens. Os ouvia falar com firmeza; por ende, no podiam ser reguladores em fuga. Milicianos em busca de prisioneiros? Essa era a sincera esperana 
do Roger.
        - Sim. -Buccleigh jogou uma olhada nessa direo e ps uma mo no ombro de sua mulher.
        - Vete, Morag. No quero que corra perigo.
        Ao perceber o sotaque de splica em sua voz ela abrandou a expresso.
        - Irei. Mas voc, William Buccleigh, jurar-me no tocar nem um cabelo a este homem.
        William se exagerou um pouco e apertou os punhos, mas Morag se manteve em seus treze, mida e feroz.
        - Jura-o! -disse- . Pois pela Santa Bride que no compartilharei o leito de um assassino!
        Em bvio conflito, Buccleigh olhou ao carrancudo Barba Negra; logo a seu outro amigo. O grupo de milicianos se estava aproximando. Por fim olhou a sua esposa 
 cara.
        - Est bem, Morag -grunhiu. Logo lhe deu um pequeno tranco- . Agora vete!
        - No. -Lhe agarrou a mo. O pequeno Jemmy, superado o susto, havia-se acurrucado contra o ombro de sua me. Morag apoiou em seu cabecita a mo de seu pai- 
. Jura-o sobre a cabea de seu filho, Will: que no far mal a este homem nem ordenar que o matem.
        Por um momento Buccleigh ficou rgido e o sangue voltou a amontoar-se em sua cara. depois de um momento de tenso fez um s gesto afirmativo.
        - juro-o -disse em voz baixa. E deixou cair a mo.
        Morag, tranqilizada, afastou-se depressa.
        Roger deixou escapar o flego que continha. William o olhava, com os verdes olhos entreabridos em reflexo, alheio a crescente agitao de seu amigo.
        - Vamos, Buck! No h tempo que perder. Dizem que Tryon pensava enforcar aos prisioneiros. E no tenho nenhum interesse em cair!
        - De verdade? -murmurou Buccleigh, olhando a seu cativo aos olhos.
        Por um momento Roger acreditou ver algo familiar nessas profundidades. Pelas costas lhe correu um calafrio de inquietao.
        - Tem razo -disse ao William, assinalando ao outro com a cabea- . Vete. No te denunciarei... por respeito a sua esposa.
        Buccleigh franziu um pouco os lbios, pensativo.
        - no -disse ao fim- , no acredito que me denuncie. -agachou-se para recolher a suja e molhada ex-bandeira de parlamento- . Vete, Johnny. Cuida do Morag. 
Vemo-nos logo.
        - Mas Buck...
        - Vete! No corro perigo. -Com um vago sorriso, sem apartar os olhos do Roger, Buccleigh afundou a mo na taleguilla e extraiu um trocito de metal prateado, 
opaco. Com um pequeno coice, Roger reconheceu sua prpria insgnia militar, com as toscas FC gravadas no disco de estanho.
        William a fez saltar na mo.
        - Tenho uma idia com respeito a este mtuo amigo -disse a Barba Negra, que de repente renovava seu interesse pelos procedimentos- . Acompanha-me?
        Barba Negra olhou ao Roger; logo, ao MacKenzie. Um lento sorriso comeou a crescer sob seu nariz bulboso e avermelhado. Nas costas do Roger, o calafrio de 
intranqilidade se transformou sbitamente em uma verdadeira descarga de medo.
        - Socorro! -bramou- . Socorro, tropa! Auxlio!
        Rodou e se retorceu, tratando de evit-los, mas Barba Negra o agarrou pelos ombros, atirando dele para trs. detrs das rvores se ouviram vozes e um rudo 
de ps que punham-se a correr.
        - No, senhor -disse William Buccleigh, ajoelhado frente a ele. Sujeitou a mandbula do Roger com mo de ferro, estrangulando seus chiados, e lhe espremeu 
as bochechas para obrig-lo a abrir a boca- . No acredito que voc fale, por certo.
        Com um ligeiro sorriso, voltou a colocar o trapo empapado pela garganta do Roger e ou sujeitou com o corbatn destroado.
        Logo se incorporou, com a insgnia de miliciano bem sujeita entre os dedos. Quando as matas se abriram, ele se voltou por volta dos recm chegados com um 
brao elevado em cordial sado. 
                                           
      67
      
      Conseqncias
      
      
      Sendo j as duas e meia, dispersado por completo o inimigo e com o exrcito a cinco milhas do acampamento, considerou-se prudente retornar a ele sem perda 
de tempo. ordenou-se que levassem carretas vazias para carregar aos mortos e feridos de seu bando, e inclusive a vrios feridos rebeldes, quem reconheceu que, se 
tivessem ganho a batalha, no teriam dado quartel a no ser a quem se tivesse unido aos reguladores. At a estes lhes brindou boa ateno e lhes enfaixaram as feridas.
                                             " Jornal da expedio contra os insurgentes" , W. Tryon
      
      
      Uma bala de mosquete lhe tinha destroado o cotovelo ao David Wingate. Abri a articulao com uma inciso semicircular na cara exterior, pela que extra a 
bala deformada e vrias lascas de osso; mas a cartilagem estava muita prejudicada e os tendes do bceps, cortados por completo; tinha  vista o brilho prateado 
de um extremo, bem escondido na carne escura do msculo.
        Mordi-me o lbio inferior, estudando as possibilidades. Se deixava as coisas como estavam, o brao ficaria definitivamente inutilizado. Se conseguia ligar 
o tendo talhado e alinhar os extremos da articulao, talvez recuperasse parte do movimento.
        Passeei a vista pelo acampamento, que agora parecia um estacionamento de ambulncias, semeado de corpos, equipes e vendagens ensangentadas. A maioria desses 
corpos se moviam, graas a Deus, embora s fora para amaldioar ou queixar-se. Um dos homens, gasto por seus amigos, tinha chegado morto; jazia  sombra de uma rvore, 
envolto em sua manta.
        Em geral, quo feridas eu tinha visto eram leves, embora havia dois homens com o corpo atravessado pelos tiros. Por eles no podia fazer nada, salvo mant-los 
abrigados e esperar o melhor.
        Jamie no estava. depois de trazer para seus homens de volta, foi com lindsay para lhe entregar os prisioneiros ao governador... e perguntar no trajeto se 
havia notcias do Roger.
        Os homens seguiam chegando, em grupos de um ou dois, e Bree os olhava com o corao nos olhos. Se algum me necessitava, ela me chamaria. Decidi que tinha 
tempo para tent-lo. Havia pouco que perder, alm do maior sofrimento para o senhor Wingate. Perguntaria-lhe se estava disposto.
        Embora suarento e plido como a cera, mantinha-se erguido. Autorizou-me com um gesto da cabea. Quando voltei a lhe dar a garrafa de usque, a levou a boca 
com a mo livre como se contivera o elixir da vida. Chamei um homem para que lhe mantivera o brao imvel enquanto eu operava e cortei velozmente a pele por cima 
da articulao do cotovelo, em forma de T investida, para deixar ao descoberto a parte inferior do bceps, fazendo-o mais acessvel. Logo pincei com o mais comprido 
de meus frceps at que apareceu o robusto fio chapeado do tendo talhado e atirei dele quanto pude; quando encontrei um stio onde aplicar a sutura, dediquei-me 
ao delicado trabalho de reunir os extremos cortados.
        Ento perdi contato com quanto me rodeava, concentrada toda minha ateno na tarefa. Tinha uma boa agulha de cirurgia e suturas de seda fervida; os pontos 
surgiram pequenos e pulcros: um ntido ziguezague negro que sujeitava com firmeza a malha escorregadia e brilhante. Por fim a pior parte ficou terminada e o tempo 
voltou a avanar. Foi possvel dizer umas palavras reconfortantes ao David, que tinha suportado todo aquilo com galhardia; quando lhe disse que tinha terminado, 
ele fez um dbil intento de sorrir, embora tinha os dentes apertados e as bochechas molhadas de lgrimas. Quando lhe lavei as feridas com lcool diludo uivou, como 
todos; no podiam evit-lo, pobrecitos. Mas logo caiu para trs, tremendo, enquanto eu suturava as incises e lhe enfaixava as feridas.
        Mas isso no requeria grande habilidade nem ateno; gradualmente cobrei conscincia de que alguns homens, detrs de mim, analisavam a batalha recente, cheios 
de elogios para com o  governador Tryon.
        - Voc o viu? -perguntava um deles, com inquietao- .  verdade que hiz o que dizem?
        - Que me arranquem as tripas e as fritem para o caf da manh se no ser certo -replicou seu companheiro, sentencioso- . Vi-o com meus prprios olhos, sim. 
aproximou-se de cavalo at uns cem metros desses porcos e lhes ordenou, cara a cara, que se rendessem. Durante um minuto no houve resposta; eles meio se olhavam 
entre si, para ver quem falava. Por fim algum grita que nem pensar, que no vo render se. Ento o governador, carrancudo para assustar a uma tormenta, faz que 
seu cavalo se eleve de mos e levanta sua espada, e logo a baixa com um grito: " Fogo contra eles!" 
        - E dispararam vocs ao momento?
        - No -interveio outra voz, mais educada e em tom bastante seco- . Parece-te mau? Uma coisa  cobrar quarenta xelins por te unir  tropa; outra muito distinta 
disparar a sangue frio contra seus prprios conhecidos. Olhei ao outro lado e a quem vejo ali?  primo de minha esposa, sonrindome de orelha a orelha! Olhe, no 
digo que esse vadio seja nosso parente favorito, mas posso ir a casa e lhe dizer a meu Rally que acabo de furar a sua primo Millard?
        - Prefervel isso a que o primo Millard faa o mesmo contigo -disse a primeira voz, com um sorriso audvel. O terceiro homem riu.
        -  verdade -reconheceu- . Mas no esperamos a que as coisas chegassem a isso. Ao ver que seus homens vacilavam, o governador ficou vermelho como o muco 
do peru. levantou-se sobre os estribos com a espada em alto e bramou, nos olhando a todos: " Disparem, bodes! Disparem contra eles ou contra mim!" 
        O narrador ps tanto entusiasmo em sua representao que arrancou um murmrio de admirao entre quem o escutava.
        - Esse sim que  um soldado! -disse uma voz, seguida por um rumor geral de acordo.
        - ento disparamos -disse o narrador, com leve encolhimento de ombros perceptvel na voz- . Uma vez que comeamos, no fez falta muito tempo. O primo Millard 
 muito veloz correndo, por isso pudemos ver. O cretino escapou.
        Ante isso houve mais risadas. Sorri ao David e lhe dava umas palmadas no ombro. Ele tambm escutava; a conversao o distraa.
        - No, senhor -assegurou outro- . Acredito que Tryon quer assegur-la vitria. Dizem que vai enforcar aos lderes da Regulao no campo de batalha.
        - O que? -Para ouvir isso girei em redondo, com as ataduras ainda na mo.
        Os homens me olharam com uma piscada de surpresa.
        - Sim, senhora -disse um deles, atirando com estupidez a asa do chapu- . Disse-me isso um tio da brigada do Lillington, que ia desfrutar de do espetculo.
        - Desfrutar -murmurou outro dos homens, fazendo o sinal da cruz-se.
        - Ser uma pena que enforquem ao qualquer -opinou outro, sombrio- . O velho Husband  um demnio imprimindo panfletos, mas no  um criminoso, nem tampouco 
James Hunter ou Ninian Hamilton.
        Voltei para meu trabalho, em um intenso esforo por apagar a imagem do que, nesse momento, estaria acontecendo no campo de batalha.
        Provavelmente o governador pensasse que se requeria um gesto drstico para selar sua vitria, intimidar aos superviventes e esmagar de uma vez para sempre 
a mecha, por comprido tempo ardente, desse movimento perigoso.
        Houve uma comoo e um rudo de cascos. Levantei a vista. junto a mim, Bree elevou bruscamente a cabea, com o corpo tenso... era Jamie quem retornava, com 
o Murdo Lindsay  garupa. Os dois desmontaram. Enquanto Murdo se ocupava do Gideon, ele me aproximou imediatamente.
        Pela expresso preocupada de sua cara compreendi que no tinha notcias do Roger; ele me jogou uma olhada e viu na minha a resposta a sua prpria pergunta. 
Seus ombros se encurvaram um pouco, desalentados, mas logo voltaram a quadrar-se.
        - irei revisar o campo de batalha -disse em voz baixa- . J tenho feito circular a voz entre todas as companhias. Se o levarem a algum outro acampamento, 
algum vir a nos dar aviso.
        - Vou contigo. -Brianna se tirou o avental sujo e o reduziu a uma bola.
        Jamie assentiu.
        - Sim, moa,  obvio. Mas aguarda um momento. Trarei para o Josh para que ajude a sua me.
        - Irei a preparar os cavalos.
        Segui-a com a vista enquanto se afastava cruzando o claro, recolhendo-as saias com dedos tensos. E senti que o contrapeso do medo se desprendia. Caiu como 
uma pedra em meu estmago. 
      
      68
      
      Execuo de ordens
      
      Roger despertou lentamente. No tinha idia de onde estava nem de como tinha chegado ali, mas havia vozes, muitssimas vozes. Percebia a juntura em que sua 
cabea ia estalar pela presso: uma banda ardente no batente de seu crnio.
        Um defeito de sua vista o privava de perspectiva e o fazia ver as coisas em fragmentos: um cacho longnquo de cabeas que flutuavam como um molho de globos, 
um brao ondulante com um estandarte carmesim, como se o tivessem amputado de seu corpo. Vrios pares de pernas que deviam estar perto... Estava acaso sentado no 
cho? Em efeito. Uma mosca passou zumbindo junto a sua orelha e aterrissou em seu lbio superior. Por reflito ele tentou lhe dar um tapa; s ento caiu na conta 
de que estava acordado... e ainda pacote.
        ..Piscou com fora e aspirou profundamente, tratando de aferrar-se a algum fio de realidade, de voltar em si. " Enfoca -pensou- . Sujeita lhe."  Pde captar 
uma palavra aqui e l; prendeu-as com alfinetes para analisar seu significado.
        - Exemplo.
        - Governador.
        - Corda.
        - Mijar.
        - Reguladores.
        - Guisado.
        - Enforcar.
        - Hillsborough.
        - gua.
        " gua."  Essa tinha sentido. Ele sabia o que era a gua. Queria gua. Necessitava-a. Tinha a garganta seca, como se tivesse a boca cheia de... Em realidade 
estava cheia de algo; em um intento inconsciente de tragar, moveu a lngua e lhe provocou uma arcada.
        - Governador.
        A palavra repetida justo em cima dele fez que levantasse a vista. Fixou a viso flutuante em uma cara. Magra, moria, carrancuda de paixo.
        - Est voc seguro? -disse a cara. E ele se perguntou difusamente: " Seguro do que?"  Ele no estava seguro de nada, salvo de sentir-se muito mal.
        - Sim senhor -disse outra voz. E outra cara nadou at ficar  vista junto  primeira. Essa lhe pareceu conhecida; a bordeaba uma densa barba negra- . Vi-o 
no acampamento do Hermon Husband, falando com ele. Pergunte entre os prisioneiros, senhor. J ver que o confirmam.
        A primeira cabea assentiu, girou a um lado e acima, para dirigir-se a algum mais alto. Os olhos do Roger subiram, procurando. Ento se sacudiu com uma 
exclamao afogada ao ver os olhos verdes que o olhavam de acima, indiferentes.
        -  James MacQuiston -disse o homem de olhos verdes, com um gesto de confirmao- . Do Hudgin's Ferry.
        - Viram-no na batalha?
        A imagem do primeiro homem j era bem clara: um tio de aspecto militar, de uns trinta e oito anos, vestido de uniforme. E outra coisa comeava a esclarecer-se... 
James MacQuiston. Ele tinha ouvido nomear ao MacQuiston... O que...?
        - Matou a um homem de minha companhia -disse Olhos Verdes, com voz rouca de ira- . Disparou-lhe a sangue frio quando jazia em terra, ferido.
        O governador... Esse devia ser o governador... Tryon! Esse era seu nome! O governador assentiu, com uma ruga profundamente gravada em sua frente.
        - Levem-no tambm, pois -disse, lhes voltando as costas- . por agora bastar com trs.
        Umas mos aferraram ao Roger pelos ombros at pr o de p. tirou o chapu caminhando pela metade, sustentado por dois homens vestidos de uniforme. Puxou 
contra eles, tratando de girar em busca de Olhos Verdes... Chifres! Como se chamava esse homem? Mas o obrigaram a partir, a tropices, rumo a uma pequena elevao 
coroada por um imenso carvalho branco.
        Muito homens rodeava essa elevao, mas se retiraram para abrir passo ao Roger e a seus guardies.
        " MacQuiston" , pensou, com o nome sbitamente claro na memria. Era um lder secundrio da Regulao, um bagunceiro do Hudgin's Ferry.
        por que diabos Olhos Verdes...? Buccleigh! Era Buccleigh. Ao alvio de recordar o nome seguiu imediatamente o espanto de compreender que Buccleigh o tinha 
feito passar pelo MacQuiston. por que...?
        No teve tempo sequer de formul-la pergunta. As ltimas filas se abriram ante ele. Ento viu os cavalos debaixo da rvore e os ns corredios que pendiam 
de seus ramos, sobre as cadeiras vazias.
      
      
      Sujeitaram aos cavalos pela cabea enquanto montavam aos homens. Sentiu o roce das folhas nas bochechas e as ramitas que lhe enredavam no cabelo; por instinto 
agachou a cabea para proteger os olhos.
        Ao outro lado do claro viu uma silhueta de mulher, mdio escondida entre a multido, com a inconfundvel curva de um menino no brao.
        jogou-se em um lado, com as costas arqueada, e sentiu que se escorregava. No tinha mos com que proteger-se. Outras mos o sujeitaram e o devolveram a seu 
stio; uma delas o golpeou com fora na cara. Ele sacudiu a cabea, com os olhos aquosos. Atravs do borro de lgrimas viu que a mulher entregava sua carga a algum 
e, com as saias recolhidas, punha-se a correr.
        Ao outro lado do claro a criatura comeava a chiar por sua me. A multido tinha ficado em silncio e os gritos do beb se ouviam com fora. O soldado moreno, 
montado em seu cavalo, sustentava a espada em alto. Pareceu dizer algo, mas Roger no ouviu nada: o sangue lhe rugia nos ouvidos.
        Os ossos de suas mos emitiram um estalo seco; uma linha de calor lquido lhe correu com o passar do brao: um msculo esmigalhado. A espada descendeu com 
um d-lhe o de sol contra a folha. As ndegas do Roger se deslizaram por cima da garupa do animal e suas pernas ficaram pendurando, indefesas. Um puxo dilacerador...
        E girava, sufocando-se, lutando por respirar. Seus dedos arranharam a corda afundada na carne. Por fim tinha as mos livres, mas j era muito tarde: no 
havia sensao nelas, no podia as dirigir.
        Ficou balanando-se e esperneando. De entre a multido surgiu um longnquo rumor. Chutou, corcoveou, procurando com os ps no ar vazio, rasgando o pescoo. 
Esticou o peito, arqueou as costas. S via negrume e pequenos relmpagos que piscavam nas comissuras de seus olhos.
        Ento o teimoso impulso o abandonou. Sentiu que seu corpo se estirava, frouxo, procurando a terra, abraado por um vento frio. 
      
      69
      
      Horrvel emergncia
      
      Jamie e Bree estavam quase preparados para partir. Vrios dos homens se ofereceram a formar parte da partida de busca, at fatigados e sujos de fumaa como 
estavam. Bree se mordeu o lbio e aceitou com gratido.
        " O pequeno Josh"  estava um pouco intimidado por seu novo posto de assistente de cirurgia; mas a fim de contas era moo de quadra e, como tal, estava habituado 
a atender a cavalos doentes.
        Enquanto me lavava as mos para saturar um corte no couro cabeludo, detectei certo distrbio no bordo da pradaria, a minhas costas. Jamie tambm girou a 
cabea. Imediatamente cruzou apressadamente o claro, com as sobrancelhas arqueadas.
        - O que acontece? -perguntei.
        Uma jovem vinha para ns, em um estado lamentvel e trotando com uma feia claudicao. Embora era mida e tinha perdido um sapato, ainda corria apoiada no 
Murdo Lindsay, que parecia discutir com ela em plena marcha.
        - Fraser -a ouvi ofegar- . Fraser!
        Soltou ao Murdo para abrir-se passo entre os homens que esperavam; ao passar seus olhos foram percorrendo as caras.
        - James... Fraser... Preciso...  voc? -Ofegava, sem flego.
        Jamie se adiantou para agarr-la por um brao.
        - Eu sou Jamie Fraser, moa. Busca-me ?
        Ela assentiu com a cabea; no tinha flego para falar. Agitou os braos, assinalando o arroio com gestos desmesurados.
        - Ro... er -pronunciou- . Roger. MacKen... zie.
        antes de que a ltima slaba brotasse de sua boca, Brianna estava a seu lado.
        - Onde est? Est ferido? -Aferrou-a por um brao.
        A garota sacudiu afirmativamente a cabea.
        - Ahorc... O... esto... enforcando! O gober... nador!
        Bree a soltou para correr para os cavalos. Jamie j estava ali. agachou-se sem dizer uma palavra, com as mos cruzadas formando um estribo. Brianna ps ali 
o p e se jogou na arreios. antes de que Jamie tivesse chegado a seu cavalo, ela j estava em marcha. Mesmo assim Gideon alcanou  gua em segundos e ambas as monturas 
desapareceram entre os salgueiros.
        Deixei a agulha e a sutura nas mos sobressaltadas do Josh, agarrei o saco com minha equipe de emergncia e corri para meu prprio cavalo.
      
      
      Alcancei-os momentos depois. Como no sabamos exatamente onde tinha Tryon  seu tribunal de guerra, perdemos um tempo valioso, pois Jamie se viu obrigado a 
deter-se vrias vezes para pedir indicaes. Estas eram sempre confusas e contraditrias.
        Caa a tarde. Estvamos rodeados por nuvens de pequenos mosquitos, mas Jamie no fazia nada por apart-los. Tinha os ombros rgidos como pedra, dispostos 
a suportar a carga.
        Tanto isso como meus prprios temores me disseram que Roger devia ter morrido.
        O terreno se abriu, aplanado em uma larga pradaria. Jamie aulou ao Gideon para p-lo ao galope e os outros cavalos o seguiram. Nossas sombras voavam como 
morcegos pela erva; o rudo de nossos cascos se perdia entre as vozes da multido que enchia o campo.
        Em uma elevao, no lado oposto da pradaria, elevava-se um enorme carvalho branco. Meu cavalo trocou sbitamente de direo, esquivando a um grupo de homens. 
Ento as vi: trs figuras esquemticas que se balanavam, quebradas, na densa sombra da rvore.
      
      
      Foi um mau enforcamento. A falta de tropas oficiais, Tryon no contava com a horrvel e necessria habilidade de um verdugo. Fazia montar a cavalo aos trs 
condenados, com as cordas passadas pelos ramos da rvore; a um sinal se retiraram os cavalos para deix-los pendurando.
        Um deles tinha tido a sorte de morrer por fratura de pescoo. Vi o ngulo marcado da cabea, a flacidez dos membros amarrados. No era Roger.
        Os outros se estrangularam lentamente. Tinham utilizado a corda que tinham  mo; era nova, sem estirar. Roger era mais alto que os outros e as pontas de 
seus ps tocavam o p. Tinha conseguido solt-las mos e colocar os dedos sob a corda. Por um momento no pude lhe olhar a cara. Em troca desviei a vista para a 
da Brianna: estava mudada, totalmente imvel, fixo cada osso, cada tendo, como na morte.
        a do Jamie estava igual, mas se os olhos da Brianna tinham ficado aturdidos pela impresso, os do Jamie ardiam como buracos queimados no crnio. deteve-se 
um momento ante o Roger, logo se fez o sinal da cruz e disse algo em galico, em voz muito baixa.
        - Eu o sustentarei -disse, entregando sua adaga a Brianna, sem olh-la- . Voc curta a corda, moa.
        Deu um passo adiante para sujeitar o cadver pelo meio e o levantou um pouco, para subtrair presso a soga.
        Roger gemeu. Jamie ficou paralisado, com os braos fechados em torno dele. Seus olhos voaram para mim, dilatados pelo espanto. Foi um som muito leve. S 
a reao do Jamie me convenceu de que na verdade o tinha percebido. E tambm Brianna. Deu um salto para a corda e a cortou em silencioso frenesi.
        No momento em que o corpo caa, lancei-me adiante para lhe sujeitar a cabea entre as mos, enquanto Jamie o baixava a terra. Estava frio, mas firme. Assim 
devia ser se estava vivo.
        - Uma tabela -disse sem flego- . Uma tabela, uma porta, algo sobre o qual coloc-lo. No devemos lhe mover o pescoo; pode o ter partido.
        Jamie ficou em marcha; partiu com movimentos rgidos, mas foi apertando o passo mais e mais, enquanto deixava atrs aos grupos de familiares enfermos e aos 
curiosos.
        Roger no parecia respirar; no havia movimentos visveis no peito, nos lbios nem nas fossas nasais. Procurei inutilmente o pulso na boneca livre; teria 
sido intil pinar na massa torcida do pescoo. Por fim achei um pulso abdominal que pulsava fracamente, justo debaixo do esterno.
        O n corredio estava profundamente fundo na carne; procurei freneticamente o canivete que levava no bolso. A soga era nova, de esparto cru. As fibras peludas 
estavam manchadas pelo sangue seca. Examinei-o vagamente, naquela remota parte de meu crebro que ainda tinha tempo para coisas tais enquanto minhas mos trabalhavam. 
As sogas novas se estiram. Os verdugos profissionais usam as suas, j estiradas e azeitadas. O esparto cru me cravou dolorosamente os dedos ao atirar e cortar.
        Saltou o ltimo fio; atirei para retirar a soga. No me atrevia a mover a cabea; se havia fratura nas vrtebras cervicais, corria perigo de mat-lo ou deix-lo 
incapacitado.
        Sujeitei a mandbula e tratei de lhe colocar os dedos na boca para liberar a de mucos e obstrues. De nada serve. A lngua torcida no tinha sado, mas 
estorvava. Mesmo assim, o ar requer menos espao que os dedos. Apertei-lhe o nariz com fora, aspirei duas ou trs vezes to fundo como pude e logo soprei, com a 
boca pega  sua.
        O peito no se movia. Aspirei fundo e voltei para sopro, com a mo livre contra seu peito. Nada. Soprei outra vez. Nenhum movimento. Outra vez. Algo, mas 
no o suficiente. Outro sopro. O ar escapava pelos borde de minha boca. Soprei. Era como tentar inflar uma pedra. Soprei outra vez.
        Vozes confusas por cima de minha cabea. Brianna, que gritava. Jamie, junto a meu cotovelo.
        - Aqui est a tabela -disse com calma- . O que devemos fazer?
        - Agarra-o pelos quadris. Bree, voc pelos ombros. Levantem quando eu lhes diga isso, no antes.
        Movemo-lo depressa; minhas mos sustentavam a cabea como se fora o Santo Grial. Arranquei-me a angua para enrol-la, a fim de que servisse de apio a seu 
pescoo. Ao mov-lo no tinha percebido nenhum rangido, mas necessitava toda a sorte disponvel para outras coisas. Por teima ou puro milagre, no tinha morrido. 
Mas tinha passado perto de uma hora suspenso pelo pescoo; a tumefao das malhas da garganta obteria em muito pouco tempo o que a corda no tinha podido fazer.
        Ignorava se dispunha de uns poucos minutos ou de uma hora, mas o processo era inevitvel e s havia uma coisa que se pudesse fazer. Por essa massa de malhas 
esmagadas e maltratados s passavam umas quantas molculas de ar; um pouco mais de tumefao o fecharia de tudo. Se pela boca ou o nariz no chegava ar aos pulmes, 
era urgente proporcionar outro canal.
        Voltei-me em busca do Jamie, mas foi Brianna quem se ajoelhou a meu lado.
        Uma traqueotoma? Era rpida e no requeria grande habilidade, mas resultaria difcil mant-la aberta... e talvez no fora suficiente para aliviar a obstruo. 
Tinha uma mo no esterno do Roger, com o suave pulsar do corao seguro sob os dedos. Era bastante firme... possivelmente.
        - Bem -disse a Brianna, tratando de me mostrar serena- . Necessitarei um pouco de ajuda.
        - Sim -respondeu... e graas a Deus, ela sim parecia serena- . O que devo fazer?
        Em essncia no era nada difcil: Simplesmente, sustentar a cabea do Roger bem para trs e sujeit-la com firmeza enquanto eu lhe cortava o penetro. ajoelhou-se 
junto  cabea de seu marido e fez o que eu lhe indicava. Tomei um momento, com as mos em seu pescoo e os olhos fechados, para procurar o fraco palpitar da artria 
e a massa da tireide, um pouco mais suave. Oprimi para cima: movia-se, sim. Massageei o istmo da tireide para tirar a de no meio, empurrando-a com fora para a 
cabea, e com a outra mo pressionei a folha do escalpelo contra a quarta cartilagem traqueal.
        Ali tinha forma de Ou; detrs dele estava o esfago, brando e vulnervel; no devia aprofundar muito. Senti que a pele e a fascia se separavam, fibrosas, 
resistentes; logo, um suave estalo ao entrar a folha. produziu-se um sbito gorgoteo e um assobio mido: o rudo do ar aspirado atravs do sangue. O peito do Roger 
se moveu. S ento me dava conta de que ainda tinha os olhos fechados. 
      
      
      70
      
      Tudo est bem
      
      
      Abriu os olhos. No pde reconhecer o que estava olhando e se esforou por entender. Palpitava-lhe a cabea; tambm tinha outras dez ou doze pulsaes menores, 
cada uma delas um fulgurante estalo de dor. Voltou a fechar os olhos, procurando o consolo da escurido. Recordava difusamente um esforo terrvel, os msculos das 
costelas rasgados pela luta em procura de ar. Em algum lugar de sua memria havia gua, gua que lhe enchia o nariz e inflava os vazios de sua roupa... Se estaria 
afogando? A idia disparou uma chispada de alarme por sua mente.
        Deu um coice e agitou os braos, tratando de chegar  superfcie. A dor lhe atravessou o peito at lhe queimar a garganta; tratou de tossir e no pde, tratou 
de aspirar e no achou ar. Golpeou contra algo duro...
        Algo o sujeitou para mant-lo quieto. Sobre ele apareceu uma cara. Brianna? O nome flutuou em sua mente como um globo de forte cor. Ento seus olhos se centraram 
um pouco, trazendo para a vista uma cara mais dura, mais feroz. Jamie. O nome flutuava diante dele, mas de algum modo o tranqilizava. 
        Presso, calidez... Uma mo lhe estreitava o brao; outra o ombro. Com fora. Piscou, com a vista nublada; gradualmente se foi esclarecendo. No sentia movimento 
algum de ire na boca nem no nariz; tinha a garganta fechada e ainda lhe ardia o peito, mas respirava; os msculos das costelas lhe doam sordamente ao mover-se. 
No se tinha afogado, no; doa muito.
        - Est vivo -disse Jamie- . Est vivo. Est inteiro. Tudo est bem.
        Examinou as palavras com uma sensao de desapego, lhe dando voltas na mente.
        " Est vivo. Est inteiro. Tudo est bem." 
        Invadiu-lhe uma vaga sensao de consolo. Ao parecer, isso era tudo o que precisava saber no momento. Qualquer outra coisa podia esperar.
      
      71
      
      Uma dbil fasca
      
      
      - Senhora Claire? - Era Robin MacGillivray, que rondava a entrada da loja. Ao v-lo, Claire se levantou imediatamente.
      -L vou. - J estava de p, com a equipe na mo e em marcha para a porta, antes de que Brianna tivesse podido falar.
      -Mame!
      No foi mais que um sussurro, mas o tom de pnico fez que Claire se voltasse como se tivesse pisado em uma placa giratria. Os olhos ambarinos se fixaram no 
Bree um momento; logo se desviaram para o Roger e retornaram a sua filha. 
      -Vigia sua respirao -disse-. Mantn o tubo limpo. lhe d aguamiel, se estiver consciente e pode tragar um pouco. E toca-o. No pode girar a cabea para verte; 
precisa saber que est aqui.
      -Mas... -Brianna se interrompeu, com a boca muito seca para falar.
      -Precisam-me -aduziu Claire, com muita suavidade. Girou com um sussurro de saias para o Robin e desapareceu no crepsculo.
      -E eu no? -Os lbios da Brianna se moveram, mas no soube se tinha falado em voz alta ou no. No importava; Claire se tinha ido. Estava sozinha.
      sentiu-se enjoada; ento caiu na conta de que estava contendo o flego. Deixou escapar o ar e voltou a aspirar, profunda, lentamente. disse-se, com firmeza, 
que sua me no se teria ido se houvesse perigo imediato ou se ficasse algum recurso mdico por lhe aplicar. Haveria algo que ela mesma pudesse fazer?
      "Toca-o. lhe fale. lhe faa saber que est com ele". Isso lhe havia dito Claire durante os desagradveis momentos que seguiram a essa traqueotoma improvisada.
      Brianna retornou junto ao Roger, procurando em vo algum lugar onde pudesse toc-lo sem perigo. Tinha as mos inchadas como luvas infladas, arroxeadas e manchadas 
de prpura e vermelho, quase negros os dedos esmagados; as marcas da corda eram em suas mos to profundas que a horrorizavam, como se pudesse ver a brancura do 
osso. Pareciam irreais, como uma maquiagem m para um filme de terror. 
      Por grotescas que parecessem, piores eram as da cara, tambm arroxeada e tumefacta, com um horrendo colarinho de sanguessugas aderidas sob a mandbula; mas 
ali a deformidade era mais sutil, como se algum sinistro desconhecido fingisse ser Roger.
      Tambm suas mos estavam prdigamente decoradas com isso parasitas. Todas as sanguessugas da zona deviam estar aderidas a ele. Por ordem do Claire, Josh tinha 
deslocado a pedir emprestadas as dos outros cirurgies; logo ele e os dois moos Findlay baixaram a toda pressa a chapinhar pelos ribazos do arroio,  busca de mais.
      "Vigia sua respirao." Isso era algo que podia fazer. Apoiou-lhe uma mo leve sobre o corao, to aliviada de encontr-lo quente ao tato que lanou um grande 
suspiro. Sua respirao era to superficial que ela retirou a mo, como se a presso de sua palma contra o peito bastasse para det-la. Mas estava respirando, sim; 
ouvia-se o tnue assobio do ar atravs do tubo inserido em sua garganta. Claire tinha confiscado a pipa do senhor Caswell, importada da Inglaterra; o canho de marfim 
foi implacavelmente partido e lavado com lcool; ainda tinha manchas de alcatro, mas parecia funcionar bem.
      Na mo direita, dois dos dedos estavam fraturados e todas as unhas, ensangentadas, rotas ou arrancos. Seu estado parecia to precrio que no se atrevia a 
toc-lo, como se o sobressalto pudesse empurr-lo atravs de algum limite invisvel entre a vida e a morte. Mesmo assim compreendia a inteno de sua me; esse mesmo 
contato podia ret-lo, impedir que cruzasse esse limite e se perdesse na escurido.
      Espremeu-lhe a coxa com firmeza, tranqilizado pelo contato slido do comprido msculo sob a manta que lhe cobria a parte inferior do corpo. Ele deixou escapar 
uma pequena exclamao, ficou tenso e voltou a relaxar-se.
      -Ouve-me? -perguntou ela, com voz muito fica, inclinando-se para diante-. Aqui estou, Roger. Sou eu, Bree. No se preocupe, no est sozinho.
      Sua prpria voz lhe soava estranha; muito alta, rgida, torpe.
      Acariciou-lhe o brao, o estreitou um poquito. Como se percebesse o contato, ele entreabriu um olho. Bree acreditou ver, como uma fasca em suas profundidades, 
a conscincia de que ela estava a seu lado.
      -Emparelhe uma verso masculina de Medusa.
      Havia dito o primeiro que lhe veio  mente. Uma sobrancelha escura se elevou apenas.
      -Pelas sanguessugas -explicou ela. Tocou uma das que tinha no pescoo e o parasita se contraiu perezosamente, j mdio enche-. Uma barba de serpentes. Incomodam-lhe?
      Imediatamente recordou o que lhe havia dito sua me. Mas ele moveu os lbios, formando com bvio esforo um silente "no".
      -No fale. -Bree jogou uma olhada  outra cama, um pouco coibida, mas o ferido que a ocupava estava quieto, com os olhos fechados. Ento se inclinou para dar 
um rpido beijo ao Roger. Foi apenas um roce de lbios. Ele contraiu a boca, como se queria sorrir. 
      Brianna teria querido lhe gritar: "O que aconteceu? Que demnios fez?" Mas ele no podia responder.
      de repente a sobressaltou a fria. No gritou, atenta ao ir e vir da gente, mas o aferrou por um ombro, que parecia estar razoavelmente ileso.
      -Por todos os Santos do Cu, como fez isto? -sussurrou-lhe ao ouvido.
      Roger moveu lentamente os olhos para fix-los nela e fez uma pequena careta, que Bree no soube interpretar. Logo o ombro comeou a vibrar sob sua mo. Observou-o 
alguns segundos, completamente perplexa. Logo caiu na conta de que ele se estava rendo. Ria!
      
      
      
      72
      
      Isca e carvo
      
      Gerald Forbes era um advogado de xito, e normalmente o parecia. At com sua equipe de campanha e a fuligem da plvora lhe manchando a cara, conservava um 
ar de slida segurana que ia muito bem como capito de tropa. Embora esse aspecto no o tinha abandonado, lhe via intranqilo; de p  entrada da loja, enrolava 
e estirava a asa do chapu.
      Ao princpio supus que era s o desassossego que afeta a tantos em presena da enfermidade, ou possivelmente desgosto pelas circunstncias que tinha sofrido 
Roger. Mas evidentemente se tratava de outra coisa; logo que saudou com um gesto a Brianna, que estava sentada junto  cama de seu marido. 
      -Minha solidariedade em sua desgraa, senhora -disse. Logo se voltou imediatamente para o Jamie-. Senhor Fraser, permite-me uma palavra? Voc tambm, senhora 
-acrescentou, inclinando-se gravemente para mim.
      Na loja do Forbes, Isaiah Morton jazia de flanco, mortalmente plido e suado. Ainda respirava, mas devagar e com um horrvel rudo como a gargarejos. No estava 
consciente, o qual era uma pequena vantagem. depois de efetuar um superficial exame, sentei-me sobre os tales, me limpando o suor da cara com a prega do avental.
      -Um disparo lhe atravessou o pulmon -disse.
      Os dois homens assentiram, como se j soubessem.
      -Dispararam-lhe pelas costas -acrescentou Jamie, em tom sombrio. E jogou uma olhada ao Forbes, que assentiu sem apartar a vista do ferido.
      -No -disse em voz baixa, em resposta a uma pergunta no formulada-. No atuou como um covarde. E a avanada foi poda; no havia outras companhias detrs de 
ns.
      -Nem reguladores? Franco-atiradores? Tampouco emboscadas? -perguntou Jamie.
      Mas Forbes negou com a cabea antes de que tivesse terminado com essas perguntas.
      -Perseguimos a vrios reguladores at o arroio, mas ali nos detivemos e os deixamos escapar. -Forbes seguia enrolando e desenrolando mecanicamente a asa do 
chapu, uma e outra vez-. No tive estmago para mat-los.
      Jamie assentiu em silncio.
      -Dispararam-lhe duas vezes pelas costas -esclareci. A segunda bala s lhe tinha roado o brao, mas a direo do sulco estava bem  vista.
      Jamie fechou os olhos por um instante e voltou a abri-los.
      -Os Browm -disse Jamie, com resignao.
      Gerald Forbes levantou a vista, surpreso.
      -Brown? Isso foi o que ele disse.
      -Falou?-. Meu marido se sentou em cuclillas junto ao ferido.
      -Foi quando o trouxeram. -Forbes se ajoelhou junto ao Jamie, deixando por fim o maltratado chapu-. Perguntou por voc, Fraser. E logo disse: "Avisem ao Ally. 
Avisem ao Ally Brown." Disse-o vrias vezes, antes de...
      Assinalou com um gesto mudo ao Morton, cujos olhos semicerrados mostravam os olhos em branco da agonia.
      -Seriamente crie que foram eles? -perguntei, tambm em voz baixa. O pulso dava tombos e se estremecia sob meu polegar, lutando.
      -Fiz mal em deix-los escapar -disse para seus adentros. referia-se ao Morton e a Alicia Brown.
      -No teria podido det-los. -Quis toc-lo com a mo livre para reconfort-lo, mas no pude, pois estava pega ao pulso do Morton.
      Gerald Forbes me olhava, intrigado.
      -O senhor Morton... se fugiu com a filha de um homem chamado Brown expliquei delicadamente-. E os Brown no ficaram conforme.
      -OH!, compreendo. -Forbes baixou a vista para o ferido-. Os Brown... Sabe voc a que companhia pertencem, Fraser?
      - minha -respondeu Jamie-. Quer dizer, pertenciam. Desde que terminou a batalha no tornei a v-los. -voltou-se para mim-. Se pode fazer algo por ele, Sassenach?
      -No. Pensei que se iria em momentos, mas ainda resiste. A bala no deve haver meio doido nenhuma artria principal. Mesmo assim...
      Jamie suspirou profundamente.
      -Bem. Ficar com ele at que...?
      -Sim, certamente. Pode voltar para nossa loja e ver se ali tudo est sob controle? Se Roger... enfim... se algum me necessitar, vem por mim.
      Ele assentiu uma vez mais e se foi. Gerald Forbes se aproximou para apoiar uma mo no ombro do Morton.
      -Sua esposa... me encarregarei de que receba ajuda. O dir voc, se reagir?
      -Sim,  obvio -repeti. Mas minha vacilao fez que ele levantasse a vista, arqueando as sobrancelhas.
      - que... hum... ele tem duas algemas -expliquei-. Quando se fugiu com a Alicia Brown j estava casado. Desde a as dificuldades com a famlia da moa.
      -Compreendo -disse, piscando-. E a... n... a primeira senhora Morton, sabe voc como se chama?
      -No, temo-me que...
      -Jessie.
      A palavra foi pouco mais que um suspiro, mas bem poderia ter sido um disparo, pelo efeito que teve na conversao.
      -O que? -Devo ter apertado a boneca do Morton, pois ele fez uma leve careta.
      -Jessie -suspirou outra vez- Jeze... bel. Jesie Hatfield. gua?
      -Ag...!OH, sim! -Soltei-lhe a boneca para agarrar imediatamente a jarra de gua.
      -Jezebel Hatfield e Alicia Brown -disse Forbes cuidadosamente, como se apontasse os nomes em sua ordenada memore de advogado-. Correto? E onde vivem essas 
mulheres?
      -Jessie... no Granite Falls. Ally est... no Greenboro.
      Logo que respirava, ofegando entre uma palavra e outra. Mesmo assim no percebi gorgoteo de sangue em sua garganta; tampouco emanava pela boca ou o nariz. 
Ainda se ouvia o som do ar que entrava pela ferida das costas; em uma sbita inspirao, movi-o um pouco para diante e atirei da camisa destroada para cima.
      -Senhor Forbes, voc tem uma folha de papel?
      -N... sim... Quer dizer... -De forma automtica, Forbes tinha fundo a mo na jaqueta para tirar uma folha dobrada. A arrebatei e, depois de desdobr-la, verti 
gua sobre ela e a peguei contra o pequeno buraco aberto sob o omoplata. A tinta, mesclada com sangue, correu em pequenos fios escuros sobre a pele amarelada, mas 
o rudo de suco cessou abruptamente.
      Na mo com que sustentava o papel percebi o pulsar do corao. Ainda era dbil, mas mais firme. Sim, era mais firme.
      -Que me crucifiquem -disse, lhe inclinando para olh-lo  cara-. No vais morrer, verdade?
      -No, senhora -disse. Ainda respirava em curtos ofegos, mas mais fundo-. Ally. O beb... ms prximo. Disse-lhe... que estaria... ali.
      -Faremos o possvel para que assim seja -lhe assegurei. Logo levantei a vista para o advogado-. Senhor Forbes, seria melhor levar a senhor Morton a minha loja. 
voc pode trazer para um par de homens para que o transladem?
      -OH!  obvio, senhora Fraser. Imediatamente.
      Mas demorou para ficar em movimento. Vi que desviava a vista para a folha de papel molhado pega  costas do Morton. A obesrv. S pude ler umas quantas palavras 
imprecisas entre meus dedos, mas bastaram para me indicar que Jamie estava equivocado ao referir-se ao Forbes como sodomita. "Minha adorada Valncia", comeava a 
carta. Eu s sabia de uma mulher chamada Valncia em toda a zona do Cross Creek; em realidade, em toda a Carolina do Norte. E essa era a esposa do Farquard Campbell.
      -Lamento muitssimo o que aconteceu com seu papel -lhe disse. Sem deixar de lhe sustentar o olhar, esfreguei cuidadosamente a palma da mo sobre a folha, com 
o que todas as palavras escritas nela se converteram em um borro de sangue e tinta-. Temo que est totalmente arruinado.
      Ele aspirou profundamente e se plantou o chapu na cabea.
      -No tem importncia, senhora Fraser. Nenhuma importncia. irei trazer alguns homens.
      
      
      A noite trouxe alvio contra o calor e as moscas. De todos meus pacientes s ficavam Isaiah Morton e Roger; os outros feridos graves tinham sido reclamados 
pelos cirurgies de suas prprias companhias ou transladados  loja do governador, que os faria atender por seu mdico pessoal. Os feridos leves haviam tornado com 
seus compaeros,para exibir suas cicatrizes ou acalmar os dores com cerveja.
      Para ouvir um bater de tambores na distncia, fiquei inmovil, escutando. Tocavam uma cadncia solene, que se interrompeu abruptamente. Houve um momento de 
silncio; logo, o trovejar de um canho.
      Os irmo Lindsay estavam perto; eles tambm tinham levantado a vista para ouvir os tambores.
      -O que  isso? -perguntei-lhes, elevando a voz-. O que acontece?
      -Trazem para os mortos, senhora Fraser -explicou Evan-. No se preocupe. -Honras militares para os mortos em combate. Perguntei-me se enterrariam no mesmo 
lugar aos dis lderes enforcados ou se lhes atribuiria uma tumba  parte, menos honorvel, no caso de que os parentes no os reclamassem. Tryon no era dos que deixam 
sequer a um inimigo para festim das moscas.
      Ao tocar ao Isaiah Morton percebia o ardor da bala alojada em seu pulmo, mas tambm o ardor, ainda mais forte, de sua feroz vontade de viver apesar dela. 
Quando tocava ao Roger percebia  mesmo calor... mas era uma fasca dbil. Enquanto escutava o assobio de sua respirao, imaginava lenha queimada, com diminutas 
brasas ainda acesas, mas trmulo e ao bordo da extino abrupta. 
      "Isca", pensei absurdamente. Isso  o que faz quando o fogo ameaa apagar-se. Sopra sobre a fasca, mas tambm necessita isca, algo onde a fasca possa prender, 
algo que a alimente para que cresa.
      Um ranger de rodas me arrancou da contemplao de um juncal. Era uma carreta pequena, atirada por um s cavalo e com um s condutor.
      -Senhora Fraser?  voc?
      Demorei um momento em reconhecer a voz.
      -Senhor MacLellan? -perguntei, estupefata.
      Ele se deteve meu lado e se tocou o chapu com a mo.
      -O que faz voc aqui? -perguntei em voz baixa, embora no havia ningum que pudesse me ouvir.
      -Vim em busca do Joe -respondeu, assinalando com um leve movimento de cabea para a parte traseira do carro.
      No deveria me haver surpreso, depois de ter acontecido o dia vendo morte e destruio. Alm disso, minha relao com o Joe Hobson era muito superficial. Mas 
ignorava que tivesse morrido; me arrepiou a pele dos antebraos.
      Sem dizer mais, caminhei para a parte posterior da carreta. Senti a pequena sacudida e a vibrao da madeira: Abel tinha posto o freio e descia para reunir-se 
comigo.
      O corpo no estava amortalhado, embora algum lhe havia talher a cara com um leno grande, no de tudo sujo.
      -Esteve voc no combate? -perguntei ao Abel, sem olh-lo. Devia ter acompanhado aos reguladores, mas no cheirava a plvora.
      -No -disse brandamente por detrs de meu ombro-. No tinha inteno de brigar. Vim com o Joe Hobson, o senhor Hamilton e os outros, mas quando se morava o 
combate me afastei. Caminhei at o moinho, ao outro lado da cidade. E ao ficar o sol, como no havia sinais do Joe... retornei -concluiu simplesmente.
      -E agora? -perguntei-. Quer que lhe ajudemos a enterr-lo? Meu marido...
      -OH, no! -interrompeu-. O levarei a casa, senhora Fraser. Mesmo assim lhe agradeo a amabilidade. Mas se pudesse me dar um pouco de gua... ou um pouco de 
comida para a viagem...
      - obvio. Esper, que vou procurar provises.
      Enquanto retornava depressa  loja calculei a distncia entre o Alamance e Drunkards Spring. Quatro dias, cinco, seis? E o sol to ardente, e as moscas... 
Mas como sabia o que  um escocs quando toma uma deciso, fui discutir.
      Detive-me um momento para examinar aos dois homens; os dois respiravam. Tinha substitudo o papel molhado que cobria a ferida do Morton por uma parte de linho 
azeitado, pego nos borde com mel, que constitui um excelente selo.
      Brianna seguia junto ao Roger. Havia trazido um pente de madeira e lhe estava penteando o cabelo revolto; retirava com suavidade os abrojos e as ramillas, 
desfazia os enredos, tudo com lenta pacincia. Enquanto isso cantarolava algo pelo baixo: "Frre Jacques, Frre Jacques..."
              O n que tinha na garganta me impediu de falar. Corri fora outra vez, com o pacote sob o brao. Uma figura saiu da escurido frente a mim e estivemos 
a ponto de chocar. Detive-me em seco, com o pacote apertado contra meu ombro, e lancei uma exclamao afogada.
      -voc perdoe, senhora Fraser. Supus que me tinha visto.
      Era o governador. Deu outro passo para a luz que emanava da loja.
      -Seu genro -disse, olhando para a loja-. Est...?
      -Est com vida -disse uma voz baixa e grave, detrs dele.
      Tryon girou em redondo com uma exclamao sufocada. Eu levantei bruscamente a cabea. Uma sombra se moveu e tomou forma. Era Jamie, que saa lentamente da 
noite.
      -Senhor Fraser. -O governador, embora sobressaltado, afirmou a mandbula e apertou os punhos nos flancos-. vim a apresentar minhas desculpas pelo dano feito 
a seu genro. Foi um engano extremamente lamentvel.
      -Extremamente lamentvel -repetiu Jamie, com entonao algo irnica-. E lhe incomodaria me dizer, senhor, como se produziu esse... engano?
      Deu um passo adiante e Tryon, automaticamente, retrocedeu a mesma distncia. Notei que se acalorava e que apertava os dentes. 
      -Foi um equvoco -disse entre dentes-. Lhe identificou erroneamente como lder proscrito da Regulao.
      -Quem o identificou? -A voz do Jamie soava corts.
      Nas bochechas do governador apareceram umas pequenas manchas acesas.
      -No sei. Vrias pessoas. Eu no tinha motivos para duvidar da identificao.
      -J vejo. E Roger MacKenzie no disse nada em sua prpria defesa? No revelou quem era?
      Os dentes do Tryon se cravaram brevemente no lbio superior.
      -N... no.
      -Porque estava pacote e amordaado, homem! -intervim-. No lhe permitiu falar, verdade, maior... n...?
      A luz da loja se refletiu no medalho do Tryon, uma medialuna de prata que pendia de sua garganta. A mo do Jamie se elevou to lentamente que Tryon no percebeu 
ameaa alguma. Com toda suavidade, fixou-se em volto do pescoo do governador, justo por cima do medalho.
      -nos deixe sozinhos, Claire -disse. Sua voz no parecia muito ameaador, a no ser fleumtica. Nos olhos do Tryon se acendeu um relmpago de pnico. Deu um 
coice para trs e o medalho cintilou.
      -No se atreva a me pr as mos em cima, senhor! -O pnicocedi imediatamente, substitudo por fria.
      -OH!, claro que sim. Igual a voc ps as mos em cima de meu filho.
      -Foi um engano! E vim para retific-lo at onde me seja possvel. -Tryon no cedia terreno, dente apertados e olhar fulminante.
      Jamie lanou uma exclamao depreciativa.
      -Um engano. Simplesmente isso  para voc que um homem inocente perca a vida? Voc mata e mutila por ganhar glria, sem que lhe importe a destruio que deixa 
atrs; s lhe interessa ampliar as crnicas de suas faanhas. Como anotar isto nos despachos que envie a Inglaterra, senhor? Dir que apontou os canhes contra 
seus prprios cidados, quem no tinha mais arma que paus e facas? Ou dir que sufocou a rebelio e preservou a ordem? Dir que, em sua pressa por vingar-se, matou 
a um homem inocente? Dir que cometeu "um engano"? Ou que castigou a maldade e exerceu justia em nome do rei?
      Tryon dominou o gnio, embora trmulo e com os dentes apertados. antes de falar aspirou profundamente pelo nariz.
      -Senhor Fraser: direi-lhe algo que s uns poucos sabem. Ainda no  de conhecimento pblico. Nomearam-me governador da colnia de Nova Iorque. A nomeao chegou 
faz mais de um ms. Em julho partirei para me fazer carrego do novo posto. Em meu lugar se nomeou ao Josiah Martin. -Olhou a ambos-. J vem vocs: no tinha nada 
que ganhar nem que perder com tudo isto. No precisava glorificar minhas faanhas, como voc h dito. Fiz o que tenho feito por cumprir com meu dever. No quis deixar 
esta colnia em estado de desordem e rebelio.
      Aspirou profundamente e deu um passo atrs, obrigando-se a abrir os punhos que mantinha apertados.
      -Voc tem experincia em questes de guerra e de dever, senhor Fraser. E se for honesto, reconhecer que freqentemente se cometem enganos em ambos os planos. 
No pode ser de outra maneira.
      Sustentava o olhar do Jamie. Ambos guardaram silncio. O pranto distante de um beb me apartou-se essa confrontao. Voltei-me bruscamente. Nesse momento Brianna 
saiu da loja, detrs de mim, com uma revoada de saias agitadas.
      -Jem -disse-.!Esse  Jemmy!
      Era ele. Do outro lado do acampamento se aproximava um barulho de vozes, que resolveram na silhueta redonda e cheia de volantes do Phoebe Sherston; parecia 
assustada, mas decidida. Seguiam-na dois escravos: um homem que carregava duas enormes cestas e uma mulher, em cujos braos se retorcia um vulto que armava um terrvel 
alvoroo.
      Brianna foi para o vulto e Jemmy emergiu de entre as mantas. Me e filho desapareceram entre as sombras das rvores. Seguiu uma pequena confuso, enquanto 
a senhora Sherston explicava desarticuladamente  multido de curiosos que se afligiu tanto... para ouvir os informe de batalha, to terrvel... e pensou que possivelmente... 
e ento... e como o menino no deixava de chiar...
      Jamie e o governador, arrancados de seu enfrentamento cara a cara, tambm se tinham retirado para as rvores. Tinha-os  vista: duas sombras rgidas; uma alta 
e a outra mais baixa, de p, muito juntas. Mas esse tete--tete tinha perdido o elemento de perigo; notei que Jamie inclinava a cabea para seu interlocutor, atento.
      -... trouxe comida -me estava dizendo Phoebe Sherston-. Po fresco, manteiga, um pouco de gelia de framboesas, frango frio e...
      -Comida! -exclamei, recordando abruptamente o pacote que levava sob o brao-voc Perdoe!
      E me escapuli com um brilhante sorriso, deixando-a boquiaberta diante da loja.
      Abel MacLennan aguardava pacientemente ali onde eu o tinha deixado. Descartou minhas desculpas com um gesto e me deu as obrigado pela comida e a jarra de cerveja.
      -H algo mais que...? -mas me interrompi. Que mais podia fazer por ele?
      Entretanto, ao parecer havia algo.
      -O jovem Hugh Fowles -disse-. Dizem que o fizeram prisioneiro. voc crie que... seu marido poderia falar por ele? Tal como o fez por mim?
      -Suponho que sim. O direi... Senhor MacLennan -disse, movida por um impulso-, aonde ir voc? depois de ter levado ao Joe Hobson a sua casa, claro.
      -Pois -disse-, no penso ir a nenhuma parte. L esto as mulheres, no? Com o Joe morto e Hugh prisioneiro, j no h um homem com elas. Ficarei.
      Logo me fez uma reverncia e ficou o chapu. Estreitei-lhe a mo, o qual foi uma surpresa para ele. Logo subiu  carreta, estalou a lngua para aular ao cavalo 
e elevou uma mo em gere de despedida que eu imitei. 
      Quando retornei  loja, as coisas estavam mais ou menos tranqilas. O governador e a senhora Sherston se foram; tambm os escravos. Isaiah Morton dormia, gemendo 
de vez em quando, mas sem febre. Roger jazia imvel como uma figura sepulcral, negras de moretones a cara e as manos;el dbil assobio do tubo por onde respirava 
era um contraponto da cano com que Brianna balanava ao Jemmy.
      O garotinho tinha a cara lassa e a boquita aberta no absoluto abandono do sonho. Com sbita inspirao alarguei os braos; Bree, embora surpreendida, permitiu-me 
agarr-lo. Com muito cuidado pus o cuerpecito frouxo e pesado contra o peito do Roger. Bree fez um pequeno movimento, para sujeitar ao beb e impedir que se escorregasse, 
mas Roger levantou um brao, rgido e lento, e o cruzou sobre o menino dormido.
      "Isca", pensei, satisfeita.
      
      
      Acampamento do Grande Alamance
      Sexta-feira, 17 de maio de 1771
      Gesto: Granville
      Contra-senha: Oxford
      
      
      O governador, impressionado com o mais afetuoso sentido de gratido, agradece tanto aos oficiais como aos soldados do exrcito o vigorosos e generoso apoio 
que lhe emprestaram ontem na batalha perto do Alamance. A seu valor e firme conduta se deveu, sob a Providncia de Deus Todo-poderoso, assinalada-a vitria obtida 
sobre os obstinados e caprichosos rebeldes. Sua excelncia se conduele com os leais pelos bravos homens que caram e sofreram na ao, mas ao refletir que o destino 
da Constituio dependia do xito da jornada, e os importantes servios assim emprestados a seu rei e a ou pas, considera que esta perda (at se  presente causa 
aflio a seus parentes e amigos)  um monumento de perdurvel glorifica e honra para eles e suas famlias.
      Os defuntos sero sepultados s cinco desta tarde, frente ao parque de artilharia. O ofcio fnebre se celebrar com honras militares aos mortos. depois da 
cerimnia haver oraes e ao de obrigado pela assinalada vitria que a Divina Providncia quis outorgar ontem ao exrcito contra os insurgentes. 
      
      
      
      
      STIMA PARTE
      
      Alarmes de luta e fuga
      
      
      
      73
      
      Com sua branca palidez
      
      
      A senhora Sherston, com inesperada generosidade, ofereceu-nos sua hospitalidade. Instalei-me em seu grande casa do Hillsborough com a Brianna, Jemmy e meus 
dois pacientes; Jamie dividia seu tempo entre o Hillsborough e o acampamento dos milicianos, que se manteria no Alamance Creek at que Tryon estivesse convencido 
de que a Regulao estava definitivamente esmagada.
              Era incapaz de alcanar com os frceps a bala alojada no pulmo do Morton, mas no parecia lhe incomodar muito e a ferida comeava a fechar de modo 
satisfatrio.
      Embora no tinha nenhuma certeza sobre a eficcia de minha pequena proviso de penicilina, parecia dar resultado; a ferida estava um pouco avermelhada e drenava 
um pouco, mas  no havia infeco e a febre era muito pouca. alm da penicilina, a presena repentina da Alicia Brown, muito avultada em seu embarao, poucos dias 
depois da batalha sups um muito importante impulso para a recuperao do Morton.
              Roger era outra questo. Dormia muito, e isso teria devido ser bom sinal. Mas seu sonho, embora pesado, no era tranqilo; havia nele algo inquietante, 
como se procurasse a inconscincia com um desejo feroz e, uma vez alcanada, aferrasse-se a ela com teima; isso me preocupava mais do que estava disposta a admitir.
      Brianna, que tinha seu prprio tipo de empecinamiento, era a encarregada de despert-lo cada poucas horas, para aliment-lo e limpar o tubo da inciso. Durante 
esses procedimentos ele cravava a vista na distncia medeia, olhando sombramente um nada, e apenas se dava por informado dos comentrios que lhe dirigiam.
      Uma vez terminada a padre, fechava novamente os olhos e se recostava contra o travesseiro, com as mos enfaixadas sobre o peito, como uma figura sepulcral, 
sem deixar ouvir mais sons que o suave assobiar do tubo inserido em seu pescoo.
      Dois dias depois da batalha do Alamance, Jamie chegou a casa dos Sherston justo antes de jantar.
              -Hoje mantive uma pequena conversao com o governador -disse-. Estava muito ocupado e no queria pensar no que aconteceu depois da batalha, mas eu 
no estava disposto a deixar as coisas assim.
      -No, acredito que fora um grande competidor -murmurei-. William Tryon nem sequer  escocs, muito menos um Fraser.
      -Pois no. -Se desperez com fruio-. Cristo, estou morto de fome! H algo de comer?
      -Presunto assado e bolo de batata-doce -lhe disse-. E o que disse o governador uma vez devidamente intimidado?
      -OH!, vrias coisas. Para comear, insisti em que me informasse em que circunstncias capturaram ao Roger MAC: quem o entregou e o que disse. Quero chegar 
ao fundo disto.
      -Recordou algo quando lhe pressionou?
      -Sim, algo mais. Tryon diz que quem levou cativo ao Roger MAC foram trs homens; um deles tinha a insgnia da companhia Fraser; ele sups que era um de meus, 
certamente. Assim diz -acrescentou com ironia.
      -Sem dvida era a insgnia do Roger -disse-. O resto de sua companhia retornou contigo. Todos, menos os Brown, e no podem ter sido eles.
      Ele assentiu, desprezando a concluso com um breve gesto.
      -Sim, mas por que? Ele diz que Roger MAC estava pacote e amordaado. Uma maneira nada honorvel de tratar a um prisioneiro de guerra, fiz-lhe notar.
      -E o que respondeu?
      -Disse que isto no era guerra, a no ser insurreio, e que estava justificado tomar medidas sumrias. Mas capturar e enforcar a um homem sem lhe permitir 
dizer uma palavra em sua defesa... SE Roger MAC tivesse morrido pendurado dessa corda, Claire, juro-te que Tryon j estaria com o pescoo quebrado e comido pelos 
corvos.
      -No morreu nem morrer. -Ao menos isso esperava eu, mas o disse com toda a firmeza possvel.
      -Pois bem. Disse que o homem identificou ao Roger MAC como James MacQuiston, um dos cabeas da Regulao. estive perguntando por esse MacQuiston -acrescentou. 
Enquanto falava se acalmou um pouco-. Te surpreenderia saber, Sassenach, que ningum viu pessoalmente a esse homem?
      Surpreenderia-me e o disse. Ele assentiu; o rubor ia abandonando suas bochechas.
      -A mim tambm, mas assim . Suas palavras aparecem publicadas nos velhos peridicos,  vista de todos, mas ningum o viu nunca. Nem o velho Ninian, nem Hermon 
Husband... nenhum dos reguladores com os que pude falar, embora agora quase todos se escondem, claro -acrescentou-. At localizei ao impressor que publicou um dos 
discursos do MacQuiston. Diz que o original foi deixado uma manh na soleira, com uma frma de queijo e dois certificados de dinheiro da proclamao para pagar a 
impresso.
      -Pois isso sim que  interessante -disse-. De modo que "James MacQuiston" bem pode ser um nome suposto.
      - muito provvel.
      Ao analisar as implicaes dessa idia, sbitamente me ocorreu uma possibilidade. 
      -Crie que o homem que identificou assim ao Roger possa ter sido o mesmo MacQuiston?
      Jamie arqueou as sobrancelhas e fez um lento gesto afirmativo.
      -E para proteger quis fazer que enforcassem ao Roger MAC em seu lugar? Ter morrido  um excelente amparo contra a deteno. Sim,  uma boa idia... embora 
um pouco perversa -acrescentou juiciosamente.
      -0h!, s um pouco.
      Parecia menos furioso com o perverso e fictcio MacQuiston que com o governador; claro que sobre a atuao do Tryon no havia dvidas.
      -Recordava o governador como eram esses homens que levaram ao Roger? -perguntei.
      -S de um. que tinha a insgnia. Foi o que mais falou. Diz que era um tipo loiro, muito alto e fornido. Pareceu-lhe que tinha os olhos verdes. No reparou 
muito em seu aspecto, certamente, pois nesse momento tinha a mente muito ocupada. Mas ao menos recordava isso.
      -Por todos os Santos do cu! -exclamei. Tinha tido uma idia sbita-. Alto, loiro e de olhos verdes. Crie que pode ter sido Stephen Bonnet?
      -Jesus! -exclamou ele-. No me tinha ocorrido.
      Tampouco a mim. O que sabia do Bonnet no parecia coincidir com a imagem dos reguladores, quase sempre homens pobres e se desesperados como Joe Hobson, Hugh 
Fowles e Abel MacLennan. Uns poucos eram idealistas indignados, como Husband e Hamilton. Stephen Bonnet podia ter sido, alguma vez, pobre e desesperado, mas eu tinha 
a razovel certeza de que no lhe teria ocorrido procurar compensao do governo por meio do protesto. Pela fora sim. Matar a um juiz ou a um delegado para vingar 
alguma injustia, muito possivelmente. Mas... No, era ridculo. Se de algo estava segura com respeito ao Stephen Bonnet era de que o homem no pagava impostos.
      -No. -Jamie moveu a cabea; ao parecer tinha chegado  mesma concluso-. Neste assunto no h dinheiro que ganhar. At o Tryon teve que solicitar recursos 
ao conde Hillsborough para costear sua tropa. E os reguladores... -Desprezou com um gesto a idia de que eles pagassem a algum por nada-. Embora no sei muito do 
Stephen Bonnet, acredito que s iria  batalha se lhe oferecessem ouro.
      -Certo. No parece possvel que Bonnet pudesse ser James MacQuiston, verdade?
      Pela primeira vez ele relaxou a cara, rendo.
      -No, Sassenach. Disso sim estou seguro. Stephen Bonnet no sabe ler nem escrever, alm de seu nome.
      -Como sabe?
      -Disse-me isso Samuel Cornell. No conhece pessoalmente ao Bonnet, mas diz que certa vez Walter Priestly veio a lhe pedir um emprstimo de dinheiro, com urgncia. 
Isso sentiu saudades, pois o homem tem fortuna, mas Priestly lhe explicou que tinha um embarque ao chegar e devia pag-lo em ouro; conforme disse, que o trazia no 
aceitava recibos de mercadoria em dposito, dinheiro da proclamao nem letras de mudana. Para ele s servia o ouro.
      -Sim, isso soa ao Bonnet. E falando de ouro...  possvel que Bonnet estivesse no Alamance por acaso? Caminho do River Run, talvez?
      Ele refletiu um momento, mas finalmente negou com a cabea.
      -No foi uma batalha importante, Sassenach, dessas em que pode verte envolto e miservel sem te dar conta. Os exrcitos estiveram frente a frente durante mais 
de dois dias; as linhas de sentinelas tinham mais buracos que uma rede de pesca; qualquer poderia ter abandonado o lugar ou dado um rodeio para evit-lo. E Alamance 
no est perto do River Run. No: quem quer que tenha sido o que quis matar ao Roger, estava ali por conta prpria.
      
      
      depois do jantar subi com o Jamie para ver como estava Roger. Jamie esperou a que eu avaliasse seu pulso e sua respirao. Logo, a meu sinal, sentou-se junto 
 cama.
              -Sabe quem eram os homens que lhe denunciaram? -perguntou sem prembulos.
      Roger assentiu com lentido e mostrou um dedo em alto.
      -Um deles. Quantos eram?
      Trs dedos. Concordava com as lembranas do Tryon.
      -Eram reguladores?
      Um gesto afirmativo. Jamie me olhou. Logo, outra vez ao Roger.
      -No era Stephen Bonnet?
      Ele se incorporou bruscamente, boquiaberto, e deu um tapa ao tubo em um vo intento por falar. Logo sacudiu violentamente a cabea.
      Eu o aferrei pelo ombro e sujeitei o tubo, que a violncia de seus movimentos havia medeio tirado da inciso. Roger pareceu no dar-se conta; seus olhos estavam 
cravados nos do Jamie e sua boca se movia com urgncia, formulando mudas perguntas.
      -No, no. SE no o viu  porque no esteve ali. -Jamie o colheu com firmeza pelo outro ombro para me ajudar a deit-lo-.  que Tryon h dito que te traiu 
um homem alto e loiro, provavelmente de olhos verdes. Pensamos que possivelmente...
      Ante isso Roger se relaxou. Negou outra vez com a cabea e Jamie insistiu:
      -Mas conhece homem. Tinha-o visto antes?
      Ele apartou o olhar, fez um gesto afirmativo e se encolheu de ombros. Parecia de uma vez irritado e indefeso. Ao notar que sua respirao se acelerava, sibilante 
no tubo de mbar, pigarreei significativamente, com o sobrecenho franzido. Roger estava fora de perigo, no momento, mas isso no significava que estivesse bem.
      Jamie no me emprestou ateno. antes de subir, tinha pego a caixa de desenho do Bree. P-la no regao do Roger, com uma folha de papel em cima, e lhe ofereceu 
um dos lpis-carves.
      -Quer provar outra vez?
      Tinha tratado vrias vezes de que Roger se comunicasse por escrito, mas suas mos estavam muito torcidas para sujeitar uma pluma. Ele apertou os lbios um 
momento, mas fechou torpemente a mo em torno do lpis-carvo.
      Enrugou a frente, para concentrar-se, e comeou a rabiscar algo lentamente. Jamie o observava com ateno, sustentando o papel com as duas mos para que no 
se escorregasse.
      A barra de carvo se partiu em dois e seus fragmentos caram ao cho. Enquanto eu ia recolher os, Jamie se inclinou sobre a folha manchada. Havia uma escancarada 
W, logo uma M, um espao e um torpe MAC.
      -William? -Olhou ao Roger, pedindo verificao. Nos mas do rosto do doente brilhava o suor, mas assentiu muito brevemente.
      -William MAC -disse, espiando sobre o ombro do Jamie-. Foi um escocs.... ou ao menos algum de sobrenome escocs?
      Roger apertou um punho e se golpeou o peito, uma e outra vez, modulando uma palavra com os lbios. Por uma vez fui mais rpida que Jamie.
      -MacKenzie? -perguntei.
      Minha recompensa foi um veloz brilho de olhos verdes e um gesto afirmativo.
      -MacKenzie. William MacKenzie. -Jamie, com o sobrecenho enrugado, revisava obviamente sua lista mental de nomes e caras, mas nenhuma coincidia.
      Eu observava ao Roger. Sua cara tambm comeava a parecer mais normal. Pareceu-me ver algo estranho em sua expresso. Em seus olhos li dor fsica, impotncia 
e frustrao por sua incapacidade de revelar ao Jamie o que desejava saber, mas tambm algo mais. Ira, sem dvida, e tambm um pouco parecido ao desconcerto. 
      -Conhece algum William MacKenzie? -perguntei ao Jamie.
      -Sim, a quatro ou cinco. Em Esccia. Aqui, nenhum. E tampouco...
       palavra "Esccia" Roger levantou abruptamente uma mo. Jamie se interrompeu, atento  cara do Roger como um co pointer.
      -Esccia -repetiu-. Algo sobre Esccia? O homem  imigrante novo?
      Roger sacudiu violentamente a cabea, mas imediatamente se deteve com uma careta de dor. Durante um momento, fechou os olhos com fora; ao abri-los alargou 
uma mo insistente para as partes de lpis-carvo que eu tinha na mo.
      Teve que tent-lo vrias vezes; ao terminar jazia contra o travesseiro, exausto. O resultado de seu esforo era impreciso e escancarado, mas li o nome com 
claridade.
      "Dougal", dizia. A expresso interessada do Jamie se agudiz at converter-se em um pouco parecido  cautela.
      -Dougal -repetiu cuidadosamente. Tambm conhecia vrios Dougal, alguns dos quais residiam na Carolina do Norte-. Dougal Chisholm? Dougal OuNeill?
      Roger moveu a cabea; o tubo assobiou com sua exalao. Logo levantou a mo para assinalar enfaticamente ao Jamie com os dedos entalados. Como a nica resposta 
fora um olhar de incompreenso, procurou provas a parte de lpis-carvo, mas este rodou pela caixa de desenho at cair ao cho.
      Tinha os dedos sujos de p de carvo. Com uma careta de dor, apertou a gema do anular contra a pgina e, mediante o recurso de utilizar todos os dedos por 
turnos, produziu um fantasmal gancho de ferro, que disparou uma pequena descarga eltrica da base de minha coluna.
      "Geillie", dizia. 
      Jamie olhou esse nome um momento. Logo se fez o sinal da cruz, estremecido.
      -O filho que Dougal teve com o Geillis Duncan -disse Jamie, girando para ele com a incredulidade escrita na cara-. Acredito que o chamaram Willian. Refere 
a ele? Est seguro?
      Um breve assentimento. Roger fechou os olhos. Quando voltou a abri-los, um dedo entalado se elevou, vacilante, para assinalar seu prprio olho: um verde claro 
e intenso, da cor do musgo.
      
      A revelao da identidade do William Buccleigh MacKenzie no alterou o desejo do Jamie por achar a esse homem, mas sim sua inteno de mat-lo assim que o 
achasse.
      Brianna, chamada a meu quarto para uma consulta, entrou com seu avental de pintura, trazendo um forte aroma de terebintina e azeite de linho.
      -Sim -disse-. ouvi falar dele. William Buccleigh MacKenzie. O menino trocado.
      -O que? -As sobrancelhas do Jamie subiram para a linha do cabelo.
      -Assim o chamava eu -disse-. Quando vi a rvore genealgica do Roger e ca na conta de quem devia ser William Buccleigh MacKenzie. Dougal entregou o menino 
ao William e Sarah MacKenzie, recorda? E eles lhe puseram o nome do filho que tinham perdido dois meses antes.
      -Roger mencionou que tinha visto o William MacKenzie e a sua esposa a bordo do Gloriana, na viagem entre Esccia e Carolina do Norte -explicou Bree-. Mas demorou 
para compreender quem era e no teve oportunidade de falar com ele. De modo que esse William est aqui. Mas por que diabo quis matar ao Roger... e por que dessa 
maneira?
      - o filho de uma bruxa -especificou Jamie, como se com isso bastasse.
      -Tambm me acreditavam bruxa -lhe recordei com certa aspereza.
      Isso provocou um olhar de soslaio e uma curva de sua boca.
      - certo -disse-. Pois bem, suponho que ser necessrio esperar enquanto investigo. E saber o nome  til. Mandarei reflexo ao Duncan e ao Farquard. Mas o 
que farei quando o encontrar? Embora seja filho de uma bruxa, no posso matar a algum de meu prprio sangue. depois do Dougal... -Se conteve a tempo e dissimulou 
com uma tosse-. Quero dizer, depois de tudo,  o filho do Dougal. minha primo...
      Compreendi o que tinha querido dizer. Quatro pessoas sabiam o acontecido aquela noite, no apartamento de cobertura do Culloden House, em vsperas daquela longnqua 
batalha. Uma delas tinha morrido; outra desapareceu no tumulto da Sublevao e era muito provvel que tambm tivesse morrido. S ficava eu como testemunha do sangue 
do Dougal e a mo que a tinha derramado. Pouco importava que crmenes tivesse cometido William Buccleigh MacKenzie, a memria de seu pai impediria que Jamie o matasse.
      -Pensava mat-lo? antes de averiguar quem era?
      -Roger MAC  seu marido, filho varo de minha casa -disse, muito srio-. Devo ving-lo,  obvio.
      -Bem -disse-. Quando achar ao William Buccleigh MacKenzie, quero me inteirar.
      
      
      Brianna estendeu um emplastro de betume de pintura verde e o mesclou ao grande manchn cinza claro que tinha criado. Logo vacilou um momento, inclinando a 
paleta por volta de um e outro lado  luz da janela, para apreciar a cor formada, e acrescentou um toque de cobalto ao outro lado do manchn, produzindo uma variedade 
de tons sutis que foram do cinza azulado ao esverdeado, to tnues que se requeria os olhos de um entendido para distingui-los do branco.
      Com um dos pincis curtos e grossos, aplicou isso cinzas ao tecido, trabalhando a curva da mandbula com diminutas pinceladas superpuestas. Sim, assim estava 
bem: plido como a porcelana, mas com uma sombra vvida debaixo... um pouco de uma vez delicado e terrestre.
      Pintava com uma profunda concentrao que a isolava de quanto a rodeava, absorta na dobro viso do artista, comparando a imagem em evoluo com a que tinha 
inmutablemente gravada na memria. No porque tivesse sido a primeira vez que via um morto. Seu pai, Frank, tinha sido velado com o atade aberto. E tambm tinha 
ido aos velrios de velhos amigos da famlia. Mas as cores que aplicavam os artistas embalsamadores eram toscos, quase brutais em comparao com os de um cadver 
fresco. O contraste a tinha deixado estupefata. 
      Do corredor lhe chegaram vozes desconhecidas, mas se dirigiam ao salo. J tranqila, agarrou novamente o pincel grosso.
      Invocou novamente sua imagem mental: o morto no Alamance sob a rvore, perto do improvisado hospital de campanha de sua me. No lhe tinha ocorrido perguntar 
pelo nome do defunto. Acaso era falta de sensibilidade? Provavelmente; o fato era que toda sua sensibilidade tinha estado, por ento, dedicada a outra coisa... e 
ainda era assim. No obstante, fechou os olhos para rezar uma rpida orao pela alma de seu involuntrio modelo.
      Ao abrir os olhos viu que a luz se perdia. Ento rasquete a paleta e comeou a limpar os pincis; lentamente, a contra gosto, saa de seu trabalho para retornar 
ao mundo.
      Ao Jem j teriam dado o jantar e seu banho, mas se negava a deitar-se se ela no o amamentava e o balanava at dormi-lo. Daria-lhe de mamar, deitaria-o e 
logo iria  cozinha a por seu jantar atrasado. No tinha comido com os outros para aproveitar a luz vespertina. Depois subiria para ver o Roger. 
      Nesse momento Phoebe Sherston apareceu a touca pela porta.
      -Ah, querida, estava aqui! No baixaria um momento ao salo? O matrimnio Wilbur morre por te conhecer.
      -N... pois sim,  obvio -disse Brianna, com toda a gentileza que pde. Logo assinalou com um gesto o avental manchado de pintura-. me D um momento para me 
trocar.
      Obviamente, a senhora Sherston queria exibir a seu dcil artista com disfarce e tudo.
      -No, no te incomode por isso. Esta reunio  muito singela. A ningum importar.
      -Bem, mas necessito um minuto para deitar ao Jem.
      A proprietria da casa fez uma careta com a boca; no entendia por que suas pulseiras no podiam fazer-se carrego desse menino. Mas Brianna j lhe tinha expresso 
sua opinio a respeito e teve a prudncia de no insistir.
      Brianna encontrou a seus pais no salo, com os Wilbur, que resultaram ser um amvel casal entrada em anos. Ao aparecer ela fizeram os devidos dramalhes, insistiram 
cortesmente em ver o retrato; expressaram profunda admirao tanto pelo tema como pela pintora e, em geral, comportaram-se com tanta amabilidade que ela se foi tranqilizando.
      Quando estava a ponto de desculpar-se, o senhor Wilbur aproveitou uma pausa na conversao para voltar-se para ela com um sorriso benvolo.
      -Tenho entendido que corresponde felicit-la por sua boa sorte, senhora MacKenzie.
      -N? Ah... obrigado -disse ela, sem saber por que a felicitavam. Olhou a sua me, procurando alguma pista.
      Claire fez uma pequena careta e se voltou para o Jamie. Ele tossiu.
      -O governador Tryon outorgou a seu marido cinco mil acres de terra -disse em tom sereno, quase desanimado.
      -De verdade? -Bree ficou momentaneamente desconcertada-. O que...? por que?
      -Como compensao -disse sua me, seca, olhando a seu marido.
      Ento Brianna compreendeu: ningum cometeria a estupidez de mencionar abertamente o enforcamento acidental do Roger, mas era um episdio muito sensacional 
como para no ter circulado por toda a sociedade do Hillsborough. de repente caiu na conta de que talvez no fora por pura amabilidade que a senhora Sherston tinha 
convidado a seus pais e ao Roger. A notoriedade de ter como hspede ao prprio enforcado concentraria a ateno do Hillsborough nos Sherston, de uma maneira muito 
lhe gratifiquem. Era at melhor que fazer-se pintar um retrato nada convencional.
      -Confio que seu marido esteja muito melhor, querida. -A senhora Wilbur, com muito tato, cobriu o buraco na conversao-. Nos causar pena muito saber o de suas 
leses.
      -Sim, est muito melhor, obrigado -disse ela, com o sorriso mais breve que a cortesia autorizava. Logo se voltou novamente para seu pai-. Sabe Roger? O da 
outorga de terras?
      Ele apartou a vista, pigarreando.
      -No. Supus que quereria dizer-lhe voc.
      A primeira reao da moa foi de gratido: teria algo para lhe dizer a seu marido. Era muito incmodo, isso de falar com algum que no podia te responder. 
Ela passava todo o dia acumulando temas de conversao, pequenas idias ou acontecimentos que pudesse converter em relatos quando o visse. Mas a proviso de contos 
se acabava muito logo e a deixava sentada junto ao leito,  busca de temas incuos.
      Sua segunda reao foi chateio. No podia seu pai dizer-lhe em privado, em vez de expor os assuntos familiares ante completos desconhecidos? Logo captou o 
sutil intercmbio de olhares entre seus pais; ento caiu na conta de que Claire acabava de fazer essa mesma pergunta ao Jamie, embora em silncio, e ele tinha respondido 
com um muito breve desvio da vista para o senhor Wilbur e a proprietria da casa, antes de baixar as largas pestanas avermelhadas.
      " melhor dizer a verdade ante testemunhas respeitveis -dizia sua expresso-, antes de que as intrigas se disseminem por conta prpria."
      No lhe importava muito sua prpria reputao, mas conhecia as realidades sociais o bastante bem para compreender que um escndalo podia prejudicar muito a 
seu pai. Por exemplo: se comeava a rondar por a um falso relatrio que, em realidade, Roger tinha sido um dos cabeas da Regulao, a lealdade do mesmo Jamie cairia 
sob suspeita.
      Seu pai ocupava uma posio proeminente, mas no to segura para resistir os efeitos corrosivos do rumor e a suspeita. Ela e Roger o tinham discutido mais 
de uma vez na intimidade; as linhas de fratura j estavam ali, bastante bvias para quem soubesse o que se morava; as tenses que se aprofundariam at abrir o abismo 
e separar da Inglaterra s colnias.
      SE a tenso crescia muito s pressas ou se tornava muito grande, se os fios entre a Colina do Fraser e o resto da colnia se desgastavam muito... podiam romper-se; 
os extremos pegajosos se fechariam em um grosso casulo em volto de sua famlia, deixando-os suspensos por um fio, ss e presa daqueles que lhes chupariam o sangue.
      "Esta noite est morbosa", disse-se, agriamente divertida ante as imagens escolhidas por sua mente. Provavelmente era o efeito de pintar a morte.
      Nem os Wilbur nem os Sherston pareceram reparar em seu estado de nimo. Sua me, em troca, jogou-lhe um olhar largo e reflexivo, embora no disse nada. depois 
de intercambiar com os visitantes algumas frases gentis, Bree se desculpou.
      No quarto do Roger havia luz. Brianna foi para ali, esquecendo a comida ante um apetite maior por seu contato.
      Uma pulseira cabeceava no rinco, com as mos frouxas no regao, sobre o trabalho de ponto. Ao abri-la porta deu um coice e piscou com ar culpado.
      Imediatamente Bree olhou para a cama, mas tudo estava bem: a estava o vaio da respirao do Roger. Despediu-se da mulher com um gesto. Roger jazia de costas, 
com os olhos fechados e o lenol bem estirado sobre os ngulos marcados de seu corpo. "Est muito magro -se disse ela-. Como pde emagrecer tanto em to pouco tempo?" 
Embora no podia tragar mais que umas quantas colheradas de sopa e o caldo de penicilina que preparava Claire, no era possvel que se consumisse tanto em s dois 
ou trs dias.
      Logo caiu na conta de que devia ter emagrecido antes, pelas tenses da campanha; tambm seus pais tinham perdido peso. O horrvel inchao de suas faces tinha 
dissimulado o proeminente de seus ossos. 
      Aspirou fundo ao precaver-se de que a janela desse quarto tambm estava fechada; o suor lhe corria pela parte baixa das costas, escorrendo-se desagradablemente 
pela fenda entre as ndegas.
      O rudo do marco corredio despertou ao Roger, que girou a cabea no travesseiro. Ao v-la sorriu apenas.
      -Como est? -perguntou ela em voz baixa.
      Ele encolheu um pouco um ombro, mas modulou com os lbios um silente "Bem".
      -Faz um calor espantoso, verdade?
      Bree assinalou a janela; o ar que entrava era quente, mas ao menos se movia. Com um gesto afirmativo, ele se atirou do pescoo da camisa com uma mo enfaixada. 
Ela captou a insinuao e o desatou para abrir-lhe at onde pde, lhe expondo o peito  brisa.
      Na mesinha havia uma tigela coberta com um caldo de carne frio, condimentado com penicilina; a um lado, uma taa de ch adoado com mel. Agarrou a colher e 
fez gesto  inquisitivo. Ele fez uma leve careta, mas assinalou o caldo. Bree se sentou no tamborete, com a tigela na mo.
      Embora devia estar atenta a sua boca para guiar a colher, sentiu que seus olhos a observavam. Teria querido olh-los, mas quase tinha medo do que podia encontrar 
nessas a Honduras verdes: seria o Roger que ela conhecia ou o desconhecido silencioso, o enforcado?
      -Ah!, quase o esquecia. -interrompeu-se em meio de uma descrio dos Wilbur. No o tinha esquecido, mas tampouco queria lhe soltar a notcia sem razo-. Esta 
tarde papai falou com o governador. Tryon te outorgar umas terras. Cinco mil acres.
      Enquanto o dizia captou o absurdo daquilo: cinco mil acres de pramo em troca de uma vida quase destruda.
      Ele franziu o sobrecenho, em algo que parecia desconcerto; logo moveu a cabea e se recostou novamente contra o travesseiro, com os olhos fechados. Levantou 
as mos e as deixou cair, como se aquilo fora muito para pens-lo. Talvez tinha razo.
      Bree o contemplou em silencio durante um momento, mas ele j no voltou a abrir os olhos. Havia profundas rugas ali onde se uniam as sobrancelhas. Movida pela 
necessidade de toc-lo, de franquear essa barreira de silncio, riscou a sombra do cardeal que obscurecia o ma do rosto, roando apenas a pele.
      Roger abriu os olhos e os fixou em sua cara, impassvel a expresso. Bree, consciente de sua expresso preocupada, esforou-se por sorrir.
      -No parece morto -disse.
      Isso rompeu a fachada impassvel; as sobrancelhas se curvaram para cima e aos olhos apareceu uma tnue fasca de humor.
      -Roger.... -A falta de palavras se moveu para ele, impulsiva. Ele ficou algo rgido, encolhendo instintivamente os ombros para proteger o frgil tubo da garganta. 
Bree lhe rodeou os ombros com um brao; ps muita cautela, mas necessitava desesperadamente Te senti-lo amo -sussurrou. E lhe estreitou o brao, insistindo-o a lhe 
acreditar.
      Beijou-o. Seus lbios estavam quentes e secos; apesar da familiaridade, experimentou certa impresso. No havia ar que se movesse contra a bochecha, nem flego 
quente que a tocasse. Era como beijar uma mscara. Desde profundidades secretas dos pulmes, uma corrente mida vaiava no tubo de mbar e roava o pescoo do Bree, 
como a exalao de uma caverna. Lhe arrepiou a pele dos braos. Deu um passo atrs, com a esperana de que nem a impresso nem o rechao de lhe refletissem no rosto. 
      Ele tinha fechado os olhos com fora e tinha os dentes apertados; a sombra se movia em sua mandbula.
      -Que... descanse -conseguiu dizer, com voz trmula-. At... at manh. 
      
      
      74
      
      Os sons do silncio
      
      
      Passaram dez dias antes de que o retrato do Penelope Sherston ficasse terminado a seu gosto. Para ento, tanto Isaiah Morton como Roger estavam a bastante 
reposies para viajar. Dado o iminente naciemiento da vergntea Morton e o perigo que corria seu pai se se aproximava do Granite Falls ou ao Brownsville, Jamie 
fez acertos para que ele e Alicia se alojassem em casa do cervezero dos Sherston; Isaiah lhe serviria de carreteiro assim que sua sade o permitisse.
      Morton tinha revivido espetacularmente com a chegada da Alicia; no curso de uma semana, pde baixar a escada e sentar-se na cozinha, a contemplar como co 
devoto enquanto ela trabalhava. Caminho  cama se deteve para fazer algum comentrio sobre o retrato da senhora Sherston.
      -Verdade que  igual a ela? Basta ver esse quadro para saber quem .
      Posto que a senhora Sherston tinha querido que a pintassem no papel do Salom, ou no estava muito segura de que isso fora um completo, mas ela se ruborizou 
coquetamente e o agradeceu.
      Em realidade Bree fazia um trabalho estupendo; retratou-a com  realismo, embora favorecendo-a. O nico aspecto em que tinha cedido  tentao era um detalhe 
sem importncia: a cabea atalho do Juan o Batista tinha um notvel parecido com as faces taciturnas do governador Tryon. Mas com tanto sangue era difcil que 
algum se precavesse.
      Estvamos preparados para retornar a casa e todos refletamos um inquieto entusiasmo e alvio. Todos, salvo Roger.
      O jovem estava indiscutivelmente melhor, em trminos puramente fsicos. Voltava a mover as mos, com exceo dos dedos fraturados, e o moretn da cara e o 
corpo tinha desaparecido quase completamente. O melhor de tudo era que a tumefao da garganta tinha cedido ao ponto de lhe permitir respirar pela boca e o nariz. 
Pude lhe retirar o tubo do pescoo e suturar a inciso.
      Em trminos psicolgicos, eu no estava muito segura de sua recuperao. depois de lhe suturar o pescoo o ajudei a incorporar-se, limpei-lhe a cara e lhe 
dava um pouco de gua mesclada com brandy, para que fizesse de reconstituinte. depois de observ-lo atentamente enquanto bebia, apoiei os dedos em seu pescoo, apalpando 
com cuidado, e lhe pedi que tragasse outra vez. Avaliei com os olhos fechados o movimento da laringe, os anis da traquia e o grau de dano sofrido.
      Ao abrir os olhos me encontrei com os seus a cinco centmetros, ainda muito abertos. Neles havia uma pergunta fria e nua como um tmpano.
      -No sei- repeti, apartando lentamente os dedos-. Quer... provar?
      Ele negou com a cabea e se levantou para aproximar-se da janela, de costas a mim, com os braos apoiados no marco. Um vago, inquieta lembrana se agitou em 
minha mente. 
      Aquilo no tinha acontecido a pleno dia a no ser em uma noite de lua, em Paris. Ao despertar do sonho tinha visto o Jamie de p e nu, emoldurado pela janela; 
as cicatrizes de suas costas eram prata plida e seu corpo reluzia de suor frio. Roger tambm estava suando, embora pelo calor; a camisa lhe pegava ao corpo. E suas 
linhas eram as mesmas: o aspecto de um homem que se tensa para enfrentar-se ao medo, que escolheu confrontar sozinho a seus demnios.
      Da rua subiam algumas vozes; era Jamie, que retornava do acampamento com o Jemmy sentado ante ele, na arreios. Tinha tomado o costume de levar a menino consigo 
em suas sadas dirias, para que sua me pudesse trabalhar sem distraes.
      Bree saiu para agarrar ao menino e sua voz subiu flutuando, entre risadas. Roger parecia esculpido em madeira. lhe cham-los era impossvel, mas poderia ter 
golpeado o marco da janela ou fazer algum rudo para saud-los com a mo. Mas no se moveu.
      depois de um momento me levantei para sair sem fazer rudo, com um n na garganta.
      Quando Bree se levou ao Jemmy para lhe dar um banho, Jamie me contou que Tryon tinha liberado a quase todos os homens capturados durante a batalha. 
      -Entre eles, ao Hugh Fowles. -Deixou a um lado a jaqueta e se afrouxou o pescoo da camisa, com a cara levantada para a brisa da janela-. Eu pedi por ele... 
e Tryon me escutou.
      -Era o menos que podia fazer -lhe disse, irritada.
      Ele fez um rudo grave do fundo da garganta. Fez-me pensar no Roger, cuja laringe j no era capaz dessa peculiar expresso escocesa. A aflio deveu notar-se 
em minha cara, pois Jamie me tocou um brao, arqueando as sobrancelhas.
      -suturei o pescoo do Roger -disse-. J pode respirar... mas no sei se poder falar outra vez. 
      Jamie fez outro de seus rudos, esse profundo e colrico.
      -Tambm falei com o Tryon sobre o que prometeu para o Roger MAC. Deu-me o documento da cesso de terras: cinco mil acres contigos a meus. Seu ltimo ato oficial 
como governador... virtualmente.
      -O que quer dizer com isso?
      -Disse que liberou a quase todos os prisioneiros? -separou-se de mim, inquieto-. A todos, menos a doze, cabeas proscritos da Regulao aos que retm no crcere. 
Ao menos, isso diz. -A ironia de sua voz era to densa como o ar poeirento-. vai apresent-los a julgamento dentro de um ms, com cargos de rebelio.
      -E se os declaram culpados...
      -Ao menos eles podero falar antes de que os enforquem.
      deteve-se diante do retrato, com o sobrecenho franzido. Mas no soube se o via. 
      -No ficarei presenciando isso. Hei- dito ao Tryon que devemos partir para nos ocupar de nossas colheitas e dos animais. me apoiando nessa base, deu que baixa 
 companhia de milicianos.
      -Quando partiremos?
      -Amanh. -Tinha emprestado ateno ao retrato, sim: assinalou com sombria aprovao  cabea boquiaberta na bandeja-. S h um motivo para atrasar-se e acredito 
que agora no tem muito sentido.
      -Qual?
      -O filho do Dougal -respondeu, dando as costas ao retrato-. Nestes dez dias procurei ao Willliam Buccleigh MacKenzie de ponta a ponta do condado. achei a alguns 
que o conheceram, mas ningum o viu desde o Alamance. H quem diz que abandonou definitivamente a colnia. So muitos os reguladores que fugiram. Husband, conforme 
dizem, levou-se a sua famlia a Maryland. Mas quanto ao William MacKenzie, desapareceu como uma serpente na guarida de um rato. E sua famlia com ele.
      
      
      75
      
      Dava meu nome
      
      
      Nossa viagem de volta  Colina do Fraser foi muito mais rpido que o trajeto ao Alamance, em que pese a ir sempre custa acima. A companhia de milicianos se 
desfeito nada mais receber a baixa do governador; seus membros se dispersavam depressa para retornar a suas casas e a seus campos.
      Por isso nosso grupo era muito mais reduzido: apenas duas carretas. Alguns homens que viviam perto da Colina decidiram viajar conosco: os dois moos Findlay, 
por exemplo, posto que no trajeto passaramos frente  casa do sua me.
      Joguei uma olhada dissimulada aos irmos, que estavam ajudando a descarregar a carreta para instalar o acampamento noturno. Bons moos, embora calados. Respeitavam 
ao Jamie e pareciam lhe ter um respeito quase religioso, mas durante essa breve campanha tinham formado uma peculiar aliana com o Roger. Essa estranha fidelidade 
continuou  inclusive ao deband-la companhia.
      Os dois tinham ido ao Hillsborough para visit-lo. Levavam-lhe trs mas tempranas, verdes e disformes, obviamente roubadas de alguma pomar alheio. Ele as 
tinha agradecido com um largo sorriso; antes de que eu pudesse impedir-lhe agarrou uma e lhe deu uma herica dentada. Levava uma semana sem tragar mais que sopa; 
esteve a ponto de morrer engasgado, mas a tragou, asfixiado e ofegante. E os trs sorriram de brinca a orelha, olhando-se sem dizer nada, com lgrimas nos olhos.
      Durante a viagem, os Findlay estavam acostumados a estar perto do Roger, sempre vigilantes e preparados para saltar em sua ajuda quando as feridas das mos 
lhe impediam de fazer algo. Jamie me tinha falado do Iain Mhor, o tio dos moos; obviamente, tinham muita experincia quanto a adivinhar as necessidades no expressas.
      Roger se tinha recuperado com celeridade, posto que era jovem e forte; alm disso,  as fraturas no eram graves. Mas duas semanas era pouco para que os ossos 
quebrados se soldassem; eu teria preferido mant-lo enfaixado por uma semana mais. Entretanto, como era bvio que a restrio o irritava, o dia antes da partida 
lhe tinha tirado os entalados dos dedos, contra meu parecer e lhe advertindo que devia cuidar-se muito.
      -|Ni te ocorra! -disse-lhe, ao ver que ia retirar da carreta um pesado saco de provises.
      Ele me olhou com uma sobrancelha em alto; logo se encolheu tranqilamente de ombros e deu um passo atrs, para que Hugh Findlay carregasse com o saco. Assinalou 
as pedras que Iain Findlay trazia para rodear a fogueira; logo, ao bosque prximo. Podia recolher lenha?
      - obvio que no -respondi com firmeza.
      Ele fez o sinal de beber e arqueou as sobrancelhas. Ir a por gua?
      -No. Bastaria com que te escorregasse um cntaro e...
      -Pode escrever, Sassenach? -perguntou Jamie, que se tinha detido junto  carreta e observava a cena.
      -Escrever? Escrever o que? -perguntei, surpreendida.
      Mas ele j tinha passado junto a mim para revolver em busca de seu maltratado porttil.
      -Cartas de amor? -sugeriu, com um grande sorriso-. Ou sonetos, possivelmente? -Arrojou- o escritrio dobradia ao Roger, que o recebeu limpamente nos braos, 
apesar de meu chiado de protesto-. Mas talvez, antes de compor um poema pico em honra ao William Tryon, possa me relatar como foi que nosso mtuo parente tratou 
de te matar, no?
      O jovem lhe dedicou um sorriso torcido e fez um lento gesto afirmativo.
      Comeou a escrever enquanto se montava o acampamento; fez uma pausa para jantar e logo retomo a tarefa. Com apenas me olh-lo doam as articulaes dos dedos.
      -Ai! Basta j disso!
      Apartei a vista da frigideira que estava esfregando com um punhado de juncos e areia. Brianna estava entretida em um combate mortal com seu filho, que se arqueava 
para trs contra seu brao, retorcendo-se e dando patadas, em um dessas enloquecedoras rabietas ante as que at os pais mais abnegados pensam no infanticdio.
      -O que te passa? -interpelou Bree, irritada. E lutou com o Jemmy at obter que se sentasse pela metade; ao parecer tratava de lhe trocar o fralda para deit-lo.
      -Tal v no esteja cansado ainda -sugeri-. Mas j comeu, verdade'
      -Sim. E pode que ele no esteja cansado, mas eu sim.
      Era certo. Tinha caminhado junto  carreta a maior parte do dia, a fim de aliviar o esforo dos cavalos nas costas, cada vez mais levantadas. Tambm eu.
      -Deixa-o aqui e vete a te lavar, quer? -propus.
      O menino, erguido sobre as mos e os joelhos, oscilava para diante e para trs, entre horrveis relinchos. Agarrei uma grande colher de madeira e a movi tentadoramente 
ante ele. Ao v-la deixou de chiar e se sentou em cuclillas, suspicaz.
      Adicionei  ceva uma taa de lata e a pus no cho, perto dele. Isso foi suficiente; rodou sobre o traseiro, agarrou a colher com ambas as mos e iniciou o 
intento de enterrar a taa a golpes bree dirigiu um olhar de profunda gratido e desapareceu no bosque, pelo pendente que conduzia ao pequeno arroio. 
      Jamie alargou um brao por cima de meu ombro para me pr uma taa na mo e se sentou a meu lado.
      --Slainte, mo nighean donn -disse com um suave sorriso, levantando sua prpria taa em um brinde.
      -Hum. -Fechei os olhos, inalando os fragrantes vapores-.  correto dizer slainte quando no  usque o que bebe? -O contedo da taa era vinho.
      -No vejo por que no -respondeu ele, com lgica-. Ao fim e ao cabo  s um desejo de boa sade. 
      -Certo, mas acredito que dizer "sade"  um desejo mais prtico que figurativo, ao menos com certo tipo de usque; quer dizer expressas a esperana de que 
a pessoa com quem brinda sobreviva  experincia de beb-lo.
      Seus olhos se enrugaram em uma risada divertida.
      -Ainda no matei a ningum com o destilo, Sassenach.
      -No me referia ao teu. -Fiz uma pausa para beber outro pouco-. Ah, que rico! Pensava nesses trs milicianos do regimento do coronel Ashe.
              Um sentinela tinha descoberto a esses trs homens bbados perdidos, depois de ter consumido uma garrafa de algo que acontecia usque, conseguido Deus 
sabe onde. Como a companhia do Ashe no contava com cirurgio e ns acampvamos ao lado, chamaram-me em meio da noite para que os atendesse o melhor possvel. Os 
trs sobreviveram, mas a gente tinha perdido a vista de um olho e outro ficou com certo grau de leso cerebral.
      Jamie se encolheu de ombros. A embriaguez era uma dessas coisas da vida. E o mau licor, o mesmo.
      -Thig a seo, a chuisle! -clamou. Jemmy, perdido o interesse pela taa e a colher, engatinhava para a cafeteira que tnhamos deixado entre as pedras da fogueira, 
para que se mantivera quente. O menino no emprestou ateno  ordem, mas foi posto fora de perigo pelo Tom Findlay, quem o enlaou com um brao pela cintura para 
entregar-lhe a seu av, apesar de seus pataleos.
      -lhe sente-se ordenou Jamie com firmeza.
      Sem lhe dar tempo a reagir, plantou-o no cho e lhe entregou sua bola de trapo. O menino o agarrou; seu olhar pcaro foi de seu av  fogueira.
      -isso arroja ao fogo, a chuisle, e te darei uma surra -lhe informo Jamie, afetuoso.
      Jem contraiu a frente e fez uma eloqente panela, mas no arrojou a bola s chamas.
      -A chuisle? -repeti, tratando de imitar Essa pronncia  nova. O que significa?
      -Pois... -Ele se esfregou a ponte do nariz com um dedo-. Significa "meu sangue".
      -Isso no se diz mo fuil?
      -Sim, mas esse  o sangue que brota quando te machuca. A chuisle  algo assim como... "OH, voc, em cujas veias corre meu prprio sangue". Em geral o diz s 
aos meninos de sua famlia.
      -Que encantador. -Deixei minha taa vazia no cho para me recostar contra seu ombro. Ainda estava cansada, mas a magia do vinho tinha gentil os rudes borde 
do esgotamento, me deixando agradavelmente atordoada-. O diria ao Germain? Ou ao Joan? Ou acaso a chuisle tem um sentido muito literal?
      -Como apelativo para o Germain preferiria um petit enmerdeur -respondeu, com um leve bufo de diverso-. Ao Joan.... Sim,  pequena Joan diria a chuisle.  
sangue do corao, compreende? No s do corpo.
      Jemmy tinha deixado cair sua bola de trapo e contemplava encantado as vaga-lumes que comeavam a titilar inteire a erva, ao cair a escurido. J com o estmago 
cheio e um agradvel descanso, todo mundo comeava a sentir o efeito sedativo da noite.
      Junto ao fogo se ouviu um forte sussurro de matas. por ali emergiu Brianna, molhada, mas muito mais animada. deteve-se junto ao Roger para lhe apoiar uma mo 
nas costas e jogou uma olhada ao que estava escrevendo. Ento ele levantou a vista e, encolhendo os ombros em um gesto resignado, reuniu as pginas j escritas de 
sua obra e as entregou. Ela se ajoelhou a um lado para ler, com o sobrecenho franzido pelo esforo de distinguir as letras  luz do fogo.
      -Foi boa idia fazer que Roger escrevesse -comentei-. No vejo o momento de saber o que aconteceu.
      -O mesmo digo -concordou Jamie-. Mas agora que Willliam Buccleigh desapareceu, pode ser mais importante saber o que  o que acontecer.
      -Assim no te interessa descobrir se sua primo  ou no capaz de assassinar a sangue frio? -perguntei.
      Ele emitiu um grunhido surdo que podia passar por risada.
      - um MacKenzie, Sassenach. Um MacKenzie do Leoch.
      Os Fraser eram duros como pedras, haviam-me dito. O mesmo Jamie descrevia com estas palavras aos MacKenzie do Leoch: "Encantados como cotovias do campo... 
e ardilosos como raposas".
      -O que?
      A exclamao da Brianna desviou minha ateno para o outro lado da fogueira. Olhava ao Roger com as pginas na mo e uma expresso onde se mesclava o regozijo 
e a consternao. A  cara do Roger estava volta para ela, mas levantou uma mo para sosseg-la e olhou para os homens que bebiam sob a rvore, para assegurar-se 
de que ningum a tivesse ouvido.
      Vi um reflexo de luz nos ossos de sua cara. Logo sua expresso trocou em um instante da cautela ao horror. levantou-se precipitadamente, com a boca aberta.
      -No! -bramou.
      Foi um grito terrvel, potente e spero, mas com um sotaque horrivelmente estrangulado, como se o tivesse arrojado com um punho fundo na garganta. Petrificou 
a todos quantos o ouviram... includo Jemmy, que tinha abandonado s vaga-lumes para reatar sigilosamente sua investigao da cafeteira. Levantou a vista para seu 
pai, detendo a mo a quinze centmetros do metal quente. Logo enrugou a cara e rompeu a chorar, assustado.
      Roger alargou os braos por cima da fogueira para levant-lo. O garotinho chiou e esperneou, tratando de escapar desse terrorfico desconhecido. Bree se apressou 
a fazer-se carrego dele, estreitando-o contra o seio, com a cara contra seu ombro. Tinha empalidecido pela impresso.
      Roger tambm parecia fortemente impressionado. levou-se uma mo cautelosa ao pescoo, como se no estivesse seguro de tocar sua prpria carne. Ainda tinha 
uma marca escura baixo o mandbula, deixada pela corda; era visvel at  luz vacilante do fogo, junto com a linha mais pequena e pulcra de minha prpria inciso.
      Passada a surpresa inicial causada por seu grito, os homens se levantaram para aproximar-se.
      -Diga algo mais -o insistiu Hugh Findlay.
      -Sim, senhor, tente-o-se somou Iain, radiante a cara redonda-. Diga... diga "Trs tigres comem trigo em um trigal".
      A sugesto foi sossegada com um vaio. Seguiu uma chuva de propostas entusiastas. Roger comeava a se desesperar-se e apertava os dentes. Jamie e eu nos tnhamos 
levantado; percebi que meu marido se dispunha a intervir de algum modo.
      Ento Brianna se abriu passo; Jemmy, acoplado a seu quadril, observava a cena com intensa confiana. Ela estreitou a mo do Roger e lhe dedicou um sorriso 
que logo que tremia um poquito.
      -Pode dizer meu nome? -perguntou.
      O sorriso do Roger se parecia com a sua. Chegou-me o rudo spero do ar em sua garganta, ao tomar flego. Nesta oportunidade falou com muita suavidade, mas 
todos guardavam silncio. Foi um sussurro penoso e denso. A primeira slaba golpeou com fora para brotar entre as cordas vocais danificadas; a ltima foi apenas 
audvel. Mas disse:
      -Brrria... na.
      E ela rompeu a chorar.
      
      
      76
      
      Dinheiro sangrento
      
      Colina do Fraser
      Junho de 1771
      
              Tinha-me sentado frente a Jamie em seu estudo para lhe fazer companhia; eu ralava razes de sanguinria enquanto ele lutava com as contas do trimestre. 
Ambas eram tarefas lentas e tediosas, mas assim podamos compartilhar a luz de uma mesma vela e desfrutar da mtua companhia.
      -Olhe isto!- exclamou Jamie-. Um tonel de brandy a doze xelins; duas peas de musselina a trs com dez cada uma; loja de ferragens... Para que demnios necessita 
Roger produtos de uma loja de ferragens? Acaso pensa tocar melodias com uma enxada? Loja de ferragens, dez com seis!
      -Acredito que isso foi por uma grade de arado- disse, pacificadora-. No  para ns. Roger a comprou para o Geordie Chisholm. 
              Jamie contemplou penosamente as cifras e se passou uma mo pelo cabelo.
      -Sim- disse-. S que Geordie no ter nem um penique at que se enfaixam as colheitas do ano prximo. De modo que serei eu quem deve pagar agora esses dez 
com seis xelins, verdade?
              Deixei cair em um frasco o extremo da raiz que terminava de ralar. A sanguinria tem o nome bem posto; o suco de sua raiz  vermelho, acre e pringoso. 
No regao tinha uma terrina cheia de raladas midas e rezumantes; pelo aspecto de minhas mos, haveria-se dito que acabava de estripar a uns quantos animalejos.
      -Tenho o cordial preparado de cerejas, seis dzias de garrafas- ofereci-lhe. Como se ele no soubesse! Durante toda uma semana a casa inteira tinha cheirado 
a xarope para a tosse-. Fergus pode as vender em Salem. 
              Jamie assentiu com ar distrado.
      -Sim, conto com isso para comprar sementes de milho. Tem algo mais que se possa enviar a Salem? Velas? Mel?
      -Acredito que posso prescindir de quarenta e cinco litros de mel- disse, com cautela-. E possivelmente de dez dzias... bom, de uma grosa de velas.
      -Acreditava que esta tinha sido um bom ano para suas colmias- observou.
              Era certo. Minha primeira colmia se expandiu; agora tinha nove em torno de meu pomar. delas tinha extrado quase duzentos e vinte e cinco litros de 
mel e cera suficiente para trinta dzias de velas. Por outra parte, tinha pensado dar outro uso a esses produtos.
      -Necessito um pouco de mel para a clnica- expliquei-.  um bom elemento antibacteriano para as feridas.
      -De acordo, fica com o mel. Posso vender o sabo?
              Assenti, agradada. Depois de muitos e precavidos experimentos, tinha obtido por fim produzir um sabo que no cheirava a porco morto encharcado em 
leja nem eliminava a capa superior da epiderme. Mas em vez de soro requeria azeite de girassol ou de oliva, ambos muito custosos.
              Tinha uma troca planejada com as mulheres cherokees: o que me sobrava de mel por seu azeite de girassol, para fazer mais sabo e xampu. Ambos se venderiam 
a preos excelentes em qualquer parte. Ao menos isso pensava eu, mas no estava segura de que Jamie acessasse a pr dinheiro nessa empresa, que demoraria meses em 
frutificar, se podia obter lucros imediatas vendendo o mel. No obstante, se o fazia ver que podamos ganhar muito mais com o sabo que com o mel sem elaborar, no 
teria dificuldades em me sair com a minha.
              antes de que pudesse expor as perspectivas se ouviram pisadas em ligeiras no corredor e uns suaves golpes na porta.
      -Passe- ordenou Jamie, erguendo as costas.
              O senhor Wemyss apareceu a cabea, mas imediatamente vacilou, um pouco alarmado pelas sanguinrias manchas de minhas mos. Jamie o convidou com um 
cordial movimento de pluma.
      -Sim, Joseph?
      -Posso lhe falar de um tema privado, senhor?
              Apartei a cadeira, mas quando ia recolher minhas coisas ele me deteve com um gesto.
      -OH!, no, senhora. Eu gostaria que voc tambm estivesse presente, se no lhe incomodasse. trata-se do Lizzie; a opinio de uma mulher me seria muito valiosa.
      - obvio.- Voltei a me sentar, j com curiosidade.
      -Do Lizzie? encontraste marido para nossa pequena, Joseph?- Jamie deixou a pluma no tinteiro.
      -Acredito que sim, senhor Frase. Esta manh veio Robin McGillivray para pedir a mo de minha Elizabeth para seu moo Manfred.
              Arqueei as sobrancelhas um pouco mais. At o que eu sabia, Manfred McGillivray no tinha visto o Lizzie mais de cinco ou seis vezes, nas que logo que 
tinham trocado umas poucas frases de cortesia.
              Quando o senhor Wemyss descreveu a situao, as coisas ficaram algo mais claras. Jamie tinha prometido uma dote para o Lizzie, consistente em uma parcela 
de boa terra; seu pai,  j livre de seu contrato de servido, tinha direito tambm a cinqenta acres, que ela herdaria. A parcela dos Wemyss confinava com a dos 
McGillivray; unidas, constituam uma granja muito respeitvel. Pelo visto, agora que Ute McGillivray tinha a suas trs filhas casadas ou convenientemente comprometidas, 
o matrimnio do Manfred era o passo seguinte de seu plano magistral. depois de examinar a todas as moas casaderas de trinta quilmetros  redonda, decidiu-se pelo 
Lizzie e enviado ao Robin para que iniciasse as negociaes.
      -Bom, os McGillivray so uma famlia decente- disse Jamie, judicioso. Enquanto refletia, afundou um dedo em minha terrina de sanguinria ralada e riscou uma 
linha de marcas vermelhas em seu secante-. No tm muita terra, mas ao Robin vai bastante bem e o pequeno Manfred  muito trabalhador, por isso me ho dito.
              Robin era armeiro e tinha uma pequena loja no Cross Creek. Manfred fazia sua aprendizagem com outro armeiro do Hillsborough; ento j cobrava jornal.
      -Levaria-a a viver ao Hillsborough?- perguntei. Isso podia influir muito no Joseph Wemyss. Embora era capaz de algo por assegurar um futuro a sua filha, amava 
profundamente ao Lizzie e perd-la-a partiria o corao.
      -Diz Robin que no, que planeja exercer seu ofcio no Woolam's Creek, sempre que puder pagar uma loja pequena. Viveriam na granja.- Jogou uma olhada de reojo 
ao Jamie e logo apartou a vista; o sangue subiu sob sua branca tez.
              Meu marido inclinou a cabea e vi que contraa a boca. De modo que era ali onde entrava ele nas negociaes. Woolam's creek era um pequeno assentamento 
que se estava desenvolvendo ao p da Colina do Fraser. Embora o moinho e as terras que se estendiam ao outro lado do arroio eram propriedade dos Woolam, uma famlia 
de quaisquer, para o lado da colina todo pertencia ao Jamie.
              At o momento tinha proporcionado terras, provises e ferramentas ao Ronnie Sinclair, Theo Frye e Bob Ou'Neill, para uma oficina de tonelero, uma ferraria 
(ainda em construo) e um pequeno armazm de produtos vrios; segundo as condies, ns participaramos eventualmente das lucros, mas no momento, no haveria ganhos.
              Se Jamie e eu tnhamos planos para o futuro, o mesmo podia dizer-se do Ute McGillivray. Certamente, ela sabia que Jamie faria quanto pudesse pelo Lizzie, 
pois sentia uma estima especial por ela e seu pai. E certamente, isso era o que Joseph Wemyss pedia agora com muita delicadeza: poderia Jamie proporcionar ao Manfred 
um lugar no Woolam's Creek, como parte do acordo?
              Ele me olhou pela extremidade do olho. Eu encolhi imperceptivelmente um ombro; perguntava-me se Ute McGillivray, em seus clculos, teria tido em conta 
a fragilidade fsica do Lizzie. Havia muitas jovencitas mais fortes que ela e melhor dotadas para a maternidade. Mesmo assim, no caso de que morrera de parto, deixaria 
mais ricos aos McGillivray, tanto pelas terras de seu dote como pela propriedade do Woolam's Creek. E no era to difcil conseguir outra esposa.
      -Suponho que se poderia fazer algo- respondeu Jamie, cauteloso. Vi que seu olhar ia para o livro de contas, com suas deprimentes colunas de cifras.
      -J me arrumarei isso- disse-. Mas o que diz a menina? Aceita ao Manfred?
              O senhor Wemyss pareceu duvidar um pouco.
      -Diz que sim.  um bom moo, embora sua me... Boa mulher, muito boa- acrescentou imediatamente-, s que um pouco... n... Mesmo assim...
              Voltou-se para mim, enrugada a estreita frente.
      -Para falar a verdade, senhora, no estou seguro de que Lizzie saiba o que quer. Sabe que  uma boa partida e que estaria perto de mim.- Sua expresso se abrandou 
ao diz-lo. Logo voltou a ficar firme-. Mas eu no gostaria que aceitasse s por me agradar.
      -Compreendo- disse-. Quer voc que fale com ela?
      -OH, senhora!, estaria-lhe muito agradecido.- levantou-se quase de um salto, aliviado pelo alvio. depois de estreitar fervorosamente a mo ao Jamie, inclinou-se 
vrias vezes ante mim e saiu por fim, com muitas reverncias e murmrios de gratido.
              A porta se fechou atrs dele, e Jamie moveu a cabea, suspirando.
      
      
      
              A nica vela, a ponto de consumir-se, arrojava sombras movedias pela habitao. Levantei-me para ir para a prateleira em busca de outra. Para minha 
surpresa, Jamie se aproximou tambm; e, procurando detrs das velas novas e mdio consumidas, extraiu das sombras um achaparrado relgio-candelabro. 
              P-lo no escritrio e utilizou uma das velas para acend-la. A mecha j estava enegrecida: a vela tinha sido utilizada anteriormente, embora no estava 
muito consumida. A um olhar do Jamie fui silenciosamente a fechar a porta.
      -Crie que chegou o momento?- perguntei em voz fica, me detendo seu lado.
              Ele moveu a cabea sem responder. Logo, com um suspiro, voltou para mim o livro de contas. Ali pude ver o estado de nossos assuntos, apresentado em 
branco e negro: fatal, no que a efetivo se referia. Alm da armera para o Manfred McGillivray e a modesta dote do Lizzie, devamos confrontar os gastos normais 
da criao e a manuteno do gado, mais um ambicioso plano para subministrar grades de arado a todos os arrendatrios, muitos dos quais ainda estavam lavrando  
mo.
              E alm de nossos prprios gastos, carregvamos com uma onerosa obrigao: a maldita Laoghaire MacKenzie Frasier, alis Mau Raio a Parta. 
              No era exatamente uma ex-mulher, mas tampouco deixava de s-lo. Convencido de que minha ausncia era definitiva (se  que no tinha morrido), Jamie 
se tinha casado com ela por insistncia de sua irm Jenny. Em pouco tempo foi bvio que esse matrimnio era um engano; ao reaparecer eu se pediu a anulao, para 
alvio de todos os envoltos.
              Jamie, generoso at o excesso, tinha acordado lhe pagar uma importante penso anual e atribuir uma dote a cada uma das filhas do Laoghaire. a do Marsali 
se ia pagando pouco a pouco em terras e usque; quanto ao Joan, no havia notcias de bodas iminente. Mas logo terei que pagar o dinheiro com o que a me mantinha 
em Esccia seu prprio estilo de vida, qualquer que fosse... e no o tnhamos.
              Jamie refletia melancolicamente, com os olhos entreabridos. No me incomodei em lhe sugerir que Laoghaire podia solicitar uma licena de mendicante 
e sair a pedir esmola pela parquia. Apesar da opinio que lhe merecesse essa mulher, ele se considerava responsvel e no havia mais que dizer.
              Provavelmente no aceitaria tampouco pagar a dvida em tonis de pescado em salmoura e sabo de leja. Assim s ficavam duas alternativas: pedir um 
emprstimo a Yocasta, coisa muito desagradvel, ou vender outra coisa. Vrios cavalos, por exemplo. uns quantos porcos. Ou uma jia.
              A vela ardia com fora; a cera que rodeava a mecha j se fundiu. J se podia ver atravs do claro atoleiro de cera derretida: trs gemas, escuras contra 
o cinza dourado da vela, que no chegava a ocultar do todo seus vvidos matizes. Uma esmeralda, um topzio e um diamante negro.
              Jamie os olhava sem toc-los, com as densas sobrancelhas unidas em concentrao.
              No seria fcil vender uma daquelas pedras nas colnias da Carolina do Norte; provavelmente seria necessrio viajar ao Charleston ou ao Richmond. Mas 
se podia fazer, e desse modo conseguiramos dinheiro suficiente para pagar ao Laoghaire sua libra de carne e cobrir os gastos crescentes. Mas as gemas tinham um 
valor que foram mais  frente do dinheiro: eram a moeda que permitia viajar atravs das pedras; protegiam a vida do viajante.
              As poucas coisas que sabamos desse perigoso trnsito se apoiavam, em sua major parte, nos escritos do Geillis Duncan ou no que ela me havia dito; 
sustentava que as gemas brindavam ao viajante, no s amparo contra o caos nesse inefvel espao entre os estratos do tempo, mas tambm tambm em alguma possibilidade 
de conduzir, de escolher o momento no que surgiria.
              Levada por um impulso, retornei  prateleira e, me pondo nas pontas dos ps, procurei provas o pacote de couro escondido entre as sombras. Pesava na 
mo. Desembrulhei-o com cuidado e depositei a pedra ovalada no escritrio, junto  vela. Era uma opala grande, cujo ardente corao se trasluca na matriz opaca, 
graas ao esculpido que cobria a superfcie: uma espiral, primitivo desenho da serpente que devora sua prpria cauda.
              A opala era propriedade de outro viajante, o misterioso ndio chamado Dente de Lontra Marinha. Um ndio que alguma vez falou ingls e cujo crnio mostrava 
obturaes de prata na dentadura. Ele tinha chamada " passagem de volta"  a essa gema. Ao parecer, no s Geillis Duncan acreditava que as pedras preciosas tinham 
algum poder nesse horrvel lugar... intermdio.
      -Cinco, disse a bruxa. Apontou Jamie, pensativo-. Disse que se necessitavam cinco pedras?
      -Isso pensava ela.- Embora a noite era clida, me arrepiou a pele ao pensar no Geillis Duncan, nas gemas... e no ndio que tinha conhecido em uma ladeira escura, 
com a cara grafite de negro em sinal de morte, justo antes de encontrar a opala e o crnio sepultado com ele. seria seu crnio o que tnhamos enterrado, com obturaes 
de prata e tudo?
      -Deviam ser gemas polidas ou esculpidas?
      -No sei. Disse que as esculpidas eram melhores, mas no sei por que... nem tampouco se tinha razo.
              Esse era sempre o problema: sabamos to pouco...
              Ele emitiu um pequeno bufido e se esfreguei a ponte do nariz com um ndulo.
      -Pois bem: temos estas trs e o rubi de meu pai. So quatro pedras esculpidas e polidas. E logo, este pequeno " bobi" - referia-se  opala- e a de seu amuleto, 
que esto em bruto.
              O caso era que as pedras esculpidas ou polidas valiam muito mais, em efetivo, que a opala ou a safira em bruto. Entretanto, podamos nos arriscar a 
perder uma pedra que possivelmente representasse, algum dia, a diferena entre a vida e a morte para o Bree ou Roger?
      -No  provvel- disse, em resposta a seu pensamento mais que a suas palavras-. Bree ficar, ao menos at que Jemmy seja maior, possivelmente para sempre.
              depois de tudo, quem podia renunciar a um filho,  possibilidade de conhecer seus netos? No obstante eu o tinha feito. Esfreguei distradamente meu 
anel de ouro.
      -Sim, mas o moo...
      -No. Ele no abandonaria ao Bree e ao Jemmy.- Disse-o com firmeza, mas em meu corao havia uma fasca de dvida.
      -Ainda no- disse Jamie, em voz baixa.
              Aspirei fundo, mas no disse nada. Sabia muito bem  a que se referia. Roger, envolto em seu silncio, parecia afastar-se cada dia mais. Ele ainda sorria, 
jogava com o Jemmy e se mostrava sempre atento com a Brianna, mas a sombra de seus olhos no cedia jamais. Quando no o requeria para alguma tarefa, desaparecia 
durante horas inteiras, s vezes todo o dia. Caminhava pelas montanhas e retornava depois do obscurecer, exausto, sujo de p... e silencioso.
      -No dorme com ela, verdade? Desde que aconteceu aquilo.
      -Algumas vezes. perguntei. Mas acredito que ultimamente j no.
              Bree fazia o impossvel por aproxim-lo, por arrancar o das profundidades dessa crescente depresso. Mas tanto para o Jamie como para mim era bvio 
que nossa filha estava perdendo a batalha e sabia. A notava cada vez mais calada e ojerosa.
      -Se ele... retornasse... haveria cura para sua voz? L, em seu prprio tempo?- Jamie deslizou um dedo sobre a opala, seguindo a espiral com os olhos.
              Eu suspirei outra vez.
      -No sei. Lhe poderia ajudar... possivelmente com uma operao ou com terapia de foniatra. At que ponto melhoraria, ningum pode sab-lo. O fato  que... 
poderia recuperar sem ajuda boa parte de sua voz, se se esforasse. Mas no o far.
              Jamie assentiu com a cabea. Quaisquer que fossem as possibilidades de padre mdica, o certo era que, se fracassava o matrimnio, no ficaria nada 
que retivera o Roger ali. E se ento decidia retornar...
              Jamie se incorporou na cadeira para apagar a vela.
      -Ainda no- disse na escurido, com a voz firme-. Faltam algumas semanas antes de que terei que enviar o dinheiro a Esccia; j se ver se podemos fazer outra 
coisa. por agora conservaremos as pedras.
        
      
      77
      
      Um pacote enviado de Londres
      
              O pacote chegou em agosto, graas ao Jethro Wainwright, um dos poucos vendedores itinerantes o bastante empreendedores para subir pelos levantados 
e serpeantes caminhos que conduziam  Colina. Avermelhado e ofegante pela ascenso e o esforo de descarregar a sua burra, o senhor Wainwright me entregou o envio 
com uma inclinao de cabea e, a meu convite, dirigiu-se agradecido  cozinha, enquanto seu asno mascava a erva do ptio.
              Era um pacote pequeno, uma espcie de caixa bastante pesada, envolta em oleado, cuidadosamente costurado e pacote com barbante para maior segurana. 
A etiqueta dizia, simplesmente: " Ao senhor James Fraser, cavalheiro, Colina do Fraser, Carolina." 
      -O que crie que ?- perguntei-lhe  burra. Era uma pergunta retrica, mas a amigvel besta levantou a cabea e zurrou em resposta.
              O rudo despertou os correspondentes gritos de curiosidade e bem-vinda entre o Clarence e os cavalos; em poucos segundos apareceram Jamie e Roger por 
um lateral do celeiro, Brianna do silo e o senhor Bug. 
      -O que ?- Brianna ficou nas pontas dos ps para olhar por cima do ombro de seu pai, que tinha pego o pacote-. No vem do Lallybroch, verdade?
      -No, no  a letra do Ian... nem a de minha irm- replicou Jamie, depois de uma vacilao muito breve-. Mas viajou muito...- Olhou o dorso do pacote e sacudiu 
a cabea-. Tinha um selo, mas desapareceu.
      -Hum.- O senhor Bug moveu a cabea contemplando o pacote com ar dbio-. No  um azadn.
      -No, no  uma cabea de azadn- confirmou Jamie, sopesando o pacote-. Tampouco um livro, muito menos uma mo de papel. E no recordo ter encarregado outra 
coisa. Poderiam ser sementes, Sassenach? O senhor Stanhope prometeu te enviar algumas do jardim de seu amigo, verdade?
      -OH, poderia ser!- Era uma possibilidade estimulante; o senhor Crossley, amigo do Stanhope, tinha um grande jardim ornamental, com muitas espcies exticas 
e importadas.
              Roger e Brianna intercambiaram um olhar. Para eles, as sementes eram muito menos interessantes que o papel ou os livros. Mesmo assim, qualquer carta 
ou pacote era algo to novidadeiro que ningum queria abri-lo enquanto no se desfrutou de todas as especulaes possveis sobre seu contedo.
              Ao final no o abrimos at depois de jantar. Jamie apartou o prato vazio, agarrou o pacote com a devida cerimnia, sacudiu-o uma vez mais e me entregou 
isso.
      -Esse n requer a mo de um cirurgio, Sassenach- disse com um grande sorriso.
              depois de beliscar a corda durante vrios minutos consegui desatar o n e enrolei o barbante com esmero, para um uso futuro.
              Ento Jamie cortou cuidadosamente a costura com a ponta da faca e extraiu, entre exclamaes de assombro, uma pequena caixa de madeira. Seu desenho 
era simples, mas elegante; era feita de madeira escura polida, com as dobradias e o fechamento de bronze.
              Jamie levantou delicadamente o fechamento com um dedo e apartou a tampa para trs. Dentro havia um pequeno saco de veludo vermelho escuro. Desatou 
a corda que o franzia, e extraiu lentamente um... objeto.
              Era um disco dourado e plano, de uns dez centmetros de dimetro. Boquiaberta de assombro, notei que tinha o bordo um pouco levantado, como um prato, 
e que estava decorado com smbolos diminutos. Na parte central do disco se via uma estranha pea de filigrana, feita de um metal prateado. tratava-se de um pequeno 
dial aberto, parecido  esfera de um relgio, mas com trs braos que uniam seu bordo exterior ao centro do disco dourado.
              O pequeno crculo de prata estava tambm decorado com ocultos impressos, possivelmente muito pequenos para a vista, e unido a uma pea em forma de 
lira que descansava no ventre de uma enguia de prata, larga e plaina, cujo lombo se ajustava perfeitamente ao bordo interior do disco dourado. Em cima havia uma 
barra de ouro, afiada nos extremos como uma agulha de bssola muito grosa, que estava atravessada por um eixo que passava pelo centro do disco e que lhe permitia 
girar. Ao longo dessa barra se lia, em letra clara: " James Fraser." 
      - um astrolbio- informou Jamie.
              Em sua cara inferior, o objeto apresentava uma superfcie plaina, com vrios crculos concntricos gravados, a sua vez subdivididos por centenas de 
marcas e smbolos diminutos. Esse lado tinha uma pea giratria, como a agulha da outra cara, mas de forma retangular e com os extremos curvados para cima, aplanados 
e recortados de modo que os entalhes formavam um par de miras.
              Bree alargou um dedo para tocar com respeito a reluzente superfcie.
      -meu deus!- disse-. Isso  ouro de verdade?
      -Em efeito.- Jamie depositou cuidadosamente o objeto em sua palma estendida-. E o que eu gostaria de saber  por que?
      -por que um astrolbio e por que de ouro?- perguntei.
      -por que de ouro- respondeu, franzindo o sobrecenho-. Faz tempo que desejava ter um instrumento assim e no podia encontrar nenhum entre o Albani e Charleston. 
Lorde John Grei me prometeu que faria que me enviassem um de Londres; suponho que  este. Mas por que  de...
              A ateno de todos estava ainda fixa no astrolbio, mas ele a desviou para a caixa em que tinha vindo. Como cabia esperar, no fundo havia uma nota, 
bem dobrada e selada com lacre azul. A insgnia no era a habitual meia lua sorridente com estrelas de lorde John, a no ser um escudo desconhecido: mostrava um 
peixe com um aro na boca.
              Jamie franziu o sobrecenho ao v-lo; logo rompeu o selo e a abriu.
      
      Senhor James Fraser, Cavalheiro
      Colina do Fraser
      Colnia Real da Carolina do Norte
      
      Meu estimado senhor:
              Tenho a honra de lhe enviar o objeto anexo com os cumpridos de meu pai, lorde John Grei. Em ocasio de minha partida para Londres, deu-me instrues 
de conseguir o melhor instrumento possvel; sabedor da alta estima que lhe merece a amizade de voc, cuidei-me que assim fora. Espero que merea sua aprovao.
              Seu seguro servidor, 
      William Ransome, lorde Ellesmere,
      Capito do 9 Regimento
      
      -William Ransome?- Brianna se tinha levantado para ler por cima do Jamie. Olhou-me com as sobrancelhas franzidas-. Diz que lorde John  seu pai, mas o filho 
de lorde John no  ainda um menino?
      -Tem quinze anos.- A voz do Jamie encerrava uma nota estranha.
      -... no  Grei- dizia Brianna.
      -No.- Jamie seguia olhando a nota que tinha na mo e parecia algo distrado. Sacudiu por um instante a cabea, para desprender-se de algum pensamento, e voltou 
para assunto que o ocupava-. No- repetiu com mais firmeza, deixando a nota-. O moo  enteado do John; seu pai era o conde do Ellesmere; o menino  o nono desse 
ttulo. Ransom  o sobrenome do Ellesmere.
              Mantive o olhar fixo na mesa e na caixa vazia, temerosa de que minha cara transparente revelasse algo mais, embora s fora o fato de que havia algo 
que revelar.
              Em realidade, William Ransom no era filho do oitavo conde do Ellesmere, mas sim do James Fraser; percebi a tenso com que Jamie me tocou a perna por 
debaixo da mesa, embora sua cara expressava agora uma leve exasperao.
      -Pelo visto lhe compraram uma nomeao ao moo- disse, dobrando pulcramente a carta para guard-la novamente na caixa-. De modo que foi a Londres e ali comprou 
isto por indicao do John. Suponho que, para um moo de sua criao, " bom"  significa necessariamente chapado em ouro.
              Jamie examinou o astrolbio, fazendo girar com o ndice a enguia de prata.
      - magnfico, sim- reconheceu, quase relutante.
      -Muito bonito.- O senhor Bug fez um gesto de aprovao-. Para topografia?
      -Assim .
      -Para topografia?- perguntou Brianna-. Isto  para medir as terras?
      -Entre outras coisas.- Jamie fez girar o astrolbio e empurrou brandamente a barra plaina, fazendo girar as olhar recortadas-. Isto... se usa como teodolito. 
Sabe o que  isso?
              Brianna assentiu, interessada.
      -Claro. Conheo distintas formas de topografia, mas pelo general usvamos...
      -Disse que sabia medir terras, recordo-o.- Jamie observou a sua filha com aprovao-. Por isso queria isto, embora pensava em algo menos vistoso. De estanho 
teria sido mais til. Mesmo assim, enquanto no tenha que pag-lo...
      -me deixe ver.- Brianna estendeu uma mo para agarrar o objeto e moveu o dial interior, absorta.
      -Sabe usar o astrolbio?- perguntei-lhe, dbia.
      -Eu sim- assegurou seu pai, com certa presuno-. Aprendi na Frana.- E se levantou-. Vamos fora, moa. Ensinarei-te a calcular a hora.
      
      
      
      -Sim, exatamente a.- Jamie se inclinou atentamente sobre o ombro do Bree, assinalando um ponto do dial exterior. Ela ajustou cuidadosamente o interior e moveu 
ligeiramente o marcador.
      -As cinco e trinta!- exclamou, ruborizada de prazer.
      -E trinta e cinco- corrigiu Jamie.
      -Esta  a primeira vez que sei a hora exata desde que abandonei a casa dos Sherston.- Bree no emprestava ateno ao instrumento que tinha nas mos. Vi-a procurar 
os olhos do Roger, sorridente. Um momento depois ele respondeu com seu sorriso torcido. Quanto tempo teria passado para ele?
              Bree devolveu cuidadosamente o astrolbio ao Jamie, quem imediatamente comeou a esfreg-lo com as abas da camisa para lhe tirar as impresses digitais.
      -O que outra coisa pode fazer com isso, papai?
      -OH!, muitas coisas. Pode saber qual  sua posio, tanto em terra como no mar, calcular a hora, localizar determinada estrela no cu...
      -Muito til- observei-, mas no tanto como um relgio. Mas suponho que seu maior interesse no era saber a hora.
      -No.- Ele guardou meigamente o astrolbio em seu saco de veludo-. Devo medir corretamente a terra das duas concesses, quanto antes.
      -por que?- Bree j se ia, mas para ouvir isso se voltou com uma sobrancelha em alto.
      -Porque fica pouco tempo- explicou Jamie-. Vs dois sabem o que se mora.- Jamie olhou ao Bree e ao Roger-. Embora o rei caia, a terra perdurar. E para conservar 
estas terras atravs de todo isso  necessrio medi-la e registr-la devidamente. Quando h distrbios, quando a gente deve abandonar sua terra ou deixar-se desapropriar... 
recuper-la  um trabalho infernal, mas se pode, sempre que ter uma boa escritura para provar que alguma vez te pertenceu.
              Lallybroch... o salvamos graas  escritura. E o jovem Simon, o filho do Lovat... ele tambm brigou por sua terra depois do Culloden, e ao fim recuperou 
a maior parte. Mas s porque tinha papis para demonstrar que tinha sido dela. Por isso.
              Abriu o estojo para depositar em seu interior, com suavidade, o saco de veludo.
      -Quero ter papis. E qualquer que seja o Jorge que com o tempo governe, esta terra ser nossa. E tua- acrescentou brandamente, elevando os olhos para a Brianna-. 
E depois, de seus filhos.
      
      
      78
      
      Que no  pouco
      
              Brianna tinha subido at a casa grande para agarrar emprestado um livro. Depois de deixar ao Jemmy na cozinha com a senhora Bug, dirigiu-se ao estudo 
de seu pai.
              Fergus havia trazido trs livros mais de sua ltima viagem ao Wilmington: uma srie de ensaios do Michel  do Montaigne (no lhe serviriam, pois estavam 
 francs), um maltratado exemplar do Moll Flanders, pelo Daniel Defoe, e um volume muito magro, de coberta branda, escrito pelo B. Franklin: Mdios e maneiras de 
obter a Virtude. No h muito que pensar, disse-se, retirando Moll Flanders. O livro estava muito desgastado, mas parecia completo.
              Um sbito estrondo na consulta de sua me a arrancou da contemplao do livro. Por instinto procurou o Jem com o olhar, mas no estava ali, claro. 
depois de deixar precipitadamente o volume em seu lugar, saiu do estudo correndo, s para encontrar-se com sua me, que ia da cozinha.
              Chegou  porta da clnica apenas um segundo antes.
      -Jem!
              A porta do grande armrio estava entreabrida; no ar pendia um forte aroma de mel. No estou acostumado a havia uma vasilha rota, em meio de um atoleiro 
dourado e pringoso. Jemmy se tinha sentado no centre, generosamente lubrificado, com os olhos azuis absolutamente redondos e a boca aberta em um gesto de surpresa 
culpado.
              O sangue subiu  cabea do Bree. Levantou-o por um brao, pringoso e tudo.
      -Jeremiah Alexander MacKenzie!- disse, em tom zangado-.  um menino muito mau!
              depois de inspecion-lo apressadamente se por acaso estivesse machucado ou sangrando, deu-lhe um aoite no traseiro, o bastante forte como para que 
lhe ardesse a palma da mo.
              O chiado resultante lhe provocou um sentimento de culpa. Mas, ao ver o resto do aougue que lhe rodeava, teve que dominar o impulso de surr-lo outra 
vez.
              Molhos inteiros de romeiro seco, tomilho e milenrama tinham sido arrancados do secador e pareciam pedaos. Uma das estropia onde estavam as gazes pendurava 
desprendida da estantera, e o tecido estava completamente rasgado. Pelo estou acostumado a rodavam garrafas e jarras; algumas tinham perdido as cortias e se derramaram 
ps e lquidos multicoloridos. Um grande saco de linho, cheio de sal grosa, estava meio vazio; em qualquer parte havia punhados de seus cristais jogados com abandono.
              Pior ainda: o amuleto de sua me jazia no cho, com a taleguilla rota, esmagada e vazia. Ao redor, viam-se trocitos de novelo seca, alguns ossos diminutos 
e outros restos.
      -Sinto-o muito, mame. escapou-se. No estava atenta. Devi ter mais cuidado...
              Claire um pouco aturdida pelo tumulto, olhou a seu redor para fazer um rpido inventrio. Logo se inclinou para levantar o Jemmy, sem fixar-se no mel.
      -Bom, a esta idade o tocam tudo- disse ao Bree, mais divertida que zangada-. No se preocupe, querida;  s desordem. Graas ao cu no chegou s facas. E 
os venenos tambm esto bem acima.
              Brianna sentiu que seu corao voltava a diminuir o passo. Sentia a mo quente, palpitante de sangue.
      -Mas seu amuleto...- assinalou.
              Pela cara de sua me passou uma sombra ao ver aquela profanao.
      -OH!- Claire aspirou fundo, deu uns tapinhas ao Jemmy nas costas e o deixou no cho.
      -Sinto muito- repetiu Brianna, impotente.
              Sua me, fazendo um esforo visvel, subtraiu importncia ao assunto com um gesto; logo se agachou para recolher os fragmentos do cho.
      -Sempre me perguntei o que haveria dentro- comentou, enquanto recolhia com cuidado os ossos diminutos-. Do que crie que seja isto? De musaraa?
      -No sei.- Brianna se sentou em cuclillas a seu lado para subir as coisas-. Suponho que seriam de camundongo ou morcego.
              Sua me a olhou, surpreendida.
      -Pois sim que  preparada. Olhe isto.- Beliscou do cho um objeto pequeno e pardo, como de papel, e o ensinou. Ao inclinar-se para olhar melhor, Brianna viu 
algo que parecia uma folha seca e enrugada, mas em realidade era uma parte da asa de um morcego diminuto.
      -" Pata de sapo, olho de tritn, / asa de morcego, lngua de galgo" - citou Claire, enquanto depositava o punhado de ossos na encimera-. O que quereria dizer 
com isso?
      -Quem?
      -Nayawenne, a mulher que me deu a taleguilla.
              Jemmy, esquecidas as regainas, deu procurao se de um grampeia cirrgica a que lhe estava dando voltas, como se estudasse suas possibilidades comestveis. 
Brianna se perguntou se devia tirar-lhe mas como no tinha fio e sua me sempre esterilizava seus instrumentos metlicos em gua fervendo, decidiu deixar-lhe no 
momento.
              O menino ficou com o Claire enquanto ela ia  cozinha a por gua quente e alguns trapos com os que limpar o mel. A senhora Bug roncava brandamente 
em uma poltrona, profundamente dormida, com as mos cruzadas sobre o arredondado ventre e o leno comodamente torcido para uma orelha. Retornou nas pontas dos ps, 
com o cubo de gua e um monto de trapos. A maior parte do lixo estava j recolhimento; sua me se arrastava a quatro patas, olhando por debaixo dos mveis.
      -perdeste algo?- Jogou uma olhada ao ltima prateleira do armrio, mas no faltava mais que a vasilha de mel. As outras garrafas j estavam tampadas e em seu 
stio; tudo estava mais ou menos como de costume.
      -Sim.- Claire se agachou um pouco mais para olhar debaixo do armrio-. Uma pedra. Mais ou menos deste tamanho.- Mostrou o ndice e o polegar curvados, indicando 
em dimetro de uma moeda pequena-. De cor azul cinzenta, translcida em alguns pontos.  uma safira em bruto.
      -Estava no armrio? Talvez a senhora Bug a trocou de lugar.
              Claire se sentou sobre os tales.
      -No, no toca nada aqui dentro. Alm disso, no estava no armrio, a no ser ali.- Assinalava a mesa onde tinha posto a taleguilla vazia do amuleto, junto 
aos ossos e os restos de novelo.
              Fizeram uma rpida inspeo da estadia, seguida por outra mais minuciosa, sem descobrir sinais da pedra. Claire se passou uma mo pelo cabelo, olhando 
ao Jemmy com ar pensativo.
      -Olhe, dio dizer isto, mas no crie que...?
      -No chateie!- A preocupao da Brianna tinha crescido at converter-se em leve alarma. agachou-se diante do Jemmy-. Tinha trocitos de folhas secas pegos com 
mel ao redor da cara, mas suponho que era s romeiro ou tomilho...
              Ofendido por esse atento escrutnio, ele tratou de golpe-la com o grampo, mas lhe sujeitou a boneca  com mo de ferro e lhe tirou o instrumento.
      -No se pega a mame- disse automaticamente. Isso no se faz. Jem... te comeste a pedra da abuelita?
      -No- disse ele, tambm automaticamente. E se apoderou novamente do grampo-. Meu!
              Lhe farejou a cara, com o que o pequeno se inclinou para trs em ngulo alarmante. No estava segura. Mas no parecia romeiro.
      -Vem cheir-lo- disse a sua me-. Eu no estou segura.
              Claire se agachou para faz-lo e Jemmy chiou de risonho alarme, disposto a um divertido jogo de " Lhe como" . Mas se levou uma desiluso; sua av se 
limitou a inalar profundamente.
      -Gengibre silvestre- disse, com deciso. Logo agarrou um pano molhado para limpar as manchas de mel, face aos crescentes uivos de protesto-. Olhe.
              Assinalava a pele j limpa ao redor da boca. Brianna as viu com claridade: duas ou trs ampolas diminutas.
      -Jeremiah- disse severamente, tratando de olh-lo aos olhos-. Responde a mame. Comeste-te a pedra da abuelita?
              Jemmy desviou a cara e se retorceu para escapar. Em um gesto de amparo, ps as mos atrs.
      -No pega- disse-. No s'faz!
      -No te surrarei- tranqilizou-o ela, aferrando um p j em fuga-. Mas quero saber. Tragaste-te uma rocha assim de grande?
              Mostrou o tamanho entre o polegar e o ndice. Jemmy lanou uma risita.
      -Bonito- disse. Essa era a palavra que preferia agora. Aplicava-a sem distino a qualquer objeto que gostasse.
              Brianna fechou os olhos com um suspiro de exasperao. Logo olhou a sua me.
      -Temo que sim. Far-lhe mal?
      -No acredito.- Claire observou a seu neto com ar pensativo.
              Logo foi abrir um dos armrios altos e extraiu um grande frasco de cristal marrom.
      -Azeite de castor- explicou, enquanto revolvia uma gaveta em busca de uma colher-. No  to rico como o mel, mas sim muito efetivo.
      
      
      
              O azeite de castor, por efetivo que fora, requeria tempo. Brianna e Claire aproveitaram a espera para limpar a clnica, sem apartar a vista do Jemmy, 
a quem puseram a jogar com seu cesto de peas de madeira. Logo se dedicaram a preparar remdios. Como o dia era temperado e agradvel, deixaram a janela aberta, 
embora isso as obrigasse a matar moscas, sacudi-los mosquitos e retirar algum besouro entusiasta das solues borbulhantes.
      -Cuidado, tesouro!- Brianna se apressou a varrer com a mo uma abelha que se posou sobre os brinquedos do menino, antes de que Jemmy pudesse agarr-la-. Inseto 
mau. Ai!
      -Cheiram seu mel- explicou Claire, afugentando a outra-. Ser melhor que lhes devolva um pouco.- Ps uma terrina de aguamiel no batente; em poucos segundos 
as abelhas se arracimaban em seu bordo para beber golosamente.
      -Olhe que so obstinadas...- comentou Brianna.
      -Pois com a obstinao pode chegar muito longe- murmurou Claire, distrada, enquanto removia a soluo posta a esquentar sobre o abajur de lcool-. Acredito 
que isto j est. O que pensa voc?
      -Disso sabe muito mais que eu.- Mas a moa se inclinou a farejar-. Acredito que sim; cheira bastante forte.
              Claire retirou a terrina da chama e filtrou o lquido esverdeado por uma gaze. 
      -Sempre teve vocao pela medicina?- perguntou Brianna, com curiosidade.
              Claire negou com a cabea, enquanto esmiuava com uma faca um punhado de casca de disco.
      -Quando era jovencita no me passava pela cabea. Ento, como a maioria das garotas, pensava me casar, ter filhos, atender a meu lar... Oua, crie que Lizzie 
est bem? Ontem  noite me pareceu v-la um pouco amarela, mas talvez fora a luz das velas.
      -Eu a vejo bem. Mas no sei se estiver realmente apaixonada pelo Manfred.
              A noite anterior tinham celebrado o compromisso do Lizzie e Manfred MacGillivray com um jantar oppara, a que assistiu toda a famlia do noivo. A senhora 
Bug, que queria muito ao Lizzie, esmerou-se como nunca; no era de sentir saudades que agora dormisse.
      -No- disse Claire, francamente-. Mas enquanto no esteja apaixonada por outro, acredito que no importa. Ele  um bom moo e bastante bonito. E Lizzie simpatizou 
com sua sogra; isso tambm  bom, dadas as circunstncias.
      -Talvez simpatize mais com a senhora MacGillivray que com o Manfred. Era muito pequena quando perdeu a sua me; e desfruta de ter outra vez um pouco parecido.- 
Brianna olhou ao Claire pela extremidade do olho. Recordava muito bem a sensao de no ter a sua me... e a bem-aventurana de voltar a encontr-la.
              Claire esfregou entre as mos a casca esmiuada, deixando-a cair em um frasco pequeno cheio de lcool.
      -Sim. Mesmo assim me parece melhor que Lizzie e Manfred esperem um pouco at conhecer-se melhor., acordou-se de que as bodas se celebraria o vero seguinte, 
quando Manfred j tivesse sua oficina instalada no Wollam's Creek-. Espero que isto resulte.
      -O que?
      -A casca de disco.- Claire tampou o frasco e o guardou no armrio-. O registro do doutor Rawlings diz que se pode utilizar como substituto da casca de quina. 
Como quinina, j entende. E  muito mais fcil de conseguir, alm de muito mais troca.
      -Estupendo. Espero que funcione.- A malria do Lizzie estava latente desde por volta de vrios meses, mas sempre existia o perigo de que se manifestasse.
              Enquanto amassava um punhado de salvia no morteiro retornou ao tema anterior, que perdurava em sua mente.
      -Diz que quando foi menina no pensava ser mdico. Mas depois no parecia pensar em outra coisa.
              Tinha lembranas dispersas, mas muito vvidos, da poca em que sua me estudava medicina: o aroma de hospital que trazia no cabelo e na roupa, o contato 
fresco e suave da bata cirrgica que s vezes trazia posta quando ia lhe dar as boa noite, se chegava tarde do trabalho.
      -Bom- disse Claire-. Quando sabe quem  e para que nasceste, sempre encontra a maneira de faz-lo. No s as mulheres. Seu pai... refiro ao Frank... Ele era 
muito bom historiador. A matria gostava e tinha o dom da disciplina e a concentrao. Assim chegou a ter xito, mas em realidade no era sua... sua vocao. Ele 
mesmo me disse isso: poderia haver-se dedicado a outra coisa sem que lhe importasse muito. Mas h pessoas s que lhes importa muitssimo, e nesses casos... Para 
mim a medicina era muito importante. Ao princpio no sabia, mas com o correr do tempo me dava conta de que estava feita para isso. E uma vez que soube...
      -Sim, mas... no sempre pode te dedicar  carreira para a que nasceste, verdade?- perguntou Bree, pensando na garganta lesada do Roger.
      -Pois no, s vezes a vida obriga a algumas costure- murmurou sua me-. E no caso da gente comum, freqentemente a vida que levam  a vida que encontraram. 
Ali tem ao Marsali, por exemplo. No acredito que tenha pensado nunca fazer algo distinto. Sua me se dedicava  casa e a criao dos filhos; ela no v motivos 
para no fazer o mesmo. Entretanto... teve uma grande paixo, Fergus, e bastou isso para arranc-la do caminho trilhado que teria seguido sua vida.
      -Para arroj-la a outra igual?
      -Sim, s que na Amrica em vez de Esccia. E tem ao Fergus.
      -Como voc tem ao Jamie?
              Claire levantou a vista, surpreendida. Bree estranha vez o chamava pelo nome de pilha.
      -Sim. Jamie  parte de mim. Igual a voc. Mas nem voc nem ele me enchem por completo. Sou o que sou: mdica, enfermeira, curadora, bruxa... como a gente queira 
diz-lo; o nome no importa. Nasci para isso e o serei at que mora. Se lhes perdesse, a ti ou ao Jamie, j no voltaria a me sentir completa, mas ainda ficaria 
isso.- Continuou em voz to suave que Brianna teve que  esforar-se para ouvi-la-. Por um tempo, depois de... retornar... antes de que voc nascesse... isso era 
tudo o que tinha. S o conhecimento.
              De fora lhes chegou um rudo de botas; logo, a voz do Jamie, dirigida em cordial comentrio ao frango que lhe tinha cruzado no caminho.
              Amar ao Roger, amar ao Jemmy, no era suficiente para ela? Sem dvida alguma, devia s-lo. Mas teve ao horrvel e oca sensao de que talvez no o 
era. antes de que o pensamento pudesse expressar-se em palavras, apressou-se a perguntar.
      -E papai?
      -O que tem que ele?
      -Sabe...  dos que sabem quem ? O que crie?
      -OH, sim. Sabe- asseverou Claire-.  um homem. Que no  pouco.
      
      79
      
      Solides
      
              Brianna fechou o livro com uma mescla de alvio e mau pressentimento. Jamie lhe tinha sugerido que ensinasse as primeiras letras a algumas meninas 
da Colina, e ela no se ops. Durante um par de horas a cabana se enchia de vozes alegres.
              Mesmo assim ela no era professora por natureza; ao terminar cada lio sentia sempre alvio. Mas o mau pressentimento a seguia, lhe pisando os tales. 
Quase todas as meninas vinham sozinhas ou aos cuidados de uma irm maior. Anne e Kate Henderson, que viviam a trs quilmetros, acudiam acompanhadas pelo Obadiah, 
seu irmo maior.
              Bree no sabia com certeza como nem quando tinha comeado aquilo. Talvez o primeiro dia, quando ele a olhou aos olhos com um leve sorriso e lhe sustentou 
o olhar por um segundo de mais, antes de deixar a suas irms com um tapinha na cabea. 
              Bree detestava ter que sair  porta ao terminar cada lio. As garotinhas se disseminavam em uma revoada de vestidos e risitas. E Obadiah estava ali, 
esperando, j reclinado contra uma rvore, j sentado no brocal do poo; uma vez o tinha encontrado descansando no banco, frente  porta.
              Essa constante incerteza de no saber onde estaria a punha dos nervos, quase tanto como seu semisonrisa e a careta ufana e zombadora com que se despedia, 
quase com uma piscada, como se soubesse dela algo secreto e vergonhoso, algo que, no momento, preferia reservar-se.
              Obadiah no lhe dizia nada; no o fazia gestos indecorosos. Como protestar porque a olhava? Era ridculo. Ridculo, tambm, que um pouco to simples 
lhe fizesse subir o corao  garganta quando abria a porta.
              Reuniu coragem para deixar sair s meninas. Quando se disseminaram olhou ao redor. Ele no estava ali: nem junto ao poo, nem sob a rvore, nem no 
banco... no estava.
              Anne e Kate j foram pelo centro do claro, com o Janie Cameron, as trs da mo.
      -Annie!- chamou Bree-. Onde est seu irmo?
      -foi a Salem, senhorita- respondeu-. Hoje jantaremos em casa do Jane! 
              A tenso despareci lentamente de seu pescoo e seus ombros. Jemmy dormia, arrulhado por  recitao nasal do alfabeto. Podia aproveitar sua sesta 
para ir ao sibil a por um pouco de leite de manteiga.
              O sibil estava fresco e escuro; o rudo da gua que corria pelo canal de pedra era sedativo. adorava estar ali, admirar as folhagens de algas aderidas 
 pedra,  deriva na corrente.
              Saiu devagar do sibil, com o cntaro de leite e de manteiga em uma mo e uma parte de queijo na outra. Faria uma omelete francesa de queijo para o 
almoo; preparava-se rpido e ao Jemmy adorava. Ainda sorria quando, ao apartar a vista do atalho, encontrou-se com o Obadiah Henderson, sentado em seu banco.
      -O que faz aqui?- Sua voz soou seca-. As meninas disseram que tinha ido a Salem.
      -E assim foi.- Ele ficou de p para aproximar-se, com essa semisonrisa insinuante nos lbios-. J retornei.
      -Pois as meninas j se foram- disse, com toda a frieza possvel-. Esto em casa dos Cameron.
              Embora o corao lhe palpitava com fora, passou junto a ele com inteno de deixar o cntaro no alpendre. Quando se agachou, lhe apoiou uma mo na 
parte baixa das costas. Por um momento ficou petrificada. Ele no retirou a mo nem tentou acariciar nem apert-la, mas esse peso era como uma serpente morta contra 
suas costas. Bree se girou em redondo e deu um passo atrs.
      -Trouxe-te algo- disse Obadiah-. De Salem.- Ainda tinha o mesmo sorriso nos lbios.
      -No o quero- disse ela-. Quer dizer... obrigado, mas no. No deveste faz-lo. A meu marido no gostaria.
      -No tem por que inteirar-se.- Ele se aproximou um passo; ela retrocedeu. O sorriso se fez mais larga.
      -Dizem que seu marido no passa muito tempo em casa, ultimamente- comentou com voz fica-. Deve te sentir sozinha.
              Aproximou-lhe uma manaza ao rosto. Nesse momento se ouviu um rudo estranho, carnudo. A cara do moo ficou em branco e seus olhos se dilataram de repente.
              Ela o olhou um instante, sem a menor ideia do que tinha acontecido, at que Obadiah baixou os olhos exagerados  mo estendida. Ento Bree viu a pequena 
faca parecida na carne do antebrao e a mancha vermelha que ia crescendo na camisa, ao redor.
      -Vete daqui- disse Jamie em voz baixa, mas clara. Saa das rvores, olhando ao Henderson sem nenhuma cordialidade. Chegou em trs passados compridos e arrancou 
a faca parecida no brao do moo-. Vete e no volte jamais.
              O moo se foi, aferrando o brao ferido, a tropees. Logo correu para o caminho e despareci entre as rvores. O ptio ficou em silncio.
      -Tinha que fazer isso?- foi o primeiro que ela conseguiu dizer. Estava aturdida, como se ela mesma tivesse recebido algum golpe.
      -Teria preferido que esperasse?- Seu pai a agarrou por um brao para obrig-la a sentar-se no alpendre.
      -No, mas... no poderia... lhe haver dito algo, nada mais?
              Sentia os lbios intumescidos e nos mrgenes de seu campo visual flutuavam pequenos brilhos de luz. Compreendeu remotamente que estava a ponto de deprimir-se. 
Ento se inclinou para diante, com a cabea entre os joelhos e a cara sepultada no seguro refgio do avental.
      -Mas se o fiz. Hei-lhe dito que se fora.- O alpendre rangeu quando Jamie se sentou a seu lado.
      -J sabe a que me refiro.- Sua voz soava estranha, sufocada pelas dobras do avental-. O que queria fazer? te exibir? Que segurana tinha de cravar uma faca 
a essa distncia? E o que era isso? Um canivete?
      -Sim. Quo nico tinha no bolso. E em realidade no queria cravar-lhe admitiu Jamie-. Quis jog-lo contra o muro da cabana, para lhe dar um golpe desde atrs 
quando ele desviasse a cabea para o rudo. Mas se moveu.
              Bree fechou os olhos e respirou profundamente pelo nariz para assentar o estmago.
      -Sente-se bem, a muirninn?- perguntou ele, com voz fica. Apoiou-lhe brandamente uma mo nas costas, algo mais acima que Obadiah. Era agradvel: grande, morna 
e consoladora.
      -Estou bem, sim- assegurou ela, abrindo os olhos-. Perfeitamente.
              Ento ele se relaxou um pouco; seus olhos se aquietaram, mas sem apartar-se dela.
      -Bem, me diga: esta no foi a primeira vez, verdade? Quanto tempo leva este caipira te rondando? 
      -Desde a primeira semana- disse. 
              Ele alargou os olhos.
      -Tanto? E por que no o h dito a seu marido?- inquiriu ele, incrdulo.
      - que... ver, eu no acreditava... quer dizer... No era assunto dele.
              Como seu pai se enchesse os pulmes de ar, sem dvida para algum comentrio mordaz sobre o Roger, apressou-se a defend-lo.
      - que...  que... em realidade ele no fez nada concreto. S olhar. E... sorrir. Ia eu a lhe dizer ao Roger que ele me olhava? No quis que tomasse por dbil 
ou indefesa.- No obstante tinha sido ambas as coisas e sabia-. No queria... lhe pedir que me defendesse.
      -Para que demnios crie que estamos os homens?- perguntou Jamie em tom de total desconcerto-. Quer ter o de mascote? Como falderillo? Como um pssaro enjaulado?
      -No compreende!
      -Ah, no?- Seu bufo era, talvez, uma risada sardnica-. Levo trinta anos casado; voc menos de dois. O que  o que no compreendo?
      -No ... Voc e mame no so como Roger e eu!- estalou.
      -Claro que no- disse, sem alterar-se-. Sua me tem em conta meu amor prprio, e eu, o seu. Acaso crie que ela  uma covarde, incapaz de defender-se sozinha?
      -Eu... no.- Brianna tragou saliva, perigosamente perto das lgrimas, mas decidida a no as deixar escapar-. Mas  diferente, papai. Somos de outro lugar, 
de outra poca.
      -Sei muito bem- replicou ele; sua boca se curvou em uma semisonrisa irnica e sua voz se fez mais suave-. Mas no acredito que os homens e as mulheres tenham 
trocado muito.
      -Talvez no.- Ela tragou saliva para afirmar a voz-. Mas talvez Roger sim que tenha trocado. Desde o Alamance.
              Jamie tomou flego para falar, mas o deixou escapar lentamente sem dizer nada. Tinha retirado a mo, e ela sentiu sua falta.
      -Sim- disse ao fim, em voz baixa-. Pode ser.
              Brianna ouviu um golpe surdo no interior da cabana; logo, outro. Jem tinha despertado e estava arrojando os brinquedos do bero. Em um momento comearia 
a cham-la para que o tirasse. levantou-se com brutalidade.
      -Jem est acordado. Devo entrar.
              O menino estava de p, obstinado ao flanco de seu bero e impaciente por escapar. Assim que ela se inclinou para levant-lo, jogou-se em seus braos.
              " Deve te sentir sozinha" , havia dito Obadiah Henderson. E estava no certo.
      
      
      
      80
      
      Merengue em seu ponto
      
              Satisfeito depois da comida, Jamie se apoiou no respaldo com um suspiro. Quando ia levantar se, a senhora Bug se levantou sbitamente da mesa, agitando 
um dedo admonitrio. 
      -No, no, senhor! No v, que tenho o merengue recm feito e isso no pode esperar!
      -Acredito que vou arrebentar, senhora Bug, mas ao menos morrerei feliz- informou-lhe Jamie-. Venha... mas devo ir a por algo enquanto voc o serve.
              Com assombrosa agilidade, considerando que acabava de consumir meio quilograma de salsichas especiadas com mas fritas e batatas, abandonou a cadeira 
e desapareceu pelo corredor rumo a seu estudo.
      -Quero medengue!- Jemmy golpeou a mesa com a mo, cantando a todo pulmo-: Dem-me-gue! Dem-me-gue! 
              Roger olhou ao Bree com uma semisonrisa; alegrou-me notar que ela a captava e a devolvia.
              Jamie chegou justo quando o merengue para sua apario. Ao passar junto ao Roger alargou uma mo e depositou frente a ele um livro contvel envolto 
em tecido, coroado pelo pequeno estojo de madeira que continha o astrolbio.
      -Acredito que o bom tempo se manter por um par de meses mais- disse como quem no quer a coisa.
      -Sim?- A palavra saiu afogada e apenas audvel, mas bastou para que Jemmy interrompesse seus gorjeios  para olhar a seu pai, boquiaberto. Perguntei-me se era 
o primeiro que Roger havia dito em todo o dia.
      -Pois sim. Fergus baixar  costa antes da primeira nevada. Seria bom que pudesse levar os informe de topografia para apresent-los em New Bern, no crie?
              E cravou a colher no merengue com ar decidido, sem levantar a vista. S encheu o silncio o choque das colheres contra os pratos de madeira. Por fim 
falou Roger, que no havia meio doido a sua.
      -Posso... fazer isso.
              Possivelmente s se tratava do esforo que requeria o passado do ar por sua garganta lesada, mas na ltima palavra houve uma nfase que arrancou uma 
careta a Brianna. Foi muito leve, mas eu a vi... e tambm Roger, que baixou a vista a seu prato.
      -Vele- disse Jamie, em tom ainda  mais despreocupado-. Ensinarei-te como se faz. Pode partir dentro de uma semana. 
      
      
      Ontem  noite sonhei que Roger partia. Faz j uma semana que sonho com sua viagem, desde que papai o props.
              Em meu sonho Roger punha suas coisas em uma bolsa grande, enquanto eu esfregava o cho. Ele no deixava de me estorvar e eu tirava a bolsa de no meio 
uma e outra vez, para poder esfregar outra parte.
              Quero e no quero que se v. Ouo todas as coisas que no diz; ressonam em minha cabea. No deixo de pensar que, quando se tiver ido, haver silncio.
      
      
              Passou abruptamente do sonho ao despertar. Sabia que ele se foi, mas levantou a cabea para comprov-lo. A mochila j no estava junto  porta, nem 
tampouco o hatillo de comida.
              A noite anterior tinham feito o amor antes de dormir. Ao princpio ela pensou que no aconteceria, mas quando se aproximou para rode-lo com seus braos, 
ele a estreitou com fora, beijou-a longamente e, por fim, levou-a a cama.
              Em sua ansiedade por lhe assegurar seu amor com o corpo, de lhe dar algo de si para que se levasse, esqueceu-se por completo de si mesmo; o clmax 
a surpreendeu. Deslizou uma mo para baixo, entre as pernas, recordando a sensao de ver-se repentinamente envolta em uma grande onda, indefesa, varrida para a 
praia. Oxal Roger se deu conta. No havia dito nada; nem sequer abriu os olhos.
              Na escurido prvia ao amanhecer, deu-lhe um beijo de despedida, sempre calado. Ou no foi assim? Brianna se levou uma mo  boca, sbitamente insegura; 
mas na carne suave e fresca de seus lbios no havia pista alguma.
              Tinha-lhe dado um beijo ao despedir-se? Ou era s um sonho? 
      
      
      81
      
      
      Matador de ursos
      
      
      Agosto de 1771
      
      O relincho dos cavalos no cercado anunciava visitas. A curiosidade fez que abandonasse meu ltimo experimento para me aproximar da janela. No ptio no havia 
homens nem cavalos, mas os animais seguiam soprando como quando viam algum desconhecido. portanto o visitante vinha a p e se dirigiu para a porta da cozinha.
        Esta hiptese foi quase instantaneamente respaldada por um guincho que veio da parte traseira. Apareci a cabea ao corredor, bem a tempo para ver a senhora 
Bug, que saa da cozinha correndo entre alaridos de pnico.
        Passou como uma bala, sem lombriga, e saiu pela porta principal, deixando-a aberta. Isso me permitiu v-la cruzar o ptio e desaparecer no bosque, sem deixar 
de gritar a todo pulmo. Quando olhei para o lado oposto, foi quase um desencanto ver um ndio na porta da cozinha, com cara de surpresa.
        - Osiyo -disse cautelosamente.
        Respondeu a minha saudao com um sorriso brilhante e disse algo do que no entendi nada. Encolhi-me de ombros, impotente, mas sorri a minha vez. Assim passamos 
vrios segundos, nos saudando com a cabea e intercambiando sorrisos, at que o cavalheiro colocou a mo pelo pescoo de sua camisa interior e extraiu um cordo 
de couro com uma fileira de negras unhas curvas: as garras de um ou mais ursos.
        Exibiu-as as fazendo repicar um pouco, enquanto olhava de um lado a outro, com as sobrancelhas arqueadas, como se procurasse a algum sob a mesa ou dentro 
dos armrios.
        - Ah! -exclamei- . Voc procura a meu marido. -Imitei o gesto de quem aponta um rifle- . O Mortos de ursos?
        Minha inteligncia foi recompensada com um d-lhe o de dentes ss.
        - Acredito que voltar em qualquer momento -disse- . Quer beber algo?
        Seguiu-me de boa vontade. Quando Jamie entrou, estvamos sentados  mesa, compartilhando o ch e intercambiando cabaadas e sorrisos. Meu marido vinha acompanhado, 
no s da senhora Bug, que no se separava de suas abas e olhava com suspicacia ao visitante, mas tambm do Peter Bewlie.
        Peter apresentou a nossa hspede como Tsatsa'wi, irmo de sua esposa a ndia. Vivia a uns cinqenta quilmetros alm da Linha do Tratado, mas estava passando 
uma temporada com os Bewlie.
        - Ontem  noite, enquanto fumvamos um cachimbo depois de jantar -explicou Peter- , Tsatsa'wi disse a minha esposa que na aldeia tinham um problema. E ela 
me contou isso , porque ele no fala nosso idioma nem eu o seu, s algumas palavras soltas e frases de cortesia. Como lhes dizia, ele se referiu a um urso malvado 
que os acossa h meses.
        - Eu diria que Tsatsa'wi est bem equipado para as ver-se com essa besta -comentou Jamie, assinalando com a cabea o colar de unhas.
        - Sim -afirmou Peter- .  muito bom caador, mas parece que o urso em questo no  um urso qualquer. E por isso lhe hei dito: " vamos dizer se o ao MAC 
Dubh; talvez queira ir liquidar a essa besta." 
        - Pois estes dias no posso ir, mas talvez quando tivermos recolhido o feno... Sabe o que acontece com esse urso problemtico, Peter?
        - Pois sim -disse o homem, alegremente- .  um fantasma.
        Jamie no pareceu muito impressionado; simplesmente, esfregava-se o queixo com ar dbio.
        - Hum. me diga o que tem feito.
        O urso tinha dado a conhecer sua presena um ano atrs, embora durante um tempo ningum o viu. Houve algumas depredaes normais: desapareciam as fileiras 
de pescado ou de espigas de milho postas a secar frente s casas; algum roubava a carne de vos abrigos... Ao princpio os habitantes da populao pensaram que se 
tratava de um urso um pouco mais ardiloso do normal: em geral aos ursos importa muito pouco que os vejam.
        - Vinha s de noite, compreendem vocs? -explicou Peter- . E no fazia muito rudo. Pela manh, ao sair, a gente descobria que lhe tinham roubado as reservas 
sem um rudo que despertasse. Pelos rastros souberam de um princpio que se tratava de um urso.
        A gente da aldeia, muito acostumada a vos ursos, tinha tomado as precaues de costume: transladar as provises a zonas mais protegidas e soltar os ces 
de noite. como resultado disto, vrios ces desapareceram, novamente sem rudo algum.
        Ao parecer os ces se voltaram mais precavidos ou a fome do urso aumentou. A primeira vitima foi um homem; apareceu morto no bosque. Logo, faz j seis meses, 
o animal se levou a um menino.
        A vtima era um beb, arrebatado com bero e tudo da borda do rio, enquanto sua me lavava roupa para o entardecer. No houve rudos nem mais rastros que 
um grande rastro de garra desenhada no barro.
        Nos meses seguintes houve outras quatro mortes. Dois meninos que recolhiam morangos silvestres, j avanada a tarde. Um dos cadveres apareceu com o pescoo 
partido, mas pelo resto intacto. O outro desapareceu; as marcas indicavam que o tinham miservel bosque dentro. Uma mulher foi parcialmente devorada em seu prprio 
milharal, tambm para o entardecer. A ltima vtima foi um homem que tinha sado a caar ao urso.
        - dele no encontraram nada, salvo o arco e alguns farrapos de roupa ensangentada -disse Peter.
        - De modo que eles mesmos o caaram? -perguntei- . Quer dizer, ao menos o tentaram.
        - OH!, sim, senhora Claire. Assim foi como ao fim descobriram o que era.
        Uma pequena partida de caadores saiu em busca do urso, armada de arcos, lanas e os dois mosquetes que a aldeia se vangloriava de possuir. Buscaram-no durante 
quatro dias; acharam alguns rastros, mas no eram recentes, e nenhum sinal do urso em si.
        - Tsatsa'wi ia com eles -disse Peter, levantando um dedo para seu cunhado- . Uma noite ele montava guarda com outro, enquanto o resto dormia. Contou que, 
muito depois de sair a lua, afastou-se um pouco para urinar. Retornou bem a tempo para ver que a besta se levava a seu amigo, morto, com o pescoo triturado entre 
seus fauces.
        Tsatsa'wi seguia o relato com ateno. Ao chegar a esse ponto fez um gesto que parecia ser o equivalente cherokee do sinal da cruz: um gesto rpido e srio 
para repelir o mal. Logo comeou a falar; suas mos se moviam para representar os fatos seguintes.
        Naturalmente, tinha gritado para alertar a seus camaradas restantes; depois correu para o urso para assust-lo, com a esperana de fazer que soltasse a seu 
amigo, embora era evidente que j estava morto.
        Os caadores foram acompanhados de dois ces, que tambm se arrojaram contra o urso, entre latidos. A fera soltou a sua presa, mas em vez de fugir carregou 
contra Tsatsa'wi. Ele se jogou em um lado, enquanto o urso se detinha o tempo suficiente para varrer de um zarpazo a um dos ces. Logo desapareceu na escurido do 
bosque, aoitado pelo outro co, uma chuva de flechas e um par de balas de mosquete; nada o tocou.
        Buscaram-no com tochas, mas foi impossvel encontr-lo. O segundo co voltou com ar envergonhado e os caadores, completamente desanimados, retornaram  
fogueira e passaram o resto da noite acordados; pela manh voltaram para a aldeia.
        - Mas por que acreditam que  um fantasma? -Brianna se inclinou para diante; seu horror inicial tinha dado passo ao interesse.
        Peter a olhou com uma sobrancelha arqueada.
        - Ah!,  que no o h dito. Ou talvez sim, mas de um modo que eu no compreendi. A besta era muito maior que um urso normal e completamente branca. Diz que, 
quando se voltou a olh-lo, seus olhos resplandeciam, vermelhos como as chamas. Imediatamente supuseram que era um fantasma; por isso no os surpreendeu muito que 
as flechas no o tocassem.
        Tsatsa'wi voltou a interromp-lo; assinalou primeiro ao Jamie, logo deu uns golpecitos a seu colar de unhas e por fim, para minha surpresa, apontou o dedo 
para mim.
        - Eu? -disse- . O que tenho que ver com isso?
        O cherokee deveu perceber meu tom de surpresa, pois se inclinou sobre a mesa e me agarrou uma mo para acarici-la, no em gesto de afeto, mas sim para apalpar 
a pele. Jamie comentou, divertido:
        -  muito branca, Sassenach. Talvez e urso tome por um esprito afim.
        Sorria de brinca a orelha, mas Tsatsa'wi assentiu com muita seriedade. Logo me soltou a mo e emitiu uma espcie de grasnido, como o de um corvo.
        - OH! -exclamei, bastante intranqila. No recordava como se dizia em cherokee, mas ao parecer os habitantes dessa aldeia no s tinham ouvido falar do Matador 
de Ursos, mas tambm tambm do Corvo Branco. Para eles qualquer animal branco era significativo... e freqentemente sinistro.
        Foi assim que uma semana depois, com o feno j colhido e quatro meias cabeas de gado de veado apaciblemente penduradas no abrigo de defumar, partimos para 
a Linha do Tratado.
      
      
      Integramos a partida Brianna e Jemmy, os dois gmeos Beardsley, Peter Bewlie, que devia nos guiar at a aldeia, Jamie e eu. A mulher do Peter se adiantou com 
a Tsatsa'wi. Em um princpio Brianna no queria vir, mais por medo de levar ao Jemmy a territrio selvagem que por no participar da caada. Jamie insistiu, assegurando 
que sua pontaria seria muito valiosa. Como ainda no queria desmamar ao menino, viu-se obrigada a lev-lo consigo.
        Quanto aos Beardsley, ao que Jamie queria consigo era ao Josiah.
        - O moo j matou ao menos dois ursos -me disse- . Vi as peles na congregao. E se seu irmo quer vir, no vejo nenhum inconveniente.
        - Tampouco eu -coincidi- . Mas por que quer que venha bree? Voc e Josiah no so suficientes para lhes enfrentar com o urso?
        - Possivelmente -replicou ele, deslizando um trapo azeitado pelo canho de seu rifle- . Mas se duas cabeas so melhor que uma, trs sero ainda melhor, 
no? Sobre tudo se a terceira dispara como essa moa.
        - Sim? -disse, ctica- . E que mais?
        Ele me olhou com um grande sorriso.
        - Acaso crie que tenho outros motivos, Sassenach?
        - No, no acredito: sei.
        Ele inclinou a cabea para a arma, rendo. Mas depois de um momento de limpar e esfregar disse, sem levantar a vista:
        - Vale... no me pareceu m idia que a moa faa amigos entre os cherokees. Se por acaso algum dia necessita um stio aonde ir.
        No me enganou com esse tom despreocupado.
        - Algum dia. Quando comece a Revoluo, quer dizer?
        - Sim, ou... quando voc e eu morramos. Seja quando for -acrescentou, enquanto olhava com um s olho com o passar do canho, para comprovar o alinhamento.
        Normalmente obtinha no pensar nesse recorte do peridico, com a notcia de que certo James Fraser e sua esposa, da Colina do Fraser, tinham morrido em um 
incndio. Outras vezes o recordava, mas relegava a possibilidade ao fundo de minha conscincia, por no pensar nela. de vez em quando, no obstante, despertava em 
meio da noite, tremendo e aterrorizada, nos rinces de minha mente.
        - O recorte dizia " sem filhos superviventes"  - assinalei, decidida a vencer o medo- . Crie que Bree e Roger se iro... para algum lugar...antes de que 
acontea?
        A viver com os cherokees, possivelmente. Ou s pedras.
        -  possvel. -Estava srio, com a vista fixa em seu trabalho. Nenhum dos dois estava disposto a admitir a outra possibilidade. Em todo caso no fazia falta.
        Apesar de sua relutncia inicial, Brianna parecia estar desfrutando de da viagem. Tambm os Beardsley o passavam bem. A extirpao das adenoides e as amdalas 
infectadas no tinham curado a keziah de sua surdez, mas estava muito melhor. Podia ouvir tudo o que lhe dizia em voz bem alta, embora parecia entender com facilidade 
quanto seu irmo lhe dissesse, embora fora em voz muito baixa. Perguntei-me o que pensaria dos cherokees... e os ndios dele e seu irmo. Peter dizia que essa tribo 
considerava os gmeos como seres benditos e afortunados. Tsatsa'wi ficou encantado quando soube que os Beardsley participariam da caada.
        Josiah tambm parecia divertir-se, at onde uma podia apreciar, pois era muito reservado. Mas conforme nos aproximvamos da aldeia acreditei not-lo algo 
nervoso.
        Tambm notei que Jamie estava um pouco inquieto, mas em seu caso suspeitava os motivos. No lhe incomodava absolutamente colaborar em uma caada e lhe alegrava 
ter a oportunidade de visitar os cherokees. Mas possivelmente lhe incomodava que se proclamasse desse modo sua reputao de Matador de Ursos.
        Esta hiptese ficou demonstrada na terceira noite da viagem. Acampamos a uns quinze quilmetros da aldeia; chegaramos sem dificuldade por volta de meio-dia.
        Enquanto cavalgvamos notei que tratava de decidir algo; quando nos sentamos para jantar, em torno de uma grande fogueira, quadrou sbitamente os ombros 
e se levantou para aproximar-se do Peter Bewlie, que contemplava o fogo com ar sonhador.
        - H algo que devo dizer, Peter. Sobre esse ouso fantasma que vamos procurar.
        Peter levantou a vista, sobressaltado. Mas sorriu e lhe fez um oco a seu lado.
         - Sim, MAC Dubh?
        - Pois ver, o certo  que eu no sei muito de ursos. Em Esccia se acabaram faz anos.
        Peter arqueou as sobrancelhas.
        - Mas se disse que tinha matado a um grande urso sem mais arma que uma adaga!
        - E assim foi. Mas eu no cacei a essa besta. Ela me seguiu, de modo que no tive alternativa. No estou muito seguro de que eu v ser de muita ajuda para 
descobrir ao urso fantasma. Certamente  um animal muito ardiloso, no?, se levar meses inteiros entrando e saindo dessa aldeia, sem que ningum o tenha visto mais 
que um momento.
        - Mais ardiloso que o urso normal -acrescentou Brianna, contraindo um pouco a boca. Jamie lhe cravou um olhar penetrante, que desviou para mim ao ver que 
me engasgava com a cerveja.
        - O que? -inquiriu, irritado.
        - Nada -ofeguei- . Absolutamente nada.
        Ao nos dar as costas, aborrecido, Jamie descobriu que Josiah Beardsley tambm estava fazendo caretas de risada contida.
        - O que! -ladrou-lhe- . Estas duas so umas loucas -nos assinalou agitando o polegar para trs- , mas o que passa contigo?
        Imediatamente o menino apagou o sorriso e tratou de parecer srio, mas lhe contraam as comissuras da boca e um forte rubor lhe acendia as bochechas enxutas, 
visvel at  luz do fogo. Jamie entreabriu os olhos. Ao Josiah lhe escapou um rudo sufocado, que podia ser uma risada. Com a vista cravada no Jamie, cobriu-se 
a boca com uma mo.
        - E bem? -perguntou meu marido, corts.
        Keziah, ao notar que acontecia algo, pegou-se a seu gmeo para lhe emprestar apio. Josiah fez um breve movimento para ele, mas sem apartar a vista do Jamie. 
Ainda estava vermelho, mas parecia haver-se controlado.
        Bom, ser melhor que o diga, senhor.
        - Sim, ser melhor.
        O menino respirou fundo, resignado.
        - No sempre era um urso. s vezes era eu.
        Jamie o olhou fixamente um momento. Ento foi sua boca a que comeou a contrair-se.
        - Ah, sim?
         - no sempre -explicou Josiah. Mas quando suas vagabundagens o levavam perto de alguma das aldeias ndias (" S se tinha fome" , apressou-se a acrescentar) 
espreitava do bosque, para aproximar-se depois do obscurecer e fazer-se com algo comestvel. Permanecia na zona alguns dias, comendo das provises da aldeia at 
ter recuperado as foras e continuava com suas caadas. Quando tinha reunido umas quantas peles retornava  cova.
        Brianna, j sem rir, tinha escutado a confisso do Josiah com a frente enrugada.
        - Mas voc no... quer dizer, sem dvida alguma no foi voc quem se levou a beb com a tabela que lhe servia de bero. E tampouco matou  mulher que apareceu 
meio comida, verdade?
        - OH!, no. Para que? No acreditar voc que comi isso eu, verdade? -Sorriu ao diz-lo- . s vezes tive tanta fome que teria podido faz-lo, se tivesse 
encontrado a algum morto, sempre que fora recente -acrescentou, judicioso- . Mas no tanto como para matar deliberadamente a algum.
        - No nunca pensei que lhe tivesse comido -disse isso Brianna secamente- . S me ocorreu que, se algum os tivesse matado, por qualquer motivo, o urso poderia 
ter mordiscado os cadveres.
        Peter assentiu com ar pensativo. Parecia interessado, mas essas confisses no lhe impressionavam.
        - Sim,  o que faria um urso -disse- . No so exigentes para comer. No fazem ascos  carnia.
        Jamie fez um gesto afirmativo, mas no desviou sua ateno do Josiah.
        - Isso me ho dito, sim. Mas Tsatsa'wi disse que tinha visto o urso quando se levava a seu amigo. De modo que arbusto s pessoas, no?
        - Bom, a esse o matou -disse Josiah. Mas seu tom tinha um tom estranho; Jamie o olhou com mais ateno, arqueando uma sobrancelha. Josiah moveu lentamente 
os lbios, como se tratasse de tomar uma deciso. Logo jogou uma olhada ao Kezzie, que lhe sorriu.
        Por fim o menino se voltou para o Jamie com um suspiro.
        - No pensava dizer nada sobre esta parte -confessou francamente- . Mas voc foi honesto conosco, senhor, e no me parece bem que v atrs desse animal sem 
saber que mais poderia haver ali.
        - Que mais? -Jamie baixou lentamente a parte de po que estava a ponto de morder- . Que mais poderia haver ali?
        - Pois..., tenha em conta que o vi uma s vez -advertiu Josiah.
        - E onde estava ento?
        Perto da aldeia a que nos dirigamos. No era a primeira vez que Josiah andava por ali. Seu objetivo era uma casa no extremo da aldeia; ali havia fileiras 
de milho postas a secar sob os beirais. Pensava que poderia agarrar uma e escapar com bastante facilidade, sempre que no despertasse aos ces da aldeia.
        - Se acordadas a um os tem a todos uivando detrs de ti -disse, movendo a cabea- . E s faltavam um par de horas para que amanhecesse. De modo que me escorri 
lentamente, atento se por acaso algum desses pcaros dormia enroscado junto  casa que estava vigiando. Enquanto espreitava no bosque tinha visto sair dela uma silhueta. 
Como nenhum dos ces se alterou, era razovel pensar que essa pessoa vivia ali. O homem se deteve para urinar; logo, para alarme do Josiah, carregou-se ao ombro 
um arco e um carcaj e se dirigiu diretamente para o bosque onde ele estava oculto.
        - No acreditava que ele viesse a por mim, mas subi a uma rvore, muito rpido e sem fazer nenhum rudo -disse, sem gabar-se.
        O homem devia ser um caador que saa cedo, rumo a um arroio longnquo onde veados e mapaches foram beber quando amanhecia.
        Josiah continha o flego, escondido em sua rvore, apenas um par de metros por cima de sua cabea. O homem desapareceu em seguida entre os densos matagais. 
Quando o moo estava a ponto de descender, ouviu uma sbita exclamao de surpresa, seguida pelo rudo de uma breve resistncia que concluiu com um horrvel rudo 
a golpe.
        Josiah caminhou brandamente pelo bosque em direo aos rudos susurrantes que se ouviam. Ao olhar cautelosamente entre os ramos de um cedro distinguiu uma 
silhueta humana tendida no cho; outra se inclinava sobre ela, lutando para lhe tirar um objeto.
        - O homem estava morto -explicou Josiah, tranqilamente -Suponho que aquele homenzinho lhe afundou a cabea com uma pedra ou um pau.
        - Homenzinho? -Peter tinha escutado o relato com muita ateno- . Como era? Viu-lhe a cara?
        - No, s vi sua sombra que se movia. -Entrecerr os olhos para fazer um clculo mental- . Acredito que era mais baixo que eu; mais ou menos assim. -Alargou 
uma mo, indicando algo menos de um metro e mdio.
        Mas o assassino se viu interrompido quando saqueava o cadver, Josiah no notou nada at que ouviu o sbito ranger de um pau partido e o farejar inquisitivo 
do urso que busca algo.
        - Como correu aquele ser para ouvi-lo! -comentou- . Passou a meu lado como uma flecha, to perto como est voc de mim. Foi ento a nica vez que pude v-lo.
        - Bom, no nos tenha em incerteza -disse, vendo que se detinha beber um gole de cerveja- . Como era?
        - Pois... Eu tivesse jurado que era o mesmo diabo, senhora. Embora eu imaginava ao diabo maior -acrescentou, dando outro sorvo.
        Naturalmente, este comentrio provocou alguma confuso. Ao pedir mais elucidao tirou o chapu que Josiah se referia a sua cor: o misterioso " menor"  era 
negro.
        - S quando fui a essa sua congregao inteirei de que alguns tios normais so negros -explicou- . No sabia que houvesse gente assim.
        Para no chamar a ateno desse ser, o moo se ficou imvel; foi assim como ouviu o urso que dava conta do desafortunado aldeo.
        -  como diz o senhor Peter -disse, assinalando ao Bewlie com um gesto- . Os ursos no so muito exigentes. A esse no o vi, de modo que no sei se era branco 
ou no; mas que se comeu a esse ndio, v que se o comeu.
        A lembrana no parecia perturb-lo. Em troca vi que Brianna contraa as fossas nasais ao escut-lo. Jamie intercambiou um olhar com o Peter.
        - Bom -disse ao fim- . Parece que no todas as maldades cometidas na aldeia de seu cunhado se podem atribuir ao urso fantasma, no? Tambm estava Josiah 
roubando comida e esses pequenos demnios negros matando s pessoas. O que diz voc, Peter?  possvel que um urso se afeioe  carne humana, uma vez que a provou, 
e logo saia a caar gente?
        Peter assentiu lentamente, com a cara enrugada, concentrado.
        -  possvel, MAC Dubh -reconheceu- . E se houver um negro bode rondando pelo bosque, quem sabe agora a quantos matou o urso e a quantos o diabo negro? Mas 
o urso carrega com a culpa de tudo.
        - Mas quem  esse pequeno demnio negro? -Perguntou Bree. Os homens se olharam entre si. Logo se encolheram de ombros, quase ao unssono.
        - Deve ser um escravo fugitivo, no? -disse ao Jaime- . Um negro livre em seu so julgamento no teria por que andar sozinho por territrio selvagem.
        - Pode que no esteja em seu so julgamento -insinuou Bree- . Escravo ou livre, se lhe der de matar s pessoas...
        Jamie pigarreou.
        - Suponho que sua mulher no falou de demnios negros, verdade, Peter?
        - No, no acredito, MAC Dubh. Quo nico recordo, nesse sentido,  o do Homem Negro de Poente.
        - E o que  isso? -perguntou Josiah, interessado. Peter se arranhou a barba.
        - Pois... no deveria dizer-lhe a ningum, mas os chamanes dizem que em cada um dos quatro rumos vive um esprito. E cada esprito tem uma cor distinta, 
de modo que, quando cantam suas oraes e coisas pelo estilo, chamam o Homem Vermelho de Levante, por exemplo, para que ajude  pessoa pela que cantam, porque o 
vermelho  a cor do triunfo e o xito. O norte  azul: o Homem Azul vai a pela derrota e as dificuldades; a ele o convoca para que d dores de cabea a seu inimigo, 
compreendem? O Homem Branco do Sul  paz e felicidade; lhe canta pelas mulheres grvidas e coisas assim.
        Jamie parecia a um tempo surpreso e interessado.
        - parece-se muito aos quatro airts, os quatro pontos cardeais de Esccia, verdade, Peter?
        - Pois sim -reconheceu Bewlie- . No  estranho que os cherokees tenham as mesmas idias que os escoceses das montanhas?
        - OH!, nem tanto. -Jamie assinalou com um gesto o bosque escuro, mais  frente do pequeno crculo de luz que irradiava a fogueira- . Eles levam o mesmo tipo 
de vida que ns, no? So caadores e habitantes da montanha. Podem ter visto as mesmas coisas que ns.
        Peter assentiu lentamente, mas toda essa filosofia impacientava ao Josiah.
        - Ento,  ou no o Homem Negro de Poente? -inquiriu.
        Os dois giraram a cabea para ele.
        - O Poente  o lar dos mortos -disse Jamie com voz fica.
        Peter assentiu, muito srio.
        - E o Homem Negro de Poente  a morte mesma -acrescentou- . Ao menos, isso dizem os cherokees.
        Josiah murmurou que essa idia no gostava de muito. A Brianna, ainda menos.
        - No acredito que o esprito de poente v pelos bosques rompendo a cabea s pessoas -declarou com firmeza- . O que Josiah viu era uma pessoa. Um negro. 
Ergo, trata-se de um negro livre ou de um escravo fugitivo. E dadas as circunstncias, voto por escravo fugitivo.
        No me pareceu que o assunto desse para um processo democrtico, mas lhe dava a razo.
        - Tenho outra idia -disse, percorrendo aos pressente com o olhar- . E se fosse esse homenzinho negro o que devorou s pessoas que apareceu meio comida? 
No h canibais entre os escravos africanos?
        Jamie pareceu divertido pela idia.
        - Bom, suponho que na frica haver algum que outro canibal -reconheceu- . Mas no soube que nenhum entre os escravos. No acredito que fossem muito adequados 
como serventes domsticos, verdade? Poderiam te morder o culo apenas lhes voltasse as costas.
        Esse comentrio nos fez rir e alvio um pouco a tenso. Todos iniciamos os preparativos para nos deitar.
        Jamie, depois de intercambiar um olhar com a Brianna, anunciou que ambos fariam o primeiro turno de guarda; Josiah e eu, o seguinte; Peter e Kezzie, o ltimo. 
At ento no tnhamos montado guarda, mas ningum protestou pela deciso.
         Peter e os gmeos Beardsley dormiram em poucos segundos; ouvia-os roncar ao outro lado do fogo. Eu tambm comeava a me adormecer, arrulhada pelas vozes 
fica do Jamie e Bree.
        - se preocupa seu marido, a nghiean? -perguntou ele, brandamente.
        - Estou preocupada com ele desde que o enforcaram -disse- . Agora tambm tenho medo.
        - Hoje no corre mais perigo que ontem, moa... nem que qualquer outra noite desde que partiu.
        -  certo -respondeu ela, seca- . Mas o que a semana passada ns no soubssemos de ursos fantasmas nem de assassinos negros, no significa que no estivessem 
por ali.
        -  justamente o que queria dizer -observou ele- . Seu medo no reduzir o perigo, compreende?
        - Sim, mas crie que me preocuparei menos por isso?
        - No, no acredito.
        Houve um breve silncio. Logo Brianna voltou a falar:
        - No deixo de pensar. O que farei se acontecer algo... se ele no retornar? Durante o dia estou bem, mas de noite no posso deixar de pensar...
        - OH!, bom -murmurou ele. Vi-lhe levantar a vista s estrelas- . Quantas noites h em vinte anos, a nighean? Quantas horas? Pois esse  o tempo que passei 
me perguntando se minha esposa ainda vivia, como estariam ela e meu filho. Para isso est Deus. Preocupar-se no serve de nada; orar sim... s vezes -acrescentou 
com franqueza.
        - Sim- reconheceu ela, algo insegura- . Mas se...
        - E se ela no tivesse retornado -a interrompeu Jamie, com firmeza- , se voc no tivesse vindo... se eu jamais tivesse sabido... ou se tivesse tido a certeza 
de que as duas tinham morrido... Nesse caso eu teria contnuo vivendo, a nighean, e fazendo o que devia fazer. E o mesmo far voc. 
      
      
      82
      
      Cu escurecido
      
      
      
      Roger, suarento, abriu-se passo por um denso bosquecillo de eucaliptos e carvalhos. Tinha vontades de legar ao arroio, e no s pela gua, que sim a necessitava, 
pois, embora de noite comeava a fazer frio, os dias seguiam sendo calorosos e antes do meio-dia lhe tinha terminado a gua que ficava no cantil. Mas mais que a 
gua precisava sentir o ar livre. Ali abaixo, ao p da montanha, os bosquecillos de discos e louros eram to densos que logo que permitiam ver o cu; onde o sol 
conseguia abrir-se passo, a erva crescia at o joelho.
        levou-se ao Clarence, a mula, mais apta que os cavalos para a marcha arruda dos territrios selvagens, mas alguns lugares eram muito rduos inclusive para 
ele. Deixou-o amarrado em terras mais altas, com seu cilindro de mantas e seus alforjas, e continuou abrindo-se passo entre a maleza para chegar at  o seguinte 
ponto que devia medir.
        Fazia calor. tirou-se a jaqueta e a atou  cintura; logo se enxugou a cara com a manga da camisa e continuou a marcha; o astrolbio se bamboleava, pendurado 
de seu pescoo por uma correia. Do alto de uma montanha podia ver as covas brumosas e os ravinas boscosos, com certo prazer sobressaltado ao pensar ao pensar que 
todo isso era dele.
        Queria terminar de uma vez com essa selva e voltar para terras mais altas. Embora um se sentisse mido ante as rvores gigantescas da selva virgem, podia-se 
respirar baixo eles. Era incompreensvel que um lugar assim pudesse alterar-se... mas assim seria. Ele sabia bem. Mas se j o tinha visto! Tinha conduzido seu carro 
por uma estrada asfaltada, construda em meio de um lugar que alguma vez tinha sido como esse. Sabia que podia trocar. E enquanto lutava por atravessar os matagais 
de zumaque e amora, era consciente de que aquele lugar podia tragar-lhe sem vacilar um segundo.
         Mesmo assim havia algo sedativo na tremenda escala da espessura. Entre as rvores gigantescas e a vida selvagem que pululava ali encontrava um pouco de 
paz: em paz o deixavam as palavras que lhe amontoavam na cabea, a preocupao nos olhos da Brianna, a crtica nos do Jamie; uma crtica suspensa, que pendia ali 
como a espada do Damocles. Deixavam-no em paz os olhares de compaixo ou curiosidade, o esforo constante e penoso de falar, a lembrana do canto.
        Durante os primeiros dias de medir o terreno no havia dito uma palavra; era um imenso alvio no ter que faz-lo. Mas agora comeava a falar de novo; desgostava-lhe 
o som maltratado e rouco das palavras, mas no lhe afligia tanto, pois no havia ningum que o escutasse.
        Por fim ouviu o gorgoteo da gua sobre as pedras e, ao sair de um bosquecillo de salgueiros tenros, encontrou o arroio a seus ps, com o sol faiscando na 
gua. depois de beber e molh-la cara, escolheu os pontos da ribeira de onde faria suas medies. Extraiu o livro do registro, tinta e a pluma do zurrn que levava 
a ombro, e tirou o astrolbio da camisa.
        Enquanto realizava suas medies e tomava nota no livro, cantou pelo baixo, sem reparar na quebrada distoro dos sons.
      
      
      Muito em breve descobri por que meu nome parecia importante para a Tsatsa'wi: a aldeia se chamava Kalanun'yi, Cidade do Corvo. Quando chegamos no vi nenhum, 
mas ouvi o grasnido rouco de uma entre as rvores.
        Os habitantes da aldeia nos saudaram com entusiasmo, serviram-nos uma abundante comida e nos atenderam durante um dia e uma noite. A tarde do segundo dia 
nos convidaram a participar de uma invocao  deidade cherokee da caa, para lhe pedir que favorecesse a expedio contra o urso fantasma.
        At que conheci o Jackson Jolly eu ignorava que entre os chamanes ndios havia tanta diferena de talento como entre o clero cristo. naquela poca, eu j 
tinha conhecido a vrios das duas classes, mas os mistrios da linguagem me tinham impedido de descobrir que a vocao de chamn no implicava necessariamente magnetismo 
pessoal, poder espiritual nem dom de predicacin.
        Ao ver as faces endurecidas de quem se apinhava na casa do sogro do Peter Bewlie, compreendi que Jackson Jolly, pese ao encanto pessoal ou os vnculos 
com o mundo espiritual que pudesse ter, carecia infelizmente do dom da palavra. 
        O chamn ocupou seu posto ante o lar, vestido com uma manta de flanela vermelha similar a um xale e com uma mscara que representava a cara de um pssaro; 
j ento notei certa expresso resignada em algum dos pressente. Quando comeou a falar, em voz alta e montona, a mulher que estava a meu lado trocou pesadamente 
de posio e suspirou. Jolly era um chamn sincero, indubitavelmente, mas tambm muito aborrecido.
        O cntico para a caada do urso era bastante montono; inclua interminveis repeties de " Hei! Hayuya, hayuya'haniwa, hayuya'haniwa..." . Logo, ligeiras 
variaes sobre o mesmo tema; cada verso terminava com um estimulante" Yoho!" , que te agarrava por surpresa.
        Entretanto, a congregao exibiu mais entusiasmo durante essa cano. Por fim compreendi que o problema no estava no chamn, provavelmente. O urso fantasma 
assolava a aldeia desde fazia vrios meses; j deviam ter passado por essa cerimnia em concreto vrias vezes, sem xito algum. No se tratava de que Jackson Jolly 
fora mau pregador, mas sim de que seus fiis sofriam certa perda de f
        Ao terminar o cntico, Jolly plantou ferozmente o p no lar, para acentuar algo que dizia; logo extraiu de sua saca uma varinha de salvia e, depois de lhe 
prender fogo, comeou a caminhar pela habitao, defumando aos pressente. A multido lhe abriu aconteo cortesmente, lhe permitindo dar vrias voltas em volto do 
Jamie e os gmeos Beardsley, enquanto cantava e os perfumava com volutas de fumaa fragrante.
        Terminada esta fase da cerimnia, o chamn retornou a seu posto junto ao fogo e comeou a cantar outra vez. Comeava a me doer as costas. Ao fim Jolly ps 
fim a seus procedimentos com um grito; logo se retirou um trecho para tir-la mscara e secar o suor da frente, muito agradado consigo mesmo. Ento o chefe da aldeia 
se adiantou para parlamentar; a gente comeou a mover-se, inquieta.
        Me desperec to discretamente como pude, enquanto me perguntava o que haveria para jantar. Distrada com essas reflexes, ao princpio no me precavi de 
que os movimentos se feito mais pronunciados. Logo a mulher que estava a meu lado se ergueu bruscamente, dizendo algo em voz alta e autoritria, e inclinou a cabea 
a um lado para escutar.
        O chefe calou imediatamente; a meu redor a gente olhava para cima, com o corpo rgido e os olhos dilatados. Eu tambm o ouvi: o ar se encheu de um sussurro 
de asas.
        - Que diabo  isso? -sussurrou-me Brianna.
        Eu no tinha nem idia, mas o rudo se fazia cada vez mais forte. O ar comeava a vibrar em uma espcie de trovo constante, comprido.
        - Tsiskwa! -gritou um homem da multido.
        E de sbito se produziu uma correria para a porta.
        Ao sair pensei primeiro que se tratava de uma repentina tormenta. O cu estava escuro, trovejava e uma luz estranha, opaca, piscava sobre todas as coisas. 
Mas no se percebia umidade alguma no ar.
        - Pssaros, Meu deus, so pssaros!
        Logo que ouvi a voz da Brianna detrs de mim, entre o coro de assombro que me rodeava. Todos estavam de p na rua, olhando para cima.
        Era terrorfico, sim. Eu nunca tinha visto nada parecido; a julgar por sua reao, tampouco a maioria dos cherokees. Era como se a terra se estremecesse. 
O ar tremia, vibrando ante o bater de asas como um tambor castigado por mos frenticas.
        A paralisia da multido no durou muito. Aqui e l se ouviam gritos. De sbito a gente ps-se a correr; todos entravam depressa em suas casas e voltavam 
a sair armados de arcos. Em poucos segundos, uma perfeita descarga de flechas se elevou por entre as nuvem de pssaros; os corpos emplumados choviam do cu, lassos 
e ensangentados, atravessados pelos dardos.
        Mas no eram corpos quo nico caa do cu. Uma suculenta deposio me golpeou o ombro. Era toda uma chuva de partculas, nociva precipitao lanada pelo 
ensurdecedor bando, que levantava pequenas baforadas de p na rua. Retrocedi para me refugiar sob os beirais de uma casa, com a Brianna e Jemmy.
        Desde esse refgio, sobressaltados, vimos que os aldeos puxavam entre si, disparando a toda pressa; uma flecha seguia a outra. Jamie, Peter Bewlie e Josiah 
tinham deslocado a por seus rifles e disparavam entre a multido, sem incomodar-se sequer em apontar. No era necessrio, pois ningum podia falhar. Os meninos, 
manchados pelos excrementos, escorriam-se por entre as pernas para recolher as aves quedas e as amontoavam nas soleiras das casas.
        Aquilo deveu durar uma meia hora. Passamo-la acurrucados sob os beirais, mdio ensurdecidos pelo rudo e hipnotizados pela incessante torrente que passava 
pelo alto. Por fim passou o grande bando; atrasado-los, separados dos borde, tambm desapareceram por sobre a montanha.
        A aldeia suspirou ao unssono. Vi que a gente se esfregava as orelhas, tratando de tirar o bater das asas. Em meio da multido, Jackson Jolly sorria de brinca 
a orelha, generosamente talher de excrementos e plumas, fulgurantes os olhos. Disse algo com os braos estendidos e os que estavam perto murmuraram uma resposta.
        - Estamos benditos -me traduziu a irm da Tsatsa'wi; parecia profundamente impressionada. Assinalou com um gesto ao Jamie e aos gmeos Beardsley- . O Antigo 
Branco nos enviou um grande sinal. Acharo ao urso, sem dvida.
      
      
      Os caadores partiram para dia seguinte, antes do amanhecer. Brianna, em que pese a sua relutncia a separar-se do Jemmy, subiu  arreios com ligeireza. Quanto 
ao menino, estava muito entretido em revolver o contedo dos cestos para emprestar ateno  partida de sua me.
        As mulheres dedicaram o dia a depenar, assar, defumar e preservar as pombas com cinza de lenha. Por minha parte ajudei s cozinhar, matizando a tarefa com 
entretidos dilogos e permute proveitosos. Tinha levado comigo cem litros de mel e algumas ervas e sementes importadas da Europa. As negociaes foram rpidas; ao 
cair a noite tinha trocado minha mercadoria por quantidades de ginseng, calambuco e algo muito pouco freqente: uma chaga. Segundo me havia dito, este enorme cogumelo 
verrugoso, que cresce em abedules vetustos, tinha fama de curar o cncer, a tuberculosis e as lceras. Parecia-me um elemento til para qualquer mdico.
        Quanto ao mel, tinha-a trocado por cem litros de azeite de girassol, envasilhado em grandes sacos de pele; estavam amontoados sob os beirais da casa onde 
nos hospedvamos, empilhados como balas de canho. Cada vez que saa me detinha olh-los com satisfao, imaginando todo o sabo suave e fragrante que poderia fazer 
com esse azeite. Com um pouco de sorte poderia vend-lo a bom preo e obter o dinheiro que terei que lhe mandar ao Laoghaire " mau raio a parta" .
        O seguinte dia o passamos nos hortas com minha anfitri, outra das irms da Tsatsa'wi, chamada Sungi, mulher alta e de rosto doce, que aparentava uns trinta 
anos. Sabia umas quantas palavras de ingls, mas por sorte algumas de seus amigas o falavam melhor..., pois meu vocabulrio cherokee se limitava a " ol" , " bom" 
e " mais" .
        Sungi ps ao Jemmy a cargo de suas duas meninas; obviamente lhes advertiu que tivessem muito cuidado, pois assinalou vrias vezes o bosque.
        - Bom Matador de Ursos vir -disse- . Este urso no ouso. No falar ns.
        - OH, ah! -disse, assentindo com ar inteligente.
        Outra das mulheres colaborou ampliando a idia; explicou que todo urso razovel emprestava ateno  invocao do chamn, que convocava ao esprito do urso, 
a fim de que caadores e animais se encontrassem adequadamente. Dado a cor desse urso, sua teima e sua conduta maligna, resultava evidente que no era um urso de 
verdade, a no ser algum esprito maligno que tinha decidido manifestar-se como tal.
        - Ah! -exclamei, com um pouco mais de compreenso- . Jackson mencionou ao " Antigo Branco" ; se referiria ao urso? -Entretanto, Peter havia dito que o branco 
era uma das cores favorveis.
        Outras das ndias (quem me havia dito seu nome ingls, Anna), riu um pouco escandalizada.
        - No, no! Antigo Branco, o fogo.
        Outras damas intervieram com gorjeios. Finalmente compreendi que o fogo, embora obviamente poderoso e merecedor de um trato intensamente respeitoso, era 
uma entidade benfica. dali que a conduta do urso parecesse to atroz: aos animais brancos normalmente os tratava com respeito e os considerava portadores de mensagens 
do outro mundo (nesse ponto uma ou duas delas me olharam de esguelha), mas esse urso no se comportava de maneira compreensvel.
        Dado o que eu sabia sobre a ajuda que o animal tinha recebido do Josiah Beardsley e o " pequeno diabo negro" , eu o compreendia muito bem. Por no implicar 
ao Josiah, mencionei que tinha escutado certos relatos, sem especificar onde, segundo os quais existia um homem negro que vivia no bosque e fazia costure ms. Sabiam 
elas algo disso?
        - OH, sim! -asseguraram-me. Mas eu no tinha por que me preocupar. Existia um pequeno grupo de homens negros que viviam " por ali" ; assinalaram o outro 
lado da aldeia e os canaviais invisveis ao outro lado do rio. Era possvel que essas pessoas fossem demnios, sobre todos considerando que vinham do oeste.
        E era possvel que no fossem. Alguns caadores da aldeia os tinham seguido cautelosamente durante vrios dias para ver o que faziam. Os caadores informavam 
que esses homens negros viviam na misria, vestidos com farrapos e sem casas decentes. Um demnio que se respeitasse no podia viver assim.
        No obstante, eram to poucos e to pobres que no valia a pena atac-los; alm disso, os caadores disseram que s havia trs mulheres, as trs muito feias. 
E que depois de tudo, sim podiam ser demnios. De modo que decidiram deix-los momentaneamente em paz. Os homens negros nunca se aproximavam da aldeia, acrescentou 
uma das ndias, enrugando o nariz; os ces os farejariam.
        Ao mediar a tarde os caadores retornaram.
        - Quatro zarigeyas, dezoito coelhos e nove esquilos -informou Jamie, enquanto se limpava a cara e as mos com um pano molhado- . Tambm encontramos muitas 
aves, mas com tanta pomba no nos incomodamos nas caar, salvo um bonito falco que George Gist queria pelas plumas. -Vinha castigado pelo vento e com o nariz avermelhado 
pelo sol, mas muito animado- . E Brianna, bendita seja, matou um bom alce ao outro lado do rio. Um tiro no peito, mas o derrubou... e ela mesma lhe cortou o pescoo, 
embora no  nada fcil faz-lo quando a besta ainda esperneia.
        - OH!, que bem -disse, um pouco desfalecida ao imaginar um esperneio de pezuas afiadas e chifres letais muito perto de minha filha.
        - No se preocupe, Sassenach -disse ele- . Ensinei-lhe a faz-lo como se deve. aproximou-se de detrs.
        - Viram algum urso, por acaso, ou estavam muito ocupados?
        Ele me olhou com um olho entreabrido por cima da toalha com que se estava secando a cara, mas respondeu com afabilidade.
        - Descobrimos muitos sinais de sua presena. Josiah tem boa vista para isso. No s o esterco, mas tambm tambm uma rvore com cabelo enganchado na casca. 
Ele diz que cada urso tem um par de rvores preferidas e vai arranhar se ali uma e outra vez, de modo que, se queramos matar a um em especial, podamos acampar 
perto e esperar.
        - E neste caso essa estratgia no servia?
        - Acredito que teria servido -respondeu ele, muito sorridente- , mas no era o urso que procurvamos. Os cabelos aderidos  rvore no eram brancas, a no 
ser pardos.
        Mesmo assim a expedio no tinha sido um fracasso. Os caadores completaram um grande semicrculo em volto da aldeia e entraram no bosque, onde exploraram 
at chegar ao rio. E na terra branda da zona baixa, perto do canavial, encontraram rastros de pegadas.
        - Josiah disse que eram diferentes das que tinha deixado o urso cujo cabelo vimos. E Tsatsa'wi acredita que eram como as do urso branco que matou a seu amigo.
        A concluso lgica, em que coincidiam todos os peritos pressente, era que o urso fantasma tinha sua toca no canavial. Esses caares eram lugares densos, 
sombreados e frescos no calor do vero, povoados de aves e pequenas presas.
        - Nesses lugares no pode entrar a cavalo, verdade? -perguntei.
        - No, e tampouco se pode avanar muito a p, porque so muito densos. Mas no temos inteno de entrar em busca do urso.
        O plano consistia em prender fogo ao canavial, para que o urso sasse pelo lado oposto ao plano, onde o poderia matar com facilidade. Mas o fogo faria sair 
tambm a muitos outros animais, por isso se tinha avisado aos habitantes de outra aldeia, distante uns trinta quilmetros, para que seus caadores participassem. 
Com um pouco de sorte poderiam reunir provises para todo o inverno, e o maior nmero de caadores impediria que o maligno urso fantasma pudesse escapar.
        - Muito eficiente -comentei, divertida- . Espero que no faam sair tambm aos escravos.
        - O que?
        - Diabos negros ou algo assim. -contei-lhe o que tinha sabido do assentamento de escravos fugitivos.
        - Pois no acredito que sejam diabos -disse secamente- . Mas me parece que no correm perigo. Tm que viver ao outro lado do canavial, na borda oposta. Mesmo 
assim perguntarei. H tempo. Os caadores do Kanu'ornamento'yi demoraro trs ou quatro dias em chegar.
      
      
      Os dias seguintes foram agradveis, embora reinava uma sensao espectador que culminou com a chegada do Kanu'ornamento'yi.
        depois das devidas cerimnias e um grande festim de bem-vinda, consistente em higaditos de pomba defumados com ma frita, a grande partida de caa saiu 
ao amanhecer, equipada com tochas de pinheiro e braseiros, alm de aros, mosquetes e rifles. Depois de despedi-los com um caf da manh adequado, os que no participvamos 
da caada retiramos s cabanas, para nos entreter com a cestera, a costura e a conversao.
        Pensava aproveitar a conversao do dia para perguntar pelos componentes do amuleto que Nayawenne fazia para mim. Claro que, por ser ela uma curandeira tuscarora, 
talvez as crenas subjacentes no fossem as mesmas, mas o do morcego despertava curiosidade.
        - Sobre os morcegos h um conto -comeou Sungi.
        - Os animais e os pssaros decidiram jogar um partido de bola -disse Anna, traduzindo com facilidade o que narrava Sungi- . Por ento os morcegos caminhavam 
em quatro patas, como os outros animais. Mas quando chegou o momento de comear a jogar, os outros animais lhes disseram que no podiam, pois eram muito pequenos 
e sairiam esmagados. Os morcegos se desgostaram.
        Sungi franziu o sobrecenho com cara de morcego aborrecido.
        - Ento os morcegos se aproximaram dos pssaros e lhes ofereceram jogar em seu bando. Os pssaros aceitaram o oferecimento; com folhas e palitos fizeram 
asas para os morcegos. As aves ganharam o jogo e os morcegos ficaram to contentes com suas asas que...
        Sungi se interrompeu abruptamente e levantou a cabea para farejar. Todas as mulheres que nos rodeavam fizeram o mesmo. Nossa anfitri se levantou depressa 
para aparecer  porta, com a mo apoiada no marco.
        O aroma de fumaa que flutuava no ar desde fazia uma hora se acentuou muito. Levantei-me para seguir ao Sungi, com as outras mulheres.
        O cu tinha comeado a cobrir-se de nubarrones, mas a nuvem de fumaa era ainda mais escura: um borro negro que se amontoava sobre as rvores distantes. 
O vento cavalgava os borde da tormenta prxima; frente a ns passaram torvelinhos de folhas secas, com um rudo de ps pequenos e precipitados.
        Sungi disse algo que no entendi, mas seu sentido era bvio. Uma das mais jovens se umedeceu um dedo com saliva e o levantou, mas era desnecessrio: eu sentia 
o vento contra a cara o bastante forte para me levantar o cabelo dos ombros. Soprava diretamente para a aldeia.
        Imediatamente as mulheres ficaram em movimento: correram pela rua para suas casas, chamando os meninos; aqui e l se detinham para recolher na saia a carne 
posta a secar ou arrancar dos beirais uma rstia de cebolas, alguma cabaa.
        Eu no sabia com certeza onde estava Jemmy; uma das meninas ndias o tinha levado a jogar, mas na confuso no tinha visto qual era. Levantei-me as saias 
para correr rua abaixo, aparecendo em interior de cada casa sem que ningum me convidasse.
        Encontrei ao Jemmy na quinta casa, profundamente dormido com outros meninos de distintas idades, todos acurrucados como cachorrinhos em uma manta de bfalo. 
Despertei com toda a suavidade possvel, enquanto desenredava ao Jemmy.
        Quando samos  rua, o aroma de fumaa se acentuou muito. A evacuao estava em plena marcha; a gente (mulheres em sua maioria) abandonava apressadamente 
as moradias, empurrando para diante aos meninos e carregado com hatillos com seus pertences.
        Os caadores se levaram a maioria dos cavalos. Quando cheguei ao curral de saras s ficavam trs. Um dos ancies da aldeia estava montado em um e tinha 
pelas bridas ao Judas e ao outro animal, preparado para levar-lhe O meu estava selado, com as alforjas e um freio de corda. O ancio,  lombriga, disse algo com 
um grande sorriso e assinalou ao Judas.
        - Obrigado! -exclamei.
        O homem se inclinou para agarrar diestramente ao Jemmy, a fim de que eu pudesse montar e me fazer carrego das rdeas; logo me entregou ao menino com muito 
cuidado.
        Os cavalos estavam inquietos. Sabiam to bem como ns o que era um incndio e a idia gostavam ainda menos. Sujeitei com firmeza o freio com uma mo e ao 
Jemmy com a outra.
        - Bem, besta -disse ao Judas, fingindo autoridade- . Vamos j!
        O cavalo estava muito de acordo com essa proposio: encaminhou-se para a abertura da perto como se fora a linha de chegada de uma carreira, com o que enganchou 
minhas saias nos espinhos do cercado. Compu-me isso para reprimi-lo apenas o suficiente para que o ancio e seus dois cavalos sassem do curral e ficassem a nossa 
altura.
        O homem me gritou algo e assinalou para a montanha, na direo oposta ao fogo. O vento lhe cruzava o comprido corto cinza contra a cara, afogando suas palavras. 
O apartou, mas em vez de incomodar-se em repetir, limitou-se a pr suas arreios na direo que tinha indicado.
        Aulei ao Judas com o joelho para que o seguisse, mas o mantive a rdea curta. Joguei um olhar vacilante para a aldeia, onde a gente continuava saindo das 
casas, todos com o rumo que tinha indicado o ancio.
        Bree deveria buscar ao Jemmy assim que notasse que a aldeia estava em perigo. Demorei-me para esper-la, face  crescente agitao do Judas.
        O vento j aoitava as rvores, arrancando baforadas de folhas verdes, vermelhas e amarelas que aconteciam, raudas, ou convertiam minha saia e o pele do 
cavalo em uma colcha de retalhos outonais. Todo o cu se ps crdeno; ouvi os primeiros rugidos do trovo sob o assobio do vento e o sussurro do fogo. At atravs 
da fumaa, percebia-se o aroma da chuva iminente, e isso me deu uma sbita esperana. O que a situao requeria era justamente um bom chuvarada; quanto antes, melhor.
        Encontrei a Brianna e ao Jamie no meio do povo, nos buscando ansiosamente com a vista. Jemmy lanou um chiado de gozo ao ver sua me e se jogou em seus braos, 
com o que esteve a ponto de cair sob os cascos nervosos dos cavalos.
        - Caaram o urso? -perguntei ao Jamie.
        - No! -gritou ele, para fazer-se ouvir por cima do rudo do vento- . Vamos, Sassenach!
        Bree j ia para o bosque, onde o ltimo dos ndios j desaparecia entre as rvores. Mas ao ficar livre do Jemmy eu tinha pensado em outra coisa.
        - Um minuto! -gritei, enquanto desmontava.
        Arrojei as rdeas ao Jamie, que se inclinou para as apanhar. Gritou-me algo que no cheguei a entender.
        Estvamos ante a casa do Sungi e eu tinha visto os odres de azeite de girassol empilhados sob os beirais. Arrisquei-me a jogar uma olhada em direo ao canavial. 
O fogo se estava aproximando. Mesmo assim estava quase segura de que os cavalos nos permitiriam nos distanciar do incndio. E no pensava deixar a merc do fogo 
as lucros de todo um ano de mel.
        Sem emprestar ateno aos bramidos furiosos do Jamie, corri ao interior da casa para escavar como um ganso entre as cestas disseminadas, esperando, contra 
toda esperana, que Sungi no houvesse... Por sorte, no. Com um punhado de tiras de couro na mo, sa correndo. Ajoelhada entre o p e a fumaa formados redemoinhas, 
atei um cabo ao pescoo de cada odre e os atei de dois em dois, rodeando as ataduras tanto como pude. Logo, carregada com uma dessas incmodas juntas, voltei me 
cambaleando para os cavalos.
        Jamie,  lombriga, agarrou os dois pares de rdeas com uma s mo e se inclinou para agarrar a correia improvisada que unia os odres; carregou-os sobre a 
cruz do Gideon, deixando pender um saco a cada lado.
        - Vamos! -gritou.
        - Um mais!
        Judas soprava e punha os olhos em branco, mostrando os dentes em um gesto de medo, mas Jamie o reteve com fora, enquanto eu cruzava o segundo par de odres 
sobre a cadeira. Logo montei.
        Assim que Jamie afrouxou o punho de ferro com que sujeitava o freio, Judas arrancou. Eu tinha a corda nas mos, mas compreendi que no serviria de nada; 
limitei-me a me aferrar  cadeira como se nisso me fora a vida; com os odres de azeite ricocheteando contra minhas pernas, voamos para a segurana das terras elevadas.
        A tormenta estava muito mais perto; o vento tinha cessado, mas o trovo ressonava com forte estrondo, fazendo que Judas cravasse os cascos e saltasse como 
uma lebre a campo aberto. Detestava os troves. Ao recordar o que tinha acontecido a ltima vez que o montei durante uma tormenta de chuva, inclinei-me contra seu 
lombo, obstinada como um dificuldades e muito decidida a no me deixar cair em sua carreira louca.
        de repente nos encontramos no bosque; os ramos desfolhados se lanavam como ltegos contra mim. Apertei-me mais ao pescoo do animal, com os olhos fechados 
par evitar que fossem arrancados. Judas tinha diminudo a marcha, por necessidade, mas ainda estava apavorado.
        Quando voltou a trovejar, ele perdeu p nas folhas escorregadias e escorregou de flanco, estrelando-se contra um grupo de arvorezinhas. A elstica madeira 
nos salvou de danos maiores. levantou-se com muita dificuldade e continuamos avanando. Abri um olho com cautela; Judas parecia ter encontrado um atalho; era uma 
linha difusa que serpenteava por entre o denso matagal, para diante.
        Mais  frente, as rvores voltaram a fechar-se; j no vi mais que uma claustrofbica srie de troncos e ramos entrelaados, aos que se entreteciam restos 
amarelados de madressilva silvestre e brilhos de trepadeiras escarlates. O denso da maleza fez que o cavalo diminusse a marcha ainda mais; por fim pude tomar flego 
e me perguntar onde estaria Jamie.
        Estalou novamente o trovo; depois de sua esteira ouvi um relincho agudo detrs de mim.  obvio: se Judas detestava os troves, Gideon detestava seguir a 
outro cavalo. Viria muito perto, esforando-se por nos alcanar.
        Judas avanou alguns passos mais e se deteve em seco, ofegando. Sem esperar a que um novo trovo o pusesse em marcha outra vez, apressei-me a desmontar e 
atei a corda a uma rvore pequena.
        Bem a tempo. Estalou o trovo, to forte que o senti na pele. Judas se elevou de mos com um alarido, atirando da corda, mas eu a tinha enrolado ao tronco. 
Afastei a tropees de seu pnico. Jamie me agarrou desde atrs e disse algo, mas os troves afogaram sua voz.
        Aferrei a ele, tremendo pela adrenalina da reao tardia. A chuva j era intensa, frescas as gotas contra minha cara. Ele me beijou na frente; logo me conduziu 
para um enorme disco, cujos leques de agulhas quebravam a chuva, formando abaixo uma cova fragrante, quase seca.
        Quando a adrenalina que me circulava pelo corpo comeou a esgotar-se, dispus de um momento para olhar em redor; ento ca na conta de que no fomos os nicos 
habitantes desse refgio.
        - Olhe -disse, assinalando para as sombras.
        Os rastros eram leves, mas bvios; algum tinha deixado ali, depois de comer, um pulcro punhado de ossos pequenos. Os animais no eram to ordenados; tampouco 
amontoavam a pinaza para formar uma cmoda travesseiro.
        Jamie fez uma careta para ouvir os troves, mas assentiu.
        - Sim,  um posto de assassino, mas no acredito que o tenham usado ultimamente.
        - Um posto do que?
        - De assassino -repetiu ele. Um relmpago, a suas costas, acendeu uma lmina vivida que deixou sua silhueta impressa em minha retina- . Assim chamam os sentinelas; 
so os guerreiros que montam guarda fora da aldeia, para deter quem quer que chegue sem avisar. V?
        - No momento no vejo nada. -Alarguei uma mo, a provas, e ao tocar a manga de sua jaqueta procurei o refgio de seu brao. Fechei os olhos com a esperana 
de recuperar a viso, mas seguia vendo o fulgor contra as plpebras apertadas.
        Os troves pareciam afastar-se um pouco; ao menos j no eram to freqentes. Pisquei; via outra vez. Quando Jamie se apartou, fazendo gestos, descobri que 
estvamos de p em uma espcie de cornija, com a face da montanha em levantado pendente a nossas costas. Mais acima, oculto  vista por uma fileira de conferas, 
abria-se um estreito claro; obviamente tinha sido feito pelo homem, pois essa era a nica classe de claro que havia nessas montanhas. Mas entre os ramos se apreciava 
uma vista deslumbrante do pequeno vale em que se elevava a Cidade do Corvo.
        A chuva tinha amainado, mas desde esse ponto se podia ver que as nuvens no formavam uma s tormenta, a no ser vrias. O canavial ainda fumegava; era uma 
coroa baixa e plaina, de cor cinza muito clara contra o cu entrevado. At  altura em que estvamos, o aroma de queimado irritava o nariz, extraamente misturado 
ao da chuva. Aqui e l se viam lnguas gneas que ainda ardiam entre os canos, mas era evidente que o fogo se extinguiu em sua major parte; o seguinte chuvarada 
o sufocaria por ompleto. Tambm vi que a gente voltava para a aldeia, em pequenos grupos que saam do bosque com vultos e meninos a rastros.
        - Tudo bem, Sassenach? -A mo do Jamie se apoiou em meu pescoo, clida, e seus dedos esfregaram com suavidade o perfil tenso de meus ombros.
        - Sim. Parece-te que no haver perigo ao baixar? -Do caminho s sabia que era estreita e levantada; agora estaria lamacenta e escorregadia pela folhagem 
molhada.
        - No -disse- , mas no acredito que...
        interrompeu-se abruptamente para observar o cu, com o sobrecenho enrugado. Logo olhou para trs; eu logo que podia ver o contorno dos cavalos, que estavam 
muito juntos ao casaco da rvore onde eu tinha pacote ao Judas.
        - ia dizer que no me parecia muito seguro ficar aqui -disse ao fim- . Mas essa tormenta avana depressa; j v os relmpagos que cruzam a montanha, e os 
troves...
        Com melodramtica oportunidade, um marcado retumbar de troves rodou pelo vale. Um dos cavalos lanou um agudo relincho de protesto e atirou do freio, fazendo 
repicar a folhagem. Jamie olhou para trs com expresso sombria.
        - Suas arreios odeia os troves, Sassenach.
        - J o tinha notado -disse, acurrucndome contra seu calor.
        - Sim. O mais provvel  que se parta o pescoo, e lhe parta isso para ti, se quando esto baixando...
        Um novo trovo afogou suas palavras, mas compreendi o que tentava dizer.
        - Esperaremos -disse firme.
        E me abraou desde atrs, apoiando o queixo em meu cocuruto com um suspiro. Assim esperamos juntos, ao casaco do disco, a que chegasse a tormenta.
      
      
      
      
      83
      
      Rpido como a plvora
      
      
      Roger despertou pela metade, com o aroma de fumaa lhe queimando a garganta. Tossiu e voltou a afundar-se no sonho; depois de um almoo leve  borda do rio 
se tendeu  sombra de um salgueiro, para descansar uma hora.
        de repente, incorporou-se piscando, alarmado por um chiado distante. O grito se repetiu, longnquo mas potente. A mula!
        Fumaa... cheirava a fumaa, sim. Mdio sufocado, tratou de conter a tosse. Cada vez que tossia era como se lhe rasgasse a malha cicatrizada da garganta.
        - L vou! -sussurrou em direo ao Clarence. 
        Tinha deixado a mula maneada em um prado, ao bordo do canavial, mas no estava muito longe.
        - Outra vez -murmurou, aplicando seu peso a um grupo de canos tenros para abrir-se passo-   -. Grita outra vez... demnio.  
        O cu estava escuro. Ao ficar em marcha a provas, recm arrancado de seu sonho, sua nica idia da direo era Clarence.
        O que acontecia? O aroma de fumaa era notavelmente mais potente; conforme se liberava do atordoamento causado pelo sonho e o pnico, caiu na conta de que 
algo ia mau. Os pssaros, que a meio-dia estavam acostumados a estar dormitados, estavam agitados; revoavam por cima de sua cabea. O ar, inquieto, sacudia as folhas 
rasgadas do caar. Roger sentiu um roce quente na cara; no era o calor mido, aderente e envolvente do lamacento canavial, a no ser algo seco e quente, que lhe 
provocou um paradoxal calafrio. Cu Santo, aquilo se estava incendiando! A fumaa lhe subiu ao peito, aferrou aos pulmes; queimava, lhe impedia de respirar a fundo.
        - Clarence -ofegou, to alto como pde.
        No serve de nada; logo que podia ouvir sua prpria voz sobre a crescente agitao dos canos. Quanto  mula, j no a ouvia. Era possvel que esse teimoso 
animal j estivesse reduzido a cinzas? No; o mais provvel era que tivesse esmigalhado os trapos que o maneaban para galopar para um lugar seguro.
        A fumaa o tinha invadido tudo em nuvens cada vez mais densas, que se arrastavam perto do cho e surgia, sufocante, entre as matas. Agora lhe era possvel 
ouvir o incndio: era um cacarejo suave, como de algum que riera pelo baixo, com a garganta cheia de cicatrizes.
        Os salgueiros. Sua mente se aferrou  idia dos salgueiros;  distncia distinguiu uns quantos, apenas visveis sobre os canos ondulantes. Os salgueiros 
crescem perto da gua; ali estava o rio.
        Quando chegou  gua, capote at o centro do arroio e ali se deixou cair de joelhos, com a cara bem perto da gua.
        Ali o ar corria, refrescado pela gua; bebeu-o a grandes goles, ao ponto de tossir outra vez, o corpo lhe sacudiu em uma srie de espasmos desgarrantes. 
Encomendou sua alma a Deus e fugiu, sufocado e a tropees, com os calhaus deslizando-se sob seus ps; fugiu durante tanto tempo como suas pernas trmulas quiseram 
lev-lo, at que e fumaa o aferrou pelo pescoo para lhe encher a cabea, o nariz e o peito, e o sufocou. A banda de cicatrizes era uma mo que espremia, privando-o 
do ar e da vida; deixava s trevas detrs de seus olhos, iluminados pela vermelha piscada do fogo. 
      
      
      Lutava. Lutava contra o lao corredio, contra as ataduras de suas bonecas, e lutava sobre tudo com o vazio negro que lhe esmagava o peito e lhe fechava a 
garganta. Lutava por um ltimo e precioso gole de ar. Corcoveou com as foras que ficavam. E logo rodou pelo cho, com os braos livres.
        Uma mo, ao agitar-se, golpeou contra algo. Era brando e lanou um chiado de surpresa.
        Imediatamente sentiu umas mos nos ombros e as pernas. sentou-se, com a viso fraturada e o peito palpitante pelo esforo de respirar. Algo o golpeou com 
fora na metade das costas. engasgou-se, tossiu, tragou ar suficiente para seguir tossindo, no fundo chamuscado de si mesmo, e um enorme cogulo de escarro negro 
saiu de seu peito, quente e viscoso como uma ostra podre sobre a lngua.
        Cuspiu-o com uma arcada; a blis subiu, ardente, pelo canal espremido de sua garganta. Voltou a cuspir e se incorporou, ofegante.
        No teve conscincia de ningum, absorto como estava no milagre do ar e o flego. Havia vozes a seu redor, caras difusas na escurido; tudo cheirava a queimado.
        A gua lhe tocou a boca. Levantou a vista, piscando, e lacrimejou pelo esforo de olhar. Sentia os olhos chamuscados; luzes e sombras se rabiscavam. Piscou 
com fora; as lgrimas quentes foram um blsamo para o ardor dos olhos e refrescaram sua pele ao correr pelas bochechas. Algum lhe sustentava uma taa contra os 
lbios: uma mulher, com a cara enegrecida pela fuligem. No, no era fuligem. Entreabriu os olhos, sem deixar de piscar. Era negra. Uma pulseira?
        Bebeu apenas um sorvo de gua, levantou as mos para agarrar a taa. Isso lhe surpreendeu: esperava sentir a dor nos dedos quebrados, na carne intumescida... 
mas suas mos estavam ses e teis. Procurou automaticamente o oco do pescoo, esperando a dor e o assobio do mbar. Incrivelmente, tocou carne slida. Respirou; 
o ar assobiava em seu nariz e descia por sua garganta.
        Estava sentado em uma choa desancada. Dentro havia vrias pessoas e outras mais espiavam da porta. Em sua maioria eram negros, todos vestidos com farrapos, 
e nenhum parecia sequer remotamente amistoso.
        A mulher que lhe tinha dada gua parecia assustada. Ele tratou de lhe sorrir, mas tossiu outra vez. Ela o olhou por debaixo do trapo pudo que levava sobre 
as sobrancelhas. A parte branca de seus olhos era de cor escarlate; tinha os lbios inchados e bordeados de vermelho. Os seus deviam estar igual. O ar ainda estava 
denso de fumaa; ao longe se ouvia o estalar dos canos, partidas pelo calor, e o rumor agonizante do incndio. A pouca distncia um pssaro lanou um grito de alarme 
e calou abruptamente.
        Perto da porta se estava desenvolvendo uma conversao em sussurros sibilantes. Os homens que dialogavam... no: discutiam... lhe jogavam uma olhada de vez 
em quando; suas caras eram mscaras de medo e desconfiana. Fora comeava a chover; no pde sentir o aroma da chuva, mas sim o ar fresco na cara, e ouviu o tamborilar 
das gotas na coberta, s rvores.
        esforou-se por reconhecer as palavras, mas s ouvia um balbuceio. Esses homens no falavam ingls, nem francs, nem galico. No mercado do Wilmigton tinha 
ouvido uns tordos recm gastos que tagarelavam com o mesmo murmrio rouco e secreto. Alguma lngua africana... ou mais de uma.
        Tinha a pele cheia de ampolas, quente e dolorida em vrios pontos; o ambiente da choa era to caloroso que o suor lhe corria pela cara, misturado com as 
lgrimas. Mas de repente sentiu um calafrio na base da coluna: no estava em uma plantao; nessa zona das montanhas no havia nenhuma. As poucas terras isoladas 
que existiam ali eram muito pobres para ter escravos, muito menos nesse nmero. Algumas tribos de ndios tinham escravos, mas no eram negros.
        S cabia uma resposta possvel e sua conduta a confirmava: eram escravos fugitivos, seus captores... seus salvadores? Escravos fugitivos que viviam ali em 
segredo.
        A liberdade dessa gente, possivelmente a vida mesma, dependia do segredo. E ali estava ele, como uma ameaa vivente. O teriam salvado do fogo? Nesse caso 
estavam arrependidos, a julgar pelos olhares que lhe jogavam os homens reunidos junto  porta.
        Um dos que discutiam se separou do grupo para sentar-se em cuclillas ante ele, depus de apartar  mulher. Seus estreitos olhos negros o percorreram da cara 
ao peito. Logo, de novo olharam para cima.
        - Quem voc?
        No parecia que o belicoso interrogador queria saber seu nome. Antes bem, que propsitos tinha. Pela mente do Roger passaram raudamente vrias possibilidades. 
Qual seria a melhor para conservar a vida?
        O metal do astrolbio lhe tinha queimado no incndio, levantando rpidas ampolas que, ao estalar, pegaram o metal  pele com seu lquido viscoso. Agora, 
ao mover-se, o objeto se desprendeu por seu prprio peso, arrancando as partes de pele; no centro do peito tinha agora um emplastro em carne viva.
        Afundou dois dedos pelo pescoo da camisa e atirou brandamente da cinta.
        - To-p-gra-fo -grasnou; as slabas passaram a viva fora por entre a fuligem e as cicatrizes de sua garganta.
        Seu interrogador olhou com fixidez o disco de ouro, dilatados os olhos. Os homens que estavam  porta puxaram entre si para aproximar-se de ver.
        Um deles lhe arrebatou o astrolbio. Ele deixou que o passasse pela cabea, sem fazer esforo algum por ret-lo, e aproveitou o interesse dos homens por 
aquele vistoso objeto para juntar lentamente os ps. que tinha o astrolbio elevou a voz para dizer algo que parecia um nome. Ante a porta houve um movimento; algum 
se abria passo entre os pressente.
        A mulher que entrou tinha o mesmo aspecto que os outros; vestia um roupa folgada esfarrapado, molhado pela chuva, e um trapo quadrado pacote em torno da 
cabea lhe ocultava o cabelo. A nica diferena era que seus membros fracos tinham a cor parda sardenta e curtida da pessoa branca. Manteve os olhos fixos no Roger 
enquanto se aproximava do centro da cabana. S o peso do astrolbio que trazia na mo apartou seu olhar dele.
        adiantou-se um homem torto, alto e de ossos grandes, que assinalou o astrolbio com um dedo e disse algo que soou a pergunta. Ela moveu lentamente a cabea, 
seguindo com um dedo as marcas do disco, com intrigada fascinao. Logo lhe deu volta.
        Roger viu que esticava os ombros ao ver as letras gravadas. Em seu peito surgiu uma fasca de esperana. Ela reconhecia esse nome.
        - Voc no erez Jamez Frazer -disse.
        Podia ter qualquer idade entre vinte e sessenta anos, embora no havia cs no cabelo castanho claro das tmporas. As rugas da cara pareciam dever-se  fome 
e as privaes mais que aos anos. Roger a sorriu deliberadamente; ela estirou a boca por reflexo, em uma careta vacilante; mesmo assim bastou para que ele visse 
as incisivas partidas em ngulo. Com os olhos entreabridos chegou a distinguir a fina cicatriz que atravessava uma sobrancelha. Era muito mais magra do que Claire 
lhe havia descrito, mas isso era compreensvel.
        - No sou... James Fraser -confirmou com voz rouca- . Mas voc ... Fanny Beardsley...verdade?
        Apesar dos dentes no estava seguro, mas a expresso de horror que cruzou pela cara da mulher foi uma slida confirmao. Os homens tambm conheciam esse 
nome. O caolho se adiantou imediatamente para lhe estreitar o ombro; os outros se aproximaram com ar ameaador.
        - James Fraser ... o pai de minha mulher- esclareceu ele- . Quer notcias... da criatura?
        Da cara da Fanny desapareceu a expresso de suspeita. Embora no se movia, a seus olhos subiu um anseia tal que Roger teve que resistir o impulso de retroceder.
        - F? -O homem alto se aproximou dela; seu nico olho ia e vinha com suspicacia entre a mulher e Roger.
        Ela disse algo, quase em um sussurro, e levantou uma mo para cobrir a do homem, que seguia apoiada em seu ombro. A cara de seu companheiro ficou sbitamente 
em branco, como se algum lhe tivesse passado um rascunho. Ela se voltou para olhar o de frente e lhe falou em voz baixa, com tom premente.
        Na choa a atmosfera tinha trocado; ainda estava carregada, mas  ameaa geral se mesclava agora um ar de confuso. Os homens agrupados perto da porta se 
olharam entre si; logo, carrancudos, ao casal que discutia em sussurros. Roger permanecia imvel, reunindo foras. Se se via obrigado a correr, no poderia faz-lo 
a muita velocidade nem chegar muito longe.
        A discusso cessou abruptamente. O homem alto se voltou e fez um gesto brusco para a porta, dizendo algo; os outros grunhiram de surpresa e desaprovao, 
mas se retiraram lentamente.
        Apenas a porta desancada se fechou atrs deles, a mulher o agarrou pela manga.
        - me diga -lhe exigiu.
        - Um... momento. -Ele voltou a tossir e se limpou a saliva com o dorso da mo- . Voc me... tira... daqui. Logo... te direi... tudo que sei.
        - diga-me isso 
        Os dedos da mulher lhe cravaram no brao. Ele sacudiu a cabea, entre tosses. O homem alto apartou a Fanny para aferr-lo pela camisa.
        - lhe diga, homem, ou te estripo!
        - No -disse com teima- . Me tirem... daqui. Logo lhes contarei.
        O homem vacilou. Seu nico olho voltou para a mulher.
        - Segura que sabe?
        - Sabe, sim.
        - Era... menina. -Roger lhe sustentou o olhar com fixidez, resistindo a necessidade de piscar- . Isso... tem que sab-lo.
        - Vive?
        - me tire... daqui.
        No era alta nem corpulenta, mas sua urgncia parecia encher a choa e parecia faz-la vibrar. Durante um comprido minuto seguiu com os olhos ardentes cravados 
nele e os punhos apertados. Logo girou sobre os tales para lhe dizer algo  violento ao homem, nessa estranha lngua africana.
        Ele tratou de discutir, mas foi intil; a corrente de palavras o golpeava como a gua de uma mangueira de incndios. Por fim levantou as mos em frustrada 
rendio e arrancou o trapo que cobria a cabea da mulher. depois de desatar os ns com compridos dedos velozes, sacudiu-o para formar uma atadura, sempre resmungando 
pelo baixo.
         Quo ltimo Roger viu, antes de que o homem lhe enfaixasse os olhos com o trapo, foi a cara da Fanny Beardsley, as pequenas tranas gordurentas que lhe 
rodeavam os ombros e seus olhos ainda fixos nele, ardentes como brasas.
                                                             * * *
      
      No saram sem ouvir protestos; durante um trecho, rodeou-os um cor de vozes furiosas e mos que lhes atiravam das roupas e as extremidades. Roger caminhava, 
com a mo apoiada no ombro da Fanny Beardsley para guiar-se. O assentamento parecia pequeno; ao menos passou muito pouco tempo antes de que as rvores se fechassem 
em torno deles. O homem e a mulher intercambiavam ocasionalmente algum comentrio, mas logo ficaram em silncio. Embora a atadura estava muito apertada para ver 
nada, um pouco de luz se filtrava por debaixo; assim podia calcular as mudanas de hora. Quando saram da choa mediava a tarde; quando ao fim se detiveram, a luz 
tinha desaparecido quase por completo.
        Tiraram-lhe a atadura e ele piscou; o sbito da luz compensava o escasso. O anoitecer estava avanando. encontravam-se em um terreno baixo, j meio coberta 
pela escurido. Fanny Beardsley se enfrentou a ele; sob o dossel do enorme castanho parecia mais mida, mas to apaixonada como na choa. Ele tinha tido tempo de 
sobra para pensar. Devia lhe dizer onde estava sua filha ou fingir que o ignorava? Se o dizia, faria ela algum tento por recuper-la? E nesse caso, quais podiam 
ser as conseqncias para a menina, os escravos fugitivos... e inclusive para o Jamie e Claire Fraser?
        Nenhum dos dois havia dito nada sobre quo feitos tinham acontecido na granja dos Beardsley, alm de explicar que ele tinha morrido de uma apoplexia. Mas 
Roger os conhecia o suficiente para tirar dedues da expresso afligida do Claire e a impassvel do Jamie. Mas se ele no sabia o acontecido, Fanny sim... e bem 
podia ser algo que os Fraser preferissem manter oculto. Se a senhora Beardsley reaparecia no Brownsville para reclamar a sua filha, haveria algumas pergunta que 
responder... e talvez a ningum beneficiava que as respondesse.
        Mas o cu ardente banhava sua cara de fogo. Frente  fome desses olhos em chamas ele no pde menos que dizer a verdade.
        - Sua filha... est bem -comeou com firmeza.
        Ela estrangulou uma pequena exclamao, no fundo de sua garganta. Quando terminou de escutar o que Roger sabia, as lgrimas lhe corriam pela cara, abrindo 
sulcos na fuligem e o p que a cobriam, mas seus olhos se mantinham bem abertos, fixos nele, como se ao piscar pudesse perder alguma palavra vital.
        O homem permanecia algo mais atrs, cauteloso e vigilante, com a ateno concentrada na mulher, mas de vez em quando jogava um olhar ao Roger. Por fim ficou 
junto a sua companheira, com o nico olho to brilhante como os dela.
        - Ela ter o dinheiro? -perguntou.
        - Sim, herdou... toda a propriedade... do Aaron... Beardsley -lhe assegurou Roger, com a garganta irritada de tanto falar- . O senhor... Fraser... se ocupou... 
disso.
        Ele tinha acompanhado ao Jamie a Corte de rfos, para que emprestasse testemunho sobre a identidade da menina. Richard Brown e sua esposa receberam a custdia 
da criatura... e seus bens. Tinham-lhe dado o nome da Alicia, v ou seja por que sentimentos profundos ou por que indignao.
        - No importa que ela negra?
        Viu que o olho do escravo se desviava para a Fanny Beardsley e se apartava imediatamente. A mulher ouviu em sua voz o sotaque de incerteza e girou para ele 
como uma vbora ao ataque.
        - tua Ez! -disse- . No pde ser dele, no, no!
        - Sim, isso voc dizer -replicou ele, ressentido- . Do dinheiro a menina negra?
        Ela golpeou um p contra o cho e o esbofeteou. O homem lhe apartou a cara, mas no  fez outro intento de escapar de sua fria.
        - Creez acazo que a teria abandonado zi houvesse zido branca? -gritou Fanny, esmurrando-o nos braos e no peito- . Zi tive que deix-la foi por tua culpa, 
tua! Voc e eze maldito pele negro!
        Foi Roger quem lhe sujeitou as bonecas e as reteve apesar de suas resistncias. Deixou-a chiar at ficar rouca. Por fim ela se derrubou em lgrimas.
        O escravo, que tinha presenciado todo isso com uma mescla de vergonha e clera, fez um gesto de estender os braos para ela. Foi um movimento imperceptvel, 
mas bastou para que ela se jogasse em seus braos, a soluar contra seu peito. Ele a abraou com estupidez, balanando-a sobre os tales descalos. Lhe via envergonhado, 
mas j nem iracundo.
        Roger pigarreou com uma careta de dor. O escravo levantou a vista para ele.
        - Vete, homem -disse brandamente. Logo, antes de que Roger pudesse mover-se, acrescentou- : Espera... Verdade, homem, a menina boa vida?
        - Est... bem...cuidada. -Mas queria lhes oferecer algo mais- . ... bonita -acrescentou por fim. J quase tinha perdido a voz; no era mais que um sussurro- 
. Uma menina... bonita.
        A cara do homem trocou, apanhada entre o sobressalto, a consternao e e prazer.
        - OH! -disse- . Isso por sua mame, seguro.
        E deu uns tapinhas muito suaves nas costas a Fanny Beardsley. Ela tinha deixado de soluar, mas mantinha a cara apertada a seu peito, quieta e silenciosa. 
J tinha escurecido quase por completo; a intensa penumbra apagava quase toda a cor; a pele da mulher parecia igual a de seu companheiro.
        O homem s vestia uma camisa empapada e to rota que sua pele escura aparecia atravs dos farrapos, mas levava um cinturo de corda de que pendia um saco 
de tecido basta. Rebuscou ali com uma s mo e tirou o astrolbio para devolver-lhe ao Roger.
        - No lhe vais ficar isso perguntou ele.
        O escravo sacudiu a cabea.
        - No, para que? -acrescentou, com um gesto irnico na boca- , talvez ningum deve buscar voc, mas sim procurar coisa.
        Roger agarrou o pesado disco e se passou a cinta pela cabea.
        - Ningum... vir -disse.
        Girou em redondo e se afastou, sem ter idia de onde estava nem para onde ia.
      
      
      
      84
      
      Queimado at os ossos
      
      
      Os cavalos se apaziguaram um pouco, mas ainda estavam intranqilos. Jamie se abriu passo entre as conferas at o pequeno claro. 
        - Pois se vocs no gostam de -lhe ouvi dizer- , para que vieram?
        Gideon lanou um suave relincho de prazer ao v-lo. Quando ia aproximar me para ajud-lo, um movimento fugaz atraiu minha vista para baixo.
        Apareci para v-lo. Parecia um cavalo, embora vinha de uma direo diferente da que tinham tomado refugiados.
        -  Clarence! -gritei.
        - Quem? -chegou-me a voz do Jamie do outro lado do saliente.
        - Clarence! A mula do Roger!
        Vinha ao trote pelos milharais em aro, com as orelhas para diante e obviamente feliz de reincorporar-se  sociedade. Estava selada, mas sem cavaleiro.
        - tem quebrado a manea para fugir. -Jamie estava junto a meu ombro e contemplava a pequena silhueta do mulo- . V?
        Em meu alarme eu no o tinha notado, mas em uma das patas dianteiras tinha um trapo que ondulava na carreira.
        - Suponho que isso  melhor. -Suavam-me as mos. Sequei-me as Palmas contra as mangas, por no apartar a vista- . Quer dizer... se estava maneado  porque 
Roger no ia montado nele; no  que se cansado e possa estar lesado.
        - Ah!, no. -Jamie parecia preocupado, mas no dava amostras de alarme- . S ter que andar muito.
        De repente estalou um relmpago; o trovo que lhe pisava nos tales foi to forte e sbito que dava um coice e estive a ponto de perder o equilbrio. Jamie 
me aferrou de um brao para impedir que casse e me separou do bordo. Os cavalos alvoroavam no extremo oposto do precipcio. Ele se voltou nessa direo, mas de 
repente se deteve, com a mo ainda em meu brao.
        - O que? -Segui a direo de seu olhar; s via a face do ravina, uns trs metros mais abaixo, festoneada de pequenas novelo.
        Soltou-me o brao e, sem responder, caminhou para o ravina, onde havia uma velha rvore queimada. Com muita delicadeza, alargou a mo para extrair algo da 
casca morta. Aproximei-me de olhar; na palma de sua mo mostrava vrios cabelos largos e speros. Cabelos brancos.
        A chuva comeava outra vez sua tarefa de empapar quanto estivesse  vista. Os cavalos lanaram um penetrante par de relinchos; no gostavam absolutamente 
ver-se abandonados assim.
        Joguei uma olhada ao tronco da rvore; havia cabelos por toda parte, enganchados nas gretas da casca. Pareceu-me ouvir a voz do Josiah: " Os ursos tm rvores 
especiais para arranhar-se. Cada urso volta para mesmo, uma e outra vez."  E traguei saliva com dificuldade.
        - Se os cavalos esto assustados -disse Jamie, muito pensativo- , talvez no seja to somente pelos troves.
        Talvez no, mas tampouco ajudavam. No fundo da costa estalou um relmpago e o trovo ressonou com ele. Outro dueto chegou lhe pisando os tales, e outro, 
como se uma bateria anti-area estivesse disparando sob nossos ps. Os cavalos estavam histricos e eu me sentia a ponto de imit-los.
        Ao sair da aldeia me tinha posto o capote, mas j tinha o capuz e o cabelo pegos ao crnio; a chuva me castigava a cabea como uma corrente de pregos. Jamie 
tambm tinha o cabelo pego. Atravs do aguaceiro me fez uma careta e um gesto que indicava: " Espera aqui" , mas sacudi a cabea e fui atrs dele.
        Os cavalos estavam se desesperados, com as crinas empapadas e os olhos exagerados. Ao ver isso Jamie apertou os lbios e jogou uma olhada ao stio onde tnhamos 
visto a rvore onde arranhar-se, invisvel de ali. Houve outro relmpago e o trovo estremeceu a rocha; os dois cavalos puxaram, relinchando. Isso decidiu ao Jamie, 
que aferrou as rdeas do Judas para imobiliz-lo. Pelo visto amos descer da montanha, por escorregadio que estivesse o caminho.
        Subi  cadeira em uma confuso de saias molhadas e, bem obstinada, tentei gritar palavras reconfortantes ao ouvido do Judas, que danava pela ansiedade de 
iniciar a marcha. Estvamos perigosamente perto das conferas do bordo; inclinei-me quanto pude para o lado oposto, tratando de que se apartasse dali.
        O ar cheirava a enxofre; olhei a meu redor, alarmada. As rvores, as rochas, a terra mesma estavam banhados de luz azul. Pela superfcie do ravina, a poucos 
metros de distncia, vaiavam diminutas serpentes de eletricidade branca, brilhante.
        Girei-me para chamar o Jamie e o vi montado no Gideon; tinha a boca aberta e me gritava algo, mas todas as palavras se perderam na reverberao do ar.
        As crinas do Gideon comearam a arrepiar-se como por arte de magia. O cabelo do Jamie se elevou desde seus ombros, atravessado por cabos de azul crepitante. 
Cavalo e cavaleiro refulgiam em uma luz infernal que delineava cada msculo da cara e os membros. Uma rajada me percorreu a pele. Um momento depois Jamie se jogava 
de suas arreios contra mim. Os dois voamos para o vazio.
        O raio caiu antes de que chegssemos ao cho.
        Quando voltei em mim, cheirava a carne queimada e o oznio ardia na garganta. Sentia-me como se houvessem me tornado do reverso e tivesse todos os rgos 
 vista.
        Ainda chovia. Permaneci imvel durante um momento, enquanto a chuva me corria pela cara e me empapava o cabelo; os neurnios de meu sistema nervoso voltavam 
lentamente para funcionar. Um dedo se contraiu por si s. Tratei de faz-lo deliberadamente e o consegui. Flexionei os dedos; no se moviam bem. Mas alguns minutos 
depois tinha posto em funcionamento os circuitos necessrios para me incorporar.
        Jamie estava escancarado de costas a pouca distncia, como um boneco de trapo, em um matagal de zumaque. Aproximei-me engatinhando e descobri que tinha o 
olhos abertos.  lombriga piscou; no flanco de sua boca se contraiu um msculo, em um intento de sorriso.
        No se via sangue e seus membros, embora torcidos de qualquer modo estavam retos. A chuva lhe estava acumulando nas conchas dos olhos. Ele piscou violentamente 
e girou a cabea para deixar escorrer a gua. Apoiei uma mo em seu estmago; sob minhas mos percebi o grande pulso abdominal, lento, mas firme.
        No sei quanto tempo estivemos inconscientes, mas a tormenta tinha passado tambm. Os relmpagos cintilavam alm das montanhas, recortando os picos em marcado 
relevo.
        - Est bem, Sassenach?
        - Estupenda -assegurei. Ainda me sentia agradavelmente remota- . E voc?
        - Ainda no sinto os dedos dos ps- disse- ; pelo resto, estou bem. Mas os cavalos...
        Olhou para cima e notei que tragava saliva.
        Os cavalos guardavam silncio.
        Tnhamos cansado uns seis metros por debaixo do saliente da montanha, entre abetos e calambucos. Eu podia me mover, sim, mas no tinha inteno de faz-lo. 
Fiquei sentada, fazendo inventrio, enquanto Jamie se sacudia e iniciava a ascenso at a cornija do " assassino" .
        Os cavalos deviam ter morrido. por que ns no? Ao perceber o aroma de carne queimada me percorreu um pequeno calafrio. Teramos sobrevivido s porque estvamos 
condenados a morrer dentro de quatro anos? Quando nos chegasse o turno, jazeramos entre as runas incendiadas de nossa casa, convertidos em cascas de carne chamuscada 
e fedorento?
        " Queimada at os ossos" , sussurrou a voz de minha memria. As lgrimas se mesclaram em minha cara com a chuva, mas eram lgrimas longnquas: pelos cavalos, 
por minha me; por mim, ainda no.
        Jamie retornou, empapado at os ossos e sem flego. Notei que tinha perdido os dois sapatos.
        - Judas morreu -disse, sentando-se a meu lado. Estreitou-me com fora a mo fria; a sua tambm tinha perdido o calor.
        - Pobrecito -disse. As lgrimas correram mais depressa, arroios mornos que se mesclavam com a chuva geada- . Ele sabia, verdade? Sempre detestou os troves 
e os relmpagos, sempre. 
        Jamie, com um murmrio consolador, rodeou-me os ombros com um brao para que apoiasse a cabea contra seu peito.
        - E Gideon? -perguntei ao fim, levantando a cabea.
        - Est vivo -disse- .Tem uma queimadura com o passar do ombro e a pata dianteira, e as crinas lhe chamuscaram por completo.
        - Crie que poder baixar se o leva pela brida? Tenho...tenho um bom blsamo para as queimaduras.
        - Sim, acredito que sim.
        Estendeu-me a mo como apoio para que me levantasse. Ao girar para sacudir as saias enrugadas vi algo.
        - Olhe -disse, com a voz reduzida a um sussurro- . Jamie, olhe.
        A trs metros de distncia, costa acima, erguia-se um grande abeto do Canad; a parte superior da taa tinha desaparecido limpamente; a metade dos ramos 
restantes fumegava, reduzidas a carvo. Entre um ramo e o coto do tronco se via uma massa enorme e arredondada, colocada ali como uma cunha. A metade era negra, 
pois as malhas se carbonizaram, mas o cabelo da outra metade se erguia em molhadas puas brancas, com a cor cremosa do trillium.
        Jamie ficou olhando o cadver do urso, com a boca entreabierta. Logo a fechou lentamente e moveu a cabea. Quando girou para mim perdeu a vista entre as 
montanhas distantes, onde os relmpagos, em sua retirada, ainda estalavam silenciosamente.
      
      
      85
      
      O fogo do lar
      
      
      Os ps lhe estavam congelando sob o nico edredom. Ainda estava dormitada, mas no poderia voltar a conciliar o sonho se no procurava mais casaco. levantou-se 
com muita dificuldade, com os olhos reduzidos a ranhuras, e caminhou descala pelo estou acostumado a gelado para ver como estava Jemmy. Dormia bem fundo em sua 
pequena cama de plumas, com o edredom subido at as orejitas rosadas.
        Revolveu em busca de um segundo edredom e o estendeu sobre a cama. Grunhiu de chateio ao ver que a taa de gua estava vazia. Sentiu desejos de voltar para 
a cama e afundar-se em um sonho profundo e abrigado, mas com a garganta seca no poderia.
        Junto  soleira havia um cubo com gua de poo. Entre caretas e bocejos, abriu o ferrolho com muita suavidade e saiu; o ar frio lhe retorceu a angua em 
volto das pernas. Mdio agachada, procurou provas na escurido. O cubo no estava. Onde...?
        Pelo rabilo do olho detectou um movimento fugaz que a fez voltar-se em redondo. Por um momento pensou que era Obadiah Henderson, sentado no banco junto a 
sua porta. Ao ver que a sombra se levantava, seu corao se apertou como um punho. Mas o reconheceu imediatamente. encontrou-se nos braos do Roger antes de que 
sua mente pudesse ordenar os detalhes a conscincia.
        -  voc -dijo.Lloraba- . voltaste para casa!
        - voltei para casa, sim -lhe sussurrou ao ouvido- . Est bem? E Jem?
        - Estamos bem, os dois. E voc? -Sorveu as lgrimas pelo nariz- . O que fazia aqui fora, Cu Santo? por que no chamaste?
        - Estou bem, sim. No quis te assustar. Pensava dormir aqui e chamar pela manh. por que chora?
        S ento bree caiu na conta de que, se ele falava em sussurros, no era por no despertar ao Jem; sua voz era s um murmrio quebrado e sem flego. Mas tinha 
pronunciado as palavras com claridade, sem esforo, sem a dolorosa vacilao de antes.
        - Pode falar -lhe disse, limpando-se apressadamente os olhos com o dorso da boneca- . Melhor, quero dizer.
        Apoiou os dedos na cicatriz morna e desigual; logo tocou a inciso que lhe tinha  salvado a vida, uma linha branca e ntida entre os cabelos da barba.
        - Ainda te di quando falas?
        - Di -respondeu ele, nesse grasnido dbil e rouco- . Mas posso falar. Farei-o...Brianna.
      
      
      
      Eu tinha muito que objetar ao fogo do lar: das lascas sob as unhas e o breu nas mos, s ampolas, as queimaduras e a enfurecedora indocilidad do elemento. 
Entretanto devia reconhecer duas coisas a seu favor: era inegavelmente quente, e iluminava o amor com uma luz de beleza to tnue que se podiam esquecer todas as 
vacilaes da nudez.
        Nossas sombras mescladas corriam juntas na parede: aqui um brao, l a curva de umas costas, como parte de uma besta ondulante. A cabea do Jamie se elevou 
 parte: um grande animal de juba que se erguia por cima de mim, arqueando as costas ao extremo.
        Estendi a mo atravs dessa extenso de pele reluzente e msculo estremecido, roando o plo faiscante dos braos e o peito, at sepult-la na tibieza de 
seu cabelo e gui-lo, ofegante, ao oco escuro de meu seio. Mantive os olhos semicerrados; tambm as pernas, pois resistia a renunciar a seu corpo,  iluso de unidade...se 
acaso era uma iluso. Quantas vezes mais poderia ret-lo assim, at no feitio de luz do fogo?
        Soltei-lhe os ombros para tocar com ternura os robustos redemoinhos de seu cabelo. Ele girou a cabea para me beijar o peito; logo, com um suspiro, deslizou-se 
para um flanco.
        - O que faz, tesouro? -perguntei-lhe.
        - Asseguro-me de que minha roupa no se queime.
        Entre uma coisa e outra, no tinha emprestado muita ateno enquanto ele ia arrojando meus objetos, mas todas pareciam estar longe das chamas; a saia formava 
um pequeno montculo junto  cama; o suti e a angua tinham cansado em rinces opostos. A banda que utilizava como sustento no estava  vista.
        -  formosa -me sussurrou.
        - Se voc o disser...
        - No me crie? Menti-te alguma vez?
        - No  isso. Se voc o diz tem que ser verdade, porque voc faz que o seja.
        - Pensa o mesmo de mim, Sassenach? -perguntou sbitamente.
        Parecia tmido. Olhei-o com surpresa.
        - Se pensar o que? O que  formoso? -Minha boca se curvou involuntariamente. Ele sorriu a sua vez.
        - Tanto como isso... no, mas ao menos se pode suportar minha cara.
        Segui com um dedo a tnue linha branca que lhe cruzava as costelas, velho rastro de uma espada. A outra cicatriz, mais larga e grosa, da baioneta que lhe 
tinha esmigalhado uma coxa ao longo. O brao que me sujeitava, bronzeado e curtido, com o plo branqueado por largas jornadas de sol e trabalho. Perto de minha mo, 
seu pnis se curvava entre as coxas, j suave, pequeno e tenro, em seu ninho de plo avermelhado.
        - Para mim  formoso, Jamie -disse ao fim, brandamente- . To formoso que me rompe o corao.
        - Mas sou velho -objetou, sorridente- . J tenho cs na cabea; minha barba se h posto cinza.
        - Chapeada -corrigi.
        - Cinza -insistiu ele, com firmeza- . E, em cima, escassa. E mesmo assim...- Seus olhos se abrandaram ao me olhar- . Mesmo assim ardo quando me aproximo 
de ti, Sassenach; acredito que assim ser at que ambos fiquemos reduzidos a cinzas.
        -  uma expresso potica? -perguntei com cautela- . Ou o diz literalmente?
        - OH!, no. No referia a... No. -Rodeou seu brao em torno de mim, com a cabea inclinada para a minha- . No penso nisso. Se deve ser...
        - No ser.
        Uma breve risada me agitou o cabelo.
        - Parece muito segura, Sassenach.
        - O futuro se pode alterar. Eu o fao em cada momento.
        - Seriamente?
        Apartei-me um pouco para olh-lo.
        - Seriamente. A tem ao Mairi MacNeill. A semana passada, se eu no tivesse estado ali, teria morrido junto com seus gmeos. Mas eu estava ali, e no morreram.
        Pus uma mo detrs de minha nuca para observar o reflexo das chamas, que ondulava como gua nas vigas do teto.
        - s vezes penso... So muitos aos que no posso salvar, mas a alguns sim. Se algum sobreviver graas a mim e depois tem filhos, e estes lhe do netos, 
e assim sucessivamente... Pois quando chegar minha poca haver no mundo trinta ou quarenta pessoas que, de outro modo, no teriam estado ali, verdade? E todas elas 
tero feito costure em sua vida. No te parece que isso  trocar o futuro?
        - Sim -murmurou ele. Agarrou-me a mo livre para seguir, com um comprido dedo, as linhas da palma- . Sim, mas  o futuro de elos o que troca, Sassenach, 
e possivelmente assim estava decretado. -Atirou brandamente dos dedos. Um ndulo rangeu como os lenhos que crepitavam no lar- . Os mdicos salvaram a muita gente 
no curso dos anos, sem dvida.
        -  obvio, e no s os mdicos. -Incorporei-me, impelida pela potncia de meu argumento- .  que no importa, no te d conta? Voc. Voc mesmo salvaste 
vistas em alguma ocasio. Fergus, Ian? Os dois andam pelo mundo, fazendo coisas, procriando e todo isso. Voc trocou seu futuro, verdade?
        - Sim, talvez. Mas no podia fazer outra coisa, ou sim?
        Essa declarao to simples me deixou muda. Passamos um momento em silncio, contemplando o jogo da luz contra o muro caiado. Por fim, ele se moveu a meu 
lado e voltou a falar.
        - No o digo por procurar compaixo -esclareceu- , mas de vez em quando me doem um pouco os ossos, sabe?
        Alargou a mo estropiada sem me olhar e a fez girar  luz, de modo que a sombra dos dedos torcidos formasse uma aranha no muro.
        de vez em quando. Eu sabia, claro que sim. Conhecia  os limite do corpo... e seus milagres. Tinha-o visto sentar-se ao terminar a jornada, com o esgotamento 
escrito em cada linha de seu corpo.
        - Sei -disse com suavidade.
        - Mas contigo no -disse, me cobrindo a mo- . Sabe que minhas dores s desaparecem quando estou em seu leito, Sassenach? Quando te possuo, quando estou 
em seus braos, minhas feridas se curam e minhas cicatrizes ficam no esquecimento.
        - As minhas tambm.
        Durante um momento me acariciou o cabelo em silncio. Estava revolto e emaranhado devido a nossos esforos anteriores; ele alisou um cacho e outro, penteando-os 
um a um com os dedos.
        - Sua cabeleira  como uma grande nuvem de tormenta, Sassenach -murmurou j dormitado- . Todo escurido e luz ao mesmo tempo. No h dois cabelos da mesma 
cor.
        Era certo; a mecha que tinha entre os dedos mostrava fios blanqusimas e outras chapeadas ou loiras; nervuras escuras, quase como a pelagem das martas, e 
vrios restos do castanho claro de minha juventude. Afundou os dedos sob a massa; senti que sua mo se curvava contra minha nuca como contra um clice.
        - Vi minha me em seu atade -disse por fim- . As mulheres lhe tinham trancado o cabelo para que tivesse um aspecto decoroso, mas meu pai no o permitiu. 
Queria v-la por ltima vez tal como era para ele. Foi pessoalmente ao atade, desfez-lhe as tranas e estendeu a cabeleira com as mos, cobrindo o travesseiro.
        Fez uma pausa; seu polegar ficou imvel.
        - Eu estava ali, quieto no rinco. Quando todos saram para receber ao padre me aproximei sigilosamente. Era a primeira vez que via uma pessoa morta.
        Deixei que meus dedos se fechassem sobre seu antebrao. Uma manh minha me me deu um beijo na frente; logo voltou a me colocar a forquilha que me tinha 
desprendido de meu cabelo cacheado e saiu. Jamais voltei a v-la. Velaram-na com o atade fechado.
        - Era...ela?
        - No. -Contemplava o fogo com os olhos entreabridos- . No de tudo. Lhe parecia, mas nada mais. Como se algum a tivesse esculpido em madeira de abedul. 
Mas seu cabelo... isso ainda tinha vida. Isso ainda era...ela.
        Ouvi-o tragar saliva e pigarrear um pouco.
        - A cabeleira lhe cruzava o peito, cobrindo ao menino que jazia com ela. Pensei que no gostaria de sufocar-se desse modo. E retirei as jubas vermelhas para 
deix-lo  vista. Meu hermanito, acurrucado em seus braos, com a cabea em seu seio, abrigado e em sombras sob a cortina de cabelo. E em seguida pensei que no, 
que estaria mais contente se o deixava assim. E voltei a alisar a cabeleira de minha me para lhe cobrir a cabea.
        Seu peito se elevou sob minha bochecha. Deslizou lentamente as mos por meu cabelo.
        - No tinha uma s c, Sassenach. Nenhuma.
        Ellen Fraser tinha morrido de parto para os trinta e oito anos. Minha me, aos trinta e dois. E eu... eu tinha a riqueza de todos esses anos largos que elas 
tinham perdido. E mais ainda.
        - Para mim  um gozo ver como lhe tocam os anos, Sassenach -sussurrou- , pois significa que vive.
      
      
      
      
      
      87
      
      Em garde
      
      Por um momento acreditou que no poderia levantar a mo at o fecho.
      Os braos lhe penduravam como se levasse pesos de chumbo, e os msculos do antebrao saltavam e tremiam pelo esgotamento. Teve que fazer dois intentos, e at 
ento s pde agarr-lo torpemente entre o ndice e o major; o polegar no podia fech-lo.
              Brianna deveu ouvir seus tapas, pois a porta se abriu de sbito; sua mo caiu sem foras. Logo que viu um brilho de cabelo revolto e uma cara sorridente, 
com uma bochecha manchada de fuligem; imediatamente tinha os braos de sua mulher ao redor do corpo e sua boca sobre a sua prpria. Estava em casa.
              -tornaste! -disse Bree, soltando-o.
              -Sim.. -E bem que se alegrava. A cabana cheirava a comida quente e a sabo de leja.
              -Papai, papai! -Jemmy saltava de entusiasmo, obstinado a um banquinho para no perder o equilbrio-. P...piiii!
              -Ol, ol -disse Roger, alargando uma mo para baixo para dar uns tapinhas  cabea esponjosa do pequeno-. Quem  o menino de papai?
              -Eu! Eu! -E sorriu com uma enorme expanso de gengivas rosadas, mostrando todos seus dientecillos brancos.
              -Temos uma surpresa para ti. Olhe isto! -Foi rapidamente para a mesa e fincou um joelho no cho, a um passo do Jemmy. Logo lhe aproximou as mos-. 
Vem com mame, bonito. Vem aqui, beb, vem com mame.
              Jemmy se balanou precariamente, soltou uma mo e, alargando os braos para sua me, deu dois passos de bbado at cair contra ela, chiando. Brianna 
o apanhou e o ps em direo ao Roger.
              -Vem com papai -o respirou-. Anda, vem com papai.
              -Vamos, amiguito, vem aqui.
              Jemmy se aferrou um momento, inclinado para diante; logo soltou a mo de sua me e se cambaleou para o Roger, em trs passos cada vez mais velozes, 
e se deixou cair de cabea no abrao salvador de seu pai.
              -Assim eu gosto! Agora o tocar tudo, verdade?
              -Como se agora no tocasse nada! -exclamou Brianna, pondo os olhos em branco.
              -E o que outra coisa tm feito hoje? -perguntou Roger, sentando-se  mesa.
              -O que outra coisa? -Ela dilatou os olhos; logo os entreabriu-. No te parece que aprender a caminhar  suficiente para um dia?
              - obvio;  estupendo, maravilhoso -se apressou ele a reconhecer-. Dizia-o s por cercar conversao.
              -Pois bem, esfregamos o cho, embora a diferena no se note... -Baixou a vista com certo desgosto s toscas pranchas manchadas-. preparamos a massa 
do po, s que no llevou, de modo que jantar com bolachas.
              -eu adoro as bolachas -assegurou ele imediatamente.
              -Sem dvida. -Bree arqueou uma vermelha sobrancelha-. E para a fome no h bolacha dura.
              Roger riu. Lhe estava passando o frio, e embora pouco lhe faltava para cair do tamborete, de puro cansado, encontrava-se bem. E faminto. Seu estmago 
grunho, espectador.
              -Uma bolacha com manteiga seria bom comeo -disse-. Que mais? Cheiro algo rico. -Farejou para o caldeiro borbulhante, esperanado-. Guisado?
              -No: penetrada. -Bree cravou um olhar fulminante no caldeiro-. A terceira do dia. No  muito o que entra nessa porcaria, mas no pude levar a roupa 
suja ao caldeiro grande da casa, porque tinha que esfregar o cho e fiar. Se lavas fora tiver que ficar a atender o fogo e remover, de modo que no pode fazer quase 
nada mais nesse tempo.
              O olhar da Brianna se centrou no Roger, como se reparasse nele pela primeira vez.
              -E voc, senhor MAC Kenzie, o que esteve fazendo? diria-se que vem da guerra.
              Tocou-lhe brandamente a cara; na frente lhe estava formando um galo; Roger sentiu uma pequena pontada de dor ante o contato.
              -Algo assim. Jaime me esteve ensinando os rudimentos da esgrima.
              Riu com acanhamento ao ver que ela arqueava as sobrancelhas.
              -Com espadas de madeira, suponho.
              Vrias espadas de madeira. J tinham quebrado trs, embora as armas improvisadas no eram ramillas, por certo.
              -E te deu uma estocada na cabea? -A voz da Brianna soou dura.
              -N... no, no exatamente.
              -O que significa "no exatamente"?
              -Olhe... ensinava-me um pouco chamado corps  corps, que ao parecer significa, em francs: "envolve a espada de seu adversrio  tua e, enquanto ele 
trata de liber-la, d-lhe um joelhada nos cojones e um golpe na cabea".
              Brianna deixou escapar uma risada escandalizada.
              -Ou seja que lhe...?
              -No, mas faltou pouco. -Roger fez uma careta de record-lo-. Na coxa tenho um moretn do tamanho de minha mo.
              -Est lesado em algum outro lugar? -Brianna franziu o sobrecenho, preocupada.
              -No. -Lhe sorriu, sem retirar as mos do regao-. Cansado. Dolorido. Esfomeado.
              O cenho se apagou e o sorriso da moa reacendeu se, embora entre suas sobrancelhas ficou uma pequena ruga. depois de tirar do aparador uma bandeja 
de madeira, ficou em cuclillas junto ao lar.
              -Codornas -disse com satisfao, enquanto utilizava o atiador para retirar vrios vultos enegrecidos das cinzas-. Trouxe-as papai esta manh. Disse-me 
que no as depenasse, que as pusesse ao fogo envoltas em barro; por isso tivemos que fazer uma segunda penetrada.
              As codornas pareciam simplesmente pedras chamuscadas, mas pelas gretas do barro surgiam volutas tentadoras. Roger sentiu desejos de agarrar uma e comer-lhe 
imediatamente, com barro queimado e tudo. O que fez foi medir sob o guardanapo que cobria o prato; ali descobriu as criticadas bolachas. Com os dedos estirados, 
conseguiu arrancar uma boa parte e o colocou silenciosamente na boca. Jemmy, ao ver o po, alargou a mo entre prementes rudos de exigncia. Roger rompeu cuidadosamente 
um trocito mais e o deu, mas no trajeto esteve a ponto de que lhe casse. Tinha perdido a metade da unha do polegar que lhe gotejava, muito vermelha.
              Jemmy cravou a vista no polegar ferido. Logo se meteu o sua na boca para chup-lo ruidosamente. Em realidade parecia boa idia. Esse dedo ardia com 
uma dor surda e sentia todos os dedos frios e rgidos. depois de jogar uma olhada  costas da Brianna, meteu-se o polegar na boca. Sentiu-o estranho, grosso, duro 
e com o sabor metlico do sangue e a sujeira fria. Mas de repente encontrou o oco; lngua e paladar se fecharam em volto do dedo ferido, em uma presso clida e 
sedativo.
              Jemmy lhe deu um golpe na coxa, seu sinal acostumado para pedir "apa"; ele o agarrou pela parte traseira do fralda e o subiu at seu joelho com a 
mo livre. O pequeno se revolveu um pouco at sentir-se cmodo; logo se relaxou em sbita paz, com a parte de po espremido em uma mo, enquanto se chupava silenciosamente 
o dedo.
              Roger se relaxou pouco a pouco, com um cotovelo apoiado na mesa e o outro brao sustentando a seu filho. O denso flego do menino, sua pesada respirao 
contra as costelas, eram um tranqilizador acompanhamento para os rudos caseiros que Brianna fazia ao servir o jantar. Para sua surpresa o polegar deixou de lhe 
doer; mesmo assim o deixou onde estava, muito exausto para pr em tecido de julgamento essa estranha sensao de comodidade.
              Seus msculos tambm se relaxavam gradualmente ao abandonar o estado de alerta nervoso em que se mantiveram durante vrias  horas. Em seu ouvido interior 
ainda ressonavam as enrgicas indicaes: "Usa o antebrao, homem... A boneca, a boneca! No aparte a mo assim, manten perto do corpo. Isso no  um pau, homem! 
 uma espada! Usa a ponta."
              A cabea lhe bamboleou no pescoo. Com uma piscada, voltou abruptamente do chiar das espadas de madeira a clida penumbra da cabana. Brianna amaldioava 
pelo baixo ante o aparador, golpeando os vultos de argila enegrecida com a manga de uma adaga, em um intento de parti-los.
              "Cuida o movimento dos ps. Atrs, atrs! Sim, agora vem para mim. No, no te estire tanto..."
              "No apanhe a folha com a tua; arroja a fora. Golpeia, golpeia para apart-la! Vem mim, investe! Manten perto, perto... sim, bem... ja!"
              Lhe deslizou o cotovelo e sua mo caiu. Ele se ergueu com uma sacudida; sujeitando ao menino dormido. Piscou, com a vista imprecisa pela luz do fogo.
              Brianna tambm deu um coice de culpabilidade e fechou sua caderneta de apontamentos. Uma vez de p o escondeu depois de um prato contra a cara posterior 
do armrio.
              -A comida est lista -disse apressadamente-. Vou a por... o leite.
              Roger trocou de posio ao Jemmy. O menino dormia profundamente, com o polegar bem sujeito na boca.
              o do Roger estava molhado de saliva; sentiu um rubor de abafado. O teria desenhado assim Bree? No seria a primeira vez que o desenhava em posies 
que ele considerava comprometedoras. Ou talvez estava registrando seus sonhos?
              Depositou brandamente ao Jemmy em seu bero, sacudiu as migalhas midas da colcha e se esfregou os ndulos arroxeados. Da despensa chegavam rudos 
de chapinho. aproximou-se sigilosamente ao aparador para extrair o livro de seu esconderijo. No eram sonhos, a no ser desenhos. Apenas umas poucas linhas rpidas, 
a essncia do esboo. Um homem morto de cansao, ainda alerta: com a cabea em uma mo, o pescoo dobrado de esgotamento e o brao livre rodeando um pouco entesourado 
e indefeso. Tinha-o titulado Em garde, com sua letra inclinada e angulosa.
              Fechou o livro e voltou a p-lo em seu stio. Bree estava de p na porta da despensa, com a jarra de leite na mo.
              -Vem comer -lhe disse brandamente-. Precisa repor foras.
      88
      
      Roger compra uma espada
      
      
      Cross Creek
      Novembro de 1771
      
      No era a primeira vez que dirigia uma espada do sculo XVIII; nem o peso nem a longitude o agarraram por surpresa. A cazoleta estava um pouco torcida, mas 
nem tanto que impedisse o ajuste da mo no punho.
              -Est um pouco maltratada -lhe havia dito Fraser, com um olho entrecerrado para olhar a espada ao longo, antes de entregar-lhe mas a folha est bem 
equilibrada. Prova-a, a ver se te entende com ela.
      Estavam no Cross Creek, na transitada ruela da ferraria; uns quantos transeuntes se detiveram observ-los e lhes oferecer comentrios teis.
      -Quanto pede Moore por essa parte de lata? -perguntou algum, despectivamente-. mais de dois xelins seria um roubo a mo armada.
      - uma boa espada -assegurou Moore-. Era de meu tio, que serve em Forte Stanwyck. Esse ao matou a mais de um francs e no tem racho.
      -Que no tem racho! -exclamou o depreciativo-. Mas se estiver to torcida que, se queria trespassar a um homem, acabaria te cortando a orelha!
      As gargalhadas da multido afogaram a rplica do ferreiro. Roger baixou a ponta da espada e a elevou lentamente. Como diabos se prova uma espada? Terei que 
faz-la ondular de um lado a outro? Crav-la em algo?
      -Ah!, se o que o jovem quer  uma espada, Malachy McCabe tem uma melhor, que ficou depois do servio. Acredito que se desfaria dela por trs xelins, no mximo. 
-O sapateiro do outro lado da rua assinalou a espada com ar sagaz, e os lbios franzidos.
      -Esta no  uma pea elegante -acrescentou um ex-soldado de idade amadurecida, com a cabea inclinada a um lado-. Mas serve, posso assegur-lo.
      Roger estendeu o brao, que saa a defender a qualidade de sua mercadoria. O ferreiro saltou a um lado com um grito de sobressalto, entre os uivos da multido
      Uma vez forte e nasal, a costas do Roger, interrompeu suas desculpas.
      -Aqui, senhor! me permita lhe oferecer um adversrio mais digno de seu ao que um ferreiro desarmado!
      Roger, ao girar sobre seus tales, encontrou-se frente a frente com o doutor Fentiman, que desenvainaba uma folha larga e fina, colocada dentro de sua fortificao 
de passeio. O doutor, a quem Roger dobrava em tamanho, blandi seu estoque com afvel ferocidade. Obviamente o impulsionava um almoo oneroso; a ponta de seu nariz 
refulgia como uma lmpada de Natal.
      -Medimos nossa habilidade, senhor? -Fentiman agitou a espada de um lado a outro, fazendo cantar a estreita folha no ar-. A primeiro sangue, sim? O que diz 
voc?
      Roger olhou ao Jaime, que se tinha apoiado contra a parede e parecia divertido. A resposta foi um encolhimento de ombros e uma sobrancelha arqueada.
      "Prova-a, a ver se te entende com ela", havia dito seu sogro. Pois bem, um duelo com esse mosquito bbado era uma boa maneira de prov-la. Roger levantou a 
espada e cravou no doutor um olhar ameaador.
      -Em garde -disse.
      O grupo de curiosos lanou um rugido de aprovao.
      -Gardez vous -replicou imediatamente o mdico.
      E investiu. Roger girou sobre um talo e Fentiman passou como uma bala, com o estoque apontando como uma lana. Moore, o ferreiro, saltou a um lado bem a tempo 
para evitar pela segunda vez que o trespassassem, entre sucessivas maldies.
      -Acaso me escolheu como branco? -gritou agitando o punho.
      Sem preocupar-se por isso, o doutor recuperou o equilbrio e carregou novamente para o Roger, lanando chiados agudos para respirar-se. Possivelmente o doutor 
no fora um mau espadachim quando estava sbrio, mas em seu estado atual resultava fcil desviar suas estocadas frenticas e seus loucos arrebatamentos... sempre 
que a gente emprestasse ateno.
      Em seguida Roger soube que lhe seria possvel pr fim ao duelo em qualquer momento, com apenas parar o fino estoque do doutor com o fio de seu prprio ao, 
quanto mais pesado. Mas comeava a desfrutar daquilo, de modo que ps cuidado em parar os golpes com a parte plaina da folha.
      Gradualmente tudo foi desaparecendo de sua vista, salvo a ponta cintilante do estoque; os gritos da multido se reduziram a um zumbido de abelha; o p da ruela 
e o muro da ferraria eram apenas visveis. Roou a parede com o cotovelo, retrocedeu e se moveu em crculos para ganhar espao, tudo de uma maneira inconsciente.
      O estoque golpeou contra sua folha, travou-se e se liberou com um chiado metlico. Tangidos, estalos e o assobiar do ar vazio, e o ritmo ressonante que vibrava 
nas bonecas com cada golpe da espada do mdico.
      Vigia o toque, segue-o, aparta-o. No sabia o que estava fazendo, mas o fazia. O suor lhe corria at os olhos; sacudiu a cabea para apart-lo e esteve a ponto 
de receber uma investida na coxa, mas a deteve muito perto e desviou o estoque para trs.
      O doutor se cambaleou, perdido o equilbrio. No ar poeirento soaram gritos ferales:
      -Agora! lhe d! Atravessa-o!
      Roger viu o colete bordado do doutor, descoberto, cheio de mariposas de seda, e sufocou o impulso visceral de investir contra ele. Impressionado pela intensidade 
do apresso, deu um passo atrs. Fentiman, ao perceber sua debilidade, saltou para diante com um uivo, o  ao pontudo. Roger deu meio passo a um lado e o mdico passou 
veloz, roando em sua trajetria o esporo de um cavalo de tiro.
      O animal emitiu um grito de indignao, e imediatamente espadachim e espada voaram pelo ar, at estelar se contra a fachada da oficina do sapateiro. Fentiman 
caiu a terra como uma mosca esmagada, rodeado de frmas e sapatos esparramados.
      Roger se manteve quieto, ofegante e acalorado pela luta. Jaime lhe retirou brandamente os dedos do punho da espada. O sangue lhe fazia ccegas por toda parte. 
Logo que ouvia as risadas, os convites a beber um gole; tampouco percebia as palmadas de felicitao que choviam contra suas costas.
      -Um enema, um enema, que lhe ponham um enema! -gritava uma banda de aprendizes depois do doutor, ao que se levavam para lhe aplicar os primeiros auxlios no 
botequim mais prximo. O proprietrio do cavalo se trabalhava em excesso solcitamente sobre o grande baio, embora este parecia mais desconcertado que ferido.
      -Suponho que o doutor ganhou. depois de tudo foi ele o que extraiu o primeiro sangue.
      Roger s soube que tinha falado para ouvir sua prpria voz, extraamente tranqila.
      -Basta-te com isso? -Jamie o olhava interrogativamente; ainda sustentava a espada na palma da mo.
      -Sim -disse-. Com isso basta.
      -Bem. Pode servir -acrescentou Jamie despreocupadamente. E lhe voltou as costas para pagar ao ferreiro.
      

      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      OITAVA PARTE
      
      Vamos de caada
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      

      
      
      
      89
      
      As luas do Jpiter
      
      
      
      Finais de novembro de 1771
      
      Pela quarta vez em vrios minutos, Roger se teve que recordar que do ponto de vista mdico no era possvel morrer de frustrao sexual. tendeu-se de costas, 
com cuidado para que  o colcho no fizesse rudo, e cravou a vista no teto. No serve de nada; pelos borde do couro engordurado que cobria a janela, o sol do amanhecer 
caa a correntes sobre a cama, e pela extremidade do olho podia ver as pernas douradas de sua esposa, iluminadas como por um refletor.
      Fechou os olhos, mas isso no serve de nada; em seguida comeou a ver imagens da noite anterior; Brianna,  luz tnue das brasas, faiscantes as chamas de seu 
cabelo entre as sombras, e um sbito brilho na curva de um peito nu, ao deslizar a camisola pelos ombros.
      Por tarde que fora, por cansado que estivesse, desejava-a desesperadamente. Mas outra personita a tinha necessitado ainda mais. Entreabriu um olho e se incorporou 
um pouco, s para olhar por cima dos cachos revoltos da Brianna, o bero ainda em sombras pega  parede. No havia sinais de movimento.
      Havia entre os dois um velho acordo. Como ele estava acostumado a despertar ao menor rudo, enquanto que ela se encontrava aturdida e torpe, era Roger quem 
lhe levantava quando soava a sereia do bero. Elevava ao vulto empapado e lhe uivem e atendia as necessidades imediatas da higiene. Quando o entregava a sua me, 
Brianna j estava o bastante espabilada para tirar a camisola e acomodar ao menino no refgio de seu corpo.
      Roger se tinha ficado dormido enquanto Bree ainda o estava reconfortando, mas despertou quando ela se deu a volta na estreita cama, lhe roando a coxa com 
suas ndegas. Ao sentir a presso do traseiro, logo que pde conter-se para no atac-la da retaguarda. Detiveram-lhe pequenos rudos de suco ao outro lado do 
Bree: Jem ainda estava na cama.
      Permaneceu imvel, escutando, rezando para que ela se mantivera acordada o tempo suficiente para devolver ao pequeno vadio a seu bero; s vezes me e filho 
dormiam juntos; nesses casos, pela manh despertava uma desconcertante mescla de aromas: a mulher desejvel e a pis de beb. Aquela noite tinha sido ele quem se 
ficou dormido apesar das molstias, esgotado detrs ter acontecido o dia derrubando rvores na montanha.
      Inalou profundamente. No: o menino estava em seu bero. Na cama no havia mais aromas que o da Brianna, um terrestre aroma de mulher, uma vaga e doce nuvem 
de suor e untuosa disposio.
      Alargou uma mo sigilosa para lhe acariciar docemente a ndega mais prxima. Era fresca, suave e redonda como uma cabaa.
      Ela emitiu um suave murmrio e se desperez lujuriosamente, arqueando as costas; o modo em que sub o traseiro convenceu ao Roger de que o mais prudente era 
pr o edredom a um lado, lanar-se em cima de l e alcanar seu objetivo nos dez segundos escassos que se requeriam.
      Chegou at o passo de arrojar o edredom. No momento em que separava a cabea do travesseiro, uma figura redonda e clara surgiu lentamente pelo bordo do bero, 
como uma das luas do Jpiter. Um par de olhos azuis o observou com clnica objetividade.
      -Mirtos! -disse ele.
      -OH, erda! -disse Jemmy, em alegre mmica. E ficou de p para saltar obstinado ao bordo do bero, enquanto cantava -:Erda, erda, erda!
      Brianna despertou sobressaltada, piscando atravs de cachos enredados.
      -O que? O que acontece?
      -N... algo me picou. -Roger devolveu discretamente a seu stio o bordo do edredom-. por aqui deve haver uma vespa.
      Bree se apartou o cabelo da cara e bebeu da taa que tinha na mesa; sempre despertava sedenta.
      Um lento sorriso se desenhou em sua boca larga e suave ao olh-lo.
      -Sim? Pois mido aguijonazo tem. Quer que telo esfregue? -E deixou a taa para rodar graciosamente sobre um cotovelo, com a mo estendida.
      - uma sdica -disse Roger, chiando os dentes-. No h dvida. Deve hav-lo herdado de seu pai.
      Ela se incorporou, rendo, para fic-la camisa pela cabea.
      -Mame! Erda, mame! -dizia-lhe Jemmy, radiante, enquanto ela o levantava com um grunhido de esforo.
      -Patife -lhe disse ela, afetuosa-. Esta manh no  precisamente o favorito de papai.  muito inoportuno. -Enrugou o nariz-. E que mal cheira.
      -Depende da perspectiva, suponho. -Roger ficou de lado para observ-la-. Desde seu ponto de vista foi perfeitamente oportuno.
      -Sim. -Brianna o olhou com uma sobrancelha arqueada-. Desde a a palavra nova, no?
      -Pois no  a primeira vez que a escuta -observou Roger, seco. E se sentou para tirar as pernas da cama, esfregando-a cara e o cabelo com uma mo.
      -Bom, agora teremos que encontrar a maneira de passar do abstrato ao concreto verdade? -Ps ao Jemmy de p no cho e se ajoelhou frente a ele. depois de lhe 
dar um beijo no nariz, tirou-lhe o alfinete de segurana dos fraldas-. OH, puaj! No te parece que aos dezoito meses vai sendo hora de aprender a usar a bacinilla?
      -A quem o pergunta, a mim ou a ele?
      -Uf!... D igual. Ao que tenha uma opinio para me dar.
      Jemmy, obviamente, no a tinha. Animosamente estico, ignorava o decidido assalto que sua me efetuava contra suas partes ntimas, utilizando um pano molhado 
em gua fria. Brianna o agarrou em braos para sentar-se com ele na cadeira de balano, junto ao lar.
      -Quer um lanche? -ofereceu-lhe, abrindo o decote de sua camisa com ar lhe convidem.
      -Sim, por favor -exclamou Roger, sinceramente.
      Bree se ps-se a rir, no sem solidariedade, enquanto acomodava ao Jemmy em seu regao para que mamasse.
      -te toca o seguinte turno -assegurou ao Roger-. Quer porridge de aveia ou papa fritas?
      -No h outra coisa na carta? -Maldita seja! Tinha estado a ponto de consegui-lo. Tinha que voltar a comear.
      -Pois claro que sim. Torradas com gelia de morangos. Queijo. E ovos, mas ter que ir ao galinheiro para busc-los; na despensa no fica nenhum.
      Ao Roger custava concentrar-se no tema do caf da manh ao ter diante a Brianna,  luz tnue da cabana, com as largas coxas estendidas sob a camisola e as 
calas colocadas sob a cadeira. Ela pareceu detectar sua falta de interesse culinrio, pois contemplou com um sorriso sua prpria nudez.
      -Est muito bonito, Roger -disse pelo baixo. Sua mo livre foi posar se na cara interior de uma coxa.
      -Voc tambm. -A voz de seu marido soou sensual. Estava mais que bonita.
      Ela deu um tapinha nas costas do Jemmy.
      -Quer visitar tia Lizzie depois do caf da manh, tesouro? -perguntou-lhe sem olh-lo. Seus olhos estavam fixos nos do Roger; sua boca larga, curvada em um 
lento sorriso.
      Ele no se acreditou capaz de esperar at depois do caf da manh sem toc-la sequer. O xale estava nos ps da cama; o ps na cintura, por respeito  decncia, 
e foi ajoelhar se junto  cadeira de balano.
      -Amo-te -lhe sussurrou ao ouvido. Ela girou a cabea para beij-lo; foi um fugaz contato de lbios suaves.
      -Eu tambm te amo -disse.
      No momento em que ele se decidia a se aprofundar na matria, um forte murro sacudiu as pranchas da porta, acompanhado pela voz de seu sogro.
      -Roger! Est a? te levante agora mesmo!
      Brianna deixou no cho ao Jemmy; para ouvir a voz de seu av, o menino lanou um chiado enlevado e correu a golpear a porta fechada.
      Date pressa! -A luz alagou a cabana ao correr o corpo da janela, deixando ver a larga cara do Jamie Fraser, avermelhada pelo entusiasmo e o sol da manh-. 
Te mova, homem. No  hora de andar por a com o traseiro ao ar. MAC Leod diz que h bestas atrs da colina.- Enviou um beijo ao Jemmy-. A ghille ruaidh, a cariem! 
Ciamar a tha thu?
      Roger se esqueceu do sexo e o pudor. ficou a camisa pela cabea, com movimentos bruscos.
      -Que classe de bestas? Veados, eleve?
      -No sei, mas se trata de carne!
      Com uma ltima e ofegante olhar ao corpo de sua esposa, Roger agarrou suas meias trs-quartos.
      

      
      
      90
      Perigo na erva
      
      
      Ao meio dia, entre grunhidos e ofegos, os homens penetraram na zona verde escura das conferas. Ningum dizia nada;  mesmo que se detinham  um instante para 
agarrar flego, a quietude do bosque proibia tudo bate-papo desnecessrio.
              Ao redor a espessura parecia serena... e deserta. Possivelmente porque chegavam muito tarde, quando os animais j tinham contnuo sua marcha, possivelmente 
porque MAC Leod havia visto mau. Ao  sair ao outro lado da colina, os homens se encontraram a pleno sol. O ar era escasso e frio. Ao chegar a um stio ao casaco 
do vento, o grupo se deteve em muda apreciao.
              Jamie se adiantou at o bordo de uma saliente rochosa, com o acrscimo acobreado lanando reflexos ao sol, e girou de um lado a outro, olhando para 
baixo entre as rvores, com os olhos entreabridos. Roger viu que dilatava as fossas nasais e sorria para seus adentros. Talvez farejava a presa.
      Fraser moveu a cabea. Logo se voltou para o Fergus para lhe dizer algo em voz baixa e subiu pela cornija at desaparecer.
              -Esperemos -disse Fergus a seus companheiros, lacnico.
              Os homens se sentaram a conversar sobre voz baixa, fedorentos. Se na frescura do bosque no se notava, ali acima, ao sol, era evidente o fedor a suor 
recente, que se impunha s capas mais profundas de sujeira e aromas fsicos.
              Roger se disse que talvez no era um olfato animal extraordinrio o que fazia to difcil aproximar-se da presa a p, a no ser a fetidez dos seres 
humanos. Ele no cheirava desse modo, ou sim? Por curiosidade inclinou a cabea para respirar dentro do decote aberto de sua camisa. Sentia que um fio de suor lhe 
corria pelo dorso do pescoo, sob o cabelo. Secou-o com o bordo da camisa; antes de retornar a sua casa se daria um banho, embora o arroio estivesse talher de gelo.
              A importncia da ducha e os desodorantes no era por uma simples questo esttica, refletiu. Ao fim e ao cabo, algum se habitua a quase qualquer fetidez 
habitual. O que no tinha compreendido na segurana do meio moderno, relativamente inodoro, era as conseqncias mais ntimas do aroma.
      s vezes uma baforada ao azar despertava sem prvio aviso suas reaes mais primitivas, fazendo que se sentisse como um sujo mandril.
              Um toque no cotovelo o sobressaltou. deu-se a volta, com um brao estendido em rpida defesa. Jamie o esquivou limpamente e lhe sorriu. Logo assinalou 
com a cabea o bordo da cornija.
              -Encontrei-os -disse.
      
      Jamie fez um gesto com a mo e Fergus acudiu imediatamente. O francs apenas lhe chegava ao ombro, mas no parecia ridculo. Com sua nica mo a modo de tela, 
olhou para onde Fraser assinalava. Roger se aproximou por detrs deles para olhar costa abaixo. Uma grosa linha de altas rvores nuas marcava o curso de um arroio. 
Fraser, ao v-lo, assinalou para baixo com o queixo.
              -Junto ao arroio. V-o? -disse.
              Ao princpio Roger no viu nada. Logo divisou algo: um arbusto, ao final do pendente, movia-se de forma distinta  provocada pelo vento ao agitar os 
ramos prximos. Era uma sacudida brusca, como se algo atirasse dele para alimentar-se.
      -O que  isso?
      A sbita apario de um vulto escuro foi suficiente para lhe revelar que o animal era grande, muito grande.
      -No sei.  maior que o veado. Um wapiti, possivelmente. -Fraser olhava com ateno, entreabrindo os olhos para proteg-los do vento.
      -Um alce americano, possivelmente? -Fergus franziu o sobrecenho sob a mo que dava sombra aos olhos-. Alguma vez vi nenhum, mas so muito grandes, no?
      -No. -Roger sacudiu a cabea-. Quer dizer, sim, mas isso  distinto. cacei alces americanos... com os mohawks. E no se movem assim.
      - verdade. No so nem veados, nem eleve... E h mais de um. Vem-no?
      Roger entreabriu muito os olhos; mas ao ver o que Fraser fazia, imitou-o: balanava-se de um p ao outro, deixando que seus olhos vagassem pela paisagem. Aqui 
e l, entre os cinzas e pardos descoloridos entre manchas de folhagem perene, havia um deslocamento, um n no desenho da natureza: movimentos estranhos que no causava 
o vento. Embora cada besta era invisvel em si, sua presena se detectava pelas sacudidas dos arbustos prximos.
      -Eu tinha razo! Tinha razo, verdade, MAC Dubh? -gabou-se MAC Leod, passando de um a outro a cara radiante de triunfo-. No vos disse que tinha visto bestas?
      -Cristo, h todo um rebanho -sussurrou Evan Lindsay, como eco de seu pensamento. A cara do montanhs refulgia de espera. voltou-se para o Jaime-. Como faremos, 
MAC Dubh?
      - difcil saber; esto em terreno aberto. No podemos encurral-los em nenhuma parte. -chupou-se um dedo para apreciar a brisa; logo assinalou-. O vento vem 
do oeste; descendamos pelo regato at o p do pendente. Logo Roger e eu passaremos ao flanco, perto dessa grande saliente rochosa. Vem-na?
      Lindsay assentiu lentamente; o dente torcido mordiscava o lbio.
      -Esto perto do arroio. Dem um rodeio; lhes mantenha longe at chegar perto desse grande cedro. Vem-no? Logo lhes dissemine: dois a cada lado do arroio. 
Evan  o melhor atirador, que esteja preparado. Roger MAC e eu nos aproximaremos do rebanho pir atrs para impulsion-los para vs.
      Fergus assentiu.
      -Compreendo -disse, estudando o terreno, l abaixo-. E se nos vem se lanaro por aquele pequeno desfiladeiro, onde ficaro apanhados. Muito bem. Allons-e!
      
      
      Ao ver que Jamie carregava e martelava sua arma, Roger fazia o mesmo, com uma mescla de entusiasmo e maus pressgios ante o acre aroma da plvora. Dado o tamanho 
das bestas que seguiam, at ele tinha possibilidades de dar no branco.
              Na maleza, para diante, ouviu-se um pequeno estalo e um pouco de cabelo vermelho apareceu na vista. Para ali foi, com a mo fechada em volto da culatra, 
morna e slida a madeira em sua palma, com o canho apontando para cima por cima do ombro.
              Enquanto rodeava sigilosamente um arbusto de zumaque, Roger sentiu que algo cedia sbitamente sob seu p e se tornou para trs para no perder o equilbrio. 
Ao ver o que tinha pisado sentiu um forte impulso de rir, apesar da imediata desiluso.
              -Jamie! -chamou, sem preocupar-se j pelo sigilo ou o silncio. O cabelo brilhante do Fraser apareceu por entre uma cortina de louro, seguido por seu 
dono.
              -No sou um grande rastreador -disse Roger, assinalando  para baixo-, mas pisei em tantas coisas destas que sei as reconhecer. -Raspou o flanco de 
seu sapato contra um tronco cansado-. Olhe o que  o que estivemos espreitando!
              Jamie se deteve em seco. Logo se aproximou para agachar-se junto ao manchn pardo e corrugado. depois de toc-lo com a ponta de um dedo, levantou a 
vista para o Roger com uma mescla de diverso e desconcerto.
              -Que me crucifiquem! -disse. Sempre em cuclillas, inspecionou a espessura com o sobrecenho enrugado. Logo murmurou-: Mas o que fazem aqui?
              Por fim se incorporou para olhar para o arroio, onde o sol, j em descida, lanava reflexos cegadores entre os ramos.
              -No tem nenhum sentido -disse, entreabrindo os olhos-. S h trs vacas na Colina e esta manh vi ordenhar a dois. A terceira  a do Bobby MAC Leod. 
E acredito que ele saberia reconhecer a sua prpria vaca. Alm disso...
              Girou lentamente sobre os tales para jogar uma olhada  levantado pendente que acabavam de baixar. No fazia falta dizer nada. Para descender por 
ali, qualquer vaca teria necessitado um pra-quedas.
              -H mais de uma, muitas mais -apontou Roger-. Voc mesmo as viu.
              - certo, mas de onde vm? -Jamie enrugou a frente, intrigado-. Os ndios no criam ganho, muito menos nesta temporada. Se tinham alguma besta, a estas 
horas j est carneada e defumada. E em cinqenta quilmetros  redonda no h nenhuma granja da que possam vir.
              -E se fosse um rebanho selvagem? -sugeriu Roger-. Podem haver escapado faz muito tempo e estiveram vagando por ali.
              Aos olhos do Jamie apareceu um ar calculador, como eco do gorgoteo esperanado que emitia o estmago do Roger.
              -Nesse caso sero presas fceis -disse seu sogro.
              Meia hora depois emergiram no ribazo do arroio que tinham visto de acima.
              -por que no me ocorreria trazer cordas? -murmurou Jamie, enquanto se abria passo entre os salgueiros tenros da ribeira, ao rodear o vau-. Uma coisa 
 a carne, mas leite e queijo...
              O murmrio se apagou ao abandonar o arroio para seguir um rastro na folhagem; entrava novamente no bosque.
              Os dois homens se separaram sem dizer nada, a passo fico. Roger aguava quando podia o ouvido no silncio do bosque. Deviam estar perto; adeus pouco 
experimentada do moo tinha detectado o recente dos sinais. Estava refrescando; teriam que procurar os outros e acampar quanto antes, pois o crepsculo era curto. 
Uma boa fogueira iria bem; melhor ainda se tinham algo para assar nela.
              Agora foram descendendo para um pequeno terreno baixo, onde a terra, ao esfriar-se, despedia volutas de bruma outonal. Jaime se tinha adiantado um 
pouco e caminhava com tanta firmeza como o escarpado do cho lhe permitia; pelo visto o caminho ainda era visvel para ele, face  densa vegetao.
              -Roger.- Jamie assinalou algo com a cabea-. Olhe.
              Apartou um ramo grande e Espinosa, pondo ao descoberto o tronco de um sicmoro grande. Parte da casca se desprendeu, deixando uma mancha blancuzca 
e lhe gotejem na casca cinza.
              -As vacas se esfregam assim? -Roger contemplou a mancha com cara de dvida, extraindo uma mecha de cabelo escuro e lanzudo, apanhado na spera casca.
              -Sim, s vezes -replicou Jamie-. Mas que me leve o diabo se alguma vez vi essa pelagem em uma vaca. por que crie que...?
              Algo se moveu junto ao cotovelo do Roger. Ao voltar-se, o moo se encontrou com uma monstruosa cabea bruna que espiava por cima de seu ombro. Roger 
gritou e retrocedeu. Sua arma se disparou com uma forte exploso. Continuando, sentiu algo que acontecia seu lado a toda velocidade e um golpe seco. encontrou-se 
de bruces sobre o tronco de uma rvore, sem flego. Jamie estava de joelhos na folhagem, procurando freneticamente a arma do Roger.
              -Vamos! -disse-lhe-. Te levante, Roger! Por Deus, so bises!
              Um momento depois estava de p e seguia ao Jamie, que saltava como um veado entre as matas. O bosque j no estava em silncio; por diante se ouviam 
rudos de ramos que se rompiam e graves bufos. Alcanou ao Jamie na costa; subiram-na trabalhosamente. Ali estavam: oito ou nove bestas enormes e lanzudas, que corriam 
em grupo fechado, troando a colina.
              Jamie cravou um joelho em terra, apontou e disparou, sem efeito visvel.
              No havia tempo para deter-se recarregar; era preciso manter o rebanho  vista. Um meandro de arroio cintilou entre as rvores, mais abaixo e  direita. 
Roger se lanou costa abaixo, em um arrebatamento de entusiasmo. Ouviu que Jamie lhe seguia lanando a gritos exortaes galicas.
              Uma exclamao diferente fez que Roger se detivera para olhar para trs. Fraser se tinha detido, com a cara petrificada de espanto. antes de que o 
jovem pudesse dizer nada, o espanto mudou a fria. Jamie aferrou o mosquete pelo caon e, mostrando os dentes, golpeou o cho com a culatra. Apenas se deteve antes 
de levantar a arma para golpear outra vez, e outra; seus ombros se sacudiam com o esforo.
              -Que diabos...?
              Ento a viu. Umas ondas marrons, duras, grosas e escamosas se retorciam entre as matas de ervas. A cabea da serpente estava esmagada e seu sangue 
manchava o mosquete do Jamie, mas o corpo ainda se retorcia como um verme.
              -Basta! Est morta. Ouve-me? Basta, hei dito? -Sujeitou ao Fraser por um brao, mas  seu sogro se liberou para dar uma coronhada mais. Por fim se deteve.
              -Deus Santo! O que aconteceu? Picou-te?
              -Sim, na perna. Pisei-a.
              -Vem te sentar e vejamos isso.
              Jamie deu uns passos vacilantes e se deixou cair em um tronco cansado. Logo procurou o bordo do meia trs-quartos com dedos trmulos, mas Roger os 
apartou para descal-lo. As marcas das presas eram muito claras: uma dobro puno vermelho escuro na pantorrilha.
              - venenosa. Tenho que cortar.- Roger desenvain sua adaga.
              Mordendo-os lbios em um gesto de concentrao, oprimiu a ponta da faca contra a pele, justo por cima de uma dessas punes. Ento Fraser agarrou a 
mo do Roger com a sua e empurrou com um grunhido cruel. A ponta se afundou sbitamente, dois ou trs centmetros. Quando o sangue emanou ao redor da folha, os dedos 
que apertavam se retiraram.
              -Outra vez. Com fora. E date pressa, homem, pelo amor de Deus. -A voz do Jamie era firme.
              O jovem se preparou para utilizar a fora necessria e cortou com celeridade: duas marcas em cruz sobre as punes, tal como indicavam as guias de 
primeiros auxlios. Logo deixou cair a faca e aproximou a boca s feridas. Chupou com toda a fora possvel, enchendo-a boca de um sabor a metal quente. Sugava e 
cuspia em silencioso frenesi, salpicando de sangue as folhas amarelas.
              Algo o aferrou pelo cabelo da nuca e devorou com fora, obrigando-o a deter-se. Levantou a cabea, ofegando.
              Basta j, ouve-me? -disse Jamie com suavidade-. vais deixar me seco. -E moveu timidamente o p descalo, fazendo uma careta ao ver-se a perna. Roger 
se sentou sobre os tales e aspirou uma baforada de ar.
              Fiz mais... desastre... que a serpente.
              A boca lhe encheu de saliva; tossiu e voltou a cuspir. Fraser, em silncio, ofereceu-lhe a cigarreira de usque; ele se enxaguou a boca com um sorvo 
e, depois de cuspi-lo, bebeu a fundo.
              -Est bem? -limpou-se o queixo com o dorso da mo; ainda tinha sabor a ferro. Assinalou com a cabea a perna macerada.
              -Resisto. -Jamie estava ainda plido, mas uma comissura de sua boca se desviou para cima-. v ver se os outros esto  vista.
              No os via; do alto da saliente rochosa s se divisava muito ramos nus que se agitavam de um lado a outro. Rouco de tanto gritar contra o vento, Roger 
baixou de novo a costa.
              -No h sinais de ningum.Pode caminhar? -Roger se inclinou para seu sogro.
              -Posso, mas pouco.
              Roger sentiu a primeira pontada de intranqilidade. Fazia quanto sabia; nas guias de primeiros auxlios, o passo seguinte era sempre "imobilizar o 
membro e levar a paciente a um hospital quanto antes". Os cortes e a suco eram para retirar o veneno da ferida, mas ao parecer tinha ficado uma boa quantidade, 
que se disseminava lentamente pelo corpo do Jamie. No tinha tido tempo de extrai-lo tudo... se  que tinha extrado algo. E o m's parecido a um hospital, Claire 
e suas ervas, estava a uma jornada de distncia.
              -Di muito? -perguntou, sobressaltado.
              -Sim.
              Obscurecia a toda velocidade. Era evidente que essa noite no iriam a nenhuma parte; nas montanhas era impossvel orientar-se na escurido, inclusive 
se Fraser tivesse podido caminhar. Ficava um pouco de po de milho; quanto  gua, no era difcil de conseguir; entre o sussurro das rvores ouvia o gorgoteo de 
um arroio algo mais abaixo. Mas antes convinha recolher lenha, enquanto houvesse luz.
              -Seria melhor acender uma fogueira. -Jamie falou de repente, sobressaltando ao Roger com esse eco de seus pensamentos. Abriu os olhos para olhar uma 
mo e a fez girar, como se no a conhecesse.
              -Noto espetadas nos dedos -comentou com interesse. Logo se tocou a cara com uma mo-. Aqui tambm. Me dormiram os lbios. Sabe se isso  o habitual?
              -No sei. Suponho que sim, se te bebeste o usque.- Era uma piada pattica, mas foi um alvio que o aceitasse com uma dbil risada.
              -No. -Jamie tocou a cigarreira que tinha a um lado-. Pareceu-me que mais tarde podia me fazer falta.
              - verdade. Fique aqui; no deve te mover. vou procurar um pouco de lenha. Os outros vero a luz do fogo.
              -Traz tambm a serpente -lhe disse Jamie, quando j se afastava-. O justo  justo. Que nos sirva de jantar!
              Roger sorriu de brinca a orelha, apesar de sua preocupao, e inclinou o descida da costa com um gesto tranqilizador.
              Enquanto se inclinava para arrancar um grosso n de um tronco brando e podre, perguntou-se quais eram as possibilidades. Fraser era corpulento e muito 
saudvel. Sobreviveria, sem dvida.
              Mas havia quem morria por mordidas de serpente, e ocorria com certa freqncia.
              No podia deixar de olhar para a costa, cada poucos minutos; sentia uma pequena pontada de alarme cada vez que Fraser ficava fora de sua vista. E se 
se derrubava antes de sua volta?
              Mas se tranqilizou um pouco ao recordar algo. No, tudo estava bem. Jamie no morreria essa noite, nem pela mordida da serpente nem por frio. No 
era possvel; estava destinado a morrer em um incndio dentro de alguns anos. Por uma vez, a fatalidade futura representava tranqilidade no presente. Respirou fundo 
e deixou escapar o ar com alvio. Logo reuniu valor para aproximar-se da serpente.
              Embora estava morta, teve que fazer um esforo de vontade para recolh-la. Era to grosa como sua boneca e media perto de um metro vinte. Jamie a esfolou 
enquanto ele acendia o fogo. Pela extremidade do olho viu que seu sogro estava extraamente torpe; o intumescimento de suas mos devia ter piorado. Mesmo assim trabalhava 
com empecinamiento: cortou a serpente e, com dedos trmulos, trespassou as partes de plida carne crua em uma ramilla ao meio cortar.
              Terminada a tarefa, Jamie estendeu  o pau para a fogueira, mas esteve a ponto de que lhe casse. Roger conseguiu sujeit-lo e, atravs da ramilla, 
percebeu o tremor que lhe sacudia a mo e o brao.
              -Est bem? -disse. E lhe tocou a frente.
              Fraser se tornou para trs, em ofendida surpresa.
              -Sim -disse. Mas logo fez uma pausa-. Em realidade... sinto-me algo estranho -admitiu.
              -Te deite um momento, quer? -sugeriu, tratando de mostrar-se despreocupado-. Se puder, dorme. J despertarei quando a comida esteja preparada.
              A carne da serpente gotejava, lhe vaiem. Pese ao leve desgosto que lhe provocava a idia de comer-lhe Roger sentiu que o estmago lhe ressonava.
              Obscureceu por completo antes de que a carne estivesse cozida. Roger foi procurar gua; logo amontoou braadas de ferva secas e lenha no fogo, at 
que as chamas crepitaram mais altas que ele; se os outros homens se encontravam em um rdio de um quilmetro e mdio no deixariam das ver.
              Fraser se incorporou dificultosamente para comer.
              -Os ndios faziam algo contra as mordidas de serpente?
              -Sim -respondeu Roger, cauteloso-. Tinham razes e ervas que mesclavam com esterco ou cereais quentes para fazer cataplasmas.
              -E resultava? -Fraser sustentava uma parte de carne na mo queda, como se estivesse muito exausto para levar-lhe  boca.
              -Vi-o fazer s duas vezes. Em uma ocasio pareceu dar resultado. No houve inchao nem dor; ao anoitecer de mesmo dia a menina estava bem. Na outra 
ocasio... no resultou. E em sua poca, o que fariam?
              -Te aplicar uma injeo de um pouco chamado soro antiofdico.
              -Uma injeo? -Jamie no parecia entusiasmado-. Claire me fez isso uma vez. Eu no gostei de nada.
              -Mas serve?
              Seu sogro respondeu sozinho com um grunhido.
              em que pese a sua preocupao, Roger devorou sua rao e tambm o que Jamie deixou da sua. Fraser se tinha tirado a camisa de caador, a pesar do frio, 
e permanecia sentado, com os olhos fechados, oscilando um pouco. Roger se sentou em cuclillas a seu lado para lhe tocar o brao. Deus Santo, estava ardendo!
              Mas abriu os olhos com um leve sorriso. O jovem lhe ofereceu uma taa de gua, que ele aceitou com mo torpe. Por debaixo do joelho, sua perna estava 
grotescamente tumefacta, quase at o dobro de seu tamanho normal.
              Roger se perguntou, inquieto, se podia estar equivocado em sua convico de que o passado no se pode trocar; nesse caso, o momento e a maneira em 
que Fraser morreria estava fixada; seria dentro de uns quatro anos. Sem essa certeza, o aspecto do Jamie era muito preocupem-se. E at que ponto estava convencido, 
ao fim e ao cabo?
              -Poderia estar equivocado. -Jamie tinha deixado a taa e o olhava com serenos olhos azuis.
              -Sobre o que? -perguntou ele, sobressaltado para ouvir seus pensamentos expressos em voz alta. Acaso tinha falado em murmrios sem dar-se conta?
              -Sobre a mudana. Voc dizia que no era possvel trocar a histria. E se te equivoca?
              Roger foi atiar o fogo.
              -No me equivoco -assegurou, tanto para si como para o Fraser-. Pensa, homem. Voc e Claire trataram de deter o Carlos Estuardo, de trocar o que fez... 
e no puderam. No se pode.
              -Isso no  de tudo certo -objetou Fraser.
              -por que no?
              - certo que no pudemos evitar a sublevao... mas isso no dependia s de ns e dele: habia muita outra gente relacionada. Os chefes que o seguiam, 
esses malditos irlandeses que o adulavam... e at o Luis. Ele e seu ouro. -Agitou uma mo para descartar o tema-. Mas isso no tem nada que ver. Diz que Claire e 
eu no pudemos det-los. E  certo: no pudemos deter o comeo. Mas poderamos ter impedido o final.
              -Refere ao Culloden? -Roger, com a vista cravada no fogo, recordou vagamente aquele dia longnquo em que Claire lhes tinha contado, a ele e a Brianna, 
a histria das pedras... e do Jamie Fraser. Sim: ela tinha falado de uma ltima oportunidade para impedir a matana final dos cls...
              -Se matavam ao Carlos Estuardo...
              -Sim. Se o tivssemos feito... mas nem ela nem eu pudemos nos decidir. -Tinha os olhos quase fechados, mas moveu a cabea, inquieto, obviamente incmodo-. 
Muitas vezes me perguntei se foi por decncia... ou por covardia.
              -Ou possivelmente por outra coisa -apontou Roger, abruptamente-. No se sabe. Se Claire tivesse tratado de envenen-lo, arrumado a que teria acontecido 
algo: talvez se teria cansado o prato, o teria comido o co ou teria morrido outro em seu lugar. As coisas no teriam trocado!
              Fraser abriu lentamente os olhos.
              -Assim que voc pensa que tudo est predeterminado, n? O que o homem no tem livre-arbtrio? -esfregou-se a boca com o dorso da mo-. E quando decidiu 
retornar em busca da Brianna, e logo outra vez a por ela e o pequeno, no foi por livre deciso? Estava destinado a faz-lo?
              -Eu... -Roger se interrompeu, com os punhos apertados contra as coxas. de repente, por cima do aroma de lenha queimada, parecia elevar-se o das guas 
do quilha do Gloriana. Logo se relaxou com uma breve risada-. Mau momento para ficar  filosfico, no te parece?
              -Pois sim -aceitou Fraser, em voz baixa-. S que talvez no tenha outro. -E prosseguiu antes de que Roger pudesse responder-: Se no haver livre-arbtrio... 
tampouco pecou nem redeno verdade?
              -Jesus! -murmurou Roger, apartando o cabelo da frente-. Saio com Olho de guia e acabo sentado sob uma rvore com o Agustn da Hipona!
              Jamie no fez conta, absorto no seu.
              -Claire e eu escolhemos no matar. No quisemos derramar o sangue de um homem. Mas o sangue do Culloden no cai assim sobre ns? No quisemos cometer 
o pecado, e mesmo assim o pecado veio por ns?
              - obvio que no. -Roger ficou de p, nervoso, e foi atiar o fogo-. O que aconteceu no Culloden no foi sua culpa. Como podia s-lo? Todos os que 
tomaram parte nisso, Murria, Cumberland, todos os chefes... No foi obra de um s homem!
              -Crie que tudo est determinado? Estamos condenados ou salvos do momento de nascer, sem que nada possa troc-lo? E  filho de um pregador! -Fraser 
riu entre dentes.
              -Sim -afirmou Roger. sentia-se de uma vez torpe e inexplicavelmente zangado-. Quer dizer, no, no  isso o que acredito. S que... pois... se algo 
j aconteceu que uma maneira, como poderia acontecer de outra?
              -S voc crie que aconteceu -apontou Fraser.
              -No acredito. Sei!
              Hum. Sim, porque vem do outro lado do assunto; tem-no atrs. E se acaso voc no pode trocar algo, mas eu sim, porque para mim ainda est para diante?
              Roger se esfregou com fora a cara.
              -Isso no tie... -Mas se interrompeu. Como dizer que no tinha sentido? s vezes pensava que nada no mundo tinha j sentido-. Possivelmente -reconheceu, 
cansado-. Deus sabe; eu no.
              -Sim. Pois bem, suponho que o averiguaremos muito em breve.
              Roger o olhou com aspereza ao perceber uma nota estranha em sua voz.
              -O que quer dizer com isso?
              -Voc crie saber que morri dentro de trs anos -disse Fraser, com clama-. Se morrer esta noite ser porque est equivocado, no? O que crie que aconteceu 
no ter acontecido; por ende, o passado se pode trocar, sim?
              -No vais morrer! -espetou-lhe Roger.
              -Alegra-me ouvi-lo. Mas agora eu gostaria de beber um poquito desse usque. Tira a cortia, quer? Com estes dedos no poderei sujeit-lo.
              Entregou a cigarreira a seu sogro para que bebesse.
              -Te deite -resmungou, quando Jamie teve terminado-. Vou a por mais lenha.
              No podia estar-se quieto; embora tinha um monto de lenha  mo, vagou pela escurido, sempre  vista do fogo.
              Tinha passado muitas noites como essa. Noites nas que tinha lutado com as alternativas, muito inquieto para tender-se em um cmodo leito de folhagem, 
to atormentado que no podia dormir.
              As opes eram claras, mas nada fceis de escolher. Por uma parte, Brianna e tudo o que a acompanhava; o amor e o perigo, a dvida e o medo. Por outra. 
A seguridd de saber quem e o que era ele, certeza a que tinha renunciado pela mulher que era sua esposa... e o menino que podia ser seu filho.
              Tinha escolhido. Por si mesmo, sem que nada o obrigasse. Assim como tinha escolhido beijar ao Morag. Torceu a boca ao pens-lo, pois ento no tinha 
idia alguma das conseqncias dessa pequena ao.
              Do bosque, detrs dele, surgiu um rudo; lhe arrepiou o cabelo da nuca antes de reconhec-lo; no era risada, como tinha acreditado no princpio, a 
no ser o grito longnquo de um jaguar.
              Levantou-se para rodear silenciosamente a fogueira, olhando para as sombras. Fraser estava tendido na escurido, muito quieto. As manchas lhe tinham 
estendido  cara. Roger notou que suas faces tinham um aspecto congestionado; plpebras e lbios estavam algo tumefactos.  luz vacilante resultava impossvel 
saber se respirava ainda.
              Ajoelhou-se para sacudi-lo com fora.
              -Oua! Est vivo? -Quis diz-lo em tom de brincadeira, mas o medo era evidente em sua voz.
              Fraser no se moveu. Logo abriu lentamente um olho.
              -Sim -murmurou-. Mas no  um prazer.
              Roger no voltou a deix-lo. Limpou-lhe a cara com um pano molhado e lhe ofereceu mais usque, que ele rechaou. Logo tomou assento junto  silhueta 
tendida, atento a cada flego.
              Jamie trocou de posio e o movimento lhe arrancou uma queixa. Roger o acalmou lhe apoiando uma mo no ombro.
              'No v", pensou; as palavras no sortes eram uma bola dura em sua garganta. "Fica conosco. Fica comigo."
              Passou comprido tempo ali, com a mo apoiada no ombro do Fraser. Tinha a absurda idia de que isso equivalia a sujeit-lo, a mant-lo ancorado  terra. 
Se o sujeitava at o amanhecer todo estaria bem; se retirava a mo todo teria terminado. O fogo se ia consumindo, mas ele adiava a necessidade de atend-lo para 
no soltar ao Jamie.
              -MacKenzie? -Foi s um murmrio, mas ele se inclinou imediatamente.
              -Sim. Aqui estou. Quer gua? Uma gota de usque?
              Alargou a mo para a taa, derramando gua em seu nervosismo. Fraser bebeu dois goles e a apartou com um gesto.
              -No sei se estiver no certo ou no -disse. Sua voz soava rouca, mas clara-. Mas se te equivoca e morro, pequeno Roger, h coisas que devo te dizer. 
No quero deix-lo para quando for muito tarde.
              -Aqui estou -repetiu ele, sem saber o que outra coisa dizer.
              -Bonnet. Devo te dizer o que tenho em marcha.
              -Sim? -Pela primeira vez o jovem sentia algo mais que preocupao por seu sogro.
              -H um homem chamado Lyon; Duncan Innes te dir como encontr-lo. Trabalhava na costa; compra a quo contrabandistas operam nos bancos exteriores. 
Durante as bodas me buscou para me propor um negcio com o usque.
              O plano era bastante simples. Jamie queria enviar aviso a esse tal Lyon para lhe informar de que estava disposto a comercializar com ele, sempre que 
se reunisse com ele trazendo para o Stephen Bonnet, como prova de que tinha um homem com a reputao e a habilidade necessria para dirigir o transporte ao longo 
da costa.
              -A reputao necessria -replicou Roger, pelo baixo-. Tem-na, sim.
              -No o aceitar com tanta facilidade; querer impor suas condies, mas acabar por acessar. lhe diga que tem suficiente usque como para que valha 
a pena. lhe d um tonel de dois anos para que prove, se for preciso. Quando vir o que a gente est disposta a pagar por isso, aceitar com gosto. O lugar... 
              Interrompeu-se, com a frente enrugada, e respirou um par de vezes antes de continuar.
              -Eu pensava que fora no Wylie's Landing, mas se deve ir voc, escolhe um lugar de seu agrado. Leva aos Lindsay para que lhe cubram as costas, se quiserem. 
Se no, procura a outro, mas no v sozinho. E v disposto a mat-lo ao primeiro disparo.
              Roger assentiu, tragando saliva com dificuldade.
              -No deixe que te aproxime tanto como para te alcanar com a espada -disse-. aprendeste, mas no o suficiente para te enfrentar ao Bonnet.
              -E voc sim? -disse Roger, sem poder conter-se.
              -OH!, sim -disse seu sogro, em voz baixa-. Se sobreviver. -Logo, com um ataque de tosse, levantou a mo para descartar momentaneamente ao Bonnet-. 
Quanto ao resto... vigia ao Sinclair.  um homem para utilizar, pois sabe tudo o que acontece no distrito, mas jamais lhe d as costas.
              Fez uma pausa para pensar, carrancudo.
              -Pode confiar no Duncan Innes e no Farquard Campbell -disse-. E no Fergus. Fergus te ajudar, se puder. Quanto ao resto... -Voltou a trocar de posio, 
com outra careta-. Te cuide do Obadiah Hendersonl te por a prova. Muitos o faro; deixa-os... mas ao Henderson no. te enfrente a ele  primeira oportunidade; no 
ter outra.
              A voz do Fraser se apagou, j afnica. Teria perdido a conscincia? O ombro no que Roger apoiava a mo estava lasso, inerte. No se atreveu a mover-se.
              de repente Fraser contraiu uma mo. Tinha os dedos inchados como embutidos e a pele, vermelha e brilhante. Roger a cobriu com a mo livre e sentiu 
que os dedos se moviam, tratando de agarr-la.
              -Lhe diga a Brianna que estou orgulhoso dela -sussurrou Jamie-. Que minha espada seja para o pequeno.
              O jovem assentiu com a cabea, sem poder falar. Logo caiu na conta d que Jamie no podia v-lo e pigarreou.
              -Sim. O direi.
              Esperou um momento, mas Fraser no disse nada mais. O fogo estava quase consumido, mas a mo que sustentava queimava como as brasas. Uma rajada de 
ar passou como uma navalhada, lhe agitando o cabelo contra a bochecha, e arrancou do fogo uma sbita chuva de fascas.
              Aguardou tanto como lhe pareceu prudente, enquanto a fria noite se escorria em solitrios minutos. Logo se inclinou para fazer-se ouvir.
              -E ao Claire? -perguntou em voz baixa-. Quer que lhe diga algo?
              Temeu ter esperado em excesso, pois Fraser permaneceu imvel vrios minutos mais. Logo a manaza se agitou, fechando pela metade os dedos inchados; 
foi o fantasma de um gesto, para agarrar o tempo que lhe escapava.
              -Lhe diga... que ia a srio.
      91
      
      Economia domstica
      
      - No vi nada igual em minha vida.-  Inclinei-me um pouco mais para olhar- .  muito estranho.
      - Isso que te aconteceste meia vida como curandeira-  murmurou Jamie, vexado- . No me diga que em sua poca no h serpentes.
      - No centro de Boston no, no muitas.
              Apoiei cautelosamente uma mo no tornozelo. A pele estava torcida, quente e seca. E vermelha. A cara, as orelhas e o pescoo tambm tinham a cor de 
um tomate amadurecido; s tinha escapado a pele clara do peito, mas at ali tinha pontos vermelhos.
      - Parece assado a fogo lento-  comentei com fascinao, esfregando o sarpullido- . Nunca tinha visto algo to vermelho.
      - No acredito que esteja em condies de criticar, Sassenach-  comentou ele, cravando os olhos em meus dedos, manchados de amarelo e azul.
      - OH, maldita seja...!-  Levantei-me de um salto e, depois de cobri-lo apressadamente com os edredons, corri para a porta. Distrada pela dramtica chegada 
do Jamie, tinha deixado sem ateno, no ptio, uma tina cheia de roupa em tintura... e com pouca gua. Se se consumia de tudo e a roupa se queimava...
              Assim que sa  me golpeou na cara um forte fedor a urina e a anil. em que pese a tudo respirei com profundo alvio ao ver ali ao Marsali, vermelha 
pelo esforo de levantar da tina uma massa lhe jorrem, utilizando a grande forquilha de madeira. Apressei-me a ajud-la, agarrando uma a una os objetos fumegantes 
do monto para as tender a secar nas matas de amora.
      - Graas a Deus. Disse, agitando no ar os dedos escaldados para refresc-los- . Tinha medo de ter arruinado tudo.
      - Pois... possivelmente fiquem um pouco escuras.-  Marsali se passou uma mo pela cara para retirar os finos fios loiros que tinham escapado do leno- . Mas 
se o tempo segue bom pode as deixar ao sol para que se decoloren. Anda, vamos tirar a tina antes de que se chamusque!
              As crostas de anil comeavam a rachar-se e enegrecer no fundo do recipiente: Quando o retiramos do fogo nos rodeou uma nuvem de homo acre.
      - No aconteceu nada-  disse Marsali, entre tosses e abanicndose com a mo- . Deixa, mame Claire, que irei a por gua para que se encharque. Voc tem que 
cuidar de papai, verdade? baixei assim que me inteirei. Est muito mal?
      - OH!, obrigado, querida. Acredito que se repor-  assegurei-lhe, dissimulando meus prprios temores- . Encontra-se muito mal e o v ainda pior. Em toda minha 
vida no tinha visto nada assim. Mas se a ferida no se infecta...
      - Ah!, sair adiante-  disse Marsali, confiada- . Fergus diz que quando os encontraram, a ele e ao Roger MAC, parecia morto, mas quando cruzaram a segunda 
colina j estava fazendo umas brincadeiras terrveis sobre a serpente.
              Por minha parte, depois de ter visto o estado de sua perna ferida, no era to otimista, mas sorri para tranqiliz-la.
      - Sim, acredito que ficar bem. vou preparar um cataplasma de cebola e a limpar um pouco a ferida. v ver o enquanto vou procurar as cebolas, quer?
              Por sorte havia cebolas de sobra. Arranquei seis das grandes e as levei a cozinha para as cortar em rodelas.
      - Deixe, a leannan, eu me encarregarei disso.-  A senhora Bug me tirou a faca da mo e cortou energicamente as cebolas- .  para um cataplasma? Sim, isso. 
Com um bom cataplasma de cebola se cura algo.-  Mas jogou para a consulta um olhar cheia de preocupao.
      - Posso ajudar, mame?-  Bree vinha do corredor, tambm preocupada- . Papai parece um espanto. Est bem?
              Apartei-me o cabelo da cara com o dorso da mo; os olhos me jorravam pelas cebolas.
      - Acredito que sim.-  Sorvi pelo nariz enquanto me secava os olhos- . E Roger?
      - Roger est bem.
              Percebi a pequena nota de orgulho em sua voz; Jamie lhe havia dito que seu marido lhe tinha salvado a vida.
      - Dorme-  acrescentou- . Necessita algo, mame?
      - Sim. Pode me buscar algumas cresas? Necessito-as para a perna do Jamie.-  Joguei uma olhada carrancuda ao luminoso dia outonal- . Temo-me que a geada matou 
a todas as moscas; faz dias que no vejo nenhuma. Mas pode procurar no curral; pem seus ovos no esterco quente.
              Pus as rodelas de cebola em uma terrina de cabaa e verti sobre elas um pouco de gua quente. Enquanto se coziam voltei para a clnica. No centro da 
habitao havia uma robusta mesa de pinheiro, que oficiava de uma vez de maca, poltrona de dentista, encimera para preparar drogas ou mesa auxiliar no comilo, segundo 
as exigncias mdicas e o nmero de convidados para jantar. Nesse momento sustentava a silhueta supina do Jamie, apenas visvel sob o monto de edredons e mantas. 
Marsali estava a um lado, com a cabea inclinada para ele, e lhe dava uma taa de gua.
      - Seriamente est bem, papai?-  disse.
      - Pois claro que sim.-  Na voz do Jamie percebi uma intensa fadiga, mas uma mo enorme saiu de entre os edredons para lhe tocar a bochecha- . Fergus fez um 
trabalho estupendo. Manteve ao grupo unido ao longo de toda a noite, pela manh nos encontrou e nos trouxe para todos ss e salvos atravs da montanha. Tem um bom 
sentido da orientao.
              Marsali manteve a cabea inclinada, mas sua bochecha se curvou em um sorriso.
      - Isso lhe disse. Mas no se perdoa por ter permitido que as bestas escapassem. Diz que teria bastado uma s para alimentar a toda a Colina durante o inverno.
              Jamie desprezou o assunto com um grunhido.
      - Bom, j nos arrumaremos.
              Era bvio que lhe custava falar, mas no quis afastar ao Marsali. A presena de sua filha podia distrair o de sua misria.
              Abri o armrio sem fazer rudo, em busca da grande terrina coberta onde guardava as sanguessugas. Tinha dez ou doze das grandes. Retirei trs para 
as pr em  uma tigela de gua limpa, que pus a enfraquecer junto ao braseiro.
              Enquanto dispunha as outras coisas necessrias, escutava os murmrios coloquiais a minhas costas: Germain, a pequena Joan, um puercoespn nas rvores, 
perto da cabana do Marsali e Fergus.
              Gaze para a compressa de algodo, a garrafa de lcool e gua esterilizada, os recipientes de pedra que continham hidrastis, equincea e cnfora. E 
a garrafa com o caldo de penicilina. Ao olhar a etiqueta amaldioei para meus adentros: tinha quase um ms; entre a caada do urso e as tarefas do outono, nas ltimas 
semanas no tinha tido tempo para fazer um cultivo fresco.
              Teria que usar esse. Com os lbios apertados, esmiucei as ervas secas entre as mos, as deixando cair na taa de madeira de haja.
      - As abacaxis cortadas que encontra no estou acostumado a so frescas?-  perguntou Jamie. O puercoespn parecia lhe interessar um pouco mais que o novo dente 
do Joan.
      - Sim, verde e fresco. Estou segura de que anda por ali acima, o condenado, mas essa rvore  imensa e de abaixo no o v. lhe disparar  impossvel.
              A pontaria do Marsali era medocre, mas como Fergus no podia disparar o mosquete com uma s mo, era ela quem caava para alimentar  famlia.
      - Hum...-  Jamie pigarreou com esforo e ela se apressou a lhe dar mais gua- . Esfrega um pau com charque de porco e ponha no cho, no muito longe do tronco. 
Logo, que Fergus se sente a vigiar. Aos puercoespines adoram o sal e a graxa; quando as cheiram se arriscam a descer na escurido. Uma vez em terra, no precisa 
esbanjar balas. Basta golpeando-os na cabea. Fergus pode faz-lo perfeitamente.
              Ao abrir o cofre de meus instrumentos mdicos franzi o cenho ante a bandeja que continha os serrotes e os escalpelos. Escolhi um bisturi pequeno, de 
folha curva; senti a manga fria sob os dedos. Teria que limpar a ferida, retirando a malha morta, os farrapos de pele e os trocitos de folhas, tecido e p, pois 
os homens lhe haviam talher a perna com barro e uma vendagem feita com um sujo leno de pescoo. Logo poderia molhar as superfcies expostas com soluo de penicilina. 
Oxal servisse de algo. 
      - Seria estupendo-  disse Marsali, com certa melancolia- . Nunca cacei esse tipo de animais, mas Ian me h dito que esto ricos; so muito gordos. Alm disso, 
as puas servem para costurar e para muitas outras coisas.
              Mordi-me os lbios ao ver os outros instrumentos. O maior era um serrote dobradia para amputaes de urgncia, e a idia de utiliz-lo agora  fez 
brotar um suor frio sob meus braos.
      - A carne  graxa-  disse Jamie- , mas rica...
              Interrompeu-se abruptamente para trocar de posio com uma queixa afogada.
              Em meus braos e em minhas mos sentia j cada passado do processo de amputao: a tenso de cortar a pele e o msculo, o chiar do osso, a chicotada 
dos tendes, os copos escorregadios, pegajoso, sangrantes, que se escorriam dentro da carne atalho como... serpentes.
      - Necessita carne graxa. Est muito magra,  a muirninn-  disse Jamie pelo baixo, a minhas costas- . Muito magra para estar gerando.
              Dava-me a volta, amaldioando outra vez para meus adentros. Tinha-me parecido, mas tinha a esperana de me equivocar. Trs bebs em quatro anos! E 
com um marido maneta, que no podia fazer o trabalho rude do imvel e no queria ocupar-se do que sim podia fazer,  como cuidar dos bebs e fermentar o malte, porque 
eram " coisas de mulheres" .
              Marsali lanou uma mescla de risada e soluo.
      - Como sabe? No o hei dito sequer ao Fergus. 
      - Pois deveria... embora ele j sabe.
      - H-lhe isso dito?
      - No... mas durante a caada me pareceu que seus transtornos no eram uma simples indigesto. Agora, ao verte, soube que era isto.
              As sanguessugas comeavam a mover-se, estirando lentamente os corpos como bandas elsticas animadas. Apartei o edredom que cobria a perna do Jamie 
e pressionei brandamente aqueles parasitas contra a carne tumefacta, ao redor da ferida.
              Analisei a situao, com a frente crispada e me mordendo os lbios. No sabia que classe de serpente o tinha mordido, mas era bvio que tinha uma potente 
toxina hemoltica. Jamie tinha o corpo coberto de capilares arrebentados e sangrantes, to externos como internos; perto da ferida eram maiores.
              O p e o tornozelo da perna mordida estavam ainda quentes e avermelhados; melhor dizendo, vermelhos. Esse era bom sinal, pois significava que a circulao 
profunda permanecia intacta. O problema era melhorar a circulao perto da ferida, o suficiente para evitar a morte macia das malhas. Mas essas nervuras vermelhas 
me tinham muito preocupada; podiam ser s parte do processo hemorrgico, mas mais provavelmente eram os primeiros signos da septicemia: envenenamento do sangue.
              Olhei-o entreabrindo os olhos. Estava talher de edredons, to doente que logo que podia mover-se, mas mesmo assim as linhas de seu corpo eram elegantes 
e prometiam fora. A idia de me mutil-lo era insuportvel... mas o faria, se era preciso. Deixar aleijado ao Jamie, privar o de um membro... Ao pens-lome contraa 
o estmago e me suavam as mos manchadas de azul. 
              Aceitaria-o ele mesmo?
              Agarrei a taa de gua do Jamie e me bebi isso inteira. No pensava perguntar-lhe Ele tinha direito a escolher, mas era meu e eu tinha decidido. No 
renunciaria a ele, sem que importasse o que fora preciso fazer para conserv-lo.
      - De ver se sente bem, papai?-  Marsali me tinha estado observando. Seus olhos foram do Jamie a mim, assustados. Apressei a reacomodar minhas faces em uma 
expresso de confiana.
              Jamie tambm me estava observando. Torceu o gesto para cima.
      - Pois sim, isso acreditava eu. Mas agora no estou to seguro.
      - O que acontece? Sente-se pior?-  perguntei, ansiosa.
      - No, sinto-me bem-  assegurou-me, embora era uma mentira descarada- . Solo que quando me machuco, sempre que no h perigo, arreganha-me como uma arpa. 
Mas quando estou desesperadamente mal fica tenra como o leite. E esta vez no me h dito costure feias, nenhuma palavra de recriminao, desde que cheguei a casa, 
Sassenach. Significa isso que vou morrer?
              Tinha uma sobrancelha arqueada em gesto de ironia, mas em seus olhos detectei um sotaque de autntica preocupao. Agarrei flego e lhe apoiei as mos 
nos ombros.
      - Condenado estpido! Olhe que pisar em uma serpente! No podia olhar onde punha o p?
      - No, pois ia costa abaixo, seguindo a mil toneladas de carne-  replicou ele, sorridente.
              Senti uma pequena relaxao muscular sob a mo. Tive que reprimir o impulso de lhe devolver o sorriso. Em troca lhe cravei um olhar fulminante.
      - Pois me deste um susto de mil demnios!
      - E crie que eu no me assustei?
      - No est autorizado-  assinalei com firmeza- . S podemos nos assustar de um em um. E este  meu turno.
              Isso o fez rir, mas  risada seguiu um ataque de tosse e um forte calafrio.
      - me traga uma pedra quente para seus ps-  ordenei ao Marsali, enquanto o agasalhava apressadamente com os edredons- . E tambm uma bule cheia de gua fervendo.
              Ela voou para a cozinha. Eu joguei uma olhada  janela, me perguntando se Brianna teria tido sorte em sua busca de cresas. Eram insuperveis para limpar 
feridas supurantes sem causar danos nas malhas ses.
              Enquanto pensava isso levantei o bordo do edredom para jogar uma olhada a meus outros assistentes invertebrados. Lancei um pequeno suspiro de alvio. 
As sanguessugas operavam depressa; j tinham comeado a inchar-se com o sangue acumulado nas malhas da perna, proveniente dos capilares quebrados. Sem essa presso, 
talvez recuperasse uma circulao saudvel, a tempo para manter vivos os msculos e a pele.
              Vi sua mo obstinada ao bordo da mesa; seus calafrios piavam a minhas coxas, pressionados contra a madeira. Agarrei-lhe a cabea entre as mos; suas 
bochechas queimavam.
      - No vais morrer!-  vaiei- . De maneira nenhuma! No lhe permitirei isso!-  E lhe aproximei a taa de penicilina aos lbios para que bebesse.
              Marsali havia trazido a bule cheia de gua fervendo. Verti a maior parte nas ervas que tinha preparadas e, enquanto repousavam, servi-lhe uma taa 
de gua fresca para lhe tirar o sabor da penicilina. Ele tragou novamente, com os olhos ainda fechados, e se recostou contra o travesseiro.
      - O que  isso?-  perguntou- . Tem sabor de ferro.
      - gua. Tudo te tem sabor de ferro; sangram-lhe as gengivas.-  Dava- a jarra vazia ao Marsali para que trouxesse mais- . Lhe ponha mel-  disse- . Uma parte 
de mel por cada quatro de gua.
      - O que precisa  ch de carne-  disse ela, observando-o com a frente crispada- . Isso haveria dito minha mame. E minha av. Quando algum perdeu muito sangue 
no h como o ch de carne.
              Me ocorreu que Marsali devia estar gravemente preocupada, pois estranha vez mencionava a sua me diante de mim, graas a seu natural sentido do tato. 
No obstante, por uma vez a maldita Laoghaire estava no certo; o ch de carne teria sido excelente... se tivssemos tido carne fresca. E no tnhamos.
      - gua com mel-  disse brevemente. E a joguei da habitao.
              Enquanto ia em busca de reforos para as sanguessugas, detive-me olhar pela janela, para ver o que tinha conseguido Brianna.
              Estava no curral, descala e com as saias recolhidas por cima do joelho, sacudindo o esterco de um p. 
      Isso significava que at o momento no tinha tido sorte.  lombriga na janela agitou a mo. Logo, assinalou a tocha e o limite do bosque. Fiz-lhe um gesto 
de assentimento; possivelmente um tronco podre oferecesse alguma possibilidade.
              Jemmy estava no cho, a pouca distncia, com as andaderas a perto do curral. J no as necessitava para manter-se em p, por certo, mas serviam para 
impedir que escapasse enquanto sua me estava atarefada.
              Um rudo me fez girar em redondo; Jamie voltava lentamente para seu ninho de edredons, com o aspecto de um grande preguioso carmesim, com meu serrote 
para amputaes em uma mo.
      - Que diabos faz?
              Deitou-se devagar, entre caretas de dor e respirando em compridos ofegos. Logo apertou contra o peito o serrote dobrado.
              Levantou o instrumento um par de centmetros.
      - No-  disse categoricamente- . Sei o que pensa, Sassenach, e no lhe permitirei isso.
      - Sabe que no o faria se no fora absolutamente necessrio.
      - No-  disse uma vez mais, me olhando com sua familiar obstinao.
      - No sabe o que poderia acontecer...
      - Sei melhor que voc o que est acontecendo com minha perna, Sassenach-  interrompeu-me. Fez uma pausa para respirar um pouco mais- . No me importa.
      - Pode que a ti no, mas a mim sim.
      - No vou morrer-  assegurou- . E no quero viver com meia perna. Horroriza-me.
      - Pois tampouco eu gosto de muito pens-lo. Mas e se for preciso escolher entre sua perna e sua vida?
      - No  preciso.
      - Poderia s-lo!
      - No ser assim.
      - De acordo-  disse, com os dentes apertados- . Me d essa intriga para que o guarde.
      - Quero sua palavra. Pode que a febre me faa perder a conscincia. E no quero que me corte a perna se no estar em condies de impedi-lo.
      - Se chegar a esse estado no terei alternativa!
      - Talvez voc no-  replicou sem alterar-se- , mas eu sim. Decidi-o. me d sua palavra, Sassenach.
      - Me indigna que seja to impossivelmente...!
              Um alarido fora me impediu de continuar. Voltava-me para a janela, a tempo para que Marsali deixava cair dois cubos cheios ao cho. A gua lhe empapou 
a saia e os sapatos sem que ela emprestasse ateno. Ao seguir a direo de seu olhar afoguei um grito.
              Tinha cruzado a perto do curral sem problemas, rompendo os paus como se fossem fsforos, e agora estava entre as aboboreiras que cresciam junto  casa, 
mascando as trepadeiras. Era enorme, bruno e lanzudo. E Jemmy, a trs metros escassos, olhava-o com os olhos muito redondos e a boca aberta.
              Marsali lanou outro chiado. Jemmy, contagiado por seu terror, comeou a gritar chamando a sua me. Com a sensao de me mover a cmara lenta tirei 
o serrote ao Jamie e sa ao ptio. Enquanto baixava os degraus da entrada, Brianna saiu do bosque. Corria em silncio, com a tocha na mo e a cara tensa, decidida.
              Elevou a tocha para trs em plena carreira e a descarregou em arco ao dar o ltimo passo. Golpeou com todas suas foras, justo detrs das orelhas da 
enorme besta. Uma fina garoa de sangue foi salpicar as cabaas. O animal, com um bramido, baixou o testuz para lanar-se  carga.
              Bree se fez a um lado para esquiv-lo. Logo se lanou para o Jemmy. De joelhos junto a ele, atirou das correias que o sujeitavam a perto. Pela extremidade 
do olho vi que Marsali agarrava das saras uma angua recm tinta.
              Eu tinha desdobrado o serrote durante minha carreira. Com dois golpes cortei as correias do Jemmy e o levantei para cruzar novamente o ptio. Marsali 
tinha arrojado a angua sobre a cabea do biso, que sacudia o testuz e se balanava de um lado a outro, desconcertado; o sangue parecia negra contra o verde amarelado 
do tingido recente.
              Deu um passo e outro. Cravei os dedos em sua l para sujeit-lo. Os tremores que lhe percorriam me sacudiram como um terremoto. Como em um sonho, segura 
do que fazia, deslizei uma mo sob os beiudos babeantes; seu flego quente se meteu dentro de minha manga. O grande pulso pulsava no ngulo da mandbula; visualizei-o 
em minha mente: o grande corao carnudo e o sangue que bombeava, clida em minha mo, fria contra a bochecha, que se apertava  angua empapada.
              Passei o serrote atravs do pescoo, cortando com fora. Nas mos, nos antebraos, senti a tenso de cortar a pele e o msculo, o chiar do osso, a 
chicotada dos tendes, os copos escorregadios, pegajosos, sangrantes, que se escorriam at perder-se.        
              O animal se voltou bruscamente e caiu com um golpe surdo.
              Quando voltei em mim estava sentada em metade do ptio, com uma mo ainda obstinada a seu cabelo; me tinha intumescido uma perna sob o peso da cabea 
do biso e tinha as saias pegas s coxas, fedorentos e empapadas de sangue.
              Algum disse algo. Ao levantar a vista vi o Jamie a gatas nos degraus da entrada, boquiaberto e completamente nu. Marsali, sentada no cho, com as 
pernas estiradas para diante, abria e fechava a boca sem dizer nada.
              Brianna se inclinou para mim, com o Jemmy em braos.
      - Est bem, mame?-  perguntou Bree.
              Ento ca na conta de que j me tinha perguntado isso vrias vezes. Baixou uma mo para apoi-la brandamente em minha cabea.
      - No sei-  disse- . Acredito que sim.
              Retirei trabalhosamente a perna e me pus de p, me apoiando nela. Percorriam-na os mesmos tremores que tinham sacudido ao biso; tambm a mim. Mas 
foram cessando. Agarrou flego e baixou a vista para a enorme cabea de gado. Assim, tendida de lado, chegava-lhe quase  cintura. Marsali se reuniu conosco, movendo 
a cabea com sobressalto.
      - Santa Me de Deus, como faremos para carnear todo isso?-  disse.
      - Pois...-  Passei-me uma mo trmula pelo cabelo- . Suponho que nos arrumaremos isso.
      
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      Com uma pequena ajuda de meus amigos
      
              Apoiei a frente contra o frio cristal da janela de minha consulta, piscando ante a cena do ptio. As pceas se destacavam negras contra o resplendor 
moribundo, ao igual  forca levantada no centro do ptio e os horripilantes restos que pendiam dela. Perto das saras se acendeu uma fogueira. As silhuetas dos que 
ali estavam corriam por toda parte, como se entrassem e sassem entre as sombras e as chamas. Uns davam conta da cabea de gado pendurada, com ajuda de facas e plainas; 
outros se retiravam a passo lento, com grandes partes de carne e cubos de graxa.
              Apesar da escurido, distingui a silhueta alta e clara da Brianna entre a horda de demnios que atacavam o biso. " Mantendo a ordem" , disse-me.
              Assim que comearam a aparecer os homens, que vinham de suas casas ao meio vestir, sem barbear e com os olhos brilhantes de entusiasmo, ordenou serenamente 
que se cortassem madeiros para construir um armao capaz de iar e sustentar uma tonelada de carne. Em um princpio os homens, desgostados por no ter participado 
da matana, no lhe emprestaram muita ateno. Mas Brianna era alta, chamativa, falava com energia... e lhe sobrava empecinamiento. 
      - Quem tem feito esse corte?-  interpelou, olhando de frente a Geordie Chisholm e a seus filhos, que se aproximavam da cabea de gado com as facas na mo.
              depois de assinalar a profunda machadada na nuca, passou uma mo lenta pela manga, mostrando o sangue que a manchava.
      - E esse?-  Um p descalo assinalou delicadamente o pescoo talhado e o atoleiro de sangue que se coagulava no ptio.
              Da janela vi que mais de uma cara se voltava para a casa, compreendendo ao fim que Brianna era a filha do Senhor, feito que os prudentes tinham muito 
em conta.
              Mas foi Roger quem trocou a direo da mar, com um olhar frio que ps aos irmos Lindsay atrs dele, tocha em mo.
      - Ela o matou-  disse, com seu grasnido rouco- . Faam o que manda.
              E quadrou os ombros; sua expresso dizia s claras que no haveria mais controvrsia. Ao ver isto Fergus, com um encolhimento de ombros, agachou-se 
para agarrar a besta pelo rabo.
      - Onde quer voc que a ponhamos, madame?-  perguntou cortesmente.
              Todos os homens puseram-se a rir; logo, com olhadas tmidas e gestos de resignao, somaram-se a contra gosto ao trabalho, seguindo suas indicaes.        
              Brianna tinha dirigido a seu marido um olhar de surpresa; logo, de gratido. Finalmente se fez cargo de tudo o trabalho, com resultados notveis. Logo 
que entardecia e o biso j estava quase despiezado; sua carne, distribuda entre todas as famlias da Colina.
              Joguei uma olhada  mesa, onde Jamie seguia envolto em mantas. Teria querido que o levassem acima, a sua cama, mas ele insistiu em ficar abaixo, onde 
poderia ouvir o que acontecia.
      - Quase terminaram que carnear-  disse-lhe- . Brianna fez um trabalho estupendo.
      - Seriamente?-  Tinha os olhos entreabiertos, mas fixos com esse olhar febril, esse atordoamento empapado em sonhos em que as sombras se retorcem no ar ondulante 
do fogo.
              J ficava muito pouco do biso, salvo um monto de ossos despojados. Chegou-me um vago aroma de carne assada, a lenha queimada e a caf. Imediatamente 
abri a janela de par em par, dando passo a esses apetitosos aromas.
      - Tem fome, Jamie?-  perguntei. Por minha parte estava faminta, embora no o tinha notado at cheirar a comida.
      -  No-  disse ele, sonolento- . No quero nada.
      - Deveria tomar um pouco de sopa, se puder, antes de dormir.
              Voltei-me para lhe apartar o cabelo da cara. O rubor se esfumou um pouco, ao parecer; era difcil assegur-lo  luz incerta do fogo e a vela. Tnhamo-lhe 
dado aguamiel e ch de ervas em quantidade, de modo que j no tinha os olhos afundados pela desidratao, mas os ossos dos mas do rosto e as mandbulas lhe sobressaam. 
Levava mais de quarenta e oito horas sem comer e a febre estava consumindo uma enorme quantidade de energia, com o que esgotava suas malhas.
      - Necessita mais gua quente, senhora?-  Lizzie apareceu no vo da porta, com o Jemmy nos braos.
      - No, Lizzie, obrigado. Tenho suficiente.
              Abriu-se a porta da casa, deixando entrar uma forte rajada que avivou as brasas do braseiro. Escutei rudo de ps descalos nas pranchas do corredor.
              Eu j tinha escutado com antecedncia a expresso " de sangue at as sobrancelhas" , mas semelhante coisa no se via freqentemente, salvo no campo 
de batalha. As sobrancelhas da Brianna no eram visveis, pois eram o bastante vermelhas para confundir-se com o sangue que lhe cobria a cara. Jemmy, depois de olh-la 
bem, curvou a boca para baixo em expresso de dbia inquietao, ao bordo de um grito.
      - Sou eu, carinho-  tranqilizou-o ela.
              E alargou uma mo para o menino, mas se deteve antes de toc-lo. Jemmy no rompeu a chorar, mas escondeu a cara contra o ombro do Lizzie. 
              Brianna passou por cima de uma vez o rechao de seu filho e o fato de que estava deixando por todos lados pisa de barro e sangue a partes iguais.
      - Olhe-  disse, alargando para mim o punho.
              Abriu os dedos em um gesto reverencial, para me mostrar  seu tesouro: um punhado de diminutos vermes brancos se retorcia entre eles. Ao v-los o corao 
me deu um tombo de entusiasmo.
      - So dos bons?-  perguntou ela, ofegante.
      - Acredito que sim. me deixe ver.
              Apressei-me a pr as folhas molhadas da infuso em um prato pequeno, para oferecer aos vermes um refgio temporrio. Brianna os colocou brandamente 
ali e ps o prato na encimera, junto ao microscpio, como se contivera p de ouro em vez de cresas. Agarrei um dos vermes com o bordo de uma unha para p-lo em um 
portaobjeto. Fiz gestos ao Bree para que me aproximasse outra vela. 
      - S uma boca e uma tripa-  murmurei, inclinando o espelho para que refletisse a luz. Era muito tnue para trabalhar com o microscpio, mas talvez alcanasse 
neste caso- . Pequenos gluto.
              Contive o flego para olhar pelo frgil ocular, forando a vista. As larvas da moscarda azul tm uma s linha visvel no corpo; as larvas da mosca 
borriquera, dois. As linhas so tnues, invisveis a simples vista, mas muito importantes. As cresas da moscarda azul comem carnia e s carnia: carne morta e em 
putrefao. Em troca, as larvas da mosca borriquera se cravam na carne viva, para consumir o msculo e o sangue do hspede. No era algo que eu queria inserir em 
uma ferida recente!
              Fechei um olho para que o outro se adaptasse s sombras mveis do ocular. O cilindro escuro do corpo se retorcia para todos lados ao mesmo tempo. Uma 
linha estava claramente  vista. Havia outra? Olhei at que me lacrimejou o olho. Mas no vi nenhuma outra. Ento deixei escapar o flego que tinha contido at ento, 
e me relaxei.
      - Parabns, papai-  disse Brianna, aproximando-se do Jamie. 
      - Sim?-  disse Jamie- . por que?
      - Pelas cresas. So tua obra-  explicou. E abriu a outra emano para mostrar uma parte de metal disforme. Era uma bala de rifle esmagada- . As cresas estavam 
em uma ferida que o biso tinha nos quartos traseiros. Isto apareceu no buraco, detrs delas.
              Pus-se a rir, tanto de alvio como por diverso.
      - Jamie! Disparou-lhe no culo?
      - No acreditava lhe haver dado-  disse- . S tentava desviar o rebanho para o Fergus.
      - Talvez deva conserv-la como amuleto-  disse Brianna; falava em tom ligeiro, mas havia um sulco entre seus invisveis retrocede- . Ou para mord-lo enquanto 
mame te cura a perna.
      - Muito tarde-  disse, com um dbil sorriso.
              S ento viu ela a pequena correia de couro que ele tinha na mesinha, perto da cabea, marcada com as profundas marcas de seus dentes. Olhou-me com 
espanto. Eu encolhi um ombro: tinha passado mais de uma hora lhe limpando a ferida da perna; no tinha sido fcil para nenhum dos dois.
              Esclareci-me garganta e voltei para as cresas. Pela extremidade do olho vi que Bree posava o dorso da mo contra a bochecha do Jamie. Ele girou a cabea 
para lhe beijar os ndulos, sem emprestar ateno ao sangue.
      - No se preocupe, moa-  disse-lhe. Sua voz era dbil, mas firme- . Estou bem.
              Deixei cair as cresas em uma tigela de gua esterilizada e as removi rpido antes das pr novamente no leito de folhas midas.
      - No doer-  disse, tanto para tranqilizar ao Jamie como a mim mesma.
      - J sim-  replicou ele, com um cinismo imprprio nele- . J sei disso.
      - Em realidade, tem razo-  manifestou uma voz suave e rouca a minhas costas.
              Roger j se lavou; tinha o cabelo molhado contra o pescoo da camisa e levava roupa limpa.
      - Como est?-  perguntou em voz baixa.
      - Sairei adiante.
      - Me alegro.
              Para minha surpresa, Roger lhe estreitou o ombro em um breve gesto de consolo. Era a primeira vez que o via fazer isso; uma vez mais me perguntei o 
que teria acontecido entre ambos na montanha.
      - Marsali vai trazer te um pouco de caldo de carne-  disse-me. E enrugou a frente ao me observar- . Conviria que voc tambm bebesse um pouco.
      - Boa idia.-  Fechei os olhos um instante, e respirei fundo.
              S ao me sentar ca na conta de que estava em p desde primeira hora da manh.
      - Bom, o tempo e a mar no esperam pelas cresas-  disse, enquanto fazia um esforo por me levantar outra vez- . Ser melhor que ponhamos mos  obra.
              Jamie lanou um breve bufo e se estirou; logo, a contra gosto, relaxou o corpo para preparar-se. Observou-me com resignao enquanto eu preparava o 
prato de cresas e os frceps; por fim alargou a mo para a correia.
      - No necessita isso-  assegurou Roger; aproximou outro tamborete para sentar-se- . O que te h dito  certo: esses insetos no fazem mal.
              Jamie voltou a soprar. O jovem lhe sorriu de brinca a orelha.
      - Isso sim: picam que  uma alegria, mas s se pensar nelas. Se lhe as estorvas da mente, no so nada.
      - Que grande consolo me d, MacKenzie. 
              No poderia ter sido mais fcil; simplesmente retirei o emplastro de cebolas e prendi as cresas, uma a uma, nos talhos ulcerados da pantorrilha. Roger 
se aproximou por detrs de mim para observar.
      - Quase parece uma perna-  disse, surpreso- . No o esperava.
              Sorri sem olh-lo, muito concentrada em minha delicada tarefa.
      - As sanguessugas so muito efetivas-  disse- . Fez uma porcaria com a faca, pr tambm foi til; deixou buracos to grandes que o pus e o fluido puderam drenar; 
isso ajudou.
              Era certo; embora a perna ainda estava quente e muito arroxeada, a tumefao tinha cedido notavelmente. Voltavam a ser visveis a larga morna e o delicado 
arco do p e o tornozelo. Eu no me fazia iluda: ainda havia perigo de infeco, gangrena e crostas, mas mesmo assim meu corao estava mais aliviado. Era, reconociblemente, 
a perna do Jamie.
              Pesquei outro verme por detrs da cabea, cuidando de no esmag-lo com o frceps e retirei o bordo da pele com a magra sonda que tinha na outra mo, 
para inserir aquela diminuta lombriga nesse oco entre a pele.
      - Preparado-  disse um momento depois. E repus o cataplasma. Cebolas e alhos fervidos, envoltos em musselina e empapados em caldo de penicilina; assim a ferida 
se manteria mida e seguiria drenando. Se a renovvamos cada hora, era de esperar que o calor do emplastro facilitasse tambm a circulao da perna. Logo, uma vendagem 
com mel, para evitar qualquer outra invaso bacterial.
              A simples concentrao me tinha mantido as mos firmes. Agora tudo parecia e s ficava esperar. O pires de folhas molhadas repicou contra a encimera.
              No acreditava me haver sentido to cansada em toda minha vida.
      
      
      

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      Decises
      
              Entre o Roger e o senhor Bug levaram ao Jamie a nosso dormitrio. Eu teria preferido no mover essa perna com um traslado, mas ele insistiu.
      - No quero que durma no cho aqui embaixo, Sassenach-  disse ante meus protestos, sonrindome- . Deve estar em sua cama. E como no querer me deixar sozinho, 
isso significa que eu tambm devo estar ali, no?
              Teria querido discutir, mas em realidade estava to cansada que no me teria ficado muito se ele tivesse exigido que ambos dormssemos no celeiro.
              No obstante, minhas dvidas retornaram assim que  o tivemos instalado.
      - Moverei-te a perna-  aduzi, enquanto pendurava meu vestido em um dos cabides- . Ser melhor que loja um jergn aqui, junto ao fogo, e...
      - Nada disso-  disse ele, decidido- . Dormir comigo.
      - Seria capaz de discutir at no leito de morte-  protestei, chateada- . No faz falta que esteja sempre ao leme, sabe?
              Ele abriu os olhos para me cravar um tenebroso olhar azul.
      - Sassenach-  disse brandamente.
      - O que?
      - Eu gostaria que me tocasse... sem me fazer danifico. S uma vez antes de dormir. Incomodaria-te muito?
              Fiquei terrivelmente desconcertada ao cair na conta de que ele tinha razo. Apanhada na emergncia, preocupada com seu estado, durante todo o dia s 
lhe tinha feito costure dolorosas e violentas. Marsali, Brianna, Roger, Jemmy... todos o haviam meio doido com doura, lhe oferecendo solidariedade e consolo. Eu... 
eu estava to aterrorizada pelo que podia acontecer, por isso podia lombriga obrigada a lhe fazer, que no me tinha concedido um oco para a ternura. Apartei a vista 
um momento, piscando at que as lgrimas retrocederam. Ento me levantei para me aproximar da cama e o beijei com muito carinho.
      - Quero que durma a meu lado, Sassenach-  sussurrou.
      - Est bem.-  Sorri-lhe.
              Ajoelhei-me para sufocar o fogo e apaguei a vela. Depois deitei a seu lado, com suavidade, para no sacudir a cama. Ele estava de flanco, de costas 
a mim. Imitei a curva de seu corpo com o meu, cuidando de no toc-lo.
              Sua respirao era artificial, mas estvel; mantinha os ombros relaxados. Precisava descansar mais que nenhuma outra coisa. Mas ao mesmo tempo morria 
por toc-lo. Queria comprovar que estava ali, vivo a meu lado..., precisava saber como estava.
              Tinha febre? A incipiente infeco da perna, tinha progredido, apesar da penicilina, pulverizando o veneno atravs do sangue?
              Movi a cabea com cautela, at ter a cara a dois centmetros de suas costas, e aspirei lenta, profundamente. Sentia seu calor contra a cara, mas o 
tecido da camisa no me permitia calcular sua temperatura.
              No havia aroma de pus. Era muito logo para perceber o da gangrena, at se a podrido estivesse comeando, invisvel sob as vendagens. Mas acreditava 
perceber um sotaque estranho sob sua pele, algo que nunca antes tinha percebido. Necrose das malhas? Algum subproduto do veneno ofdico? Deixei escapar o ar pelo 
nariz e inalei de novo, mais fundo.
      - Empresto muito?-  perguntou ele.
      - Ai!-  No coice me tinha mordido a lngua. Ele se estremeceu apenas, por algo que tomei como risada contida.
      - Parece um porco procurando trufas, Sassenach, de tanto como fareja a detrs.
      - V, v-  exclamei, um pouco ofendida. Toquei o ponto dolorido de minha lngua- . Bom, ao menos est acordado. Como te encontra?
      - Como um monto de tripas mofadas.
      - Muito pitoresco. Poderia ser um pouco mais concreto?-  Apoiei-lhe uma mo no flanco e ele deixou escapar o flego; soou como um pequeno gemido.
      - Como um monto de tripas mofadas-  repetiu, e se deteve para respirar com fora- ... com cresas.
      - Seria capaz de brincar em seu leito de morte, verdade?-  Inclusive ao diz-lo senti um estremecimento de preocupao.
      - Pois o tentarei, Sassenach-  murmurou, sonolento- . Mas nestas circunstncias no se pode esperar muito de mim.
      - Di-te?
      - No. S estou... cansado.-  Na verdade falava como se estivesse muito exausto para procurar a palavra correta e tivesse escolhido essa por simples abandono.
      - No sente saudades. Deitarei-me a dormir em outro stio, para que possa descansar.
              ia apartar os cobertores, mas ele levantou uma mo para me impedir isso 
      - No. No me deixe.-  Baixou o ombro para mim e fez um esforo para levantar a cabea do travesseiro. Intranqilizou-me ainda mais notar que estava muito 
fraco para d-la volta por si s.
      - No te deixarei. Mas talvez seja melhor que durma na poltrona. No quero...
      - Tenho frio-  disse brandamente- . Tenho muito frio.
              Oprimi apenas os dedos sob seu esterno, procurando o grande pulso abdominal. O batimento do corao era rpido e mais superficial do que correspondia. 
No estava afiebrado. No s tinha frio, mas tambm estava gelado ao tato. Isso me alarmou.
              J perdida a cautela, me acurruqu contra ele, apertando os peitos contra suas costas, com a bochecha apoiada contra sua omoplata. Concentrei-me em 
gerar calor e irradi-lo a sua pele atravs da minha. Com muita suavidade procurei o bordo de sua camisa e atirei dela para cima; logo curve as mos para as ajustar 
a redondez de suas ndegas. esticaram-se um pouco, surpreendidas, mas voltaram a relaxar-se.
      - Claire-  disse ele, pelo baixo- , me toque.
              No ouvia o pulsar de seu corao, mas sim o meu: um som denso e surdo no ouvido apoiado no travesseiro.
              Deslizei a mo pelo pendente de seu ventre e descendi com mais lentido, abrindo com os dedos o matagal spero e frisado, at abranger suas formas 
arredondadas. O pouco calor que havia nele estava tudo ali. Acariciei-o com o polegar e senti que se movia. Jamie exalou o flego em um comprido suspiro e seu corpo 
pareceu fazer-se mais pesado, afundar-se no colcho ao relaxar-se.
              Sentia-me muito estranha, j sem medo, mas com todos os sentidos sobrenaturalmente agudizados e de uma vez... em paz. J no tinha conscincia de mais 
rudos que a respirao do Jamie e o palpitar de seu corao, que enchiam a escurido.
              Um momento depois comecei a me mover; quer dizer: movamo-nos juntos. Uma mo se estirou entre os dois, subiu entre suas pernas; a ponta de meus dedos, 
justo detrs de seu testculo. Minha outra mo o rodeou, movendo-se com o mesmo ritmo que me flexionava as coxas e levantava meus quadris para puxar contra ele desde 
atrs.
              Poderia hav-lo feito eternamente; talvez era assim. No tinha noo do passado do tempo: s de uma paz sonhadora e desse ritmo lento e parecido, enquanto 
nos movamos na escurido. Em algum momento, em algum lugar, percebi um palpitar firme: primeiro, em uma mo; logo, em ambas. fundia-se com o batimento do corao 
de seu corao.
              Ele suspirou larga, profundamente, e eu senti que o ar brotava de meus prprios pulmes. Ficamos em silncio. E juntos nos deslizamos para a inconscincia.
      
      
      
              Despertei com uma sensao de paz absoluta. Imvel, sem pensar, escutei o palpitar do sangue em minhas veias. Por fim recordei, e, bruscamente, dava-me 
a volta na cama. Seus olhos estavam fechados; sua pele tinha a cor do marfim antigo. Farejei com pressa. A habitao estava ftida pelo aroma de cebolas, mel e suor 
febril, mas sem o fedor da morte sbita.
              Golpeei-o com uma mo no centro do peito. Ele deu um coice, sobressaltado, e abriu os olhos.
      - Cretino!-  disse, to aliviada ao sentir o movimento de seu peito que me tremeu a voz- . Queria morrer, no?
              Piscou ao me olhar. Tinha os olhos inchados, ainda nublados pela febre.
      - No fazia falta muito esforo, Sassenach-  disse em voz baixa, rouca pelo sonho- . No morrer era mais difcil.
               luz da manh entendi claramente o que o esgotamento e os efeitos posteriores do golpe emocional me tinham impedido de notar a noite anterior. Seu 
empecinamiento em dormir em sua prpria cama. As persianas abertas, para ouvir as vozes de sua famlia e seus arrendatrios. E eu, a seu lado. Muito cuidadosamente, 
sem me dizer uma palavra, tinha decidido como e onde queria morrer.
      - Quando lhe trouxemos acima pensou que estava a ponto de morrer, verdade?-  perguntei.
      - Pois no sabia com certeza-  reconheceu lentamente- , mas me sentia muito mal.-  Fechou os olhos, como se o cansao lhe impedisse de mant-los abertos- . 
E sigo assim-  acrescentou, com certo desapego- m mas no tem por que preocupar-se. tomei uma deciso.
      - Que diabos quer dizer com isso?
              Ele respirou fundo um par de vezes; logo girou a cabea para me olhar.
      - Quero dizer que ontem  noite pude ter morrido.
              Era muito certo, mas ele se referia a outra coisa. Expressava-o como se fora algo consciente.
      - O que significa isso de que tomaste uma deciso? decidiste no morrer, depois de tudo?-  Tratei de falar com ligeireza, mas no me saiu muito bem. Recordava 
muito bem essa estranha sensao de quietude atemporal que nos tinha rodeado.
      - Foi muito estranho-  disse- . E ao mesmo tempo no foi absolutamente.
      - Seria melhor que me explicasse o que aconteceu.
      - Em realidade no sei, Sassenach. Quer dizer, sim, mas no sei como express-lo.
              Ainda parecia cansado, mas manteve os olhos abertos e fixos em minha cara, vividamente azuis  luz da manh.
      - Quando Arch e Roger MAC me trouxeram, encontrava-me muito mal, sim- disse- . Terrivelmente decomposto. A perna e a cabea palpitavam a cada pulsado do corao, 
a tal ponto que esperava o seguinte com medo. E a escutar os espaos entre um e outro. Embora no o parea-  disse, vagamente surpreso- , h muito tempo entre um 
e outro pulsado do corao.
              Disse que, nesses intervalos, tinha comeado a desejar que o batimento do corao seguinte no chegasse. E pouco a pouco caiu na conta de que seu corao 
se fazia mais lento... e a dor, mais remoto, como se fora independente dele. Sua pele se esfriava; a febre desaparecia do corpo, deixando na mente uma estranha claridade.
      - Agora vem o que no posso explicar, Sassenach. Mas... vi.
      - O que viu?-  mas j sabia que no me poderia dizer isso Como todos os mdicos, havia visto doentes que decidiam morrer. E s vezes olhavam assim, com os 
olhos muito fixos em algo, ao longe.
              Ele vacilou, esforando-se por achar palavras. Me ocorreu algo e me apressei a ajud-lo.
      - Conheci uma anci que morreu no hospital onde eu trabalhava; com ela estavam todos seus filhos, j adultos. Foi muito aprazvel.
              Baixei a vista a meus dedos entrelaados com os seus, ainda vermelhos e inchados.
      Morreu. Eu a vi morta; seu pulso se deteve e no respirava. Todos seus filhos choravam junto  cama. E de repente abriu os olhos. No olhava a ningum, mas 
via algo. Logo disse, com toda claridade: " Oooh!"  Assim, com emoo, como uma menina que acabasse de ver algo maravilhoso. E fechou os olhos outra vez.-  Pisquei 
para afastar as lgrimas- . Foi... assim?        
              Assentiu sem dizer nada. Sua mo se esticou na minha.
      - Mais ou menos-  murmurou.
              Encontrou-se extraamente suspenso, em um lugar que no podia descrever absolutamente; sentia-se completamente em paz... e via com toda nitidez.
      - Ante mim parecia haver... no era exatamente uma porta, a no ser uma espcie de passagem. Eu podia atravess-lo, se queria. E queria, sim-  adicionou, me 
olhando de soslaio com um sorriso tmido.
              Tambm sabia o que deixava atrs. E compreendeu que nesse momento podia escolher: ir para diante... ou retroceder.
      - Foi ento quando me pediu que te tocasse?
      - S voc podia me trazer de volta-  disse simplesmente- . Eu no tinha foras.
              Senti um grande n na garganta; no podia falar, mas lhe estreitei a mo.
      - por que?-  disse ao fim- . por que... decidiu ficar ?
      - Porque me necessita-  disse muito fico.
      - No foi porque me ama?
               Levantou a vista com a sombra de um sorriso.
      - Sassenach... te amo agora e te amarei sempre. Embora more, embora voc morra, estejamos juntos ou separados. Sabe.-  Tocou-me a cara- . Eu sei de ti e voc 
sabe de mim.
              Logo inclinou a cabea; o cabelo vermelho lhe caiu sobre a bochecha.
      - No me referia s a ti, Sassenach. Ainda tenho coisas que fazer. Por um momento pensei que talvez no era assim, que lhes poderiam arrumar isso Com o Roger 
MAC, o velho Arch, Joseph e os Beardsley... Mas se mora uma guerra e ...-  Fez uma leve careta- . Para minha desgraa, sou chefe. Deus me tem feito o que sou. Deu-me 
esse dever... e devo faz-lo, qualquer que seja o preo.
      - O preo-  repeti, intranqila.
              Em sua voz percebia algo mais duro que a resignao. Ele jogou um olhar quase indiferente para os ps da cama.
      - Essa perna no est muito pior-  disse com ligeireza- , mas tampouco melhora. Acredito que ter que cort-la.
      
      
      
              Sentada em minha consulta, olhava pela janela, tratando de encontrar outra maneira. Tinha que haver outro recurso.
              Jamie tinha razo; as linhas vermelhas continuavam ali. No tinham avanado mais, mas ali estavam, feias e ameaadores. A penicilina oral e tpica 
parecia ter causado algum efeito na infeco, mas no o suficiente. As cresas faziam um bom trabalho com os abscessos pequenos, mas no podiam lutar contra a bacteriemia 
subjacente que lhe estava envenenando o sangue.
              Joguei uma olhada  garrafa de vidro pardo. Isso podia ajud-lo a resistir um pouco mais, mas s ficava um tero; no era suficiente. E administrada 
por via oral no causaria efeito suficiente para erradicar  mortfera bactria, qualquer fosse, que se estava multiplicando em seu sangue.
              O serrote de amputao estava ainda na encimera. Eu lhe tinha dado minha palavra ao Jamie... e ele me havia isso devolvido.
              Apertei os punhos com inexprimvel frustrao, quase mais potente que minha desesperana. por que, por que, por que no tinha iniciado imediatamente 
outro cultivo de penicilina? Como podia ter sido to irrefletida, descuidada e idiota?
              por que no tinha insistido em ir ao Charleston ou ao Wilmington, em busca de algum soprador que pudesse me fazer o mbolo e o cilindro de uma seringa 
hipodrmica? Logo teria podido improvisar algo que servisse de agulha. Tanta dificuldade, tanto experimento para obter essa preciosa substncia... e agora que a 
necessitava com desespero...
              Um movimento vacilante no vo da porta fez que me voltasse, tratando de dominar as faces. 
              Era um dos Beardsley. Cada vez era mais difcil distingui-los, agora que Lizzie os fazia o mesmo corte de cabelo. Certamente, uma vez que falavam resultava 
singelo.
      - Senhora?-  Era Kezzie. 
      - Sim?-  Minha voz devia soar seca, mas no importava; Kezzie no distinguia matizes.
              Trazia um saco de tecido que se movia e trocava de forma.
      - Para O Senhor-  disse, com sua voz alta, algo inexperiente, me oferecendo a bolsa- . Velho Aaron... dizia que isto funciona. Remi-te serpente grande, buscas 
uma pequena, curtas a cabea, bebe o sangue.-  E me entregou o saco, que eu aceitei com muita cautela.
      - Obrigado-  disse fracamente- . J... verei. Obrigado.
              Keziah me fez uma reverncia e saiu, radiante, me deixando em custdia o que parecia ser uma serpente de cascavel pequena, mas muito irritada. Procurei 
freneticamente algum lugar onde p-la. Por fim, agarrei o frasco de sal e, sempre sustentando a bolsa com o brao estirado, usei a outra emano para esvaziar o sal 
na encimera. Logo colocava o saco dentro do frasco e me apressei a lhe pr a tampa.
              Brianna apareceu a cabea pela porta.
      - Mame? Como amanheceu papai?
      - Nada bem.-  Minha cara deveu revelar a gravidade de seu estado, pois se aproximou de mim, carrancuda.
      - Est muito mal?-  perguntou pelo baixo.
              Assenti sem poder falar. Ela deixou escapar o flego em um fundo suspiro.
      - Posso ajudar?
      - Por acaso, na Faculdade de Engenharia no lhe ensinaram a fazer uma seringa hipodrmica?
      - por que no o disse antes?-  perguntou, com calma- . Se no poder fazer uma seringa, ao menos poderei idear algo que cumpra a mesma funo. De quanto tempo 
dispomos? 
      - De umas quantas horas, ao menos. Se no melhorar com os cataplasmas, teria que cortar ou amputar esta noite.
      - Amputar!-  Seu rosto ficou exangue- . No pode fazer isso!
      - Posso... mas Por Deus que no quero.-  Minhas mos se fecharam com fora, negando sua habilidade.
      - Pois me deixe pensar.-  Ainda estava plida, mas a impresso ia passando conforme se concentrava- . Me diga, onde est a senhora Bug? Pensava lhe deixar 
ao Jemmy, mas... 
      - foi-se? No estar no galinheiro?
      - No. passei por ali ao vir. No a vi em nenhuma parte... e o fogo da cozinha est quase apagado.
              Isso era mais que estranho; a senhora Bug tinha vindo a preparar o caf da manh, como sempre. por que se tinha ido outra vez?
      - Mas onde est Jemmy?-  perguntei, buscando-o com o olhar.
      - Lizzie o levou acima para que veja papai. Pedirei-lhe que o cuide um momento.
      - Bem. Ah, espera!
              Minha exclamao fez que se voltasse da porta, com as sobrancelhas arqueadas a modo de pergunta.
      - Poderia te levar isso fora, querida?-  Assinalei com desgosto o grande frasco de vidro- . Deixa-o bem longe.
      - Como no. O que ?
              A pequena serpente de cascavel tinha sado de sua bolsa e estava enroscada em um n. Ao ver que Brianna estendia a mo para o frasco, investiu contra 
o vidro. Ela deu um salto atrs, lanando um chiado.
      - Ifrinn!
              Apesar da tenso e a angstia, pus-se a rir.
      - De onde tirou isso? E para que ?-  perguntou ela, j reposta da surpresa inicial. inclinou-se com cautela para dar uns golpecitos contra o vidro. A serpente, 
que parecia irascvel em extremo, atacou com um rudo audvel e ela voltou a retirar bruscamente a mo.
      - Trouxe-a Kezzie. supe-se que Jamie sanar se beber seu sangue-  expliquei.
              Ela alargou um dedo cauteloso para seguir o curso de uma gota amarelada que se deslizava pelo vidro. Duas gotas, em realidade.
      - Olhe isso! tratou que me morder atravs do cristal! Essa serpente est furiosa. No acredito que a idia goste de muito.
      - Vale, no importa-  disse, me aproximando- . No acredito que ao Jamie gostasse tampouco da idia. Nestes momentos no quer saber nada de serpentes.
      - Hum...-  Ela seguia observando  pequena serpente, com uma ruga entre as sobrancelhas vermelhas- . H-te dito Kezzie onde a encontrou?
      - No me ocorreu perguntar. por que?
      - O caso  que as serpentes esto muito bem feitas-  disse, com ar sonhador- . As mandbulas se desarticulam, o qual lhes permite tragar presas maiores que 
elas. E as presas se repliegan contra o paladar quando no esto em uso.
      - Sim?-  Olhei-a com certa desconfiana, mas ela no me fez conta.
      - As presas so ocas-  continuou, tocando o stio em que o veneno tinha penetrado no tecido, deixando uma pequena mancha amarelada- . Esto conectados a um 
saco de veneno localizado na bochecha; desse modo, quando a serpente remi, os msculos da bochecha espremem o saco para fazer sair o veneno, que passa com o passar 
da presa para penetrar na presa. Tal como se fosse uma agulha. Pensava provar com uma pua de puercoespn afiada, mas isto funcionaria muito melhor. foi desenhado 
para isso.
      - Compreendo-  disse, com uma pequena quebra de onda de esperana- . Mas necessitaria algo que servisse de depsito...
      - Antes que nada necessito uma serpente maior-  disse, girando para a porta- . Vou a pelo Jo ou Kezzie; vejamos se essa saiu que alguma toca e se houver outras 
ali.
              E partiu prontamente a executar sua misso, levando o frasco, enquanto eu me dedicava a estudar o problema do antibitico, j renovadas as esperanas. 
Se se podia injetar a soluo, teria que filtr-la e desencardi-la tanto como fora possvel.
              Me teria gostado de ferv-la, mas no me atrevia. Ignorava se as altas temperaturas podiam destruir ou desativar a penicilina... se  que ficava ali 
um pouco de penicilina ativa. A quebra de onda de esperana que me tinha causado a idia da Brianna se atenuou um pouco. De nada serviria contar com um aparelho 
hipodrmico se no tinha nada til que injetar.
              Abri a porta do armrio, levantei a tampa de minha arca de remdios e fui ao estudo do Jamie a por papel, tinta e pluma. A penicilina era, com diferena, 
o mais efetivo dos antibiticos disponveis, mas no o nico. Comecei a fazer uma lista das ervas que tinha  mo e, sob cada nome, todas as aplicaes que lhe conhecia, 
tivesse-as usado ou no. Toda erva utilizada para estados spticos era uma possibilidade. Para ouvir passos na cozinha chamei  senhora Bug, pois queria lhe pedir 
que me trouxesse uma bule de gua fervendo.
              Ela apareceu no vo da porta; nos braos trazia um cesto grande. antes de que ou pudesse dizer nada, aproximou-se para plantar o cesto na encimera. 
detrs dela entrou seu marido com outro cesto e um pequeno barril pequeno aberto, de que surgia um penetrante aroma alcolico. Rodeava-os um aroma algo ranoso, 
como o fedor longnquo de um lixeiro.
      - Ouvi-lhe dizer a voc que no tinha suficiente mofo  mo-  comeou, ansiosa, mas com os olhos brilhantes- , de modo que hei dito ao Arch: devemos percorrer 
as casa prximas e ver o que conseguimos para a senhora Fraser. depois de tudo, o po fica mau to logo com esta umidade... e Deus sabe quo deixada  a senhora 
Chisholm. 
              Eu olhava fixamente os resultados dessa excurso matinal pelas despensas e depsitos de lixo da Colina. Cascas de po, bolachas estragadas, cabaas 
mdio podres, pores de bolo com marcas de dentes ainda visveis na massa... uma variedade de refugos pegajosos e fragmentos em putrefao, todos talheres de partes 
mofadas, em azul veludo e verde musgo. O barril pequeno estava mdio cheio de milho podre; na turva lquida resultante flutuavam ilhas de mofos azuis. 
      - Os porcos do Evan Lindsay-  explicou o senhor Bug, em um estranho arrebatamento de loquacidade. Os dois Bugs me sorriram de brinca a orelha, sujados por 
seus esforos.
      - Obrigado-  disse. Sentia-me sufocada, e no s pelo aroma. Os miasmas do licor de milho me fizeram lacrimejar.
      
      
      
              Justo depois de obscurecer subi ao piso alto, levando minha bandeja de poes e implementos; sentia uma mescla de excitao e medo.
              Jamie estava recostado contra os travesseiros e rodeado de gente.
      - Bem-  disse, com uma despreocupao bastante bem fingida- , suponho que estamos preparados.
      - Estamos preparados para provar algo novo-  disse, sorridente, em um intento de me mostrar confiada- . Se algum quer rezar, faa-o, por favor.
              Todos se precipitaram a limpar a mesinha. Depositei ali a bandeja; Brianna, que tinha subido comigo, adiantou-se com seu invento, sustentando-o cuidadosamente 
com ambas as mos.
      - O que  isso, no nome de Cristo?-  Jamie observou o objeto com o sobrecenho franzido; logo, a mim.
      -  uma espcie de serpente de cascavel feita em casa-  explicou-lhe Brianna.
              Houve um murmrio de interesse e todo mundo estirou o pescoo para ver. Mas a ateno se desviou quase imediatamente, quando apartei o edredom para 
lhe desembrulhar a perna, entre um coro de murmrios espantados e exclamaes compassivas.
              A carne da perna estava muito vermelha at o joelho,  exceo das partes negras e as que supuravam. Momentaneamente tnhamos retirado as cresas, por 
medo de que o calor as matasse; nesses momentos estavam em minha consulta, felizmente atarefadas com as partes mais horrveis do gasto pelos Bug. Se conseguia salvar 
a perna poderiam ajudar com a limpeza posterior.
              Eu tinha revisado cuidadosamente os refugos sob o microscpio, para pr em uma tigela tudo o que pudesse identificar como portador do Penicillium. 
Sobre essa miscelnea coleta verti o licor de milho fermentado e deixei repousar a mescla durante todo o dia. Com sorte, se havia um pouco de penicilina crua no 
lixo, haveria-se disolvido no lquido alcolico. 
              Enquanto isso tinha preparado uma infuso bem forte com aquelas ervas que tinham reputao de ser teis para o tratamento interno dos estados supurativos. 
Enchi uma taa com essa soluo, extremamente aromtica, e a entreguei ao Roger, desviando cautelosamente o nariz.
      - Dsela a beber-  disse. E adicionei com inteno, cravando no Jamie um olhar firme- : Toda.
              Ele farejou a taa que lhe oferecia e me devolveu o olhar, mas bebeu, fazendo caretas exageradas para entreter aos pressente. Assim animado o humor 
geral, passei ao grande acontecimento: agarrei de mos do Bree a hipodrmica improvisada.
              Os gmeos Beardsley se adiantaram para olhar, cheios de orgulho. A pedido do Bree tinham sado imediatamente; mediada a tarde retornaram com uma magnfica 
serpente de cascavel, de quase um metro de longitude.
              depois de retirar os sacos de veneno e as presas, encomendei  senhora Bug a tarefa de enxagu-los repetidas vezes com lcool, para erradicar qualquer 
rastro de veneno. Bree agarrou a seda engordurada que servia de envoltrio ao astrolbio; com uma parte dela costurou um pequeno tubo que se franzia por um extremo 
com uma priso fortificada, da mesma forma que os moedeiros. Logo cortou uma parte grossa de uma pluma de peru e, depois de abrand-lo em gua quente, utilizou-o 
para unir  presa o extremo franzido do tubo. selaram-se as unies de tubo, pluma e presa com cera de abelha; tambm se estendeu cera ao longo da costura, para evitar 
filtraes.
              Deslizei os dedos pela perna para selecionar um bom stio, livre de copos sangneos importantes; depois de limp-lo com lcool puro, cravei a presa 
nele, to a fundo como pude.
      - J.-  Fiz um sinal a Brianna, que esperava a meu lado com a garrafa de lcool de milho filtrado. Com os dentes cravados no lbio inferior, ela verteu com 
cuidado, at encher o tubo de seda que eu sustentava. Uma vez dobrado o extremo aberto, pressionei firmemente com o polegar e o ndice, para expulsar o lquido pela 
presa s malhas da perna.
              Trabalhei ao longo da perna. Bree voltava a encher a seringa a cada injeo.
              A habitao estava em silncio, mas cada vez que eu escolhia outro lugar todos continham o flego, deixavam-no escapar em um suspiro depois da puno 
e logo, sem dar-se conta, inclinavam-se para a cama, enquanto eu injetava o lcool ardente nas malhas infectadas.
              No fez falta muito tempo. Ao terminar cobri todas as feridas com mel e esfreguei a pantorrilha e o p com azeite de gualteria.
              Ento todos se retiraram, depois de dar ao Jamie um beijo na bochecha ou uma palmada no homem, lhe desejando boa sorte com vozes gruonas. Ele respondia 
s despedidas com um sorriso, um gesto, alguma brincadeira.
              Quando a porta se fechou atrs do ltimo, deixou-se cair contra o travesseiro e fechou os olhos, exalando todo o flego em um comprido suspiro. Dediquei-me 
a ordenar minha bandeja: pus a seringa a encharcar em lcool, arrolhei os frascos e dobrei as ataduras. Logo sentei a seu lado; ele me alargou uma mo sem abrir 
os olhos.
              Sua pele estava quente e seca. Acariciei-lhe brandamente os ndulos com o polegar; de abaixo chegavam os rumores da casa, discretos, mas cheios de 
vida.
      - Funcionar-  disse em voz baixa, ao cabo de um minuto- . Estou segura.
      - Sei-  disse ele.
              Respirou muito fundo e, por fim, rompeu em soluos.
      
      
      

      94
      
      Sangue novo
      
              Roger despertou bruscamente de um descanso negro e sem sonhos. Reconheceu o contato da Brianna, que lhe tocava o brao.
      - N?-  incorporou-se sbitamente, com uma rouca exclamao de pergunta.
      - Lamento ter que despertar.
              Brianna sorria, mas em sua frente se desenhava visivelmente uma ruga de preocupao. Ele a abraou por reflexo e se deixou cair de novo contra o travesseiro.
      - Hum.-  a estreitar era uma ncora que o sujeitava  realidade.
      - Est bem?-  perguntou ela, em voz baixa.
      - Estou bem.-  depois de um fundo suspiro, deu-lhe um beijo na frente e se relaxou, piscando- . Que horas so?
      - Um pouco passado do meio-dia. No queria despertar, mas veio um homem e no sei o que fazer com ele.
              Uma comissura de sua larga boca se curvo brevemente, com a mesma ironia que seu pai. Logo alargou a mo para a jarra. O rudo da gua ao cair entrou 
pelos ouvidos do Roger como a chuva em cho ressecado. Esvaziou em trs sorvos a taa que lhe oferecia e a alargou novamente.
      - Mais, por favor. Um homem?
      - Diz chamar-se Thomas Christie. Quer falar com papai; diz que esteve no Ardsmuir. 
      - Sim?-  Enquanto ordenava seus pensamentos, Roger bebeu a segunda taa com mais lentido- . Vale. lhe diga que estarei ali em um minuto.
              Ele se vestiu com lentido; sua mente ainda estava gratamente entorpecida. Mas ao agachar-se para resgatar suas meias trs-quartos cansados debaixo 
da cama, algo entre os lenis revoltas lhe chamou a ateno, justo sob o bordo do travesseiro. Alargou lentamente uma mo para agarr-lo. Era " a mujercita" : o 
pequeno amuleto de fertilidade; polida a antiga pedra rosada, assombrosamente pesado na mo.
              depois de olh-la fixamente um momento, inclinou-se para escond-la novamente sob o travesseiro.
              Brianna tinha deixado ao visitante no estudo do Jamie. Roger se deteve um instante, para verificar que todas as partes de seu corpo estivessem apresentveis 
e em seu stio. Dadas as circunstncias, esse tal Christie no podia pretender muito.
              Trs caras se voltaram para ele. Bree no lhe havia dito que Christie vinha com acompanhantes. De qualquer modo era bvio que Thomas Christie  era 
o major; o jovem moreno, de uns vinte anos, devia ser seu filho.
      - O senhor Christie?-  Ofereceu a mo ao cavalheiro- . Sou Roger MacKenzie, o genro do Jamie Fraser. Acredito que j conhecem minha esposa.
              Christie, um pouco surpreso, olhou por detrs do Roger, como se esperasse que Jamie se materializasse atrs dele.
      - Temo que nestes momentos meu sogro no est... disponvel. Posso lhe ser til em algo?
              O homem assentiu lentamente e lhe estreitou a mo com firmeza. Roger ficou estupefato ao sentir algo familiar, mas ao mesmo tempo completamente inesperado: 
a caracterstica presso contra o ndulo da saudao manica. Levava anos sem experiment-lo; mais por reflexo que por raciocnio, respondeu com a contra-senha, 
confiando em que fora a correta. Pelo visto foi satisfatria, pois a expresso severo do Christie se afrouxou um pouco.
      - Talvez, senhor MacKenzie, talvez.-  O homem lhe cravou um olhar penetrante- . Procuro terras onde me estabelecer com minha famlia... e me ho dito que o 
senhor Fraser poderia estar em situao de me facilitar isso 
      - Poderia ser-  respondeu Roger, cauteloso.
              Perguntava-se se Christie o tinha tentado se por acaso ou se tinha motivos para esperar que seu sinal fora reconhecido. Presumivelmente sabia que Jamie 
Fraser reconheceria o signo e tinha suposto que seu filho tambm. Jamie Fraser, franco-maom? Nunca lhe tinha passado a idia pela cabea. E Jamie nunca o tinha 
mencionado.
      - Sinta-se, por favor-  disse repentinamente.
              O filho do Christie e a jovencita, que tanto podia ser sua irm como sua esposa, levantaram-se o entrar ele e permaneciam de p depois do cabea de 
famlia. Roger lhes ofereceu uns tamboretes e tomou assento depois do escritrio do Jamie. Imediatamente agarrou uma pluma do copo de cristal azul, com a esperana 
de que isso lhe desse um aspecto mais profissional. Que perguntas eram as que correspondia fazer a um possvel arrendatrio?
      - Bem, senhor Christie, vejamos.-  Sorriu-lhe, consciente da barba sem barbear nas mandbulas- . Diz-me minha esposa que voc conheceu meu sogro em Esccia.
      - Na priso do Ardsmuir-  respondeu o cavalheiro, cravando no Roger um olhar agudo, como se o desafiasse a extrair suas concluses.
              Roger voltou a pigarrear; sua garganta, embora cicatrizada, ainda tendia a bloquear-se quando estava recm levantado. Mas Christie pareceu tomar aquilo 
por comentrio adverso e se esticou um pouco.
      - Jamie Fraser tambm esteve detento ali-  disse- . Suponho que voc sabe.
      - claro que sim-  confirmou Roger- . Tenho entendido que vrios dos homens assentados aqui, na Colina, vieram que o Ardsmuir.
      - Quais?-  interpelou Christie.
      - N... os Lindsay, quer dizer: Kenny, Murdo e Evan-  enumerou Roger- . Geordie Chisholm e Roger MacLeod. Acredito que... sim, estou seguro: Alex MacNeill 
tambm esteve no Ardsmuir. 
              Christie tinha seguido essa lista com estreita ateno.
      - Conheo-os-  disse, com ar de satisfao- . MacNeill pode responder por mim, se for necessrio.
              Embora Roger nunca tinha visto o Jamie entrevistar a um possvel arrendatrio, de vez em quando<  o ouvia falar com o Claire dos que escolhia. Sobre 
essa base, fez-lhe algumas pergunta sobre seu passado mais recente, tratando de esquivar a cortesia com uma atitude de autoridade.        
              Christie disse que tinha sido transladado com os outros prisioneiros, mas teve a sorte de que sua servido fora adquirida pelo dono de uma plantao 
da Carolina do Sul, quem, ao descobrir que tinha algum estudo, fez-o preceptor de seus seis filhos; alm disso cobrava s famlias vizinhas pelo privilgio de que 
lhe enviassem tambm a seus filhos. Uma vez que expirou o prazo de sua servido, Christie acessou a ficar em troca de um salrio.
      - Seriamente?-  perguntou Roger. Seu interesse pelo homem tinha aumentado notavelmente. Com que professor de escola! Para o Bree seria um gozo renunciar a 
seu indeseado posto. E esse homem parecia mais que capaz de lutar com escolares intransigentes- . E o que lhe traz por aqui, senhor Christie? Estamos algo longe 
da Carolina do Sul.
      - Minha esposa morreu-  disse, mal-humorado- . De gripe. E tambm o senhor Everett, meu empregador. Seu herdeiro no necessitava de meus servios e eu no 
quis ficar ali sem emprego.-  Cravou no Roger um olhar penetrante, por debaixo das sobrancelhas hirsutas- . Voc h dito que o senhor Fraser no est. Quando retornar?
      - No saberia dizer-lhe Em realidade no podia saber quanto duraria a incapacidade do Jamie. Embora se recuperava sem mais problemas, possivelmente devesse 
guardar cama durante um tempo. E no queria se despedir do Christie nem obrig-lo a esperar. O ano estava avanado e no ficava muito tempo, se esse homem e sua 
famlia foram passar o inverno ali.
              Os dois homens eram fornidos e fortes, a julgar por seu aspecto. Acompanhava-os uma mulher que podia cuidar de suas necessidades domsticas. E a parte 
da irmandade manica, Christie tinha pertencido ao grupo do Jamie no Ardsmuir. Ele sempre fazia um esforo especial para procurar stio a esses homens.
              Tomada a deciso, Roger tirou uma folha de papel em branco e desentupiu o tinteiro. Logo voltou a pigarrear.
      - Muito bem, senhor Christie. Acredito que podemos chegar a algum... acordo. 
              Foi uma grata surpresa ver entrar na Brianna, com uma bandeja de bolachas e cerveja. Deixou-a no escritrio, com o olhar pudorosamente baixa, mas ele 
captou um brilho de diverso entre as pestanas e lhe roou a boneca, sorridente, para dar-se por informado. O gesto lhe fez pensar na saudao do Christie. Brianna 
saberia algo dos antecedentes do Jamie, nesse aspecto? Provavelmente no; de outro modo o teria mencionado.
      - Brianna, apresento a nossos novos arrendatrios-  disse- . O senhor Thomas Christie e...
      - Allan, meu filho-  completou o cavalheiro- , e Malva, minha filha.
              O moo saudou com uma calada inclinao de cabea, sem apartar os olhos do refrigrio. A menina mantinha as mos recatadamente cruzadas no regao e 
logo que levantou a vista. Outro ponto a favor do Christie, pensou Roger, distrado: as meninas casaderas eram poucas.
              Bree saudou cada um com uma inclinao de cabea e olhou  moa com interesse especial. Um forte alarido na cozinha a fez sair a toda pressa, murmurando 
uma desculpa.
      - Meu filho-  murmurou Roger, a modo de desculpa. E ofereceu um jarro de cerveja- . Aceita voc um refrigrio, senhor Christie?
               Os contratos de arrendatrios se guardavam na gaveta esquerda do escritrio; ele os tinha visto e conhecia as noes gerais. Para comear, acordariam 
cinqenta acres (dois hectares) com possibilidades de arrendar mais segundo fora necessrio; o pagamento se efetuaria segundo a situao individual. Uma breve discusso, 
acompanhada por cerveja e bolachas, e ambos chegaram a um acordo que parecia adequado.
              Roger ps ponto final ao contrato com um gesto garboso; logo assinou como representante do James Fraser e passou o documento ao Christie, para que 
o assinasse. Sentia uma profunda e grata satisfao. Um bom arrendatrio, disposto a pagar a metade de sua renda oficiando de professor de escola durante cinco meses 
ao ano.
              de repente caiu na conta de que Jamie teria dado um passo mais. alm de oferecer sua hospitalidade aos Christie, lhes teria conseguido um lugar onde 
hospedar-se at que tivessem teto prprio. Mas no na casa grande enquanto Jamie estivesse doente e Claire, ocupada em atend-lo. depois de refletir um momento, 
aproximou-se da porta para chamar o Lizzie.
      - Temos um novo arrendatrio com famlia, a muirninn-  fixo, sorridente- . O senhor Thomas Christie e seus filhos. Pode pedir a seu pai que os acompanhe  
cabana do Evan Lindsay? Est perto das terras que vo ocupar. E acredito que Evan e sua esposa tm stio para hosped-los por um tempo, at que possam instalar-se.
      - OH!, sim, senhor Roger.-  Lizzie, ansiosa e bem disposta, fez uma breve reverencia ao Christie, que respondeu com uma pequena inclinao. Logo olhou ao Roger, 
arqueando as sobrancelhas finas em seu carita de camundongo- . O senhor est informado?
              Roger sentiu que um leve rubor subia s bochechas.
      - Tudo est em ordem-  assegurou- . O direi assim que se sinta melhor. 
      - O senhor Fraser est doente? Quanto o lamento.-  A voz suave, desconhecida, surgiu desde atrs, sobressaltando-o. 
              Ao voltar tirou o chapu que Malva o olhava, interrogante. No tinha reparado muito nela, mas nesse momento lhe impressionou a beleza de seus olhos. 
      - Mordeu-o uma serpente-  disse, abrupto- , mas j est fora de perigo.
              Alargou uma mo ao Christie; esta vez esperava o gesto secreto.
      - Bem-vindo  Colina do Fraser-  disse- . Confio em que voc e sua famlia sejam felizes aqui.
      
      
      
              Jamie estava sentado na cama, celosamente atendido por devotas mulheres e, portanto, desesperado. Sua cara se relaxou um pouco ao ver outro homem. 
Ento despediu com um gesto a suas donzelas. Claire ficou, ocupada com seus frascos e seus instrumentos.
              Roger ia sentar se ao p da cama, mas Claire lhe jogou dali, lhe assinalando energicamente o tamborete. 
      - me diga, Roger MAC, atendeste essa ferida que a mula tinha na pata?
      - Curei-a eu-  informou Claire- . Est cicatrizando bem. Roger esteve muito ocupado em atender aos novos arrendatrios.
      - Ah, sim?-  Fraser arqueou as sobrancelhas, interessado.
      - Pois sim, um homem chamado Tom Christie e sua famlia. Diz que esteve no Ardsmuir contigo.
              Por um instante Fraser o olhou fixamente, inexpressivo. Logo assentiu, recuperando como por arte de magia sua expresso de agradvel interesse, e o 
tempo normal reatou sua marcha.
      - Sim, conheo bem ao Tom Christie. Onde esteve nestes vinte anos?
              O jovem lhe informou o que o homem lhe tinha contado de suas aventuras e que condies tinham estabelecido.
      - Isso est muito bem, aprovou Jamie, o inteirar-se de que Christie estava disposto a oficiar de professor- . Lhe diga que pode usar os livros que temos aqui.
              A conversao passou a assuntos mais mundanos. Poucos minutos depois Roger se levantou para retirar-se. Tudo parecia estar perfeitamente bem, mas sentia 
um escuro desassossego. Acaso se tinha imaginado esse instante? Ao voltar-se para  fechar a porta viu que Jamie tinha os olhos fechados e as mos cruzadas sobre 
o peito. Se no dormir, assim evitava efetivamente qualquer conversao. Claire o observava, com os olhos de falco reflexivamente entreabridos. Ela tambm se deu 
conta.
              Assim no eram imaginaes delas. Que diabo passava com o Tom Christie?
      
      
      

      95
      
      A meia luz estival
      
      
              Ao dia seguinte, Roger fechou a porta atrs dele e se deteve um momento no alpendre, para respirar o ar frio da avanada amanh. Jogou uma olhada em 
redor, apontando mentalmente suas tarefas do dia.
              Tinha a estranha sensao de ter abandonado seu trabalho, no dias, a no ser meses ou anos atrs. Se fechava os olhos um instante, tinha a impresso 
de que quando voltasse a abri-los-se encontraria em uma rua de Oxford e a perspectiva de uma aprazvel manh de trabalho entre os volmenes poeirentos da Bodleian. 
              Golpeou-se uma coxa com a mo para tirar-se essa idia. Hoje no. No estava em Oxford, a no ser na Colina. Devia cortar umas rvores e recolher feno; 
no o feno semeado, a no ser o que crescia silvestre nas colinas, em pequenas partes de terra. Com uma jarra de cerveja e os sanduches envoltos dentro de seu saco, 
foi em busca da foice e a tocha.
              Ao caminhar comeou a espabilarse. Os msculos entraram em calor; quando chegou ao primeiro dos prados altos comeava a sentir-se normal, solidamente 
encravado no mundo fsico da montanha e o bosque. O futuro tinha voltado para mundo dos sonhos e as lembranas. Uma vez mais estava presente e dava razo de si.
      - Melhor assim-  murmurou para seus adentros- . No  questo de cortar um p.
              E deixou cair a tocha sob uma rvore para agachar-se a cortar a erva.
              No era a tarefa sedativo e montona da ceifa habitual. Em que a grande ceifa de surripio dobro ia deixando agradveis fileiras de erva seca no campo. 
Este trabalho era de uma vez mais rude, mas mais fcil; requeria agarrar cada arbusto com uma mo e cortar os caules perto da raiz, para logo jogar o punhado de 
feno silvestre no saco de tecido embreado que levava consigo. No se requeria muita fora, mas sim ateno, mais que o inconsciente esforo muscular de segar o feno 
semeado.
              Era um trabalho sedativo; muito em breve sua mente comeou a divagar para outras coisas. As que Jamie lhe havia dito na negra ladeiras, sob as estrelas.
              Algumas j as conhecia; que Alex MacNeill e Nelson McIver no se levavam bem e por que; que um dos filhos do Patrick Neary parecia que roubava e o 
que fazer a respeito; que terras vender, quando e a quem. De outras no tinha idia. Apertou os lbios ao pensar no Stephen Bonnet. 
              E o que se devia fazer com o Claire. 
      .Se morrer, ela deve ir-se-  havia dito sbitamente Jamie- . Que se v. Se o pequeno pode passar, todos tm que voltar. Mas sobre tudo ela. Faz que v s pedras.
      - por que?-  perguntou Roger, em voz baixa- . por que deve partir? Passar pelas pedras  perigoso.
      - Para ela  perigoso estar aqui sem mim.-  durante um momento, o olhar do Fraser se perdeu. recostou-se para trs, com os olhos semicerrados. Repentinamente 
voltou a abri-los- . Ela  uma Antiga. Se o descobrirem a mataro. 
              Logo fechou outra vez os olhos. No voltou a falar at que os outros os encontraram, ao raiar o dia.
              "  uma Antiga."  Por desgraa, Fraser o havia dito em ingls. Em galico o significado teria sido mais claro. Se houvesse dito ban- sidhe, Roger teria 
sabido se se referia ao reino das fadas ou a uma mulher sbia, mas humana.
              Sem dvida no podia... mas talvez sim. At na poca do Roger, os escoceses levavam no sangue a crena nos outros" , embora no o admitissem de tudo. 
E agora? Fraser acreditava abertamente nos fantasmas, por no falar de anjos e Santos. Para a cnica mente presbiteriana do Roger, no havia muita diferena entre 
acender velas a Santa Genoveva e deixa fora uma chaleira de leite para as fadas.
              Por outra parte, embora no gostasse de reconhec-lo, ele jamais haveria meio doido o leite destinado aos Outros nem meio doido um amuleto pendurado 
sobre uma porta... e no s por respeito  pessoa que os tivesse posto ali.
              Talvez Fraser no estava desencaminhado. Por risvel que fora a idia de que ele e Brianna, e at a mesma Claire, fossem sidheanach, tudo tinha mais 
de uma cara. Eles eram diferentes, sim. No todo mundo podia viajar atravs das pedras; menos ainda eram os que o faziam. E havia outros. Geillis Duncan. O viajante 
desconhecido que lhe tinha mencionado ao Claire. O cavalheiro cuja cabea atalho tinha aparecido no pramo, com as obturaes de prata intactas. Ao pensar nele lhe 
arrepiou a pele dos braos.
              Jamie tinha dado sepultura  cabea, com o devido respeito e uma breve prece, em uma colina prxima  casa; foi o primeiro habitante do pequeno cemitrio 
da Colina. Por insistncia do Claire tinha marcado a pequena sepultura com uma parte de granito em bruto, sem inscrio alguma, mas com nervuras de serpentinas verde.
              E se Fraser estava no certo? " Se o pequeno pode passar, tm que voltar todos." 
              E se no voltavam... algum dia jazeriam todos no claro ensolarado: ele, Brianna, Jemmy, e cada um sob sua parte de granito. A nica diferena era que 
cada um teria seu nome. Mas que datas esculpiriam? O perguntou de sbito, enquanto se limpava o suor da mandbula. Quanto ao Jemmy no haveria dificuldade, mas o 
resto...
              Ali estava o problema, certamente; ao menos um deles: " Se o pequeno pode passar."  Se a teoria do Claire era correta, se a faculdade de passar atravs 
das pedras era um rasgo gentico, como a cor dos olhos ou o tipo de sangue... Jemmy teria cinqenta por cento de probabilidades, se era filho do Bonnet; se era do 
Roger, trs de quatro ou possivelmente a certeza.
              Segou grosseiramente um arbusto de erva, sem incomodar-se em sujeit-la, e as espiguillas voaram como metralha. Ento recordou a pequena figura rosada 
sob o travesseiro. Respirou fundo. E se dava resultado, se nascia outro menino que fora de seu prprio sangue sem lugar a dvidas? Trs probabilidades de quatro... 
ou possivelmente outra pedra, um dia, no cemitrio familiar.
              O saco estava quase cheio e ali no havia mais erva que valesse a pena cortar. O carregou ao ombro para descender a colina at o bordo do milharal 
mais elevado.
              Ao chegar ao milharal, Roger divisou a silhueta pequena e fibrosa do Kenny Lindsay, que se aproximava entre as rvores.
      - Madain mhath, ao Smeraich!-  gritou- .  certo que temos gente nova?
              Roger tinha deixado de surpreender-se ante a velocidade com que circulavam as notcias na montanha. Ofereceu ao Lindsay sua jarra de cerveja e lhe 
deu detalhes sobre a nova famlia.
      - chama-se Christie, no?-  perguntou Kenny. 
      - Sim. Thomas Christie, com seus filhos, varo e mulher. Deve conhec-lo; esteve no Ardsmuir. 
      - Sim? Ah.
              Ali estava outra vez, esse leve estremecimento ante o nome.
      - Christie-  repetiu Kenny. A ponta de sua lngua apareceu um instante, como se degustasse o som- . Hum. Sim. Vale.
      - O que acontece Christie?-  inquiriu Roger, cada vez mais intranqilo.
      - O que acontece?-  O outro pareceu sobressaltado- . Nada, homem. O que poderia passar. Ou sim?
      - No. Quero dizer... Me pareceu que te sobressaltava um pouco ao escutar esse nome. Me ocorreu que podia ser ladro, alcolico ou algo assim.
              Pela cara do Kenny passou o entendimento, como o sol por uma pradaria.
      - Ah, pois sim, agora compreendo. No, no, Christie  um tio bastante decente, at onde eu sei.
      - At onde voc sabe? Mas no estiveram juntos no Ardsmuir? Isso h dito ele.
      - Pois sim,  certo-  acordou Lindsay.
              Entretanto, ainda parecia duvidar. Mas de nada serve insistir, salvo para que se encolhesse de ombros.
      - Vem um momento a casa, ao Smeraich?-  Kenny assinalou com a cabea os pinheiros que se elevavam ao outro lado da pradaria.
      Roger assentiu, sorridente.
      - Obrigado, Kenny. 
              Acompanhou ao Lindsay a atender seus animais; o homem tinha duas cabras leiteiras e uma cerda.
      - Boa cerda-  comentou Roger cortesmente, enquanto Kenny jogava na artesa milho para que comesse.
      - M como as vboras. E assim de rpida, tambm-  disse Lindsay, olhando a de reojo- . Ontem esteve a ponto de me arrancar a mo. Queria lev-la a que o porco 
do MAC Dubh a servisse, mas no quis.
      - Quando uma fmea no est de humor, no h nada a fazer-  comentou Roger.
              Kenny moveu a cabea.
      - Pode ser, sim. Mas h maneiras das abrandar, no?  um truque que me ensinou meu irmo Evan. 
              Depois de dedicar ao Roger um sorriso desdentado, assinalou com a cabea um barril de que emanava o aroma doce do cereal em fermentao.
      - Sim?-  disse Roger, rendo- . Pois espero que resulte.
      - Resultar, sim-  assegurou Lindsay, crdulo- . Esta  um demnio para o malte fermentado. O problema  que, se lhe der o suficiente como para que esteja 
disposta, no pode caminhar muito bem. Teremos que lhe trazer para o macho, quando MAC Dubh se reponha.
      - Est em zelo? Amanh trarei para o macho-  prometeu Roger, imprudentemente.
      - Se for to amvel, ao Smeraich.-  depois de uma pausa acrescentou, como sem lhe dar importncia- : Espero que MAC Dubh se levante logo. esteve em condies 
de receber ao Tom Christie?
      - No o viu, no... mas eu o hei dito.
      - Ah, sim? Que bem, no?
              Roger entrecerr os olhos, mas o observo apartou a vista. Seu desassossego persistia. Presa de um sbito impulso, Roger alargou o brao em cima do 
feno para lhe agarrar a mo; gesto que o sobressaltou grandemente. A estreitou e lhe tocou o ndulo.
              Kenny ficou boquiaberto e lhe pisquem no raio de sol que entrava pela porta. Por fim deixou o cubo vazia, limpou-se cuidadosamente a mo na saia esfarrapada 
e a ofereceu ao Roger com ar formal.
              Quando a soltou, a situao entre ambos seguia sendo cordial, mas se tinha alterado muito sutilmente.
      - Christie tambm-  observou Roger.
      - Pois sim. Todos ns.
      - Todos os do Ardsmuir? E... Jamie?-  A idia o deixava estupefato. 
              Kenny assentiu outra vez, enquanto se inclinava para recolher o cubo.
      - Pois sim. Iniciou-o MAC Dubh. No sabia?
              De nada servia andar-se com rodeios. Sacudiu a cabea para descartar o tema. Quando visse o Jamie o mencionaria... sempre que seu sogro estivesse em 
condies de responder perguntas. Cravou no granjeiro um olhar direto.
      - Pois bem, quanto ao Christie, passa algo mau com ele?
              A reticncia do Lindsay tinha desaparecido.
      - OH!, no. Surpreendeu-me um pouco v-lo aqui. No se levava muito bem com o MAC Dubh, isso  tudo. Se tivesse outro stio aonde ir, no acredito que tivesse 
vindo  Colina Fraser. 
      - por que?
      - Nada importante-  disse, encurvando os ombros- .  que Christie  protestante, compreende?
      - Compreendo, sim-  replicou Roger, muito seco- . Mas o puseram com os prisioneiros jacobitas. E isso causou problemas no Ardsmuir.  isso o que me quer dizer?
              Era muito provvel. Em sua prpria poca no havia muito afeto entre os catlicos e os severos escoceses que descendiam do John Knox e os seus. Nada 
gosta tanto a esse povo como um pouco de enfrentamento religioso. E no fundo, nisso tinha consistido a causa dos jacobitas. Agarra a uns quantos calvinistas irredutveis, 
convencidos de que, se no ajustarem bem a manta, a Batata descer pela chamin para lhes morder os ps. Arroja os em um crcere, cara a cara com homens que rezam 
em voz alta  Virgem Mara... Sim, j me imaginava. Jogo de dados os mesmos nmeros, deixariam os distrbios futbolsticos reduzidos a nada.
      - E como chegou Christie ao Ardsmuir?
              Kenny pareceu surpreso.
      - Pois porque era jacobita. Prenderam-no com outros depois do Culloden. Foi julgado e enviado a priso. 
      - Um jacobita protestante?-  No era impossvel, nem sequer difcil. A poltica tinha criado associaes at mais estranhas. Mas sim se saa do comum.
              O granjeiro, com um suspiro, jogou uma olhada ao horizonte, onde o sol descendia entre os pinheiros.
      - Anda, vamos dentro, MacKenzie. J que Tom Christie veio  Colina, ser melhor que algum lhe conte isso tudo. Se me der pressa chegar a tempo para jantar.
              Uma vez gastos os tamboretes e servida o leite de manteiga fresca, Kenny Lindsay cumpriu com sua palavra e iniciou o relato. Conforme disse, Christie 
era escocs das Terras Baixas; sem dvida MacKenzie j se deu conta disso. Do Edimburgo. Nos tempos da Sublevao tinha uma boa loja na cidade, recm herdada de 
seu pai. Tom Christie estava decidido a conquistar uma boa posio.
              Com essa ideia na mente, quando o exrcito do prncipe Tearlach ocupou a cidade, ficou sua melhor roupa e foi ver ouSullivan, o irlands a cargo do 
comisariado do exrcito.
      - Ningum sabe o que aconteceu eles, mas Christie saiu dali com um contrato para prover as provises do exrcito das Terras Altas e um convite ao baile dessa 
noite, no Holyrood. 
              Kenny bebeu um comprido gole de leite doce. Ao deixar a taa, com o bigode untuoso de branco, fez um gesto sapiente. 
      - Sabamos como eram esses bailes de palcio. MAC Dubh nos falava sempre disso. A Grande Galeria, com os retratos de todos os reis de Esccia,  e as chamins 
de azulejos holandeses, onde se poderia ter assado um boi. O prncipe e todos quo grandes foram ver o, vestidos de seda e encaixe. E que comida, bom Deus! De que 
comida nos falava!
              Os olhos do Kenny se fizeram redondos e sonhadores ao recordar as descries escutadas com o estmago vazio. Distradamente tirou a lngua para lamb-la 
leite do lbio superior. Logo se sacudiu para voltar para o presente.
      - Pois bem-  disse, despreocupadamente- . Quando o exrcito abandonou Edimburgo, Christie foi tambm com eles, no sei se para cuidar seu investimento ou para 
manter-se  vista do prncipe.
              Roger notou que nessa lista de possibilidades no figurava a idia de que o homem tivesse atuado por motivos patriticos. J fora por prudncia ou 
ambio, Christie se tinha ficado com o exrcito... muito tempo. Abandonou-o no Nairn, na vspera do Culloden, para iniciar a volta ao Edimburgo, no bolia de uma 
carreta do comisariato. 
      - Se em vez da carreta tivesse montado um dos cavalos, talvez teria chegado-  comentou Lindsay, cnico- . Mas no: topou com todo um saco do Campbells. Tropas 
do governo, entende?
              Roger assentiu.
      - Dizem que tratou de fazer-se passar por mascate, mas nessa mesma estrada tinha comprado uma carrada de cereal em um afinca, e o granjeiro jurou e perjurou 
que Christie tinha estado em seu ptio apenas trs dias antes, com um distintivo branco no peito. E isso foi tudo. O levaram. Christie foi parar primeiro  a priso 
do Berwick; logo, por motivos que s a Coroa sabia, ao Ardsmuir, aonde chegou um ano antes que Jamie Fraser.
      - ele e eu chegamos ao mesmo tempo.-  Kenny olhou de sua tigela vazio e agarrou a jarra- . Era um crcere velho, mdio ruda, que levava vrios anos em desuso. 
Quando a coroa decidiu reabri-la trouxeram homens daqui e l; em total seramos uns cento e cinqenta. A maioria, jacobitas sentenciados. Algum ladro e um ou dois 
assassinos.
              Para proteger-se ou por consolo, formaram-se pequenos grupos que estavam em constante conflito. Chocavam como calhaus no fluxo, machucando-se mutuamente 
de vez em quando, enquanto esmagavam a qualquer pobre diabo que ficasse entre ambos.
      - Tudo se reduz a comida e casaco, entende?-  explicou Kenny, imparcial- . Em lugares assim no pensa em outra coisa.
              Entre os grupos havia um pequeno ncleo de calvinistas teimados, com o Thomas Christie  cabea. Compartilhavam a comida e as mantas, defendiam-se 
mutuamente, comportavam-se com uma santurronera que tirava de gonzo aos catlicos.
      - Se um de ns estivesse queimando-se, esses no haveriam nem mijado sobre ti para te apagar.-  Lindsay moveu a cabea- . No roubavam comida, no, mas se 
plantavam em um rinco a rezar em voz alta, e lhe d com os agiotas, os idlatras e todo isso! E cuidavam de que ns soubssemos aos quais se referiam! E ento chegou 
MAC Dubh.
      - Algo assim como o Segundo Advento, no?-  disse Roger, mdio para seus adentros. Surpreendeu-lhe que o granjeiro pusesse-se a rir. 
      - S se te refere a que alguns j conhecamos o Sheumais ruaidh. No, homem. Trouxeram-no em navio. Sabe que Jamie Roy detesta os navios, verdade?
      - ouvi algo disso-  respondeu Roger, seco.
      - No sei que ouviste, mas  verdade-  assegurou-lhe Kenny, muito sorridente- . Entrou na cela cambaleando-se, verde como uma moa; vomitou no rinco e se 
arrastou at debaixo de um banco. Ali ficou um ou dois dias.
              Passada a crise, Fraser guardou um tempo silencio, at saber quem era quem e o que era o que. Entretanto, era cavalheiro por natureza, senhor e grande 
guerreiro, homem muito respeitado entre os escoceses das Terras Altas. Todos o tratavam com deferncia natural; pediam-lhe opinio, procuravam seu julgamento e os 
fracos se amparavam em sua presena.
      - Isso foi como um mazazo para o Tom Christie-  disse Kenny, movendo sabiamente a cabea- . Tinha chegado a pensar que era a r maior do lago, entende?
      - Entendo, sim. E no gostou de ter um competidor, n?
      - Talvez no teria sido to grave se a metade de sua pequena banda no tivesse comeado a escapar de suas rezas para escutar o que MAC Dubh contava. Mas o 
pior foi o do novo alcaide. 
              Bogle, o alcaide originrio, tinha sido substitudo pelo coronel Harry Quarry , homem relativamente jovem, mas militar experiente, que tinha combatido 
no Falkirk e no Culloden. A diferena de seu predecessor, tinha certo respeito por quo prisioneiros tinha sob seu mando. E posto que conhecia a reputao do Jamie 
Fraser, tratava-o como a um inimigo derrotado, mas honorvel.
      - Pouco depois de assumir o cargo no Ardsmuir, Quarry fez que lhe levassem ao MAC Dubh ante sua presena. No sei o que aconteceu entre eles, mas logo se converteu 
em um costume: uma vez por semana os guardas o levavam para que se barbeasse e se lavasse; logo subia para jantar algo com o Quarry e lhe falava do que fizesse falta.
      - E ao Tom Christie tampouco gostou disso-  adivinhou Roger.
              Comeava a formar uma ampla imagem do Christie: ambicioso, inteligente... e invejoso. Era hbil por si mesmo, mas a diferena do Fraser, no tinha 
nascido em bom bero nem era hbil para a guerra, vantagens que bem podiam resentir a um comerciante com aspiraes sociais, at antes da catstrofe do Culloden.
              Kenny moveu a cabea e a jogou para trs para esvaziar sua taa. Logo, com um suspiro de satisfao, assinalou a jarra com um movimento de sobrancelhas. 
Seu visitante disse: 
      - No, j basta, obrigado. Mas os maons... como aconteceu? Diz que teve que ver com o Christie?
      - Pois ver...-  continuou Kenny- . Ao Christie no gostou de nada que MAC Dubh fora o grande; ele acreditava que esse lugar lhe correspondia por direito.- 
Cravou um olhar ardiloso e avaliador no Roger- . Acredito que no sabia o que costa ser chefe em um lugar assim. Descobriu-o mais adiante. Mas isso no tem nada 
que ver.-  Agitou uma mo, descartando o irrelevante- . O caso  que Christie tambm era chefe, s que no to bom como MAC Dubh. Mas havia quem o escutava, e no 
s entre os chupacirios. 
      - De verdade?
      - Houve mais problemas-  esclareceu- . Pequenezes, sim, mas o barruntabas.
              Mudanas e cismas, os pequenos enguios e fraturas que resultam quando duas massas terrqueas se encontram e se empurram, at que entre elas se levantam 
montanhas ou uma  subsumida pela outra, em uma ruptura de rocha e terra.
      - Dvamo-nos conta de que MAC Dubh estava pensativo, mas ele no est acostumado a dizer a ningum o que pensa, verdade?
              " A quase ningum" , pensou o jovem sbitamente, recordava a voz do Fraser, to baixa que apenas se ouvia sobre o gemido do vento outonal. " me disse 
isso."  O pensamento foi um pequeno calor repentino em seu peito, mas o apartou por no distrair-se.
      - Uma noite MAC Dubh voltou para ns bastante tarde, mas em vez de deitar-se a descansar nos chamou. A mim e a meus irmos, ao Gavin Hayes, Ronie Sinclair... 
e Tom Christie. 
              Fraser tinha despertado silenciosamente aos seis homens para lev-los at uma das poucas janelas da cela, onde a luz do cu noturno lhe iluminava o 
rosto. Os homens se reuniram a seu redor, com os olhos inchados e os dores da jornada, sem saber o que significaria aquilo. Do ltimo enfrentamento (uma rixa entre 
dois homens por um insulto sem importncia), Christie e Fraser se mantinham afastados.
              Ao princpio, Fraser no disse uma palavra; limitou-se a sorrir, e alargou a mo para o Tom Christie. O outro vacilou um momento, suspicaz... mas no 
havia alternativa.
      - Qualquer haveria dito que MAC Dubh tinha um raio na mo, pela impresso que recebeu Christie. No sei como se inteirou MAC Dubh de que Christie era maom, 
mas assim foi. Terei que ver sua cara quando compreendeu que Jamie Roy tambm o era! Foi obra do Quarry-  explicou, ao ver a pergunta na expresso do Roger- . Ele 
era um professor.  
              Um professor maom, chefe de uma pequena loja manica militar, composta pelos oficiais da guarnio. Como um dos membros acabava de morrer, faltava-lhes 
um homem para completar os sete requeridos. depois de estudar a situao e explor-la em algumas conversaes cautelosas, convidou ao Fraser a unir-se os depois 
de tudo, um cavalheiro era sempre um cavalheiro, jacobita ou no.
              No era uma situao muito ortodoxa, disse-se Roger, mas esse Quarry parecia dos que adaptam os regulamentos a sua convenincia. Tambm Fraser.
      - De modo que Quarry o iniciou. Em um ms passou de aprendiz a arteso e um ms mais tarde era professor. Foi ento quando nos decidiu dizer isso E essa mesma 
noite fundamos uma nova loja manica, ns sete: a segunda loja manica do Ardsmuir.
              Roger lanou um bufo de risada ao imagin-lo.
      - Vs seis... e Christie.-  Tom Christie, o protestante. E o homem, honorvel em sua rigidez, no teve mais remedeio que respeitar seu juramento manico e 
aceitar como irmos ao Fraser e a seus catlicos. 
      - Para comear. Mas aos trs meses todos os das celas eram aprendizes. E a partir de ento no houve tantos distrbios.
      - No acredito que ao Jamie tenha prejudicado pertencer  loja manica dos oficiais-  observou Roger. 
      - Pois... suponho que no-  respondeu Lindsay, vagamente.         
              Logo apartou o tamborete para levantar-se. O relato tinha terminado, j era de noite e terei que acender uma vela. No deu um s passo para a palmatria 
de terracota que estava sobre o lar, mas Roger notou pela primeira vez que no cheirava a comida no fogo.
      -  hora de ir a por meu jantar-  disse, levantando-se- . Quer me acompanhar?
              O homem se animou visivelmente.
      - Com gosto, ao Smeraich. me d um minuto para ordenhar as cabras e estarei contigo. 
      
      
      
               manh seguinte, depois de um delicioso caf da manh, encontrei ao Jamie acordado.
      - Como est?-  perguntei, enquanto deixava a bandeja que lhe tinha levado para lhe apoiar uma mo na frente. Ainda tinha febre, mas no tanta como no dia anterior.
      - Preferiria estar morto. Assim ao menos a gente deixaria de me perguntar como me encontro-  respondeu, resmungo.
              Interpretei seu estado de nimo como sinal de que voltava para a sade.
      - O que me trouxeste para tomar o caf da manh?-  ficou de lado para retirar o guardanapo que cobria a bandeja. Ao ver a tigela de po com leite me olhou 
para me acusar da mais profunda traio. antes de que pudesse adicionar outra queixa me sentei no tamborete, a seu lado, e lhe perguntei sem rodeios:
      - O que acontece Tom Christie?
              Ele piscou, pego por surpresa.
      - por que? H algo de mau nele?
      - No sei. No o vi.
      - Pois eu tampouco o vi em mais de vinte anos-  disse, agarrando a colher para remover suspicazmente o po com leite- . Se neste tempo lhe brotou uma segunda 
cabea, para mim  toda uma novidade.
      - Ja!-  exclamei, tolerante- .  possvel, s possvel, que tenha enganado ao Roger. Mas eu te conheo. 
              Ante isso levantou a vista e sorriu de flanco.
      - Sim? Sbas que eu no gosto de muito o po com leite?
      - Se pretende me extorquir para que te traga uma chuleta, esquece-o- aconselhei-lhe- . o do Tom Christie pode esperar, se for preciso.
      - me traga parritch com mel e lhe contarei isso. 
              Ao me voltar lhe descobri sonriendo de orelha a orelha.
      - Trato feito.-  Voltei para meu tamborete.
              Ele refletiu um momento, mas compreendi que s procurava a maneira de comear.
      - Roger me contou o da loja manica manica do Ardsmuir-  disse, para ajud-lo.-  Ontem  noite.
              Olhou-me com surpresa.
      - E ele como o soube? O h dito Christie?
      - No, foi Kenny Lindsay. Mas ao parecer, Christie lhe fez um sinal manico a sua chegada. Em realidade, eu acreditava que aos catlicos no nos permitia 
ser maons.
              Ele arqueou uma sobrancelha.
      -  que a Batata no esteve na priso do Ardsmuir e eu sim. Mas ignorava que estivesse proibido. Assim Roger tambm  maom, n?
      - Assim parece. E talvez agora no esteja proibido. Isso vir depois.-  Descartei o tema com um gesto da mo- . Mas voltando para o Christie, h algo mais, 
verdade?
              Ele apartou a vista.
      - Sim-  disse em voz baixa- . Lembra-te de certo sargento Murchison, Sassenach?
      - Vividamente.-  Tinha visto o sargento uma s vez, no Cross Creek, mais de dois anos antes. Mas o nome me parecia familiar em relao com um pouco mais recente. 
Ento recordei onde o tinha ouvido.
      - Mencionou-o Archie Hayes. Eram dois. Gmeos. Um deles foi o que disparou contra Archie no Culloden, no foi assim?
      - Sim. Era o que cabia esperar desses dois, que disparassem contra um menino a sangue frio. Nunca conheci  a um casal to cruel.-  Contraiu a boca, mas sem 
humor- . Se algo bom tiver feito Stephen Bonnet em sua vida  matar a um desses dois vadios. 
      - E o outro?-  perguntei. 
      - Ao outro o matei eu.
      - por que?-  perguntei, vagamente surpreendida ante a serenidade de minha prpria voz. 
              Ento, apartou a vista.
      - Por cem razes e por nenhuma-  disse em voz baixa. esfregou-se a boneca com ar distrado, como se ainda sentisse o peso dos grilhes- . Poderia te contar 
exemplos de sua crueldade, Sassenach, e todos seriam certos. enfureciam-se com os fracos, roubavam, golpeavam... e eram dos que desfrutavam da crueldade gratuita. 
Em uma priso no havia recursos contra essa gente. Mas no o digo para me justificar. No h justificao.
              Aos prisioneiros do Ardsmuir os submetia a trabalhos forados: cortar lenha, picar pedras, as conduzir. Trabalhavam em pequenos grupos, cada um sob 
a custdia de um soldado ingls armado de mosquete e clava. 
      - Era vero. Conhece o vero das Terras Altas, Sassenach? A meia luz?
              Assenti. A meia luz estival da noite das montanhas escocesas, a princpios do vero. To perto do plo norte, no solstcio do vero o sol apenas fica; 
desaparece sob o horizonte, mas at a meia-noite o cu se mantm claro e leitoso. O alcaide da priso aproveitava de vez em quando essa luz para fazer que os prisioneiros 
trabalhassem at muito entrada a noite.
      - No nos incomodava tanto-  disse Jamie. Tinha os olhos abertos, mas fixos no que via, na meia luz estival de sua memria- . Era melhor estar fora que dentro. 
Mesmo assim, de noite estvamos to esgotados que logo que podamos pr um p diante do outro.
              Ao terminar a jornada, tanto os guardas como os homens estavam intumescidos pelo esgotamento. reunia-se aos distintos grupos de prisioneiros e os formava 
em coluna para que partissem de retorno ao crcere, arrastando os ps pelos brejos, a tropees e cambaleantes, bbados pela necessidade de deitar-se e dormir.
      - Ainda estvamos junto  pedreira. Devamos carregar na carreta as ferramentas e os ltimos blocos; logo, seguir a outros. Lembrana que levantei um bloco 
grande e dava um passo atrs, ofegando pelo esforo. detrs de mim se ouviu um rudo. Ao me voltar, vi o sargento Murchison. Era Billy, mas isso no soube at depois. 
              O sargento era s uma forma achaparrada na meia luz, invisvel a cara contra o cu, cujo matiz era o de uma concha de ostra.
      - de vez em quando me pergunto se o teria feito, de lhe haver visto a cara.-  Os dedos de sua mo esquerda acariciaram distradamente a boneca; compreendi 
que ainda sentia o peso dos ferros.
              O sargento tinha levantado a clava para lhe dar um forte golpe nas costelas; logo a usou para assinalar uma maa abandonada no cho e lhe voltou as 
costas.
      - No o pensei nem um momento-  disse Jamie, com voz fica- . Em dois passos ca contra ele e lhe apertei o pescoo com a cadeia de meus grilhes. No teve 
tempo de fazer um s rudo.
              A estrada estava a trs metros escassos do bordo do precipcio, com uma queda a pico de doze metros; abaixo, trinta metros de gua negra e serena, 
baixo esse vcuo cu branco.
      - Atei-o a um dos blocos e o arrojei. Logo voltei para a estrada. Ali estavam os dois homens de meu grupo, como esttuas, me observando  meia luz. No disseram 
nada; eu tampouco. Subi e me fiz cargo das rdeas; eles subiram  parte traseira. Alcanamos  coluna e continuamos juntos, sem dizer uma palavra. Ningum sentiu 
falta de ao sargento Murchison at a noite seguinte, pois se pensou que estava de licena na aldeia. No acredito que o encontrem jamais. 
              Ento pareceu tomar conscincia do que estava fazendo e apartou a mo da boneca.
      - E os dois homens?-  perguntei pelo baixo.
      - Tom Christie e Duncan Innes.
              Suspirou profundamente. Logo estirou os braos, movendo os ombros para acomod-la camisa, embora era folgada. Por fim levantou a mo para girar a de 
um lado a outro.
      - Que estranho-  disse, observando a boneca  luz.
      - Que coisa?
      - As marcas. desapareceram.
      - As marcas... dos grilhes?
              Assentiu.
      - Tive-as durante anos. Pelos roce, compreende? No sabia que tivessem desaparecido.
      - Quando te encontrei no Edimburgo, Jamie, j no as tinha. Desapareceram faz muito tempo.
              Olhou-se os braos e moveu a cabea, como se lhe custasse acredit-lo.
      - Sim-  disse pelo baixo- . Bom, tambm Tom Christie. 
      
      

      
      
      
      
      
      
      NOVENA PARTE
      
      Um assunto perigoso
      96
      Aurum
      
      A casa estava em silncio e era muito tarde para que a gente da Colina viesse de visita. Todos estariam atarefados em dar de comer s bestas, conduzir lenha 
e gua, e acender o fogo para o jantar.
              Agarrei do armrio pluma, tinta e o grande registro de casos. Logo, apontei  uma cuidadosa descrio do  tumor que o pequeno Geordie Chisholm  tinha 
na orelha, que requeria observao, e acrescentei quo medidas tinha tomado recentemente  mo esquerda do Tom Christie.
              O homem sofria de artrite nas duas mos e tinha os dedos um pouco encolhidos, mas detrs hav-lo observado atentamente durante o jantar, estava quase 
segura de que o de sua mo esquerda no era artrite, a no ser contractura do Dupuytren: uma estranha retrao dos dedos anelares e mindinho para a palma da mo, 
produzida pelo encurtamento da aponeurosis palmar.
              Em realidade, no tinha que hav-lo duvidado, mas as mos do Christie Estavam to calejadas pelos anos de trabalho que no chegava a apalpar o ndulo 
caracterstico na base do anular, Tinha notado que o dedo tinha um aspecto estranho ao lhe suturar um talho na mo. Aps o controlava cada vez que podia persuadir 
o de que me permitisse examin-lo, coisa que no acontecia freqentemente.
              face s apreenses do Jaime, os Christie eram at o momento os arrendatrios perfeitos; levavam uma vida tranqila e apartada, salvo pelas classes 
do Thomas, que parecia ser um professor estrito, mas efetivo.
              Estive lhe dando voltas  maneira de descrever a contractura do Depuytren sem lhe dar esse nome, posto que o baro Depuytren ainda no tinha nascido. 
Mas uma imagem vale mais que mil palavras, e eu me acreditava capaz de realizar um desenho linear mais ou menos real. Enquanto o tentava, perguntei-me como obter 
que Thomas Christie me permitisse lhe operar a mo.
              Era um procedimento bastante rpido e simples, salvo pela falta de anestesia e o fato de que Chistie fora abstmio e presbiteriano estrito.
              Bocejei, abandonando momentaneamente o problema e retrocedi umas quantas pginas. Queria admirar o pulcro desenho que tinha feito da mordida ofdica 
e a hipodrmica da Brianna.
              Para minha surpresa, a perna tinha curado bem; houve bastante desprendimento de malhas, mas as cresas se ocuparam disso com muita efetividade; s ficaram 
duas pequenas depresses na pele, ali onde a vbora tinha parecido as presas, e a fina cicatriz da inciso que eu fiz para limpar as malhas e colocar os vermes. 
Jaime ainda mancava um pouco, mas isso podia desaparecer com o tempo.
              Cantarolando de pura satisfao, retrocedi umas poucas pginas mais e joguei uma olhada s ltimas notas apontadas pelo Daniel Rawlings.
              Josephus Howard... sendo sua doena principal uma fstula do reto, junto com um caso avanado de hemorroides. Tratado com um cozimento de hera terrestre, 
mesclada com ilumine de potssio e uma pequena quantidade de mel, fervida junto com suco de malmequer.
      
              Uma nota posterior da mesma pgina, datada um ms mais tarde, referia-se  eficcia deste composto, com ilustraes do estado do paciente antes e depois 
do tratamento. Observei o desenho; Rawlings no era melhor desenhista que eu, mas tinha conseguido captar notavelmente a molstia intrnseca do transtorno.
              Acrescentei uma nota  margem, apontando que convinha recomendar uma dieta rica em hortalias fibrosas como apoio ao tratamento, til tambm para acautelar 
a constipao.
              Jaime j estava em seu estudo. Em um momento me reuniria com ele.
              Quase o passei por cima. Estava pontudo ao dorso do desenho da fstula, obviamente tinha sido acrescentado como comentrio casual s atividades do 
dia.
              falei com o senhor Hector Cameron, do River Run, quem me roga v examinar os olhos de sua esposa, cuja vista est gravemente afetada. A plantao est 
a grande distancia, mas enviar um cavalo.
              Incorporei-me para passar a pgina, fascinada. Queria ver se na verdade o doutor tinha examinado a Yocasta. Certa vez, com alguma dificuldade, tinha-a 
persuadido de que me permitisse lhe examinar os olhos, e tinha curiosidade por conhecer as concluses do Rawlings. A falta de oftalmoscopio no havia maneira de 
saber com certeza a causa de sua cegueira, mas eu tinha uma forte suspeita. E ao menos podia eliminar causas tais como as cataratas e a diabetes.
      Perguntei-me se Rawlings teria visto algo que eu tivesse passado por cima ou se seu estado teria piorado notavelmente aps.
              Sangrei ao ferreiro (uma pinta), purguei a sua esposa com azeite de sena e administrei ao agto trs gostas do mesmo (grtis), depois de ter observado 
um pulular de vermes nos sedimentos do animal.
              Isso me fez sorrir; por toscos que fossem seus mtodos, Daniel Rawlings era bom mdico. Perguntei-me uma vez mais o que teria sido dele e se alguma 
vez poderia conhec-lo. No seria assim; no concebia que um mdico no retornasse a reclamar instrumentos to bons como os seus, se estava em situao de faz-lo.
              Acicateado por minha curiosidade, Jaime fazia algumas averiguaes, mas sem resultados. Daniel Rawlings tinha partido para a Virginia, deixando atrs 
sua caixa de instrumentos, para desaparecer sem deixar rastro.
              Outra pgina, outro paciente; sangrados, purgaes, ampolas abertas a lanceta... Rawlings tinha tido muito que fazer no Cross Creek, mas teria chegado 
ao River Run?
              Sim, ali estava, uma semana e vrias pginas depois.
              Cheguei ao River Run depois de uma viagem espantosa. Parti para amanhecer com o servente negro do senhor Cameron, que me trouxe um cavalo. No cheguei 
a lugar seguro at muito depois do obscurecer, exausto e esfomeado. O senhor Cameron me recebeu cordialmente com brandy.
              Depois de ter feito o gasto de procurar um mdico, Hector Cameron deveu querer aproveit-lo, pois fez que Rawlings examinasse a todos os escravos e 
serventes, e tambm a ele mesmo.
              Setenta e trs anos de idade, estatura meia, largo de ombros, mas um pouco curvado. Mos to deformadas pelo reumatismo que no pode dirigir nenhum 
elemento mais sutil que uma colher. Pelo resto est bem conservado e muito vigoroso para sua idade. queixa-se de despertar de noite, mices dolorosas, Inclino-me 
por suspeitar uma doena luxurioso da bexiga antes que clculos ou enfermidade crnica das partes viris interiores, pois o transtorno  recorrente, mas se prolonga 
muito tempo em cada ocasio, sendo a durao mdia de cada ataque de duas semanas, acompanhado por irritao do rgo masculino. Febre leve, sensibilidade ao apalpar 
a zona baixa do abdmen e urina negra, de aroma forte, todo o qual apia minha opinio.
              Como na casa h uma boa quantidade de arndanos secos, receitei uma infuso, de cujo suco tem que beber trs taas ao dia. Tambm recomendei uma infuso 
de galio, a beber pela manh e de noite, por seus efeitos refrescantes e se por acaso houvesse areia fina presente na bexiga, o qual poderia agravar esse transtorno.
              Descobri-me fazendo gestos de aprovao. No sempre estava de acordo com o Rawlings, quanto a diagnstico ou tratamento, mas neste caso parecia ter 
dado no branco. Mas o que teria passado com a Yocasta? Ali estava, na pgina seguinte.
              Yocasta Cameron, sessenta e quatro anos de idade, trigrvida, bem alimentada e em bom estado general de sade, de aspecto muito juvenil.
              No h sinais de enfermidade orgnica nem dano externo dos olhos. O branco est claro; as pestanas, livres de substncia alguma; no h tumor visvel. 
As pupilas respondem normalmente se se passar uma luz ante elas e quando a vela. Ao aproximar um candil pelo flanco, o humor vtreo do olho se ilumina sem mostrar 
defeitos interiores. Noto um leve enturbiamiento que indica uma catarata incipiente na lente do olho direito, mas isto no basta para explicar a perda gradual da 
vista.
       .- Hum- disse em voz alta. As observaes do Rawling coincidiam com as minhas. A ontinuacin apontava o tempo em que se produziu a perda da vista  (aproximadamente 
dois anos) e o processo, que no tinha sido abrupto, a no ser um encolhimento paulatino do campo visual.
              Provavelmente o perodo tinha sido mais largo; s vezes a perda era to gradual que a gente no se precavia at que a vista chegava a estar em grave 
perigo.
              ...fragmentos de viso cortados como fatias de queijo. At o que subtrao da faculdade  s til a meia luz, pois a paciente exibe grande irritao 
e dor quando se expe o olho a forte luz do sol.
              Vi outros dois casos deste transtorno, sempre em pessoas de certa idade, embora no to avanado. Minha opinio  que logo a vista desaparecer por 
completo, sem que seja possvel melhor-la. Por sorte o senhor Cameron tem um servente negro que sabe ler e o ps a disposio de sua esposa, para que a acompanhe 
e lhe advirta da presena de obstculos, alm de lhe ler e lhe dar conta de quanto a rodeia.
              Agora a luz tinha desaparecido e Yocasta estava completamente cega. Com que se tratava de uma doena progressiva; isso no me dizia muito, pois quase 
todas o eram. Em que data a teria visto Rawlings?
              Podia ser qualquer entre muitas enfermidades: degenerao macular, tumor do nervo ptico, leso como parasitas, retinitas pigmentosa, arteritis temporrio..., 
mas minha suspeita preliminar era que se tratava de um glaucoma. Recordei que Fedra, enquanto molhava panos com ch frio, havia dito que sua senhora sofria "outra 
vez" de dores de cabea, como se se tratasse de algo freqente. E Duncan me tinha pedido que lhe fizesse um travesseiro de alfazema para lhe aliviar as enxaquecas.
              Mas esses dores de cabea podiam no ter relao alguma com a vista. Por ento eu no tinha perguntado como eram; talvez se tratasse de simples tenso 
nervosa, em vez da banda de presso que est acostumado a acompanhar ao glaucoma. depois de tudo, uma arteritis tambm teria provocado dores de cabea freqentes. 
O te frustrem era que o glaucoma, por si s, no tinha sintomas previsveis, salvo a cegueira final. devia-se a uma falha na drenagem do fluido ocular, de modo que 
a presso interna do olho aumentava at provocar leses, sem que o paciente nem seu mdico recebessem advertncia alguma. Mas havia outros casos de cegueira asintomticos.
              Enquanto contemplava essas possibilidades ca na conta de que Rawlings tinha contnuo com suas notas no dorso da pgina... mas em latim.
              Par pade, um pouco surpreendida. notava-se que aquilo era continuao da passagem anterior; a escritura a pluma apresenta um caracterstico obscurecimento 
e descolorao das palavras, conforme se vai renovando a tinta ao molhar a  pluma. Os matizes de cada anotao tendiam a ser diferentes ao trocar de tinta. No: 
isso tinha sido escrito ao mesmo tempo que a pgina precedente.
              Mas por que o passo repentino ao latim? Obviamente, Rawling sabia um pouco dessa lngua, o qual revelava que tinha recebido certa instruo formal, 
embora no na cincia mdica. Mas normalmente no o utilizava para suas notas clnicas, alm de alguma frase ou palavra ocasional, requerida para a descrio de 
uma doena. Ali, em troca, havia uma pgina e meia escritas em latim.
              Folheei o livro para trs para verificar minha impresso. Havia um pouco de latim aqui e l, mas com pouca freqncia e sempre de igual modo: como 
continuao de um pargrafo comeado em ingls. Era muito estranho. Voltei para a parte referida ao River Run, com inteno de decifr-la.
              depois de uma ou duas frases abandonei o esforo e fui em busca do Jaime. Estava em seu estudo escrevendo cartas.
              O tinteiro estava  mo, bem cheio, e no escritrio havia uma pluma de peru nova. No secante, uma pgina quase em branco, com trs palavras negras 
e solitrias na cabeceira. Bastou-me lhe ver a cara para saber o que diziam: "Minha querida irm."
              O levantou a vista com um sorriso irnico e se encolheu de ombros.
      O que posso lhe dizer?
      No sei.
      No posso seguir lhe dizendo que o lamento. -Fez girar lentamente o canho entre entre o polegar e o dedo mdio- . O hei dito em todas as cartas. Se estivesse 
disposta a me perdoar...
      Nesse caso Jenny teria respondido ao menos a uma das cartas que ele enviava fielmente ao Lallybroch, ms a ms.
      Ian te perdoou. E os meninos tambm.-  Esporadicamente chegavam missivas do cunhado do Jaime, junto com ocasionais nota do Jovem Jaime e, de vez em quando, 
umas linhas do Maggie, Kitty, Michael ou Janet. Mas o silncio do Jenny era to ensurdecedor que afogava qualquer outra comunicao.
      Certamente, seria pior que... -Deixou morrer a frase, com a vista perdida no papel. Em realidade, nada podia ser pior que esse distanciamento.
      Ela tinha compartilhado seu corao e sua alma desde dia em que nasceu... at o momento em que, por culpa dele, perdeu ao menor de seus filhos. Ao menos assim 
o via Jenny.
              Doa-me ver que ele ainda carregava com a culpa do desaparecimento do Ian... e sentia algum ressentimento contra Jenny. Embora compreendia o fundo 
de sua perda e me solidarizava com sua dor, Ian no tinha morrido, at onde sabamos. S ela podia absolver ao Jaime; sem dvida sabia.
               Por um tempo tnhamos suposto que a carta do Jenny se perdeu no caminho, simplesmente. Mas depois de tanto tempo eu j no tinha esperanas. Jaime 
Sim.
              - Me ocorreu que devia lhe enviar isto.-  Procuro entre os papis at encontrar uma folha pequena, manchada e suja; o bordo banguela revelava que tinha 
sido arranco de um livro.
              Era uma mensagem do Ian, nica prova concreta de que o moo ainda estava so e salvo. Tnhamo-la recebido em novembro, durante a congregao, atravs 
do John Quinze Myers, montanhs que percorria o pramo.
              A nota, escrita em torpe latim a maneira de brincadeira, assegurava que Ian estava bem e que era feliz. casou-se com uma moa " maneira mohawk"; esperava 
ser pai na primavera. Isso era tudo. A primavera tinha passado sem mais notcias. Ian no tinha morrido, mas era quase igual. As possibilidades de que voltssemos 
a v-lo eram remotas e Jaime sabia. Jaime tocou brandamente o miservel papel. Tinha-lhe contado ao Jenny o que dizia a nota, mas sem lhe enviar o original, e eu 
sabia por que: era seu nico vnculo material com o Ian; desprender-se dele era, de algum modo, entreg-lo definitivamente aos mohawks.
              "Ave! -dizia a nota- . Ian salutat avunculus Jacobus." Ian sada seu tio James.
              Para o Jaime era mais que um sobrinho. Ian era especial, um filho adotivo, como Fergus. Mas a diferena do Fergus, levava seu mesmo sangue e, em certo 
modo, substitua ao filho varo que tinha perdido. Esse outro filho tampouco tinha morrido, mas jamais poderia reclam-lo.
              - Sim -disse, com um n na garganta- . Acredito que deveria envi-la. Deveria estar em poder do Jenny, at se...
              de repente a nota me fez recordar o registro de casos. Agarrei-o, com a esperana de distrair ao Jaime.
              - Hum, falando de latim... aqui tenho um fragmento estranho. Poderia lhe jogar uma olhada?
              -  obvio.-  Deixou a um lado a nota do Ian para receber o livro; moveu-o de modo tal que o ltimo raio de sol casse sobre a pgina. Logo franziu 
ligeiramente o sobrecenho.
              - Caramba, este homem sabe to pouca gramtica latina como voc, Sassenach.
              - Mil obrigado. No todos podemos ser eruditos sabe? -Aproximei-me um pouco mais para olhar sobre seu ombro.
              - "Uma raridade..."- disse Jaime, traduzindo com lentido, enquanto passava o dedo pela pgina- . "Estou acordado..." No, acredito que quis dizer 
"Despertaram rudos na quarto contiga. Estou acreditando"... ou seja, acreditei... "que meu paciente ia urinar, e me estou levantando para segui-lo". por que, pergunto-me?
              - O paciente -informei ao Jaime- , que era Hector Cameron, tinha um transtorno na bexiga. Provavelmente Rawlings queria v-lo urinar para ver no que 
consistia a dificuldade, se havia dor, sangre na urina, esse tipo de coisas.
              - Homo procediente... o homem procede... por que diz "o homem"em vez de usar seu nome?
              - Escribia em latim para guardar o secreto -disse, impaciente por escutar o que seguia- . Suponho que, se Cameron via seu nome no livro, sentiria curiosidade. 
Mas o que passou?
              - "O homem sai..."Da casa ou s de seu quarto? Da casa, tem que ser. "...e eu o sigo. Caminha a passo firme, com celeridade..."E por que no? Ah, aqui 
est. "Me desconcerto. Dou-lhe... dei-lhe doze gros de ludano."
              - Doze gros? Est seguro de que isso  o que diz? -Inclinei-me sobre seu brao para olhar. Ele assinalou a anotao, inscrita claramente a branco 
e negro-  Mas  uma dose suficiente para tombar a um cavalo!
              - Sim, "...doze gros de ludano para ajudar ao sonho", diz. Agora se explica que ao doutor lhe intrigasse ver o Cameron brincando de correr pelo prado 
em plena noite.
              Dava-lhe uma cotovelada.
              - Segue!
              - Hum, Pois bem, diz que foi a letrina, sem dvida esperando encontrar ali ao Cameron, mas no havia ningum e no havia aroma A... n... no parecia 
que algum tivesse estado ali recentemente.
              - No precisa falar com delicadeza s por mim-  observei.
              - Sei -disse ele, muito sorridente- . Mas minha prpria sensibilidade no calejou ainda, em que pese a meu comprido contato contigo, Sassenach.
              - Esquece sua sensibilidade, por favor -disse, golpeando o cho com um p- . Onde estava Cameron?
              Ele percorreu a pgina com a  vista, formando as palavras com os lbios.
              - Ele no sabe. Vagou por ali at que o mordomo saiu de seu buraco, tomando-o por um merodeador, e o ameaou com uma garrafa de usque.
              - Que arma mais formidvel! -comentei, sorridente, imaginando ao Ulises em gorro de dormir, esse blandiendo implemento destrutivo- . Como se diz em 
latim "garrafa de usque"?
              - Ele diz aqua vitae; sem dvida  o mais aproximado que encontrou. Mas deve ter sido usque, pois diz que o mordomo lhe deu uma medida para lhe curar 
o susto.
              - Com que no achou ao Cameron?
              - Sim, ao separar-se do Ulises. Estava roncando em seu branco leito.  manh seguinte perguntou, mas Cameron no recordava haver-se levantado de noite.- 
Voltou a pgina com um dedo-   possvel que o ludano lhe impedisse de recordar?
      - Pode ser, sim - disse, com as sobrancelhas franzidas- .  muito possvel. Mas me parece incrvel que tenha podido andar por a com tanto ludano no corpo... 
a menos que... -Arqueei uma sobrancelha ao recordar os comentrios que Yocasta fazia durante nossa discusso, no River Run- . H alguma possibilidade de que seu 
tio Hector consumisse pio ou algo pelo estilo? Se estava habituado a tom-lo em grandes quantidades teria desenvolvido tolerncia.
      - Nunca ouvi nada disso. Mas no havia motivos para que me dissessem isso.
              E a verdade. Se Hector Cameron tinha mdios para permitir o consumo de narcticos importados, era assunto exclusivamente dele. Mesmo assim, algum 
o teria mencionado.
              A mente do Jaime circulava por outros caminhos.
              - Para que sair da casa em plena noite se s queria urinar, Sassenach? -perguntou- . Sei que Cameron tinha uma bacinilla. Eu mesmo a usei. Tinha seu 
nome e o escudo dos Cameron pintados no fundo.
              - Excelente pergunta. -Cravei a vista na pgina cheia de ganchos de ferro crpticos- . Se o homem sofria grandes dores ou dificuldade para urinar, 
como quando se expulsa um clculo renal, pde ter sado para no despertar aos da casa.
              - No soube que meu tio fora consumidor de pio, mas tampouco que tivesse muita considerao por sua esposa ou seus serventes.
              - Sem dvida por isso sua tia se leva to bem com o Duncan.
              - Ecce homo-  murmurou Jaime, pensativo-  Um homo francs, possivelmente?
              - O que? -Olhei-o com fixidez.
              - No te ocorreu, Sassenach, que o homem a quem o doutor seguiu pde no ser Cameron?
                 - at agora no, no me tinha ocorrido. - Inclinei-me para estudar a pgina- . Mas por que devia ser outro, francs alm disso?
      Jaime assinalou o bordo da pgina; ali havia uns pequenos desenhos que me pareceram ganchos de ferro. Um deles era uma flor de lis.
                 - Ecce homo -repetiu, tocando-o- . O doutor no estava seguro do homem ao que seguia;  por isso no o chama por seu nome. Se Cameron estava drogado, 
foi outro o que saiu essa noite da casa; entretanto ele no menciona que houvesse ningum mais ali.
                - Mas poderia no mencion-lo porque no o comprovou -argi- . s vezes adiciona notas pessoais, mas quase todas so estritamente descries de casos, 
suas observaes sobre os pacientes e os tratamentos aplicados. Mesmo assim... -Franzi as sobrancelhas- . Uma flor de lis rabiscada na margem no tem por que significar 
nada, muito menos que houvesse um francs ali.
      Alm do Fergus, no havia na Carolina do Norte muita gente dessa nacionalidade. A flor de lis podia ser um simples gancho de ferro feito ao azar; entretanto 
no havia outros no livro. Quando Rawlings inclua desenhos, estes eram esmerados  e vinham ao caso; utilizava-os como avisos ou como guia par qualquer mdico que 
o seguisse.
      Sobre a flor de lis havia uma figura que parecia um tringulo, com um pequeno crculo no vrtice e uma base curva; abaixo, uma seqncia de letras. Au et aq.
      - Au... ou -disse lentamente- . Aurum.
      - Ouro? -Jamie levantou a vista para mim, surpreso. Assenti.
      - s a abreviatura cientfica de ouro, sim. "Aurum et aqua", ouro e gua. Suponho que se refere a goldwasser, pequenas escamas de ouro suspensas em uma soluo 
aquosa.  um remdio para a artrite. E o curioso  que est acostumado a resultar, embora ningum sabe por que.
      - Custoso -observou Jaime- . Mas suponho que Cameron podia pag-lo.
      - Aqui diz que Cameron sofria de artrite.-  Franzi o sobrecenho ante a pgina e seus crpticas nota  margem- . Possivelmente pensava lhe aconselhar o uso 
de goldwasser para esse transtorno. Mas no entendo a flor de lis nem isto outro. -Assinalei-o- . No  o smbolo de nenhum tratamento mdico que eu conhea.
      Para minha surpresa, Jaime se ps-se a rir.
      - Certamente, Sassenach.  uma bssola manica.
      - De verdade? -Levantei a vista, piscando- . Cameron era maom?
      Com um encolhimento de ombros, passou-se uma mo pelo cabelo.
      - Rawlings tambm deveu s-lo -disse; em que pese a sua bvia relutncia a falar do tema, no podia deixar de estabelecer relaes lgicas- . Do contrrio 
no teria sabido disto.-  Um comprido dedo tocou o signo da bssola.
      Eu no sabia o que dizer a seguir, assim alarguei a mo livre para o registro e, para minha surpresa, ele me deteve isso.
      - deixe-me isso um pouco mais, Sassenach -disse- . H algo muito estranho nesta idia de um maom francs vagando pelo River Run, em meio da noite. Eu gostaria 
de saber que mais diz o doutor Rawlings quando escreve em latim.
      97
      Questes de sangue
      
      Houve um brilho pardo ante a porta e Adso saiu disprado da encimera, como se algum tivesse gritado: "Pescado!". Era segunda de suas paixes: Lizzie, que voltava 
do abrigo com uma terrina de nata em uma mo, um prato com manteiga na outra e uma grande jarra de leite contra o seio, precariamente sustentada pelas bonecas cruzadas. 
O gato se enroscou a seus tornozelos como uma corda peluda.
      - Nada disso, seorito -lhe disse, alargando a mo para resgatar a jarra de leite.
      - Ai, obrigado senhora.-  Lizzie relaxou os ombros com um pequeno suspiro- .  que no queria fazer duas viagens.
      Estronud e quis limp-la nariz com o antebrao, com o que ps em perigo a manteiga. Eu tirei um leno do bolso e o peguei ao nariz.
      - Encontra-te bem, Lizzie? -Sem esperar resposta, agarrei-a por um brao para reboc-la at a consulta.
      - Estou bem, senhora, de verdade -protestou.
      Estava plida. Lizzie sempre estava plida, mas esse dia sua pele tinha um matiz estranho que me inquietou. Tinha passado quase um ano desde seu ltimo ataque 
de malria e, em geral, a via bem, mas...
      - Vem aqui. -Levei-a para um par de tamboretes altos- . Sente-se um momento.
      Com bvia relutncia, mas sem atrever-se a protestar, sentou-se com os recipientes em equilbrio sobre os joelhos. depois de jogar uma olhada ao olhar fixo 
e predatrio do Adso, guardei-os no armrio.
      Pulso normal. A respirao... bem; no era sibilante nem entrecortada. As glndulas linfticas da mandbula estavam inchadas, mas isso no era estranho: a 
malria as tinha deixado permanentemente dilatadas.
      Levantei-lhe uma plpebra com o polegar para observar o crculo cinza, ansioso. Levianamente estava bem, embora um pouco avermelhado. Mas uma vez mais havia 
algo estranho em seus olhos, embora me fora impossvel determinar o que. Talvez um tintura amarelo na parte branca? Agarrei-a pelo queixo para lhe girar a cara para 
o flanco, sem que resistisse.
      - Ol. Tudo bem? -Roger se deteve no vo da porta, com um ave muito grande e muito morta pendurando da mo. 
      - Um peru! -exclamei,  com uma clida nota de admirao. O peru eu gostava, sim, mas Jaime e Bree tinham matado cinco durante na semana anterior, com o que 
nossos jantares adquiriam um sotaque de monotonia.
      - Disparou-lhe voc mesmo? -perguntei, enquanto me aproximava abnegadamente para admir-lo.
      - No. -Roger tinha a cara avermelhada pelo sol, o entusiasmo ou ambas as coisas- . Golpeei-o na asa com uma pedra -explicou, orgulhoso- . Logo o persegui 
e lhe parti o pescoo.
      - Estupendo. -Meu entusiasmo era um pouco mais autntico. Quando o limpssemos no teramos que tirar munies da carne.
      passou-se o ave  mo esquerda para me estender a mo direita, envolta em um pano ensangentado.
      - Enquanto lutava com este sofri um pequeno acidente. Poderia...?
      Retirei o pano e franzi os lbios ao ver o que havia debaixo. O peru, em sua luta por salvar a vida, tinha-lhe aberto trs talhos trincados no dorso da mo. 
O sangue estava quase coagulado, mas da puno mais fresca surgiam gotas frescas que corriam pelo dedo at cair ao cho.
      - OH!, ser um segundo. Vem te sentar. O limiar Y... Lizzie! Espera um momento!
      A moa, que tinha aproveitado a distrao para escapar para a porta, deteve-se como se tivesse recebido um balao nas costas.
      - Mas se estiver bem, senhora -rogou- . De verdade, estou boa.
      Em realidade s a tinha detido para que se levasse a manteiga e a nata guardos no armrio. Para o leite j era muito tarde; Adso estava erguido sobre as patas 
traseiras, com a cabea e os ombros dentro da jarra, da qual surgiam pequenos lhe chape isso O rudo era um eco ao que fazia o sangue do Roger ao cair no cho. E 
isso me deu uma idia.
      - Me ocorre algo. Volta a te sentar Lizzie. S quero uma gota de seu sangue.
      Lizzie no acostumava desobedecer as ordens de ningum. Desde muito m vontade, voltou a sentar-se no tamborete junto ao Roger.
      - Para que quer sangue? -perguntou com interesse- . Pode tirar da minha toda a que queira. -E levantou sua mo ferida com um grande sorriso.
      -  muito generoso -disse, enquanto preparava uma parte de linho e um punhado de portaobjetos- . Mas voc no tiveste malria.
      - Que eu saiba, no. -Roger observava meus preparativos com profundo interesse.
      Lizzie emitiu uma risada desolada.
      - Se a tivesse tido saberia, senhor.
      - Suponho que sim. -O lhe jogou um olhar compassivo- .  horrvel, conforme dizem.
      - De verdade. Todos os ossos lhe doem como se os tivesse quebrados por dentro.  como se tivesse fogo nos olhos. de repente te brota o suor a mares e logo 
vem o frio, como para que lhe partam os dentes de tanto tocar castanholas... -Encolheu o corpo em um estremecimento- . Mas eu acreditava que me tinha passado.
      - Isso espero -disse. Com uma parte de pano e lcool destilado, limpei a fundo a gema de seu dedo mdio.
      Cravei rapidamente a lanceta em sua pele; logo agarrei um portaobjeto e apertei a gema. depois de jogar generosas gotas de sangue em cada uma das trs placas 
de vidro, envolvi-lhe o dedo com o pano e a soltei.
      Apressei-me a estirar as gotas com outro portaobjetos limpo e pus os trs a secar.
      - Isso  tudo, Lizzie -lhe disse, sorridente- . Preparar isto me levar algum tempo.
      depois de sacudir o avental, saiu da habitao.
      - Diclpame por te fazer esperar -roguei ao Roger, enquanto retirava do armrio trs pequenos recipientes de terracota.
      No se preocupe. -Observava-me com fascinao.
      depois de verificar que as manchas de sangue estivessem secas, deslizei cada placa em um recipiente. J podia dedicar minha ateno a limpar e enfaixar sua 
mo ferida, um procedimento singelo.
      - No  to mau como eu pensava -murmurei, lhe limpando o sangue coagulado nos ndulos- . sangrou o bastante. Isso  bom.
      - Se voc o disser... -No fez nenhuma careta, mas manteve a cara volta para a janela.
      - Assim se limpam as feridas -expliquei, enquanto aplicava um pouco de lcool- .  No precisarei aprofundar tanto para as desinfetar.
      Ele inalou com um forte vaio. Logo, para distrair-se, assinalou com a cabea os portaobjetos postos a encharcar.
      - Falando de sangue, o que pensa fazer com a da senhorita ratita?
      -  um experimento. No sei se funcionar, mas fabriquei algumas tinturas a base de novelo. Se alguma delas se fixa ao sangue, poderei ver bem as clulas vermelhas 
sob o microscpio... e o que contm.
      - O que contm? - perguntou-me, interessado.
      - Plasmodium vivax -respondi- . O protozoo que causa a malria.
      - E se pode ver? Eu acreditava que os grmenes eram muito pequenos, at para o microscpio.
      -  pior que Jaime. -Terminei de limpar com a esponja, enxaguar e secar o dorso da mo; na gaze limpa apareciam pequenos emplastros vermelhos- . Falando de 
sangue -acrescentei como sem interesse- , sabe, por acaso, a que grupo sangneo pertence?
      Ante isso arqueou uma sobrancelha escura. Ao fim e ao cabo, eu no tinha querido insinuar-lhe subrepticiamente; s procurava uma maneira de abordar o tema.
      - Sim -disse lentamente- . Sou zero positivo.
      - Que interessante -disse. Substitu a parte de gaze por um limpo e comecei a aplicar a vendagem.
      - Em que medida  interessante? -perguntou ele.
      - Moderadamente.
      Retirei os portaobjetos, que jorravam tintura rosada e azul. Pus uma a secar contra a jarra de leite; logo intercambiei os outros dois, colocando o rosado 
na tintura azul e viceversa.
      - H trs grupos sangneos principais -disse, enquanto soprava brandamente contra o portaobjeto posto a secar- . Mais, em realidade, mas esses trs so os 
que todo mundo conhece. Dizemos que uma pessoa  de tipo sangneo A, B ou 0. Como qualquer outra caracterstica, determina-se geneticamente. E como os seres humanos 
so heterossexuais, em geral, herda de cada um de seus pais a metade dos gens que correspondem a qualquer caracterstica.
      - Lembrana vagamente ter estudado isso na escola -disse Roger, cortante- . Mas suponho que agora tem certa importncia pessoal, no?
      - No sei. Poderia ser.
      O portaobjeto rosado parecia seco; apoiei-o brandamente sob o microscpio e me inclinei para graduar o espelho. Enquanto fazia girar a rodinha de enfoque, 
olhando pelo ocular, continuei:
      - O caso  que esses grupos sangneos se relacionam com os anticorpos, uns objetos pequenos, de forma estranha, que as clulas sangneas tm na superfcie. 
Quer dizer: a gente de tipo A tem em suas clulas uma classe de anticorpos; a gente de tipo B, outra diferente, e a de tipo 0 no tem nenhum.
      de repente apareceram os glbulos vermelhos, levemente coloridos, como fantasmas redondos e avermelhados. Aqui e l, uma mancha de rosado mais escuro assinalava 
o que podia ser um pouco de refugos celulares ou, possivelmente, um glbulo branco, maior. Mas no havia muito mais. Enquanto retirava de seus banhos os outros portaobjetos, 
prossegui:
      - Se um dos pais d ao filho o gen do sangue tipo 0, e o outro lhe d o do tipo A, o sangue do menino aparecer como tipo A, pois o que o exame revela so 
os anticorpos. Mesmo assim, o menino ter tambm o gen do tipo 0.
      Agitei brandamente um dos vidros no ar para sec-lo.
      - Meu tipo sangneo  0. Agora bem: sei que o sangue de meu pai era tipo 0. A fim de que tenha aparecido esse tipo,  necessrio que seus dois gens tenham 
sido 0. portanto, o gen A proveio de minha me.
      Vendo que em suas faces aparecia a familiar expresso de vacuidade, deixei o portaobjeto cn um suspiro. Bree, depois de desenhar uns esporos de penicilina 
por meu encargo, tinha deixado junto ao microscpio seu bloco de papel e seu lpis de grafite. Procurei uma folha em limpo.
      - Olhe -disse. E desenhei rapidamente um grfico.
      
                      Henry                                Julia
                      00 = Tipo 0                        A? = A ou AB
                                      Claire
                                      0A = Tipo A
      
      - Compreende? -Assinalei com a barra de grafite- . No sei com certeza o tipo de minha me, mas no importa; para que eu tenha o tipo sangneo A, ela tem 
que me haver passado esse gen, pois meu pai no o tinha.
      O seguinte portaobjeto estava quase seco; pu-lo em seu stio e me inclinei para olhar pelo ocular.
      - Os tipos sangneos, esses anticorpos, podem-se ver pelo microscpio? -Roger, estava a minhas costas, muito perto.
      - No -disse, sem levantar a vista- . Este no tem tanta resoluo. Mas se podem ver outras coisas. Ao menos, isso espero.
      Movi a rodinha uma frao de centmetro e as clulas surgiram  vista. Ali estavam os glbulos vermelhos, grumos rosados em forma de disco; aqui e l, dentro 
de algumas destas clulas. O corao me palpitava de entusiasmo.
      - Vem ver! -exclamei com deleite. E fiz a um lado.
      Roger se inclinou, intrigado.
      - O que  o que vejo? -perguntou, entortando os olhos.
      Plasmodium vivax -respondi, orgulhosa- . Malria. Esses pequenos grumos escuros que esto dentro das clulas.
      Eu ia e vinha, recolhendo os refugos de minhas operaes. Quando me agachei para recolher o pano ensangentado com que ele se envolto a mo, perguntou:
      - E sabe o tipo sangneo do Bree, certamente.
      - Tipo B -disse, com a vista na caixa de ataduras- . Bastante estranho, sobre tudo entre as pessoas brancas. encontra-se principalmente em populaes pequenas 
e bastante isoladas.
      - Populaes pequenas e isoladas. Os montanheses de Esccia, por exemplo?
      Elevei o visto.
      - Possivelmente.
      Ele assentiu em silncio; era bvio que refletia. Logo agarrou o lpis e desenhou lentamente um novo grfico no bloco de papel.
                      Claire                                                Jaime
                      A0 = Tipo 0                                        B? = B ou AB
                                              Brianna
                                              0B = Tipo B
      
      - Assim  -assenti a seu olhar interrogativo- . Exatamente.
      Ele respondeu com um sorriso irnico. Logo baixou a vista para estudar os grficos.
      - Isso significa que pode averigu-lo? -perguntou ao fim, sem me olhar- . Com certeza?
      - No. -Com um pequeno suspiro, deixei cair o pano no cesto da roupa suja- . Quer dizer, no posso dizer com certeza se Jemmy for teu, mas possivelmente pudesse 
dizer com certeza se no o for.
      Sua tez tinha perdido o rubor.
      - Como  isso?
      Bree  tipo B, mas eu sou tipo Isso A. significa que ter um gen B meu gen 0; pode ter dado ao Jemmy qualquer dos dois. Voc s pde lhe dar um gen tipo 0, 
pois no tem outro.
      Assinalei com a cabea uma srie de tubos que estavam perto da janela; o soro que continham resplandecia com um matiz de ouro pardusco ante o sol da tarde 
avanada.
      Pois bem, se Bree lhe deu um gen 0 e voc, seu pai, deste-lhe outro gen 0, seu sangue ser tipo 0; no ter anticorpos e no reagir ao soro preparado com 
meu sangue, com a da Brianna ou a do Jaime. Se Brianna lhe deu seu gen B e voc lhe deu 0, aparecer como tipo B: seu sangue reagir ante meu soro, mas no ante 
o do Bree. Em qualquer desses casos o pai poderia ser voc... ou qualquer outro de tipo sangneo 0. No obstante, se...
      Recolhi o lpis que Roger tinha deixado e, enquanto falava, escrevi lentamente, ilustrando as possibilidades.
      
                      Brianna                                                Roger
                      0B = Tipo B                                                00 = Tipo 0
                                              Jemmy
                                              0B ou 00 = Tipo B ou Tipo 0
      
      Mas... -Dava uns toques com o lpis contra o papel- . Se Jemmy resultasse tipo A ou tipo AB, isso significaria que seu pai no era homocigtico do tipo 0. 
Homocigtico significa que os dois gens so do mesmo tipo, como voc.
      Apontei as alternativas  esquerda do grfico anterior.
              X                                Brianna                        Roger
      A0/AA/AB/BB/B0/00                B0 = Tipo B                        00 = Tipo 0
                              Jemmy                                Jemmy
                              AB = Tipo AB                B0 = Tipo B
                              A0 = Tipo A                        00 = Tipo 0
                              0B/B0 = Tipo B
                              BB = Tipo B
                              00 = Tipo 0
      
      Vi que a vista do Roger se desviava por um instante para essa X e me perguntei por que o tinha escrito assim. depois de tudo, o outro possvel pai no eram 
um desconhecido qualquer.
      - Tenha em conta que o tipo 0  muito comum -disse, em tom de desculpa.
      - Assim se for tipo 0 ou tipo B, pode ser meu, mas no teremos a certeza. Em troca, se for tipo A ou AB, teremos a segurana de que no  meu.
      -  uma anlise muito tosco -disse, tragando saliva- . No posso... quer dizer, sempre cabe a possibilidade de um engano.
      O assentiu sem levantar a vista.
      - O h dito ao Bree? -perguntou em voz baixa.
      -  obvio. Disse que no queria sab-lo, mas que o fizesse se voc o pedia.
      Inclinei-me para o microscpio, de costas a ele, para lhe dar um momento de intimidade.
      - ...Quatro, cinco, seis ... -Contava as clulas infectadas pelo baixo, tratando de soslayar a presena do Roger e a sbita lembrana que tinha surto ao lhe 
dizer qual era o tipo sangneo do Bree.
      Aos sete anos tinham extirpado as amdalas. Eu no esqueceria a cara do mdico ante o grfico que tinha na mo, com o tipo sangneo da menina e o de seus 
pais. Frank era tipo A, como eu. E dois pais tipo A no poderiam, em nenhuma circunstncia, ter um filho tipo B. O mdico olhou a ambos, com a cara contrariada pelo 
sobressalto... e me olhou com olhos cheios de fria especulao.
      Frank, bendita sua alma, tambm viu essa expresso e disse, com desenvoltura "Minha esposa era viva; eu adotei ao Bree ao pouco de nascer." Imediatamente 
a cara do mdico se fundiu em desculpas, enquanto meu marido me estreitava a mo com fora atrs das dobras de minha saia. Apertei a mo ao record-lo, para lhe 
devolver o gesto... e o portaobjeto se inclinou de repente, me deixando ante os olhos um vidro impreciso.
      Roger se levantou minhas costas. Voltei-me para ele. Sorria, com olhos suaves e escuros como o musgo.
      - O sangue no importa -disse em voz baixa- .  meu filho.
      -  Sim.-  Me fez um n na garganta- . Sei.
      
      

      98
      
      Moo preparado
      
              Essa noite soprava um vento frio do este. de repente, uma rajada inflou o couro engordurado que cobria a janela, desprendendo-o por um lado; a forte 
corrente de ar disseminou os papis da mesa e inclinou a chama da vela em um ngulo alarmante.
      
              Roger se apressou a pr a vela fora de perigo e apertou o couro com a palma da mo, enquanto jogava uma olhada sobre o ombro, se por acaso o rudo 
tivesse despertado a sua esposa e a seu filho. No lar, as brasas despediram uma sbita lngua de fogo. Brianna se moveu ante o roce frio em sua bochecha.
      
              Mas se limitou a acurrucarse um pouco mais sob os edredons. O camastro onde Jemmy dormia agora estava amparado pela cama grande; desde esse rinco 
no se ouvia nada.
      
              Roger revolveu em um pequeno recipiente de haste, cheio de tolices teis, at encontrar uma tachinha. Cravou-a em seu stio com o canto da mo, com 
o que a corrente se reduziu a uma pequena filtrao, e logo se agachou para recolher os papis cansados.
      
      Deixaro que retorne a vaca do Telfer?
      Ou no faro nada por mim?
      
              Repetiu mentalmente os versos; ainda os ouvia em voz cascata do Kimmie Clellan.
      
              Era uma cano chamada "  Jaime Telfer of the Fair Dodhead" , uma daquelas balidas antigas, compostas por dezenas de versos e com dezenas de variaes 
regionais, todas as quais se referiam aos esforos do fronteirio Telfer por vingar um ataque contra sua casa, convocando a ajuda de parentes amigos. Roger conhecia 
trs dessas variaes, mas Clellan sabia outra, que inclua todo um argumento secundrio sobre o Willie, o primo do Telfer.
      
              Kimmie havia dito que s cantava para passar o momento ou para entreter aos anfitries cujo fogo compartilhava. Recordava todas as canes de sua juventude 
em Esccia e gostava das interpretar tantas vezes como a gente quisesse, enquanto lhe mantiveram a gargante bem molhada.
      
              O resto dos presentes na casa grande desfrutaram de duas ou trs peas de seu repertrio; quarta asa comearam a bocejar e piscar; por fim, com os 
olhos frgeis, murmuraram uma desculpa e se retiraram em massa  cama, enquanto Roger seguia proporcionando Usque ao velho e o insistia a repetir a cano uma vez 
mais, para grav-la letra na memria.
      
              Mas a memria era imprevisvel. Era muito mais seguro confiar as coisas importantes ao papel. A pluma raspava brandamente, captando as palavras uma 
a uma para as cravar como vaga-lumes na pgina.
      Mas eu arriarei a vaca do Telfer
      Mau que em que pese a todo escocs...
      
              A vela emitiu um breve chiado ao chegar a um enguio da mecha. O resplendor vacilou sobre a folha e as letras se esfumaram abruptamente nas sombras, 
enquanto a chama se reduzia a uma an azul, como a sbita morte de um sol em miniatura.
      
      -" Mas Willie foi golpeado na cabea" - murmurou para si-. " Mas Willie foi golpeado na cabea, e a espada lhe atravesse o joelho." 
      
              Brianna se moveu na cama, fazendo ranger as barbas das espiga de milho, e levantou a cabea com um murmrio inquisitivo.
      
      -No se preocupe- sussurrou ele, jogando um olhar inquieto ao camastro do rinco-. Apagou-se a vela. Segue dormindo.
      
              " Mas Willie foi golpeado na cabea..." 
      
      -Ngm.- Um suspiro e o rudo da cabea que voltava a cair contra o travesseiro de plumas.
      
              Como um relgio, Jemmy apareceu a seu desde seu prprio ninho de mantas. antes de que Roger pudesse mover-se, Brianna j tinha sado do leito como 
um mssil teleguiado para arrancar ao menino de seus edredons, atirando de suas roupas com uma s mo.
      
      -Bacinilla!- espetou ao Roger, procurando s cegas com o p descalo.
      
              Impelido  obedincia foto instantnea pela urgncia de seu tom, Roger se jogou no cho e moveu o brao em um arco pelo negro vazio, sob a cama.
      
              " Willie foi golpeado na cabea... e no joelho, pantorrilha?" 
      
      -Aqui est!
      
              Tinha achado o recipiente de terracota. Enviou-o pelo cho para o Bree.
      
              Ela plantou ali ao Jemmy, j nu, enquanto ela murmurava frases alentadoras.
      
      -Bom, tesouro, sim, assim ...
      
              " willie foi matado na... No, golpeado." 
      
      -No quer caca?- E o sacudia brandamente por um ombro.
      -Querer caca?- sentiu saudades Roger. Essa curiosa expresso se separou de sua mente os restos do verso-. O que significa isso de " querer caca" ?
      
              Sua opinio pessoal, apoiada em sua experincia de pai, era que os meninos produzem sua prpria caca; mais ainda, nascem em estado de caca e em adiante 
melhoram muito lentamente. Assim o disse, provocando um olhar mortal por parte da Brianna.
      
      -O que?- exclamou ela, em tom cortante-. Como que nascem em estado de caca?
      
              Tinha uma mo no ombro do Jemmy, para mant-lo em equilbrio; a outra lhe rodeava a tripa; o ndice desaparecia nas sombras de abaixo, para controlar 
sua pontaria.
      
      -Caca- explicou Roger-. Parece-me que est claro.
      
              Ela abriu a boca para  replicar, mas Jemmy se cambaleou de um modo alarmante, com a cabea queda sobre o peito.
      
      -No, no!- exclamou ela, sujeitando-o-. Acordada, bonito! Faz caca!
      
              Essa frase insidiosa se instalou na mente do Roger e substitua alegremente a metade do verso esfumado.
      
              " Willie foi sentado a fazer sua caca, e a espada atravessou a bacinilla" 
      
              Sacudiu a cabea para desprender-lhe mas j era muito tarde: as verdadeiras palavras tinham fugido. J resignado, agachou-se junto  Brianna para ajud-la.
      
      -Acordada, amigo. Tem que trabalhar.- Levantou o Jemmy o queixo com um dedo e lhe soprou na orelha.
      
              Brianna bocejou, lhe pisquem e carrancuda  luz da vela.
      
      -Bom, se voc no gosta de " fazer caca" , como o dizem em Esccia?- interpelou, irritada.
      -Pois... acredito recordar que um amigo perguntava a seu pequeno se queria fazer pop- comentou.
      
              Brianna respondeu com um rudo grosseiro, mas Jemmy moveu as plpebras.
      
      -Pop- disse com ar sonhador, como se gostasse do som.
      -O que mais voc goste- resignou-se Brianna, ainda chateada-. Faz caca, faz pop, mas termina com isso, que mami quer dormir.
      -No deveria lhe tirar esse dedo do... hum?- Roger assinalou com a cabea a parte em questo-. vais provocar lhe algum complexo.
      -Com gosto.- Bree se apressou a retirar a mo, com o que o pequeno objeto saltou para cima, apontando diretamente ao Roger sobre o bordo da bacinilla.
      -N, um mom...!- Alcanou a levantar uma mo como escudo, bem a tempo.
      -Pop- disse Jemmy, sonriendo com dormitado prazer.
      -Moo preparado!- disse Roger, sinceramente.
      
              Uma momentnea surpresa interrompeu o aplauso da Brianna.
      
              Ele tambm ficou surpreso. Havia-o dito automaticamente e, para ouvir as palavras, por um momento sua voz lhe pareceu alheia. Muito familiar, mas alheia. 
Era como quando apontava a cano do Clellan, ouvindo a voz do ancio at enquanto formava as palavras com seus prprios lbios.
      
      -Sim, isso, preparado- repetiu com mais suavidade, dando uns tapinhas na cabea sedosa.  
      
              Enquanto Bree deitava ao Jemmy, entre beijos e murmrios admirativos, ele levou a bacinilla fora para esvazi-la. Completo esse bsico ato higinico, 
foi lavar se as mos no poo antes de voltar para a cama.
      
      -terminaste que trabalhar?- perguntou Bree, sonolenta. E se deu a volta para lhe plantar o traseiro contra o ventre, sem mais cerimnias.
      -Por esta noite sim.- Rodeou-a com seus braos e a beijou detrs da orelha.
              
              O sonho estendeu uma manta de torpor at suas orelhas e abriu os pulcros armrios de sua mente, dando sada para todos os pensamentos e impresses 
do dia, que se disseminaram em coloridos montes.
      
              resistiu durante alguns minutos  inconscincia para pinar entre essas riquezas pulverizadas, com a vaga esperana de achar uma parte da cano do 
Telfer. Mas o que surgiu de entre os escombros no foi a histria do malfadado Willie, a no ser uma voz. Nem a sua nem a do velho Kimmie Clellan.
      
              " Moo preparado!" , disse, com clida voz de contralto, tinta de risada. Roger deu um coice.
      
      -O que h dito?- murmurou Brianna.
      -Anda... sei preparado- murmurou ele, repetindo as palavras que se formavam em sua memria-. Isso era o que ela dizia.
      -Quem?- Brianna girou a cabea.
      -Minha me.- Lhe ps a mo livre na cintura-. Perguntaste-me o que dizamos em Esccia. Tinha-o esquecido, mas isso era o que ela estava acostumada me dizer. 
" Anda, sei preparado."  Ou: " Precisa ser preparado?" 
      -de vez em quando falas de seu pai, mas nunca te ouvi mencionar a sua me.
      - que no recordo grande coisa dela.
      -Que idade tinha quando morreu?- A mo da Brianna foi posar se na sua.
      -Pois... quatro anos, acredito. Quase cinco.
      -Hum...- Com esse murmrio compassivo, estreitou-lhe a mo.
      -O que.
      - que... estava pensando... se eu morrera agora... Jemmy  to pequeno que no recordaria nada absolutamente- sussurrou, com as palavras mdio apagadas pelo 
travesseiro.
      -claro que sim- contradisse-a ele automaticamente; queria reconfort-la, at sabendo que tinha razo.
      -Voc no a recorda, e foi muito major quando a perdeu.
      -Mas sim a lembrana- corrigiu ele, cravando a gema do polegar no ponto onde o pescoo se unia ao ombro-. S que vagos fragmentos. H umas poucas coisas que 
recordo com claridade, como o camafeu que estava acostumado a lhe pendurar do pescoo, com suas iniciais desenhadas com diminutas pedras vermelhas. Eram granadas.
      
               possvel que esse camafeu lhe tivesse salvado a vida ao fracassar em seu primeiro intento de cruzar atravs das pedras.
      
      -Isso  uma coisa, Roger.- A voz do Bree tinha um sotaque de aspereza-. Mas dela, lembra-te? O que saberia Jemmy de mim... ou de ti mesmo... se de ns ficasse 
s...?- Olhou ao redor em busca de algum objeto adequado-. Seu bodhran e minha navalha?
      -Ele saberia muito de ns, e no s pelas coisas que deixssemos, embora lhe serviriam de ajuda.
      -Como?
      -Pois... -Ela havia tornado a relaxar os ombros-. Voc estudou um pouco de histria, verdade? Sabe o muito que se pode deduzir dos objetos domsticos, tais 
como pratos e brinquedos.
      -Hum...- Ela parecia duvidar, mas talvez s queria que a convencesse.
      -E Jem saberia muito de ti atravs de seus desenhos- assinalou.
      -Acredito que isso  verdade- reconheceu ela, lentamente-. Eu gostaria de saber se Jem ser msico... ou desenhista.
      - assim como nos conhecer melhor- disse em troca, reatando a suave massagem-. Quando se estudar a si mesmo.
      -H algo que me intriga. Quando descobriu o do Jaime, quando ambos comeamos para busc-lo... deveu te perguntar como seria. Quando o achou, resultou ser o 
que imaginava pelo que j sabia dele ou pelo que sabia de ti mesma?
      -No sei- disse-. No soube ento e sigo sem sab-lo.
      -O que significa isso?
      -Quando ouve falar de algum antes de conhec-lo, a pessoa no  exatamente como lhe haviam dito nem como imaginava, certamente. Mas tampouco esquece o que 
tinha imaginado; isso permanece em sua mente e, em certo modo, funde-se com o que descobre ao conhec-la.- Inclinou a cabea para diante, pensativa-. Alm disso, 
mesmo que ouve algo de algum a quem j conhece, isso tambm afeta sua maneira de v-lo, no  assim?
      -N? Hum, suponho que sim. Refere-te... a seu outro pai? Ao Frank?
      -Suponho que sim.- Ela se moveu sob suas mos em um encolhimento de ombros-. O que me diz de seus pais, Roger? Seria por isso que o reverendo guardou todas 
aquelas caixas com suas coisas?, para que mais adiante, ao as ver, soubesse mais deles e as adicionar a suas prprias lembranas?
      -Sim, suponho que sim- murmurou ele, inseguro-. De qualquer modo no tenho nenhuma lembrana de meu verdadeiro pai; s me viu uma vez, e por ento eu tinha 
menos de um ano.
      -Mas recorda a sua me, no? um pouco, ao menos?
      
              A verdade era que nunca tinha feito o intento consciente de recordar a sua me. Ao pens-lo experimentou uma repentina e desacostumada vergonha.
      
      -Ela morreu na guerra, no?- Bree tinha retomado a massagem que ele suspendesse, lhe acariciando a coxa endurecida.
      -Sim... nos bombardeios alemes.
      -Em Esccia? Eu acreditava que...
      -No. Em Londres.
      
              No queria falar disso. Nunca tinha falado disso. Entretanto esta noite... sentia um eco da breve angustia do Bree ao pensar que seu filho podia no 
record-la.
      
      -Minha av materna era inglesa- disse lentamente-. Viva. Quando mataram a meu pai fomos viver com ela a Londres.
      
              Respirou profundamente. Bree, ao senti-lo, apertou com firmeza as costas contra seu peito.
      
      -Mame... minha me... era mida, como a av. Quer dizer... me pareciam grandes, mas lembrana... lembrana que ficava nas pontas dos ps para retirar coisas 
da prateleira.
      -Como era? Parece-te em algo a ela?
      -um pouco- disse ele, lentamente-. Tinha o cabelo escuro, como eu.
      
              A habitao ficou em silncio, salvo pelo murmrio do fogo e o suave crepitar dos lenhos. A noite era fria, mas serena; pela manh haveria nvoa; Roger, 
ao sair, havia sentido a umidade que emanava das rvores, acumulando-se na terra. Mas o interior da casa estava morno e seco.
      
      -Eu estava com ela- disse Roger em voz baixa.
      
              Estava de costas, com a vista perdida nas vigas, apenas visveis para seus olhos adaptados  escurido.
      
      -O que? Com quem?- A pausa do sonho era perceptvel na voz do Bree, mas a curiosidade a espabil um instante.
      -Com minha me. E minha av. Quando... a bomba.
      
              Ela girou abruptamente a cabea, consciente de sua tenso, mas Roger seguiu com a vista cravada nas vigas escuras, sem piscar.
      
      -me quer contar isso A mo da Brianna encontrou a sua e a estreitou. Ele no estava seguro de querer faz-lo, mas assentiu.
      -Suponho que lhe devo isso. Reconheceu-. Era de noite. Soaram os alarmes anti-areos. Eu sabia o que significavam, mas sempre morria de medo. No havia tempo 
de vestir-se. Mame me arrancou da cama e me ps o casaco sobre o pijama. Logo corremos escada abaixo, para o refgio mais prximo.
      
              Para eles, o refgio mais prximo era a estao do metro, ao outro lado da rua.
      
      -Era estimulante.- Viu a gente apinhada, ouviu os gritos dos guardas sobre o rudo da multido-. Tudo vibrava: o cho, as paredes, o ar mesmo.
              Fazendo trovejar os ps nos degraus de madeira, correntes de refugiados se equilibravam para as vsceras da terra: ao primeira plataforma, ao de mais 
abaixo e ao seguinte, como se cavassem para um lugar seguro. Havia pnico, mas pnico ordenado.
      -As bombas podiam atravessar quinze metros de terra, mas as plataformas mais abaixo eram seguras.
              Ao chegar ao p do primeiro lance, correndo empurrando uns com outros por um breve tnel de azulejos brancos, at o batente da escada seguinte. Ali 
havia um espao amplo; a multido se formou redemoinhos nele, cheia pela presso de quo refugiados provinham do outro tnel, e se reduziu um pouco, pois s uma 
pequena parte podia apinhar-se no lance seguinte.
      -Havia um muro que rodeava o batente da escada. A av temia que me esmagassem contra ela, pois a gente descia no turba da rua, empurrando desde atrs.
              Nas pontas dos ps, com o peito apertado contra o cimento, alcanava a olhar por cima do muro. Abaixo, as luzes de emergncia formavam linhas seguidas 
ao longo dos muros e pintavam franjas na multido.
      -A pouca distncia se ouviu um grande golpe. Vi         que as luzes tremiam. Logo se ouviu um rudo como de algo que se rasgasse ali acima. Todo mundo levantou 
a vista e comeou a gritar.
              A greta aberta no teto no parecia muito alarmante: apenas uma linha negra que serpenteava como uma vbora em um quebra-cabeas, seguindo as linhas 
dos azulejos. Mas se alargou sbitamente e deixou entrar uma corrente de p e pedras.
      -Ela me soltou- disse, em um sussurro estrangulado-. Soltou-me a mo. 
              Piscou com fora, tratando de controlar sua respirao, enquanto recompunha os fragmentos destroados dessa noite. Confuso, frenesi, dor... mas o 
que tinha acontecido em realidade? No guardava a no ser uma impresso de caos. Mas tinha sobrevivido a todo isso; devia saber o que tinha acontecido. S tinha 
que decidir-se a reviv-lo.
      
              Roger fechou os olhos e deixou que acontecesse.
      
      -Ao princpio no o recordava- murmurou ao fim-. Quer dizer, sim, mas recordava somente o que me tinham contado.
      
              No tinha lembrana algum de que o tivessem levado atravs do tnel, inconsciente, nem das semanas que tinha passado depois do resgate, transladado 
com outros rfos de refgio em refgio, de lar em lar, emudecido pelo terror e o desconcerto.
      -Sabia meu nome e minha direo, certamente, mas nessas circunstncias no servia de muito. Meu pai j tinha morrido. Mesmo assim, quando as organizaes de 
socorro localizaram ao irmo de minha av o reverendo, j tinham conseguido averiguar o que aconteceu no refgio.
      
              " Foi um milagre que eu no morrera com todos os que pereceram nessa escada" , disseram. Disseram que minha me devia me haver perdido no meio do pnico, 
que a multido devia me haver miservel escada abaixo. Foi assim como acabei no nvel inferior, onde o teto resistiu.
      -Mas agora recorda o que aconteceu?- perguntou em voz baixa.
      -Recordava, sim, que ela me tinha solto a mo. Por isso pensei que o resto tambm era verdade. Mas no foi assim. Ela me soltou a mo.
      
              As palavras surgiam agora com mais facilidade; a opresso da garganta e o peito tinha desaparecido.
      
      -Soltou-me a mo... e logo me levantou. Essa mulher mida... levantou-me para me arrojar por cima do muro, para a multido que enchia a plataforma de abaixo. 
Acredito que me desvaneci pela queda... mas lembrana o rugido com que cedeu o teto. Dos que estavam nessa escada no sobreviveu ningum.
      -Est bem- sussurrou-lhe, com voz rachada; a luz do fogo arrebentava em manchones estrelados atravs das lgrimas-. No esqueceremos. Nem Jem nem eu. Acontea 
o que acontecer, no esqueceremos.
      
      99
      
      Irmo
      
              A neve comeava a fundir-se. Eu estava indecisa entre o prazer que me causava o degelo e o palpitar da primavera na terra..., e a preocupao pela 
perda da barreira glacial que nos protegia, ao menos temporalmente, do mundo exterior.
      
              Jamie no tinha trocado de idia. Dedicou toda uma velada a redigir cuidadosamente uma carta ao Milford Lyon. Dizia que j estava preparado para estudar 
a venda de seus produtos (leia-se usque ilegal), tal como o senhor Lyon lhe tinha proposto; agradava-lhe dizer que j dispunha de uma quantidade considervel. Entretanto, 
preocupava-lhe a possibilidade de que sua mercadoria sofresse algum percalo na entrega (quer dizer, que fora interceptada pelas autoridades alfandegrias ou escamoteada 
no trajeto), pelo qual desejava alguma segurana de que seria transportada por um cavalheiro de reconhecida capacidade para essas operaes.
      
              O senhor Priestly, seu bom amigo do Edenton (a quem, certamente, no tinha visto nunca em sua vida), assim como o senhor Samuel Cornell, com quem tinha 
tido a honra de trabalhar no Conselho de Guerra do governador, asseguravam-lhe que o mais capaz para tais empresas era certo Stephen Bonnet, cuja reputao era inigualvel. 
Se o senhor Lyon estivesse disposto a acordar uma entrevista com dito senhor Bonnet, a fim de que Jamie se formasse uma impresso prpria quanto a fiabilidad do 
negcio proposto, nesse caso...
      
      -Crie que aceitar?- perguntei.
      -Se conhecer o Stephen Bonnet ou pode localiz-lo, sim, far-o. Priestly e Cornell so nomes que tm um efeito mgico.
      -E se localizar ao Bonnet...
      -irei reunir me com ele.
      
              A carta ao Lyon foi despachada atravs do Fergus, e eu tratei de no seguir pensando nela. Mesmo assim o assunto continuava espreitando nos rinces 
de minha mente. O dia em que, ao retornar de atender um parto, encontrei um monto de cartas no escritrio do Jamie, o corao me ps na garganta.
      
              Graas a Deus no havia resposta do Milford Lyon. De qualquer modo tivesse ficado rapidamente eclipsada, pois entre o monto de correspondncia havia 
uma carta dirigida ao Jamie, com a forte letra negra de sua irm.
      
              Logo que pude me conter para no abri-la imediatamente, se por acaso continha alguma recriminao hiriente, a fim de arroj-la diretamente ao fogo 
antes de que Jamie pudesse v-la. Prevaleceu a honra: consegui me conter at que retornou-se Salem. Uma vez informado do que tinha chegado, lavou-se apressadamente 
a cara e as mos antes de ir a seu estudo. depois de fechar cautelosamente a porta, rompeu o selo.
      
              Jenny Fraser Murray escrevia com mo hbil; sua letra era redonda e elegante; as linhas, retas e facilmente legveis.
      16 de setembro de 1771
      
      Irmo:
      
              Bem. Depois de ter pego a pluma para escrever esta nica palavra, fiquei-me contemplando-a at que a vela se consumou dois ou trs centmetros, sem 
idia alguma de como continuar. Continuar assim seria esbanjar a cera de abelha, mas se apagar a vela e vou  cama terei arruinado uma folha de papel sem utilidade 
alguma. Por ende, a economia me obriga a continuar.
      
              Poderia te encher de recriminaes. Assim utilizaria a pgina, alm de preservar o que meu marido gosta de qualificar como as maldies mais horrveis 
que tenha tido o privilgio de escutar em sua larga vida. Isso seria proveitoso, pois em seu momento tomei grandes molstias para as compor e eu no gostaria que 
esses esforos se perdessem. Mesmo assim, acredito que o papel disponvel no  suficiente para todas elas.
      
              Alm disso penso que talvez no convm te arreganhar nem te condenar, depois de tudo, pois poderia interpret-lo como justo castigo e, desse modo, 
considerar que j expiaste seu crime, com o que deixaria de te castigar a ti mesmo. A penitncia seria muito simples. Se tiver tecido seu prprio cilcio, prefiro 
que continue usando-o, e oxal te esfole a alma como a perda de meu filho esfola a minha.
      
              em que pese a tudo, suponho que se escrevo  para te perdoar. Sei que algum propsito tinha ao agarrar a pluma e, embora o perdo me parece com a presente 
uma empresa muito duvidosa, suponho que a idia me far mais cmoda com a prtica.
      
              Suponho que te perguntar o que me conduziu a realizar este ato, de modo que lhe direi isso.
      
              na segunda-feira passada sa cedo para visitar o Maggie; teve outro beb, de modo que tornaste a ser tio; trata-se de uma preciosa menina chamada Anglica. 
Ao entardecer empreendi a volta, mas depois de percorre um trecho minha mula pisou na entrada  toca de uma toupeira e caiu. Tanto a arreios como eu nos levantamos 
algo coxas; era bvio que no poderia montar  besta e que no chegaria muito longe se continuava a p.
      
              Encontrava-me na estrada Auldearn, depois de ter subido a costa desde o Balriggan. Normalmente no procuro nenhum contato com o Laogharie Mackenzie 
(pois reassumiu esse nome, depois de ter expresso eu no distrito meu desgosto por v-la utilizar o do Fraser, ao que no tinha direito), mas se aproximava a noite, 
ameaava chuva e sua casa era o nico lugar onde podia encontrar teto e comida. De modo que desensill a mula e, deixando que se procurasse seu jantar  beira do 
caminho, parti coxeando em busca da minha.
      
              Desci por detrs da casa, mais  frente do estbulo, e cheguei a prgola que voc construiu. A estas alturas as trepadeiras cresceram tanto que no 
se via nada, mas soube que havia algum ali, pois se ouviam vozes.
      
              Ento comeou a chover. Era s uma garoa, mas o tamborilo contra as folhas deveu afogar minha voz, pois ningum respondeu a minha chamada. Aproximei-me 
um pouco mais, e quando estava a ponto de chamar uma vez mais, ouvi os rudos de uma estranha hochmagandy dentro da prgola
      
      -Hochmagandy?- Olhei ao Jaime com as sobrancelhas arqueadas em gesto de pergunta.
      -Fornicao- esclareceu ele, lacnico.
      
              Pareceu-me que o melhor era ficar aquieta. Por isso alcanava a oir, a que se abria de pernas era Laoghaire, mas no tinha nem idia de quem podia 
ser seu companheiro. Como tinha o tornozelo mais inchado que uma bexiga, no podia caminhar muito mais. De modo que me vi obrigada a esperar sob a chuva, escutando 
toda essa inhonest.
      
              Se o te cortejarem tivesse sido um homem de distrito, eu o teria sabido, mas no tinha notcias de que aceitasse cuidados de ningum, embora vrios 
o tivessem tentado; depois de tudo, ela  a proprietria do Balriggan e vive como uma grande senhora com o dinheiro que voc lhe envia.
      
              Escutar aquilo me encheu de indignao, mas mais ainda me surpreendeu descobrir a causa daquilo. Que minha fria era por ti, por irracional que resulte, 
dadas as circunstncias. Mesmo assim, depois de ter descoberto semelhante emoo em meu peito, vi-me obrigada a reconhecer que meus sentimentos por ti no tinham 
perecido de tudo, na verdade.
      
              Aqui se interrompia o texto, como se Jenny tivesse tido que atender algum assunto domstico. Na pgina seguinte se reatava com outra data.
      
              18 de setembro de 1771
      
      de vez em quando sonho com o jovem Ian... 
      
      -O que?- exclamei-. Que jovem Ian nem jovem Ian! Com quem estava Laoghaire?
      -J eu gostaria de sab-lo- murmurou Jamie. 
      
              de vez em quando sonho com o jovem Ian. Freqentemente, esses sonhos adquirem a forma da vida cotidiana; vejo-o aqui, no Lallybroch; mas ocasionalmente 
sonho com sua vida entre os selvagens... se  que de verdade ainda vive.
      
              Agora compreendo que, ao fim de contas, tudo se reduz ao mesmo com o que comecei, essa nica palavra: "  Irmo."   meu irmo, tal como o jovem Ian 
 meu filho. Se ter perdido a meu filho amargura os sonhos, te haver perdido me amargura os dias, Jamie.
      
              Passei-me a manh escrevendo cartas e me perguntando se terminaria esta, ou a jogaria no fogo. Mas as contas j parecem, tenho escrito a todo mundo 
e as nuvens se foram, de modo que o sol brilha atravs da janela e sobre mim cai a sombra das rosas de nossa me.
      
              Muitas vezes, ao longo destes anos, ouvi ouvir a voz de minha me. Mas neste caso no preciso escut-la para saber o que me diria. Por isso no arrojarei 
isto ao fogo.
              Recorda, verdade?, o dia em que rompi a jarrita do leite ao lhe arrojar isso  cabea, um dia em que me estava chateando. Sei que o recorda, pois uma 
vez o mencionou ao Claire. Eu vacilava em admitir o delito e voc assumiu a culpa, mas pai sabia a verdade e castigou a ambos.
      
              Agora sou dez vezes av e tenho o cabelo cinza, mas ainda me ardem as bochechas de vergonha e me encolhe o estmago quando recordo aquilo: pai fez 
que nos ajoelhssemos juntos para nos dar uns aoites.
      
              Voc chiava e grunhia como um cachorrinho enquanto te pegava; eu logo que podia respirar e no me atrevia a te olhar. Logo me tocou o turno, mas estava 
to alterada pelas emoes que logo que senti os golpes. Sem dvida, ao ler isto dir, indignado, que foi s porque pai me tratou com mais suavidade, por ser uma 
menina.  possvel que sim e  possvel que no; reconheo que Ian  mais tenro com suas filhas.
      
              Esse dia jurei que no voltaria a ser covarde.
      
              E agora vejo que  covardia continuar te culpando pelo do Ian. Sempre soube o que significa amar a um homem, seja marido ou irmo, amante ou filho. 
E  perigoso.
      
              Os homens iro onde lhes agrade e faro o que devam; no corresponde  mulher lhes pedir que fiquem, nem lhes fazer recriminaes por ser o que so... 
ou por no retornar.
      
              Sabia quando enviei ao Ian a Frana, sabia quando te vi partir para o Leoch, com a esperana de que no se esquecesse do Lallibroch nem de mim. Sabia 
quando o jovem Jamie nadou para a ilha das focas, quando Michael se embarcou para Paris. E deveria hav-lo sabido, tambm, quando o pequeno Ian se foi contigo.
      
              Mas sempre tive sorte, pois meus homens voltaram para mim sempre. J estivessem mutilados ou queimados, coxos, desfeitos ou em farrapos, sempre retornaram. 
Cheguei a supor que era meu direito. E isso foi um engano.
      
              Da sublevao vi muitas vivas. No sei por que supus que estava isenta desses sofrimentos, que devia ser quo nica no perdesse a nenhum de seus 
homens e s a um de seus pequenos. Justamente por ter perdido ao Caitlin amei tanto ao Ian, pois sabia que era meu ltimo filho.
      
              Ainda o considerava meu menino, em vez de reconhecer que era um  homem. E sendo assim as coisas, sei muito bem que, at se voc tivesse podido ret-lo, 
no o teria feito, pois voc mesmo  outra dessas condenadas criaturas.
      
              Agora cheguei quase ao final desta pgina e me parece um esbanjamento comear outra.
      
              Me te amou sempre, Jamie. Quando compreendeu que ia morrer me mandou chamar e me encomendou cuidar de ti. Como se eu pudesse deixar de faz-lo jamais.
      
              Seu muito afetuoso e amante irmana, 
      Janet Floresce Arabella Fraser Murray
      
              Jamie reteve o papel um momento; logo o baixou com muita suavidade e apoiou a cabea entre as mos, de modo que eu no podia lhe ver a cara. Tinha 
os dedos enredados no cabelo e se massageava a frente, movendo lentamente a cabea. Sua respirao se ouvia um pouco entrecortada.
      
              Por fim deixou cair as mos para me olhar, piscando, intensamente avermelhado e com lgrimas nos olhos. Sua expresso era muito estranho; nela se mesclavam 
o desconcerto, a fria e a risada, que era apenas mais visvel.
      -OH!, Deus- disse. secou-se os olhos com o dorso da mo-. OH!, Cristo, como diabos o consegue?
      -O que?- Tirei um leno limpo do suti para dar-lhe 
      -Fazer que me sinta como se fora em menino de oito anos. Em cima, idiota.
      
              A carta do Jenny me encheu de alegria e aliviou grandemente o corao do Jamie. Ao mesmo tempo, seguia sentindo uma grande curiosidade com respeito 
ao incidente que ela tinha comeado a descrever. Sabia que a do Jamie era at maior, mas ele se cuidava muito de diz-lo.
      
              Uma semana depois chegou uma carta de seu cunhado Ian; essa no mencionava absolutamente a aventura do Jenny perto do Balriggan, nem o descobrimento 
feito em a prgola.
      -No poderia escrever para lhes perguntar?- insinuei delicadamente-. Ao Ian ou ao Jenny?
      -No poderia- respondeu ele, com firmeza-. depois de tudo no  meu assunto, verdade? Se essa mulher foi alguma vez minha esposa, hoje no o . E se quer ter 
um amante,  assunto dele.
      
              No que me tinha contado de seu breve matrimnio com o Laoghaire MacKenzie nada insinuava que sentisse atrao fsica por ela. Havia-a desposado por 
solido, ou ao menos isso me havia dito. E eu lhe acreditava. Era homem de honra e eu compreendia sua solido, pois tinha padecido a prpria. Em geral eu conseguia 
esquecer que tinha compartilhado o leito do Laoghaire, breve e insatisfactoriamente, conforme dizia ele. Mas no esquecia que ela tinha sido e ainda era uma mulher 
bastante atrativa. O qual me induzia a lamentar que Jenny Murray no tivesse encontrado outra inspirao para trocar de sentimentos com respeito a seu irmo.
      
              Jamie passou o resto do dia calado e abstrado, embora voltou a mostrar-se socivel quando, depois do jantar, Fergus e Marsali vieram com os meninos 
a nos fazer uma visita. Enquanto ele ensinava ao Germain a jogar s damas, Fergus repetia para o Roger a letra de uma balada que tinha aprendido nos becos de Paris. 
As mulheres nos sentamos junto ao lar para costurar roupa de beb, tecer escarpines e, em honra do embarao do Marsali e o compromisso do Lizzie, nos entreter mutuamente 
com arrepiantes anedotas do parto.
      
              J era tarde quando nos deitamos. Jamie estava recostado contra o travesseiro, com as mos cruzadas detrs da nuca. Para frio, o bastante como para 
que os cristais da janela se empanassem com nosso flego, mas ele no se ps camisa de dormir. Enquanto me escovava o cabelo pude admirar o espetculo.
      
              Embora se tinha reposto bem da mordida de serpente, ainda estava mais magro que de costume; isso permitia ver o arco elegante da clavcula e os msculos 
largos do brao, osso a osso. A pele do peito estava bronzeada ali onde estava acostumado a deixar a camisa aberta.
      -A luz da vela te favorece, Sassenach- disse, sonriendo.
      -O mesmo pensava eu de ti- disse, enquanto deixava a escova para me levantar.
      -Deixemo-la acesa, pois. -Ele alargou uma mo para me impedir que a apagasse. Sua mo rodeou minha cintura, me atraindo-. Vem a cama e deixa que te olhe. 
Eu gosto de como se move a luz em seus olhos, como o usque quando o verte sobre o haggis e logo lhe prende fogo.
      -Que potico- murmurei.
      
              Mas no fiz remilgos quando ele me abriu espao e me tirou a camisa. A habitao estava o bastante fria como para que me encolhessem os mamilos, mas 
a pele de seu peito era um calor delicioso contra meus peitos. Ele me estreitou com um suspiro de prazer...
      
              Muito mais tarde despertei na escurido, ao sentir outra vez suas mos sobre mim. Como ainda estava gratamente dormitada, permaneci inerte, deixando 
que fizesse sua vontade. Minha mente estava apenas sujeita  realidade; demorei um pouco em notar que havia algo desconjurado, e mais ainda em limpar a mente.
      
              Ele estava curvado pela metade sobre mim, com a cara mdio iluminada pelo resplendor do lar. Tinha os olhos fechados e o sobrecenho um pouco franzido; 
respirava pelos lbios entreabiertos. movia-se quase mecanicamente. Perguntei-me, atnita, se era possvel que o estivesse fazendo em sonhos.
      
              Acariciava-me de um modo estranho, montono, como quem realiza uma tarefa repetitiva. O contato era mais que ntimo, mas tambm impessoal. 
      
              de repente, sem abrir os olhos, retirou o edredom que me cobria e me separou as pernas com uma brutalidade nada habitual nele. Fechei instintivamente 
as pernas e me escapuli. Ento me plantou as mos nos ombros e me apartou as coxas com o joelho para me possuir com rudeza.
      
              Meu agudo chiado de protesto fez que abrisse os olhos. Olhou-me. Suas pupilas estavam apenas a dois ou trs centmetros das minhas, desfocadas. Logo 
cobraram abrupta conscincia. Ficou petrificado.
      
      -Quem diabos te crie que sou?- disse, em voz baixa e furiosa.
      
              Ele se separou de mim para lanar-se fora da cama; os cobertores caram ao cho enquanto desprendia sua roupa do perchero. Alcanou a porta em dois 
passos e saiu dando uma portada.
      
              Esfreguei-me a cara com as mos, tratando de espabilarme. Acaso era eu a que sonhava?
      
              No. Era ele. Mdio dormido (ou de tudo) tinha-me tomado pela maldita Laoghaire. Nenhuma outra coisa podia explicar o que me houvesse meio doido com 
essa desagradvel impacincia, tinta de clera. Obviamente era impossvel voltar a conciliar o sonho. Passei alguns minutos contemplando as sombras entre as vigas, 
mas ao fim me levantei para me vestir.
      
              O ptio estava triste e frio sob a lua. Nada se movia e o vento no era mais que um suspiro entre os pinheiros. Mas a certa distncia se ouvia um rudo 
dbil e regular. Caminhei cuidadosamente para ele, na escurido.
      
              A porta do celeiro estava aberta.
      
              Apoiei-me no marco, cruzada de braos, enquanto ele ia de um lado a outro amontoando o feno sob o claro de lua, para descarregar os nervos. meus ainda 
me palpitavam nas tmporas, mas comearam a ceder enquanto o observava.
      
              Ele sabia que eu estava ali; notei-o pela forma em que mantinha a cabea volta para outro lado. Por fim cravou a forquilha no monto e foi sentar se 
em um banco feito com o meio tronco, a cabea entre as mos e os dedos esfregando violentamente o cabelo.
      
              Quando me olhou sua expresso estava a meio caminho entre o desconcerto e uma relutante diverso.
      
      -No entendo.
      -O que?- fui sentar me perto dele, com as pernas encolhidas sob o corpo.
      -Nada, Sassenach- respondeu secamente, me olhando de soslaio.
      -To mal esto as coisas?- A maneira de prova, deslizei-lhe uma mo pelas costas.
      
              Ele soltou um profundo suspiro.
      
      -Quando tinha vinte e trs anos, no compreendia que ao olhar a uma mulher me derretessem os ossos e ao mesmo tempo me sentisse capaz de dobrar o ferro com 
as mos. Aos vinte e cinco, no compreendia como se podia adorar a uma mulher e querer viol-la, tudo de uma vez.
      -A uma s mulher?- perguntei.
      
              E obtive o que procurava: curve-a em sua boca e um olhar que me atravessou o corao.
      -Uma sozinha- confirmou. Estreitou-me com fora a mo que eu tinha posado sobre seu joelho, como se temesse que eu a arrebatasse-. S uma. E isso  o que no 
entendo tampouco agora. Amo-te, a nighean donn. Amei-te do momento em que te vi e te amarei at que se acabe o tempo.
      
              Percorreu-me uma quebra de onda de calor mas, antes de que pudesse responder, ele se voltou a me olhar, com uma consternao tal que resultou quase 
cmica.
      
      -E se as coisas so assim, Claire, por que quero abordar o primeiro navio que zarpe para Esccia, para procurar um homem a quem no conheo e mat-lo, s por 
deitar-se com uma mulher sobre a qual no tenho nenhum direito e a que alguma vez pude suportar durante mais de trs minutos?
      
              Descarregou o punho contra o tronco e a madeira vibrou sob minhas ndegas.
      -No o entendo, no!
      
              Contive o impulso de lhe dizer: " Acaso crie que eu sim?"  Em troca me limitei a lhe acariciar muito brandamente os ndulos com o polegar. No era 
tanto uma carcia como um gesto de consolo, e assim o interpretou ele. Ao fim suspirou profundamente e se levantou.
      
      -Sou um parvo- disse.
      -Talvez. Mas no ir a Esccia, verdade?
      
              Em vez de responder, levantou-se para passear-se de um lado a outro, chutando com mau humor os grumos de barro seco. No era possvel que estivesse 
pensando... Custou-me manter a boca fechada, mas aguardei com pacincia at que ele se deteve frente a mim.
      -De acordo- disse, como se fora uma declarao de princpios-. No sei por que me irrita que Laoghaire procure a companhia de outro... No, isso no  verdade: 
sei muito bem. E no  por cimes nem... Bom, sim, mas isso no  o principal.
      
              Olhou-me como se me desafiasse a contradiz-lo, mas eu no abria a boca. Ento respirou profundamente, com a cabea baixa.
      
      -Bem, devo ser sincero.- Apertou os lbios um momento. Logo estalou, me olhando-. por que? O que encontra nele?
      -Quem em quem? Laoghaire no homem que...?
      - que ela detestava o sexo!- interrompeu-me-. Talvez eu cria ser melhor do que sou... ou voc me adula... -Cravou-me um olhar que tratava de ser fulminante, 
mas acabou em desconcerto-. Sou... sou...?
      
              Eu no sabia se esperava que eu respondesse: " Sim que o !"  ou " No, nada disso!" . Contentei-me com um sorriso que dizia ambas as coisas.
      
      -Bem, bem- reconheceu, a contra gosto-. Nunca acreditei que fora por minha culpa. E antes de nos casar eu gostava o bastante. Eu pensava que possivelmente 
lhe desgostavam os homens em geral ou o ato em si. E nesse caso... pois no era to grave, porque no era minha culpa, embora me sentia na obrigao de arrumar isso...
      
              Perdeu-se em seus pensamentos, com o cenho enrugado. Logo reatou, suspirando:
      -Mas talvez me equivocava. Possivelmente fora culpa minha, sim. E isso  o que agora me atormenta.
      
              Eu no sabia bem o que lhe dizer, mas era bvio que devia dizer algo.
      
      -Acredito que no era tua culpa- assegurei-. Era um problema dela. Embora talvez prejulgo. Ao fim e ao cabo tratou de me matar.
      -O que?- deu-se a volta, estupefato.
      -No sabia? Ah...- Tratei de recordar se o tinha contado. No, provavelmente no. Entre uma coisa e outra, ento no me pareceu importante. Pensava que no 
voltaria a v-la. E depois..., depois perdeu toda importncia. Expliquei-lhe brevemente que aquele dia, no Cranesmuir, Laoghaire fazia que me reunisse com o Geillie 
Duncan, sabendo perfeitamente que a foram prender por bruxaria, com a esperana de que me prendessem tambm, como logo aconteceu.
      -Essa cadela maldita!- exclamou, mais atnito que outra coisa-. No, no sabia uma palavra disso. Sassenacha!, crie que me teria casado com ela, se o tivesse 
sabido?
      -Ento, s tinha dezesseis anos- aduzi; dadas as circunstncias, podia ser tolerante e perdoar-. Talvez no esperava que nos julgassem nem que o tribunal queria 
nos queimar vivas. Possivelmente s pensou que, se me acusavam de bruxa, voc perderia interesse em mim.
      
              Ao menos ao lhe revelar esse engano tinha conseguido distrai-lo.
      
              Sua nica resposta foi um bufido. Durante um momento se passeou de um lado a outro, inquieto, fazendo ranger a palha pulverizada. Por fim se deteve 
com um enorme suspiro e apoiou uma mo no banco, a cabea em meu ombro.
      -Perdoa- sussurrou.
      
              Abracei-o para estreit-lo com fora contra mim, at que voltou a suspirar e os ns de seus ombros se relaxaram. Ento o soltei. Ele ficou de p e 
me ofereceu a mo.
      
              Fechamos a porta do celeiro para voltar para casa, da mo e em silncio.
      
      
      
      
      
      100
      
      Baleia morta
      
              Por volta de finais de maro, os caminhos que descendiam da montanha j estavam transitveis. Como ainda no havia notcias do Milford Lyon, depois 
de alguma discusso se decidiu que Jamie e eu, com a Brianna, Roger e Marsali, viajaramos ao Wilmington, enquanto Fergus levava os informe das medies topogrficas 
a New Bern, para arquiv-los e registr-los formalmente.
      
              As moas e eu compraramos as provises que nos tinham esgotado durante o inverno, enquanto Roger e Jamie faziam discretas averiguaes sobre o Milford 
Lyon... e Stephen Bonnet. Fergus se reuniria conosco assim que tivesse terminado com o dos relatrios topogrficos.
      
              Uma vez localizado o senhor Bonnet, Jamie e Roger iriam ao lugar onde realizava seus negcios e se alternariam para mat-lo a tiros ou atravess-lo 
com a espada, depois do qual retornariam s montanhas.
      
              O calor aumentava grandemente conforme descendamos para a costa. Conseguimos alojamento em uma estalagem pequena e poda, um pouco afastada do mole. 
Era relativamente troca e cmoda, embora algo pequena e escura.
      
      -por que no tm mais janelas?- grunhiu Brianna, depois de tropear com o Germain na escurido do patamar.
      -Imposto s janelas- informou-lhe Roger.
      -O que? A Coroa cobra impostos s janelas?
      -Sim. s pessoas deveria lhe preocupar mais isso que os selos ou o ch, verdade? Mas ao parecer esto acostumados.
      
              As moas, os meninos e eu dedicamos vrios dias a fazer compras, enquanto Roger e Jamie mesclavam os negcios com o prazer em diversos botequins. J 
tinham terminado com a maioria de seus recados e Jamie obtinha um pequeno, mas til ingresso adicional mediante o jogo de naipes e as apostas nas carreiras de cavalos, 
mas do Stephen Bonnet s tinham sabido que no o via pelo Wilmington desde fazia alguns meses.
      
              Mais avanada a semana, comeou a chover at o ponto de ter que passar dois dias encerrados. Marsali ficava levantada at entrada a noite, escutando 
as rajadas e rezando o rosrio ou jogando s cartas com o Jamie, para distrair-se.
      
      -Fegus disse que viria de New Bern em um navio grande? O Octopus? Soa a navio de bom tamanho, verdade, papai?
      -OH!, sim. Mas acredito que os paquetes tambm so muito seguros. No, no descarte essa, moa. Tira o trs de espadas.
      -Como sabe que tenho o trs de espadas?- inquiriu ela, com um gesto suspicaz-. E isso dos paquetes no  verdade. Sabe tanto como eu. Anteontem vimos os restos 
de um no fundo da rua Elm.
      -Sei que tem o trs de espadas porque eu no o tenho- disse-lhe Jamie, apoiando sua mo de cartas contra o peito-. E as outras espadas j esto todas na mesa. 
Alm disso, Fergus poderia vir por terra, no em navio.
      
              Uma rajada sacudiu as venezianas.
      
      -Outro motivo para no ter janelas- comentou Roger, enquanto olhava a mo do Marsali por cima de seu ombro-. Jamie tem razo: te descarte o trs de espadas.
      -Oua, segue voc. Eu devo atender ao Joanie.- levantou-se sbitamente e, depois de pr as cartas nas mos do Roger, correu  pequena habitao vizinha, que 
compartilhava com seus filhos. Eu no tinha ouvido chorar ao Joanie. Acima se ouviu um golpe forte e lhe chiem: um ramo que cruzava o telhado. Todos levantamos a 
vista. Por debaixo do alarido do vento se ouvia o rumor oco do fluxo, que fervia sobre as restingas inundadas, castigando a costa.
      
      
      
              Pela manh tinha espaoso e desde mar chegava uma brisa fresca, que cheirava a lavanda martima, a pinheiros... e trazia o forte fedor de uma besta 
martima apodrecendo-se ao sol. O mole ainda mostrava uma deprimente ausncia de mastros. No havia navios grandes ancorados ali, nem sequer um queche ou um paquete, 
embora o porto do Wilmington fervia de botes, balsas, canoas e pirettas.
      
              Uma delas detectou a nosso pequeno grupo, desconsolado no mole, e se lanou para ns. Os remadores elevaram a voz para nos perguntar se necessitvamos 
transporte. Ao inclinar-se Roger para rechaar cortesmente o oferecimento, a brisa do porto lhe arrebatou o chapu, que foi posar se na espuma das guas parduscas, 
girando como uma folha.
      
              A embarcao se desviou imediatamente para o chapu flutuante e um dos remadores o trespassou com a ponta do remo, para levant-lo em um gesto triunfal. 
Mas quando a piretta se aproximava do mole, a expresso jubilosa de barqueiro se transformou em estupefao.
      
      -MacKenzie!- exclamou-. Que me agarram em um palito de dentes se no ser ele!
      -Duff! Duff, velho amigo!- depois de agachar-se para recolher seu chapu, Roger ofereceu a mo a seu conhecido.
      
              Duff subiu agilmente ao mole e estreitou ao Roger em um abrao viril. Outros observavam cortesmente esse encontro. 
      
      -Conhece-o?- perguntei a Brianna, que examinava ao velho amigo de seu marido com ar dbio.
      -Acredito que esteve embarcado com o Roger- replicou.
      -Mas que pintas tem, homem!- exclamo o remador, dando um passo atrs. passou-se alegremente a manga pelo nariz-. Jaqueta de grande senhor, e que botes! E 
o chapu! Mas se for to posto que at a mierda te escorregaria!
      
              Roger, rendo, agachou-se para recolher o chapu empapado. depois de golpe-lo contra a coxa para desprender uma fibra de alga, entregou distradamente 
ao Bree, que continuava observando ao senhor Duff com bastante desconfiana.
      
      -Minha mulher- apresentou-a. Logo nos abrangeu em um gesto-. E sua famlia. O senhor James Fraser, a senhora Fraser... e a irm de minha mulher, que tambm 
 dos MacKenzie.
      -Um servidor, senhor... senhoras.- Duff se inclinou ante o Jamie, apoiando um dedo no horrvel objeto que tinha na cabea, breve amostra de respeito. Logo 
olhou a Brianna e um largo sorriso lhe estirou os lbios-. Ah, assim que te casaste com ela; tiraste-a que suas calcinhas, j vejo.- Com uma cotovelada familiar 
s costelas do Roger, reduziu a voz a um rouco sussurro-. Teve que pagar ao pai por ela... ou ele te pagou para que lhe levasse isso?- E emitiu um rudo lhe chiem 
que interpretei como risada.
      
              Jamie e Bree lhe cravaram olhadas identicamente frite ao longo dos retas narizes, mas antes de que Roger pudesse responder o outro barqueiro gritou 
algo incompreensvel da embarcao.
      
      -OH!, sim, sim, agenta a gua, homem-. O senhor Duff sossegou a seu scio com um gesto da mo-. Isso  uma piada- explicou-me em tom de confidncia-. Entre 
marinheiros, sabe voc? " Agenta a gua" , compreende? Porque se no agentar a gua terminar no fundo do porto, no?- E repetiu aqueles chiados, estremecido de 
regozijo.
      
      -Muito gracioso- assegurei-lhe-. Mas ele disse algo sobre uma baleia, no?
      -OH, claro! No  para isso para o que baixastes  costa?
      
              Todo mundo o olhou sem entender.
      -No- disse Marsali, muito conciente de seu encargo para emprestar ateno a outra coisa, nem sequer a uma baleia-. No, senhor, viemos a ver se houver notcias 
do Octopus. Sabe voc algo dele?
      -No, senhora. Mas diante dos bancos, o tempo esteve traioeiro durante todo o ms...- Ao ver que a moa empalidecia se apressou a acrescentar-: Muitos navios 
devem haver-se desviado, compreende? Podem ter procurado outro porto ou estaro frente  costa, esperando cus mais claros para chegar a este. O que tivemos que 
fazer ns ao chegar no Gloriana, recorda MacKenzie?
      -Sim,  certo- assentiu Roger. Mas seus olhos se tornaram precavidos ante a meno desse navio. Olhou um instante a Brianna e logo, ao Duff-. Vejo que te separaste 
que capito Bonnet- disse, baixando um pouco a voz.
      -Stephen Bonnet?- repetiu meu marido, olhando-o com interesse-. Conhece voc a esse cavalheiro?
      -Conheo-o, sim, senhor- disse Duff, fazendo o sinal da cruz-se.
      
              Ao ver isso Jamie assentiu lentamente.
      
      -J vejo, j vejo. Conhece voc por acaso, o paradeiro atual do senhor Bonnet?
      -Pois bem, quanto a isso...
      
              Duff o olhou especulativamente, apreciando os detalhes de sua vestimenta e seu aspecto. Obviamente se perguntava quanto podia valer a resposta a essa 
pergunta. Mas sua scia, ali abaixo, impacientava-se cada vez mais.
      
              Marsali tambm.
      -Onde podem ter ido, senhor? Se tiverem procurado outro porto?- perguntou.
      -Bonnet?- Jamie arqueou as sobrancelhas, com uma expresso de uma vez alentadora e ameaadora.
      -vo ver a baleia ou no vo ver a baleia?- chiou o cavalheiro do bote, impaciente por procurar empresas mais rentveis.
      
              Duff parecia no saber a quem responder primeiro. Seus ojillos parpadeantes foram e vinham entre o Jamie, Marsali e seu scio, cada vez mais vociferante. 
Adiantei-me para romper a pausa.
      -Que baleia  essa?
      
              Obrigado a concentrar-se nessa pergunta, mais direta, Duff pareceu aliviado.
      -Pois a baleia morta, senhora! Uma muito grande que o mar lanou  ilha. Eu supus que todos tinham vindo a v-la.
      
              Ento ca na conta de que o movimento de embarcaes no era de tudo casual. Algumas canoas e barcaas grandes se dirigiam, na verdade, para a boca 
de Cape Fear, mas a maior parte dos botes mais pequenos foram e vinham; j desapareciam na bruma distante ou retornavam dela, trazendo pequenos grupos de passageiros. 
A sombrinhas de linho brotavam como cogumelos nos botes; entre a gente do mole havia muitos habitantes da cidade, que olhavam ao outro lado com ar de espera.
      
      -Dois xelins por passagem completa- sugeriu Duff, para congraar-se-. Ida e volta.
      
              Roger, Brianna e Marsali se mostraram interessados. Jamie, inquieto.
      -Nisso?- perguntou, jogando um olhar ctico a piretta que cabeceava abaixo.
      
              O scio do Duff, um cavalheiro de raa e idioma indeterminveis, pareceu ofender-se ante essa crtica implcita a sua embarcao, mas Duff nos tranqilizou:
      
      -OH!, mas se hoje o mar est muito tranqilo, senhor, muito tranqila. Ser como estar sentado em um botequim. No? Muito adequado para conversar- E piscou 
com afvel inocncia.
      
              Jamie inalou profundamente e jogou outra olhada a piretta. Por um lado odiava os botes. Pelo outro, por ir detrs o Stephen Bonnet faria coisas muito 
mais se desesperadas que abordar uma embarcao. S ficava por ver se na verdade o senhor Duff tinha informao que nos servisse ou se s procurava passageiros. 
Tragou saliva, procurando valor.
      
      Duff, sem esperar, fortaleceu sua posio dizendo ao Marsali, astutamente:
      -Na ilha h um farol, senhora. De acima se pode olhar mar dentro, a grande distancia, e ver se houver algum navio ancorado frente aos bancos.
      
              Ela baixou imediatamente a mo a sua bolsa. Com um suspiro resignado, Jamie afundou a mos em seu sporran.
      
      -Ser melhor procurar outro bote mais, para que no nos afoguemos todos de uma vez.
      
      
      
               medida que entrvamos na gua, o mar no estava to sereno, mas o subir e descer do fluxo nos embalava apaciblemente.
      
              Joguei uma olhada  costas do Jamie, mas mantinha a cabea inclinada. Ao remar, seus ombros se moviam em um ritmos fcil e potente.
      
              Resignado ao inevitvel, ocupou-se energicamente da situao. depois de chamar um segundo bote, fez que Bree, Marsali e os meninos subissem a ele. 
A seguir anunciou que ele e Roger agarrariam os remos da piretta, a fim de que Duff pudesse despreocuparse e recordar melhor qualquer dado interessante referente 
ao Stephen Bonnet.
      
              Duff e Peter se instalaram em um extremo da embarcao. me indicou que me sentasse no outro extremo, frente a eles.
      
      -Para que vigie um pouco as coisas, Sassenach.- Jamie me ps na mo a culatra de sua pistola. Logo, ajudou-me a descender ao bote e se embarcou a sua vez, 
cautelosamente.
      
              Roger, sentado diante de mim, remava com rtmicas flexes dos largos ombros, claramente habituado ao exerccio. Jamie, frente a ele, dirigia os remos 
com bastante elegncia, mas sem tanta segurana.
      
      -OH!, sim que poderia me acostumar a isto. O que diz voc, Peter?- Duff levantou o largo nariz para a brisa, com os olhos semicerrados, para saborear a novidade 
de que outro dirigisse os remos.
              Peter, que parecia ser uma extica mescla de ndio e africano, respondeu com um grunhido.
      
      -Stephen Bonnet?- inquiriu Jamie, cordialmente, enquanto atirava dos remos.
      -Ah!, sim.- Ao parecer, Duff teria preferido adiar indefinidamente o tema, mas um olhar  cara do Jamie o resignou ao inevitvel-. O que deseja voc saber?- 
perguntou, encurvando os ombros em um gesto de cautela.
      -Para comear, onde est.
      -No tenho nem idia- respondeu ele, pressuroso e j mais satisfeito.
      -Pois bem, onde viu voc a esse cretino por ltima vez?- perguntou Jamie, paciente.
      
              Logo deu uma cotovelada a seu scio.
      -Estava em um botequim do Roanoke, comendo bolo de pescado.
      - voc muito observador, senhor Duff- comentou Jamie-. E seu sentido do tempo?
      -N? Sim, j entendo, homem. Quando foi... Far dois meses, pouco mais ou menos.
      -E se voc estava to perto para ver o que o homem comia- observou Jamie, tranqilamente-, suponho que devia estar compartilhando sua mesa, verdade? Do que 
falava?
              Duff pareceu um pouco sobressaltado.
      -Pois... principalmente, do culo da taberneira.
      -No acredito que esse tema de conversao possa ocupar toda uma comida, por escultural que fora a moa- interveio Roger.
      -Homem! No imagina o muito que se pode dizer sobre o traseiro de uma mulher- assegurou-lhe o marinheiro-. Sem nimo de ofend-la- acrescentou pressuroso, 
inclinando o chapu para mim.
      -No me ofendeu- assegurei-lhe cordialmente.
      -Sabe voc nadar, senhor Duff?- perguntou Jamie, em tom de leve curiosidade.
      -O que?- O escocs piscou, sobressaltado-. Eu... n... pois...
      -No, no sabe- informou Roger, alegremente-. Disse-me isso.
      
              O outro lhe arrojou um olhar de trada indignao por cima da cabea do Jamie.
      
      -V lealdade!- exclamou, escandalizado-. Bom companheiro  voc! Olhe que me entregar desse modo...! Que falta de vergonha!
      -Bonnet- repetiu Jamie, ainda em tom corts, mas cortante.
      -Mas se lhes digo a verdade: no tenho a menor ideia de onde possa estar esse homem. Quando o vi no Roanoke estava fazendo alguns acertos para trazer certos... 
certa marcanca. Se isso lhe servir de algo...- acrescentou, grosseiro.
      -Que mercadoria? Aonde a trazia? Para lev-la aonde?
      -Por isso entendi, caixas de ch- respondeu Duff, cauteloso-. Quanto ao resto, no sei.
      -Que resto?
      -Vamos, homem, todo navio que navega por esta gua leva diferentes tolices. Voc tem que sab-lo.
      -Trouxeram ch. De onde? De um navio?
      -Sim, o Sparrow- prosseguiu Duff, sem apartar a vista dele-. Ancorou frente aos bancos e fomos em botes para trazer a carga, atravs da enseada do Joad. Desembarcamos 
no mole do Wylie e ali entregamos tudo a um tipo.
      -O que... tipo?
      
              Duff demorou para responder. Em seus ojillos afundados faiscou um olhar especulativo.
      
      -Que no te ocorra, Duff- disse Roger em voz baixa, mas firme-. daqui  posso te alcanar com um remo, entende-o?
      -Sim?- O outro os olhou a ambos, pensativo, logo, a mim-. Sim, suponho que poderiam. Mas at caso que saiba nadar, MacKenzie, e que o senhor Fraser possa manter-se 
a flutuao... no acredito que a senhora possa, verdade? Com tantas falddas e anguas...- Moveu a cabea, com os lbios franzidos em um gesto caviloso-. Iria ao 
fundo como uma pedra.
      -Claire?- disse Jamie.
      
              Percebi a nota tensa em sua voz. Com um suspiro, extra a pistola que escondia sob a jaqueta, cruzada em meu regao.
      
      -Bem- disse-. Contra qual disparo?
      
              Peter abriu repentinamente os olhos, tanto que mostrou um anel branco em volto  das ris negras. Olhou a pistola, logo ao Duff e, finalmente, ao Jamie.
      
      -D ch a um homem Butla- disse-. Trabalha p' s'or Lyon.- Logo assinalou a seu companheiro-. Mata ele- prop-me.
      
              Assim, quebrado o gelo, nossos passageiros demoraram muito pouco em nos revelar o resto do que sabiam.
      
              Tal como Duff tinha insinuado, o contrabando era to comum na zona que constitua uma prtica comercial generalizada; a maioria dos mercados e todos 
os barqueiros do Wilmington participavam dela, ali e em quase toda a costa da Carolina, a fim de evitar os asfixiantes impostos da mercadoria que se importava por 
via oficial. Stephen Bonnet no s era um dos contrabandistas mais efetivos, mas tambm se tinha convertido em todo um especialista.
      
      -Traz mercadorias por encargo- disse Duff-. E por quantidade, como quem diz.
      -Que quantidade?- inquiriu Jamie.
      
              Duff calculou com os lbios franzidos.
      -Nesse botequim do Roanoke fomos seis. Seis, com botes pequenos, dos que podem percorrer as enseadas. E cada um carregou tudo o que pde. Em total deveram 
ser umas cinqenta gavetas de ch.
      -E com que freqncia traz essas cargas? Cada dois meses?- Roger se tinha depravado um pouco. Eu no; cravei em nosso barqueiro um olhar duro por cima da pistola, 
para fazer saber.
      -Muito mais freqentemente- respondeu ele, me observando com desconfiana-. No poderia assegur-lo, mas a gente oua comentrios, entende? Por isso dizem 
outros barqueiros, calculo que em plena temporada traz uma carga cada duas semanas. Desembarca-a em algum ponto da costa entre a Virginia e Charleston.
      
              Isso arrancou ao Roger um grunhido de surpresa.
      
      -E a marinha?- perguntou Jamie-. A quem pagamento?
      
              Era uma boa pergunta. Os botes pequenos podiam fugir a vigilncia da marinha, mas a operao do Bonnet requeria trazer mercadoria em grandes quantidades, 
em navios de grande tamanho. Seria difcil ocultar algo a tal escala... e a resposta bvia era que ele no se incomodava em ocult-lo.
      
              Duff se encolheu de ombros.
      -Homem! No sei.
      -Mas vs no trabalhastes para o Bonnet desde fevereiro?- assinalei-. por que?
      
              Os marinheiros intercambiaram um olhar.
      -Tem fome, come pejesapo- disse-me Peter-. Tem massa, come algo mej.
      -O que?
      -O homem  perigoso, Sassenach- traduziu Jamie, secamente-. Eles prefere no tratar com ele, salvo em caso de necessidade.
      -Ter que v-lo- disse Duff, entusiasmado pelo tema-. Pode tratar com ele, como no... sempre que seu interesse corra parecido com o seu. Mas possivelmente 
ele dita repentinamente que o seu corre para outro rumo...
      
              Peter se passou um dedo solene pelo pescoo fibroso.
      -E no te avisa- continuou seu companheiro-. Se fizer um momento todo era charutos e havans, de repente te encontra de costas no cho, tragando sangue... 
e at d obrigado por poder trag-la.
      -Assim  colrico, no?- disse Jamie.
      
              Duff, Peter e Roger moveram simultaneamente a cabea.
      -Mais frio que o gelo- disse Roger, com um sotaque de tenso na voz.
      -Mata-te sem que lhe mova um cabelo- assegurou Duff.
      -Voc curta como a aquela baleia- acrescentou Peter, assinalando a ilha.
      
              A corrente nos tinha aproximado muito mais e j tnhamos o animal  vista. As aves marinhas chiavam por cima do cadver, lanando-se em picamultitud, 
com lenos e taleguillas contra o nariz.
      
              Nesse momento trocou o vento; um ftido sopro de podrido nos envolveu como uma onda ao romper na praia. Em poucos minutos a quilha da piretta tocou 
terra. Duff e Peter saltaram para rebocar o casco praia acima; logo me ajudaram a descender, muito galantes: pelo visto no me odiavam pelo da pistola.
      
      

      101
      
      Monstros e heris
      
      
      Os meninos, muito iludidos ao ver a baleia, atiravam de suas relutantes mes como se fossem cometas. Eu as acompanhei, embora mantive a distncia prudente 
do enorme cadver. Enquanto isso, Jamie e Roger se levaram ao Duff  parte para conversar sobre privado, memorasse Peter cedia  sonolncia no fundo do bote.
              Pese ao fedor, alguns dos visitantes mais intrpidos estavam de p sobre o cadver e saudavam alegremente aos que tinham ficado na praia.
              Ao olhar praia abaixo, vi que Duff, cada vez mais inquieto, passeava a vista entre a baleia e o bote. Obviamente estava desejoso de voltar para seu 
negcio antes de que a atrao desaparecesse por completo. 
              Por fim conseguiu escapar e correu a seu piretta, como aoitado pelos fantasmas. Jamie e Roger se aproximaram de mim, ero os meninos no estavam dispostos 
a abandonar a baleia. Brianna se ofereceu nobremente a vigi-los a ambos, a fim de que Marsali pudesse subir ao farol prximo, se por acaso o Octopus estivesse  
vista.
              -  O que lhe h dito ao pobre senhor Duff?- perguntei ao Jamie- . O via muito preocupado.
              -  Sim? Pois no tem por que.- Olhou para a gua, onde a embarcao do Duff retornava velozmente ao mole- . No tenho feito mais que lhe oferecer um 
pequeno negcio. 
              -  Sabe onde est Lyon- interveio Roger. Parecia inquieto, mas emocionado.
              -  E o senhor Lyon sabe onde est Bonnet, ou ao menos sabe como lhe fazer chegar uma mensagem. Subamos um pouco mais, quer?- Jamie assinalou a escada 
da torre.
              No alto do farol o ar era mais fresco, mas eu no podia emprestar muita ateno ao panorama.
              -  E bem? - perguntei, no muito segura de querer escutar a resposta.
              -  encomendei ao Duff que leve uma mensagem ao senhor Lyon. Se todos estivermos de acordo, dentro de uma semana nos encontraremos com o senhor Bonnet 
no embarcadero do Wylie.
      
      .  .  .
      -  Navegou com nosso Stephen, verdade? Durante quanto tempo? Dois meses, trs?
              -  Quase trs - respondeu Roger.
              " Nosso Stephen" ? O que pretendia Jamie com essa frase to domstica?
              Ele assentiu, sem deixar de contemplar o ir e vir do mar; a brisa liberava fios de cabelo de suas ataduras e as fazia danar como chamas, plidas  
luz do dia.
      Ento o conhece o suficiente.
              O jovem apoiou seu peso contra o corrimo. Era slida, mas estava molhada e pegajosa pela garoa mdio seca, ali onde lhe tinha alcanado a espuma das 
rochas.
              -  O suficiente - repetiu- . O suficiente como para que?
              Jamie o olhou  cara, com os olhos entreabridos par proteg-los do vento, mas brilhantes como navalhas.
              -  O suficiente para saber que  um homem, nada mais.
              -  E o que outra coisa poderia ser? -  Roger percebeu o fio em sua prpria voz. 
              Jamie voltou a contemplar o mar, sombreando-os olhos com uma mo, pois estava de cara ao sol poente.
              -  Um monstro -  disse brandamente- -  Menos que um homem...ou mais.
              Roger abriu a boca para replicar, mas descobriu que no podia. Pois era um monstro o que escurecia de medo seu prprio corao. 
              -  O que pensavam dele os marinheiros? - Claire se inclinou por cima do corrimo para olh-lo, desde esotro lado do Jamie; o vento se apoderou de sua 
cabeleira e a sacudiu em uma nuvem voadora; tempestuosa como o cu distante.
              -  No Gloriana? - Ele respirou fundo; uma baforada de baleia morta foi mesclar se com o aroma fecundo das restingas- .Respeitavam-no. Alguns o temiam. 
- " Eu por exemplo" - . Tinha fama de ser um capito duro, mas bom. Competente. Os homens estavam dispostos a embarcar-se com ele, porque sempre chegava a porto 
so e salvo e suas viagens sempre rendiam boas lucros.
              -  Era cruel? -  perguntou Claire, com uma tnue enruga nas sobrancelhas.
              -  Todos os capites so cruis de vez em quando, Sassenach-  disse Jamie, com um ligeiro timbre de impacincia- .  necessrio.
              Ela levantou a vista para olh-lo e Roger viu que sua expresso trocava. A lembrana lhe abrandou os olhos; uma idia irnica esticou a comissura de 
sua boca. Logo apoiou uma mo no brao do Jamie e seus ndulos empalideceram ao apertar.
              -  Nunca tem feito outra coisa que o que devia - disse, em to baixa que Roger apenas a ouviu. No importava; obviamente, essas palavras no estavam 
destinadas a ele. Logo elevou um pouco o tom- . H uma diferena entre crueldade e necessidade.
              -  Sim - disse Jamie, quase para seus adentros- . E uma linha muito magra, possivelmente, entre um monstro e um heri.
      
      

       102
      
      A batalha no embarcadero do Wylie
      
      O estreito estava sereno e plano; com a superfcie logo que frisada por diminutas ondas levantadas pelo vento. Menos mal, pensou Roger ao olhar a seu sogro. 
Ao menos Jamie tinha os olhos abertos, fixos na costa com uma sorte de apaixonada desespero, como se a viso da terra firme, ainda inalcanvel, pudesse lhe oferecer 
algum consolo.
              Roger no se enjoava, mas se sentia quase to decomposto como ele.
              -  Ali est. - Duff se reclinou sobre os remos, assinalando o mole com a cabea.
              O embarcadero do Wylie parecia uma miragem; flutuava em uma capa de nvoa, por cima da gua, entre uma densa maleza. Rodeavam-no pantanales, achaparradas 
bosques costeiros e largas extenses de gua. Comparado com os verdes recintos das montanhas, aquilo parecia incmodamente desprotegido. Ao mesmo tempo, estava isolado, 
a vrios quilmetros de qualquer signo de presena humana.
              Em parte, isso era uma falsa impresso; Roger sabia que a plantao estava a um quilmetro e meio de embarcadero. Este consistia em um simples mole 
de madeira sobre pilote, junto ao qual se levantava uma srie de abrigos desmantelados. alm dos abrigos, uma perto de paus delimitava um pequeno curral; de vez 
em quando, Wylie devia transportar seu gado por gua.
              Jamie tocou a caixa de cartuchos que pendia de seu cinturo para verificar que ainda estivesse seca. Seus olhos avaliaram o cu. Ento Roger caiu na 
conta de que, se chovia, possivelmente no poderiam confiar nas pistolas. A plvora negra se empelota com a umidade e, se esta era excessiva, no acenderia. Quo 
ltimo desejava era enfrentar-se ao Stephen Bonnet com uma arma intil.
              Suavam-lhe as Palmas das mos; as esfregou contra as calas sem incomodar-se em dissimular. Levava uma adaga  cintura, junto com o par de pistolas; 
a espalada estava no fundo do bote; slida dentro de sua vagem. Ao pensar na carta do John Grei, nos olhos do capito Marsden, sentiu um sabor amargo e metlico 
no fundo da garganta.
              A uma indicao do Jamie, a piretta se aproximou lentamente ao embarcadero; todos a bordo estavam alerta a qualquer sinal de vida.
              -  No vive ningum aqui? - perguntou Fraser em voz baixa, inclinando para o ombro do Duff para inspecionar os abrigos- . No h escravos?
              -  No - grunhiu o remador- . Nestes tempos Wylie no utiliza o embarcadero to freqentemente, pois construiu um caminho novo desde sua casa; vai 
para o interior e sai  estrada principal ao Edenton.
              Jamie o olhou com ar cnico.
              -  E como Wylie no o usa, h outros que o aproveitam, no?
              Roger viu que o mole estava bem situado para o contrabando: da terra no se via, mas o acesso era fcil do estreito. O que a primeira vista tinha tomado 
por ilha, a sua direita, era na verdade um labirinto de bancos de areia, que separavam da parte maior o canal que conduzia ao embarcadero do Wylie. Havia pelo menos 
quatro canais menores que entravam nos bancos de areia; dois deles teriam dado capacidade a um queche de bom tamanho.
              Duff riu entre dentes.
              -  Homem!, h um pequeno caminho de conchas que leva a casa. Se algum vier por ali sabero com tempo.
              Peter se removeu, inquieto, assinalando os bancos de areia com a cabea.
              -  Mar - murmurou.
              -  OH!, sim, no tero que esperar muito... ou sim. Tudo depende. -  O escocs sorriu de brinca a orelha, como se isso lhe parecesse muito gracioso.
              -  por que? - grunho Jamie, que no lhe encontrava graa. Agora que a salvao estava  mo se sentia algo melhor, mas obviamente no estava de humor 
para piadas.
              -  A mar est subindo. - Duff deixou de remar o tempo suficiente para tir-la horrvel boina e enjaguarse a frente meio calva- . Durante a mar baixa 
o canal no tm profundidade suficiente para um queche. dentro de horas ou um pouco mais podero entrar. Se estiverem ali fora, esperando, viro enseguidaza para 
liquidar o assunto e partir antes de que troque a mar. Peri se ainda no chegaram, talvez devam esperar a pleamar do entardecer.  perigoso navegar pelos canais 
durante a noite. Bonnet no  dos que se assustam por um pouco de escurido, mas se no levar pressa  possvel que se atrase at a manh seguinte. Sim,  possvel 
que devam esperar o bastante
              A piretta se deslizou junto ao mole; Duff projetou um remo contra um desses pilote incrustados de ignorantes, para faz-la girar diestramente. Jamie 
subiu ao embarcadero com precipitao, desejoso de chegar a terra firme. Roger o seguiu, carregado com as espadas e o pequeno hatillo que continha os cantis e a 
reserva de plvora. ajoelhou-se no mole, contados os sentidos alerta para perceber o menor sinal de movimento humano, mas s se ouviam os gorjeios lquidos dos mirlos 
no pntano e o grito das gaivotas no estreito.
              depois de revolver dentro de seu saco, Jamie extraiu uma taleguilla, e a jogou no Duff sem dizer nada. Era um pagamento simblico. O barqueiro cobraria 
o resto quando retornasse para busc-los, dentro de dois dias.
              Se tinha xito, ele mesmo lhe pagaria o resto do dinheiro acordado; se no, faria-o Claire.
              Ambos permaneceram juntos no mole, em silncio, enquanto a piretta se afastava pouco a pouco. O n que Roger tinha no estmago se apertava mais e mais.
              de vez em quando se perguntava a quantos homens teria matado Fraser... se acaso os contava, se sabia. No era o mesmo, certamente, matar a um homem 
em combate ou em defesa prpria, que lhe tender uma emboscada e planejar seu assassinato a sangue frio. Mesmo assim Fraser devia lhe resultar mais fcil.
              Jamie seguia com a vista no bote que se afastava, imvel como a pedra. Viu-o tragar saliva com dificuldade. No, para ele tampouco era fcil.
              De algum modo, isso era um consolo.
      
      
      Exploraram brevemente todos os abrigos. Umas ou duas das construes pareciam ter sido utilizadas como moradia. instalaram-se no maior dos abrigos, que se 
levantava no mesmo mole, e se acomodaram para esperar.
              O plano era muito singelo: disparar contra Bonnet assim que aparecesse. A menos que chovesse, em cujo caso terei que empregar espadas ou facas. Dito 
desse modo o procedimento parecia singelo, mas a imaginao do Roger no podia deix-lo assim.
              -  Caminha, se quiser - disse Jamie, depois de ter acontecido um quarto de hora vendo os movimentos nervosos de seu genro- . Quando vier, ouviremo-lo. 
              -  Hum... E se no vir sozinho?
              -  Pois nada. Se vier com seus homens teremos que apartar o deles. Levarei-me isso a um dos abrigos pequenos, com o pretexto de conversar sobre privado, 
e ali o despacharei. Voc impede que ningum me siga. S necessitarei um minuto.
              -  Sim? Logo vem tranqilamente a informar a seus homens que acaba de matar a seu capito. E ento?
              -  J teria morto. Parece-te que possa inspirar em seus homens tanta lealdade como para que queiram ving-lo?
              -  Pois... no - reconheceu Roger, lentamente.
              -  averigei muitos sobre o senhor Bonnet - observou Jamie, enquanto deixava a pistola- . Tem scios, mas no amigos. No navega sempre com a mesma 
tripulao. Bonnet escolhe a seus tripulantes ao azar, no porque lhe sejam simpticos, mas sim por sua habilidade e fora. Por isso no acredito que lhe tenham 
muito afeto.
              Roger reconheceu o acertado da observao. No Gloriana reinava a ordem, mas no havia sentido de camadera, nem sequer entre os oficiais. E o que Jamie 
dizia era verdade: quanto tinham descoberto revelava que Bonnet escolhia a seus assistentes conforme os necessitasse; se levava companhia a essa entrevista, dificilmente 
fossem tripulantes leais, a no ser marinheiros escolhidos nos moles ao azar.
              -  De acordo. Mas se... quando o matarmos, qualquer homem que esteja com o...
              - ...necessitar outro emprego - interrompeu-o Jamie- . No: sempre que no disparemos contra eles nem lhes demos motivos para sentir-se ameaados, 
no acredito que se preocupem muito pela sorte de seu capito. Mesmo assim...
              Recolheu sua espada com o sobrecenho franzido e a deslizou dentro da vagem, para comprovar que no estava entupida.
              -  Se por acaso essa fora a situao, levarei-me ao Bonnet  parte, como hei dito. me d um minuto para me ocupar dele; logo busca alguma desculpa 
para vir por mim. Mas no te detenha: atravessa diretamente os abrigos e v para os bosques. Ali nos reuniremos. 
              Roger o olhou com ar ctico e pigarreou uma e outra vez. Por fim agarrou uma de suas pistolas.
              -  Bom. S uma coisa mais: do Bonnet me encarrego eu.
              Fraser lhe cravou um olhar penetrante. Ele a sustentou, atento ao pulso que comeava a martillear dentro de seus ouvidos. Seu sogro ia falar, mas calou. 
Olhava-o com ar pensativo. E ele podia ouvir os argumentos; pulsavam em seu ouvido interior, junto com o pulso, to audveis como se Jamie os houvesse dito em voz 
alta: " Nunca mataste a ningum. Nem sequer sabe o que  uma batalha. No tem pontaria. Com a espada apenas te defende. Pior ainda: tem medo a esse homem. E se o 
tenta e enguios..." 
              -  Sei - disse, sustentando aquela funda olhar azul- .  meu. Eu me ocuparei dele. Brianna  tua filha, sei... mas  minha esposa.
              -  Est em seu direito - disse Jamie formalmente- . Mas no vacile, no o desafie. Mata-o  primeira oportunidade. - Fez uma pausa- . Mas se cai...tenha 
a segurana de que eu te vingarei.
              -  Estupendo - disse- . E se cair voc, serei eu quem te vingue. Trato feito?
              Fraser se limito a olh-lo durante um comprido instante, sem rir. Nesse momento Roger compreendeu por que seus homens o seguiam onde fora e faziam 
o que ele ordenasse.
              -  Um estranho trato - disse ao cabo de um momento- . Obrigado.
      
      
      No tinham relgio, mas tampouco o necessitavam. At com o encapotado e o sol invisvel, era possvel sentir o passar dos minutos, o movimento gradual da terra, 
conforme foram trocando os ritmos do dia. O chapinho da gua contra os pilote trocou de tom, pois a mar crescente retumbava no espao aberto sob o mole.
              A pleamar chegou e passou; o retumbo sob o mole se tornou oco ao descender a gua. Nos ouvidos do Roger, o pulso ia afrouxando, junto com os ns de 
suas tripas.
              de repente algo golpeou o mole. Jamie se levantou imediatamente, com duas pistolas no cinturo e outra na mo. Inclinou a cabea para o Roger e saiu.
              O moo ajustou suas pistolas no cinturo e, depois de tocar o punho da faca para assegurar-se, foi atrs dele. Por um momento viu o bote. Um segundo 
depois estava no abrigo mais pequeno,  direita. Jamie tinha desaparecido; devia estar em seu prprio posto,  esquerda.
              O bote se movia lentamente ao toucinho do mole, ainda sem amarras. S alcanava a ver um fragmento da popa; o resto estava fora da vista. De qualquer 
modo no poderia disparar at que Bonnet aparecesse no mole.
              Um cilindro de corda caiu contra as pranchas; ouviu o golpe e logo a pegada de algum que subia ao corrimo para amarr-la. Fechou os olhos, tratando 
de ouvir por cima do trovejar de seu corao. Pisadas. Lentas, mas no furtivas. aproximavam-se dele.
              A porta estava entreabrida. aproximou-se silenciosamente ao bordo, alerta, esperando. Uma sombra atravessou a porta. O homem entrou. 
              Roger investiu desde detrs da porta e se jogou contra ele, tombando-o contra a parede com um golpe seco. O homem lanou um grito de surpresa ante 
o impacto; o som dessa voz o deteve, justo quando rodeava com as mos um pescoo nada masculino.
              -  Mierda! - disse- . Quer dizer...n...lhe rogo que me perdoe, senhora.
              Tinha-a apertada contra a parede, com todo seu corpo contra ela. O resto de sua pessoa tampouco tinha nada de masculino. Com as bochechas acesas deu 
um passo atrs, ofegante.
              Ela se sacudiu como um co, acomodou-se a roupa e se tocou timidamente a nuca, ali onde se golpeou contra o tabique.
              -  Me perdoe - disse- . Sentia-se de uma vez horrorizado e completamente estpido- . No foi minha inteno... Est voc ferida?
              A moa era to alta como Brianna, mas de textura mais slida, cabelo castanho escuro e cara bonita, de ossos largos e olhos profundos. Sorrio abertamente 
e disse algo incompreensvel, com forte aroma de cebola. Logo o olhou de arriava abaixo com bastante ousadia e, obviamente agradada, subiu os peitos com as mos 
em um gesto de inconfundvel convite.
      N... No, temo-me que est equivocada... No, no toque isso. No!. Non! Nein!
      Lutou com suas mos, que pareciam decididas a lhe desabotoar o cinturo.
      No, estou casado. Quer parar?
              Desde no ser pelo aroma, Roger teria pensado que era uma alucinao, mas assim, a to curta distncia, as cebolas era o de menos. Embora a simples 
vista no estava suja, despedia a fetidez arraigada de quem ababa de fazer um comprido viaje por mar. Ele o reconheceu imediatamente. E tambm um inconfundvel fedor 
a porcos, que emanava de suas saias.
      Excusez- moi, mademoiselle. - A voz do Jamie surgiu de detrs; sobressaltada. Olhou ao Roger- . Quem ?
      Como diabos quer que saiba? - Em um esforo por recuperar a compostura, Roger se sacudiu a roupa- . Supus que era Boneta ou algum de seus homens, mas obviamente 
no  assim.
      Obviamente. - Fraser parecia disposto a procurar o lado humorstico da situao- . Qui tes- vous, mademoiselle? - perguntou  moa.
              Ela o olhou com a frente enrugada, sem entender, e disse algo  esse estranho idioma. Ante isso Jamie arqueou as duas sobrancelhas.
              -  O que  o que fala? - perguntou Roger.
              -  No tenho nem idia. -  expresso divertida do Jamie se mesclava certa cautela. voltou-se para a porta com a pistola preparada- . Vigia-a, quer? 
No veio sozinha.
              Isso era bvio: no mole se ouviam vozes. Um homem e outra mulher. Roger intercambiou com seu sogro um olhar de estupefao. No: a voz no era a do 
Bonnet nem a do Lyon. E por todos os Santos, o que faziam essas mulheres ali?
              Mas ao aproxim-las vozes, a moa gritou algo nessa lngua estranha. Embora no parecia uma advertncia, Jamie se apertou junto  porta, com a pistola 
preparada e a outra emano na adaga.
              A estreita abertura se obscureceu quase por completo. Uma cabea escura e despenteada apareceu no abrigo. Jamie se adiantou um passo para cravar a 
pistola sob o queixo de um homem muito corpulento e muito surpreso. Logo o aferrou pelo pescoo da camisa e deu um passo atrs, arrastando-o para o interior.
              Quase imediatamente o seguiu uma mulher; sua textura alta e robusta, suas faces bonitas, identificaram-na imediatamente: devia ser a me da moa. 
Ela era loira; o homem em trocou (possivelmente o pai da jovem?), to moreno como o urso ao que se parecia.
              -  Comeo a me sentir muito tolo - disse Fraser a seu genro, e apartou cautelosamente a pistola- . Wer seid Ihr? - perguntou.
              -  No acredito que sejam alemes - disse Roger. Logo assinalo com o pulga a jovem, que observava ao Jamie como se avaliasse seu potencial para um 
bom exerccio entre a palha- . Ela no responde ao francs nem ao alemo, embora talvez tenha fingido. 
              O homem os observava a ambos com o sobrecenho franzido, com se tratasse de entender o que lhe diziam. Mas para ouvir o vocbulo " francs"  pareceu 
iluminar-se.
              -  Commente a vai? -  disse, com o acento mais execrvel que Roger tivesse ouvido em sua vida.
      Parlez- vous franais? - perguntou Jamie, sem deixar de vigi-lo.
              O gigante, com um sorriso, mostrou o polegar e o ndice separados por dois ou trs centmetros. 
              -  Um peu.
              O homem sabia umas dez ou doze palavras de francs, o suficiente para apresentar-se; Mijal Chemodurow, sua esposa Iva e Karina, sua filha.
              -  Rushki -  disse, plantando uma mo no peito carnudo.
              -  Russos? - Roger os olhava, estupefato. Jamie, em troca, parecia fascinado. 
              -  Nunca tinha visto um russo- disse- . Mas, pelos pregos de Cristo! O que fazem aqui?
              Essa pergunta foi transmitida com certa dificuldade ao senhor Chemodurow.
              -  Eles cochons - disse- . Pour o Monsieur Wylie. - Olhava ao Jamie com ire espectador- . Monsieur Wylie?
              Dado o penetrante aroma que despediam os trs russos, no foi surpresa que mencionassem aos porcos. Menos bvia era a relao entre os porquerizos 
russos e Phillip Wylie. Mas antes de que pudessem formular a pergunta se ouviu fora um forte golpe e um rudo lhe chiem, como se algum objeto de madeira, de bom 
tamanho, tivesse golpeado o mole. A isto seguiu imediatamente um coro de bramidos e chiados, porcinos em sua maioria; no obstante, alguns eram humano...e femininos.
              Chemodurow se moveu com assombros celeridade, mas Jamie e Roger saram do abrigo lhe pisando os tales. O jovem logo que teve tempo de ver que agora 
eram duas as embarcaes amarradas ao mole: alm da pequena barco do russo, um bote aberto, de menor tamanho. Vrios homens desembarcam do bote, arrepiados do cinturo 
as pistolas e a adaga.
              -  No te mova, tio - disse o homem que sustentava o mosquete.
              Chemodurow vadeava sem vacilao entre os invasores, chapinhando com essas mos que pareciam presuntos. Um dos homens tinha cansado  gua, empurrando 
do mole; o russo tinha a outro em seu poder e o estava estrangulando com brutal eficincia, sem emprestar ateno a gritos, ameaas nem golpes.
              Os gritos enchiam o ar; Iva e Karina tinham deslocado para sua embarcao, em cuja coberta apareceram dois dos invasores, cada um aferrando uma verso 
um pouco mais pequena da Karina. Um dos homens apontou uma pistola para as russas. Deveu apertar o gatilho, pois Roger viu uma fasca e uma pequena baforada de fumaa, 
mas o tiro falhou. As mulheres, sem vacilar, carregaram contra ele entre alaridos. O homem, apavorado, deixou cair a arma e a menina que sujeitava para jogar-se 
na gua.
              Um golpe seco, horrvel, apartou a ateno do Roger dessa cena secundria. Um dos homens, baixo e quadrado, tinha golpeado ao Chemodurow na cabea 
com a culatra de uma pistola. O russo, com uma piscada, afrouxou um pouco sua presso sobre a vtima. Seu atacante fez uma careta, logo sujeitou a arma com mais 
fora e o golpeou outra vez. Ento Mijal ps os olhos em branco e caiu ao mole, que se sacudiu pelo impacto.
              Roger procurava com a vista ao Stephen Bonnet em meio da refrega, mas ali no se viam rastros do digno capito do Gloriana. 
              No teve tempo de decidir se o descobrimento era um desencanto ou um alvio. Nesse momento o homem que tinha golpeado ao Chemodurow se voltou para 
a ele. Ento reconheceu ao David Anstruther, o delegado do condado do Orange. O outro entreabriu os olhos ao identific-lo, mas no pareceu surpreso de v-lo.
              A briga, se acaso merecia esse nome, chegava a seu fim. As quatro russas e tinham sido rodeadas e levadas a trancos ao maior dos abrigos; tambm arrastaram 
at ali ao cansado Chemodurow.
              Chegado esse momento, um homem alto e elegante se encarapitou do bote. At sem a peruca nem a jaqueta verde garrafa, Roger reconheceu sem dificuldade 
ao senhor Lillywhite, sem nenhuma pressa, observou o desenvolvimento dos acontecimentos. Roger viu que apertava melindrosamente a boca ao ver o rastro de sangue. 
Lillywhite fez um gesto ao homem que sujeitava ao Roger. Por fim a presso da arma afrouxou um pouco, lhe permitindo respirar profundamente.
              -  O senhor MacKenzie, verdade? - perguntou o magistrado, cordialmente- . E onde est o senhor Fraser?
              -  No Wilmington - disse, imitando a cordialidade do Lillywhite- . Voc tambm se afastou muito de seu territrio, verdade senhor?
      No tire o sarro, senhor - deu o magistrado, cortante.
              -  No me passaria pela cabea - assegurou-lhe Roger, sem perder de vista ao tipo do mosquete, que parecia disposto a reatar suas presses- . Mas se 
tivermos que formular essa classe de perguntas, onde est Stephen Bonnet?
              Lillywhite lanou uma risada breve.
              -  No Wilmington.
              Anstruther apareceu junto ao cotovelo do magistrado, gordo e suarento. Dedicou ao Roger uma inclinao de cabea e um feio sorriso.
              -  MacKenzie. Encantado de v-lo outra vez. Onde est seu sogro? E o mais importante: onde est o usque?
              Lillywhite o olhou com o sobrecenho franzido.
              -  No o encontrastes? revisastes os abrigos?
              -  Revisamo-los, sim. Ali no h mais que lixo. - balanou-se sobre a ponta dos ps, ameaador- . Venha, MacKenzie, onde o tem escondido?
      Eu no escondi nada - replicou Roger, com equanimidade- . No h usque.
              Comeava a relaxar-se um pouco. Qualquer que fosse o paradeiro do Stephen Bonnet, ao menos no estava ali. Sem dvida no gostariam de descobrir que 
o do usque tinha sido uma estratagema, mas...
              O delegado lhe golpeou na boca do estmago. Ele se dobrou em dois e lhe obscureceu a viso.
              Nos mrgenes de seu campo visual apareceram manchas luminosas. Agarrou flego, ofegante. Estava sentado no mole, com as pernas estendidas para diante, 
e o delegado o aferrava pelo cabelo.
              -  Faz outro intento - aconselhou-lhe Anstruther, sacudindo-o energicamente pela cabea. A dor foi mais irritante que penoso: ele lanou um slido 
murro  coxa do delegado. O homem lanou um chiado e o soltou para saltar para trs. 
              - Procurou voc na outra embarcao? - inquiriu Lillywhite, sem emprestar ateno ao sofrimento do delegado.
              Anstruther cravou no Roger um olhar fulminante, enquanto se esfregava a coxa, mas sacudiu a cabea a maneira de resposta. 
              -  Ali no havia mais que porcos e as moas. E de onde diabos saram esses? - perguntou.
              -  Da Rssia. - Roger tossiu; a dor lhe fez apertar os dentes.
              -  Da Rssia? O que tm eles que ver neste assunto?
              -  Nada, que eu saiba. Chegaram depois que eu.
              O magistrado lanou um grunhido; parecia aborrecido. Refletiu um momento, carrancudo, e lego decidiu provar outro enfoque. 
              -  Fraser tinha um acordo com o Milford Lyon. Eu assumi a parte do senhor Lyon nesse acordo.  absolutamente correto que voc me entregue o Usque 
- disse, tratando de infundir um tom de cortesia comercial a sua voz.
              -  O senhor Fraser fez outros acertos- explicou Roger, com igual cortesia- . Enviou-me para que informasse disso ao senhor Lyon.
              Isso pareceu desconcertar ao Lillywhite; olhava ao jovem com fixidez, projetando e colocando os lbios franzidos, como se avaliasse sua sinceridade.
              - Como chegou voc aqui? - interpelou Lillywhite, abruptamente- . Se no ter viajado nesse bote...
              -  vim por terra desde o Edenton. - Benzeu mentalmente ao Duff por essa informao, enquanto assinalava despreocupadamente por cima de seu ombro. - 
por ali h um caminho de conchas.
              Os dois o olhavam fixamente, mas ele lhes sustentou o olhar sem intimidar-se.
              -  Algo cheira mau, e no  o pntano. - Anstruther farejou audiblemente a modo de exemplo.
              Lillywhite, sem lhe emprestar ateno, seguia observando ao Roger com os olhos entreabridos.
              -  Terei que importun-lo por um momento mais, senhor MacKenzie - disse. E girou para o delegado. -  Ponha-o com os russos...se  que o so.
              Anstruther aceitou essa misso com presteza. Os russos se apinharam em um rinco do abrigo, onde as mulheres atendiam solcitamente ao pai e marido 
ferido, mas todos levantaram a vista ao entrar Roger, com um falatrio de saudaes e perguntas incompreensveis. Ele sorriu at onde pde e apoiou a orelha contra 
o tabique, a fim de escutar o que Lillywhite e companhia se traziam entre mos.
              Em um princpio tinha albergado a esperana de que aceitassem sua explicao e se fossem; ainda era possvel que o fizessem, mas agora lhe ocorria 
outra possibilidade, muito mais inquietante.
              Pela conduta dos homens era bvio que vinham com inteno de apoderar do usque pela fora. E o fato do Lillywhite tivesse permanecido oculto...Certamente, 
no podia permitir que tirassem o chapu suas vinculaes com piratas e contrabandistas.
              Tal como estavam as coisas, posto que no havia usque, Roger no podia denunciar nenhum delito por parte do Lillywhite; embora a lei no permitia 
o contrabando, tais acertos eram to comuns na costa que o mero rumor no prejudicaria sua reputao dentro de seu condado. Por outra parte, Roger estava sozinho; 
ao menos, isso pensava Lillywhite.
              Obviamente o magistrado tinha algum vnculo com o Stephen Bonnet...e isso podia sair a luz se Roger e Fraser comeavam a fazer perguntas. A operao 
em que Lillywhite estava envolto, era to perigosa como para que pensasse matar ao Roger a fim de evitar que se soubesse? Ele tinha a inquietante sensao de que 
esses dois podiam chegar a essa concluso.
              Fora se ouviam muitos golpes, gradualmente substitudos por vozes longnquas, enquanto se inspecionavam novamente os abrigos e se estendia a busca 
ao pntano prximo.
              No teto de lata ressonou um leve tamborilo; comeava chover. Estupendo: se lhes molhava a plvora no poderiam lhe disparar; teriam que degol-lo. 
Passou de desejar que Jamie no aparecesse antes de tempo a rogar que no o fizesse muito tarde. Quanto ao que poderia fazer se parecia...
              As espadas. Estariam ainda onde as tinham deixado, no rinco do abrigo?
              Os russos levantaram a vista, com uma mescla de cautela e preocupao. Ele sorriu, lhes indicando por pequenos gestos que no se entremetessem. Se, 
ali estavam as espadas.
              Chemadurow, que estava consciente, disse algo com voz fanhosa. Imediatamente Karina se levantou para aproximar-se do Roger e lhe tocou brandamente 
no brao. depois de agarrar uma das espadas que ele carregava, a desenvain com um assobio ressonante; todos deram um coice, entre risadas nervosas ela fechou as 
mos em volto do pomo e elevou a arma por cima de seu ombro, como um rebatedor de beisebol. A seguir ficou em guarda junto  porta, com cenho feroz.
              Os russos lanaram grandes exclamaes de entusiasta respaldo. Uma das meninas menores quis agarrar a outra espada, mas ele sorriu, dizendo que muito 
obrigado mas preferia conserv-la.
              Para surpresa dela, a menina negou com a cabea e acrescentou algo em russo. Roger arqueou as sobrancelhas, sem compreender. Ento a jovencita lhe 
atirou do brao para lev-lo consigo at o rinco. 
              Durante o breve cativeiro, tinham estado muito ocupadas em retirar tudo o lixo e formar um colcho cmodo para o ferido. Assim tinham descoberto a 
trampilla que se abria no cho, destinada a permitir que os expulse passassem sob o mole com a mar baixa e descarregassem diretamente dentro do abrigo, em vez de 
faz-lo no embarcadero.
              A mar estava em descida; havia quase dois metros de altura com respeito  superfcie da gua. Roger se tirou a roupa at ficar em calas e, desprendendo-se 
do bordo do oco da trampilla, deixou-se cair de p, por no mergulhar-se em algo que podia ser um baixio perigoso.
              Mas a profundidade superava sua estatura; afundou-se em uma chuva de borbulhas chapeadas at que seus ps tocaram o fundo arenosos; ento se impulsionou 
para cima e rompeu a superfcie com uma corrente de ar. depois de fazer um gesto tranqilizador ao crculo de caras russas que o olhavam pela abertura, bracejou 
para o extremo oposto ao mole.
      
      
      Lillywhite se deu a volta, acariciando nervosamente o punho de sua espada. Do teto do abrigo, Jamie observava sua maneira de mover-se e de tocar a arma. O 
fato de que levasse espada nessas circunstncias denunciava tanto a familiaridade com a afeio a essa arma.
              Anstruther estava fora de sua vista, apoiado contra o muro do abrigo, sob a saliente do teto. Mas o delegado no lhe preocupava. Era s um valento 
de brao curto.
              -  Devemos mat-los a todos.  a nica maneira de estar seguros.
              Lillywhite emitiu um grunhido de duvidoso assentimento.
              -  Pode ser, mas e os homens? No convm pr nosso destino em mos de testemunhas que possam falar. Teramos podido liquidar ao Fraser e ao MacKenzie 
sem problemas, onde no nos visse, mas a tantos...Possivelmente seja melhor deixar a esses russos; so estrangeiros e no parecem saber uma palavra de ingls.
              -  E como chegaram aqui, eu gostaria de saber? Algum sabe que esto aqui e vir a por eles, sem dvida. J viram muito. E se voc quer seguir usando 
este lugar...
              A chuva seguia sendo ligeira, mas caa sem pausa. Jamie girou a cabea para limp-los olhos contra um ombro. Estava tendido de barriga para baixo, 
brao e pernas estendidos como uma r para no deslizar-se pelo pendente da coberta. No momento no se atrevia a mover-se. Mas a chuva sussurrava no estreito, abrindo 
covinhas na gua, e arrancava um rudo ressonante ao metal do teto. Se aumentava um pouco mais cobriria qualquer rudo que ele fizesse.
              - ...enviar aos homens de volta com o bote. Ns iremos pelo caminho, depois...
              Continuavam falando em voz baixa, mas Jamie compreendeu que j tinha tomado a deciso; Lillywhite s precisava convencer-se de que era necessrio e 
de que no lhes levaria muito tempo. Mas primeiro se despediriam dos homens; o magistrado tinha razo em temer a presena de testemunhas.
              Jogou uma olhada ao abrigo maior, onde estava Roger MAC e os russos. Havia pouca distncia entre um edifcio e outro: pouco mais ou menos um metro 
entre teto e teto. S um abrigo se interpunha entre o maior e ele. Pois bem...
              Aproveitaria a partida dos homens para avanar pelos tetos, crdulo em que a sorte e a chuva impedissem ao Lillywhite e Anstruther levantar a cabea. 
apostaria-se por cima da coberta do abrigo e, quando entrassem para fazer o seu, cairia sobre o magistrado de acima; oxal pudesse lhe partir o pescoo ou, ao menos, 
incapacit-lo imediatamente. Podia contar com que Roger MAC corresse para ajud-lo a dominasse ao delegado.
              No mole no havia ningum. Lillywhite e o delegado haviam trazido para quatro homens, todos os quais estavam na areia branda, ao sul do embarcadero, 
pinando entre a erva, que lhes chegava  cintura. Jamie inalou profundamente e recolheu os ps. Mas ao girar em redondo captou um movimento pela extremidade do 
olho e ficou petrificado.
              Do bosque saam vrios homens. Por um momento pensou que era outra obra do Lillywhite, mas logo caiu na conta de que tudo eram negros. Todos menos 
um. 
              " Eles cochons" , haviam dito os russos. " Pour o Monsieur Wylie."  E ali vinha Monsieur Wylie, com seus escravos, para receber seus cerdos !
              voltou a tender-se de bruces e se arrastou pelo metal molhado, rumo  parte traseira do abrigo. Ficava por ver se Wylie se mostraria mais disposto 
a ajud-lo que atravess-lo com sua prpria espada. Mas sem dvida o homem quereria proteger a seus russos.
      
      
      A gua estava fria, mas no tanto como para intumesc-lo, e a mar no era ainda muito forte. Tragou um pouco de ar e continuou bracejando, alerta. Agora estava 
no lado norte do mole, escondido na sombra intensa que arrojava a embarcao dos russos.
              No se ouviam vozes por ali. O sussurro da chuva no estreito cobriria qualquer rudo que ele fizesse. Preparado, pois. Com os pulmes cheios de ar, 
lanou-se para a luz chuvosa, mais  frente do mole.
              Nadou desesperadamente, tratando de no chapinhar; a cada instante esperava que uma bala de mosquete lhe cravasse entre os omoplatas. meteu-se entre 
as ervas, que lhe aoitaram o brao e a perna; ento girou pela metade, ofegante, com a ardncia do sal nos cortes. Um momento depois engatinhava pela maleza do 
pntano, com as totoras ondulando sobre sua cabea e a chuva lhe castigando as costas.
              Por fim se deteve, com o peito palpitante por falta de ar. E agora que diabos podia fazer? Ter fugido do abrigo esta muito bem, mas no tinha nenhum 
plano. Procurar o Jamie, supostamente, se  que o conseguia sem que voltassem a apanh-lo.
                Como se o pensamento tivesse atrado a ateno, ouviu o chapinho de algum que caminhava a passo lento pelo pntano, a pouca distncia. Estava procurando. 
Ficou imvel, com a esperana de que a chuva dissimulasse o rudo de sua forte respirao.
              de repente algum apartou frente a ele, a um palmo de sua cara. No outro extremo, um negro o olhava boquiaberto, com os olhos dilatados pelo assombro. 
              -  Voc no zarigeya! - disse, em tom de profunda acusao.
              -  No - reconheceu Roger, brandamente. tocou-se o peito com mo trmula, para assegurar-se de que seu corao seguisse ali dentro- . Sinto muito.
      
      
      Em sua casa, Phillip Wylie era muito diferente de quando estava em sociedade. Para apanhar aos porcos se embelezou com calas folgadas e avental de granjeiro; 
molhado pela chuva e sem rastros de peruca, pintura, ps nem lunares postios, conservava sua magra elegncia, mas o via muito mais normal e razoavelmente apto. 
Tambm um pouco mais  inteligente, embora tendia a ficar boquiaberto e insistia em interromper o relato do Jamie com perguntas e exclamaes.
              -  Lillywhite? Randall Lillywhite? Mas, como pde...?
              -  Concentre-se, homem - disse Jamie, impaciente- . Mais tarde o explicarei melhor, mas ele e esse delegado vo trinchar aos russos como se fossem 
presuntos de Natal. Temos que nos ocupar disso agora mesmo.
              Wylie lhe cravou um olhar fulminante; logo jogou uma olhada suspicaz ao Roger.
              -  Ele tem razo - grasnou o jovem.
              Apertou os lbios em uma linha fina e exalou com fora o flego pelo nariz. Logo olhou a seus escravos como se os contasse; eram seis, todos armados 
de varas fortes. Um ou dois levavam facas de cano ao cinturo. Ele assentiu com a cabea, como se tivesse tomado uma deciso.
      Vamos.
              Para evitar o delator rangido das conchas, atravessaram o pntano a passo lento, mas sem pausa.
              -  por que porcos? - ouviu que perguntava Jamie, com curiosidade.
              -  No so porcos - explicou Wylie- . Javalis russos, para caa esportiva. Todo mundo diz que, de todos os animais de caa, o javali russo  o adversrio 
mais feroz e mais ardiloso. Proponho-me solt-los nos bosques de minha propriedade, para que se reproduzam.
              Ao aproximar o embarcadero, Roger divisou um fugaz movimento: a embarcao mais pequena se retirava.
              -  renunciaram para nos buscar, a mim e ao usque, e despedem dos homens. - Jamie se passou uma mo pela cara para enxagu-la chuva- . O que decide 
voc, Wylie? No h tempo que perder. Os russos esto no abrigo principal, no mole.
              Uma vez decidido, Wylie no se andava com rodeios.
              -  Vamos l! - disse.
              E agitou uma mo para chamar a seus escravos. Todos correram para o mole. O grupo girou para o caminho de conchas, indo pelo muro com um rudo de avalanche. 
Parecia que todo um exrcito inimigo se aproximasse.
              Uma cara sobressaltada apareceu entre os abrigos e se retirou imediatamente. Jamie lanou um de seus selvagens gritos montanhs. Wylie deu um coice, 
mas logo lhe uniu com um uivo:
              -  Saiam da bodes!
              Os negros, assim respirados, comearam a gritar tambm e se lanaram para o mole, agitando as varas com entusiasmo.
              Foi quase umas desiluso chegar ao mole e no encontrar a ningum, salvo aos russos cativos, que estiveram  a ponto de decapitar ao Phillip Wylie ao 
lhe ver abrir a porta de sua priso sem anunciar-se. fez-se uma breve inspeo do russo e a restinga lhe circuncidem, mas no encontraram rastros do Lillywhite nem 
do Anstruther.
              -  Seguro se vo nadando - disse um dos negros, ao retornar. E assinalo com a cabea o matagal dos bancos de areia- . Caamo-los?
              -  No se foram a nado - disse Wylie, pelo baixo. Fez um gesto para a pequena praia vazia, junto ao embarcadero- . Levaram-se meu bote, os vadios.
              Aborrecido, comeou a dar ordens para o desembarque dos javalis russos. Chemodurow e sua famlia j foram para a casa da plantao.
              Um dos escravos saiu do abrigo com uma braada de armas, o qual recordou ao Wylie seus deveres de anfitrio.
              -  Agradeo-lhe a ajuda que me emprestou para proteger minha propriedade, senhor - disse ao Jamie, com uma reverncia bastante rgida- . Permite-me 
lhes oferecer minha hospitalidade, a voc e ao senhor MacKenzie?
              -  Sou eu que lhe est agradecido, senhor, por nos ajudar a proteger nossa vida - replicou Fraser, com igual rigidez- . E avaliao o oferecimento 
mas...
              -  Ser um grande prazer - interrompeu-o Roger - . Muito obrigado.
              E surpreendeu ao Wylie com um firme aperto de mos. Logo agarrou a seu sogro pelo cotovelo e o levou para o caminho de conchas, antes de que pudesse 
protestar
              -  Mas se no terem por que lhe beijar o culo - disse, em resposta aos rezongos do Jamie, enquanto entravam no bosque- . Que seu mordomo nos d uma 
toalha limpa e algo de almoar; logo iremos, antes de que ele termine com seus javalis. No tomei o caf da manh e voc tampouco. E se for preciso voltar para o 
Edenton a p, no penso faz-lo com o estmago vazio.
              A idia da comida pareceu devolver um pouco a equanimidade do Jamie. De mtuo acordo, deixaram para mais adiante a anlise dos ltimos acontecimentos...e 
as especulaes sobre o paradeiro do Stephen Bonnet.
              -  Javalis russos, nada menos! - exclamou Jamie quando se detiveram o casaco do bosque. sacudiu-se como os ces- .  No acredito que esse homem tenha 
visto um javali em toda sua vida! Qualquer diria que pode matar-se sem tanto gosto.
              -  Quanto crie que pode lhe haver flanco? mais do que voc e eu ganharemos em dez anos, provavelmente. S para que uns quantos porcos viajem...Quanto? 
Seis mil milhas? - Roger moveu a cabea, estupefato.
              Roger tinha visto um fugazmente, enquanto os escravos o tocavam pelo mole.
              -  Se que forem grandes - disse- . E quando tiverem engordado um pouco, suponho que sero todo um espetculo. Mas no sei se isto gostaro, comparado 
com a Rssia.
              Assinalou com um gesto o bosque mido e enmalezado.
              -  Bom, no lhes faltaro bolotas nem razes - observou Jamie - . E algum negro de vez em quando, como sobremesa. Suponho que estaro muito bem.
              Roger se ps-se a rir. Jamie grunho, divertido.
              -  Crie que brinco, n?  que voc tampouco calaste javalis.
      No. Talvez o senhor Wylie nos convide a vir...
              Estalou-lhe a nuca. Todo o resto o desapareceu.
      
      
      Em algum momento recuperou a conscincia. Conscincia de uma dor to grande que o desmaio resultava imensamente prefervel. obrigou-se a espabilarse e levantou 
a cabea, embora o esforo fez estalar foguetes dentro de seus olhos e o ps ao bordo do vmito. apoiou-se nos cotovelos, com os dentes apertados. Ao cabo de um 
momento sua vista se limpou, embora as coisas eram ainda difusas.
              Demorou um momento em compreender o que acontecia. Os homens estavam uns trs metros mais  frente, onde a maleza e as rvores lhe impediam de ver 
a luta. No obstante captou um murmrio, " A Dhia!" , entre os ofegos e os grunhidos. Ento sentiu uma aguda pontada de alvio: Jamie estava com vida.
              Sua espada estava a poucos passos, meio coberta de areia e folhagem. Tambm uma das pistolas, mas no se incomodou em toc-la; embora a plvora estivesse 
seca, no poderia sujeitar a arma com firmeza. Falhou vrias vezes, mas uma vez que teve a mo bem metida na cazoleta da espada se sentiu um pouco melhor; j no 
a deixaria cair.
              Sentia-se como o javali: o estou acostumado a desconhecido se movia traioeiramente sob seus ps. de repente pisou em algo brando, que rodava, e caiu 
sobre um cotovelo.
              Ao girar torpemente sobre si, embaraado pelas costas, descobriu que tinha pisado na perna do Anstruther. O delegado jazia de costas, com a coca aberta 
e expresso surpreendida. No pescoo tinha um grande corte; em redor a areia tinha absorvido muito sangue, avermelhada e fedorento.
              Retrocedeu, e a surpresa fez que ficasse de pede sem pens-lo. Lillywhite estava de costas a ele, com a camisa de linho molhada e pega  pele. Arremeteu 
em uma estocada, grunhindo; logo lanou um golpe de plano, parou...
              Jamie mostrava os dentes em uma semisonrisa manaca no esforo de seguir a arma de seu adversrio. Mas tinha visto seu genro.
              - Roger! - gritou, curto de flego- . Roger, a cariem!
              Lillywhite, em vez de voltar-se para olhar, investiu, fez fintas, parou e arremeteu.
              -  No...sou...to tolo - ofegou.
              Sem dvida pensava que Jamie lhe mentia para induzi-lo a olhar para trs. A viso do jovem se rabiscava novamente nas bordas. aferrou-se de uma rvore, 
tratando de manter-se em p.
              - N - disse com voz rouca. Elevou a espada, a ponta tremia- . N!
              Lillywhite deu um passo atrs e girou em redondo, com os olhos dilatados pela surpresa. Roger investiu s cegas, sem apontar, mas com toda a fora 
que lhe subtraa no corpo.
              A espada penetrou no magistrado pelo olho. depois de roar o oco, o metal se cravou em algo e ficou aderido ali. Tratou de soltar a espada, mas sua 
mo estava agarrada na cazoleta. Lillywhite ficou rgido.
              J apavorado, retorceu-se em um intento de arrancar a espada. Lillywhite, depois de um espasmo, ficou lasso e caiu para ele, como um enorme pescado. 
E ele seguia atirando em vo por livrar da arma.
              Por fim Jamie lhe sujeitou a boneca para liber-lo. Logo o rodeou com um brao e o levou, tropeando, cego de pnico e de dor. Sustentou-lhe a cabea 
e lhe esfregou as costas, murmurando tolices em galico, enquanto ele vomitava.
              -  Estas bem? - perguntou Roger, em meio de todo isso.
              -  Estou bem, sim. E voc tambm, verdade?
              Por fim pde ficar de p. Lillywhite jazia de barriga para cima na folhagem. Roger fechou os olhos, tragando saliva.
      Vamos. - Jamie lhe agarrou de um brao e o passou pelos ombros.
              Quando saram do bosque j podia caminhar por seus prprios meios, embora tendia a desviar-se para os lados. Ante eles se levantava a casa Wylie. Cruzaram 
o prado, sem emprestar ateno aos olhares dos serventes, que se apinhavam nas janelas do piso alto para assinal-los e murmurar entre si.
              -  por que? - perguntou Roger, ao deter-se para sacudir as folhas de sua camisa- . Ho-o ditos?
              -  No. - Jamie extraiu da manga um pouco molhado que devia  ter sido um leno; depois de afund-lo na fonte ornamental, usou-o para lhe limpar a cara. 
Depois de jogar um olhar s sujas nervuras resultantes, voltou a esclarec-lo na fonte.
              -  A primeira notcia que tive foi o rudo de sua cabea, quando Anstruther te golpeou. Agarra isto, que ainda sangra. Quando me voltei a olhar, j 
estava tendido no cho. E um momento depois uma espada me cruzou pelas costelas, como sada de um nada. Olhe esta. - Colocou os dedos por toucinho talho aberto na 
camisa- . Agachei-me depois de uma rvore e a gastas obtive desenvainar a tempo. Mas nenhum dos dois disse uma palavra.
              -  Cus!  porque tenho a cabea arrebentada ou em realidade isto no tem nenhum sentido? por que se empanavam tanto em nos matar?
              -  Porque nos queriam mortos - explicou Jamie, muito lgico, enquanto se arregaava para lav-las mos na fonte- . Eles ou algum outro.
              -  Stephen Bonnet?
      Se eu gostasse do jogo o apostaria tudo por ele.
      Mas se voc gosta do jogo!
      Pois j v.
              Jamie se passou distradamente uma mo pelo cabelo revolto. Logo se voltou para a casa. Karina e suas irms agitavam extticamente a mo da janela.
      O que eu gostaria de saber, neste momento,  onde est Stephen Bonnet.
      No Wilmington.
      Jamie virou em redondo, franzido o sobrecenho.
      O que?
              -  Que est no Wilmington - repetiu Roger- .  o que disse Lillywhite, mas eu pensei que brincava.
              Seu sogro o olhou fixamente um momento.
              -  Queira Deus que tenha sido uma brincadeira - disse.
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      
      103
      
      Entre os mirtos
      
      
      Wilmington
      
      Comparada com a Colina Fraser, Wilmington era uma metrpole embriagadora. Em circunstncias normais, as garotas e eu teramos desfrutado plenamente de suas 
delcias. No obstante, a ausncia do Roger e Jamie, assim como o carter da misso que se impuseram, pediam-nos encontrar muita distrao.
              Levantvamo-nos com os olhos inchados, entre montes de roupa suja e lenis midos. depois de alimentar e vestir aos meninos, saamos em busca de 
qualquer alvio mental que se pudesse achar durante o dia: carreiras de cavalos, lojas ou as veladas musicais pela que rivalizavam, uma vez por semana e em noites 
sucessivas, as duas anfritionas mais eminentes da cidade.
              A senhora Dunning ofereceu a seu o dia seguinte  partida do Roger e Jamie. As execues de harpa, violino, clavicmbalo e flauta se intercalavam com 
recitais de poesia e " Canes, to Cmicas como Trgicas" , interpretadas pelo senhor Angus McCaskill, o popular e corts proprietrio da estalagem maior do Wilmington.
              Durante toda a atuao, Brianna luziu um semblante to apaixonadamente reflexivo que acabou por descontar aos msicos; alguns observavam com nervosismo 
e se escapuliam para o outro lado do salo, para interpor o clavicmbalo entre ambos. Eu sabia que a atitude de minha filha no se relacionava absolutamente com 
a execuo: antes bem, revivia as discusses que tinham precedido  partida dos homens.
              Brianna se mostrou apaixonada, eloqente e feroz. Jamie, paciente, sereno e inamovible. Eu mantive a boca fechada; por uma vez fui mais teimosa que 
qualquer deles. No podia, a conscincia, me aliar com o Bree, pois sabia como era Stephen Bonnet. Tampouco podia me aliar com o Jamie, pois sabia como era Stephen 
Bonnet.
              Mas tambm sabia como era meu marido. E se ao pensar que ia enfrentar se com esse homem me sentia como se estivesse pendurada de uma corda puda, sobre 
um poo sem fundo, tambm reconhecia que estava equipado como poucos para essa tarefa. alm de sua habilidade para matar, tratava-se de um assunto de conscincia.
              O que Boneta tinha feito a Brianna no era um crime que Jamie pudesse perdoar, muito menos esquecer. Mas alm da simples vingana ou a ameaa constante 
que esse homem representava para o Bree e Jemmy, Jamie se sentia pessoalmente responsvel, ao menos em parte, pelo dano que Bonnet pudesse causar no mundo: a nossa 
famlia ou a outras pessoas. Em uma ocasio lhe tinha ajudado a escapar do patbulo; no teria paz enquanto no corrigisse esse engano. E assim o disse.
              -  Estupendo! - vaiou-lhe Brianna, com os punhos apertados aos flancos- . Voc ter paz. Perfeito! E que paz teremos mame e eu se voc morrer? Ou 
Roger?
              -  Preferiria que fssemos uns covardes?
              -  Sim!
              -  No  verdade - assegurou ele - . Agora pensa assim porque tem medo.
              -   obvio que tenho medo! E tambm mame, s que ela no o diz porque pensa que ir de qualquer modo.
              -  Se pensar isso, tem razo. - Jamie me olhou de soslaio, com uma ameaa de sorriso- . Conhece-me bem, verdade?
              Olhei-o, mas imediatamente apartei a cara, com os lbios bem fechados, e me dediquei a contemplar os navios ancorados no porto, enquanto a discusso 
continuava.
              Foi Roger quem lhe ps fim.
              -  Brianna - disse brandamente, quando ela fizo uma pausa para respirar- . No permitirei que esse homem viva no mesmo mundo que meus filhos ou minha 
esposa - continuou- . Partimos com sua bno...ou sem ela?
              Se alguma bno lhe deu, foi outorgada de noite, na paz do leito. Jamie recebeu minha bno e meu adeus na mesma escurido, sempre sem dizer uma 
palavra.
      
      
      De noite seguinte, a senhora Crawford apresentou em sua velada aos mesmos executantes, pouco mais ou menos, mas com uma novidade: foi ali onde conheci o aroma 
das velas de mirto.
              -  O que  esse perfume encantador? - perguntei no intervalo  proprietria da casa. 
              -  Cera de mirto - respondeu ela, agradada- . No a utilizo por si s, embora seja possvel, porque se necessita uma tremenda quantidade de bagos cerca 
de oito libras, para obter umas s libera de cera. De modo que mesclo a cera de mirto com a de abelhas. E fiquei muito satisfeita.
              Assim foi como, ao terceiro dia, pedi emprestados vrios cubos a nossa posadera, encarreguei uma cesta com o almoo e reuni a minhas tropas para uma 
expedio recolectora. 
              Brianna e Marsali consistiram imediatamente, embora com pouco entusiasmo.
              -  Algo  prefervel a ficar sentadas aqui, preocupadas - disse Brianna.
              -  Sim, e algo  melhor que o aroma de fraldas sujos e leite azedo - acrescentou Marsali, abanicndose com um livro; a via plida- . No me viria mal 
um pouco de ar fresco.
              Eu no estava segura de que pudesse caminhar tanto com seu volumoso ventre (j estava no stimo ms), mas ela assegurou que o exerccio lhe sentaria 
bem.
              O senhor Burns, nosso hospedeiro, desenterrou amavelmente um velho carrinho de mo de cabra, que teve a gentileza de nos oferecer. No obstante, a 
cabra estava dedicada a comer urtigas no jardim vizinho e recusou deixar-se apanhar. Depois de persegui-la acaloradamente durante um quarto de hora, Brianna declarou 
que preferia atirar ela mesma do carrinho de mo antes que seguir jogando que te pilho com esse animal.
              -  Senhora Fraser, senhora Fraser!
              J amos rua abaixo, com os meninos, os cubos e a cesta do almoo no carrinho de mo, quando a senhora Burns saiu correndo da estalagem; trazia uma 
jarra de cerveja em uma mo e uma vetusta pistola de pederneira na outra.
              -  Serpentes - explicou ao me entregar a arma- . Diz meu Annie que a ltima vez que passou por ali viu dez ou doze vboras.
              -  Serpentes - repeti, aceitando a contra gosto o objeto e sua correspondente parafernlia.
              ia pr a pistola no cesto da comida, mas ante a querbica inocncia do Germain e Jemmy decidi que era imprudente lhes deixar uma arma  mo, embora 
estivesse carregada. Optei por deix-la cair dentro de um cubo e o pendurei do brao. 
              Guiadas pelas indicaes da senhora Crawford, percorremos um quilmetro e meio praia abaixo, at encontrar um bosque costeiro.
              -  por ali - disse, assinalando a emaranhada vegetao.
              Como teria sido mais difcil continuar com o carrinho de mo, deixamo-la ali. Enquanto os meninos corriam livremente, perseguindo caranguejos e aves, 
entramos a passo lento no bosque achaparrado. 
              face ao espesso da maleza, caminhar por ali era mais agradvel que pela praia aberta; as rvores eram o bastante altos para brindar uma grata sensao 
de intimidade e refgio; a fina capa de folhagem e pinaza permitia pisar em melhor.
              Jemmy, cansado de caminhar, atirou-me da saia e estendeu os braos.
              -  Vamos. - Deixei que o cubo de bagos me pendurasse da boneca e o elevei com um ranger de vrtebras; era um menino muito bem fornido. Ele me rodeio 
comodamente da cintura com os ps talheres de areia e apoiou a cara em meu ombro, com um suspiro de alvio.
              Quando vimos um exuberante grupo de mirtos, no disseminamos at pedernos de vista entre as matas, mas de vez em quando nos chamvamos mutuamente, 
a fim de no nos extraviar.
              Eu tinha deixado ao Jemmy no cho. Enquanto me perguntava se podia dar alguma utilidade  polpa dos bagos, depois das ferver para extrair a cera, ouvi 
um suave ranger de pisadas ao outro lado do arbusto.
              -   voc, querida? - perguntei, pensando que era Brianna- . Conviria almoar logo; acredito que est aponto de chover.
              -  Pois que amvel convite - disse uma voz masculina, muito divertida- . O agradeo, senhora, mas tomei o caf da manh em abundncia recentemente 
momento.
              Ao v-lo sair de atrs do arbusto fiquei paralisada, completamente emudecida. O estranho  que minha mente funcionava  velocidade da luz.
              " Se Stephen Bonnet estiver aqui,  que Jamie e Roger esto fora de perigo, graas a Deus" .
              " Onde esto os meninos?" 
              " Onde est Bree?" 
              " Onde est essa pistola, maldita seja?" 
              -  Quem  esse, grandmere? - Germain, com algo que parecia uma ata morta pendurando de uma mo, aproximou-se com cautela e olhou ao intruso com os 
olhos entreabridos.
              -  Germain - disse com voz rouca, sem apartar os olhos do Bonnet- , v a por sua me e fica com ela.
              -  Com que grandmere? E quem  sua me? - O homem nos olhou alternativamente, interessado. Por fim inclinou o sombreio para trs e se arranhou a mandbula.
              -  Isso no importa - disse, com toda a firmeza possvel- . V, Germain!
              Joguei uma olhada para baixo, mas a pistola no estava em meu cubo. Dos seis tnhamos deixado trs no carrinho de mo; indubitavelmente a arma estava 
em um de esses. M sorte.
              -  OH!, no v ainda, jovencito. - Bonnet fez um gesto para o Germain, mas o menino, alarmado, se escabull para trs e lhe arrojou o rato aos joelhos. 
A surpresa fez que o homem vacilasse um instante, justo o que Germain necessitava para desaparecer entre os mirtos. Oxal soubesse onde estava Marsali. Quo ltimo 
precisvamos era que se perdesse.
              Bom, possivelmente havia coisas piores. O ltimo era que Stephen Bonnet visse o Jemmy. E isso foi o que aconteceu um instante depois, quando meu minto 
saiu das matas. Minha paralisia desapareceu em um segundo: elevei-o precipitadamente e retrocedi vrios passos.
              -  E quem  este doce hombrecito? - perguntou Bonnet, dando um passo fazia mim.
              -  Meu filho - respondi imediatamente.
              -  J vejo que se parece com seu pai. - Nas povoadas sobrancelhas loiras, brilhavam gotas de suor- . E a sua...irm. Essa encantadora filha dela, encontra-se 
por aqui, querida minha? Tenho muitos desejos de renovar nossa relao.
              -  No o ponho em dvida - disse, sem me esforar por dissimular meu tom cortante- . Mas ela est em casa...com seu marido.
              -  Em casa, v! E a que chama voc casa, senhora? - tirou-se o chapu para sec-la cara com a manga.
              -  Pois...a que lhes tenha no campo. Uma granja. - Assinale vagamente para o que me pareceu o oeste.
              -  Uma granja - repetiu; um msculo lhe contraiu na bochecha- .E o que lhes trouxe to longe de sua casa, se me permite perguntar?
              -  No lhe permito - disse- . Quer dizer...pode perguntar-lhe a meu marido. No demorar para vir.
              -  OH!, isso o duvido, minha querida senhora Fraser. Ver voc, a estas horas o j estar morto.
              -  O que quer dizer?
              -  Explicarei-lhe: foi um trato - disse. Sua diverso parecia ir em aumento - . Uma diviso de trabalho, poderia-se dizer. Meu amigo Lillywhite e o 
bom do delegado se ocupariam dos senhores Fraser e MacKenzie; o tenente Wolff dirigiria a parte da senhora Cameron. Desse modo ficava a meu cargo a agradvel tarefa 
de familiarizar com meu filho e me reencontrar com sua me. - Seu olhar se encontrou com o Jemmy.
              Ante isso riu brevemente.
              -  No sabe voc mentir, senhora, se me perdoar o comentrio. Sabe perfeitamente o que quero dizer, pois me viu l, no River Run. Francamente, eu adoraria 
saber o que faziam voc e o senhor Fraser. Carnear a essa negra que matou Wolf? Dizem que a imagem do assassino fica gravada nos olhos da vtima, mas a julgar pelo 
que vi, voc no observava os olhos. Era algum tipo de magia?
              -  Wolff...Com o que foi ele?
              Nesse momento me dava quo mesmo o tenente tivesse assassinado a uma vintena de mulheres; s queria entret-lo com qualquer tema de conversao.
              -  Pois sim.  um incompetente,  Wolff - disse com objetividade- . Mas como foi ele quem averiguou o do ouro, exigiu participar da empresa.
              Onde estavam Marsali e Brianna? As teria encontrado Germain? No se ouvia outra coisa que o zumbido dos insetos e o bater longnquo do fluxo. Mas algum 
tinha que nos ouvir.
              -  O ouro - disse, em voz algo mais alta- . A que ouro se refere? No River Run no h ouro algum. Yocasta Cameron j o haver dito.
              -  Reconheo que a senhora Cameron minta melhor que voc, querida, mas tampouco a acreditei. O caso  que o doutor viu esse ouro, compreende voc?
              -  Que doutor?
              -  Rawls...acredito que se chamava. Ou Rawlings - esclareceu Bonnet- . Mas no tive o prazer de conhec-lo, de modo que poderia me equivocar.
              -  Sinto muito, mas ainda no entendo uma palavra do que me diz.
              Eu tentava simultaneamente lhe sustentar o olhar e procurar no cho algo que se pudesse utilizar como arma. Bonnet tinha uma pistola e uma faca no 
cinturo, mas no parecia desejoso de us-los.
              -  No? Pois bem, foi Wolff, como lhe dizia. Necessitava que lhe extraram um dente ou um pouco parecido, e assim foi como conheceu esse mdico ruim 
no Cross Creek. Logo o convidou a beber algo e acabou acontecendo a noite em um botequim, bebendo com ele. Por isso parece, o doutor era outro bbado. Antes do amanhecer 
os duas eram unha e carne. Rawlings deixou traslucir que no River Run tinha visto uma grande quantidade de ouro, pois justamente vinha dali, compreende voc?
              Rawlings pediu a conscincia ou a recuperou o baste para no dizer mais, mas essa revelao foi suficiente para reafirmar  tenente em sua deciso 
de obter a mo (e a propriedade) da Yocasta Cameron.
              -  Mas a senhora no quis saber nada dele. E logo anunciou que tinha aceito ao maneta.Ah!, que golpe cruel para o orgulho do tenente. - Sorria ao diz-lo; 
faltava-lhe um molar a um lado.
              O tenente Wolff, furioso e desconcertado, pediu conselho a seu grande amigo, Randall Lillywhite.
              -  Ah, Foi por isso que mandou prender o padre na congregao? Para evitar que casasse  senhora Cameron com o Duncan Innes?
              -  Assim devia ser. Uma pequena prosternao nos daria a oportunidade de investigar melhor o assunto.
              Essa oportunidade se apresentou durante as bodas. Tal como o tnhamos exposto em nossas teorias, algum (o tenente Wolff) tentou drogar ao Duncan Innes 
com uma taa de ponche e ludano. O plano era deix-lo inconsciente e jog-lo no riu. Durante o revo ocasionado pelo desaparecimento do noivo e sua presumvel morte 
acidental, Wolff poderia revisar o lugar a fundo, em busca do ouro...e ao seu devido tempo renovar sua proposio a Yocasta.
              -  Mas a negra se bebeu o preparado - disse, sem que lhe movesse o cabelo- . Por desgraa no a matou. E como teria podido dizer quem lhe entregou 
a taa, Wolff mesclou vidro modo s papa que foram lhe dar.
              -  O que quero saber - disse-   que papel desempenha voc em tudo isto. O que para ali, no River Run?
              -  No sabe voc, querida, que o tenente e eu somos grandes amigos h anos? Ele me pediu ajuda para eliminar ao maneta. Desse modo poderia deixar-se 
ver em meio da festa, divertindo-se em total inocncia, enquanto seu rival sofria um acidente. Uma vez que o ludano falhou, o melhor teria sido lhe dar um bom golpe 
na cabea a esse Innes e jog-lo na gua. Mas no houve maneira; passou-se a metade do dia nas letrinas e sempre havia algum com ele.
              No havia a meu alcance nada que se pudesse usar como arma. Durante a conversao Jemmy ia perdendo o medo a esse desconhecido e comeava a querer 
largar-se. 
              Retrocedi um pouco; Bonnet, ao v-lo, sorriu sem preocupao. Obviamente no acreditava que eu pudesse escapar. E esperava algo.  obvio, havia-me 
isso dito ele mesmo. Esperava a Brianna. Compreendia tardiamente que nos tinha seguido da cidade; sabia que Marsali e Brianna estavam perto; era muito mais singelo 
esperar a que reaparecessem. 
              -  A senhora Cameron...Innes, nesta ocasio, mostrou-se bem disposta a falar assim que lhe insinuei que seu marido podia perder algumas de suas entesouradas 
partes. Mas em realidade essa velha embusteira nos mentiu. Mais adiante, ao refletir, me ocorreu que se mostraria mais disposta se se tratava de seu herdeiro. - 
E olhou ao Jemmy, estalando a lngua- . Assim iremos ver sua tia av, verdade pequeno?
              Jemmy o olhou com desconfiana e se apertou para mim. Eu tinha conseguido me introduzir entre duas matas de mirto. Trataria de lhe distrair com a conversao 
at que pudesse me girar, deixar ao Jemmy no cho e insisti-lo a correr. Com um pouco de sorte poderia lhe bloquear o passado o tempo suficiente para que ele fugisse...sempre 
que o menino pusesse-se a correr.
              -  Lillywhite - disse, retomando a conversao- . A que se referia voc quando o disse que ele e o delegado foram ocupar se de meu marido e o senhor 
MacKenzie?
              -  Pois o dito, senhora Fraser: seu marido morreu. - Tinha comeado a olhar alm de mim, entre as matas. Obviamente, esperava que Brianna aparecesse 
em qualquer instante- . O que aconteceu durante as bodas nos fez ver com claridade que no convinha permitir que a senhora Camero tivesse tanto amparo. Se tnhamos 
que tent-lo novamente, era mister que ela no tivesse parentes vares aos que pedir ajuda nem vingana. Por isso, me ocorreu que era uma boa oportunidade para elimin-lo 
tanto a ele como ao senhor MacKenzie: dois pssaros de um s tiro. Mas logo me pareceu melhor que Lillywhite se ocupasse dessa parte, junto com seu delegado domesticado. 
- Sorriu- . Enquanto isso eu viria a por meu filho e sua me; desse modo no haveria perigo de algo sasse mau. Compreende voc? Poderamos...
              Girei sobre meus tales e plantei ao Jemmy no cho, ao outro lado das matas.
              -  Corre! - insisti-o- . Corre, Jem, vete.
              Se escabull com um brilho vermelho, choramingando de medo. Bonnet chocou comigo.
              Tratou de me apartar de um tranco, mas eu o estava esperando e tratei de lhe arrebatar a pistola que levava a cinturo. Ele se apartou com um movimento 
brusco, mas eu j tinha pego a culatra; desencapei-a e, enquanto, caa ao cho, com ele em cima, arroje-a para trs.
              Ele rodou para um flanco e se incorporou sobre os joelhos. Imediatamente ficou petrificado.
              -  No se mova...ou pela Santa Virgem que lhe voarei a cabea.
              Marsali, branca cone um lenol, apontava a vetusta pistola de pederneira contra ele, por cima da curva de seu ventre.
              -  Mata-o, mamam! - A cara do Germain, detrs dela, brilhava de ansiedade - . Mata-o! Como ao puercoespn!
              Joan, algo mais atrs, comeou a chorar para ouvir a voz de sua me, mas Marsali no apartava os olhos do Bonnet. Teria carregado e cevado a pistola? 
Provavelmente, posto que cheirava a plvora negra.
              -  Vale, vale - disse Bonnet, lentamente.
              Notei que calculava a distncia entre ele e Marsali: quatro ou cinco metros, muito para que pudesse alcanar a de um salto. Ps um p no cho e comeou 
a levantar-se. Em trs passos chegaria at ela.
              -  No deixe que se levante! - Eu tambm me pus de pede e lhe dava um empurro no ombro. Caiu de lado e amorteceu o golpe com uma mo. Logo girou para 
trs, com mais celeridade da que eu teria podido imaginar, e me agarrou pela cintura para me pr sobre ele.
              de repente me encontrei com seu brao apertado em torno do pescoo, me sujeitando contra seu peito. Houve um sussurro de metal contra a pele e algo 
frio me tocou o pescoo. Deixei de lutar para agarrar flego.
              Marsali tinha os olhos abertos como pratos e os lbios muito apertados. Graas a Deus, seu olhar seguia apontando ao Bonnet e a pistola tambm.
              -  Dispara, Marsali - disse, com calma- . Agora mesmo.
              -  Baixa essa pistola, moa - disse Bonnet, com igual serenidade- , se no querer que lhe corte o pescoo no que conto trs. Um...
              -  Lhe dispare! - ordenei com todas minhas foras. E inalei minha ltima baforada de ar.
              -  Dois...
              -  Espere!
              A presso da folha contra meu pescoo cedeu um pouco; com um comicho de sangue, permitiu-me outro flego que j no esperava. Mas no tive tempo de 
desfrut-lo: Brianna estava entre os mirtos, com o Jemmy obstinado a suas saias.
              -  Solta-a - disse.
              Marsali, que continha o flego, deixou-o escapar em um ofego e respirou a fundo.
              -  No me soltar. E tampouco importa - disse a ambas, com firmeza- . Marsali, lhe dispare. Faz-o j!
              Ela esticou a mo que sustentava a arma, mas no pde faz-lo. Jogou uma olhada a Brianna; estava muito plida e lhe tremia a mo.
              -  Mata-o, mamam - sussurrou Germain, mas sua voz havia desparecido da ansiedade. Ele tambm estava plido e no se separava de sua me.
              -  Vir comigo, preciosa. Voc e o pequeno. - Ao falar Bonnet senti a vibrao de seu peito; tambm percebi a meio sorriso em sua cara, embora no 
podia v-la- . Os outros podem ir-se.
              -  No faa conta - disse, tratando de que Bree me olhasse- . No nos deixar ir, e voc sabe. Matar-nos, a mim e ao Marsali, embora diga o contrrio. 
O nico que se pode fazer  lhe disparar. Se ela no puder, ter que faz-lo voc, Bree.
              Os olhos da Brianna se desviaram bruscamente fazia mim, espantados. Bonnet grunho, mdio divertido, mdio vexado.
              -  Condenar a sua me? No  capaz disso, senhora Fraser.
              -  Oua, Marsali...te matar, e ao beb contigo - disse, esticando todos os msculos no esforo de fazer o compreender, de obter que disparasse- . 
Germain e Joan morrero aqui, sozinhos. O que acontea comigo no importa, me acredite. Pelo amor de Deus, dispara j!
              Ela disparou.
              Houve uma fasca e uma baforada de fumaa branca; Bonnet deu um coice. Logo a mo do Marsali se afrouxou, a boca da pistola apontou para baixo...e 
o projtil caiu  areia, junto com o taco. O tiro tinha falhado.
              Marsali gemeu de espanto. Brianna, com a velocidade do raio, recolheu o cubo cansado e o jogou na cabea do Bonnet. Ele me soltou para lanar-se at 
lado, com um chiado. Um momento depois Germain e Jemmy choravam a dueto e Joan chiava como uma louca no bosque.
              Bonnet estava novamente de p, avermelhado e com a faca na mo. Embora o via furioso, fez um esforo por sorrir a Brianna.
              -  Vamos, bonita - disse, elevando a voz para fazer-se ouvir por cima de barafunda- . S vim a por ti e a por meu filho. No vou fazer lhes dano.
              -  No  seu filho - replicou ela, em voz baixa e inflamada- . E nunca o ser.
              -  No? - exclamou ele, depreciativo- . Pois no  o que me disse naquela masmorra do Cross Creek, meu cu. E agora que o vejo...- Olhou novamente 
ao Jemmy- .  meu, querida. Me parece, verdade, moo?
              Jemmy, entre uivo, sepultou a cara nas saias de sua me. Bonnet se encolheu de ombros e abandonou todo intento de enrol-la.
              -  Vamos - disse. E deu um passo para diante, com inteno de apoderar-se do Jemmy.
              A mo da Brianna saiu de suas saias, armada com uma pistola. Era a que eu tinha arrancado do cinturo desse homem, e apontava ao stio de onde provinha. 
Bonnet se deteve em seco, boquiaberto.
              -  O que me diz? - sussurrou. Olhava-o sem piscar- . Mantm a plvora seca Stephen?
              Afirmou a pistola com ambas as mos e disparou a entrepierna.
              Ele foi veloz, devo reconhec-lo. Embora no tinha tempo para fugir, cobriu-se a parte ameaada com ambas as mos, no mesmo instante em que ela apertava 
o gatilho. O sangue estalou entre seus dedos em uma densa garoa, sem que eu pudesse ver onde o tinha ferido.
              Retrocedeu com passo vacilante, aferrando-se. Olhava em redor cone se no pudesse acredit-lo. Sua respirao se fez mais rpida e trabalhosa. Ns 
o olhvamos, paralisadas.
              Entre ofegos, deu a volta e se afastou, como um inseto que algum tivesse pisado, com movimentos convulsos. ouviu-se o rudo das matas contra as que 
chocava. Um momento depois desapareceu.
              -  Dizia a verdade? - Brianna se agachou junto a mim- .Crie que tero morrido?
              -  No - disse. No sentia pnico ao recordar o que Bonnet havia dito; s uma certeza no peito, como um peso pequeno e reconfortante- . No, no morreram.
              Marsali havia desparecido para ir a pelo Joanie. Germain, inclinado sobre a areia, estudava com fascinao as manchas de sangue.
              -  Vamos - disse, enquanto dava tenros tapinhas ao Jemmy- . Acredito que por agora prescindiremos de velas perfumadas.
      
      
      Roger e Jamie reapareceram dois dias depois. Eu estava razoavelmente segura de que Roger tinha uma pequena comoo cerebral, mas ele se negou a deitar-se. 
Em troca permitiu que Bree lhe sustentara a cabea no regao e tocasse o impressionante galo, entre exclamaes de horror. Enquanto isso, Jamie nos fez um breve 
relato da batalha do embarcadero e ns lhes demos uma explicao algo confusa de nossa aventura entre os mirtos.
              -  Ento Bonnet no morreu? - perguntou Roger, abrindo um olho.
              -  No sabemos - reconheci- . Escapou. No sei se sua ferida era grave. No perdeu muito sangue, mas se recebeu o disparo no sob ventre,  mortal, 
quase com certeza. A morte por peritonitis  muito lenta e horrvel.
              Fergus chegou no navio do meio-dia. Trazia triunfalmente as escrituras oficialmente seladas das duas concesses de terras, com o que coroou o dia. 
No obstante, as celebraes foram limitadas, posto que ainda ficava um grande cabo solto.
              depois de uma vigorosa discusso, decidiu-se que ele e eu viajaramos imediatamente ao River Run. A parte jovem de nossa famlia permaneceria no Wilmington 
alguns dias mais para concluir os assuntos pendentes; enquanto isso se manteriam alertas se por acaso se falava de algum homem ferido ou moribundo. Depois retornariam 
 Colina Fraser, com cuidado de no aproximar-se do Cross Creek nem ao River Run.
              -  Assim o tenente no poder influir sobre minha tia lhes ameaando a ti ou ao menino - explicou Jamie a Brianna. Logo se dirigiu a seus genros. - 
Quanto a vs, mo charadean, no podem deixar s mulheres e os pequenos sozinhos. Sabe Deus a quem poderiam matar esta vez!
              Ao amanhecer seguinte, partimos sozinhos.
      

      104
      
      Astcia de raposas
      
      Trs dias depois, quando j estava entardecendo, chegamos ao River Run.
              - O que opina? -  perguntei ao Jamie. Tnhamos detido aos cavalos ao p do prado, para observar bem a situao antes de nos aproximar da casa. 
              -  Pelo menos ningum incendiou a casa - respondeu, ngreme sobre os estribos- . Tampouco h rios de sangue correndo pela escalinata.
              Quando chegamos  porta principal tive a certeza de que algo andava mau. Na casa reinava uma quietude sinistra. O mais estranho era que Ulises no 
sasse a nos receber. Durante vrios minutos ningum respondeu a nossas chamadas; quando ao fim se abriu a porta, quem apareceu foi Freda, a criada da Yocasta.
              Tinha to m cara como a ltima vez que a tinha visto, quase um ano antes, depois da morte de suas mes; mas ao nos ver lhe iluminaram os olhos e relaxou 
a boca em visvel alvio.
              -  OH, senhor Jamie! - exclamou- . Tanto como rezei desde ontem, pedindo que algum viesse a nos ajudar!
              -  Sim, pequena. Nunca pensei que eu pudesse ser a resposta a uma prece, mas no tenho objees. Minha tia...est bem?
              E se retirou sem nos dar tempo a fazer mais perguntas, nos assinalando a escada.
              Yocasta estava tecendo em suas habitaes. Para ouvir nossas pegadas levantou a cabea. antes de que pudssemos dizer nada, perguntou com voz trmula:
              -  Jamie? - E se levantou.
              -  Sim, tia, sou eu. E Claire. O que  o que acontece? - Jamie cruzou a habitao com grande rapidez e lhe agarrou a mo para lhe dar uns tapinhas 
reconfortantes.
              A cara da anci sofreu a mesma transformao de alvio que tnhamos visto na Freda. Durante um momento pareceu que lhe falhavam os joelhos, mas ergueu 
a coluna e se voltou para mim.
              -  Claire? Bendita seja Santa Bride por te haver trazido, embora no sei como...Mas deixemos isso por agora. Quer vir? Duncan est ferido.
              Na habitao contiga, jazia inerte sob um monto de edredons. Em um primeiro momento temia que tivesse morrido, mas se moveu para ouvir a voz da Yocasta.
              -  MAC Dubh? - perguntou, intrigado. E apareceu a cabea entre os cobertores, entortando os olhos na penumbra- . Por todos os Santos, o que te traz 
por aqui?
              -  O tenente Wolff - disse Jamie, algo custico- . Soa-te esse nome?        -  Pois sim,  claro que sim.
              A voz do Duncan tinha um sotaque estranho, mas no lhe emprestei ateno; estava ocupada em acender velas e desenterr-lo para ver o que lhe acontecia. 
Esperava me encontrar com uma ferida de pistola ou adaga, mas a primeira vista no havia nada disso. Tive que reordenar a mente para descobrir que tinha uma perna 
rota.
              Enquanto Freda ia procurar material para lhe entalar a perna, Jamie, informado que Duncan no corria perigo, sentou-se para ir ao fono do assunto.
              -  O tenente Wolff andou por aqui? - perguntou.
              -  N...sim. - Novamente essa pequena vacilao.
              -  E se foi?
              -  Pois sim. -  Duncan se estremeceu involuntariamente.
              -  Di? - perguntei.
              -  OH!, no, senhora Claire - assegurou-me-  foi s...bom...
              -  Ser melhor que me conte isso sem rodeios, Duncan - advertiu Jamie, com certa exasperao- . E se as coisas so como acredito, eu tambm tenho algo 
que te contar.
              O tenente tinha estado no River Run dois dias antes, mas contra seu costume no se apresentou pela porta principal. O que fez foi deixar seu cavalo 
maneado a um ou dois quilmetros e aproximar-se de pede, com sigilo.
              -  Sabemos s porque depois encontramos o cavalo - explicou Duncan, enquanto eu lhe enfaixava a perna- . Mas no suspeitvamos que estivesse aqui. 
At que sa para ir a letrina, depois de jantar, e ele se arrojou em cima de mim na escurido. Estive a ponto de morrer do susto. E logo caso morri seriamente, porque 
me disparou. Se tivesse tido o brao desse lado, acredito que o teria atravessado. Mas como no o tenho, no houve ferida.
              Apesar de seu discapacidad, Duncan se defendeu ferozmente: golpeou  tenente na cara e carregou contra ele, derrubando-o para trs.
              -  Tropeou com o muro de tijolo e caiu por cima, de modo que se deu um horrvel golpe na cabea.
              -  V! Ento morreu no ato? - perguntou Jamie, interessado.
              -  Pois no. - Duncan parecia haver-se tranqilizado durante o relato, mas nesse momento voltou a inquietar-se- . Ver, MAC Dubh...Eu tambm me cambaleei 
ao derrub-lo, pisei na canaleta da letrina e me parti a perna. E ali fiquei, gemendo junto ao caminho. Por fim Ulises ouviu minhas chamadas e baixou, seguido por 
Eu.
              Enquanto Ulises ia procurar um par de caballerizos para carregar ao Duncan h a casa, lhe tinha explicado a Yocasta o ocorrido. Depois, entre o dolo 
da perna rota e seu costume de deixar que o mordomo resolvesse as dificuldades, se despreocup do tenente.
              -  Foi minha culpa, MAC Dubh; reconheo-o - disse, plido e ojeroso- . Tinha que ter dado um par de ordens. Mas nem seguisse agora sei o que  o que 
devia mandar, e olhe que tive tempo para pens-lo.
              O resto da histria, que lhe arrancamos em que pese a sua relutncia, era que Yocasta e seu mordomo, depois de discutir o assunto, tinham chegado  
concluso de que o tenente j no era uma molstia, a no ser uma verdadeira ameaa. E estando assim as coisas...
              -  Ulises o matou - disse Duncan sem rodeios. Logo fez uma pausa, novamente horrorizado- . Eu me h dito que ela o ordenou. E Deus sabe que  muito 
capaz disso, MAC Dubh.
              -  Cu Santo! - exclamou Jamie- . Se algum se inteira, Ulises ser enforcado no ato...ou algo pior, embora minha tia o tenha ordenado.
              -  Assim  - acrescentou Duncan- . No posso permitir que v ao patbulo mas o que farei com o tenente? Ter que ter em conta  marinha, por no falar 
dos delegados e os magistrados.
              Isso era um ponto decisivo. A prosperidade do River Run dependia em grande parte de que a marinha seguisse comprando madeira e breu. Em realidade, 
o tenente Wolff era o contato responsvel por esses contratos. Era compreensvel que a marinha de sua majestade olhasse com maus olhos ao latifundirio que tinha 
matado a seu representante local, qualquer que fosse seu motivo. Quanto  lei, representada pelo delegado e os magistrado, talvez fura um pouco mais pormenorizada 
com a situao...mas no com o penetrador. Quando um escravo derramava sangue de um branco, o condenava automaticamente, embora o tivessem provocado. Pouco importava 
o que tivesse acontecido; embora dez testemunhas declarassem que Wolff  tinha atacado ao Duncan, Ulises no se salvaria. 
              Jamie se esfregou o queixo com um ndulo.
              -  N...Como foi que...? Quer dizer...No poderamos declarar que o fez seu mesmo Duncan? depois de tudo foi em defesa prpria. E temos evidncias 
de que o homem veio a te assassinar, com a idia de desposar logo a minha tia pela fora ou, pelo menos, ret-la como refm para que revelasse o do ouro.
              -  Que ouro? - Duncan ps cara de no entender -  Mas se aqui no h ouro! No ficou isso claro o ano passado?
              -  O tenente e seus scios acreditam que sim - informei-lhe- . Mas Jamie lhes contar isso dentro de um momento. Agora bem, o que aconteceu com o tenente?
              -  Ulises lhe cortou o pescoo - disse Duncan, tragando saliva- . Com muito gosto diria que fui eu, mas...
              Alm de quo difcil teria sido degolar a algum com uma s mo, era muito bvio que o tenente tinha morrido  mos de um canhoto. E Duncan nem sequer 
tinha mo esquerda. Eu sabia que Yocasta Cameron era canhota, ao igual a seu sobrinho, mas no momento o tato me impedia de mencion-lo.
              -  Onde est Ulises?
              -  No estbulo, se  que no se foi j.
              Consciente de que seu mordomo seria condenado a morte se algum descobria a verdade, Yocasta lhe tinha ordenado selar um cavalo e fugir para as montanhas 
se via chegar a algum. 
              Jamie respirou fundo e se passou uma mo pela cabea, pensativo.
              -  Bom, o melhor seria que o tenente desaparecesse. Onde o pusestes Duncan?
              -  Acredito que est no fosso do andaime, MAC Dubh. Envolto em um tecido coberta de breu e abafado com lenha, como se fura uma cabea de gado de porco.
              Meu marido voltou a arquear as sobrancelhas, mas se limitou a assentir.
              -  De acordo. Deixa o de minha conta.
              Deixei instrues de que dessem ao Duncan aguamiel e uma infuso de ch, eupatorio e casca de cerejeira; logo sa com o Jamie para analisar os diferentes 
mtodos de desaparecimento.
              -  O mais singelo seria enterr-lo em um stio qualquer, suponho - disse.
              -  Hum. - Jamie elevou a tocha de pinheiro para observar, pensativo, o vulto sob o tecido embreado- . Possivelmente. Mas penso nos escravos. Todos 
sabem o que aconteceu. Se o sepultarmos aqui tambm sabero. No o diro a ningum, certamente, mas seu fantasma ficasse rondando, no?
              -  Seu fantasma? - repeti, me rodeando o xale.
              -   obvio. Assassinado aqui e escondido sem vingana...
              -  Seriamente crie que rondaria por aqui? - perguntei, cautelosa- . Ou refere ao que acreditariam os escravos.
              Ele se encolheu de ombros.
              -  No acredito que haja muita diferena. Eles evitaro o lugar onde o enterremos; alguma das mulheres ver seu fantasma de noite e correro os rumores, 
como sempre acontece. E chegar o momento em que um dos escravos diga algo no Greenriver; chegar para ouvidos do Farquad e no passar muito tempo sem que algum 
deva fazer perguntas. Alm disso, a marinha no demorar para procurar o tenente. E se o ancoramos no rio? depois de tudo, era o que ele pensava fazer com o Duncan.
              -  No  m idia - refleti- . Mas ele queria que Duncan aparecesse.  este lance o rio no tem muita profundidade e passam muitas embarcaes. At 
se pusssemos um bom peso ao cadver,  possvel que aparea flutuando na superfcie ou que algum o enganche com uma vara. Mas embora aparecesse, haveria algum 
problema? Ningum o relacionaria com o River Run.
              -  Sim,  certo. Mas se aparecer algum da marinha far uma investigao. Algum dever fazer perguntas. E que passar se interrogarem aos escravos?
              -  Hum, sim. - Tendo em conta o nervosismo dos escravos, qualquer interrogatrio faria que algum deles casse no pnico e dissesse o que no devia.
              Jamie contemplava com expresso abstrada o vulto abafado.
              -  Suponho que...poderamos queim-lo - disse, tragando blis- . Ao fim e ao cabo j est no fosso.
              -  No  m idia - disse Jamie. Sua boca se contraiu em um vago sorriso- . Mas acredito tenho outra melhor.
              Voltou-se para contemplar a casa. Havia luz em algumas janelas, mas todo mundo estava dentro, acovardado.
              -  Me acompanhe - disse, sbitamente decidido- . No estbulo deve haver uma maa.
      
      
      
      O fronte do mausolu estava fechado por uma grade ornamental de ferro forjado, com uma enorme fechadura; decoravam-na rosas jacobitas de dezesseis ptalas.
              -  Parece-te que isto  melhor que enterr-lo ou queim-lo? - perguntei em sussurros, embora no havia ningum por ali.
              -  OH!, sim. O velho Hector se ocupar dele e evitar que faa mal a ningum - assegurou Jamie, como se tal coisa.
              Levantei a tocha para que Jamie visse melhor. Tinha envolto a maa com trapos, par nus descascar o mrmore. Os pequenos blocos da parede frontal, 
dentro da grade, estavam habilmente talhado de modo que se casassem entre si, e pegos com pouco cimento. Ao primeiro golpe, dois deles de deslocaram vrios centmetros. 
Com alguns golpes mais se abriu um espao escuro, pelo que se podia ver a negrume interior.
              Jamie se secou o suor da frente e murmurou algo pelo baixo.
      O que h dito?
      Disse que isto fede - respondeu. Parecia intrigado.
              -  Do que te surpreende - perguntei, um pouco irritada- . Quanto faz que morreu Hector Cameron? Quatro anos?
      Pois sim, mas no ...
              -  O que esto fazendo! - A voz da Yocasta ressonou detrs de mim, agudizada pela agitao. Estava de p no caminho, fantasmagrica com sua camisola 
branca. Freda se acurrucaba detrs de sua ama.
              -  O que estamos fazendo? Pois sepultando  tenente Wolff,  obvio. - Jamie, sobressaltado pela sbita apario de sua tia, pareceu um pouco vexado- 
. Deixa o de minha conta, tia. No tem por que preocupar-se.
              -  Mas no deve. No, no deve abrir a tumba do Hector! - Yocasta torceu seu largo nariz; obviamente tinha detectado o aroma de podrido.
              -  No te aflija, tia - insistiu ele- . Volta para a casa. J me arrumarei. Tudo sair bem.
              -  No, Jamie, no pode! Fecha isso. Fecha-o, Por Deus!
              Em sua voz era inconfundvel o pnico. Vi que Jamie franzia o sobrecenho, confundido. O vento voltou a levantar-se em uma pequena rajada, que trouxe 
para ns um aroma de morte muito mais potente. Jamie trocou de expresso; face aos protestos de sua tia, desalojou uns quantos blocos mais com rpidos golpes de 
maa.
              -  Traz a tocha, Sassenach - disse.
              Fiz-o, com uma crescente sensao de horror. Juntos, ombro com ombro, olhamos pela estreita abertura. Dentro havia dois atades de madeira lustrada, 
cada um em pedestal de mrmore. E no cho, entre eles...
              -  Quem , tia? - perguntou Jamie com voz serena.
              Ela parecia petrificada. No rosto imvel, os olhos cegos foram de um lado a outro, procurando uma fuga possvel. Jamie deu um passo adiante e a aferrou 
por um brao. O susto a arrancou de seu transe.
              -  CO a th'Ann? - bramou- . Quem ? Quem!
              -  Chamava-se...se chamava Rawlings - disse vagamente.
              -  Como foi? - perguntou Jamie com calma.
              Ento, ela fechou os olhos e sotaque cair os ombros em um suspiro.
              -  Matou-o Hector.
              -  Ah, sim? - Jamie jogou um olhar cnico aos atades e ao vulto que havia no cho, entre os dois- . Que faanha! Ignorava que meu tio fora to capaz.
              -  Antes - esclareceu ela com voz inexpressiva, como se j nada importasse- . Rawlings era mdico. Certa vez veio a me examinar os olhos. Quando Hector 
ficou doente fez que viesse de novo. No sei bem o que aconteceu, mas o surpreendeu farejando por onde no devia e lhe esmagou a cabea. Hector tinha mau gnio.
              -  Isso parece - comentou Jamie, jogando outra olhada ao corpo do doutor Rawlings- . E como?
              -  Ele...escondeu o cadver; pensava lev-lo a bosque e abandon-lo ali. Mas logo...piorou e no pde levantar-se. Um dia depois, Hector morreu. Ento...
              Sua mo, larga e branca, apontou para a baforada de ar mido e frio que surgia da tumba aberta.
              Jamie ficou contemplando o mausolu violado, com as sobrancelhas juntas em um gesto de concentrao.
              -  Oua, e de quem  o segundo atade? - perguntou.
              -  Meu. - Yocasta comeava a recuperar o aprumo; quadrou os ombros e levantou o queixo.
              Jamie me olhou com um pequeno bufido. Era acreditvel que essa mulher preferisse deixar um cadver exposto antes que coloc-lo em seu prprio atade, 
mas assim acrescentava as possibilidades de que fora descoberto. At no caso de que algum abrisse o mausolu, o mdico poderia ter descansado ali em total segurana, 
pois ningum tivesse aberto o fretro da Yocasta at que chegasse o momento de que recebesse seu prprio corpo.  mulher era egosta, mas estpida no, absolutamente.
              -  De acordo, coloca ao Wolff, se for preciso - disse- . Pode ficar ali no cho, com o outro.
              -  por que no o pomos no atade, tia? - perguntou Jamie; notei que a observava com ateno.
              -  No! - havia lhe tornado as costas, mas ante  se girou depressa, feroz a cara  luz da tocha- .  lixo. Deixa que se apodrea no cho!
              Ante essa resposta ele entreabriu os olhos, mas em vez de responder comeou a retirar os blocos soltos.
              -  O que faz? - Yocasta voltou a agitar-se para ouvir o chiado de mrmore, mas se desorientou ao olhar e ficou de cara para o rio. Compreendi ento 
que j estava completamente cega; no via nem sequer a luz da tocha.
              De qualquer modo, nesse momento no podia lhe emprestar ateno. Jamie entrou pela abertura.
              Segui-o, respirando apenas. Os atades tinham placas de bronze, algo opacas pela umidade, mas perfeitamente legveis. " Hector Alexander Robert Cameron" 
, dizia uma; a outra, " Yocasta Isobeail MacKenzie Cameron" . Sem vacilar, ele levantou a tampa do segundo.
              No estava cravejada; moveu-se imediatamente.
              -  OH! - murmurou Jamie, ao ver o que continha.
              O ouro nunca perde o brilho, por muito mido que seja o ambiente. Pode passar sculos inteiros no fundo do mar; um dia emergir na rede de algum pescador, 
resplandecente como o dia em que foi fundido.
              Os lingotes formavam uma capa no fundo do atade. Suficiente para encher duas arcas pequenos, cada um to pesado que para carreg-los-se requeriam 
dois homens...ou um homem e uma mulher forte. Cada lingote com sua flor de lis estampada. Um tero do ouro do francs.
              O resplendor me fez piscar. Apartei a vista nublada. Embora o estou acostumado a estava s escuras, ainda se distinguia a silhueta acurrucada contra 
o mrmore claro. " Farejando onde no devia" . E o que teria visto Daniel Rawlings, que tinha desenhado essa flor de lis na margem de seu registro e essa discreta 
anotao, " Aurum" ?
              Ento Hector Cameron ainda vivia e o mausolu no estava hermeticamente fechado. Talvez Hector, ao levantar-se em meio da noite para ver seu tesouro, 
tinha guiado at ali a seu mdico, sem sab-lo. Nem Cameron nem Rawlings poderiam j nos dizer como tinham acontecido as coisas.
              Senti um n na garganta pelo homem que jazia a meus ps, o amigo e colega cujos instrumentos utilizava, cuja sombra, junto a meu cotovelo, brindava-me 
consolo e valor quando tratava de curar a um doente.
              Jamie fechou brandamente o fretro, como se contivera a um ocupante cujos restos tinha perturbado. 
              Yocasta seguia imvel no atalho, com um brao em volto da Freda. Pelos rudos, a anci devia saber onde estvamos, mas ainda continuava de cara ao 
rio, com os olhos fixos  luz da tocha.
              -  E agora, o que fazemos? - perguntei ao Jamie.
              Ele se voltou a olhar a tumba um momento. Logo se encolheu de ombros.
              -  Deixaremos  tenente aos cuidados do Hector, como estava planejado. Quanto ao doutor...
              Encheu-se lentamente os pulmes, contemplando com ar aflito os ossos que jaziam em elegante leque, plidos e imveis: dedos de cirurgio.
              -  Acredito que deveramos lev-lo a casa... Colina - disse- . Para que descanse entre amigos.
              Passou roando s duas mulheres, sem lhes dizer nada nem pedir perdo, e foi procurar  tenente Wolff.
      

      
      105
      
      O sonho de um astuto
      Fecho Fraser
      Maio de 1772
      
      Bree mantinha a postura em que tinha cansado, medeio em cima de Roger; o corao lhe palpitava com fora nos ouvidos.
              -  No est zangada comigo? - sussurrou ele.
              -  No. Nunca te proibi que o lesse.
              Lhe roou os ombros, fazendo que curvasse a ponta dos ps em uma reao de prazer. O que lhe importava? No. Provavelmente teria devido sentir-se exposta 
na intimidade de seus sonhos e seus pensamentos; mas podia confiar-lhe Roger jamais os utilizaria contra ela.
              Alm disso, uma vez expostos no papel, seus sonhos se convertiam em algo independente, como seus desenhos: o reflexo de uma faceta de sua mente, mas 
distinto da mente ou o corao que o tinham criado.
              -  Mas o justo  justo. - Apoiou o queixo no oco de seu ombro; ele cheirava bem, a desejo satisfeito- . Agora deve me contar um de seus sonhos.
              Uma risada vibrou dentro de seu peito; quase muda, mas ela a percebeu.
              -  S um?
              -  Sim, mas deve ser importante. Nada desses sonhos que todos temos; um que tenha tido s voc.
              Arranhou-lhe brandamente o plo escuro encaracolado o peito, para que se arrepiasse. Tinha a outra emano sob o travesseiro; se movia um pouco os dedos 
tocava a silhueta suave da mujercita antiga, como ele chamava. Ento podia imaginar que seu prprio ventre se inchava, redondo e duro. Ainda perdurava o espasmo 
suave na parte inferior do ventre, ltimo efeito do ato amoroso. Aconteceria esta vez?
              Ele moveu a cabea no travesseiro, pensativo. Seus olhos tinham a cor do musgo, suave e vvido sob a luz velada.
              -  Poderia ser romntico - sussurrou- . Poderia dizer que este  meu sonho: voc e eu aqui, solos...ns e nossos filhos.
              -  Poderia - repetiu ela, lhe apertando a frente contra o ombro- . Mas isso no  um sonho de verdade, a no ser uma fantasia. J sabe a que me refiro.
              -  Sim.
              Roger guardou silncio durante um momento, larga e queda a mo apoiada contra sua cintura.
              -  s vezes - murmurou por fim - , s vezes sonho que canto. E acordado com a garganta dolorida.
              -  O que canta? - sussurrou.
              -  Nada que conhea ou que tenha ouvido nunca - respondeu ele, muito fico - . Mas sei que canto para ti.
      

      106
      
      
      O livro do cirurgio, Tomo II
      
      
      
      27 de julho de 1772
      
           tive que deixar minhas tarefas para atender ao Rosamund Lindsay, quem chegou j avanada a tarde com uma grave lacerao na mo esquerda, causada por 
uma tocha enquanto descascava rvores. Ferida extensa, polegar esquerdo quase seccionado; o corte se estendia da base ndice, pelo processo estiloide do rdio, levianamente 
prejudicado. A ferida datava de trs dias atrs; tratada com uma tosca vendagem e graxa de toucinho. Extensa sepsia, com supuracin, pronunciado inchao de mo e 
antebrao. Polegar enegrecido; gangrena evidente; penetrante aroma caracterstico. Linhas vermelhas subcutneas, indicativas de envenenamento do sangue, do stio 
ferido quase at a fossa antecubital.
         A paciente apresentava temperatura alta (40 C aprox.), sintomas de desidratao, desorientao leve, evidente taquicardia.
         Vista a gravidade de seu estado, recomendei imediata amputao do brao  altura do cotovelo. A paciente se negou a isso; insistiu na aplicao de cataplasma 
de pomba, consistente em aplicar  ferida o corpo falho de uma pomba recm sacrificada (o marido da paciente havia trazido uma). Talhado polegar  altura da base 
metacarpiana, ligado restos de artria radial (esmagada na leso original) e superficiais volae. Limpo e drenado a ferida. Aplicado aproximadamente um ona e meia 
de p de penicilina em bruto (origem: casca de casava podre, cultivo n.23, prep.. 15/4/71) em tpico, seguida por uma aplicao de alho cru triturado (trs dentes), 
blsamo do Berberis canadensis... e cataplasma de pomba, aplicada sobre a vendagem, por insistncia do marido. Subministrado fludos por via oral: mescla febrfuga 
de centaura vermelha, sanguinria e lpulo; gua ad lib. Injetado mescla de penicilina lquida (cultivo n.23), via intravenosa, dose um quarto de ona em suspenso 
de gua esterilizada.
         Rpida deteriorao da paciente, com crescentes sintomas de desorientao e delrio, febre alta. Extensa urticria no brao e a parte superior do torso. 
Tentei aliviar a febre com repetidas aplicaes de gua fria, sem resultado. Dada a incoerncia da paciente, solicitei ao marido autorizao para amputar; foi negada 
sobre a base de que a morte parecia iminente e " ela no quereria que a enterrssemos a partes" . 
         Repetido injeo de penicilina. Pouco depois a paciente caiu na inconscincia e expirou justo antes do amanhecer.
      
      
         Voltei a molhar a pluma, mas deixei que as gotas de tinta cassem do extremo
      afiado. Que mais devia dizer?
         O enraizado hbito da minuciosidad cientfica lutava contra a cautela. Era importante descrever o que tinha acontecido, to a fundo como fora possvel. 
Ao mesmo tempo duvidava se devia pr por escrito o que podia ser uma confisso de homicdio involuntrio.
      O certo era que Rosamund Lindsay no parecia ter morrido de septicemia, mas sim de uma reao aguda  penicilina no desencardida; em poucas palavras, por 
obra de meu remdio. Tambm era certo que, se no tivesse recebido ateno, o envenenamento do sangue a teria matado igualmente. Na verdade, no havia modo de saber 
que efeitos teria a penicilina. Mas disso se tratava, verdade? De que algum mais pudesse sab-lo.
         Sim, devia incluir uma descrio dos efeitos. Mas a questo era: para quem levava esse registro?
         Mordi-me o lbio, pensativa. Se era s para minha prpria utilidade, podia me limitar a registrar os sintomas, os tempos e os efeitos, sem apontar explicitamente 
a causa da morte. depois de tudo, era difcil que me esquecessem as circunstncias. Mas se queria que minhas notas fossem de utilidade para alguma outra pessoa... 
algum que no tivesse idia dos benefcios e perigos dos antibiticos...
         Joguei uma olhada ao atade, que descansava sobre seus cavaletes, perto das janelas sulcadas pela chuva.
         Rosamund tinha trabalhado em Boston de prostituta; j muito fornida e entrada em anos para exercer provechosamente o ofcio, viajou para o sul em busca 
de marido. Encontrou o refgio necessrio no Kenneth Lindsay, que procurava uma esposa com quem compartilhar o trabalho da casa. No foi uma unio nascida da atrao 
fsica nem da compatibilidade emocional, mas mantinham uma relao amistosa.
         Jamie se tinha levado ao Kenny, mais desorientado que enfermo, para medic-lo com usque, tratamento algo mais efetivo que o meu. Pelo menos era difcil 
que resultasse letal.
         " Causa imediata da morte" , escrevi. Fiz outra pausa. Tinha morrido congestionada, com os olhos saltados e a cara azul, sem que o flego pudesse passar 
pelas malhas inchadas de sua garganta.
        Senti um n na minha ao record-lo, como se me estivessem estrangulando, e bebi um sorvo de ch de hortel que se esfriava a meu lado. No me consolava pensar 
que a septicemia a tivesse matado com mais lentido.
        Cabia a possibilidade: que a morte se houvesse devido a uma embolia pulmonar. Era uma das complicaes possveis da septicemia e teria explicado os sintomas. 
A idia teria podido me tranqilizar, mas no me parecia muito acreditvel. Guiada por meus conhecimentos como pela conscincia, escrevi " anafilaxis"  antes de 
poder pens-lo duas vezes.
         conhecia-se j o trmino " anafilaxis" ? Nos registros do Rawlings no o tinha encontrado, mas ainda ficavam alguns por ler. De qualquer modo seria melhor 
descrev-la em detalhe, para quem pudesse ler minhas notas.
         E essa era a incgnita, certamente. Quem as leria? O que aconteceria meu registro caa em mos de um desconhecido, que tomasse como confisso de assassinato? 
Era improvvel, mas podia acontecer.
         " Extensa tumefao de membro afetado, estendida  parte superior do torso, a cara e o pescoo. Pele plida, marcada com manchas avermelhadas. Respirao 
acelerada e superficial, pulso muito rpido e superficial, com tendncia a inaudvel. Palpitaes evidentes. Lbios e ouvidos, cianticos. Exoftalmia pronunciada." 
         No queria voltar a olhar o fretro, mas o fiz, para pedir desculpas. Brianna se voltou a me olhar e imediatamente desviou a cara. O aroma da comida preparada 
para o velrio ia enchendo a habitao, misturado ao da lenha e a tinta... e o carvalho fresco do atade.
         O tosco sudrio de musselina resplandecia  luz chuvosa da janela. Belisquei com fora a pluma entre o polegar e o ndice, tratando de esquecer o rudo 
da cartilagem cricoides do Rosamunde, que eu tinha perfurado com um canivete, em um ltimo e intil intento de permitir o passo de ar a seus pulmes forcejeantes.
         Entretanto... no existia um solo mdico que no se enfrentou ao mesmo, no exerccio da profisso. Eu tinha passado por isso vrias vezes, at em hospitais 
modernos, equipados com todo o necessrio para salvar a vida... naquela outra poca.
         Aqui algum mdico futuro se enfrentaria ao mesmo dilema: aplicar um tratamento possivelmente perigoso ou deixar morrer a um paciente que se poderia ter 
salvado. E esse era meu prprio dilema: equilibrar a remota possibilidade de que me condenassem por homicdio com o valor desconhecido que meus registros pudessem 
ter para quem procurasse conhecimento neles.
         Quem poderia ser essa pessoa? Molhei a pluma enquanto pensava. As academias de medicina eram ainda poucas e estavam quase todas na Europa. A maioria dos 
mdicos obtinha seus conhecimentos mediante o trabalho de aprendiz e a experincia.
         Rawlings no tinha estudado em nenhuma academia. Mesmo assim, tinha sido todo um mdico. Ao ler suas notas se percebia o interesse que dedicava a seus pacientes, 
sua curiosidade com respeito aos mistrios do corpo.
         Movida por um impulso, voltei para suas pginas. Talvez no fazia mais que dar tempo a meu subconsciente para que tomasse uma deciso... ou possivelmente 
sentia a necessidade de me comunicar, sequer remotamente, com outro mdico, algum como eu.
         Algum como eu. Olhei fixamente a pgina, com sua escritura pulcra e pequena, suas minuciosas ilustraes, sem ver detalhes. Havia ali algum como eu?
         Bebi meu ch a sorvos, contemplando ao Rosamunde. A simples verdade era que eu no duraria eternamente. Com sorte, ainda ficava muito tempo, mas mesmo assim 
devia encontrar a algum a quem pudesse passar ao menos os rudimentos do que sabia.
         Uma risita afogada da mesa: as garotas conversavam sobre sussurros sobre o queijo de porco, o sauerkraut e as batatas fervidas. No seria Brianna, pensei 
com algum pesar.
         A eleio lgica teria sido ela, que pelo menos sabia o que era a medicina moderna. Com ela no teria que superar a ignorncia e a superstio, nem lhe 
explicar os perigos dos grmenes, as virtudes da assepsia. Mas ela no tinha a inclinao natural, o instinto de curar. Embora ver sangue no a perturbava (tinha-me 
ajudado em incontveis partos e pequenos procedimentos cirrgicos), carecia dessa mescla peculiar de empatia e inexorabilidade que necessita o mdico.
         Talvez era mais filha do Jamie que minha, disse-me ao observar a luz do fogo em seu cabelo. Tinha seu valor, sua grande ternura... mas era o valor de um 
guerreiro e a ternura de uma fortaleza capaz de esmagar a vontade. Eu no tinha conseguido lhe acontecer meu dom: o conhecimento do sangue e o osso, os caminhos 
secretos do corao.
         Em minha concentrao no tinha notado que Brianna estava de p a minhas costas. Apoiou-me as mos nos ombros e se aproximou um pouco mais, me deixando 
sentir o calor de seu contato. Marsali se tinha ido; estvamos sozinhas. Comeou a me massagear os ombros, movendo lentamente os dedos para o pescoo.
         - - Cansada? -Perguntou.
         - - Hum, resistirei -disse.
         Fechei o livro e me inclinei para trs, momentaneamente relaxada no puro alvio de seu contato. S ento me dava conta de ou tensa que estava.
      
      
      - - Acredito que a matei -disse sbitamente, sem ter tido inteno de falar- - . Foi a penicilina o que a matou.
        Os largos dedos no interromperam seu tranqilizador movimento.
         - - De verdade? -murmurou- - . De qualquer modo no havia outra coisa que pudesse fazer, equivoco-me?
         - - No.
         - - No te aflija -murmurou ela, esfregando e massageando- - . De qualquer modo teria morrido, verdade?  triste, mas no fez nada mau. Voc sabe.
         - - Sim, sei. -Para minha surpresa, uma lgrima solitria se deslizou por minha bochecha at cair na pgina, enrugando o papel. Pisquei com fora, em um 
intento de me dominar. No queria afligir a Brianna.
         No se afligiu. Retirou as mos de meus ombros e ouvi o rudo de um tamborete miservel. Logo seus braos me rodearam. Recostei-me contra ela, com a cabea 
apoiada sob o queixo. limitou-se a me abraar, me acalmando com o subir e descer de sua respirao.
         - - Uma vez fui jantar com tio Joe, quando ele acabava de perder a um paciente -disse ao fim- - . Falou-me disso.
         - - Sim? -Surpreendeu-me um pouco; no imaginava que Joe discutisse essas coisas com ela.
         - - No era sua inteno, mas notei que algo o preocupava, e lhe perguntei. Ele precisava falar. E eu estava ali. Depois disse que foi quase como estar 
contigo. Ignorava que te apelidasse Lady Jane.
         - - Sim -confirmei- - , por minha maneira de falar.
         - - Disse que s vezes, quando aconteciam essas coisas, o hospital fazia uma espcie de investigao formal. No era um julgamento, nada disso, a no ser 
uma reunio dos outros mdicos, para saber exatamente que tinha sado mau. Disse que era uma espcie de confisso, diz-lo a outros mdicos que pudessem compreender... 
e que aliviava.
         - - Estraguem. -Ela se movia um pouco, me balanando como ao Jemmy.
         - -  isso o que te inquieta? -perguntou em voz baixa- - . alm do que aconteceu Rosamund, o fato de estar sozinha, sem ningum que possa entender de verdade?
         - - Ao parecer, assim - disse.
         - - J passar -assegurou- - . Tudo passar.
         - - Sim. -E sorri, apesar das lgrimas que me empanavam os olhos.
         No podia lhe ensinar a ser doutora, mas ao parecer, sem sab-lo, tinha-lhe ensinado a ser me.
         - - Deveria ir deitar te -disse- - . Passar ao menos uma hora antes de que cheguem.
         Exalei o flego em um suspiro, enquanto sentia a paz da casa a meu redor. A Colina do Fraser tinha sido, para o Rosamund, um refgio de pouca durao, mas 
mesmo assim era um verdadeiro lar. Tnhamo-lhe dado segurana e a honraramos na morte.
         - - dentro de um minuto -disse, me limpando o nariz- - . Primeiro devo terminar algo.
         Sentei-me com as costas erguida ante meu livro, inundei a pluma e comecei a escrever as linhas que deviam ficar ali, pelo bem do desconhecido mdico que 
me seguisse.
      
 
      107
      
      
      Zugunruhe
      
      
      
      Setembro de 1772
      
      Despertei empapada em suor. Em meu desordenado sonho tinha chutado o edredom e o lenol, mas mesmo assim minha pele palpitava de calor. Baixei as pernas pelo 
flanco da cama e me levantei, enjoada e insegura.
         Jamie ainda dormia. moveu-se um pouco, murmurando algo, mas logo recuperou a respirao regular do sonho. Eu necessitava ar e no queria despert-lo. Apartei 
o mosquiteiro e sa ao corredor para ir ao trastero.
         Era um quarto pequeno, mas tinha uma janela grande a fim de equilibrar a de nosso dormitrio. Ainda estava sem cristais, coberta s pelas persianas de madeira. 
Ansiosa de sua frescura, tirei-me a camisa; a corrente me roou os quadris, os peitos, os braos.
         Fechei os olhos, imvel; um ou dois minutos depois o calor tinha desaparecido, como uma brasa na gua, me deixando molhada, mas em paz.
         Ainda no queria voltar para a cama; tinha o cabelo mido e os lenis ainda estariam pegajosos. Apoiei-me no parapeito, nua, com a pele agradavelmente 
arrepiada pelo frescor. O pacfico sussurro das rvores se interrompeu ante o dbil pranto de um menino. Olhei para a cabana.
         Estava a cem metros da casa; o vento devia vir para mim para ter trazido o pranto. Como cabia esperar, trocou assim que apareci e a voz se perdeu na revoada 
das folhas. Mas ao morrer a brisa os gritos me chegaram mais potentes, no meio do silncio.
         Eram mais fortes porque se estavam aproximando. ouviu-se um rangido de madeira: algum tinha aberto a porta da cabana para sair. No se viam abajures nem 
velas acesas; a breve olhada que pude jogar  pessoa que saa s me mostrou uma silhueta alta, recortada contra o tnue resplendor do lar. Pareceu-me ver uma cabeleira, 
tanto Roger como Brianna dormiam com o cabelo solto e sem boina.
         Os chiados no cessavam. Eram nervosos, mas no atormentados. No havia dor de barriga. Um mau sonho? Aguardei um momento, se por acaso algum trazia para 
o menino at a casa em minha busca; no caso de agarrei minha camisa enrugada. No; a figura alta tinha desaparecido no bosquecillo das pceas; ouvi que o pranto 
se afastava. Isso significava que tampouco havia febre.
         O pranto se mesclou ao murmrio grave de uma voz adulta, que tratava inutilmente de tranqiliz-lo. Roger, pois.
         Outro rudo se mesclou com o pranto, ali abaixo; parecia uma tosse, mas no cessava e tinha certo ritmo. Apareci a cabea, precavida como um caracol depois 
de uma tempestade, e distingui algumas palavras no rouco balbuceio.
         - - Era um hom- bre, e una meu- na, e seu hi- ja Clementine..." >
         Roger estava cantando.
         As lgimas me arderam nos olhos; imediatamente retirei a cabea para que no me visse. Cantava sem melodia, mas mesmo assim era msica, um ofego musical 
banguela e esfarrapado, que aquietou o pranto, como se Jemmy tratasse de reconhecer as palavras, to penosamente emitidas pela garganta de seu pai.
         - - Era ru- Bia, como um h- d... depois de sussurrar cada frase tinha que respirar a ofegos, com um rudo como de tecido esmigalhado. Apertei os punhos. 
Como se por pura fora de vontade pudesse ajud-lo a emitir a voz.
         - - ... E calava o cento e dez. -A brisa ainda agitava as taas das rvores. O verso seguinte se perdeu no murmrio. Durante um minuto ou dois no ouvi 
nada, por muito que agucei o ouvido.
         Logo vi o Jamie, muito quieto.
         - - Encontra-te bem, Sassenach? -perguntou do vo da porta.
         - - Sim, estou bem -respondi em sussurros- - . S necessitava um pouco de ar; no queria despertar.
         - - Sempre acordado contigo, Sassenach<, durmo mal quando no est a meu lado. -Tocou-me a frente um momento- - . Acreditei  que tinha febre; a cama estava 
mida. Est bem, seriamente?
         - - Tinha calor e no podia dormir, mas estou bem, sim. E voc? -Toquei-lhe a cara; tinha a pele esquentada pelo sonho.
         aproximou-se da janela para contemplar a noite comigo. Havia lua enche e os pssaros estavam inquietos; a pouca distncia se ouvia o gorjeio de uma curruca 
tardia; mais  frente, o falar de um mocho caador.
         - - Lembra-te do Lawrence Stern? -perguntou Jamie. Ao parecer, esses sons lhe recordavam ao naturalista.
         - - Dificilmente algum poderia esquec-lo -disse, seca- - . O saco de aranhas secas  impressionante. Por no falar do aroma.
         Stern levava consigo um aroma caracterstico, composto em partes iguais de aromas carnais, a custosa gua de colnia que preferia e um vago fedor a podrido, 
a dos espcimes que colecionava.
         - -  certo. Cheira pior que voc.
         - - Eu no cheiro mau! -exclamei, indignada.
         - - Hum... - - Agarrou-me a mo para aproximar-lhe ao nariz- - . Cebolas e alho. Algo picante... pimenta-malaguetas, talvez. Sim, e prego de aroma. Sangue 
de esquilo e suco de carne. -Tirou a lngua como uma vbora para me tocar os ndulos- - . Amido... de batatas... e algo lenhoso. Cogumelos venenosos.
         - - Isso no  justo -protestei, tratando de recuperar a mo- - . Sabe muito bem o que jantamos. E no eram cogumelos venenosos, a no ser cogumelos.
         Logo me levantou um pouco o brao para tocar o plo sedoso e mido da axila.
         - - Eau de femme- murmurou, com os dedos sob o nariz. A risada era perceptvel em sua voz- - . MA petite fleur.
         - - E isso que me banhei! -disse, melanclica.
         - - Sim, com sabo de girassol. -Havia um tom de surpresa em sua voz ao me farejar a clavcula.
         Soltei um chiado agudo e ele me cobriu a boca com uma manaza quente. Cheirava a plvora, feno e esterco, mas no pude dizer-lhe amordaada como estava.
         Ele se ergueu um pouco e se inclinou mais, at que a aspereza da barba enchente me roou a bochecha. Sua mo caiu, e senti a suavidade de seus lbios contra 
a tmpora, o toque de mariposa de sua lngua na pele.
         - - E sal -murmurou, quente seu flego contra a cara- - . Tem sal na cara e as pestanas molhadas. choraste, Sassenach?
         - - No -disse, embora sentia um sbito e irracional impulso de faz-lo- - . No, suei. Tinha... calor.
         - - Ah, mas aqui... hum...- - Ps-se de joelhos, com um brao em volto de minha cintura para me reter e o nariz afundado em meu seio- - . OH -disse, e sua 
voz trocou outra vez.
         Normalmente eu no usava perfume, mas tinha um azeite especial, fabricado nas ndias com flores-de-laranja, jasmim, baunilha e canela. Como s tinha um 
frasco muito pequeno, usava apenas um toque de vez em quando, em ocasies que pudessem ser especiais.
         - - Desejava-me -disse, melanclico- - . E eu me dormi sem te tocar sequer. Sinto muito, Sassenach. me deveria haver isso dito.
         - - Estava fatigado. -Acariciei-lhe as largas mechas escuras e os sujeitei detrs da orelha. Ele riu; senti o calor de seu flego em meu ventre nu.
         - - Para isso poderia me levantar de entre os mortos, Sassenach, e no me incomodaria.
         levantou-se; face ao escasso da luz, pude comprovar que no se requereriam medidas to desesperadas.
         - - Faz calor -disse- - . Estou suando.
         - - E crie que eu no?
         Suas mos me rodearam a cintura. Sbitamente me levantou para me sentar no largo batente. O contato com a madeira fria me fez ofegar; por um ato reflito-me 
assim do marco a cada lado.
         - - Eau de femme -murmurou ao ajoelhar-se, me roando as coxas com o cabelo. As pranchas do estou acostumado a rangeram sob seu peso- - . Parfum d' amour, 
n?
         Jamie me sujeitava com firmeza pelo quadril; embora no corria perigo de cair, sentia o vazio vertiginoso detrs de mim, a noite clara e interminvel, com 
o cu vazio, semeado de estrelas.
         - - Chist! -murmurou Jamie, muito longe. Agora estava de p, com as mos em minha cintura, e o gemido podia ter sido do vento ou meu.
         Envolvi-o com as pernas e acomodei um talo na fenda de suas ndegas; a slida fora de seus quadris era minha nica ncora.
         - - Solta -me disse ao ouvido- - . Eu te sustentarei.
         Soltei-me, sim, inclinada para trs no ar, a salvo em suas mos.
      
      
      - - Tinha comeado a me dizer algo sobre o Lawrence Stern -murmurei comprido momento depois, dormitada.
         - -  verdade. -Jamie se acomodou, com uma mo posesivamente curvada sobre minha ndega- - . Gostava de muito os pssaros. Perguntei-lhe por que cantam 
de noite a fins do vero.
         - - E sabia por que?
         - - No, mas ao menos tinha uma teoria.
         - - OH!, melhor ainda -murmurei, com sonolenta diverso.
         - - O que fez foi capturar a vrios pssaros e encerr-los em jaulas forradas de mata-borro.
         - - O que? -Isso despertou um pouco, embora s fora para rir- - . por que?
         - - No as forrou por completo; s o fundo -explicou- - . Logo ps ali um pires com tinta e, no centro, uma taa com sementes, de modo que os pssaros no 
pudessem comer sem manch-las patas de tinta. Desse modo, quando saltassem de um lado a outro deixariam rastros no mata-borro.
         - - Hum. E o que demonstrou com isso?
         - - Havia muitssimos rastros, Sassenach, mas quase todas em um s lado da jaula. Em todas as jaulas.
         - - De verdade? E que interpretao deu Stern a isso?
         - - Pois... tinha tido a brilhante ideia de pr uma bssola junto s jaulas. E ao parecer, os pssaros passaram toda a noite saltando e lutando para o sudeste, 
a direo em que migran quando chega o outono.
         - - Que interessante! -Recolhi-me o cabelo em uma rabo-de-cavalo para refrescar o pescoo- - .Mas ainda no  poca de migrar, verdade? E tampouco voam 
de noite, nem sequer quando emigram.
         - - No. Era como se sentissem a iminncia do vo, sua atrao, e isso lhes perturbasse o repouso. O mais estranho  que a maioria de seus cativos eram 
aves jovens, que nunca tinham feita a viagem; no conheciam o lugar para o que se dirigiam, mas sentiam sua presena, possivelmente convocando-os, arrancando-os 
do sonho.
         Movi-me um pouco; Jamie retirou a mo de minha perna.
         - - Zugunruhe -disse com voz fica, roando com a ponta de um dedo a marca mida que me tinha deixado na pele.
         - - O que  isso?
         - - Assim o chamava Stern: a insnia dos pajarillos que se preparam a partir.
         - - Significa algo em especial?
         - - Sim. Ruhe  " quietude" , " descanso" . E zug, uma viagem de qualquer tipo. Por ende, zugunruhe  inquietao, o desassossego que precede a uma viagem 
comprido.
         Aproximei-me dele para golpe-lo afetuosamente no ombro com a frente. Inalei como se saboreasse o delicado aroma de um bom charuto.
         - - Eau d' homme?
         Levantou a cabea para farejar com ar dbio; logo enrugou o nariz.
         - - Eau de chvre, acredito. Temia que fora algo pior. Como diz mofeta em francs?
         - - O Pew -insinuei, rendo.
         Os pssaros cantaram toda a noite.
      

      108
      
      
      Tulach Ard
      
      
      
      Outubro de 1772
      
      
      Jamie sorriu, assinalando com a cabea para trs.
         - - Vejo que hoje temos ajuda.
         Roger, ao voltar-se, viu que Jemmy partia atrs deles, com a frente franzida em grande concentrao e uma pedra do tamanho de um punho apertada contra o 
peito.
         - -  para a pocilga nova, 'ghille ruadh? -perguntou.
         Jemmy assentiu com solenidade.
         - - Obrigado -disse seu pai, com gravidade. Alargou a mo- - . Quer que a leve?
         - - Eu levo!
         - - Fica muito longe, 'ghille ruadh -advertiu Jamie- - . E sua me te sentir falta de, verdade?
         - - No!
         - - Oua, onde est mami? -perguntou Roger, tentando outra ttica- - . Deve estar preocupada com ti, certamente.
         A pequena cabea vermelha se sacudiu em veemente negativa.
         - - Claire disse que as mulheres foram costurar edredons -lhe disse Jamie a seu genro- - . Marsali comprou um modelo; pode que tenham comeado a obra. -E 
se sentou em cuclillas junto ao Roger, cara a cara com seu neto- - . Escapaste-te que sua me?
         A suave boca rosada, at ento muito apertada, contraiu-se em uma risilla.
         - - J me imaginava -reconheceu Roger, resignado- - . Vem, pois. A casa. -E se incorporou para elevar ao menino, com pedra e tudo.
         - - No, no! No!- Jemmy ficou rgido para resistir e cravou dolorosamente os ps no ventre de seu pai, arqueando-se para trs- - . Eu ajudo, eu ajudo!
         Em seus intentos de fazer-se ouvir por cima dos rugidos de seu filho sem gritar, ao tempo que lhe impedia de cair de cabea, Roger demorou para ouvir os 
gritos que chegavam da casa. Por fim recorreu a tampar com a mo a boca aberta do menino.
         - - Ouve? Lizzie te est chamando -disse Jamie a seu neto.
         - - E no s Lizzie. -Outras vozes de mulheres se uniram ao coro, com crescente chateio- - . Mame, a av Claire, a av Bug, tia Marsali. Todas, por isso 
se oua. E no parecem estar muito contentes contigo, moo.
         - - Ser melhor que o levemos de volta -decidiu Jamie, no sem compaixo- - . Acredito que vo dar uma surra, pequeno. s mulheres no gosta que te escape.
         Essa ameaadora perspectiva fez que Jemmy deixasse cair a pedra para aferrar-se ao Roger.
         - - Suponho que poderamos lev-lo -disse a seu sogro- - . S por esta manh. A meio-dia posso trazer o de volta.
         - - OH!, sim. -Jamie sorriu a seu neto e lhe devolveu a pedra queda- - . Construir pocilgas  coisa de homens, verdade? No como esses trabalhos de agulhas 
que tanto gostam s senhoras.
         - - Falando de senhoras... - - Roger apontou o queixo para a casa, onde os gritos do Jemmy!"  foram assumindo um tom claramente irritado e tingido de pnico- 
- . Ter que lhes dizer que est conosco.
         - - Irei eu. -Jamie deixou cair a bolsa que levava a ombro e olhou a seu neto arqueando uma sobrancelha- - . Deve-me uma, moo. Quando as mulheres esto 
dos nervos se descarregam com o primeiro homem que aparece, seja culpado ou no. O mais provvel  que seja meu traseiro o que receba a surra.
         E ps os olhos em branco; logo, com um grande sorriso, partiu para trote para a casa.
         Jemmy ria.
      
      
      Jamie pareceu demorar comprido momento em reaparecer, mas os gritos indignados das mulheres se sossegaram muito em breve. Se seu traseiro tinha recebido uma 
surra, parecia hav-lo desfrutado, conforme pensou Roger, cnico. Nos mas do rosto tinha um leve rubor e trazia um ar decididamente satisfeito.
         Isso teve imediata explicao quando tirou um hatillo de debaixo da camisa. Ao abrir o pano de cozinha ps  vista meia dzia de bolachas, ainda quentes 
e chorreantes de manteiga e mel.
         - - Acredito que a senhora Bug os destinava ao crculo de costura -explicou, enquanto distribua o bota de cano longo- - , mas no acredito que os sinta 
falta de. Havia massa de sobra na terrina.
      
      
      Os postes para a perto estavam amontoados junto ao pilar de pedra. Roger revolveu entre eles at encontrar uma parte estilhaada; logo fez alavanca com ele 
para levantar um grande bloco de granito, at que pde colocar as mos debaixo. Com a pedra montada nas coxas, incorporou-se muito lentamente.
         - - Papai, papai!
         Ao sentir que lhe atiravam das calas, separou bem os ps, a fim de conservar o equilbrio sem deixar cair pesada pedra. Logo afirmou as mos.
         - - O que, filho? -perguntou, olhando com chateio para baixo.
         Jemmy estava obstinado ao objeto com as duas mos e olhava para o bosque.
         - - Ceddo, papai -sussurrou- - . Ceddo gaaande.
         Ao seguir a direo de seu olhar, Roger ficou petrificado.
         Era um enorme javali negro, a quatro passos de distncia.
         - - Mierda -disse Roger, involuntariamente.
         Os pensamentos cruzavam a mente do Roger como trens cargueiros em coliso. Atacaria o porco se eles se moviam? Precisava mover-se; os msculos dos braos 
lhe tremiam pelo esforo.
         De todo este caos resgatou um pensamento coerente.
         - - Jem -disse, com voz muito calma- - , ponha detrs de mim. J -acrescentou com nfase, ao ver que o animal girava a cabea para eles.
         Ento os viu; os ojillos escuros trocaram de enfoque. Deu uns passos para diante; as pezuas pareciam absurdamente pequenas e primorosas baixo essa mole 
ameaadora.
         - - V seu av, Jem? -perguntou, sempre com voz serena.
         - - No -sussurrou o pequeno. Roger sentiu que se apertava ainda mais contra suas pernas.
         - - Pois olhe para trs. baixou ao arroio. Vir de ali.
         - - Av! -A voz do Jemmy ressonou atrs dele, em um chiado de medo.
         Para ouvi-la, o javali arrepiou repentinamente uma crista de cerdas na coluna e baixou a cabea, com os msculos avultados.
         - - Corre, Jem! -gritou Roger- - . V com seu av!
         Uma corrente de adrenalina fez que, de repente, a pedra no pesasse nada. Jogou-a contra o porco que vinha  carga e lhe acertou na paleta. O animal se 
cambaleou, com um bufido se surpresa; logo abriu a boca em um bramido e carregou contra ele, movendo a cabea para cortar com as presas.
         No podia fazer-se a um lado para deix-lo passar: Jem ainda estava muito perto de suas costas. Chutou-o na mandbula com todas suas foras; logo se jogou 
sobre ele, tratando de aferrar-se a seu pescoo.
         Seus dedos escorregaram, sem achar cabo no cabelo spero nem nos duros cilindros de carne bem firme. Ao sentir algo quente e molhado na mo, retirou-a com 
presteza. Haveria-o tajeado? No sentia dor algum. Baixou a outra mo s cegas e, ao encontrar uma pata peluda, atirou com fora.
         O porco caiu de lado com um chiado de surpresa e o tirou de cima. Roger caiu sobre as mos e um joelho, que deu contra uma pedra. Uma descarga de dor lhe 
percorreu do tornozelo a entrepierna; se acurruc involuntariamente, paralisado pelo impacto.
         O javali se levantou. sacudiu-se com um grunhido e um repico de cerdas, de cara para o lado oposto. dentro de um segundo giraria sobre si para abri-lo da 
barriga at a garganta e pisotear os restos. Roger agarrou uma pedra, mas era s um torro seco que lhe desfez na mo. Da esquerda lhe chegou o ofego de um homem 
que ia  carreira e um grito lhe aulem:
         - - Tulach Ard! Tulach Ard!
         O javali, para ouvir o grito do Jamie, girou em redondo para enfrentar-se ao novo inimigo. Jamie trazia sua adaga na mo.
         " Est completamente louco" , pensou Roger, com toda claridade.
         - - No, no cria -disse seu sogro, ofegante.
         Ento caiu na conta de que tinha falado em voz alta. Jamie estava em cuclillas, com o peso equilibrado na ponta dos ps; alargou a mo livre para o jovem, 
sem apartar a vista do porco, que se tinha detido a escavar o cho e balanava o testuz entre ambos, como avaliando as possibilidades.
         - - Bioran!- exclamou Fraser, com um gesto urgente- - . Um pau, uma lana... me d algo!
         Uma lana... O poste estilhaado da perto. Sua perna intumescida ainda se negava a funcionar, mas pde jogar-se em um lado e agarrar a parte de madeira; 
de novo em cuclillas, apontou-o para diante, com o extremo quebrado para o inimigo.
         - - Tulach Ard! -uivou- - . Vem aqui, gordo bode!
         O animal, distrado por um momento, girou para ele. Jamie apontou a adaga entre os omoplatas. Houve um chiado penetrante e o javali girou, emanando sangue 
pelo profundo talho aberto na paleta. Fraser se jogou para um flanco, mas caiu ao tropear com algo. A faca voou de sua mo estendida.
         Roger investiu com a improvisada lana em riste e a cravou com todas suas foras justo debaixo do rabo. O animal, com outro chiado, pareceu elevar-se no 
ar. O pau se agitou entre as mos do jovem, esfolando-lhe com a spera casca. Sujeitou-o com fora, enquanto o porco se estrelava contra ela, em um borro de fria 
contorsionada, cabaadas, rugidos e sangue que voava para todos lados, mesclada ao barro negro.
         Jamie se tinha levantado, sujo e lhe uivem, para agarrar outro poste da perto; descarregou-o contra o porco, que j se levantava, e a madeira golpeou o 
crnio com o estalo de uma bola contra o taco de beisebol. O animal, um pouco aturdido, sentou-se bruscamente.
         Um guincho desde atrs fez que Roger girasse sobre suas pantorrilhas, Jemmy vinha correndo precariamente para o javali, com a adaga de seu av sujeito com 
as duas mos por cima da cabea; sua cara brilhava como uma beterraba, cheia de feroz inteno.
         - - Jem! -gritou ele- - . Atrs!
         O porco grunhiu audiblemente atrs dele. Jamie gritou algo. Mas Roger no podia distrair sua ateno. No momento em que se jogava para o menino, um movimento 
nos bosques, detrs do Jemmy, fez que levantasse a vista. Um raio cinza, pego ao cho; movia-se to depressa que ele s teve uma vaga impresso do que era.
         No fazia falta mais.
         - - Lobos! -gritou ao Jamie.
         Alcanou ao Jemmy, tirou-lhe a faca e o cobriu com seu corpo, apertando-se ao cho. Logo esperou, com estranha calma, enquanto o menino se retorcia freneticamente 
baixo ele.
         - - Quieto, Jem, quieto. Papai est contigo.
         Tinha a frente apertada contra a terra e a cabea do Jem no oco de seu ombro. Com um brao protegia ao menino. Na outra mo aferrava a adaga. J se ouvia 
o lobo, que uivava e gemia para chamar a seus companheiros. O javali colocava uma bulha insuportvel: uma espcie de alarido comprido, contnuo.
         Acima se ouviu um zumbido estranho, seguido por um golpe surdo, peculiar; logo, um silncio repentino e total.
         Roger, sobressaltado, levantou um pouco a cabea. O porco estava de p a poucos passos, com a mandbula pendente, como em total estupefao. Jamie, de p 
atrs dele, talher de barro e sangue, mostrava uma expresso parecida.
         O porco caiu de joelhos, com os olhos frgeis, e se derrubou sobre o flanco; de seu corpo aparecia o cabo de uma flecha, frgil e inofensiva comparada com 
a mole do animal.
         Jemmy chorava e se retorcia baixo ele. incorporou-se lentamente e o estreitou entre os braos. Enquanto acalmava ao Jemmy com automticos tapinhas nas costas, 
girou a cabea para o bosque.
         O ndio estava de p junto s rvores, arco em mo.
         Teve a vaga idia de procurar o lobo. Estava farejando a cabea de gado do porco, a poucos passos do Jamie. Mas seu sogro no lhe emprestava ateno. Ele 
tambm olhava fixamente ao ndio.
         - - Ian -disse pelo baixo- - . OH, Cu Santo!  Ian!
      

      109
      
      
      
      A voz do tempo
      
      
      
      Como Lizzie no tinha me que se ocupasse de seu enxoval, as mulheres da Colina se agruparam para prover a de coisas tais como anguas, camisolas e meias tecidas; 
as damas mais habilidosas costuraram as peas para o edredom.
         Em geral, eu no tinha muito talento nem pacincia para a costura, mas contava com uma cozinha grande, com boa luz e tambm com os servios da senhora Bug, 
que mantinha s costureiras bem providas de ch e po-doces de ma.
         Quando estvamos dedicadas a acolchoar a coberta de um edredom Jamie apareceu sbitamente na porta do corredor. Ao parecer ele no queria interromper nem 
chamar a ateno, pois no entrou na cozinha; mas assim que o olhei me fez um gesto urgente com a cabea e desapareceu para o estudo.
         Joguei uma olhada ao Bree, que estava a meu lado. Ela tambm o tinha visto; encolheu-se de ombros. depois de cravar a agulha no trabalho, levantei-me com 
uma desculpa.
         Jamie esperava no corredor. Assim que apareci me agarrou  de um brao para me levar a porta principal.
         - - O que...? -comecei, intrigada.
         Ento vi o ndio sentado na soleira. levantou-se para voltar-se para mim com um sorriso.
         - - Ian! -E me joguei em seus braos.
         Dava um passo para atrs, e me sequei os olhos para olh-lo melhor. Nesse momento algo frio me hocique a mo, me arrancando outro pequeno grito.
         - - Voc! -disse a Cilindro- - . No esperava voltar a verte!
         Sobressaltada pela emoo, esfreguei-lhe furiosamente as orelhas. Ele deu um breve latido e agachou as patas dianteiras, meneando o rabo com igual fria.
         - - Vira-lata! Vira-lata! Aqui vira-lata! -Jemmy irrompeu desde sua cabana, correndo tanto como o permitia o curto de suas pernas. Cilindro voou para ele 
e o tombou em um alvoroo de chiados.
         O radar maternal da Brianna detectou os chiados e a fez acudir depressa.
         - - O que...?
         Sua vista foi para os vultos que se debatiam na grama, mas Ian se adiantou para abra-la e lhe dar um beijo. Seu grito atraiu ao resto das mulheres ocupadas 
no edredom.
         No meio do pandemnium resultante, notei que Roger tinha aparecido com um arranho na frente, um olho negro e camisa limpa. Joguei uma olhada ao Jamie; 
sua camisa no s estava suja perdida, mas tambm tinha um rasgo no peitilho e um enorme sete na manga. Se tinha em conta o cabelo molhado e a camisa poda daquilo 
Jemmy era extremamente suspeito.
         - - Que diabo tm feito? -interpelei.
         - - No tem importncia, Sassenach. Mas trouxemos um javali fresco para que o esquarteje... quando tiver tempo.
         - -  a verso local do cordeiro cevado para celebrar o retorno do filho prdigo? -perguntei, assinalando com a cabea ao Ian, que j estava completamente 
submerso em uma mar de mulheres. Lizzie, obstinada de seu brao, estava completamente acesa pelo entusiasmo.
         - - Ian veio com amigos? Ou com sua famlia, possivelmente? -Quase dois anos atrs tinha escrito que sua esposa esperava famlia.
         Ante isso o sorriso do Jamie se atenuou um pouco.
         - - No. Est sozinho. Excetuando ao co, certamente -adicionou, assinalando com a cabea a Cilindro.
         - - at quando ficar? H-o dito?
         Jamie respirou a fundo e me ps uma mo nas costas.
         - - para sempre -disse. Sua voz estava cheia de gozo, mas tambm tinha um estranho tintura de tristeza que me intrigou- - . voltou para casa.
      
      
      fez-se muito tarde antes de que terminssemos com o javali, o edredom e o jantar.
         - - Ian te h dito algo? -perguntei ao Jamie, quando nos encontramos momentaneamente solos em seu estudo, antes de jantar.
         - - Muito pouco. S que veio para ficar.
         - -  possvel que a sua esposa tenha acontecido algo horrvel? E ao beb? -Sentia uma profunda pontada de aflio, tanto pelo Ian como pela bonita e mida 
mohawk, chamada Wakyo'teyehsnonhsa, " a que trabalha com as mos" . Ian a chamava Emily. Jamie voltou a negar com a cabea, j srio.
         - - No sei, mas algo assim deve ter acontecido, porque no os mencionou sequer... e os olhos desse moo so muito mais velhos que ele.
         Nesse momento Lizzie apareceu na porta, com uma mensagem urgente da senhora Bug referido aos preparativos para o jantar, e tive que ir.
      
      
      - - Estar cmodo aqui embaixo? -perguntei ao Ian, dbia. Tinha-lhe posto na mesa de cirurgia vrios edredons e um travesseiro de plumas.
         - - OH!, sim, tia. -Sorriu-me de brinca a orelha- - . No imagina em que stios dormimos Cilindro e eu. -E se estirou com um bocejo- - . Cus!, faz mais 
de um ms que no me deito j fechada a noite.        
         - - Suponho que tambm te levantaria com o alvorada. Por isso me pareceu que estaria melhor aqui; se quer dormir at mais tarde, ningum te incomodar.
         Ele se ps-se a rir.
         - - S se sotaque a janela aberta, para que Cilindro possa ir e vir a vontade. Embora parea pensar que se pode caar muito bem aqui dentro.
         O co estava sentado em meio da habitao, com os olhos amarelos e lupinos fixos no armrio. Depois da porta fechada se ouvia um rumor grave, como de gua 
bulindo em uma bule.
         - - Arrumado pelo gato -comentou Jamie, que entrava nesse momento- - . Nosso pequeno Adso tem muito alta opinio de si mesmo. O outro dia lhe vi perseguindo 
uma raposa.
         - - E o fato  de que voc fosse atrs com um rifle no tem nada que ver com o fato de que a raposa fugisse, certamente -assinalei.
         - - Por isso a seu cheetie concerne, no, nada -assegurou ele, muito sorridente.
         - - Cheetie -repetiu Ian, pelo baixo- - . Que bom  poder falar outra vez em escocs.
         Jamie lhe roou um brao com a mo.
         - - Suponho que sim, a mhic a pheathar. esqueceste o galico?
         - - Segui obstinado ao escocs e o galico, tio -disse Ian- - . O latim me custava mais.
         - - No acredito que tenha tido muitas ocasies de praticar o latim -observou Jamie- - . A menos que passasse algum jesuta.
         Ante isso o moo fez um gesto estranho. Olhou a ambos; logo,  porta de consulta.
         - - Pois no foi exatamente assim, tio.
         foi jogar uma olhada ao corredor, para assegurar-se de que no houvesse ningum perto; logo voltou para a mesa. Levava na cintura um saco pequeno, que parecia 
conter todas suas posses materiais. depois de revolver brevemente nele, tirou um livro pequeno, encadernado em pele negra, e o entregou ao Jamie, que o observou 
com ar intrigado.
         - - Quando... quando estava a ponto de abandonar a Cidade da Serpente, a anci Tewaktenyonh me deu este livrinho. No era a primeira vez que o via. Emily 
lhe tinha pedido uma pgina para que eu pudesse lhes fazer saber que estava bem. Receberam aquela nota?
         - - Recebemo-la, sim -lhe assegurei- - . Mais adiante Jamie a enviou a sua me.
         - - Ah, sim? -A expresso do Ian se iluminou ao pensar em sua me- - . Que bem! Suponho que se alegrar de saber que tornei.
         - - No o duvide -lhe assegurou seu tio- - . Mas o que  isto? Parece um brevario.
         - - Isso parece. -Ian se arranhou uma rodela de mosquito no pescoo- - . Mas no  isso. Olha-o, quer?
         Aproximei-me do Jamie para olhar por cima de seu ombro. O livro tinha um bordo de papel quebrado, ali onde se arrancou a folha de guarda. Mas no havia 
ttulo nem letra impressa. Parecia ser uma espcie de livro de viagem; suas pginas estavam cobertas de escritura em tinta negra.
        Ao batente da primeira pgina se destacavam duas palavras, em letras grandes e trementes.
         " Ego sum" , diziam. " Eu sou." 
         - - Voc , pois? -murmurou Jamie- - . Bem. E quem ?
         Meia pgina mais abaixo continuava a escritura, j mais pequena e controlada, embora parecia haver algo estranho nela.
         " Prima cogitatio est..." 
         - - Isto  o primeiro que me vem  cabea -traduziu Jamie.
      
      
         Eu sou; ainda existo. Existia nesse espao intermdio? Forzosamente sim, pois o                                                                         
recordo. Mais adiante tratarei de descrev-lo. Agora me faltam palavras. Sinto-me     chateado.
      
      
         As letras  eram pequenas e arredondadas, cada uma desenhada por separado, obra de um escrivo pulcro e cuidadoso. Mas se cambaleavam como bbadas, inclinadas 
na pgina. A julgar pela escritura se encontrava muito mal, sim.
         Na pgina seguinte se afirmou, junto com os nervos do escritor.
      
      
          Este  o stio, certamente. Mas tambm  o tempo correto, sei.
         As rvores e as matas so diferentes. Antes havia um claro ao oeste, que agora est completamente povoado de louros. Quando entrei no  Crculo tinha  vista 
uma magnlia grande; agora desapareceu;  em seu lugar h um carvalho tenro. O rudo  diferente. Em lugar dos  veculos da estrada,  distncia, s se ouvem os pssaros. 
E o    vento.
                 Ainda estou enjoado. Tenho as pernas dbeis. Ainda no posso me sustentar de p. Despertei sob o muro onde a serpente se remi a cauda, mas a certa 
distncia da cavidade onde riscamos o crculo.
          Devo me haver miservel, pois tenho terra e arranhes nas mos e a roupa. Ao despertar segui tendido durante um momento, muito deso rientado para me levantar. 
J estou melhor. Ainda dbil e doente, mas jubiloso. Funcionou. triunfamos.
      
      - - Havemos?  - - repeti, olhando ao Jamie com as sobrancelhas arqueadas,
       Ele se encolheu de ombros e voltou a pgina.
      
      
       A pedra desapareceu. S fica uma mancha de fuligem em meu bolso. Raymond tinha razo era uma safira pequena e sem polir. Devo apont-lo tudo, pelo bem de 
quem possa vir detrs de mim.
      
      
      Um pequeno calafrio de premonio me correu pelas costas, me arrepiando o cabelo da nuca. " Quem possa vir detrs de mim."  Jamie me jogou um olhar curioso 
e, depois de uma breve vacilao, voltou a vista ao livro.
         Por fim compreendi o que me chamava a ateno dessa escritura; no tinha sido riscada a pluma.
         - - Caneta -disse- - . Escreveu-o com caneta, Meu deus!
         Jamie se voltou a me olhar. Sem dvida estava plida, pois ele fez gesto de fechar o livro. Sacudi a cabea e lhe indiquei por um gesto que continuasse 
lendo. Ele enrugou o sobrecenho, mas imediatamente voltou sua ateno  leitura; ao ver a pgina seguinte arqueou as sobrancelhas.
         - - Olhe -disse com suavidade, girando o livro para mim para assinalar uma linha.
         Estava escrita em latim, como as outras, mas mescladas ao texto havia palavras estranhas, largas e desconhecidas.
         - - Mohawk? -perguntou Jamie a seu sobrinho- - . Esta palavra est na lngua dos ndios, sem dvida. Um dos idiomas algonquinos, verdade?
         - - Chove Muito -disse Ian, em voz baixa- - .  kahnyen' kehaka, a lngua dos mohawk, tio. Chove Muito  o nome de algum. E tambm isto outro: Caminhante 
Forte, Seis Tartarugas e O- que- fala- com- os- espritos.
         - - Eu acreditava que os mohawks no tinham linguagem escrita -comentou Jamie.
         - - Assim , tio Jamie. Mas algum escreveu isto. -Assinalou a pgina com a cabea- - . E se buscas o som das palavras... - - Encolheu-se de ombros- - . 
So nomes de mohawks, estou seguro.
         depois de olh-lo por um comprido instante, Jamie reatou sua traduo.
      
      
         Eu tinha uma das safiras; Chove Muito o outro. O- que- fala- com-   os- espritos, um rubi; Caminhante forte agarrou o diamante e Seis Tartarugas, a esmeralda. 
Quanto ao diagrama, no sabamos com certeza se devia ter quatro pontas, pelos pontos cardeais, ou cinco, em forma   de tentculo. Mas como fomos cinco os que fizemos 
o juramento de sangue, riscamos o crculo com cinco pontas.
      
      
         Entre essa frase e a seguinte havia um pequeno espao em branco; logo a escritura trocava, tornando-se firme e homognea, como se o escrivo tivesse feito 
uma pausa para reatar seu relato mais adiante.
      
      
         fui a olhar. No h rastros do crculo... mas a fim de contas no vejo por que deveria hav-los. Acredito que estive um momento inconsciente; riscamos o 
crculo na boca mesma da greta, mas ali no h marcas que expliquem como me arrastei ou rodei at o stio onde me encontrava ao despertar; entretanto h marcas de 
chuva no p. Minha roupa est mida, mas no sei se for pela chuva, pelo rocio matinal ou pelo suor de ter jazido ao sol; quando despertei era quase meio-dia, pois 
o sol estava no cenit, e fazia calor. Tenho sede. Afastei-me da  Greta a rastros antes de me derrubar? Ou a fora da transio me jogou em certa distncia?
      
         Para ouvir isso tive a muito estranho sensao de que as palavras eram o eco de algo que soava dentro de minha cabea. Nunca antes as tinha ouvido; entretanto 
me soavam horrivelmente conhecidas. Sacudi a cabea para limp-la; ao levantar a vista encontrei os olhos do Ian cravados em mim, carregados de especulaes.
         - - Sim -disse sem rodeios, em resposta a esse olhar- - . Eu tambm. Brianna e Roger tambm.
         Jamie, que tinha feito uma pausa para desenredar uma frase, levantou a vista. Ao ver a cara de seu sobrinho e a minha, agarrou-me uma mo.
         - - Quanto pde ler, moo? -perguntou em voz baixa.
         - - Muito, tio -respondeu Ian, sem apartar os olhos de mim- - . Mas no tudo. -Um breve sorriso lhe tocou os lbios- - . E sem dvida no decifrei bem a 
gramtica..., mas que o entendo. E voc?
         No estava claro se a pergunta estava dirigida a mim ou ao Jamie. Os dois intercambiamos um olhar vacilante. Logo me voltei para o jovem e assenti com a 
cabea. Jamie fez o mesmo, enquanto me estreitava a mo.
         - - Estraguem. -Uma profunda satisfao iluminou a cara do Ian- - . J sabia que no podia ser uma fada, tia Claire!
      
      
      Ian no pde manter-se acordado por muito tempo mais.
         - - me diga o que passou depois -exigi ao Jamie ao chegar a nosso dormitrio.
         Ele j tinha aceso uma vela; enquanto se desabotoava a camisa com uma mo, abriu o livro com a outra e se afundou no leito, ainda absorto na leitura.
         - - No pde achar a nenhum de seus amigos. Passou dois dias buscando-os pela campina prxima, mas no havia rastros. Estava muito aflito, mas ao fim decidiu 
que devia continuar; necessitava comida e no levava consigo mais que uma faca e um pouco de sal. Devia caar ou procurar a outra gente.
         Ian dizia que Tewaktenyonh lhe tinha dado o livro com a recomendao de que me trouxesse isso. Tinha pertencido a um homem chamado Dentes de Lontra, que 
conforme disse ela, era algum de minha famlia.
         Na verdade, eu lhe havia dito a essa mulher que Dentes de lontra podia ser " algum de minha famlia" , ao no poder descrever de outra maneira o peculiar 
parentesco que une aos viajantes do tempo. Nunca tinha conhecido a Dentes de Lontra em carne e osso, mas, se era quem eu acreditava, a ele pertencia a cabea enterrada 
em nosso pequeno cemitrio, com obturaes de prata e tudo.
         Talvez estava a ponto de saber, por fim, quem tinha sido em realidade... e como diabo tinha chegado a to assombroso final.
         O homem tinha passado algum tempo vagando pelo pramo, embora no se tratava exatamente de vagar, pois seguia um rumo determinado, guiando-se pelo sol e 
as estrelas. Isso resultava estranho: O que ia procurando?
         Fora o que fosse, por fim chegou a uma aldeia. No falava o idioma dos habitantes, mas, segundo suas notas, afligiu-lhe profundamente descobrir que as mulheres 
usavam caldeires de ferro para cozinhar.
         - - Isso  o que disse Tewaktenyonh! -interrompi- - . Quando me falava dele, se  que se trata do mesmo homem- acrescentei pr forma- - , disse que se passeava 
chateando ao redor dos caldeires, as facas e os rifles. Afirmava que os ndios deviam... Como o disse ela?... Que deviam " <retornar aos costumes de seus antepasados,porque" 
do contrrio o branco os comeria vivos.
         - - Um tipo muito nervoso -murmurou Jamie, ainda pego ao livro- - . E tambm afeto  retrica.
         No obstante, uma ou duas pginas mais  frente se esclarecia um pouco o porqu dessa estranha obsesso com os caldeires.
         - - " fracassei"  - - leu Jamie- - . " Chego muito tarde."  - - Ergueu as costas e me jogou um olhar antes de continuar.
      
      
         No sei exatamente em que momento estou nem posso averigu-lo; esta  gente no conta os anos por nenhuma das escalas que conheo, at que dominasse bem 
sua lngua e pudesse lhes perguntar. Mas sei que  muito tarde.
                Se tivesse chegado ao tempo que eu queria, antes de 1650, no haveria ferro nesta aldeia, to longe da costa. Que o utilizem aqui como coisa habitual 
significa que me encontro pelo menos cinqenta anos mais tarde, se no mais!
      
         Este descobrimento sumiu a Dentes de Lontra em uma depresso; passou vrios dias absolutamente desesperado. Ao fim reuniu foras; no havia nada que fazer, 
salvo continuar. E partiu sozinho para o norte, com um pouco de comida que lhe deram os da aldeia.
         - - No tenho idia do que pretendia fazer -observou Jamie- - , mas devo reconhecer que tinha valor. Todos seus amigos, mortos ou desaparecidos; ele, desprovido 
de tudo, sem ter idia de onde est... e mesmo assim continua.
         - - Sim... mas se tiver que te ser franco, no acredito que lhe ocorresse outra coisa -disse. E toquei brandamente o livro. Recordava os primeiros dias, 
depois de meu prprio passo atravs das pedras.
         Certamente, a diferena era que esse homem tinha cruzado deliberadamente. Ainda ficava por descobrir por que e como o tinha feito.
         Enquanto viajava sozinho pelo pramo, sem outra companhia que seu pequeno livro, Dentes de Lontra havia resolvido ocupar sua mente com um relato da viagem, 
seus motivos e suas intenes.
         Possivelmente no tenha xito em meu intento... em nosso intento. Em realidade, o
         que parece mais provvel neste momento  que perea aqui, em terri trio deserto. Mas nesse caso me consolar pensar que sotaque algum registro de nossa 
nobre empresa.  o nico monumento aviso que posso oferecer a quem foi meus irmos, meus companheiros de
         aventura.
      
         Jamie fez uma pausa para esfreg-los olhos. A vela estava quase consumida; eu tambm lacrimejava tanto pelos bocejos que logo que via a pgina e estava 
enjoada pela fadiga.
         - - Basta -disse. E apoiei a cabea em seu ombro, reconfortada por sua morna solidez- - . J no posso manter desperta, de verdade. E no me parece bem 
que apressemos seu relato. Alm disso, Bree e Roger tambm deveriam escut-lo.
         - - Tem razo, Sassenach. -E fechou o livro para deposit-lo brandamente na mesa, junto  cama.
         Em geral me sentia a gosto ali, segura no stio que tinha criado para mim nesse mundo, e feliz por estar com o Jamie, quaisquer que fossem as  circunstncias. 
Mas de vez em quando via, com sbita claridade, a magnitude do abismo que tinha cruzado, ou me sentia muito sozinha. E com medo.
         As palavras desse homem, seu pnico e seu desespero, haviam-me devolvido a lembrana de todo o terror e as dvidas de minhas viagens atravs das pedras. 
Me acurruqu contra meu marido dormido, abrigada e protegida. E ouvi as palavras de Dentes de Lontra como se soassem em meu ouvido interno: um grito desolado que 
ressonava atravs das barreiras do tempo e o idioma.
         Ao p daquela pgina, a escritura em latim se tornou mais precipitada; algumas letras eram s bolinhas de tinta; o final das palavras se perdia em uma frentica 
dana de aranhas. E logo, as ltimas linhas, escritas em ingls, como se o latim do escritor se houvesse disolvido no desespero.
      
      
                     OH, Deus, Meu deus...!
                     Onde esto?
      
      S ao dia seguinte pela tarde conseguimos reunir a Brianna, Roger e Ian, e nos retirar em privado ao estudo do Jamie sem despertar uma curiosidade indesejvel. 
A noite anterior, a bruma da fadiga se combinou com a sbita apario do Ian para que quase tudo parecesse razovel. Mas enquanto realizava minhas tarefas  intensa 
luz da manh, resultava-me cada vez mais difcil acreditar que o jornal existisse na verdade, que no fora simplesmente um pouco sonhado.
        No obstante, ali estava: pequeno, negro e slido no escritrio do Jamie. Ele e Ian tinham acontecido a manh no estudo, concentrados em sua traduo. Ao 
me reunir com o Jamie compreendi, por ou revolto de seu cabelo, que o relato lhe tinha resultado lhe apaixone, inquietante... ou ambas as coisas de uma vez.
         - - Hei-lhes dito do que se trata -disse sem prembulos, refirindose ao Roger e ao Bree. Os dois se sentaram em sendos tamboretes, juntos e solenes. Jemmy, 
que se negava a separar-se de sua me, jogava com uma fileira de contas debaixo da mesa.
         - - Tm-no lido tudo? -perguntei, enquanto me deixava cair na segunda cadeira.
         Jamie assentiu. Logo jogou uma olhada ao jovem Ian, que estava de p junto  janela, muito inquieto para sentar-se. Levava o cabelo curto, mas o tinha quase 
to desalinhado como Jamie.
         - - Sim. No vou ler o resto em voz alta, mas me pareceu melhor comear pelo ponto onde se decide a narr-lo tudo do comeo.
         Tinha marcado a pgina com a parte de pele curtida que utilizava como sinalizador. Abriu o jornal nesse stio e comeou a ler:
      
         O nome que me deram ao nascer  Robert Springer. Rechao esse nome e tudo que o acompanha, porque  o amargo fruto de sculos de assassinatos e injustias, 
smbolo de roubo, escravido e opresso...
      
         Jamie comentou, olhando por cima do bordo do livro:
         - - J vem por que no quero l-lo tudo, palavra por palavra; o homem fica tedioso quando toca o tema. -Deslizou um dedo pela pgina- - . " No ano de Nosso 
Senhor... o senhor deles, esse Cristo em cujo nome violam, saqueiam e..."  Bom, h mais do mesmo, mas ao fim resulta ser mil novecentos e sessenta e oito. Suponho 
que esto familiarizados com todos esses assassinatos e saques dos que fala...
         Olhava ao Bree e ao Roger, com as sobrancelhas em alto. Ela se incorporou abruptamente, aferrando o brao de seu marido.
         - - Conheo esse nome -disse, sufocada- - . Robert Springer. Conheo-o!
         - - Conhecia o Springer? -perguntei, com uma sensao estranha.
         - - A ele no, mas vi seu nome nos peridicos. Voc no? -voltou-se para o Roger, mas ele sacudiu a cabea, com o sobrecenho franzido- - . Bom, talvez no 
Reino Unido no se publicou, mas em Boston foi um caso muito divulgado. Acredito que era um dos Cinco do Montauk.
         Jamie se beliscou a ponte do nariz.
         - - Os cinco o que?
         - - Era s algo que alguns faziam para chamar a ateno. -Brianna descartou o assunto com um gesto da mo- - . No tem importncia. Eram ativistas que defendiam 
os direitos dos ndios americanos. Ao menos assim comearam, mas estavam to assobiados que at essas organizaes os mandaram a fritar pastis redondos.
         Ao ver a expresso intrigada de seu pai e sua primo, tentou definir as coisas e fazer uma descrio breve, embora confusa, do triste estado em que se encontravam 
os ndios americanos do sculo xX.
         - - Com que esse Robert Springer ... ou era... um ndio de sua poca, ou algo assim. -Jamie tamborilou os dedos contra a mesa, com um gesto de concentrao- 
- . Bom, isso concorda com seu prprio relato; ao parecer, ele e seus amigos estavam muito zangados pela conduta dos que chamavam " brancos" . Suponho que se referiam 
aos ingleses. Ou aos europeus.
         - - Pois sim, s que por volta de mil novecentos e sessenta e oito j no eram europeus, a no ser americanos, e os ndios eram americanos antes que eles. 
Por isso comearam a denominar-se " americanos nativos"  e ...
         Roger a interrompeu em pleno discurso com uma palmada no joelho.
         - - Deixemos a histria para depois -props- - . O que diziam os peridicos do Robert Springer?
         - - OH!... -J desconcentrada, Bree franziu o sobrecenho para concentrar-se- - . Que desapareceu. Desapareceram os Cinco do Montauk. O governo os buscava 
pela voladura de algo... ou por ameaar fazendo, j no recordo. Os prendeu, mas saram sob fiana. E da noite para o dia desapareceram os cinco.
         - - Evidentemente -murmurou o jovem Ian, jogando uma olhada ao jornal.
         - - Durante uma ou duas semanas os peridicos falaram muito do assunto -continuou ela- - . Os outros grupos de ativistas acusavam ao governo de hav-los 
eliminado, para no sofrer abafados do que sairia a reluzir durante o julgamento. E o governo o negava. De modo que os buscou a fundo. Acredito recordar que encontaron 
o cadver de um... nos bosques de New Hampshire, Vermont ou algo assim. Mas no se pde determinar do que tinha morrido. Quanto aos outros, no havia o menor rastro.
         - - " Onde esto?"  - - citei pelo baixo- - . " Meu deus, onde esto?" 
         Jamie assentiu com sobriedade.
         - - Pois sim, acredito que este Springer pode ser o mesmo. -Tocou a pgina que tinha ante si com um pouco parecido ao respeito- - . Ele e seus quatro companheiros 
renunciaram a qualquer vinculao com o mundo dos brancos e adotaram outros nomes, que se correspondessem com seus orgenes. Ao menos, isso diz.
         - - Seria o decente -comentou Ian, em voz baixa. Nele havia uma quietude distinta, estranha; vi-me obrigada a recordar que durante os dois ltimos anos 
tinha sido mohawk; tinham-lhe lavado o sangue branco e trocado o nome pelo de Irmo do Lobo, convertendo-o em um dos Kahnyen'kehaka, os Guardies da Porta do oeste.
         Pareceu-me que Jamie tambm tinha reparado nessa quietude, mas no apartava os olhos do livro. Enquanto voltava as folhas, uma a uma, ia resumindo seu contedo.
         Robert Springer -Lha'wineonawira, " Dentes de Lontra" , como preferia chamar-se- - , tinha muitas vinculaes no tenebroso mundo da poltica extremista 
e em outro mais sombrio ainda: que denominava " chamanismo americano nativo" . No sei at que ponto se parecia o que ele fazia com as crenas originais dos iroqueses, 
mas Dentes de Lontra acreditava descender dos mohawks e adotou os restos de tradio que pde achar... ou inventar.
         " Foi em uma cerimnia de batismo onde conheci o Raymond." 
         Para ouvir isso me incorporei abruptamente. Ao princpio tambm tinha mencionado esse nome, mas s agora me chamava a ateno.
         - - Descreve a esse tal Raymond? -perguntei, ansiosa.
         - - Fisicamente, no. S diz que era um grande chamn, capaz de transformar-se em pssaros ou animais... e de caminhar atravs do tempo -acrescentou delicadamente, 
me olhando com inteno.
         - - No sei -disse- - . Pareceu-me... Uma vez... Mas agora no sei.
         - - O que? -Brianna olhava a ambos, intrigada. Arrumei-me o cabelo.
         - - No importa. Em Paris conheci algum que se chamava Raymond. Pareceu-me... Mas o que poderia estar fazendo esse tipo na Amrica do Norte, em mil novecentos 
e sessenta e oito? -estalei.
         - - Pois voc tambm estava ali, verdade? -assinalou Jamie- - . Deixemos isso a um lado, no momento.
         E continuou traduzindo o texto, com uma linguagem extraamente artificioso.
         Como Raymond o intrigava, Dentes de Lontra se entrevistou vrias vezes com ele, levando consigo a seus amigos mais ntimos. Pouco a pouco conceberam " um 
plano grandioso, audaz, de concepo deslumbrante" .
         Houve uma prova. Muitos fracassaram, mas eu no. Fomos cinco os que a passamos, os que ouvimos a voz do tempo; cinco, os que juramos com sangue atacar esta 
grande empresa, resgatar a nosso povo da catstrofe. Reescribir sua histria e corrigir as injustias, de modo que...
      
         Roger lanou um lamento:
         - - OH!, Por Deus, o que se propunham? Assassinas ao Cristvo Colombo?
         - - Nem tanto -assinalei- - . Queria chegar antes de mil e seiscentos, conforme diz. Sabe algin o que aconteceu ento?
         - - No sei o que aconteceu ento -respondeu Jamie, esfregando-a cabea com uma mo- - , mas sei muito bem o que se propunha. Seu plano era apresentar-se 
 Liga do Iroqueses e obter que se elevassem contra os habitantes brancos. Considerava que os colonos ainda eram poucos e que os ndios poderiam elimin-los com 
facilidade, se os iroqueses ficavam  cabea.
         - - Possivelmente estava no certo -observou Ian, com voz fica- - . ouvi os relatos dos ancies. Contam que, quando chegaram os primeiros Ou'seronni, deram-lhes 
a bem-vinda, pois traziam coisas para comercializar. Cem anos depois os Ou'seronni ainda eram poucos... e os Kahnyen'kehaka, os amos, lderes das naes. Poderiam 
hav-lo feito, em efeito, se tivessem querido.
         - - Mas no teriam podido deter os europeus -objetou Brianna- - . Eram muitos. Ou pretendiam que os mohawks invadissem a Europa?
         Um largo sorriso cruzou a cara de seu pai.
         - - Me teria gostado de ver isso -disse- - . Esses mohwks teriam dado mais de uma dor de cabea aos Sassenachs. Mas no, por desgraa. -Jogou-me um olhar 
sardnico- - . Nosso amigo Robert Springer no era to ambicioso.
         No obstante, o que planejavam Dentes de Lontra e seus companheiros era bastante ambicioso, sim, e talvez... s talvez... factvel. Sua inteno no era 
impedir por completo o assentamento dos brancos, a no ser pr aos ndios em guarda contra os brancos, estabelecer o comrcio em seus prprios trminos e negociar 
de uma posio de poder.
         - - Em vez de permitir que se assentassem em grande nmero, poderiam manter aos brancos encurralados em populaes pequenas. No deixar que construram 
fortificaes. Exigir armas do comeo. Impor suas prprias condies para comercializar. mant-los em inferioridade numrica e de armas... e obrigar aos europeus 
a lhes ensinar a trabalhar o metal.
         - - Prometheus redux -disse.
         Jamie soprou de risada. Roger moveu a cabea, um pouco admirado.
         - -  um plano de loucos -disse- - , mas ter que admitir que tinham coragem. Talvez teria resultado... se tivessem podido convencer aos iroqueses... e 
se tivessem atuado no momento adequado, antes de que o poder passasse  mos dos europeus. Mas tudo saiu mau, no? Primeiro chega em poca equivocada, muito tarde; 
logo cai na conta de que nenhum de seus amigos passou com ele.
         - - Sim. Conforme diz, ao ver que tudo tinha sado mal esteve perto do desespero. Pensou em retornar, mas j no tinha sua pedra preciosa. E esse tal Raymond 
havia dito que se precisava ter uma a modo de amparo -disse Jamie.
         - - Mas ao final a conseguiu -apontei.
         Levante-me para pinar na ltima prateleira, at encontrar a grande opala em bruto; seu fogo interior mexericava atravs da espiral esculpida na superfcie.
         - - Quer dizer... suponho que no podem ter existido muitos ndios que se chamassem Dentes de Lontra e estivessem na aldeia da Serpente. Tewaktenyohn, uma 
anci mohawk, chefa do Conselho das Mes, deu-me esta pedra na aldeia, quando fomos resgatar ao Roger de seu cautividad. Tambm me contou a histria de Dentes de 
Lontra e de sua morte.
         A gema tambm parecia quente; esfreguei cautelosamente a espiral. " A serpente que se remi a cauda" , havia dito ele.
         - - Sim, mas ele no a menciona. -Jamie, arrellanado na cadeira, passou-se as duas mos pelo cabelo solto- - . O relato termina quando ele decide que no 
h remdio; qualquer que fora o ano e embora estivesse sozinho, levaria a cabo seu plano.
         - - No pode ter acreditado que resultaria -objetou Roger.
         - - No. O que diz aqui, ao final,  que em seu povo tinham morrido milhares lutando por sua liberdade e que outros milhares morreriam em anos vindouros. 
Ele percorreria o mesmo atalho pela honra de seu sangue; um guerreiro mohawk no podia pedir outra coisa que morrer no combate.
         Ouvi que Ian suspirava  detrs de mim; Brianna inclinou a cabea e a cabeleira lhe ocultou a cara. Roger estava voltado para ela, grave o perfil. Mas eu 
no via nenhum deles. Via um homem com a cara grafite de negro em sinal de morte; caminhava de noite atravs de um bosque lhe jorrem, com uma tocha que ardia em 
fogo frio.
         Um puxo a minha saia arrancou da imagem. Jemmy estava a meu lado.
         - - Que ezo?
         - - O que...? Ah,  uma pedra, tesouro. Uma pedra bonita, v?
         Mostrei-lhe a opala e ele o colheu com as duas mos, deixando cair sentado para observ-lo.
         - - O que eu gostaria de saber -disse Roger, assinalando o jornal-  por que diabos escreveu isso em latim.
         - - Mas se o diz. Tinha estudado latim na escola. Possivelmente por isso se voltou contra os europeus. -Jamie sorriu a jovem Ian, que fez uma careta- - 
. E lhe ocorreu escrev-lo em latim se por acaso algum o encontrava; desse modo no lhe emprestaria ateno, pensando que era s um livro de oraes.
         - -  o que pensaram os Kahnyen'kehaka -interveio Ian- - . Mas a velha Tewaktenyonh o conservou. E quando eu... parti, deu-me isso para que lhe trouxesse 
isso, tia Claire.
         - - Saberia ela o que continha o livro? -perguntei.
         - - Ignoro-o -disse Ian- - . Sabia algo, sim, mas no sei o que. No me disse isso, to somente que te trouxesse o livro. -Nos Miro sucessivamente: a Brianna, 
ao Roger, a mim- - .  certo? -perguntou- - . O que h dito, prima... o que acontecer com os ndios.
         - - Temo que sim -murmurou ela- - . Sinto muito, Ian.
         Embora no tivesse renunciado na verdade a sua verdadeira gente, os Kahnyen'kehaka tambm eram dos seus. Apesar daquilo que o tinha obrigado a partir, fora 
o que fosse.
         ia abrir a boca para lhe perguntar o que tinha passado com sua esposa, mas ouvi o Jemmy. retirou-se sob a mesa com sua bota de cano longo e lhe falava em 
tom coloquial, embora ininteligvel. Mas de repente sua voz trocou a um tom de alarme.
         - - Queima -disse- - . Mami, queima!
         Brianna j se levantou de seu tamborete, com expresso preocupada, quando comeou o rudo. Foi um som agudo, penetrante, como o que despede uma taa de 
cristal quando se esfrega o bordo com um dedo molhado. Roger se incorporou, sobressaltado.
         Brianna se agachou para tirar o menino de debaixo da mesa. No momento em que se incorporava, com ele em braos, ouviu-se um sbito " pau!" , como um disparo, 
e o rudo cessou abruptamente.
         - - Santo Deus! -exclamou Jamie.
         Era pouco dizer, nessas circunstncias. Das prateleiras, os livros, as paredes, da saia da Brianna, apareciam lascas de fogo reluzente. Na mesa refulgia 
um granulado de pontos brilhantes: uma chuva daquelas agulhas tinha atravessado a grosa madeira. Ian lanou uma exclamao e se inclinou para arrancar um fragmento 
da pantorrilha. Jemmy se ps-se a chorar. A opala tinha estalado.
         - - No percebeu nada estranho nessa pedra quando a deu ao menino, Sassenach?
         - - No. -Ainda estava impressionada pela exploso- - . Hei-a sentido quente... mas tudo est quente nesta habitao. E no fazia nenhum rudo.
         - - Rudo? -Olhou-me com estranheza- - . O rudo que tem feito ao estalar, diz?
         - - No, antes. No o ouviste?
         Ele sacudiu a cabea. Olhei aos outros, Bree e Roger assentiram; os dois estavam plidos e decompostos. Ian, em troca, moveu a cabea; parecia muito interessado, 
mas tinha cara de no entender.
         - - No ouvi nada -disse- - . Como soava?
         Brianna abriu a boca para responder, mas Jamie levantou uma mo.
         - - Um momento, a nighean. Jem, a ruradh, ouviste algum rudo antes da exploso?
         Jemmy olhou a seu av com grandes olhos azuis e assentiu com lentido.
         - - E a pedra que te deu a av, estava quente?
         Jemmy me cravou um olhar de intensa acusao e voltou a assentir.
         Tnhamos arrancado a maioria das lascas cravadas na madeira; formavam um pequeno monto de fogo quebrado no escritrio. Algum me tinha levantado uma pequena 
parte de pele no ndulo; levei-me isso a boca; tinha sabor de prata.
         - - meu deus, cortam como cristal quebrado.
         - -  que so cristal quebrado. -Brianna estreitou ao menino um pouco mais.
         - - Cristal? Crie que no era uma opala de verdade? -Roger arqueou as sobrancelhas e se inclinou para diante, para recolher uma daquelas agulhas.
         - - claro que sim... mas as opalas so cristais. Cristal vulcnico duro. -A cara do Bree comeava a recuperar a cor- - . Eu sabia que se podiam romper com 
um golpe de martelo ou algo assim, mas nunca soube de nenhum que fizesse isto..
         Assinalou com a cabea o monto de fragmentos. Jamie recolheu um dos grandes, entre o polegar e o ndice, e me ofereceu isso.
         - - Sostenlo na mo, Sassenach. Sente-o quente?
         - - Sim -disse, inclinando cuidadosamente a palma de um lado a outro- - . No muito; mais ou menos  temperatura da pele.
         - - Eu o sinto frio -disse Jamie- - . Dselo ao Ian.
      Entreguei a parte de opala ao Ian, que o acariciou com um dedo precavido, como se fora algum animalillo que pudesse morder se lhe chateava.
         - - Est frio -informou- - . Como qualquer parte de cristal, tal como disse a prima Brianna.
         Depois de provar alguma vez mais, ficou estabelecido que a gema estava quente, embora no muito, para a Brianna, Roger e eu, mas no para o Jamie ou Ian. 
Ento j se fundiu a parte superior da grande vela de relgio, com o qual Jamie pde extrair as pedras escondidas nela. depois de lhes tirar com o leno o ltimo 
resto de cera quente, p-las a esfriar alinhadas no bordo do escritrio.
        Jemmy observava tudo com grande interesse; parecia ter esquecido sua desventura.
         - - Voc gosta, an ghille ruaidh? -perguntou-lhe Jamie.
         O menino assentiu imediatamente e se estirou para elas do regao de sua me.
         - - Queima -recordou logo, e retirou um pouco a mo- - . Queima?
         - - Pois espero que no -disse seu av. E agarrou a esmeralda, uma pedra grosseiramente polida, to grande como a unha de seu polegar- - . Toma isto, a 
bailach.
         Jemmy fez o que seu av lhe dizia: agarrou a pedra, ainda desconfiado, mas sua cautela se desvaneceu em um sorriso ao observ-la.
         - - Bonita!
         - - Queima? -perguntou Brianna, lista para tirar-lhe 
         - - Sim, queima -confirmou ele, muito satisfeito, apoiando-a contra o ventre.
         - - me deixe ver. -Com alguma dificuldade, Brianna conseguiu pr os dedos na gema, embora Jemmy no estava disposto a entreg-la- - . Est quente -informou- 
- . Como a opala, mas no queima, no. Se te queimar a tiras imediatamente, entendeste? -ordenou ao menino.
         Roger observava todo aquilo com ar fascinado.
         - - Ele tambm a tem, verdade? -disse-me brandamente- - . Cinqenta e cinqenta, disse, ou trs possibilidades de quatro... mas a tem.
         - - O que? -Jamie olhou primeiro ao Roger e logo a mim.
         - - Acredito que pode... viajar. -Me oprimia o peito ao pens-lo- - . Recorda o que disse Dentes de Lontra. -Joguei uma olhada ao jornal, esquecido no escritrio- 
- . Disse que tinham devido acontecer uma prova para verificar se podiam " ouvir a voz do tempo" . Sabemos que no todos podem... faz-lo. Mas alguns podem. Por 
isso disse Dentes de Lontra, havia uma maneira de averiguar quem podia e quem no antes de fazer o intento.
         - - Crie que " a voz do tempo"  seja...? Jem, ouve algo na pedra? -Roger se inclinou para diante e agarrou ao menino do brao, para obrig-lo a apartar 
sua ateno da esmeralda- - . Canta-te, Jem?
         O pequeno levantou a vista, surpreso.
         - - No -disse, inseguro. Logo- - : Sim. -levou-se a pedra  orelha, carrancudo. Logo a entregou ao Roger- - . Lhe cante, papai!
         - - No sei canes de rocha -disse com sua voz rouca- - . S de rock. -E aproximou a esmeralda a seu ouvido, um pouco sobressaltado. depois de escutar 
atentamente, com uma ruga entre as sobrancelhas, baixou a mo- - . No... no posso. No poderia dizer que ouo nada, mas... provem vocs. -Passou- a pedra a Brianna 
e ela, a sua vez, a mim. Nenhuma de ns ouvia nada em especial; entretanto me parecia perceber algo, se emprestava muita ateno. No era exatamente um som; antes, 
uma vibrao muito leve.
         - - O que acontece? -perguntou Ian, que seguia os procedimentos com grande interesse- - . Vs trs no so sdheanach, mas por que podem... fazer o que 
fazem, enquanto que tio Jamie e eu no podemos? Voc tampouco pode, verdade, tio Jamie? -perguntou, vacilante.
         - - Graas a Deus, no -replicou seu tio.
         - -  gentico, no? -perguntou Brianna- - . Deve s-lo.
         Jamie e Ian pareceram desconfiar desse trmino desconhecido.
         - - por que no, se o for todo o resto? O tipo sangneo, a cor dos olhos...
         - - Mas todo mundo tem olhos e sangue, Sassenach -objetou Jamie- - . Sejam da cor que sejam, todos podemos ver. Isto... - - Assinalou a pequena coleo 
de pedras.
         Suspirei com impacincia.
         - - Sim, mas h outras coisas que so genticas. Tudo, se o pensar bem. Olhe.
         Voltei-me para ele e lhe tirei a lngua. Jamie piscou; Brianna lanou uma risada ante sua expresso. Sem lhes emprestar ateno, coloquei a lngua e voltei 
a tir-la, esta vez com os borde curvados para cima, formando um cilindro.
         - - O que me diz disto? -perguntei- - . Pode faz-lo?
         Jamie parecia divertido.
         - -  obvio. -Tirou a lngua enrolada e a agitou a maneira de demonstrao- - . Todo mundo pode, ou no? Ian?
         - - OH!, sim,  obvio. -Ian fez a mesma demonstrao- - . Todo mundo pode.
         - - Eu no -esclareceu Brianna.
         Jamie pareceu desconcertado.
         - - Como que no pode?
         - - Blah! -Ela tirou a lngua plaina e a revolveu de lado a lado- - . No posso.
         - - Tem que poder. -Jamie franziu o sobrecenho- - . Mas se for singelo, moa. Qualquer pode faz-lo! -Tirou outra vez a lngua para enrol-la e desenrol-la, 
como um paternal urso formigueiro que incitasse a sua vergntea com uma apetitosa massa de insetos. Logo olhou ao Roger com as sobrancelhas subidas.
         - - Isso pensaria qualquer, verdade? -disse o jovem, melanclico. E tirou sua vez a lngua. Plaina- - . Blah!
         Jamie os observou por um momento. Logo se voltou para mim.
         - - Suponhamos por um momento que tenha razo. por que a moa no pode faz-lo, se voc e eu podemos? Assegura-me que  minha filha, no?
         - -  tua filha, com toda segurana. Como lhe dir isso qualquer que tenha olhos na cara.
         - - Aceito sua palavra, Sassenach, posto que  uma mulher honorvel. Mas como explica o da lngua?
         - - Bom, voc sabe de onde vm os bebs -comecei- - . O do ovo e a...
         - - Sei -disse ele, cortante. As orelhas lhe tinham avermelhado um pouco.
         - - Quer dizer: requer-se algo da me e algo do pai. s vezes a influncia do pai  mais visvel que a da me; s vezes acontece ao reverso. Mas ambas... 
n... influncias esto ali. Chamamo-los gens: as coisas que o beb recebe de seus dois pais, que afetam a seu aspecto e sua capacidade.
         - - Bem, e...?
         - - Pois bem, os gens afetam algo mais que  cor do cabelo ou dos olhos. Agora bem... cada pessoa tem dois gens por cada caracterstica: um do pai, um da 
me. E quando se formam as... n... gametas nos ovrios e os testculo...
         - - Possivelmente seja melhor deixar isso para depois, Sassenach -interrompeu Jamie, olhando de soslaio a Brianna.
         - - No se preocupe, papai, j sei de onde vem os bebs -lhe assegurou ela, sonriendo.
         - - Pois bem. -Voltei a agarrar as rdeas da conversao- - . Tem um par de gens por cada caracterstica: um gen por sua me e outro por seu pai. Mas quando 
chega o momento de transmiti-los a seus prprios filhos, s pode acontecer um dos dois. Porque o menino receber outro gen de sua me, compreendem?
         Olhei ao Jamie e ao Roger com uma sobrancelha interrogativa. Eles assentiram de uma vez, como hipnotizados.
         - - Bem. Dizemos que alguns gens so dominantes e outros, recessivos. Se uma pessoa tiver um gen dominante, ser esse o que resulte visvel. Pode passar 
aos descendentes.
         - - No estudou isto na escola, Roger? -perguntou Bree, divertida.
         - - Pois sim -murmurou ele- - , mas acredito que esse dia no emprestei muita ateno. depois de tudo, no esperava que o assunto chegasse a me importar.
         - - Que bem! -disse, cortante- - . Contino. Voc e eu, Jamie, temos um dos gens dominantes que nos permitem enrolar a lngua. Mas tambm devemos ter cada 
um um gen recessivo que no permite faz-lo. E pelo visto, cada um de ns transmitiu o gen recessivo ao Bree. portanto, ela no pode enrolar a lngua. Tambm Roger 
deve ter duas cpias desse gen recessivo, posto que se tivesse sequer um dos gens dominantes, poderia faz-lo. E no pode. -Fiz uma reverncia.
         - - Qu'ez lhes- ticulos? -inquiriu uma vocecilla. Jemmy tinha abandonado suas pedras e me olhava com profundo interesse.
         - - N... - - Olhei aos outros em busca de ajuda.
         - - Seus ovos, filho -explicou Roger, dissimulando um sorriso.
         - - Eu tenho ovos? Onde tenho ovos?
         - - N... - - Roger jogou uma olhada ao Jamie, que ficou contemplando o teto.
         - - Bom,  que voc leva saias escocesa, tio Jamie -assinalou Ian, sorridente.
         Roger se inclinou para abranger com mo suave a virilha do menino.
         - - Aqui, a bhalaich.
         - - Isso no e'ovos. Isso e'piln!
         Jamie se levantou com um profundo suspiro, convocou ao Roger com a cabea e agarrou ao menino da mo.
         - - Vale. Vamos fora, para que lhe ensinemos.
         Roger abriu a porta e se fez a um lado para dar passo a neto e av. Levado por um impulso, Jamie se voltou para o menino e tirou a lngua em forma de cilindro.
         - - Pode fazer isso, a ruadh?
         Brianna ficou petrificada e Roger tambm. Jamie compreendeu, um segundo muito tarde, e ficou plido. Roger olhou ao Bree. Algo pareceu cruzar entre ambos. 
Imediatamente ele agarrou a outra mo do menino.
         - - Oua, a bhalaich, pode fazer isso?
         - - Ezo o que?
         - - Olhe ao av.
         Jamie respirou a fundo e tirou rapidamente a lngua enrolada.
         - - Pode fazer isso? -repetiu Roger.
         - - Pois sim. -Jemmy, muito sorridente, tirou a lngua. Plaina- - . Blah!
         Pela habitao circulou um suspiro coletivo. Jemmy levantou os ps para pendurar-se das mos do Roger e Jamie. Logo recordou sua pergunta original.
         - - Av tem ovos? -perguntou.
         - - Tenho, sim -foi a seca resposta- - . Mas os de seu papai so maiores.
      
      

      110
      
      
      Tempo de guerreiros
      
      
      Desfiz entre as mos folhas secas de salvia e deixei cair as escamas verdigrises entre as brasas. O sol descendia no cu, mas o pequeno cemitrio j estava 
em sombras, de modo que o fogo refulgia.
         Os cinco tnhamos rodeado em crculo a parte de granito com o que jamie marcasse a sepultura do desconhecido. " Como fomos cinco, riscamos o crculo com 
cinco pontas."  De comum acordo, a cerimnia no era s em honra a ele, mas tambm de seus quatro ignotos companheiros... e do Daniel Rawlings, que jazia a pouca 
distncia, sob o fresno, em sua tumba nova e definitiva.
         A fumaa se elevou do pequeno braseiro de ferro, plido e fragrante. Eu havia trazido tambm outras ervas, mas sabia que a salvia era sagrada para os tuscarora, 
os cherokees e os mohawk, pois sua fumaa desencardia.
         Esfreguei entre as mos agulhas de zimbro; logo, arruda, a que chamavam " erva de graa" , e romeiro, que ao fim e ao cabo servia para a lembrana.
         Jamie levantou a cabea, de um fogo to intenso como o que ardia junto a seus ps, e se voltou para o oeste, aonde voam as almas dos mortos. Falou quedamente 
em galico, que j todos entendamos.
      
                     Retorna esta noite a seu lar de inverno
                    a seu lar de outono, da primavera e do vero;
                    retorna esta noite a seu lar perptuo,
                    a seu leito eterno, a seu eterno descanso.
      
                    O sonho das sete luzes seja teu, OH, irmo!,
                    o sonho dos sete gozos seja teu, OH, irmo!
                    o sonho dos sete descansos seja teu, OH, irmo!,
                    do brao do Jesus, o Cristo de Graa.
      
                    A sombra da morte jaz sobre sua cara, bienamado,
                    mas o Jesus de Graa te rodeia com Sua mo;
                    perto da Trindade, dava adeus a suas dores:
                    Cristo se eleva ante ti e a paz est em Sua mente.
      
      
      Ian se aproximou dele. A luz evanescente lhe tocou a cara, iluminando intensamente suas cicatrizes. Recitou-o primeiro em lngua mohawk; logo em ingls, para 
outros.
      
      
                    Que a caa seja efetiva,
                    que seus inimigos caiam ante seus olhos,
                    que seu corao habite sempre contente no albergue de seus irmos.
      
         - - Terei que repeti-lo muitas vezes -acrescentou, inclinando a cabea para pedir perdo- - . Com os tambores, entendem? Mas acredito que agora bastar 
com uma s vez.
         - - Est bem, Ian -lhe assegurou Jamie. E olhou ao Roger.
         Ele tossiu e pigarreou antes de falar. O sotaque rouco de sua voz era to transparente e penetrante como a fumaa.
      
      
                    Senhor, me faa conhecer meu final
                    e a medida de meus dias,
                    para que compreenda quo frgil sou.
                    Hei aqui que tem feito meus dias de um palmo,
                    e minha idade  nada junto  Tua.
                    Escuta minha prece, OH, Senhor!, e disposta ouvido a meu pranto;
                    no negue Sua paz a minhas lgrimas;
                    pois sou estrangeiro ante Ti,
                    um viajante, como meus pais o foram.
      
      
         Logo guardamos silncio, enquanto a escurido nos rodeava silenciosamente. Ao apag-la ltima luz, quando a folhagem perdeu seu brilho por cima de ns, 
Brianna recolheu a jarra de gua e a verteu sobre as brasas. Fumaa e vapor se elevaram em uma nuvem espectral; o aroma da lembrana se perdeu entre as rvores.
      
      
      
      Descemos para a casa pelo estreito atalho, j quase s escuras. Brianna ia diante, nos guiando; os homens, detrs de mim.
         - - Pensaste-o, a cliamhuinn? -perguntou Jamie, a minhas costas. Falava em tom amistoso, mas a formalidade do apelativo deixava claro que a pergunta era 
sria.
         - - O que? -A voz do Roger soou serena, quase inaudvel sua rouquido.
         - - No que faro, voc e sua famlia. J sabem que o pequeno pode viajar... e o que significaria ficar.
         O que significaria para todos eles, pensei intranqila. Guerra, combate, incerteza. O nico certo era o perigo. Perigo de enfermidade ou acidente para a 
Brianna e Jem. Perigo de morte no parto se ela voltava a ficar grvida. E para o Roger, perigo em corpo e alma. Sua cabea se curou, mas quando pensava no Randall 
Lillywhite eu via a imobilidade no fundo de seus olhos.
         - - OH! Sim -respondeu ele, invisvel detrs de mim- - . Pensei-o... e o sigo pensando... m'athair- ceile.
         Sorri um pouco para ouvir que chamava " sogro"  < Jamie, mas o tom de sua voz era totalmente srio.
         - - Quer que te diga o que penso? E voc me dir o que pensa?
         - - Faz-o, sim. Ainda h tempo para pensar.
         - - O os ltimos dias estive recordando ao Hermon Husband.
         - - Ao qualquer? -Jamie parecia surpreso. Depois da batalha do Alamance, Husband tinha abandonado a colnia com sua famlia. Eu acreditava ter ouvido que 
estavam em Maryland.
         - - Ele, sim. O que teria passado se ele no tivesse sido qualquer? teria se posto  cabea dos reguladores para a guerra?
         Jamie grunhiu, pensativo.
         - - No sei -disse, embora parecia interessado- - . Crie que com um bom lder teriam podido triunfar?
         - - Sim. Ou possivelmente no;  verdade que no tinham armas, mas poderiam haver-se defendido melhor. E nesse caso.
         J tnhamos a casa  vista. Havia luz nas janelas de atrs; estavam alimentando o fogo e acendendo as velas para o jantar.
         - - O que vai acontecer aqui... Acredito que se a Regulao tivesse tido um bom lder, possivelmente no comearia no Massachussets, dentro de trs anos, 
a no ser aqui.
         - - Sim? E nesse caso, o que?
         - - Quem sabe? Sei o que est acontecendo na Inglaterra nestes momentos: no esto preparados, no tm nem idia do que arriscam aqui. Se estalar sbitamente 
uma guerra, se tivesse estalado no Alamance, poderia estender-se com celeridade. Poderia acabar antes de que os ingleses suspeitassem sequer o que acontecia. ficariam 
economizar anos de guerra, milhares de vidas.
         - - Ou no -apontou Jamie, cortante.
         - - Ou no -coincidiu Roger- - . Mas o fato  que h tempo para os homens de paz... e tambm um tempo para os guerreiros...
         Brianna tinha chegado  casa, mas se deteve nos esperar. Ela tambm tinha escutado a conversao. Roger se deteve ante ela e levantou a vista.
         - - Voc me convocou -disse ao fim- - . Na congregao, ante a fogueira.
         - - Seja vi mo lmh, Roger an t'oranaiche, MAC Jeremiah MAC Choinnich -disse Jamie, pelo baixo- - . Convoquei-te, sim. " Vem meu lado, Roger, o cantor, 
filho do Jeremiah." 
         - - Seja vi mo lmh, a mhic mo thaighe -disse o jovem- - . " Vem meu lado, filho de minha casa."  Disse-o de verdade?
         - - Sabe que sim.
         - - Nesse caso, eu tambm o digo de verdade. -Alargou a mo para pos-la no ombro do Jamie. -Estarei a seu lado. Ficaremos.
         Brianna, junto a mim, deixou escapar o flego que continha, em um suspiro como o do vento crepuscular.
      
      

      111
      
      
      E mesmo assim saem a seu encontro
      
      
      
      A grande vela relgio se consumou um pouco, mas ficavam muitos desses anis negros que marcavam as horas. Jamie deixou cair novamente as pedras no atoleiro 
de cera fundida que rodeava a vela: um, dois, trs... e soprou. A quarta pedra, o topzio grande, estava guardado em uma pequena caixa de madeira, envolta em tecido 
engordurado. Enviaramo-la ao Edimburgo, dirigida  primo poltico da senhora Bug, quem podia vend-la, merc a suas vinculaes com banqueiros; logo, uma vez deduzida 
uma comisso adequada por sua ajuda, ocuparia-se de transferir os recursos ao Ned Gowan.
         A carta includa dentro da caixa encomendava ao Ned averiguar se Laoghaire MacKenzie convivia com um homem em estado equivalente ao matrimnio e, nesse 
caso, insistia-o a declarar completo o contrato entre dita Laoghaire MacKenzie e James Fraser, efetuado o qual os recursos provenientes da venda dessa pedra seriam 
depositados em um banco, como dote da chamada Joan MacKenzie Fraser, filha da mencionada Laoghaire, para o caso de que a moa contrara matrimnio.
         - - Est seguro de no querer pedir ao Ned que te diga quem  o homem? -perguntei.
         - - Se ele me decide dizer isso bem. Se no me disser isso, bem igualmente.
         Ao outro lado do corredor, Brianna conversava com a senhora Bug e, ao mesmo tempo, arreganhava ao Jemmy. Interrompeu-a a voz do Roger e o chiado entusiasta 
do pequeno, quando seu pai o elevou em braos.
         - - Parece-te que Roger escolheu bem? -perguntei em voz baixa.
         A deciso do jovem me alegrava muito... e tambm ao Jamie, sem dvida. No obstante, face  peculiar perspectiva que Brianna, Roger e eu tnhamos dos sucessos 
vindouros, sabia que meu marido tinha uma idia melhor do que se morava. E se o passo atravs das pedras tinha seus perigos, o mesmo podia dizer-se da guerra.
         Ele fez uma pausa para pensar; logo alargou um brao para agarrar um pequeno volume da estantera. Estava encadernado com tecido troca e bastante estragado; 
era uma edio do Tucdides que tinha adquirido, com a louca esperana de que Germain e Jemmy aprendessem grego ao ponto de poder l-lo.
         Abriu o livro com suavidade, para evitar que as pginas se desprendessem.
      
      
         Os mais bravos som, sem dvida, aqueles que tm a viso mais clara de
        o que se mora, de glria e perigo por igual, e mesmo assim saem a seu em- 
        cuentro.
      
      
         Tinha as palavras ante si, mas me pareceu que no as lia do papel, a no ser nas pginas de sua memria, no livro de seu corao.
         A porta se fechou com violncia. Ouvi que Roger gritava fora, elevando a voz quebrada em advertncia para chamar o Jemmy. Logo, sua risada grave e mdio 
sufocada, enquanto Bree lhe dizia algo; sua voz foi um som mais ligeiro, muito longnquo para entend-lo. Depois, afastaram-se.
         - - Os mais bravos so aqueles que tm a viso mais clara. Pois bem, voc sabe, verdade? -observei brandamente.
         - - Ah!, no -disse- - . Eu no. S h bravura se pode escolher, verdade?
         - - E voc crie no ter opes?
         Fez uma pausa. Logo fechou o livro e o reteve entre as mos.
         - - No -disse ao fim, em tom estranho- - . Agora no.
         Girou na cadeira para olhar pela janela. S se via a grande pcea vermelha a um lado do claro e a sombra densa do robledal, detrs dela, onde se enredavam 
as saras escapadas do ptio. O stio enegrecido onde se elevou a cruz ardente j estava densamente talher de cevada silvestre.
         O ar se moveu; ento ca na conta de que o silncio no era tal, depois de tudo. Rodeavam-nos os sons da montanha: reclamaes de pssaros, sussurro de 
gua ao longe... e tambm vozes que falavam no ir e vir murmurando as rondas cotidianas: uma palavra junto  pocilga, uma chamada da letrina. Por debaixo e por cima 
de todo isso, o rudo dos meninos, gritos e risadas gastos pelo ar inquieto.
         - Suponho que tem razo -disse, ao cabo de um momento.
         Era certo: j no havia opes; me sab-lo brindou uma espcie de paz. O que tinha que sobrevir, sobreviria. E ns o enfrentaramos do melhor modo possvel, 
com a esperana de sobreviver; isso era tudo. Se no obtnhamos isso, talvez eles sim. Recolhi entre as mos seu acrscimo e aferrei a ela como  corda de uma ncora.
         - Mas e as outras opes? -perguntei, enquanto contemplvamos o ptio deserto e as sombras do bosque, mais  frente- - . Todas as decises que tomou e que 
lhe trouxeram at aqui? Essas foram reais... e muito valentes, a meu modo de ver.
         Sob a ponta de meu dedo indicador senti a fina linha de sua antiga cicatriz, sepultada sob as ondas avermelhadas. Ele se recostou contra minha mo e girou 
para me olhar.
         - OH!, bom -disse, com um leve sorriso. Tocou-me a mo e encerrou meus dedos entre os seus- . Voc sabe disso, verdade, Sassenach?
         Sentei a seu lado, muito perto, sua mo sobre a minha. Assim passamos um momento, contemplando as nuvens de chuva que rondavam por cima do rio, como uma 
ameaa de guerra longnqua. E pensei que, qualquer que fosse nossa deciso, talvez tudo levasse ao mesmo.
         A mo do Jamie se esticou um pouco sobre a minha. Olhei-o, mas ele continuava observando algo mais  frente do ptio, alm das montanhas e das nuvens longnquas. 
Estreitou-me os dedos um pouco mais, at que o anel me cravou na carne.
         - Quando chegar o dia em que devamos nos separar -disse em voz baixa, me olhando- - , se meus ultimar palavras no so " te amo" , ter que ser porque no 
tive tempo. 
      
      
      
      
      
      FIM
      
      
      
      
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